O rolo compressor
O rolo compressor da inspiração amassava seus dedos enquanto o cursor luminoso
percorria a tela toda a procura do ícone que precisava. E, quando imaginou ser
aquele instante o momento certo, com o dedo indicador da mão direita,
pressionou o lado esquerdo do mouse abrindo assim o intrigante e inusitado
Word. A tela antes azul com fundo vermelho e branco, com os ícones das
empresas, foi substituída pelo branco total, tendo acima, as barras de
ferramentas. Levando o cursor ao item justificado, configurou o papel
eletrônico com a fonte e tamanho desejado. Depois ficou em silêncio ouvindo o
palrar do ambiente de vozes estridentes machucando o ar opressivo e abafado do
escritório. Então, inquietos os dedos passearam sobre as teclas pretas onde
sobressaiam as letras brancas e, num descompromisso com o que pudesse vir a
ser, as letras uma a uma foram manchando a tela branca. Intrigado, sem controle
algum, viu que as letras formavam palavras desconexas e estranhas.
Sorriu. Quando não sabia o que escrever,
sorria. Portanto, sorriu mais uma vez pela bobeira que estava escrevendo. Mas
não apagou, deixou a frase.
Abismado, não sabia o que lhe acontecia, viu no
espelho ao seu lado, a figura de si mesmo, mas ao contrário do que ele queria
ser. Descontrolado teve vontade de chorar e rir ao mesmo tempo. Contorceu a
melancolia que o invadia, alma conduzida pela música românica brega que saia do
alto falante numa voz forte, masculina falando a música ao invés de cantar.
Podia ver as ondas de frequência modulada, realçada no mostrador, 101, 7 mega
hertz. Seu rosto de traços finos, bonitos olhos, linhas anatômicas escorriam
para o chão desfigurando-o quase totalmente. Assim, uma atrás da outra, as
expressões diferentes de raiva, ódio, culpa, magoa tomavam formas
extravagantes. Consciente, perguntou: o que é estar em plena e sã consciência
afinal? É sentir ao mesmo tempo o que lhe ocorria e ter os sentimentos sendo
alterado sem prévio acontecimento? Por isso é que chorava e ria ao mesmo tempo
quase que descontroladamente.
Não houve tempo dos amigos se desviarem do líquido asqueroso manchando de verde gosmento a camisa branca engravatada.
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