segunda-feira, 30 de dezembro de 2019


Continuando o aprendizado do aprendiz no mundo quântico
ou
IX Encontro Quântico.


A Ariadne ao cumprimentá-la, ela me disse:
- Aqui você coloca o seu nome para o sorteio dos livros e neste outro o seu maior defeito.
Sem pestanejar escrevi: ansioso e joguei no locar indicado. E qual não foi a minha surpresa, quando a Adriana passou a caixa para retirarmos o que tínhamos escrito eu tirei a palavra: Ansiedade.
- Escrevi ansioso e tirei ansiedade, disse mostrando o papel para a Joyce.
Na sua voz de timbre alegre e contagiante, respondeu:
- Então o pessoal todo está ansioso.
- Por quê?
- Escrevi ansioso e olhe o que peguei.
- Ansioso.
A primeira coisa que me veio à mente foi: não tenho defeito, o que é impossível, não existe uma pessoa sem defeito. Tanto é que as vinte para as duas estava plantado na plataforma da estação Penha do metrô. Cedo, muito cedo, disse para mim mesmo, mas sentia que esse cedo muito cedo era diferente dos outros cedo muito cedo, era como se eu confiante sabia que isso aconteceria, não me deixava com aquela ansiedade angustiosa do que poderia ou não me acontecer, assim consciente, fiquei a observar o vai e vem das pessoas, os que desembargavam e os que embargavam, tudo igual, tudo onda, tudo a mesma coisa e, ao mesmo tempo, diferente um do outro, nos seus modos, no andar, na roupa, no que faziam... se a bateria do celular não estivesse descarregando rápido demais, teria feito uns vídeos ou fotos, a mente não é tão precisa como a imagem. Voltando ao assunto de pessoa sem defeito. Até Jesus tinha defeito, e o seu defeito foi amar a todos incondicionalmente, o que hoje não acontece, porque as pessoas têm medo de morrer.
- E você, ama incondicionalmente?
- Sim amo.
- Então, está vendo aquele morador de rua, todo esfarrapado, sujo, cheio de berebas, vai lá, abrace-o e lhe dê um beijo.
- Ah! Você está extrapolando...
- Isso significa que não ama incondicionalmente.
- Por que você não vai?
- Não vou porque ainda não introjetei em minha carne e alma toda o significado da Mecânica Quântica e suas características para tal ato.
- Fala rebuscado. Porque não diz logo que não tem amor incondicional também.
- Não tenho mesmo e nunca disse ao contrário.
- Medo de morrer?
- Não. Falta de despojamento em tudo e em todos e no nada.
E com esse pensamento tento compor em palavras o ocorrido no último encontro quântico. Aline deu início ao espetáculo, anunciando a meditação conduzida pela Angelina. Momentos de carregar ou recarregar as energias na busca de alcançar o máximo proveito nas palavras que ali seriam proferidas. Assim, quando Adriana – quatro “As” – Ariadne, Adriana, Angelina e Aline – iniciou os estudos sobre o livro do Hélio Couto, Mentes in-formadas, estávamos prontos a captar seus significados e conteúdo que, como sempre, foram bem conduzidos.
E bem conduzidos fomos para – o intervalo ou o depoimento da Joyce? – vou optar para o intervalo, onde o físico foi recarregado com o gostoso lanche preparados por mãos carinhosas e conversas aqui e ali, além de aumentar nossa capacidade quântica aprendendo mais e cada vez mais, os encontros propicia também o fortalecimento das amizades e o conhecimento de novas.
E no seguimento a bela Aline ao propiciar-nos um exercício de mentalizarmos a rosa, nos deu mais um pouco de fortalecimento espiritual e, com paixão anunciou o depoimento da querida amiga Joyce que, no seu falar confiante, expos como chegou a ser terapeuta quântica e os cursos que fez, o orgulho de ter feito parte dos estudos do físico quântico Amit Goswami e os seus pedidos de sinais para o Universo, coisa que já me disse muitas vezes e que ainda não captei direito, pois até agora não consegui resultado, obrigado Joyce por seu depoimento.
Eu não sei vocês, mas a parte mais esperada, não que as outras não sejam esperadas, mas essa parte pode ser a mais esperada por causa dos palestrantes que com seus divinos conhecimentos procuram transmitir com conteúdo um pouco do seu potencial, e exatamente isso o que ocorreu com o palestrante L. C. Freitas e a palestra sobre Mindfulness e Energia Sexual. Estupefato é a palavra, isso mesmo, não sei se mais alguém ficou estupefato com que Freitas expos calorosamente o tema da palestra. Isso de que tudo o que vemos é apenas ilusão da nossa mente eu já tinha lido não sei onde, mas como foi dito naquele dia bem definido, bem explicado, Freitas precisaria voltar mais umas duas ou três vezes e dar continuidade ao tema, pois minha mente estava fervendo ao tentar entender tudo aquilo. Obrigado Freitas por seu carisma e pela bela palestra.
E ao final, Aline apresentou a cantora Aydê que com sua eletricidade nos mostrou suas composições acompanhada pelo violão de João Cássio. Com desenvoltura cantou, creio quatro músicas que me impressionaram pelas letras, principalmente a primeira, achei forte e bonita. Grato Aydê, sucesso sempre.
Assim mais uma vez o aprendiz de Mecânica Quântica participou e registrou o nono Encontro Quântico.
Grato e até o próximo.



imagem: https://osegredo.com.br/eu-posso-criar-minha-realidade-mecanica-quantica-explica-que-sim/

domingo, 29 de dezembro de 2019


Lugar nenhum.


Ao entrar no metrô o amigo gritou:
- Para onde está indo?
- Para lugar nenhum, respondeu.
O Amigo faz um gesto obsceno. Respondeu com outro.
A porta do metrô fecha e ele se senta perto da janela.
Minutos depois cochilava com a cabeça encostado no vidro.
Instantes depois, um solavanco o acordou.
Onde estava perguntou ao ver-se sozinho no vagão.
Ao se levantar o comboio some e ele fica parado nos trilhos da linha.
Nisso ouve uma voz conhecida ao longe.
- Você chegou a lugar nenhum, meu amigo, não é.
E o vê agachado perto do seu corpo entre as ferragens.
Corre em direção ao amigo, mas ele se desmancha em fios de fumaça.



imagem: https://www.canstockphoto.com.br/sono-metr%C3%B4-22422090.html

sábado, 28 de dezembro de 2019


Me perguntaram

- Você é católico?
- Não.
- Evangélico?
- Não.
- Ateu?
- Não.
- Acredita em Deus?
- Sim.
- Qual a melhor religião?
- Aquela que você sente no seu coração.
- Também acredito em Deus. Ele vivia pregando nos morros, nas montanhas...
- Não confunda Deus com Jesus Cristo. Deus é uma coisa e Jesus é outra. Jesus Cristo é um ser iluminado, um ser humano como nós, só que iluminado.
- Ele não é filho de Deus?
Aí fiquei pensando. Se somos co-criador, se viemos ou temos o Vácuo Quântico, o Todo ou Universo ou Deus em nós, somos filhos Dele, se somos Ele e Ele é nós, somos filho Dele.
- Sim, é filho de Deus. – respondi.



https://www.somostodosum.com.br/artigos/psicologia/somos-co-criadores-da-criacao-13842.html

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019


Mictório


No shopping.
O cara entra xingando alto no celular e se fecha num box.
Minutos depois, do box ao lado, sai um cara de fuinha, e bate na porta.
- Escuta - fala quando a porta é aberta e a sua frente aparece um sujeito maior que ele - tudo o que te acontece é por tua culpa, tudo o que fala, pensa ...
Não terminou a frase, sentiu uma pancada na cara fazendo com que batesse no box da frente onde estava um senhor que o empurrou de volta e com isso, bateu a cara na porta do grandão.
Desnorteado, passou a mão no rosto e viu espuma de sangue, desmaiou.
Foi acordar no hospital.



imagem: https://www.istockphoto.com/br/foto/linha-de-mict%C3%B3rios-de-porcelana-branca-autom%C3%A1tica-em-shopping-imagem-borrada-gm838476606-136478071

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019


Os cavardes.


Nunca estamos preparados para o que nos acontece, e, quando acontece nos desequilibramos caoticamente. Foi assim com Daniel. Mas, naquele momento não tinha nenhuma preocupação, isso porque, não pensava no que iria lhe acontecer e, é claro não tinha noção. Depois de mais de trinta anos, tendo apenas casos esporádicos, intimidades passageiras, depois de passar todo esse tempo, na maioria das vezes na masturbação, estaria ele, sendo arrastado novamente ao perigoso amor? Enquanto a língua sedosa da Fabi subia e descia por seu membro, entregava-se ao prazer como a muito tempo não fazia. Xavier que me perdoe, disse mentalmente no instante em que Rodrigo o penetrava num vai e vem lento e carinhoso. Puta que pariu, como é bom sentir outro corpo em meu corpo novamente! Não sentia culpa de estar traindo o seu amor. Seu amor! Quando foi que proferiu pela última vez essa palavra que antigamente fazia o peito estourar de dor. Quando foi? Trinta anos atrás num leito de hospital. Trinta anos atrás quando a vida deu uma quinada de mais de cento e oitenta graus. Mesmo agora, estando com duas pessoas sentiu um frenesi percorrer a espinha ao lembrar de como se declarou ao amigo.

Tudo porque Xavier o arrastou para uma orgia. Não queria ir, mas deixou-se levar. Angustiado, disfarçava a pulsação nas veias bombardeando o coração. Os nervos tensos doíam por baixo da pele. Olhava para a figura a sua frente se oferecendo, sentiu repulsa, não por ela, mas por ele, por ele não querer estar ali naquele momento, por estar fazendo algo que terceiros queriam que ele fizesse e, não o que ele queria fazer. Tentou imaginar Xavier no lugar da moça o que tornou a situação complicada e difícil. A coitada tentava agir conforme sua sofrível imaginação a comandava. Seus olhos fixos no amigo, não prestava atenção na parceira se esforçando o que deu margem para ela perguntar se ele gostava mesmo de mulher, se não era gay. Gaguejando quis saber o motivo da pergunta, o que ela respondeu que ele não tirava os olhos do amigo. Irritado, deixo-a perdida nos pensamentos.

Xavier o encontrou debruçado no balcão tendo ao lado dez garrafas de cerveja e cinco copos que, informados pelo barman, serem de uísque. Xavier pagou a conta e, com dificuldade, arrastou Daniel até o automóvel e o levou para o apartamento. Chegando foi outra trabalheira para tirá-lo do carro, levar para cima, tirar a roupa, enfiar o amigo debaixo do chuveiro, enxuga-lo e colocar o coitado na cama. Enquanto cuidava dele, por várias vezes Daniel pronunciara seu nome dizendo amá-lo. Com o braço apoiado no cotovelo, pela primeira vez, prestava atenção no amigo. Notou os cabelos desalinhados caindo sobre a testa e, com cuidado, ajeitou os fios castanhos para traz. Percebeu o nariz pequeno, os lábios regulares e finos, o rosto meio redondo, a pele amorenada, sentiu um nó na garganta quando Daniel virou a cabeça e se aconchegou em seu braço pronunciando um te amo angustiado. Estava lisonjeado e estranho por descobrir o segredo do amigo daquele jeito. Lhe dava a impressão de estar invadindo a privacidade alheia. E o que ele sentia em relação a Daniel, perguntou passando a mão no peito liso? Foi então que se lembrou de algo. Quando alcançaram a adolescência, nunca mais ficaram nus um na presença do outro. Porque? Gostaria de perguntar, no entanto Daniel dormia profundamente apoiado em seu braço e, lentamente, pendeu a cabeça no peito do amigo e, sem se aperceber, dormiu.

Na manhã seguinte, ao acordar, o corpo estava dolorido devido a longa posição abraçado a Daniel, perguntou o que aconteceria dali para frente. O amigo já não estava no quarto, talvez fora embora, portanto com esse pensamento, se vestiu lentamente, e desceu as escadas. Qual não foi sua surpresa ao ver Daniel tomando café na cozinha. Sentou-se ao seu lado. Olhou para o amigo, tentou dizer alguma coisa... Daniel olhou para ele e pendeu a cabeça em seu ombro. Xavier não perguntou nada e sabia que não deveria perguntar nada, aquele gesto já dizia tudo. Com a mão esquerda, carinhosamente, virou o rosto do amigo e lhe deu um beijo rápido e quente. Daniel, com a mão na nuca de Xavier, puxou-o para si e selou seus lábios. Xavier fez o mesmo engolindo um ao outro para logo em seguida, dando passagem, introduziu a língua na boca do amigo que não demonstrou resistência. Sentia que deveria falar algo, no entanto deixou-se levar, naquele momento não era tão importante as palavras. Nisso, evidenciando descomodidade, Daniel expressou um aí que notado por Xavier fez com que este o levasse ao quarto, onde continuaram se beijando. Agindo sem pressa ou rudeza, jogou-o na cama demonstrando o que queria, foi de botão em botão abrindo a camisa branca de Daniel. De repente, sem que se apercebesse, o amigo retirou de um saquinho pequenas pitadas de pó, depositando na testa, na ponta do nariz, na boca, no umbigo e finalmente na cabeça do membro. Em seguida Xavier foi inspirando e lambendo a droga bem devagar, demorando nos lugares onde a colocou. Daniel, sentindo-se excitado, se entregou deixando escapar, entre dentes um não demore. Xavier sorriu e com os olhos lhe disse, calma amor. Quando a boca do amigo passou do umbigo para o membro, Daniel se segurou o mais que pode sem dar tempo de alertar o amante, ejaculando em sua boca. A princípio, o primeiro jato foi lento e pequeno, mas os outros foram grandes e rápidos. Envergonhado, olhou para Xavier que sorria como se dissesse, tudo bem, isso faz parte do jogo. Dos cantos dos lábios, escorria o leite quente e viscoso por seu pênis umedecendo as virilhas e uma parte da barriga. Logo depois, Xavier se ergueu e o beijou longamente. Agora estamos prontos, ok? ok respondeu Daniel se virando.

Doralice entrou no quarto no momento em que Daniel passava o pano úmido na testa de Xavier que gemia devagar e baixinho. Estranhou a sua presença, pois desde que o amigo caiu doente, foi desamparado por todos, desde os pais, a esposa, até os amigos mais queridos e chegados. Se não fosse ele, Xavier estaria sozinho e abandonado naquele quarto de hospital. Cumprimentou receoso a esposa do amigo, demonstrando o quanto ela era indesejada ali. Doralice notou o desprezo no bom dia de Daniel, não se importou, se ele a desprezava ela também tinha o mesmo sentimento por ele, aliás, pelos dois. No entanto estava ali não sabia o porquê ou do porquê, apenas sentia a força que a obrigava a estar ali, tinha talvez, sem notar a obrigação em contar para Daniel que sabia do envolvimento dos dois. Surpreso Daniel perguntou como sabia e porque ficou todo esse tempo calada e ao lado do marido, desprezando-o justamente no momento em que mais precisava dela. Doralice o amava mais que tudo, mais que a si mesma, e por causa desse intenso amor é que lhe dava forças a continuar ao lado de Xavier. Esse amor dela por ele, e esse amor dos dois, é que fazia com que ela se sentisse feliz e satisfeita, pois toda vez que Xavier voltava para casa após um encontro dos dois, o marido a amava com tanto ardor e paixão que a deixava num êxtase emocional levando-a a felicidade quase suprema. Nunca quis filhos, seria algo negativo, o marido por outro lado não fazia questão em filhos, e ela entendia o porquê, com filhos a relação dos dois iria por água abaixo. Sempre notou que os dois se bastavam um ao outro, o que fazia a duvidar era essa amizade que ia além de uma amizade. Isso foi comprovada numa noite em que ela presenciou o beijo trocado entre os dois ao se despedirem. O que Doralice não entendia é porque aceitavam esse relacionamento desgastante, porque não saiam do armário para morarem juntos!? Covardia, disse Daniel, covardia tanto dele como de Xavier, por outro lado, Xavier gostava também de mulher, não queria machucar os sentimentos de Doralice, ele reconhecia o quanto ela o amava. Quanto a ele, Daniel, era o mais covarde de todos, tinha medo das consequências, de ser desprezados pelos pais e amigos, o que acabou acontecendo. Se você o amava tanto porque o abandonou justo no momento em que ele mais precisava de você, perguntou Daniel. Porque como vocês sou covarde também, respondeu Doralice. Enquanto estávamos só nos três podia aceitar a relação, mas ao surgir a doença me acovardei, não conseguiria, não teria forças, por isso fugi deixando-o nesse leito de hospital, portanto somos todos covardes. Naquela noite Xavier faleceu, parece que estava esperando a confissão de Doralice.

Trinta anos se passaram. Trinta anos cujas imagens e cenas conhecia muito bem. Cenas e atos que ressurgiram com uma transparência que chegava a doer. Estando com duas pessoas desconhecidas, cujos interesses é só e tão somente físico, deflagraram o esquecido guardado. E entre abraços, beijos, penetração, chupadas, a vida passou a sua frente desde o momento da declaração de amor até a morte de Xavier. O que deflagrara tudo isso? Talvez a possiblidade de um novo amor. Não queria acreditar que na idade em que estava poderia vir a amar novamente. Cansado olhou para Fabi. Estava dentro dela e parecia que nunca se cansaria enquanto seu companheiro oferecia o membro para que ela se deliciasse. Foi então que sentado à mesa preferida no restaurante, quando os dois se aproximaram pedindo licença para sentarem. Evitando demonstrar desagrado, indicou a cadeira a sua frente. Estava esboçando uma nova história que viesse a ser melhor que Os Covardes, coisa dificílima, disse para si mesmo. Isto porque, Os Covardes foi uma história arrancada a força onde se expunha em carne viva, e se não fosse a publicação em Na Brotheragem, coletânea de contos coletados pelo amigo Fabricio Viana, ele não teria escrito a história. Os Covardes ganhou vida própria, virou curta-metragem, depois longa metragem, musical, peça teatral, ganhando vários prêmios, estava trabalhoso para Daniel elaborar nova história que superasse Os Covardes. Portanto foi com desagrado que deu atenção a eles.

Estão me propondo um relacionamento a três, é isso, perguntou Daniel. Sim, respondeu Fabi. Somos duas pessoas sem preconceitos e para apimentar ou, talvez melhorar nossa relação, queremos saber se você topa, disse Rodrigo. Modo direto e rude de propor algo. Porque e por qual motivo propunham isso a ele, perguntou, além de serem estranhos para mim. Pela simples razão que conhecêssemos você, disse Fabi, lemos todas suas obras, até os ensaios sobre sexualidade e deduzimos que você é a pessoa certa. Sua apologia sexual, continuou Rodrigo, nos deu confiança... Estão completamente errados, retrucou Daniel, aquilo tudo é apenas maneira ficcional em vender algo, pode-se dizer, algo que o povo quer ouvir, pois o leitor é um tímido inveterado desejoso de ideias, as quais não tem a ousadia e muito menos a coragem de afirmar o que deseja. Talvez até seja, falou Rodrigo. Como psicóloga defino pela leitura dos seus livros, afirmou Fabi, uma teoria em que o sexo seja a principal motivação do ser humano, a sexualidade seja ela como for libertara a humanidade de todo o mal. Não era bem essa linha de pensamento, sim, Daniel achava que tendo a aceitação sexual, livre de qualquer preconceito e tabu, não a sexualidade estereotipada, andrógina e masculinizada ou afeminada, não tinha nada contra, poderia sim salvar, se não a humanidade pelo menos a pessoa. Talvez, por essa perspectiva aceitou o ménage à trois.

Sentia-se cansado. Não sou mais o mesmo, pensou enquanto friccionava seu membro entre os seios de Fabi. Rodrigo entre as pernas, aplicava uma gostosa cunilíngua levando-a gemer satisfeita. Daniel percebia ser impossível se segurar por mais tempo, tanto é que num espasmo jorrou todo o prazer no rosto de Fabi. Ao sentir o liquido quente na pele, soltou um berro estridente, xingado de velho do caralho e sem vergonha ao mesmo tempo se levantava abruptamente derrubando-o por cima de Rodrigo. Horrorizado, viu que junto ao esperma ejaculara sangue.

Quinze dias depois, a mídia anunciava o falecimento do escritor Daniel Corelli, devido ao câncer na próstata.



imagem: https://medium.com/@onurbnairbx/a-covardia-%C3%A9-o-reflexo-reverso-do-espelho-da-coragem-adf5fe264991

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019


A aposta.

A noite parecia prometer. Era aniversário do Marcus e todos estavam ali para se divertirem. A maioria dos amigos dele e, porque não dizer nosso, já que eu estava sempre junto, aliás ele era minha paixão escondida, eu o adorava. Alto, olhos de uma castanho claro fuzilante, boca nem carnuda e nem pequena, nariz no tamanho certo, um corpo esbelto de fazer qualquer um babar ou, se masturbar. Estava tudo às mil maravilhas até que um dia, ao entrar em sua casa, pois tínhamos a liberdade de entrar e sair tanto na minha como na dele, morávamos perto, o surpreendi se masturbando. Não sei se fiquei estarrecido ou petrificado, não pelo fato em si, mas pelo fato de nunca ter visto o membro de Marcus. Tínhamos uma intimidade boa, gostosa até, mas nunca ficamos pelado um na frente do outro, e além do mais, se estava chocado, quer dizer, já tinha visto muitos membros, eu participava do time da escola, e no vestiário ninguém tinha pudor de ficar nu, ainda bem que estudávamos em escola diferente. Não sei se fiz algum movimento ou se minha respiração ofegante me denunciou, ele me viu e logo desajeitado se levantou. Não falou nada, isto é, não falamos nada, um olhando para o outro, quer dizer, ele olhava para mim e eu para o seu membro. Com um pouco de dificuldade, suas calças estavam no tornozelo, se aproximou de mim. Chegou bem perto, pensei que fosse dizer alguma coisa, olhávamos agora nos olhos um do outro. Foi então que lentamente pegou na minha mão e conduziu até o seu membro. Não fiquei surpreendido com tal ato, eu não estava ali, não estávamos mais na casa dele, estávamos num lugar distante, onde não havia nada, era só nos dois e, talvez, dentro de mim já soubesse que algo um dia aconteceria, assim, deixei ser conduzido e fechei meus dedos no membro dele. Ao toque da pele da minha mão na pele macia do membro, senti um arrepio extasiado. Fiquei um tempo apenas segurando o belo mastro até que Marcus com sua mão em cima da minha começou o vai e vem. Eu o masturbava lentamente e conforme seus ais fui aumentando o movimento. Ficamos uns dez minutos assim. Com a mão em meu ombro ele fez pressão para baixo, obedeci e, sem pensar, abocanhei o membro. A princípio meio desajeitado, sem saber como agir e, aos poucos consegui um ritmo agradável. Minha língua passava pela cabeça vermelha e descia até as bolas. Não ousava tocar em outro lugar do seu corpo, não pensava, não ousava pensar.  Não consegui me definir se estava gostando ou não, seguia apenas os gemidos de Marcus, era o que me deixava excitado a ponto de intensificar os movimentos. E no instante em que senti o líquido quente na boca, foi que a ficha caiu. Queria aquilo, mas não dessa maneira e no mesmo instante fui tomado por um senso crítico que me deixou envergonhado. Não olhei para onde cuspi e sai correndo da casa dele. Ouvi seus gritos me chamando, não dei a mínima. Chegando em casa corri ao banheiro, por cinco minutos fiquei escovando os dentes. Escovei os dentes não por achar nojento, e sim, porque não imaginava acontecer o que aconteceu dessa maneira ridícula, indecente. Ficamos quase um mês sem nos vermos. Por morarmos perto eu o evitava, calculava os momentos que soubesse que não fosse cruzar com ele. E esse dia, por um descuido, acabamos nos cruzando. Foi instantes constrangedor, não tinha como fugir, quer dizer, tinha como fugir, eu é que não queria, mesmo evitando-o lá no fundo desejava encontrá-lo. Ficamos nos olhando, a princípio sério, principalmente eu e, sem percebermos, fomos nos aproximando. Quando estávamos perto caímos na risada para logo em seguida nos abraçarmos e ao mesmo tempo um convidou o outro para beber algo. E no balcão do bar, tomando uma cerveja foi que ele me revelou que desconfiava do meu interesse nele. E se desculpou pelo ocorrido, que agiu apenas motivado pelo excitamento sem pensar nas consequências. Confirmei realmente que estava interessado nele desde muito tempo, e naquele dia fugi por sentir vergonha e que não esperava acontecer daquela maneira. Conversamos longamente e não tocamos no assunto de como ficaríamos no futuro, isto é, se seriamos namorado ou não, se esqueceríamos o incidente, não falamos em amor. Nos despedimos, ele foi para o trabalho e eu para o meu. Tudo voltou ao que era antes, tudo normal, parece que foi passado uma borracha, não tocamos mais no assunto, até que meses depois, chegou o aniversário de Marcus. A noite prometia, estava agitada, a maioria dançava e outros na mesa bebendo, conversando. Sentado na poltrona de costas para a pista, bebia pela não sei quantas vezes minha bebida preferida, caipirinha, quando senti cutucarem meu ombro. Virei a cabeça e deparo com um rapaz bonito, magro, definido fisicamente, um sorriso encantador, me convidando para dançar. Não hesitei, me levantei, sem pensar peguei em sua mão e fomos para o centro da pista e dançamos por um bom par de tempo. Ele dançava bem, se achegava em mim, roçava seu corpo no meu, com seus braços em meu ombro rebolava sexualmente com movimentos eróticos e sensual. Eu o acompanhava não deixava a peteca cair, quando olho Marcus e todo o pessoal nos observando. Parei de dançar e fui me sentar, e ao pegar o copo de caipirinha escuto ele dizer ao Marcus: - Ganhei. Pague a aposta. Senti o sangue ferver, me acheguei ao Marcus, com raiva joguei a caipirinha em sua cara e disse: - Seu veado. Porra, te amo. E violentamente o beijei para em seguida apliquei um murro em seu estômago que ele dobrou o corpo e aproveitei dei outro de baixo para cima em seu queixo fazendo-o cair no meio do pessoal que dançava. Me amaldiçoando sai da boate e fui para casa. Hoje completa vinte anos que estamos juntos.



imagem: https://primeirahorasc.com.br/area-52-aposta-em-house-music-e-gastronomia-na-festa-alterna-with-us/

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

o processo


O processo.

Quando eu e o Jorge transamos a primeira vez, ao olhar o membro dele pensei o que a trinta anos atrás tinha pensado quando perdi a virgindade:
— Tenho que pôr a boca nesse membro duro, reto e enorme apontando para cima?
E pela não sei quantas vezes fiz o que tinha de ser feito. Tal atitude não me desclassifica como humano e muito menos como homem, simplesmente porque queria fazer e fiz e, o que fiz foi com paixão, com amor, com afeto, com a troca de prazer e, por que não, felicidade. E esse amor, essa paixão nos conduziu durante, mais ou menos, uns três anos, até que terceiros intercederam e quebraram a harmonia. Naquele dia, que posso dizer ser o último, Jorge agia mecanicamente, não estava ali embaixo de mim, eu não estava dentro dele e, ao pronunciar as palavras, posso dizer que o nosso mundo desabou, mais para mim do que para ele.
— É verdade que vai processar meu pai?
No mesmo instante em que ouvi sua voz raspar a garganta parei os movimentos de vai e vem. Rolei para o lado olhando o teto do quarto. Como soubera não sei, isto é, tinha feito apenas um comentário a respeito, se para ele ou para quem quer que fosse, eu fizera, mas não me passou pela mente concretizar o ato. Claro, o ocorrido me magoou pelo simples fato de ser o pai dele, e ao me perguntar me definiu como algoz.
— Por quê? Você acha que não devo?
— É meu pai.
— E por ser seu pai não devo processá-lo?
— Posso ser sincero?
— Claro.
— Acho que não deve.
— E por que não devo?
— Porque é meu pai, sei que ele é homofóbico, machista, preconceituoso, e tudo o mais e que algumas vezes me fere, mas é meu pai, poxa.
— Entendo. Por me ameaçar com arma, por ter me dado uma pedrada que me deixou desacordado e que precisei levar sete pontos, não devo processá-lo. Ah! Também bate na mulher algumas vezes...
— Não misture as coisas. Ninguém tem nada com o que acontece em casa.
— Realmente, mas é uma pena saber que sua mãe vive caindo de escada.
— Está com gozação? Vou embora.
— Por mim, pode ir, tchau.
E saiu da minha vida. Muito tempos depois soube que se casara, tinha dois filhos e vivia traindo a esposa.
É a vida...


imagem: https://www.areah.com.br/vip/nu-artistico/materia/195325/1/pagina_1/conheca-o-yoga-nu-modalidade-que-esta-fazendo-sucesso-em-nova-york.aspx

domingo, 22 de dezembro de 2019


Neta e avô.


Mais uma vez a neta estava às voltas com sua bateria.
Arrumou duas cadeiras uma ao lado da outra.
Pegou os banquinhos que são mais altos que as cadeiras.
Trouxe a tampa do cesto de roupa para lavar.
E com dois lápis como baquetas fazia seu som.
- Vô canta alguma coisa.


“Meu limão meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
Uma vez tindolele
Outra vez tindolálá”

Dali a pouco aparece com canetas de ponta porosa.
- Vô pinta meu rosto como roqueira.
O Vô pinta como ela quer.
Ai ela que quer pintar e toma as canetas da mão do vô.
- Manoela para de pintar o rosto, menina.
Diz o avô ao que ela responde.
- Vô, você não entende minha vida.
E volta para bateria.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019


O vale dos esquecidos.


Na beira do declive olhava a planície cinzenta que se perdia na imensidão. Como a noite anterior foi a noite mais escura, não se ariscou a sair para caçar, portanto precisava urgentemente alimentar-se. Ao virar a cabeça para a esquerda viu uma pequena agitação. Pensou em descer correndo, mas preferiu esperar, poderia ser uma serpente comedora de olhos, ou uma figura disforme ou, ainda um híbrido. Desceu devagar pisando no pó cinza como cinza eram os dias. Aproximou-se lentamente e constatou ser um híbrido, por sorte a serpente tinha devorado os olhos, cortou a perna, enfiou no saco e voltou ao esconderijo.
Enquanto destrinchava o pedaço de carne entre os dentes, lembrou do dia em que chegou à Terra.
Nesse dia Ricardo, o comandante da tropa ao entregar ele, cochichou no ouvido do responsável ao recebê-lo, o que o deixou intrigado.
Assim que o responsável tomou posse dele, dirigiu-se ao público que esperava à frente de um pequeno palanque e numa voz gutural, atropelada por cacoete, disse:
-  Vejam o belo humanoide que vocês podem saborear de toda as maneiras, tanto como alimento como sexualmente. Quem vai querer?
E com uma expressão de horror viu as mais diversas formas se aproximarem para avaliá-lo. Eram figuras mais horrível que a outra, havia algumas que não apresentavam tantas deformidades, mesmo assim, eram horrendas. De repente ao ergue o olhar viu uma figura feminina atrás de um pilar meio que escondida. Nisso o grandalhão o empurrou dizendo:
- Ninguém o quer, então vamos jogá-lo no Vale dos Esquecidos.
- Vale dos esquecidos, gritaram todos.
“Quem seria aquela figura feminina?” Perguntou a si mesmo enquanto era arrastado.
Precisava arrumar uma maneira de ir ao povoado e descobrir quem era e talvez, solucionar o do porquê foi jogado na Terra sem julgamento. Como os enjeitados eram despejados no Vale precisava ficar de olho para saber onde isso acontecia e, quem sabe, roubar o veículo ou obrigar a ser levado ao povoado. E com esse pensamento passou dias planejando. Numa manhã mais cinzentas que as outras manhãs a procura de alimento, ao sair detrás de uma rocha viu luzes ao longe.  
Sorrateiramente, se aproximou procurando não ser visto. O que viu deixou excitado. Era o veículo que trazia os enjeitados. Se aproximou mais um pouco. De repente a sua frente surgiu a figura feminina que vira no povoado. Em seguida sentiu uma pancada na nuca e caiu desmaiado.
- Coloquem no veículo e vamos embora, disse a figura feminina.
Levantando poeira cinza o veículo sumiu na imensidão.



terça-feira, 17 de dezembro de 2019


O vizinho chato.


Ela ouviu, quer dizer, ouviu seu nome em bom tom vindo da parte da frente da casa. Logicamente reconheceu a voz, o timbre e a sonoridade das palavras e, sem dificuldade, numa raiva, porque ele não lhe dera atenção, disse:
- Falei que é perigoso e mesmo assim subiu na laje por um capricho leviano. Ah! Ele não sabe, venho a muito tempo esperando algo acontecer, um acidente que seja, qualquer um, e ficar livre desse peste. Infelizmente, de onde ele está pendurado, poderá apenas quebrar a perna, o droga, não tenho sorte. Mas não vou socorrer, ele que se ferre.
E assim, continuou fazendo o que fazia, esperando-o se esborrachar no chão, pena que só vai quebrar a perna, se é que quebrará, bicho ruim tem sempre sorte, pensou ao abrir a torneira da pia. Lhe disseram:
- Porque não se separa?
- É, larga ele, os filhos já estão grandes, sabem se virar sozinhos.
É separar, os filhos grandes se viram sozinhos, quase riu na cara delas. Enquanto a água escorria o detergente da panela, sorriu como não pode daquela vez na frente das tias. Separar! Se soubessem que foi ela que procurou essa situação a chamariam de louca, e, quanto aos filhos... gargalhou sem emitir som, coitados, não amarram nem o cadarço do sapato quanto mais viverem sozinhos. A filha não sabe nem fazer um simples café, pedia-lhe a todo momento sua opinião para isso ou para aquilo, perguntava se podia fazer aquilo ou isso, aos vinte e dois anos só não limpava a bunda dela talvez por vergonha; o filho era ouro traste, nunca vira o tranqueira com namorada, achava até que fosse gay, um veado, não tinha perspicácia nenhuma, vive pedindo dinheiro ao pai que promete não dar mais, e sempre que o filho pede puxa da carteira. São todos uns zé ninguém...
- Não ouviu eu te chamar?
Assustou com a voz do marido a suas costas, o prato bateu na pia e quebrou.
- Não ouvi, não. O que aconteceu?
- Imprestável, isso que você é. A escada caiu ao descer da laje e fiquei pendurado, se não fosse o chato do vizinho me ajudar teria caído.
- Nossa! Desculpe, não ouvi não.
- Merece mesmo uma surra.
E lascou uns tapas na esposa que largou o que estava fazendo procurando se defender. Dos tapas seguiu-se os murros jogando-a contra as cadeiras e mesas. Em outros tempos a excitação cresceria entre os dois e, da surra, passariam para o ato sexual não importando onde estivessem ou não, era algo animalesco, desenfreado, deixando-os exaustos e satisfeitos, mas atualmente não acontecia o ato sexual, era apenas a surra. E ali no chão da cozinha, num silencioso choro amargurado ela ficou. Tempo depois, ao se levantar se arrumando para continuar o que estava fazendo, o marido passou pela cozinha dizendo:
- Vou sair. Não me espere, vou demorar.
Vai encontrar-se com a amante, pensou e se aterrorizou, pois deu-lhe a impressão dizer mentalmente alto. Instantes depois o marido passar por traz dela.
- Esqueci a chave.
Assim que ele com a chave na mão sai da cozinha, ela pega o facão do escorredor e vai atrás dele.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2019


Onanismo


Aos primeiros acordes de O Messias, de Handel o corpo vibrou em sintonia com a música. Cinco minutos depois os braços se descolavam do corpo. Quinze minutos o corpo flutuava acima da cama. Vinte minutos girava em todas as direções, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de ponta de cabeça. Da boca saiam palavras desconexas sussurradas. Suava, e no meio da música, quando o coro soou o aleluia, soltou um grito e em seguida, desabou na cama suado e banhado em esperma. Resfolegava, o peito subia e descia. Assim que se sentiu calmo, levantou-se, desligou o som e entrou no banheiro.



imagem: https://vertentedopensamento.wordpress.com/2016/10/24/paixao-e-onanismo/

domingo, 15 de dezembro de 2019


Peraltice

Luz e Sombra viviam brincando pelos montes, prados, campos, montanhas, florestas, pântanos, numa algazarra sem fim. Luz não conseguia alcançar Sombra, por mais que corresse a Luz se escondia nos lugares mais inusitados, debaixo das pedras, debaixo das árvores, cavernas, poço, nas florestas, até na água ela se escondia. Muito rápida não tinha chance de a Luz alcançá-la. Um dia, os Deuses cansado daquela bagunça e, com inveja da jovialidade, sentenciou um castigo eterno para os dois.
Sombra ficaria parada das dezoito horas até as seis horas e, a Luz ficaria das seis horas, até as dezoito horas.
Sombra teria como símbolo a Lua e a Luz o Sol. E assim, nasceu o dia e a noite. As vezes pode se ver a Lua de dia com saudades dos tempos em que brincava com a Luz.


imagem: https://pixabay.com/pt/photos/luz-e-sombra-cerca-zen-luz-sombra-874528/

sábado, 14 de dezembro de 2019


Plágio


Era para ficar um mês como hospede e já estava a mais de seis meses. Desde o dono, passando pela mulher e filhos, até a empregada o achavam indesejado. Porém, quando foi embora, um vazio estalou na casa e nos habitantes. E cada um procurou preencher o vazio. O dono abandonou tudo, virou ermitão. A mulher passou a “caçar” garotos nas esquinas da vida. A filha se internou no convento de freiras. O filho virou um existencialista soberbo que ninguém o topava. A empregada, católica praticante, virou benzedeira e milagrosa. Um ano depois, ninguém mais se lembrava dos moradores daquela casa. Dois anos depois, a casa abandonada foi demolida e transformaram o local num estacionamento.




imagem: https://blogdopedlowski.com/

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019






Previsão.

Abriu o jornal. Seção horóscopo: Nesse dia lindo a vida é determinada por uma bola... Foi almoçar. Ligou o rádio no Omar Cardoso que com sua voz potente profetizou: Com a luz radiante em Marte, a vida será conduzida pela cor preta... À tarde o amigo o convidou para uma partida de sinuca no bar do Redondo. Faltava apenas a bola preta para ser encaçapada. O amigou mirou e... o taco... rasgou o pano verde... e quando percebeu a bola preta voou em sua testa derrubando-o e ao cair bateu a cabeça na quina da mesa, e assim, nesse dia lindo onde a luz radiante em Marte conduziu o seu destino...




Imagem: https://pt.dreamstime.com/

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019


40 anos.


Disseram:
- Foi avisado, não foi?
É foi, não deu importância, agora estava todo lambuzado. O que fazer? Perguntou a si mesmo. Precisava chegar logo em casa, tomar banho e tirar essa meleca do corpo, principalmente a gosma branca. Mas, ao virar a esquina, distraído, trombou com um senhor e foi ao chão.
Ao se levantar notou que o chão era de madeira. Se apoiou em algo macio. Assustou-se, era a sua cama. O que? Sonhava e caiu da cama. Olhou-se. Estava todo lambuzado. Droga!
- Preciso ir ao médico, na minha idade ter ejaculação noturna não é normal.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019


Tédio.

Preciso pegar o bus. Sorrio.
- Por que está rindo?
Diz ele olhando-me nos olhos.
- Nada, respondo intensificando os movimentos.
- Idiota.
Nisso, a explosão joga um contra o outro.
Caímos contra a parede. Nos olhos dele vejo satisfação.
- Que viagem, diz.
Quieto, recebo o brilho dos seus olhos.
Fecho os meus. Baseado nos lábios.
Estendo o braço e o bus para.
Subo e olho o papel. Estou longe.
O bus anda por ruas esquisitas.
Desço. Me vejo de cueca. Sinto-me vexado.
Tenho que chegar logo e não chego.
O alarme apita.
Levanto-me. Tomo café. Saio.
De novo estou no bus.
Para onde vou?
Serviço ou casa...
Não sei.
Viro-me na cama.
Mais uma vez tento dormir.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019


Romeu e Julieta.


- Verona, vai ver o humano?
- Vou, pai. Por quê?
- Não é o certo.
- Só porque os outros dizem...
- Sim, e...
- Ah, já sei. Por que temos sexo diferente?
- Bem... sabe...
- O que, pai? Por que ele tem pênis e eu não tenho vagina? É por isso?
- Isso não é o certo, é errado.
- O que é certo? O que é errado? Se amamos não há nem certo e nem errado.
- O que dirão?
- Não estou nem aí... o amor não vê sexualidade.
E saiu raivosa.
Instantes depois bateram na porta.
- Encontraram minha filha?
- Sim. O encontramos algemados na escada da piscina. Morreram afogados.

domingo, 8 de dezembro de 2019


Sedução.

                                           Deixe a luz do sol entrar.
                                                Cristiano Contreiras


Há vinte anos atrás, mais ou menos, dois olhares se cruzaram por sobre vozes, cabeças, pessoas, e timidamente se aproximaram.
Ele, um jovem de seus vinte anos, sonhador, esperançoso, confiante se apresentou.
- Olá, prazer.
Ele, maduro de seus quarentas anos, cheio de dúvidas, não muito confiante em si mesmo, desconfiado, retribui o cumprimento.
- Olá, prazer.
Hoje, vinte anos depois, maduro, jovem de seus quarenta anos, senhor de si, feliz, ele sabe o que quer da vida.
Ele, hoje idoso, com seus quase oitenta anos, não tendo mais dúvidas nenhuma, confiante em si mesmo, relembra o esquecido.
Não deixaram a luz do sol entrar em suas vidas.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019


Selfie


Quanto mais gritava, mais o bicho a envolvia. Pedia socorro, se debatia, de nada adiantava. Todos estavam preocupados em tirar selfie. Com os celulares em punho, se colocavam na melhor posição, teve um que chegou perto demais quase foi pego pelo animal. Aliás, ninguém sabia dizer que monstro era aquele, cobra, jacaré, aranha gigante, formiga descomunal, não tinha uma definição certa. Foi recomendado não foi!? Quem mandou ficar perto demais do rio. O pai desesperado, corria de um lado para outro apelando ajuda, e ninguém lhe dava ouvidos, chegou a ter ousadia de arrancar o celular da mão de um rapaz, não teve sucesso. Foi empurrado caindo sentado no chão. Sem forças só restou chorar pedindo ajuda aos céus e santos de sua fé. Nisso, num estrondo ruidoso, o monstro com a garota, deu um enorme salto e sumiram nas águas barrentas do rio. O pai levantou-se e gritou com todas as forças do pulmão:
- Rogo uma tremenda praga a todos vocês, tenham seus celulares o mesmo destino que teve minha filha.
Assim que acabou de falar, os celulares, numa coreografia ensaiada voaram direto para o ponto onde a garota e o monstro tinham desaparecido. Um deles, com grande esforço, arrastava o dono junto que não queria largar o seu precioso objeto. Quando o último celular sumiu nas águas barrentas, se fez um silêncio estarrecedor. Logo foi quebrado por uma voz raivosa:
- Ele é o culpado. Foi ele que rogou a praga e agora estamos sem celulares. Joguemos ele no rio junto com a filha.
E foi o que fizeram, jogaram o coitado nas águas barrentas do rio. Não sabendo nadar e, se conformando com o seu destino, deixou-se ser engolido pelo rio.
- Vamos embora pessoal, não temos mais nada que fazer aqui. Amanhã compramos novos celulares e melhor.
E, assim fizeram. Instantes depois, reinava o silêncio da natureza.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019


Sociedade.

Descobriram-se quimera. Bolaram um plano. Pequenos roubos. Nada de assassinatos. Mas um dia...
- Queiroz, ouviu o jornal da manhã?
- Ouvi.
- E o que me diz.
- Não era minha intenção...
- Porra, o que conversamos?
- Fui visto, não pude evitar.
- Tem que fugir.
- Como?
- Quem manda não pensar. O pior é que eles estão relacionando os casos e chegando à conclusão de que foram cometidos pela mesma pessoa, apesar do DNA diferentes. Toma, dinheiro para pagar o helicóptero, fuja, me viro aqui.
- Está bem, cuidado.
- Pode deixar. Se cuide também.
Marcos arrumou tudo para não levantar suspeita. Horas depois, bateram na porta. Eram dois policiais e o delegado.
- Onde está o seu amigo, o Queiroz?
- Por que estão atrás dele?
- Pelo assassinato do vigia.
- Assassinato!
- Não se faça de inocente. Sabemos que ele é uma quimera.
- Quimera?!
- Pessoa que tem dois tipos diferentes de DNA.
- Não o encontramos, delegado – disseram os policiais.
- Não sei como fugiu, mas vamos achá-lo onde ele...
Nisso o jornal televisivo anunciava a queda do helicóptero informando que, tanto Queiroz como o piloto, não sobreviveram.

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Um ano depois, Marcos vendeu tudo e viajou.

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Apesar do chapéu mexicano que não o protegia do sol, ele não parava de lavar o carro. Nisso ouviu buzina.
- Marcos!? O que faz aqui, não foi o que combinamos.
- Eu sei, me desculpe, não aquentei ficar preso.
- E esse foi o seu erro, Marcos.
Sobressaltados, viram o delegado se aproximando.
- Delegado!
- Sabe, o plano até que estava perfeito, o erro foi não suportar a angústia da solidão.
- Mas, como nos achou?
- Coloquei um localizador no teu carro, Marcos.
- Como não desconfiei.
- Outro erro.
- E o que vai fazer, delegado?
Perguntou Queiroz.
- Ainda não sei. Dependerá de vocês.
- Como assim, delegado?
- Se o Quimera voltar a agir serei obrigado a denunciá-lo...
- Garanto que não agirei mais, já temos o suficiente...
- Porque toda essa bondade, delegado.
Perguntou Marcos.
- Me aposentei, estou cansado de crimes, bandidos, roubos e, por outro lado, não sei por que, gostei de vocês e do plano que bolaram, quase me enganaram com esse acidente. Estava acreditando.
- E o que fez mudar de pensamento.
- Não sei, talvez intuição...
- E o que vai fazer?
- Ficar no meu canto e viver o que me resta.
- Fique com a gente.
- Não quero atrapalhar a vida de vocês.
- Então até a vista, delegado.
- Até a vista, rapazes.
E ao mesmo tempo que o delegado se afastava, a palavra: “The End” surgiu na imensa tela do cinema.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...