domingo, 31 de março de 2024

Deus existe?


Do topo da escada rolante da estação Sé vi a plataforma abarrotada. Alguns desistentes subiam a escada no contra fluxo atrapalhando quem descia. Apesar da perna doendo, me enfurnei no meio da caterva com a paciência de esperar o metrô fosse o tempo que fosse. Estava adiantado mesmo, portanto era só agüentar a dor e ter paciência. O que não precisei esperar muito. No segundo trem consegui entrar. Tinha uns adolescentes, bando de estudantes na porta. Fiquei em pé, isto é, nem cheguei a ficar em pé, pois no banco cinza tinha dois rapazes que, assim que me viram, cederam o lugar para mim e para um senhor. Nem bem tinha sentado o senhor se levantou para dar lugar a uma moça com uma criança no colo. Logo reparei que a criança tinha algum problema, pois seus pés estavam calçados com um tipo de bota, o que mais tarde pude verificar que eram mais protetores do que propriamente bota. Realmente a criança era deficiente. Tinha mais ou menos um ano ou um ano e meio, mas o que chamava mais a atenção era sua cabeça desproporcional ao corpo. Já vi fotos, filmes e relatos, mas nunca assim, perto, cara a cara. O corpo era um corpo normal, mas a cabeça era menor, o dente para frente e, por causa disso, estava sempre com a boca aberta e babando, os olhos esbugalhados saltados pareciam querer saltar do rosto. Todos olhavam para a mãe e para a criança, não consegui olhar muito tempo... Pois me pus a questionar a existência divina. Se Deus realmente existe, porque deixaria acontecer uma coisa dessas? A uma criança que tem uma vida pela frente. O que ela fez para merecer esse castigo, se castigo for, pois se coloco em dúvida a existência de Deus devo colocar também, em duvida o pecado. O que aquela mãe, deve ter um pai também, fez para merecer que o seu filho nascesse desse jeito? Tudo bem, o que você faz aqui, aqui você paga, não é o que diz as escrituras e, não diz que Deus é bom, caridoso, e etc. e tal? Então, porque ser tão maldoso a ponto de fazer nascer uma criança deficiente. Deus para mim é uma criação do homem para dominar os fracos, e, Jesus Cristo foi o primeiro a difundir o amor - não vou dizer amor entre os homens, pois teria a pecha homossexualismo - o amor entre os humanos. Acredito mais em alguma falha humana, a mãe na gestação deve ter sido displicente, o gene dela com o do pai não batia, ou mesmo um erro médico, desses médicos que são médicos apenas por questão financeira. E será que o médico não poderia, durante a gestação, que a criança estava se formando deficientemente fazer alguma coisa que o salvasse? Sei lá. Pois eu digo sempre e sempre direi: há sessenta anos sou feliz e rico. 

sábado, 30 de março de 2024

Diário imbecil 11.09.2997

 

Desinteressante é o que achavam e, para que esse desinteressante fosse invisível, precisava tomar uns quatro ou cinco aperitivos, o que lhe custava certos inconvenientes. Dizia para si mesmo:

- Inconvenientes que não me afetara em nada. O negócio é ser o que se é no durante no antes e no depois.

Riu da merda que dissera ainda bem que dissera mentalmente, ninguém ouviu, somente ele e seu eu interior que também não ajudava em nada. Atravessou a rua. Do outro lado da calçada sentiu-se mais confiante. Começou a esticar os passos batendo com firmeza na calçada o calcanhar do tênis. Seguiu reto até o meio da rua. Depois ficou indeciso. Não sabia se virava à direita ou à esquerda ou ainda, se continuava em frente. Pensou. A direita seguiria a merda do fluxo para o começo da avenida, e a esquerda seguiria a merda do fluxo para o fim da avenida, e, em frente, não seguiria fluxo porra nenhuma, apenas atravessaria a avenida e poderia entrar no bar e tomar mais umas e outras. Pensou... Melhor mesmo, atravessou a rua, entrou na droga do bar e pediu mais uma. Sentou no banquinho. Girou o corpo e passou a apreciar a merda do movimento das pessoas que perdidas corriam contra o tempo para serem encontradas.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Diário imbecil 12.09.07

 

Muitos dizem: Vamos que vamos; “É isso aí”; Vamos em frente que atrás vem gente; Quem cedo madruga Deus ajuda; De grão em grão a galinha enche o papo, e outros salamaleques de ditados que não me diz nada, apenas pretende afirmar axioma idiota e inútil. 

Dou um pontapé na bunda da angústia como da depressão, não deixo que nenhum sentimento negativo me leve a recorrer de ditados inúteis que só enferruja a engrenagem do saber. 

Não tenho manto protetor contra pulsações negativas que me bombardeiam a todo o momento, não tenho, também como outro qualquer tenho meus dias de angústia e depressão, claro que os tenho, sou humano, não sou maquina engraçado sem perceber escrevi machine feito de chips, bits, byts, parafusos e metais, apesar de que já me colocaram uma porca e um parafuso no joelho direito.
E neste diário imbecil, deixo registrados dois textos que tive a audácia em escrever. Alinhais, não sei se devo dizer contos, creio que sejam. Um foi à erótica e pornográfica Dama do Metrô e, o outro, como classificou um leitor: uma leitura enjoativa e desinteressante” – não estou te criticando leitor, apenas evidenciando a repercussão do texto A Cadeira de Espaldar Alto.
Afirmo que nesses dois contos, vamos assim chamar, tive prazer em escrevê-los, pois surgiam na minha mente espontaneamente, não era algo calculado, estudado, não fiz projeto nenhum para escrevê-los. Foi surgindo livres e soltos toda vez que ligava o micro, por isso que disse: sou um escritor espontâneo, foi o que eu disse, foi: sou um escritor repentista, e não sou? 
Não sei como os competentes escritores conseguem escrever, talvez criem um projeto dando perfeição a cada personagem, para depois jogar na história por ele criada. Não sei.

Bem, o leitor perspicaz deve ter notado que esse escritor medíocre por falta de assunto ou, vamos dar um ponto positivo para ele dizendo: por falta de inspiração é que nasceu esse diário imbecil. 

quinta-feira, 28 de março de 2024

Diário imbecil 12.09.2007

  

Bom bamos dizer ou vamos dizer? Não interessa como, o importante é dizer, certo? Mas vamos dizer dentro da ortografia, certo? Portanto para que seja um diário imbecil tenho de escrever imbecilidade ou sobre imbecilidade, certo? E olhe que de imbecilidade estou rodeado a ponto de me julgar um imbecil também. Primeiramente todo bom escritor antenado com problemas, dele ou envolvendo ele ou do seu país, não será difícil escrever, certo? Para começo de conversar não sou um bom escritor, sou um imbecil escritor ou escritor imbecil, o que vem dar no mesmo, certo? E outra coisa, não sou antenado com merda nenhuma, pouco dou atenção ao que ocorre a minha volta, principalmente o que dizem; não ligo televisão para ver os noticiários, não leio jornais e nem revistas, cansei de tanta imbecilidade. Agora o que é preciso é ter tato para escrever, certo? Não posso falar sobre imbecis, senão minha lista de inimigos aumentara, então tenho que falar sobre imbecilidades sem envolver os furibundos imbecis, não é mesmo?

Por exemplo, o futebol! Não é de uma imbecilidade enorme? Um bando de marmanjos correndo atrás de um pedaço de couro na forma esférica enquanto um marmanjo de preto - era de preto porque agora cada um se veste como quer da maneira mais espalhafatosa possível, só não se parecem com palhaço porque não pintam a cara e nem tem aquela bola vermelha no nariz - não deixa que peguem a bola com a mão, sem contar os macacos que ficam nos poleiros de concreto gritando os maiores palavrões. Não é de uma imbecilidade? 

Ta certo sei o que me dirão: “Ora futebol é esporte!”, sei, não deixa de ser, mas pergunto: “É esporte quebrar a perna? É esporte morrer no campo de batalha? É esporte manipular resultado? É esporte os macacos brigarem entre si no poleiro? É esporte ir já com a intenção de fomentar a guerra entre as facções? É esporte lavagem de dinheiro?” Bom se responderem que é esporte, eu digo que o estádio  é parecido com as arenas no antigo império romano, sem tirar e nem por.

Conheci um cara que pintou o quarto com as cores do time. Não perdia um jogo, fosse a onde fosse, faltava ao trabalho, mas não faltava aos jogos. Preparava-se para a batalha, fazia dos clipes sua arma. Arremessava com a ajuda do elástico nos outros. É esporte isso? Ele era um competente imbecil. Trabalhávamos junto. Vivia comendo a gelatina que era usada para copiar as folhas do diário naqueles livros grandes. Chupava Sonrizal puro, sem água, colocava na boca e mandava goela a baixo. Vivia estudando japonês por estudar, por gostar.

Não me lembro dos anos de 1958 e 1962, era criança lá na minha terra natal Rio Claro, mas em 1970, morando já aqui em São Paulo, assisti aos jogos, lia os comentários, ouvia os bate bocas pela televisão, mas 1970 foi o ano supremo do futebol, ainda se jogava se suava defendendo a camisa gloriosa, a canarinho. E hoje? Você acha que os jogadores suam a camisa, defendem a canarinho? Ou será que jogam por dinheiro? Jogam pelos milhões que ganham dos patrocinadores, dos clubes, dos prêmios, e a camisa onde fica? No fundo da gaveta esquecida. O dinheiro como sempre, matou a arte futebolística, a arte de se gostar de uma bola, de fazer uma jogada excelente, visando apenas o gol.

Hoje um moleque sai da várzea ganhando os tubos em dinheiro e o que acontece com ele? Se não tem uma mente firme, decidida, o coitado se perde com tanto dinheiro. Em minha opinião deveriam era ter um salário como todo empregado tem. Futebol não é um emprego? Então, se estipula um salário, que seja dez mil reais, se o time perder desconta um x do salário, e nada de prêmio ou bonificação e nada de patrocinador. Quero ver se esses malandros não jogariam! Claro que jogariam, até mais talvez.

Outra coisa, se o time vai mal, perde não ganha títulos, os macacos dos poleiros de concretos não deviam ir aos estádios. Já pensou o estádio vazio de torcedores, não haveria renda, não haveria distribuição de propinas, e como ficaria? A meu ver o time se esforçaria, pois para o jogador, além do dinheiro, é preciso de platéia, de alguém que aplaude tanto as boas jogadas como as más.

Bom era isso o que tinha a dizer nesse diário imbecil, até o próximo, ah! Um bom fim de quarta-feira, certo?

quarta-feira, 27 de março de 2024

Diário imbecil 14.09.07

  

Bom, mais uma sexta-feira que para muitos parece ser a redenção da semana árdua de trabalho, para outros é apenas mais uma sexta anunciando um sábado e domingo para descanso ou para se entreter nos afazeres de burguês satisfazendo esposa e filhos e, por que não, a si próprio; e também, para outros mais arrojados, principalmente os jovens, uma noitada de sexo, cerveja e baladas até o amanhecer. Em que faixa você se encontra? Acho que essa pergunta não vem ao acaso, pois o que importa é você fazer o que lhe satisfaz o que lhe dá prazer sem que fique com a consciência pesada de que fez algo que não deveria fazer. Você estando bem com você mesmo, se aceitando com todos os erres defeituosos, não tem o porquê de se mortificar com pensamentos negativos. O importante é ter algo para se fazer na sexta, no sábado e no domingo. O pior é aquele que não tem sentido de vida e sai a caçar sua presa nos cantos escuros da noite e acaba num lugar sem saber como foi parar lá, bêbado e se mortificando por tal procedimento. Portanto cada um viva como quer e como acha que deve viver, o principal é que viva satisfeito com si próprio, aquele que consegue chegar a esse... Como posso dizer: nirvana, máxima ou sei lá o que, estará a um passo da felicidade.
Sei que como escritor, coisa que ainda não me acostumei, deveria estar falando dos imbecis que pesteiam a beleza arquitetônica projetada por Oscar Niemeyer e aquele outro arquiteto que infelizmente não consigo guardar o seu nome. Mas como esse é um diário imbecil não vou perder meu tempo falando da imbecilidade que todos nós conhecemos. É um bando de merdas empestando os corredores do Brasil numa vergonha só. Pena que não se faz mais heróis como antigamente. Melhor dizendo: não se faz mais homens carismáticos, daqueles de levar a população ao extremo de suas conseqüências e assim conseguir mudar alguma coisa. Não existe mais. Onde estão meus heróis carismáticos para fazer uma revolução. Por isso eu digo: o que se precisa fazer é conscientizar o povão, o povão mesmo, aquele povão que vive na ignorância, e colocar em sua cabeça o que é correto. Queria um herói carismático que fizesse com que ninguém saísse de casa, que ninguém mesmo, nem mesmo os empresários, ricos, pobres, mas ninguém mesmo saísse para trabalhar, nem mesmo médicos, enfermeiros, que deixassem um dia só os doentes morrendo, assim diminuiriam a população. Ah! Estão achando absurdo o que estou falando, ou melhor, dizendo, uma imbecilidade! Mas a vida é uma imbecilidade e esse é um diário imbecil, portanto nada mais que certo dizer imbecilidade.

Queria um líder carismático que fizesse com que o povo não comparecesse as urnas nas próximas eleições. Onde está esse líder carismático? O único que talvez pudesse fazer alguma coisa está onde não devia cagando na beleza arquitetônica de Brasília.

terça-feira, 26 de março de 2024

Diário imbecil 17.09.07

  

Bom, vamos vai uma vez despertar a imbecilidade entrouxada nas miríades de pulsões dessa manhã que, só não é brava, porque não está chovendo. A cinzenta claridade corrompe a sensação de liberdade onde as imbecis cortinas fechadas provocam claustrofobia amarga e obriga os passos a serem contidos e aos poucos envenenados pela maldita sobrevivência.

Essa merda já disse várias vezes, de várias maneiras diferentes, com outro ângulo, outra linha de pensamento, mas tudo igual, apenas mudando uma palavra aqui, outra li e nada além de um escrever atrás do outro, para comprovar a merda do que escrevo.

Por mais que os órgãos fiquem atentos, com a sensibilidade aprimorada a ponto de captar até o invisível – que muitos procuram não ver – a crise de falta de inspiração surge, atrofia o pensamento que se esforça em lembrar palavras, frases, até sentenças inteiras, mesmo sabendo que o perdido não está totalmente perdido, apenas é preciso acionar a palavra “procura” no catálogo mental e trazê-la de volta, seja o que for. O que nem sempre funciona, pois truncado pelo mecanismo constante, esse processo falha sempre no momento que mais se deseja. A continuidade dos gestos mata os próprios gestos tornando-os cansativos, indiferentes a beleza do podre, fornecendo-lhes apenas a beleza corriqueira de quem não sabe viver com múltipla escolha.
A cidade não desperta amanhece febricitante de sons ininterruptos cujos mortos vivos caçam as iguarias deixadas nos lixos da vida diurna. Ela oferece sua música que para alguns, é sempre a mesma, mas para outros existe pequena diferença moldando o sentir que eles carregam desde o nascimento; outros ainda, mais detalhistas, descobrem e sabem os diferentes tons, as melodias que rolam nos escondidos cimentos e ferros e argamassa individual, as variações impingidas no preto asfalto marcado por pneus enfurecidos retratando paranóias nem sempre curáveis; há ainda, a música da fome cortando peles descarnadas pelo vicio maligno em viver.

E nesse vicio poucos conseguem alcançar o que o futuro promete. Poucos se sobressaem, talvez mediocremente ou se anulando aos gostos consumistas do sucesso barato e nada fácil. Do sucesso que alça e ao mesmo tempo derruba sem pestanejar e sem dó. Quem quiser que procure seu psicanalista. Já tenho o meu nesse escrever mambembe.

segunda-feira, 25 de março de 2024

Diário imbecil 18.09.07

 

Mais uma manhã sem a luz iridescente do sol para esquentar a cacunda dos símios aloprados na iminência de serem tragados por suas necessidades fúteis e descartáveis. A manhã transcorrera imperturbável seguindo o ciclo da natureza que pouco se importa com os imbecis símios e suas sofríveis preocupações a não ser, com a transformação que ela, a natureza, vem sofrendo por causa dos ignorantes e gananciosos. Ora é um tufão, ora é um vulcão, um terremoto, tsunami e outras demonstrações de que a natureza se encontra cansada e que precisa de mais respeito. Mas fazer o que se a imbecilidade humana só pensa em si própria.

Talvez chamar os humanos de símios seja um tanto pesado ou até um pouco pejorativo. Não acha? Não para os humanos, mas para os próprios símios, coitados que não tem nada com as barbaridades humanas! Peço desculpas aos símios, eles não merecem tal comparação.

Pois o ser humano e a sua humana sociedade podre, em ritmo de falência, não merecem nenhum epíteto a não ser, o desprezo total e animalesco levando ao extermínio o mais rápido possível. Desprezo à humanidade, não merece nenhuma atenção da minha parte. Talvez o ser humano possa ser salvo, mas como humanidade não merece a salvação.

É difícil desassociar o ser humano da humanidade. Pois se eu sou um indivíduo, pertenço à humanidade, mas se eu cometer uma atrocidade, não posso dizer que foi a humanidade quem cometeu a atrocidade, entende? Não, acho que não. Se nem eu entendi. Deixemos esse quesito para os filósofos que gostam de discorrer sobre um mesmo tema sem chegar a nenhuma definição.
Creio que não seja preciso enumerar as imbecilidades, é só ligar a televisão, ou o rádio, ou abrir o jornal para ver ou ler as atrocidades dos imbecis de gravata e suas dançarinas; os imbecis que dá prisão comandam e desmandam na cidade; os imbecis que matam por matar sejam por questão social, amorosa ou sexualidade; os imbecis que jogam futuros cidadãos no lixo ou na lagoa; os imbecis que com suas máquinas fazem uma extensão do corpo vivendo alucinadamente como se fossem os infalíveis; os imbecis que não respeitam nada e ainda riem ao ver o edifício desabar; os imbecis riquinhos que mata doméstica pensando que fosse prostituta, como se prostituta não merecesse a condição de gente; os imbecis que queimam índio e continuam em liberdade; o imbecil promotor que mata e continua na ativa recebendo seu vultoso salário; os imbecis fanáticos com suas ricas igrejas enriquecendo cada vez mais; os imbecis fanáticos futebolísticos tapados que se digladiam até a morte; os imbecis camelôs que só emporcalham a cidade e ainda são protegidos pelos imbecis e corruptos fiscais; há, não posso esquecer os imbecis acomodados que não fazem nada, apenas reclamam e não lutam por seus direitos; mas o maior dos imbecis é o povo, não o povão que vive de promessas e vota em que melhor lhe dá esperança, mas o povo ilustrado, os que têm certa erudição e nada fazem, esses são os piores imbecis dessa nação de imbecis.
É uma vergonha viver entre imbecis tapados e se julgar um imbecil também. Quer dizer, não me julgo um imbecil, eu sou um imbecil, pois faço parte dessa humanidade, sou um ser humano, um indivíduo como outro qualquer e não me excluo de tudo o que disse aqui. Faço parte dessa imbecilidade.

domingo, 24 de março de 2024

Diário imbecil 20.09.07

 

Bem, vamos a mais uma edição do diário imbecil.

E o que poderei dessa vez escrever? Ou talvez seja o fato de perguntar aos leitores o que gostariam de ler ou, sobre o que deveria escrever?

Há tanta coisa entre a terra e o mar que nenhum tsunami pode imaginar o perigo que corremos, não é mesmo? Mas isso quem tem que se preocupar é os moradores dos grandes edifícios a beira mar, os que têm suas praias particulares com seus iates fenomenais, não é mesmo? E não nós que moramos no alto da serra em nossos casebres sonhando com uma pequena piscina ou, com uma pequena horta onde poderíamos criar nossos porcos, galinhas e hortaliças para o sustento nosso de cada dia. Porém, essa prática passou a ser anti-higiênica por causa do espaço, do aglomerado de indivíduos num mesmo local, e além do mais, não temos tempo nem para cagar quanto mais criar isso ou aquilo.

O nosso precioso tempo é preenchido com os fins de semanas burgueses em companhia dos amados familiares, em ônibus apertado, metrô abarrotado, escravidão pelo sustento, alimentar a ignorância em frente da televisão, querer ser mais que o outro, ter o carro último tipo, preocupações fúteis levando-nos a se suicidar sem ao menos viver como deveríamos.

O nosso precioso tempo é preenchido em como eliminar o estresse, não comer demais para não ficarmos balofos, recorrer à estética cultural e visual da beleza do corpo, caçar sexualmente para não sermos taxado disso ou daquilo, encher a cara nos últimos bares da madrugada para não ter a solidão como companheira, sermos prisioneiros em nossa própria casa e fazer do celular um aparelho de busca às vezes desnecessária e irritante.

Pensamentos que surgem no balançar das folhas entre o concreto frio da morte aprisionando-nos infalivelmente ao destino incerto e inexorável.

Será que temos o que queremos? Por que há um vazio que nunca se completa? Será que é para impulsionarmos a ir cada vez mais adiante? Talvez, quem poderá dizer! Nossos próprios passos em vielas desconhecidas da alma carregada de desamor, aflição e magoa? Nossos atos descontrolados pisando nas conseqüências sem importarmos em magoar amigos e parentes?
Há um cheiro podre de estética falida que corrompe os sentidos da razão impregnando os muros da sociedade em luxo descartável. O pior é que fazemos parte dessa estética podre a qual ajudamos a afundar cada vez mais. Talvez, por isso o vazio que nunca se completa, cada vez maior como um nada cheio de nada.

Palmilho no lodaçal anônimo infringindo prazeres que me farão cair no abismo delicioso num sentir único. Não posso compartilhar o sentir, pois cada sentir tem seus caracteres próprios, tem seus DNA específicos. Por mais que eu venha teorizá-los nunca serão entendidos como eu senti. Serão mecanicamente reproduzidos sem o conteúdo especifico que me fizeram sentir a sua totalidade.

E assim será até o próximo diário imbecil.

Estamos combinados?

sábado, 23 de março de 2024

Diário imbecil 21.09.07

Manhã de sexta-feira sombria, ameaçando chuva, garoa, vento para uma primavera em desequilíbrio que nada promete. Vamos ver do meio-dia para frente se essa situação mudará. Esperamos que sim.

E nesta penumbra onde o cinza do céu se torna mais premente é que dou iniciou a mais um diário imbecil. Diário que não sei se está agradando, se está sendo lido pelos meus leitores queridos, que dizem ler tudo o que escrevo, não sei. E como poderei saber se não tenho um retorno, se não há um evidencia de leitura. Sei do nosso tempo exíguo, o trabalho em primeiro lugar, e etc. e tal e tal etc.

A meu ver, na minha parca experiência como escritor, acho que nenhuma obra seja escrita, visual, performática, ou sei lá o que, deve ser explicada, principalmente a poesia. Você quer ver um escritor chateado é perguntar para ele o que ele quis dizer com determinada obra que ele escreveu. Principalmente se for uma obra aberta que dê margem a várias interpretações. Não se deve perguntar nada, o que se deve fazer é entender o que foi lido.
E todo escritor gosta da participação do leitor, gosta de inter agir com o leitor, se assim não fosse não teríamos obras criativas, significativas que chegaram a mudar o panorama literário, criando escolas e técnicas diferentes. O problema é que o brasileiro não tem formação acadêmica que dê a ele a bagagem necessária de se embrenhar no desconhecido caminho que só os intelectuais, poucos por sinal, conseguem. É uma pena, pois essas obras ficam confinadas apenas a pequenos grupos de leitores capacitados literariamente falando.
Se eu perguntar aqui quem já ouviu pelo menos falar, não vamos dizer ler, AVALOVARA, de Osman Lins – espero não ter me enganado com o nome do autor – garanto que pouquíssimo responderão que conhece. Outro que acredito poucos os que conhecem: ZERO, de Ignácio Loyla Brandão, livro que como o anterior ganhou prêmios, e até hoje não tem uma abrangência entre os leitores. Outro que poucos o conhecem, mas só que esse é mais plano, o que faz dele diferente dos outros dois, é a técnica, é o discurso narrativo e não a forma em si: UM COPO DE CÓLERA, de Raduan Nasser. São livros importantes para quem tem a ânsia de conhecimento literário, para quem deseja escrever, tornar-se escritor. Esses não são os únicos livros que devem constar de uma estante, há outros e muitos outros, os clássicos antigos, os clássicos modernos, e os clássicos que surgem e quase sempre não ficamos sabendo.

Bom pelo jeito o tempo daqui para frente, são treze horas e um minuto, não vai mudar mesmo. Tudo indica que continuará com a temperatura cinzenta, ameaçando garoa, agora pouco cai uns pingos grossos, mas o calor continua o que é bom.

Bem, como ninguém se manifestou um tema para que eu possa discorrer, no próximo diário imbecil, falarei sobre merda. Isso mesmo, merda. Tudo bem? Então até o próximo diário imbecil e um bom fim de semana imbecil para todos.


sexta-feira, 22 de março de 2024

Diário imbecil 24/09/07

 

Bem, como desde sexta-feira que não escrevo o diário imbecil, chegando aqui (precisei) fui olhar no diário imbecil anteriro onde eu tinha terminado, melhor dizendo, como tinha terminado. Mas antes precisei – de novo “precisei”, não gosto de repetir palavras, acho que repetição de palavras é falta de talento, de conhecimento da língua, portanto qual a palavra que colocarei num desses “precisei”? – ah! Já sei como farei – no primeiro precisei colocarei “fui olhar” - bom acho que ficou melhor -, então voltando ao assunto, precisei acessar o webmail da UOL para verificar quantos e-mails eu tinha. Tudo porque, desde sexta-feira que estou sem computador em casa e, para meu espanto, tinha seiscentos e-mails! Sendo assim, fiquei a manhã toda, claro que trabalhando e lendo e apagando, e guardando o que achava necessário guardar ou apagar. Portanto, desde ás oitos hora e qualquer coisa, pois cheguei um pouco atrasado, sem me levantar, fui limpando minha caixa postal.

Por causa desse imprevisto, não pude começar esse diário imbecil logo de manhã, fazendo-o agora, na hora do almoço e, creio que avançarei um pouco o horário do expediente, mas lembre de uma coisa, não pararei de trabalhar, isto é, trabalhando e escrevendo, certo?

Após essa pequena explicação que, talvez não fosse necessário, dou inicio a esse diário imbecil.

Como dizia no último, nesse falarei sobre merda. É isso mesmo, merda. Agora já pensou se o e-mail tivesse cheiro? Exalasse o perfume conforme o assunto? Já pensaram? Não! Então pense, pois enquanto estarei discorrendo sobre o assunto merda, o cheiro estará sendo transmitindo pelo e-mail. Ahahahahahah! Risos.

Por acaso, creio que a maioria conhece o Centro Cultural São Paulo? Não conhecem se não conhecem já ouviram falar. É um lugar nota dez, muito bom, onde você pode ficar a vontade, lendo, escrevendo, estudando, batendo papo, paquerando, consultando vídeos, livros, fazendo trabalho escolar, além de cursos grátis, dos mais variados, e peças teatrais por um preço acessíveis, e bons, recomendo, é um espaço digno de ser sempre visitado.

Pois bem, eu pergunto:

“Por que todo banheiro público é uma merda de sujeira, mau cheiro, que às vezes ao entrar, você tem ânsia de vomito do que propriamente em fazer suas necessidades, seja a primeira como a segunda, isto é, urinar e defecar”. – eita palavra feia, defecar -? Por quê?

Não é uma merda? O Centro Cultural São Paulo deveria dar um trato melhor em seus banheiros, sei que o povo não está nem aí com aquilo que não é deles, mas poderia, não sei, dar um curso de como cagar e mijar em banheiro público, não acham? Colocar na merda da cabeça desse pessoal que ali não é lugar de fazer o que eles fazem em casa.

Outro dia em que precisei ir ao tribunal, ao entrar no banheiro, meu estomago se revirou nas entranhas quase saindo tudo o que não tinha comido, isto é, nada, talvez ele próprio é que sairia ao presenciar o que meus olhos transmitiam a ele. Era uma porcaria só, sem tamanho, tinha merda para tudo quanto era lugar, na bacia branca amarelada, na tampa tanto em cima como embaixo, no cano que desce da descarga até o meio, mas era uma merda consistente, não era aquele tipo de merda rala não, era pelota e pelota de merda, só de pensar meu estomago se revira.

Aí eu pensei. O cara que tinha feito aquilo merecia lamber tudo até deixar brilhando. Será que não pensou em quem limparia tudo aquilo? Não sei a meu ver o povão merece o que tem. Não sei se em outros países os banheiros públicos são como aqui, penso que não, não conheço os outros além os da minha cidade. É uma pena, como eu digo:

“O que se precisa é conscientizar o povão do que é errado e do que é o certo”. Mas cadê o sujeito carismático para conduzir o povo, para orientar, se cada um procura roubar um pouco, pensa em si próprio.

Bem, é isso, não sei se haverá o próximo diário imbecil...

quinta-feira, 21 de março de 2024

quarta-feira, 20 de março de 2024

Do outro lado da rua.

  

Atravessaram  a rua e pararam na pequena ilha.

Ele deu um beijo longo ao qual ela retribui e entregou a ele uma garrafa de plástico cheia de água.

Ela, após o beijo, tomou o sentido contrário em passos rápidos.

Ele voltou atravessar a rua na transversal ao mesmo tempo em que esvaziava a garrafa de plástico.

A água chocando-se com o asfalto esturricado de sol logo se evaporou em fumaça que, por sua vez, se desintegrou no espaço quente da cidade.

Passando perto de uma lixeira, sem culpa de estar simplesmente projetando um gesto, jogou a garrafa vazia de plástico que se chocou com os detritos num som chocho de vida inerte permanecendo ali para o todo o sempre.

Do outro lado da rua, o escritor na sua busca de inspiração, virou no copo a cerveja gelada e, registrou no seu caderno de notas a pequena cena que intitulou: O AMOR EM BUSCA DE CONSISTÊNCIA.

terça-feira, 19 de março de 2024

dobram sinos

 

conjugando

nossas vidas

numa só

 

cuido

para que não

escape entre os dedos

uma só lembrança

um só suspiro

que me traga

consigo a saudade

segunda-feira, 18 de março de 2024

dois motivos:

 

eu e você

você e eu

nada mais

que dois motivos

para que a vida

continue eternamente

sendo eu e você

dois motivo

domingo, 17 de março de 2024

Duas vozes gritam no alarido da vida.

O tanto quanto o balanço do ônibus me permitia, procurava me concentrar na leitura da Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, quando uma voz chamando a atenção dos passageiros, me obrigou a desviar a atenção do livro.

- Senhores e senhoras, desculpe interromper o sossego de vocês. Mas é que estou desempregado há meses, e a solução que encontrei para poder levar um dinheirinho para casa foi essa. Ao invés de pedir esmola, achei melhor vender essas balinhas de chocolate de boa qualidade. Podem verificar a validade do produto. Uma são cinqüenta centavos, três faço por um real, nos supermercados vocês encontrarão uma por um real. Aproveitem. Quem vai querer? Vou passar um por um, mesmo que não queiram peguem para verem que falo a verdade.

E foi ele entre licença aqui, licença ali, distribuindo as balinhas para o pessoal. O ônibus não estava super lotado, estava razoavelmente cheio, o que dificultava o vai e vem em distribuir e receber as balinhas de chocolate.
Tudo bem, o cara precisa sobreviver, não pode morrer de fome, mas comprando as balinhas só estarei incentivo-o a continuar nessa vida de mendicância, vendo que com isso consegue dinheiro fácil, pra que irá querer outra vida? Além do mais, não vou comprar só para ajudá-lo, e vai se saber de onde vem ou como ele armazena essas balas em sua casa. Instantes depois, ele desceu e eu pude voltar à atenção ao livro.

O que foi por pouco tempo. Enquanto meus olhos percorriam os versos da Lira dos Vinte Anos, ouvia uma voz como se estivesse falando com alguém. Falava e ninguém respondia. Até que divisei o dono da voz. Era um homem mirrado, vestido simplesmente, não muito alto, o rosto magro onde se percebia as bochechas afundadas na cara, dando um ar doentio. Falava com uma voz alta, sem demonstrar ódio ou raiva, mas uma angústia assustadora.

- Eu preciso todo mês vir para São Paulo fazer exames. Se não fizer isso não terei remédio de graça e eles não mandam para a minha cidade. Sou professor, trabalho na prefeitura, e a assistente social me deu licença médica e cinqüenta reais para vir para São Paulo. Sou HIV positivo, preciso do remédio. Sai do hospital e fui abordado por um sujeito bem vestido dizendo estar aqui em busca de emprego já fazia mais de três meses. Bem vestido, falante, fomos jantar. Não sou o que vocês estão pensando, fiquei com pena dele e no fim fui roubado, me bateram, ele estava com mais dois sujeitos, quando saímos do restaurante eles me bateram. Levaram meu dinheiro, meus documentos, tudo. O policial que me atendeu, arrogante, quando fui dar queixa, me tratou mal, preconceituoso, fui humilhado só porque sou HIV positivo, disse: - Bem feito isso que dá ser veado. Não sou gay, tenho mulher e uma filha, preciso voltar para casa e não consigo. Já fui lá Barra Funda, a assistente social me disse que é impossível me ajudar. Ela ligou para minha cidade e falou com a assistente social da prefeitura de lá, e eles disseram que eu estava de férias, logicamente que assistente social da Barra Funda não acreditou em mim. To com fome, sujo, fedendo, desde segunda feira estou com a mesma roupa. Não sei mais o que faço. Fiz um escarcéu, briguei com a assistente social, me levaram para a cadeia, até que foi bom. Lá a policial me tratou com carinho, me deu cinco reais e me levou ao albergue, mas não pude ficar, estava lotado. Fui ao Parque Dom Pedro, num prédio onde os mendigos de rua usam como sanitário, e foi lá que estou dormindo esses dias. Estou cursando o segundo ano da faculdade, não sou de estar pedindo esmola. To com a maior vergonha de estar aqui falando com vocês essas coisas, mas juro, é por necessidade, preciso de trinta e cinco reais para voltar para minha casa. Estou desesperado. Não sei mais o que faço.

Achei a história mal contada. Se ele é doente e, está fora de casa mais de cinco dias, os familiares logicamente estariam a sua procura. E por que não consegue voltar para sua cidade?

Histórias como essa ou, pior, rolam pela cidade desumana e bela.

sábado, 16 de março de 2024

Dueto virando monólogo

 

Embriago-me de estilhaços onde a palavra calada, fere a carne que sangra o desconstruir a vida e seus liames absurdos. Escorro o sangue dos prédios fálicos da avenida. Persigo a mágoa nos cantos escuros das praças. Esqueço o furor assassino dos sexos. Lavo meus pés limpos na água escura do Tietê. No entanto, não vejo tua voz, não ouço teus braços e meus dedos não alcançam teu coração. Será que nada mais nos prende além da poesia sexual?

sexta-feira, 15 de março de 2024

Eficiente mantra

 Há, correndo pela Internet um vídeo onde uma atriz, que fiquei sabendo depois, canta uma música de um só verso, onde, por quase dois minutos ela diz: Vai tomar no cu.

Quando da primeira vez que ouvi, achei de mau gosto, ainda é, mas não sabia que faz parte de um show sobre essa anatomia ignorada e até desprezada do corpo.
Bom, quer dizer, tem alguns sádicos que sexualmente não o desprezam, pois sendo a região mais erógena nada mais que estimulá-la, não é verdade.  Como diz aquele filosófico partidário da Filosofia Transcendental para o Prazer Máximo em Todos os Sentidos: entre quatro paredes vale tudo. Concordo, mas com certas restrições, pois essa região não foi feita para ser penetrada, no entanto, prazer é prazer, cada um sinta como acha melhor.

Como aquele sujeito que conheci. Gostava na hora do coito que a parceira introduzisse o dedo no ânus. Com isso o prazer era mais intenso, com o qual concordava a parceira. Bom, cada um com o seu prazer se divertem conforme a situação.

Voltando à música. Outro dia na plataforma do metrô uma matrona a minha frente começou se invocar por estar enconchando-a. A culpa não era minha, estava sendo empurrando para cima dela. Por infelicidade quando o metrô parou na plataforma fui carregado e acabei por ficar atrás dela. Volta e meia ela se virava, se mexia, tentando sair da posição ingrata que estava. Permaneci na minha, mas estava vendo que levaria uma bronca a qualquer momento. O que estava me irritando. Foi então que mentalmente comecei a cantarolar: Vai tomar no cu, calmamente, sem um propósito definido, sem que fosse exclusivamente voltado para ela. Não é que a irritação que ela me provocava sumiu. Pouco me lixei com o que se passava com ela ou que estivesse querendo se livrar da situação. Sorri num mover de lábios até que provocativo o que fez com que ela me olhasse de viés sem entender nada.

Percebi que essa esdrúxula música funciona como um mantra. Repetindo-a várias vezes você se controla, fica mais calmo e aquilo que o atazanava, desaparece. Depois dessa situação no metrô, repeti a experiência em vários momentos, tanto em casa, como no serviço e, funciona.

Porém há uma regra. Você não pode dizer: vai tomar no cu, como ofensa, dirigida especialmente à pessoa que lhe causou desaforo ou quer que seja. Você tem que proferi-la como uma música qualquer, como um mantra, despreocupado, sem rancor, sem ódio, sem que seja dirigida a alguma coisa ou alguma pessoa.

Tente, tente, faça a experiência e veja o resultado.

quinta-feira, 14 de março de 2024

ela chegou

 

... ela chegou toda imponente, soberba, despudorada, se alojou sem permissão, pouco se importando se seria ou não bem aceita, ela veio, rápida como o vento da madrugada, voando esparsa na garra do momento, inteligente não deixou passar a oportunidade, veio meio brega como todas elas são, não fez barulho, não é de se mostrar, por isso, veio silenciosa, apesar de sua índole feroz, aproximou-se calmamente, abriu uma pequena brecha, e, entrou, se impôs, dificilmente sairia, de caráter forte não havia nada a fazer, a não ser se entregar perigosamente à ela e, foi o que ele fez...

segunda-feira, 11 de março de 2024

Ela e o celular.

 

Ela retirou o celular da bolsa, abriu o flap e começou a mexer no seu teclado com uma ligeireza imprescindível.  No ouvido os fones por onde os fios desciam roçando seu colo rechonchudo realçando uns seios fartos. A alça da mochila na transversal pressionava sua carne entre os seios o qual, parecia não incomodar. Enquanto suas mãos, ou melhor, sua mão direita mexia no celular a outra agarrava com firmeza o ferro bem perto da minha mão, por uns milímetros a minha não tocava a dela. O formigamento na ponta dos dedos atiçava para que eu tocasse naquela mão sensual. Ela ficou assim por uns bons momentos. Depois, dando por finalizado sua operação com o celular, fechou o flap, e guardou. Retirou a mão que estava perto da minha e se dependurou na barra de ferro, encostou ou deitou a cabeça no braço esquerdo, começou a dançar e cantar a música que estava ouvindo. Não tirei os olhos dela, vendo-a no seu remelexo interpretativo pouco ligando onde estava. Ah! Durante todo esse tempo conversava com a amiga ao seu lado. Faltou pouco para que eu apontasse para os dois fones de ouvido enterrado em sua orelha e, depois apontasse para os dois aparelhos enfiados em meu ouvido. Mas não adiantaria em nada, talvez ela desse de ombros, poderia pensar: o azar é seu coroa, pois como todos os jovens – alguns, nem todos, mas uma grande parte deles – não pensa no futuro, no que poderá lhes acontecer quando não forem mais jovens. Eles que estão certo o que importa é o agora, o momento, o depois a gente enfrenta o problema, não é?

domingo, 10 de março de 2024

Encontraram.

  

Estava decidido. Compraria outra. Já fazia quase uma semana que tinha perdido a carteira com os documentos, os quais precisou tirar a segunda via. Portanto passaria no Shopping Tatuapé e compraria uma. Assim fez.

Desceu do metrô, entrou no Shopping que como sempre lotado. Percebeu que a maioria do pessoal vinha ao shopping apenas para passeio, principalmente os jovens, vinham apenas paquerar, afora os casais de namorados agarradinhos ou, os casais com filhos na praça de alimentação com seus sanduíches macdonald´s ofertando brindes dos mais esdrúxulos possíveis.

Pensou primeiramente tomar um chope, acabou desistindo, a praça de alimentação estava abarrotada de famintos procurando empanturrar o estomago de guloseimas atrativas. Deu uma volta despreocupado.

Passou por duas lojas especializadas em bolsas e carteiras e não achou nenhuma do seu agrado. Estava na Lê Postiche em dúvida qual carteira que escolheria quando o celular tocou:

- Alô!

- Sim?

- Tio?

- Sim, o que foi Henrique?

- O senhor perdeu a carteira?

- Perdi, sim.

- Então é para o senhor ir à igreja que um cara achou a carteira do senhor.

- Legal, já vou para lá.

- Vai logo que o cara já ligou aqui umas três vezes.

- Falou, estou indo.

- Tchau

- Tchau e obrigado.

Guardou o celular e, dirigindo-se a vendedora:

- Obrigado, não preciso comprar mais a carteira, acharam a que perdi.

- O senhor tem sorte. Perdi a minha e até hoje não encontrei.

- Pois é, sorte mesmo.

Quando chegou na igreja o rapaz já estava quase indo embora. Aparentava uns vinte e poucos anos, roupa simples, notava-se que era uma pessoa de pouca instrução no seu falar, um rosto fino, olhos de malandro escolado pela vida, cabelos desgrenhados parecendo que não via água fazia tempo.

- Cara, você achou minha carteira onde?

- Numa lixeira perto do restaurante.

- Que restaurante.

- Não sei que restaurante. Fui pegar o lixo, vi a carteira e peguei por curiosidade e como estava com todos os documentos achei melhor entregar.

- Tem certeza?

- Ta pensando o que? Que eu roubei do senhor é?

- Nem pensar, que isso? Apenas acho que você achou a carteira, só isso.

- Achar, eu achei senão não estaria entregando ao senhor.

- Ta certo, fico agradecido. Toma, aqui está uma pequena recompensa para você.

- Obrigado, senhor.

Todos os documentos, todos os cartões estavam intactos, não faltava nada, aliá, faltava sim, os cem reais. Mil conjeturas passaram por sua cabeça, mas nenhuma se concretizou, pois não sabia como acontecera, se perdera mesmo ou se fora roubado. Quem poderia dizer o que acontecerá, afinal a vida não pode ser rebobinada, não é?

sábado, 9 de março de 2024

entre a cruz

   

e a espada

teu rosto expressa a dor

 

ora blasfema

ora luminoso

 

não vejo

nenhum sorriso

não vejo

nenhuma alegria

 

o que vejo

é a paz por ter

salvo teu povo

de tanto

sofrimento

e

selvageria

sexta-feira, 8 de março de 2024

entre as pedras das calçadas

 

vagabundeia o vagabundo

bebendo as poças d águas

e

dormindo sob as luzes

das estrelas

 

felizes são os loucos

com os seus mistérios

quinta-feira, 7 de março de 2024

quarta-feira, 6 de março de 2024

Escrever e escrever e escrever e escrever

 

Venho tentando escrever o que me ocorreu outro dia, propriamente num sábado. Mas escritor e poeta medíocre que sou não consigo colocar no papel ou nessa telinha hipnótica o ocorrido. Se fosse um Sabino, um Cony, um Fonseca, garanto que teria rendido uma boa crônica. Na minha mente o fato parece consistente, forte, mas quando pressiono as pretas teclas do computador, a coisa se deliu na bruma das palavras, elas batem no rochedo e se despedaçam em vários segmentos de desânimo. Qual será o segredo dos cronistas, dos contistas, de conseguirem laçar as palavras colocando-as umas ao lado das outras e darem consistência ao que escrevem? Não sei. Se soubesse garanto que estaria alçando as honrarias que a literatura possa me oferecer. Quem sabe o Nobel? Contentar-me-ia com o Jabuti, já estava bom.

Fato corriqueiro, simples, até inusitado que comprovaria meu sucesso de escritor avoado. Mas como aprisionar as palavras que me fogem constantemente dos dedos e aprisioná-las num contexto atraente para que os leitores deduzissem o meu valor literário. Como? Sei que vou escrevendo a esmo, numa vertigem acalorada sem esquema nenhum, e às vezes, crio um texto que agrade. O que raramente acontece.  

Seguindo um conselho que li outro dia, não vou forçar a mente, não vou criar um texto forçado, sem verossimilhança, o que é importante é escrever todos os dias, pelos menos uma sentença, uma frase, uma palavra, mesmo que seja uma letra. Escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever e escrever

terça-feira, 5 de março de 2024

... escrever , escrever


..escrever, escrever e escrever nessa tela hipnótica palavras e mais palavras que resume o dia a dia de um cotidiano opressor, de um cotidiano que nada acontece de sobressalente para que se possa dizer:

Alguma coisa acontece no meu coração, quando eu cruzo com a Ipiranga e a São João, mas sempre acontece alguma coisa, não se precisa cruzar com a Ipiranga, uma avenida bonita que hoje está totalmente descaracterizada, pobre, suja, cheia de vândalos ambulantes esparramados por sua calçada e com a construção de um metrô que nunca termina, e a São João outra avenida que vem sofrendo alterações cada vez mais desastrosas, onde está aquela São João mística misteriosa na sua beleza fria de prédios, carros, cinemas e teatros, onde está que não a vejo, outra avenida onde os vândalos ambulantes com suas bugigangas esparramadas pela calçada vendem pequenas ilusões pobres e falsificadas, onde seus belos cinemas fecharam para templos de falsificadores de um deus que só atende ao barulho das caixas registradoras, onde ficaram aquelas avenidas românticas de passeios de mãos dadas ou abraçados por qualquer hora do dia ou da noite, onde estão: 

onde estão os seus carinhos, onde está você... 

segunda-feira, 4 de março de 2024

domingo, 3 de março de 2024

Estou me rendendo.


Estou me rendendo. Aos poucos. Sei que serei vencido. Não tenho mais o que lutar. E para que? Além de ser seguro, quer dizer, não há nada seguro, mas convenhamos que na prática seja mais seguro. Então porque relutar? Seguro e sossegado. Agora sim, sossegado garanto que é. Rápido? Não é rápido, lento até demais, creio que dá para ler um livro de oitocentas páginas em uma semana. Isso é o que me preocupa. Não, não o ler, mas a lentidão entende? Como gosto e estou acostumado chegar, vamos dizer, um pouco cedo, o que dá tempo para escrever os meus bons dias e ler e responder os e-mails. Agora se eu passar a pegar o fretado não terei esse tempo livre, entende?

Hoje fiz uma experiência e, por causa dessa experiência é que escrevo essa crônica. Tomei o fretado era mais ou menos seis horas e cinqüenta minutos. Ele passou pela Penha, pegou a Radial, passou pelo Parque Dom Pedro, Senador Queiroz, a São Luiz, passou pela Praça da República, subiu a Consolação e depois a Paulista. Encurtando, eram oito horas e cinco minutos descia em frente ao Conjunto Nacional. Quando entrei no ônibus falei para minha filha: 

- Tenho a impressão que não estou indo trabalhar, mas sim, indo para outro lugar, numa viagem longa. 

Tudo bem que eu diga vou a um passeio ao invés de ir trabalhar. Mas convenhamos, é diferente você dizer que está indo a passeio ao invés de trabalhar do que se sentir como se estivesse indo a passeio e vai mesmo a trabalho. Entende? Não sei se consegui me explicar. 

Apenas sei que ao chegar no Parque Dom Pedro me sentia incomodado, as pernas começaram a formigar, virava de um lado não me sentia bem, virava do outro o bem que estava não era o que eu queria, enfim, me sentia incomodado.
Bem, vamos ver, estou sendo conquistado a experimentar por um mês, vamos ver no que vai dar. E pode acreditar dessa experiência sairá uma ou duas crônicas, assim espero. 

sábado, 2 de março de 2024

Evanescence.

  

Eram quatro horas mais ou menos quando a chuva começou. Foi um temporal, não medonho, mas um temporal com queda de energia umas duas vezes. Rapidamente desliguei o micro. Apreensivo, ousei dizer: 

- Acho melhor não irmos. 

 - Se o senhor não quer morrer não fale isso, chova pedra ou canivete, nós vamos, disse minha filha. 

 - Certo, mas tinha que chover agora, não podia pelo menos chover quando estivéssemos lá? 

- Até cinco horas vai passar, leva uma blusa, estou levando essas duas capas de chuva. 

- Vou ligar para o Júnior. 

Do celular não foi possível completar a ligação. Dava como ligação não autorizada. Apelei para o fixo. 

- Alô! Júnior? 

- Sim. 

- E aí, vamos ao show ou não vamos? 

- Vamos sim, porque não ir? 

- Porque aqui ta um temporal... 

- Aqui não está chovendo. E estou uns dez minutos do estádio, lá também não deve estar chovendo. 

- Então acho que é só aqui. 

- Vai ver que sim. 

- Falou, a gente se encontra. 

- Certo. Até mais. 

E, realmente, às cinco horas, a chuva amainara, isto é, chovia, mas chuva fina, tipo molha trouxa. 

Saímos de casa às cinco horas e poucos minutos, o show seria as vinte e uma hora, tínhamos, portanto bastante tempo não precisaria correr. 

Mesmo assim, uma apreensão se fez notar, principalmente em mim, pois quando se ouve falar em show, principalmente em estádio, logo o que vem a mente da gente é empurra-empurra, aglomeração, fila enorme, bagunça, enfim tudo o que é característico nesses tipos de espetáculos. 

Os portões já tinham sido abertos quando chegamos. Para a arquibancada não tinha fila muito grande. Entramos numa boa. Sossegado. A arquibancada estava cheia, mas não superlotada. Estávamos procurando um lugar quando dei de cara com o Júnior. 

- Vi você passando lá embaixo. Eu e meu primo estamos ali. 

Fomos com eles. Dei uma olhada em geral. Tinha bastante gente, mas não era uma coisa exagerada. A pista estava pela metade. As cadeiras cobertas e as descobertas estavam praticamente ocupadas. A arquibancada estava no meio termo. Tinha gente de todo tipo, uns mais estranhos que os outros, todos vestindo a camisa do Evanescence, mas vi camiseta de Judas Pirest, Iron Made, Black Sabat, Angra, Motorhead, Slipknot entre outros. 

A chuva ora caia fina, tipo garoa, ora aumentava, mas nada que pudesse ser um temporal. Era um vestir e desvestir a capa..

Às sete horas começou o show de abertura com as Luxurias. Grupinho ruim, onde a vocalista tentava de todas as maneiras esquentar o pessoal. Depois de meia hora de show, saíram debaixo de: Fora! Fora! 

A platéia por qualquer coisa se assanhava, dava gritinhos, assobios, berros, gritos insanos. Tinha umas garotas, pivetes, atrás de nos que gritavam por qualquer motivo, parecia que uma queria gritar mais que as outras. 
Às oitos horas entrou outro grupo, que ninguém sabia quem era. Depois fiquei sabendo, era uma banda Uruguaia, os Silicon Fly. Cantava ora em castelhano ora em português. Num momento, o vocalista gritou: Vocês querem mais uma música. Ouviu um ensurdecedor grito geral de: Fora. 

Às vinte e uma hora começou o show do Evanescence. Foi uma empolgação geral, ninguém mais ficou sentado, ninguém mais se preocupou se chovia ou não, todos estavam voltados para o palco.

Amy Lee deu o recado com competência, com desenvoltura, gingado o corpo de um lado para o outro dominando totalmente o palco. Quando os acordes da música Luthimiasoaram para o deleite da platéia, foi uma comoção geral, ao mesmo tempo um mar de balões brancos agitavam o ar numa empolgação só. A magia da música unia todo mundo. Foi estupendo, contagiante. 

Por uma hora e vinte minutos, Amy Lee e seus companheiros dominaram o espetáculo fazendo o povo cantar junto umas duas músicas. 

O único senão, a meu ver, foi o espetáculo curto, levou mais ou menos uma hora e quinze minutos, fora isso nota dez. 

Após o término o povo não queria sair do estádio, foi preciso que voltassem e apresentassem o bis com mais duas músicas, o que agradou imensamente os fãs. 
As dez, mais ou menos, dez e quarenta e cinco minutos, estávamos saindo do estádio satisfeitos com o espetáculo, mas com a sensação de que algo ainda faltava, como se tivéssemos visto um demo, uma pequena amostra do que é o Evanescence. 

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...