segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Pequenas histórias 275

Quieto percorreu


Quieto percorreu a manhã numa só passada. Atravessou os sentimentos cuja claridade suave se ampliava pela imensa avenida. Os olhos, espelhos da alma, captavam ações recolhendo-os ternamente. Sabia-os importantes, por isso, colhia tudo o que o rodeava, sem distinção, sem pudor e preconceito. Recolhia-os como quem recolhe do lixo o alimento. E, ao reciclar as emoções, purificava os atos ora impulsivos, ora contidos, destilando palavras numa espontaneidade virgem de ganância.

A manhã nos sentidos da pele, lentamente emergiu em focos de densidade, cravejando nos pontos certos, a individualidade de cada um possibilitando a continuidade da vida. No brilho da manhã, entremeados pela chuva fina, reviu os passos antigos reverberando-os nas lajotas das calçadas. Prestava atenção para não pisar nas divisas escuras que dividias as lajotas. Nessa prosaica ação ingênua e paranoica se abstraia de pensar por pensar. Se abstraia de cair no abismo das palavras, desviando-se das armadilhas das vozes trovejando palavrório sem atrativo e sem sentido.
Abriu o precário guarda-chuva de cinco reais, atravessou a rua, entrou no prédio deixando para traz os pensamentos filosóficos. Mais um dia se iniciava para sua felicidade de burguês conduzida pelos dedos do operador de fantoche.

domingo, 30 de outubro de 2022

Pequenas histórias 276

A palavra estampa


A palavra estampa nos muros a cara da cidade


Palavra pichada nos dizeres incongruentes de sinais

A palavra reduz todo e qualquer sentimento a nada

Lanceta o sangue de suas letras manchando a parede

Altera a paisagem disforme no sentido de porrada

Vela peles nuas nos escombros dos gritos e punhais

Redistribui o disforme em forma escalada

A palavra delira devaneios nos bares e esquinas


Exorciza egos luzidios em brancos e podres umbigos

Sangra o momento em doses suaves e pequenas

Traduz paixões iludidas nos abraços amigos

A palavra se infiltra e constrói devassos sentidos

Materializa isto e aquilo num plasmar perdido

Planeja o caminho nos bares excêntricos e vadios

Alterando as porções do sexo nas peles assassinas


A palavra estampa a faca assassina

Livra os fracos solitários

De sua sina Severina

sábado, 29 de outubro de 2022

Pequenas histórias 277

O corpo da palavra


O corpo da palavra se enrosca no misterioso corpo de mulher

Corpo de lascivos contornos provocador de insanos beijos
Ondeante na complexidade feminina gozando de poder
Relicário de curvas engenhosas provoca todos os desejos
Perigosamente adentra-se tua forma ao saciar teu prazer
Onde, teu liquido, maná da vida, ao nirvana conduzirá

- Dentre todos os corpos por mim conhecidos, só o teu
Almejo com intensidade profanando meu corpo ateu -

Panteísta sexual na mata úmida e virgem embrenhará
A espada voraz por campos prados montes e picos
Leviatã dos sentidos me entrego sem medo ao perigo
Arma poderosa, além dos beijos, a boca inflama
Viril fantasia machista na oralidade suprema
Reconduzindo vidas após vida desejos delirantes
Alimentando sonhos prazeres e vidas distantes.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Pequenas histórias 278

A mudez do papel


A mudez do papel fere a carne na manhã de quarta-feira

Mecânicas ações agem em atitudes desleixadas
Ultrajam-se sentimentos alheios ou imorais
Desesperam-se os angustiados pelo sábado
Estereótipos civilizados pregoam a falsa felicidade
Ziguezague antes alucinados caçam infrutíferos prazeres

Desenvoltos futuros orgulhosos empresários
Ostentam vaidosos os poderes estelionatários

Patéticos palhaços da fome acrobática
Almejam o quinhão de fama na elasticidade da vida
Prostituem-se pelo pão do desprezo saboreando o doce do preconceito
Elegem-se ladrões comandando da cadeia seus asseclas
Liberdade, liberdade gritam as vozes mudas pelo medo

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Pequenas histórias 279

Por entre o arvoredo


Por entre o arvoredo
Passa o trem

Sem nenhum segredo

Entre o querer
E o ser

Há muito
O que se fazer

Enquanto passa
O trem
Por entre o arvoredo

Sem nenhum segredo

A vida
É conduzida
Nos trilhos da ilusão

E os sonhos
São desfeitos
Na plataforma
Da decepção

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Pequenas histórias 280

 Para a Rosa Pena.


Como é difícil colocar no papel luminoso da telinha as palavras-imagens! Estou com umas encravadas na cachola que não sei como me livrar delas.

Já escrevi assim e assado, de traz para frente, de frente para traz, de revés, em círculo para direita, em círculo para a esquerda, reto, oblíquo, em retângulo, na vertical, na horizontal, em triângulo, espaçado, curto, largo, estreito enfim, de todas as maneiras.
Não consigo. Quer dizer, conseguir até que consigo, mas sai um texto frouxo, sem conteúdo, rebuscado, pior que rococó, não se entende, um texto pesado, cansativo, indecifrável, incompreensível.
Foi então que pensei numa coisa maluca. Pensei cá com os meus botões. Colocar-me no lugar da Rosa Pena. É! Da Rosinha, grande escritora, excelente cronista e escrever como ela! Não, nada de trocar de corpo, que isso! Chegar até ela e captar toda a essência literária dela, catalisar o humor, as palavras. Não, nada de escrever a La Rosinha, nada disso. Talvez me influenciar de Rosinha sem que venha com isso prejudicá-la. Coisa de louco, não é? Pois é.
Receber dela umas orientações de como consegue fazer com que as palavras venham até ela, e, não ela ter que ir até as palavras, como acontece comigo. Tem-se a impressão que a um gesto dos seus maravilhosos dedos, sem tocar no teclado, as palavras surgem espontaneamente, sem precisar escarafunchar os neurônios a procura de palavras, sem precisar ir até as profundezas da mente buscando as fujonas, sem que se precise amarrá-las fixando-as com ferro quente no papel telinha.

Como fazer isso? Tem explicação alguma? Não, não tem. Pois é!
O que tenho são imagens que se avolumam na mente. Passar para o papel em palavras é que são elas. Por exemplo.

Vejo um grupo de homens conversando, falando alto, gesticulando, vociferando como touros em arena de rodeio. Aí você pensa: estão discutindo problemas da firma, discutindo problemas graves, de difíceis soluções. Mas ao chegar perto, ledo engano. Estão discutindo é futebol nada mais. Então pensei: esses caras são capazes de ao verem a mãe ou filha se afogando, não deixam a discussão para socorrê-las. Foi nesse momento que surgiu em minha mente a cena:

Três ou quatros homens discutindo futebol. Nisso ouve-se uma voz infantil gritar:

- Socorro!

E o pai, que é um dos quatros, vira-se para filha se afogando e retruca:
- Filha, você tinha que se afogar justo agora?

- Socorro, papai!

- Olha filha, papai te ama, mas agora não posso de ajudar. Não vê que eles estão difamando o timão! Papai te ama, viu, mas preciso defender a honra do timão, certo? Então espere um pouco que já vou te socorrer.

Bom, é isso. Vamos discutir futebol que a vida é uma só e, danem-se os problemas fundamentais, o que eu quero é viver.
Beijos e abraços.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Pequenas histórias 281

 Como dizem os angustiados

 
Como dizem os angustiados:

"Ainda bem que já estamos na quarta-feira! Depois vem quinta e sexta-feira. Bom não é?"

Dizem como se fosse não sei o que de tão importante. O importante é o hoje, este momento passado onde estas palavras escritas serão amaciadas por olhos ávidos de leituras. Pelo menos espero que haja muitos olhos amaciando as palavras do meu escrever. Senão não sei por que escrevo. Talvez, alguém me dirá:

"Ora você escreve porque gosta de escrever."

Realmente gosto de escrever, não só escrever, mas gosto da boa escrita, aquela escrita não cansada.

Luzes iluminam cabeças nesse dia vinte e seis de novembro desde a invenção da luz elétrica e da lâmpada, pois sem ela acho que estaríamos na escuridão, o que não quer dizer nada, vivemos iluminados na escuridão de sermos nada mais. O difícil não é fazer, o difícil é ser, acho que já disse isso. Difícil é ser o que somos na compreensão do corpo.

Deixemos esse blá blá filosófico inútil e desnecessário. Coloquemos um ponto final, fechemos o World e vamos fazer nossas obrigações satisfazendo nossos chefes e enriquecendo mais ainda a firma.
Trabalho não enriquece ninguém monetariamente, mas tentamos não é?

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Pequenas histórias 282

Não sei escrever


Não sei escrever.
Não tenho o domínio da palavra.
Mesmo assim escrevo.
Escrevo no passeio da avenida em plenas oito horas de quinta-feira.

(Oba! Até que enfim amanhã é sexta-feira!)

Escrevo no delírio dos passos despreocupados.
Nos passos cansados nas pastilhas do calçamento antigo que rodeia o Conjunto Nacional.
Nos olhos sonolentos de vidas antigas futuras e passadas de vidas tão somente vidas vivendo vidas hoje.

Alonga-se a avenida na perspectiva do olho ao atravessá-la.
Alonga-se nas buzinas dos semáforos luminosos das propagandas televisivas e jornalísticas estampando sorrisos e saúdes falsas.
Escrevo na leitura de poemas ao balanço do ônibus dobrando e virando destinos que acordam em seus pontos de chegadas.
Escrevo no alongado do sentir alheio que me olha sem me ver.

Vejo olhares dispersivos em preocupações medrosas e às vezes audaciosas ao piscar do olho maroto sexualmente falando.
Escrevo no pensamento captando símbolos e formas esparramadas pelas bancas de jornal a procura de novidade.
Novidade que não há no surgimento do dia-a-dia escondida nas entrelinhas da carne cinzenta de concreto e paz longínqua.
Na multidão a espera que Moisés moderno impregnado de vermelho abra as águas do mar para que possam atravessar.

Escrevo no sangue líquido de uma faca sangrando os ossos fracos da vitima.
No liquido amarelo de euforia em diversos bares desfrutando ao longo da avenida sorrisos e alegrias embebidas em solidão.
Nas arcadas literárias dos casarões de Rosas e Itaú transbordando filosofia para o gáudio dos Campos de Rosas.
Nos brilhos musicais a ornamentar os alicerces bancários com  taxas e juros.

Escrevo na sombra das árvores do Trianon ocultando movimentos e segredos que as folhas temerosas abrigam.
No solene triunfo à arte aonde o vão das probabilidades propicia ensejos de encontros e desencontros.
Nas estações Consolação, Brigadeiro, Trianon e Paraíso na loucura de ir e vir à procura do perdido.
Nos restaurantes e lanchonetes de refeições vazias de alimento apressado pelo servir a fome dos escriturários, executivos e peões.
Nas rampas do Conjunto Nacional, marco que se transforma em marketing de tele Mark desenfreado.

Escrevo no olho do cão cuidando do dono em seu sono de mendicância despreocupado com crise e consumismo.
Com a caneta de aço escrevo nos membros amputados da cancerosa violentando os olhos de caridade.
Nos michês alugueis de corpos abrandando anseios nos segredos da carne vendida.
Nas manifestações políticas no arco íris do amor sem preconceito de expor.

Nesse escrever, guardo todos os sentires num só ao mesmo tempo sou o tudo que vejo.
Nesse escrever contabilizo minhas perdas e ganhos no meu Livro de cabeceira o qual só eu tenho a chave do seu segredo.

domingo, 23 de outubro de 2022

Pequenas histórias 283

Tenho a impressão


Tenho a impressão de não sei o que poderá ou não acontecer.
É uma impressão instantânea de coisas sumidas e não desaparecidas.
É algo que solidifica o pensamento em diversas direções sem sentido.
Algo que fica aqui e vai além dessa sexta-feira nublada de primavera.
Primavera com chuva e catástrofe sem limite.

Culpado o ser humano luta com todas as forças dos seus genes pela sobrevivência.
Culpado por seus semelhantes mortos em esteiras de barro e lama e em UTIs da vida.
Santa Catarina chora os mortos na voz empostada pelo padrão Globo de notícias.
Chora milênios de vidas sobre lama suja e podre de morte nos morros e casas destruídas.

Mas... Sempre tem um, mas... Não é?
Mas é Natal festa sorriso alegria presentes abraços e música, muita música e chope
Muito chope na falsa preocupação de todos os dias.

“Parabéns para você nesta data querida...”

Come-se e bebe-se pelo Teu nascimento já morto na esquecida cruz.
Bebe-se a alegria dos vivos zumbis de suas próprias mortes no solo das tristezas.
Degustemos sorrisos largos de felicidades de um dia somente.

Desculpe Santa Catarina.
Desculpe Marta* querida.

Mas é Natal precisamos nos jubilar com o nascimento daquele que morreu para nos salvar.
Apesar de que muitos não querem a salvação como eu também não quero.
Quem se salva não tem vida, já está pronto para a luz eterna.
Não quero me salvar, quero continuar pecador banhando-me no sangue de todos os pecados.
Sem salvação andarei na chuva ácida até que meus ossos se desfaçam em pó.
Palmilharei tecidos ejaculados em peles distorcidas pelo prazer da fome suicida.
Ouvirei gritos na quietude do solo encharcado de sêmen destruído na chuva intermitente.
Não chorarei, não sei chorar, secaram as lágrimas do meu corpo seco e entorpecido.

Desculpem-me os sentimentais, a vida ocorre a cada suspiro da alma
A vida se suplanta a alma entristecida de seus irmãos violentados pela natureza.
Envolvo-me na fímbria dos socorros esgotando minha força de solidário cidadão.
Sou a chuva que desaba encostas
Sou as encostas desabrigadas
Por isso não choro
Vivo os instantes de calamidades
Vivo os sofridos soterrados

Mas, tem sempre um, mas, não é?

Pois é,
Mas é Natal
É sorriso estampado na alma da cidade
Na alegoria da felicidade esbanjando enfeites sonoros
É Natal

Desculpe Marta querida
Desculpe Santa Catarina sofrida

Tenho no acontecer meu sorriso festivo
Tenho nos abraços amigos os inimigos
Nos beijos frios e displicentes
A paz de um minuto de felicidade conseguida

Portanto
Desculpe Marta amiga
Desculpe Santa Catarina

Vivo para sentir o que ainda não senti

sábado, 22 de outubro de 2022

Pequenas histórias 284

 Meus olhos passeiam


Meus olhos passeiam na lentidão do teu corpo que aspira todo o instante da nossa cumplicidade num quarto de hotel barato.
Carregamos a sensualidade na palma da mão abrandando o calor eufórico de estarmos juntos por breves momentos de nossa vida.
Dividimos nossas experiências em outras experiências que catalisamos numa só ao sentirmos os corpos beijando as fibras dos nossos corpos.

Na cadencia leve e suave das tuas mãos procurando as minhas, está todo o potencial único e verdadeiro de existirmos um para o outro.
Regozijamos nossas carnes silenciosas ao espiralar da fumaça do cigarro entre um trago e outro de cerveja.

O relógio marca os instantes de permanência que devemos ficar no gozo de sentirmos eu em você e você em mim.

Saímos para o aroma da madrugada renovado para enfrentar toda a saudade da distância que se interporá entre nós.

Outros dias, outras noites surgirão eternizando-nos historicamente um no outro.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Pequenas histórias 285

 Eduardo pegou a bicicleta


Eduardo pegou a bicicleta e do portão gritou:

- Estou saindo, mãe.

- Almoçou meu filho?

- Sim, mãe.

- Cuidado, viu? Vá com Deus.

- Assim seja, mãe.

Como sempre fazia todos os sábados, depois que deixava o serviço na torrefação de café, almoçava, pegava a bicicleta comprada há pouco tempo para que pudesse trabalhar, e ia se encontrar com os amigos. Essa era a sua rotina semanal.

Descia a rua sentindo no rosto o vento do meio dia arrebatado por uma euforia com que fez largar as mãos do guidão e abrindo os braços gritou com toda a força dos pulmões:

- Vida minha vida eu te amo.

Foi quando do meio do quarteirão viu os amigos a esperá-lo na outra quadra onde tinham marcado o encontro. Lá estava o Japonês, que ajudava o pai na quitanda; o Xavier, que trabalhava na Base Aérea da Aeronáutica de Pirassununga; e o Rafa, o Rafael, que na loja de moveis aprendia a carpintaria com o pai ajudando-o.
- Como sempre atrasado, gritou o Japonês.

- Vamos indo, ele nos alcança, berrou o Xavier.

- Cuidado com o semáforo, vociferou o Rafa.

- Hein, me esperem, suplicou Eduardo.

Mas os amigos não deram ouvidos a ele, se puseram a pedalar rua abaixo. Eduardo já estava no meio do cruzamento quando o amarelo mudou para o vermelho. A sua esquerda apareceu um carro. Pensando rápido, brecou a roda esquerda que, com isso, fez com derrapasse evitando o choque, e, ao mesmo tempo ficou lado com o motorista raivoso:

- Seu moleque quer morrer?

No instante ao perceber que conseguira evitar o atropelamento, soltou o breque, jogou a bicicleta para a direita, endireitou o guidão, e pedalou ligeiro ao encontro dos amigos que ao verem a peripécia que ele fizera, exclamaram todos aliviados.

- Seu maluco.

- Quer morrer doido.

- Vamos embora pessoal.

E assim, todos os quatros desceram a rua para mais uma aventura de fim de semana.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Pequenas histórias 286

 Pirassununga com dois SS


- Pirassununga com dois “SS”, - dizia a enfurecida professora para seus alunos do segundo ano de ginásio - Como podem alterar o nome da nossa cidade! Além do que não há palavra começada com a letra “ç”. Pirassununga é nome Tupi-Guarani e quer dizer: Peixe roncador, isto é: PIRA = peixe, SUNU = barulho (ronco), NGA = lugar - (lugar onde o peixe faz barulho (ou ronca), numa tradução literal).
Baixinha, meio gorda, cabelo primorosamente penteado, percorria em passadas curtas o espaço entre as carteiras despertando os sonolentos. Eduardo com o ombro encostado a parede e o queixo apoiado na palma da mão aberta, tentava, ou melhor, dizendo, se entregava ao sono pouco ouvindo o que a professora dizia.
- Pirassununga, está situada na região leste do Estado de São Paulo, tendo uma posição privilegiada, num eixo de desenvolvimento socioeconômico, cuja distância da Capital é apenas a 207 km, foi desenvolvida pelo braço escravo nas lavouras de café, sendo que, em 1911 foi inaugurada a linha ferroviária que a liga a Cordeirópolis e a Descalvado. Vocês terão que fazer uma redação em que esteja inserido todo o histórico social econômico e cultural da cidade.

- Para quando é esse trabalho, professora? – perguntou uma aluna.
- Vocês devem entreg...

- Edu, pinguço, bêbado, cachaceiro. – o grito vindo do lado de fora interrompeu a fala da professora.

Todos os olhares se voltaram para Eduardo que, sonolento, deu um sorriso amarelo.

- Pinguço? Precisa me contar isso, Edu. O que houve? – perguntou Xavier virando-se para falar com o amigo.

- Silêncio. Eduardo, Xavier fiquem quietos. Não fazem o trabalho e depois ficam chorando por nota.

- Mas, professora o Edu não está passando bem.

- O que ele tem?

- Está bêbado, professora, berrou a menina no fundo da sala.
- Bêbado?

- Não, professora...

- Não quero saber, fiquem quietos...

- Ele precisa...

- Não quero saber já disse.

Nisso soou o sinal anunciando o fim da aula de português. Erguendo o tom da voz a professora tentava fazer-se ouvida.
- Não se esqueçam do trabalho para o mês que vem. Boa noite.
Puxando Eduardo pela manga da camisa, Xavier disse:

- Vamos, agora é a aula chata de francês.

- Não posso, vou estourar em faltas.

Ao mesmo tempo a professora entrou:

- Bon soir, asseyez vous, síl vous plait.

E rapidamente atravessou a sala. Sentou a mesa e abriu a caderneta de chamada.

- Tudo bem, vamos esperar a chamada e caímos fora, tudo bem?
- Certo. É melhor, disse Edu.

Assim que a professora terminou a chamada, Xavier levantou-se:
- Professora?

- Sim! Diga Xavier.

- Podemos ir embora? O Edu não está se sentindo bem.

- O que ele tem?

- Está bêbado, professora, berrou novamente a menina no fundo da sala.
Eduardo raivoso se dirigiu a ela vociferando:

- Escuta aqui sua piranha, se estou bêbado ou não, não é da tua conta. E vê se fecha essa perna que ninguém quer ver sua calcinha suja de merda.

- Ei, que isso? Vão embora, podem sair não se prejudiquem por faltas, hien.

- Pode deixar professora.

- Obrigado, professora.

Saíram os dois. Recebendo o vento noturno, Eduardo se sentiu melhor.
- E aí? O que aconteceu?

- Sei lá.

- Como assim?

- Bebi no serviço.

- No Serviço?

- É.

- Conta então como foi.

- Bom aquele merda do Assef Jorge Alefe e o Juvenal saíram depois do almoço. Deixaram a gente ao deus dará. E tinham deixado também dois garrafões de pinga. Cara! Precisa ver que pinga gostosa. Parecia mais vinho do que pinga. Bom o fresco do Josué foi lá e tomou uma dose, e instigou o pessoal a tomar. Claro, ninguém queria, mas no fim, depois dele tanto instigar, chamar a gente de covarde, você sabe que ele sempre quis ver o circo pegar fogo, não é? E como ninguém queria ser chamado de covarde, foi um, foi outro, foi eu, e quando me dei conta estava bêbado. Não me lembro de nada. Nem sei como começou. Disseram que fiz estrago, chutava pacotes de café, berrava, ria não me deixaram fazer mais nada. Só me lembro do Samuel falando: - Pegue a bicicleta dele e leve ele para casa. Aí, eu disse: - Não estou com a bicicleta. Ela está no conserto. Mais nada lembro. Isto é, lembro que desci a rua colado ao muro do quartel para me orientar. A rua dançava, ela vinha na minha frente e voltava. Pensei vou colado ao muro assim não corro perigo de ir para o meio da rua. Olha como ficou minha mão raspando no muro do quartel. Não sei como cheguei em casa, nem como tomei banho e nem como jantei. Sei que me preocupava para que os meus pais não percebessem, e nem sei como cheguei à escola, quando me vi estava encostado à parede e dormindo.
- Caramba! E agora?

- Agora o que?

- Vão te mandar embora.

- Que nada. Eles precisam da gente. Somos menores e não somos registrados. A única coisa que podem fazer é deixar a gente trabalhando além da conta.

- Como assim?

- Amanhã é sábado não é?

- É.

- E amanhã, como todos os sábados é dia de lavar os carros do miserável Assef, e aí obrigam a gente lavar de cima em baixo o carro, pouco se importando com a hora.

- Entendo.

- Aonde vamos amanhã?

- Talvez na chácara do tio do Japonês.

- E a noite?

- Eu não vou ao cinema.

- Por quê?

- Quero assistir o futebol de salão no Colégio Normal.

- O pessoal vai?

- Não sei.

- Bom, vamos ver.

- Olhe, sei que vai estar lá àquela menina que você vem paquerando.
- Ela vai?

- Ouvi dizer que sim.

- De qualquer maneira vamos ver então. Deixe entrar. Vou direto para a cama. Boa noite.

- Boa noite.

terça-feira, 18 de outubro de 2022

Pequenas histórias 287

 Combinado então


- Combinado, então?

- Sim, combinado, há sete horas na porta do cinema.

- Tchau.

- Tchau.

Assim se despediram ao sair da quadra do Colégio Normal. Logo Edu foi rodeado pelos amigos ansiosos para saberem.

- E então? – perguntou Xavier.

- Vão se encontrar amanhã? – indagou o Japonês.

- Vocês vão ao cinema? – quis saber o Rafael.

- Calma pessoal! Parece que são vocês que estão marcando um encontro e não eu. Sim, vou vê-la amanhã e vamos ao cinema, porque tanta curiosidade?

- Por nada, não, apenas por saber. – disse Xavier.

- É que gostamos de saber que o amigo está namorando.

- E que logo se esquecerá da gente.

- Larga de serem bobos. Vamos tomar uma cerveja e vamos embora que já está tarde.

- Falou e disse. – respondeu Xavier

Enquanto caminhava para casa, Edu foi rememorando a noite maravilhosa, que para ele fora, se para ela não fora não deixou transparecer. Mas acredita que tenha sido. No momento em que entrou na quadra do Ginásio Normal, a primeira pessoa que viu foi ela junto com as amigas. Ela também o percebera e, ao mesmo tempo, se afastara das amigas como se dissesse:

- Quero falar com você. Estou à espera.

Edu fez um gesto de: logo estarei junto a você. E se dirigiu aos amigos.  Cumprimentou todos, e logo em seguida se afastou. Ao se defrontar com ela, sentiu os nervos escondidos tremerem. Procurou agir espontaneamente o mais possível para que ela não notasse o nervosismo.
- Olá!

- Oi.

- Como está?

- Bem, e você?

- Bom... Estou bem, meu nome é Eduardo, os amigos me chamam de Edu.

- Prazer, Edu... Posso chamá-lo de Edu?

- Claro que sim.

- Prazer, Edu, sou a Marta.

- Puxa! Nome bonito.

- Que isso? Sinceramente não gosto.

- Por quê?

- Marta... Não tem pelo de marta?

- Sim, tem.

- É, acontece que não sou pelo, entende.

- Bom vamos dizer que entendo.

Edu notou o gelo se quebrar. Tornaram-se mais íntimo. Foi como se conhecessem por longa data. Diante de Marta, Edu encontrou a desinibição, a leveza de se sentir bem. Por sua vez, Marta achava que estava escorregando num plano liso onde era impossível se segurar. Mesmo assim, deixou-se levar.

Não mais prestavam atenção ao jogo que se desenrolava na quadra e, por sua vez, Edu não percebia os olhares cochichados dos amigos em sua direção. Para os dois não existia mais nada, apenas eles naquela noite imemorável.

No escuro do cinema, a língua de ambos se encontrava numa frenética busca de sentir o gosto de uma e de outra. Edu, assim como Marta, se entregava no desejo queimando os dois. Saboreando a bala ganha dos amigos:

- Um presente nosso para vocês – dissera o Japonês -, dividiam o sabor adocicado da paixão envolvendo-os em gestos lentos e ousado. A bala dançava de uma boca para outra num bailado de carinho úmido ao sabor de línguas sedosas.

- O que foi – perguntou Marta quando Edu se afastou um pouco dela.
- Nada. Não sei, essa bala parece que tem um sabor esquisito.
- Impressão sua.

- É pode ser.

E continuaram no jogo de entrega de carinho um para outro.
- Essa bala está mesmo esquisita – disse Marta.

- Jogue fora.

Marta inclinou o corpo para frente e cuspiu a bala que rolou no chão escuro do cinema indo parar num dos cantos da cadeira. Depois disso, esqueceram a bala e passaram a prestar atenção no filme. Vinte ou sessenta minutos depois, assim que as luzes se acenderam, Marta ao ver Eduardo e logo seguida a si mesma, deu um grito desesperado de raiva. Por sua vez, Eduardo, também vendo Marta soltou não um grito, mas um urro do que propriamente um grito esbravejando:

- Filha da puta, o que fizeram!  Me pagam.

Tanto Marta como Eduardo estava com o rosto, a boca, a testa, o pescoço, os cabelos, a camisa, o vestido, as mãos de ambos, com longas manchas de verde. Enfurecida Marta saiu correndo empurrando os que saiam. Eduardo foi atrás. Alcançou-a no meio da rua.

- Marta, espere...

- Me largue, rilhou os dentes.

- Foi uma brincadeira, espere...

Num giro rápido, ao mesmo tempo em que Eduardo puxava Marta pelo braço esquerdo, a mão aberta de Marta acertou em cheio o rosto de Eduardo. Largando o braço de Marta que, correndo desapareceu no tempo, Eduardo se virou para os amigos que se aproximavam.
- Quem foi o filho da puta que teve essa merda de ideia? – berrou pegando o Japonês pelo colarinho da camisa.  

- A ideia não foi minha. – respondeu o Japonês.

- E de quem foi à ideia?

Nisso a voz de Xavier soou as suas costas.

- Uau! Deu uns amasso gostoso hein!

Nem bem terminara de falar, Xavier sentiu a mão fechada de Eduardo bater em seu rosto, fazendo-o cuspir três dentes empapados de sangue. O corpo de Xavier foi jogado em cima do capo de um carro, para logo em seguida, escorregar e bater com a cabeça no paralelepípedo da rua coalhando seus cabelos pretos de sangue.
Extático, sem saber o que fazer, vendo o amigo caído numa poça de sangue, Eduardo deu meia volta e sumiu na poeira do tempo.
Vinte dias depois, Xavier procurava pelo amigo. Na secretária da escola lhe disseram que ele tinha trancado a matrícula. Na torrefação de café, já fazia vinte dias que não aparecia. Na casa onde morava a vizinha disse que ele tinha mudado para outra cidade, talvez voltado para Rio Claro.

Semanas depois, os três amigos contemplavam a praça silenciosa. Oito horas da noite, o coreto vazio, o alto falante mudo, apenas os três apreciavam a solidão da praça outrora movimentada.
- Pirassununga já é a mesma.

- Há muito tempo deixou de ser aquela Pirassununga que nós conhecíamos. – disse Xavier.

- Vamos lá, tomemos a nossa última cerveja.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Pequenas histórias 288

Castradora


Um dia sonhei em ser médico. Minha mãe disse:

- Como se você tem pavor de sangue, desmaia.


Outro dia sonhei em ser padre. Minha mãe disse:

- Padre tem que vestir saia, não poderá casar.


Depois pensei em ser jogador de futebol. Minha mãe disse:

- Jogador de futebol, se você tem perna torta não sabe nem dominar a bola.


Aí falei que iria ser professor. Minha mãe disse:

- Para que? Pra morrer de fome? Abre os olhos menino.


Entrei na escola de artes plásticas. Minha mãe disse:

- Todo pintor é alcoólatra e viciado.


Então eu disse: vou ser ator de televisão. Minha mãe disse:
- Safado! Para transar com Deus e tudo mundo se nem bonito você é!

Decide ser escritor. Minha mãe disse:

- Quer morrer de fome mesmo, se pelo menos tivesse uma boa letra.

Vou ser militar das forças armadas. Minha mãe disse:

- Para morrer na guerra? Não terá vida nenhuma, será prisioneiro da farda.


Hoje sou miche, prostituto, moro e ganho meu alimento da rua
Em noites frias ou quentes, durmo sossegado sob o brilho da lua
Sou marginal vivo a margem da vida, mas sou feliz
Não tenho mais a minha mãe para tomar conta do meu nariz.

domingo, 16 de outubro de 2022

Pequenas histórias 289

Meus olhos passeiam


Meus olhos passeiam pensamentos nos contornos das vozes ressoando lágrimas metálicas de chuva.
Esparramam-se pelas mesas os papéis no silêncio dos corpos imunizados de amor e saudade.
Colhem-se os frutos nas tempestades do amanhã se esquecendo do passado e arduamente desejando o futuro.

Teu amor se perdeu nos trilhos das árvores ressequidas pelos desejos escondidos.
Não busco o que não tenho por ser preguiçoso e covarde.
Mas guardo o que tenho no escaninho da memória tudo o que me agrada.
Guardo com carinho tudo o que por mim se passou.

Não fomos o que poderíamos ser não por culpa minha ou sua.
Não fomos porque nossos destinos percorreram trilhas insólitas.
Não fomos porque nossas peles se divergiram em outras.
Não fomos porque não somos marionetes do sexo.

Meus olhos passeiam pensamentos no longe de nós dois.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Pequenas histórias 290

É Natal


É Natal...
Transa-se nas coxas a vida farta de alimento podre da fome.
Sorrisos tristes alegram a mesa farta de assassinos
Pela janela dos apartamentos escorrem sangue inocente
Os brilhos dos enfeites escondem o brilho das favelas

É Natal...
Lágrimas prateadas caem do topo dos edifícios
Apagam as pegadas do passado embevecido de luzes
Espocam bolhas nas sete ondas da felicidade esperançada
Iemanjá revela à alegria que não a encontro

É Natal...
Em mil pedaços trincha-se o pernil da família unida
Abrem-se vinhos envelhecidos na labuta do salário mínimo
Beijos em faces enrugadas sugam a vivacidade juvenil
Braços em amplexos cantam hinos ao aniversariante

É Natal...
Repetem-se clichês mecanicamente vazios de entusiasmo
Até mesmo esse poema fajuto não deixa de ser um clichê dele mesmo
Assim mais uma vez fecham-se as cortinas dos festejos e brinquedos
Morremos a cada brinde ao abrir do champanhe barato

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Pequenas histórias 291

Cortou o pedaço


Cortou o pedaço de pizza de camarão com azeitonas verdes e brócolis e, evitando derrubar na toalha impecavelmente branca, com a espátula por baixo, deixou o suculento pedaço escorregar para o prato, onde o garfo e a faca esperavam para entrar em ação.
- Procure evitar muita bebida alcoólica. – dissera o médico.

Mesmo tendo no ouvido o tom da voz evasivamente mecânica do endócrino, encheu a taça de vinho até a borda. Do seu lugar favorito, a mulher o observava com aquele olhar de quem comeu minhoca mal cozida e não gostou. Entretido, não se incomodava em dirigir o olhar para ela, e para que?

- “Nossos olhares não deve se cruzar num olhar só, nossos olhares deve ser para cada olhar o seu próprio caminho.”

 Assim pensando, tomou um longo gole de vinho. Em seguida, se apropriando dos talhares, apreciou lentamente pedaço por pedaço da suculenta pizza. Uhmmm! Que delicia, dizia ao lamber os lábios. Espetou uma azeitona. Quando sentiu o gosto meio salgado, estalou a língua ruidosamente. Depois, cuspiu o caroço da azeitona que bateu na parede a sua frente e caiu na toalha impecavelmente branca. Riu num comprimir os músculos de um lado só da face.
O silêncio entre eles se fazia ouvir nos talheres que ao se tocarem, produziam barulho incomodo ou, da faca cortando a pizza como se cortasse metal resistente.

No segundo gole limpou a taça de vinho, onde no fundo ficou apenas a marca vermelha. Soltou um arroto que não esperava.

- Porco. – disse a mulher do seu lugar favorito.

Não se desculpou, pois achava que não deveria. Terminada a degustação, levantou-se e foi colocar o prato na pia quando a mulher falou:

- Não deixe o prato sujo na porra da pia, não sou empregada de ninguém.
Estando em pé, sem ter ainda colocado o prato na pia, olhou para ela rindo ironicamente.

- É mesmo? Está bem, vou deixar o prato no chão, o que acha?
E enquanto falava soltou o prato que se espatifou em mil pedaços no ladrilho branco da cozinha.

- Agora você não precisa lavar o meu prato. – disse ironicamente com o ar de pouca preocupação.

Dizem as más línguas que a sujeira ficou no chão da cozinha por mais de três semanas, até que ele contratou uma empregada.

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Pequenas histórias 292

Josué foi obrigado


Josué foi obrigado a se abaixar.

- Vamos, filho da puta, obedeça.

Não tinha como não obedecer. Por mais resistência que colocasse nos seus atos foi obrigado, a mira do revolver, ficar de joelhos.
- Isso, malandro, depois você vai sentir o meu, falou?

Josué nada disse, só tinha que se dobrar diante dos fatos.
Vinha pesquisando os movimentos deles dois, Maneco e Dedé, vários dias. Como estudante de policia, escolheu os dois meliantes para sua tese final de curso. Infelizmente por um descuido fora pego e não via, no momento como sair dessa enrascada.
- Vamos logo, Maneco. Quero sentir a boca desse merda em minha glande.
Tendo as suas costas um revolver, Josué se ajoelhou oferecendo-se à braguilha do Maneco que se abria diante dos seus olhos. Nisso Josué viu uma pedra ao lado do pé do Maneco e seu cérebro logo formulou uma maneira de sair da situação.  Maneco já com o membro para fora das calças gritava:

- Vamos, seu merda, se não quiser morrer põem essa boca para funcionar.
Josué lentamente foi se aproximando do membro rijo com os olhos na pedra ao lado do pé de Maneco. Sabia que tinha que fazer tudo calculado, não podia se precipitar. E assim ele fez.

No momento em que sentiu o membro dentro da boca, apanhou a pedra, fechou os dentes com força, se jogou de lado e lançou a pedra acertando em cheio o rosto de Dedé que, com um urro, caiu para traz. Maneco se contorcia de dor numa poça de sangue. Josué rapidamente pegou a pedra e deixou várias vezes cair no rosto de Dedé. Depois pegou o revolver e disparou varias vezes em cima de Maneco.
No dia seguinte ao ler o jornal, Josué deparou com a seguinte noticia:
“A polícia encontrou no barracão das Indústrias de Linguiça S.A dois corpos, o qual tudo indica, briga de viciados. Identificado os corpos como sendo de Maneco e Dedé, dois meliantes procurados há tempos, estavam os dois mortos numa poça de sangue. Depois de uma investigação intensa, há um item que preocupa a policia. Levados os corpos para o médico legista, este confirmou faltar um pedaço do pênis de Maneco, o qual até agora não foi encontrado.”

Josué ficou amarelo. O que? Não pode ser? Na hora será que sua dentada foi assim tão forte que chegou ao ponto de engolir, sem perceber, o pedaço do pênis do bandido? Não esperou por resposta. Correu até o banheiro e vomitou até o que não podia vomitar.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Pequenas histórias 293

 Aos amigos Rascunheiros.


Com o dedo pegou a último pedaço de morango que teimava ficar no fundo do copo. Colocou na boca e, saboreou a macieza da fruta embebida no saquê a ponto de lamber as pontas dos dedos. Decidiu que aquele seria o último copo, no entanto, achou que devia ficar mais um pouco, afinal fazia parte de tudo àquilo que, junto com Savasini e o amigo Bittar, criavam um ponto de encontro poético entre os amigos já existentes nos encontros semanais na Cara das Rosas, os Rascunhos Poéticos, e os amigos que pudessem se associar a eles no El Malak. Pensando assim, pediu mais um copo:

- Bigode, por favor, mande mais um para mim.

- De morango mesmo?

- Sim. Pode ser.

Aquela noite estava sendo mais uma noite especial, como sempre são todos os sábados, apenas que aquela noite estava sendo mais especial que todas as outras. Todos os anos vêm acontecendo na Casa das Rosas, a Haven, e como todos os anos, o grupo foi mais uma vez convidado para participar do evento. A Haven foi criada para homenagear o espaço que leva o nome do poeta concretista Haroldo de Campos.

Relanceou carinhosamente o olhar de uma ponta a outra da mesa e, sorriu mentalmente. Desde que criaram como gostavam de chamar, o pós Rascunhos, a mesa nunca ficou com menos de seis poetas. Isso significava que o projeto estava dando certo. Numa ponta discutiam-se poeticamente a palavra e seus processos criativos, na outra ponta discutiam-se também a palavra, mas a palavra inserida no soneto e suas regras.

Pena que nem todos podiam comparecer com mais frequência. É uma pena que pequenos contratempos obstruíssem os desejos de cada um a ponto de se afastarem um dos outros. É uma pena mesmo, pensou olhando rosto por rosto, onde cada face apresentava seus pensamentos próprios e misteriosos. Tanto ele, como Savasini, criara um elo carinhoso com cada poeta. Talvez, mais o Savasini do que ele, pois o Savasini conseguia dar atenção especial para cada um, ouvindo, discutindo, propondo, aceitando com uma paciência extremosa. Não que ele não tivesse, até que ele tem, apesar de ser uma atenção meio reservada por culpa de um acanhamento que aos poucos estava sendo derrubado.
Assim como ele procurava entender os amigos, esperava que os amigos entendessem seu pavor em falar em público. Por esse motivo é que estava tomando seu último aperitivo e, ao se despedirem na entrada da estação do metrô Brigadeiro, pode observar a reciprocidade da amizade em cada abraço.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Pequenas histórias 294

Passou no banco


Passou no banco e numa operação rápida, mesmo com a série de números necessários que a senha exigia e, a todo o momento ter que introduzir o cartão, a operação foi rápida. Passou no banco para sacar uma quantia em dinheiro para os gastos do fim de semana. Para os gastos mesmos, não era para pagar contas bancarias, telefônicas, Sabesp, e outras tranqueiras quaisquer e muito menos pagar contas atrasadas. Detestava pagar contas atrasadas, principalmente boletos bancários, o que ultimamente quase todas as compras são boleto bancário. E se o boleto estiver com o pagamento vencido, era obrigado a pagar no banco que a emitiu e, não em qualquer banco. O pagamento em qualquer banco é bem mais fácil, mas nem sempre havia um agencia por perto, como detestava isso! E por detestar isso as agencias pareciam que estavam cada vez mais distantes, percorrer longa distância não era sua predileção. Não apreciava andar, mesmo que precisasse, mesmo por ordem médica, evitava andar, fosse longe ou perto. Notava com uma acelerada frequência que perdia a noção do que era longe e do que era perto. O perto para ele traduzia como longe, isto é, andava caminhos estranhos, cheios de curvas, íngremes, esburacadas, às vezes precisava pular a janela da casa do padre, o qual consentia ao mesmo tempo em que perguntava:

- E o padre que era para vir, veio?

Ouviu a resposta sem saber quem dera.

- Veio sim, padre, mas só que era Francês...

Não escutou o resta da conversa, isto porque, ganhou a rua e percebeu que estava na Toca como era chamada a boate na esquina das duas ruas que não conseguia lembrar os nomes. Dentro da boate, corria a solto abraços e beijos e amassos de tudo e de qualquer jeito, e foi então que o grito estridente se fez ouvir.
- Não precisa empurrar se não quer tudo bem, entendo, vou procurar quem me queira.

O que o deixava chateado era a ansiedade da hora, não aprendia a ficar despreocupado com a hora, por isso consultou o relógio incrementado no pulso esquerdo. Uma hora quarenta minutos, nesse instante, meio longe, soou o bip do relógio despertador, caiu em si, o sonho e a realidade estavam muito perto uma da outra, portanto o perto parecia longe e vice versa.

Tuas mãos encobrindo os olhos revelaram teu desespero. Não chorou, não houve lágrimas, apenas o sentir que através dos teus dedos outros olhos te olharam com a mesma intensidade em que procurava esconder teus olhos.

sábado, 8 de outubro de 2022

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Pequenas histórias 296

Às vezes o som


Às vezes o som repercutia forte, prolongado, outras soava chocho, e conforme a curvatura, o som nem se propagava, morria ali mesmo dentro da mão. A mão pousando em intervalos, como seus pés pisando cada degrau, apoiava-se no corrimão metálico e, assim, não se sentia cansado logo nos primeiros lances da escada. Conforme avançava as luzes acendiam tirando o tétrico escuro.
Tomou a iniciativa em subir os cincos lances de escadas para dar uma oportunidade ao corpo de se exercitar. Talvez, poderia não ser de grande valia, mas pelo menos tentava desenferrujar as articulações que nessa altura do campeonato dava indícios de mau funcionamento. O primeiro dia chegou ao quinto lance da escada ofegante, precisou parar um pouco a cada lance da subida. A escada em caracol, para quem não está acostumado, provoca uma pequena tontura, nem tanto para subir, mais para descer, por isso ele apenas subia, evitava descer. A primeira e a única vez que desceu pela escada, chegou ao térreo com tontura sendo preciso se apoiar a parede. Conforme vencia cada degrau foi tomado por um sentimento de terror tétrico.

- Pensou uma pessoa subindo essas escadas, as luzes por um motivo sem explicação não acedem, e essa pessoa, ouviria apenas um som, como esse que vou fazendo com anel batendo no corrimão e provocando esse som que se propaga sem que ela, a pessoa soubesse de onde veria? E para dar maior ênfase no suspense, às vezes parecia que som soava a sua frente, outras atrás dela, até o ponto em que ela parece que vai desmaiar, entrando num transe alucinógeno e pavoroso.

Nisso lembrou-se do hotel Overlook, onde Jack Torrance perde a razão e, dominado pelos fantasmas, passa a perseguir pelos corredores, o pequeno Danny, no livro e no filme de mesmo nome: O Iluminado.

Num momento sem atinar ao certo o que lhe ocorria, viu-se parado prestando atenção no vazio que, tanto descia como subia a escada. Um silêncio aterrador dominou todas as estruturas da escada. Foi então que a luz apagou. A sensação de vazio foi crescendo, pareceu ouvir um leve toc toc de passos na escada. Não tinha a noção exata se estava subindo ou descendo, apenas percebia que o som repercutia com mais força dando indicio, com isso, que se aproximava dele. Não esperou um segundo, nem procurou ver em que andar estava, abriu a porta e...

... Sentiu que alguém cutucava seu ombro.

- Ei, cara, você não está na sua casa, vê se acorda. Está dando na vista...

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Pequenas histórias 297

Conhecer-te            

       
Conhecer-te
Foi algo que nunca imaginei
Algo que realmente impressionou
Meu mundo apático e burguês

Não posso enganar os olhos famintos
A beleza não é o suficiente para me convencer
E o exposto foi justamente o que eu precisava
Foi à porta de entrada para um caminho longo
Onde o que imperou foram experiências
Diversas, intensas, significativas
Cauterizando depressões faciais
Registradas para sempre
Na superfície oleosa da pele

Não sei o que escrevo
Não sei o que escrevo seja verdadeiro
Não sei o que escrevo seja verdadeiro realmente
Não sei o que escrevo seja verdadeiro realmente ao que sinto
Seja realmente o que eu escrevo, entende?

Não entende?
Nem eu
Mas é o que eu escrevo
Escrevo porque há algo que a superfície da pele esconde
Impulsiona-me, isto é, impulsiona esses dedos magros e feios
Longos de trabalhador nada afeito ao rude labor

E nessa ressaca eufórica Natalina
Nada mais tenho a lhe dizer
A não ser que conhecer-te
Foi algo positivamente
Que nunca pensei realmente
Fosse me acontecer

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Pequenas histórias 298

O noivado

 

Como conquistar os familiares da namorada

ou
Como ser agregado sem ser um chato

ou
Como ficar noivo sem interferência alheia

ou

Como ficar noivo sem fazer festa



A árvore, na opinião geral, estava bonita. Alguns até exageravam afirmando que estava mais bonita que do ano passado. Exagero, bonita estava, mas não como os anos anteriores, pois cada ano tinha sua parcela de beleza.

E os presentes? Não podiam dizer que estivessem menos ou mais bonitos que os anos anteriores. De fato, tinha pacotes de todos os tipos, uns mais enfeitados e maiores que os outros. Parecia uma disputa, um torneio para ver quem apresentava o pacote mais bonito do ano. Colocados em baixo da árvore, devido à quantidade, ultrapassava quase o meio do belo cipreste enfeitado.
E as adivinhações corriam soltas entre as pessoas:

- Ah! Este pequeno é de fulano.

- Aquele bonito é do sicrano.

- O grande ali é do beltrano.

- Esse aí é preciso cautela.

- Por quê?

- Não soube o que ele fez o ano retrasado?

- Não, o que foi?

- O ano retrasado não teve amigo sacanagem, só o amigo ladrão.
- Sei, fiquei sabendo.

- Então, o danado colocou na roda uma calcinha vermelha, toda enfeitada, minúscula.

- Queira ver. E quem pegou?

- Fui eu, e ninguém quis trocar comigo, acabei ficando com a calcinha...
- Ah, mas também fiquei sabendo que ele fez uma bela surpresa para a namorada.

- Foi mesmo, isso tiro o chapéu para ele, surpreendente.

- E o que foi?

- Foi uma caixa enorme toda enfeitada com desenhos da Betty Boop cheia de bombons de todo e qualquer tipo, e no meio dos bombons tinha um secador de cabelo, bonito, ultimo tipo e uma bela camiseta. A mulherada ficou babando e os homens com inveja.
- Ouvi dizer que foi um comentário tremendo, não foi?

- Claro que foi. O cara é esperto.

- Esperto? Por que esperto? Não vejo nisso esperteza nenhuma, mas sim, romantismo.

- Digo esperto porque aproveitou o casamento da prima da namorada para se apresentar aos familiares da namorada.

- Ah concordo com você.

- Então, todo mundo perguntava durante a cerimônia quem era aquele rapaz, e na festa ele foi apresentado, causando comoção geral.
- E esse ano o que será que ele vai aprontar?

- Olha não sei, só espero que ele não tenha me tirado.

- Está com medo é?

- Não é medo, é...

- É o que então?

- Sei lá o que ele vai aprontar...

A noite, apesar da chuva que não parava, estava agradável. As conversas rolavam em paralelas, em transversais, os pratos uns mais atraentes que os outros, o chope nos trinques, como se diz na gíria alcoólica, em fim tudo transcorria as mil maravilha.
- Pessoal, vamos começar a abrir o amigo secreto? – perguntou a anfitriã.
E assim, aos poucos o pessoal foi se reunindo em volta da bela árvore abarrotada de presentes. No momento em que todos estavam reunidos, a anfitriã tomou novamente a palavra:
- Pessoal esse ano vamos fazer diferente. Ao invés de adivinhar quem tirou quem, vamos direto, sorteamos um nome e a pessoa sorteada já fala quem ela tirou, e assim sucessivamente, certo?
- Certo – disseram em coro.

Dessa maneira o fulano foi o primeiro sorteado. Ele tirou o sicrano. Este abriu seu presente sacanagem e chamou quem ele tirou e, assim sucessivamente um a um os pacotes iam sendo abertos em meio às gargalhadas, brincadeiras, e piadas proferidas aqui e ali. Por fim, chegou ao que todos esperavam. Chegou à vez de beltrano. No meio da sala, pisando em papéis picados, pedaço de folhas, papelões rasgados, pairou um silêncio absurdo, todos na expectativa aguardavam ansioso quem beltrano tinha tirado. Segurando o enorme pacote, começou:

- Bom... – os olhares recaíram sobre ele – meu amigo secreto não é homem.... – aliviados suspiraram os homens...

- Ainda bem estamos livres.

- Hein, você nos enganou, disse que tinha tirado o...

- É, mas não é meu amigo secreto é uma mulher...

- Ah! Não diga, pensei que fosse um ET – gracejaram.

- Encurtando o suspense...

- Acho bom – gritou uma voz feminina no fundo da sala.

- Isso mesmo, já está demorando – ouviu-se outra.

- Pois bem, minha amiga secreta é...

Silêncio. Todos mudos esperaram o pronunciamento.

- É minha namorada.

As mulheres aliviadas suspiraram e os homens num só voz, gritaram.
- Marmelada, marmelada, marmelada...

Meio apreensiva, ela pegou o enorme pacote das mãos dele, beijando-o na boca.

- O pai, não vê esse despudor na frente de todo mundo?

- Vamos parar com essa beijação.

- Deixe para fazer isso depois que casarem.

Por fim, sem se importarem com as piadinhas, se separaram.
- Espero que goste – disse ele se pondo ao lado.

Ela pegou o enorme pacote encostando ao ouvido como se quisessem ouvir alguma coisa.

- É uma bomba – berrou alguém.

- É uma moto – gracejou outro.

- Não tem nada, está vazio – disse a mãe.

Lentamente abriu o pacote, isto é, a imensa caixa. Dentro só havia papéis picados.

- Em cada lado da caixa tem um embrulho, tire na ordem, e no fundo tem outro, cuidado – disse ele antes que ela enfiasse a mão no meio dos papéis picados.

Em cima tinha um bilhete ao qual ela leu em voz alta:
- Já que estamos em um novo momento de nossas vidas, com apartamento quase pronto, novo, vou te ajudar a enchê-lo.
Primeiramente retirou o embrulho que estava no lado direito da caixa. Tinha um rodo e uma vassoura de brinquedo e um bilhete.
- Com a vassoura e o rodo para você limpar a saudade...

A algazarra foi geral.

- O único poeta aqui é o pai da namorada.

- Que romântico.

- Ei, silêncio, vamos ouvir o resto.

No segundo pacote tinha uma batedeira, também de brinquedo e um bilhete.

- Com a batedeira para você fazer os sonhos que construiremos juntos.
Novamente a algazarra invadiu o espaço numa gritaria só. Foi preciso a anfitriã gritar para que se acalmassem.

- Vamos ouvir e ver pessoal, silêncio!

No terceiro pacote tinha um liquidificador, de brinquedo e o bilhete.
- Com o liquidificador faremos os mais gostosos bolos de amor.
- Mais um poeta na família – gritou uma voz.

- Quando se ama todo mundo é poeta – gritou o pai da namorada.

- Silêncio – pediu a anfitriã.

No quarto pacote, havia um rolo de macarrão, e o bilhete.
- Com o rolo de macarrão, amaciaremos os nós de nossas vidas.
Palmas e vivas estrugiram numa só voz de parabéns.

Emocionado, revelando um nervosismo, ele disse:

- O último pacote esta no fundo da caixa, cuidado.

Jogando os papéis picados para fora da caixa, ela retirou do fundo uma caixinha vermelha de veludo tendo em cima um bilhete:

- Agora só falta casarmos.

E dentro um par de alianças.

A partir daí ninguém mais entendeu ninguém. Abraços e beijos de felicitações correram de um ao outro. Exclamações de admiração foram proferidas, até que a calma voltasse a reinar novamente.
Tempos depois, um pai feliz, tomando seu chope, pensava numa pergunta que, antecipadamente, sabia que não tinha resposta.
- Se trinta anos atrás, seguisse minha vontade e, não a vontade alheia, como teria sido a minha vida de casado hoje?

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...