sábado, 30 de abril de 2022

Sacoleira.


Lena pegou das mãos da vendedora a sacola. Satisfeita disse:
- Obrigada, para a vendedora que retribui num sorriso pétreo de tédio.
- De nada, volte sempre.

Lena conhecia bem esses sorrisos pétreos, acostumada não dava importância, mesmo assim desejava sempre:

- Bom trabalho.

Puxando a porta de vidro fumê, recebeu no rosto o sol das quatorze horas. Tirou da bolsa o Ray-ban enganchando-o sob o nariz retilíneo e perfeito. Antes de levar a perna direita para o primeiro passo, em frente à porta da loja, olhou para os lados. Primeiramente para a esquerda, depois para a direita. Dava sinais de indecisão. Na verdade não sabia para que lado se dirigir. Sabia que tinha de andar, sair dali, caminhar, ir para outro lugar. Para onde deveria ir, perguntou no sossego dos olhos. Talvez, ir em frente atravessar a rua, pegar o outro lado da calçada. Será que daquele lado há alguma coisa interessante? Para responder teria, logicamente, de atravessar a rua. Foi o que fez no semáforo que naquele instante, parecendo até magia, abriu.

Assim que a sola do sapato de couro – ninguém saiba, imitação – imprimiu o peso todo do corpo na calçada de pastilhas irregulares, sem ter a noção de quanto era perdidamente consumista. Alguém já lhe dissera o que não acreditou. Não tinha nenhuma compulsão por nada. Vê se pode, uma mulher como ela, compulsiva por comprar simplesmente por comprar.

- Você é uma sacoleira, dissera um colega de serviço.

Retirando de baixo da mesa umas quatro sacolas, cada uma com emblemas de lojas diferentes, soltando um riso sem graça, saiu da sala sem saber o que responder.

Como poderia explicar? Não tem como! A paixão por sacolas, papel de embrulho, etiquetas, o sair e entrar em lojas, o pechinchar, regatear, falar com vendedoras, algumas sem conhecimentos específico do que estava vendendo, o ficar à espera na loja, era algo assim, quer dizer, para ela não havia definição. Comparam-na com cleptomaníaco. Talvez. No entanto não ligava nada para isso.
Consultou o relógio. Tinha mais de duas horas. Nisso em frente à vitrine de calçados, seus olhos fixaram-se num gracioso e bonito calçado. Não era propriamente um calçado. Era uma sandália de couro brilhante cinza. As tiras cruzavam o peito do pé. O salto de uns três ou quatro centímetros atiçava os dedos na ânsia de se enfiarem por entre as tiras. Olhou bem, uhm sussurrou entre dentes. Não resistiu. Entrou na loja. Vinte minutos depois, saia com mais três sacolas.

Consultou o relógio acima da porta do banheiro. Faltavam cinco minutos para o expediente terminar. Seis sacolas estavam em baixo da mesa esperando-a. O problema não era aguentar as sacolas penduradas no braço ou na mão. O problema era enfrentar o metrô com os empurra e empurra, cotoveladas, enconchadas e tudo mais. Às vezes até conseguia tirar umas lasquinhas das enconchadas, mas na maioria ninguém estava aí para ninguém.

E o outro problema, talvez maior que todos, explicar ao marido essa sua ânsia compulsiva de comprar por comprar. Mas quem disse que ela comprava por comprar? Imagina, o que ela comprava é porque precisava, tinha necessidade. É como ter prazer intenso a ponto de se sentir sexualmente completa e satisfeita. E como poderia explicar isso ao marido?

Assim que entrou no apartamento, jogou as sacolas no sofá. Cansada, dirigiu-se ao quarto. Com as pontas dos dedos, tirou o sapato jogando-os longe. Abriu a porta do guarda roupa. Ao mesmo tempo levou um susto, aterrorizou-se ao ver-se refletida no espelho, quer dizer, não com ela, mas com o que aparecia atrás dela. Lentamente, virou-se e o que viu foi como um grito rasgando à tarde que dava passagem para a noite.

O quarto, as paredes, os móveis, as cortinas, o assoalho, até o marido que no meio do quarto a observava aterrorizado, estava virando sacolas e mais sacolas de diversas lojas. Quando percebeu, foi engolida pelas grandes e pequenas sacolas nada mais restando daquilo que ela fora.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.780(2022)

                                

            Não sei por que as palavras ficaram no silêncio de nós dois no tempo que juntos estivemos. Tudo expressado nos movimentos das mãos e nos beijos ansiosos um do outro. Lábios que não souberam dizer carinhos e muito menos aconchegos. Mudos permaneceram em nossas peles excitadas em termos um ao outro sem percebermos que, dizer o que sentíamos também era importante. Assim na mudez acreditávamos que era o suficiente.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 26 de abril de 2022

Ele próprio.


Nublado o dia avança pelos abismos da temperatura baixa aquecendo corações gélidos.

O dia avança seguindo compassos despejados de configuração certa para uma firmeza concreta.

Seguindo os compassos, a harmonização, de maneira certa, realça a melodia dodecafônica onde o que brilha é a própria beleza de ser.
Os compassos harmonizados seguem a partitura dos sentimentos carregados ora de ódio, ora de ternura e ora de compaixão.

Harmonizados ao seguir a partitura deixa de ser o que são para se tornarem outras harmonizações talvez mais amenas.

Seguir a partitura, disse a si próprio, deveria seguir ou deveria seguir o que dele queira ele seguir?

A partitura, disse a si próprio, é somente um apêndice da vida para que se sobreviva, como apoio, nada mais.

Disse a si próprio, e quantas vezes repetiu que não deve se preocupar com si próprio, apenas onde seus pés pisam.

Quantas vezes, disse sem que ouvisse sequer uma resposta concordando ou não.

Disse e dirá tantas vezes necessário for, seja o dia nublado ou não, estará sempre avançando pelos abismos da temperatura baixa para se sentir ele próprio.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.779(2022)

                                

            Não tenho a esperança de que me deixava confiante e concreto. Acho que nunca tive, apesar de ainda possuir a concretitude de ser. Também, não tenho a ansiedade perigosa que me levava aos caminhos tortuosos. Nada mais tenho a não ser a distância que nos separa, onde me escondo os sentimentos em palavras que se apagam ao mesmo tempo que surgem na raiva veloz do vento suave do outono. Palavras fracas sem expressividade, sem a doçura da agulha a espetar a carne. Cercado por sons e imagens ao qual invoco palavras obscenas para descrever o que se passa comigo. No entanto a irrealidade toma conta linearmente em tudo numa assombrosa rapidez desaparecendo ao mesmo tempo. Talvez, descubro enraivecido que desejo um drama brega em que eu possa dizer: TE AMO.

            É isso... ou, não é?

domingo, 24 de abril de 2022

Viva a vida feliz.


A vida é mais feliz com Coca-Cola.
Foi o que leu no caminhão todo vermelho estacionado a sua frente.
Ao lado um menino de olhar embevecido tentou se aproximar.
Os carregadores desciam os engradados do caminhão e amontoavam na calçada.
O menino se aproximou, estendeu a mão logo repelida por um dos carregadores:
- Tire a mão daí menino.
Nisso, um senhor que observava, chamou o menino.
De onde ele estava não podia ouvir o que diziam.
O senhor chamou o garçom.
Logo em seguida o garçom trouxe uma garrafa pequena de coca-cola.
O senhor das mãos do garçom passou a garrafa para o menino.
Os olhos dele, pretos brilhantes se iluminaram mais ainda.
Ouviu o agradecimento dele ao senhor.
Todos feliz, com a garrafa nas mãos, o pequeno desceu a Rua Augusta como se fosse o único na face da terra.
Foi então que ele constatou.
Aquele menino era mais feliz que ele.
Entornou o último gole de caipirinha goela abaixo.
Chamou o garçom, pediu a conta, pagou e, se levantou subindo a Rua Augusta, solitário e perdido em pensamento no meio da multidão que não estava nem aí com o que ocorrera.

sábado, 23 de abril de 2022

Traços



Sentado nos riscos da rua
Emparedado nos retorcidos ferros
Na frieza do cimento aquecido
Tristemente vejo a alma nua

Solidão minha companheira
Opressiva nas linhas horizontais
Assanhadas nas linhas verticais
Vivo a vida nada verdadeira

Solidão sentimentos que aperta
Oprime, descontrola, desconcerta
Retilínea sem um rumo certo

Sentado nos riscos da rua
Tento arrumar o desacerto
Sentindo na pele o beijo da lua

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Trova


No brilho do teu sorriso
A luz da eternidade
Ilumina meus passos
Ao abismo da felicidade

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Nada a lembrar

Sonolentos os olhos lacrimejam tédio
Escorrendo pela face à vida macerada
Entre escombros gritos e surdos silêncio
Ulcerando o estômago de raiva e néscio

Ouço palavras vazias invadirem o cérebro
Ouço lamurias retorcida em aço e ferro
Propagando sons indistintos nada proféticos
A vociferar doces e infindáveis impropérios

A nicotina entre os dedos amarelos fustigados
Guarda rancores pelos pulmões escarrados
Profetizando dores em muros de lamentações

Entre picos e vales e angústias e aflições
O que nos resta é apenas duras frustrações
Se não temos nada, nada é pra ser lembrado


Pastorelli /Jean de Queiroz


quarta-feira, 20 de abril de 2022

Estevam.

 

Ao apertar o botão ao lado da palavra chocolate, e, logo depois ouvir a máquina pondo sua engrenagem em funcionamento, teve uma ligeira insatisfação que, lhe pareceu, fora de propósito. Retirou o copo assim que o aviso sonoro anunciou que o chocolate estava pronto. Mexendo com a paleta própria para isso, se dirigiu a sua mesa de trabalho.

Precisava criar uma personagem. Uma personagem forte, decidida e colocá-la numa história que prendesse a atenção de todos. Talvez, um sujeito sabendo que tem pouco tempo de vida resolve fazer algo extravagante, inusitado, matar por exemplo. Pode parecer que estivesse imitando Patricia Highsmith. Sim, até poderia, mas a sua personagem não tem a característica de Jonathan, personagem de O Jogo de Ripley. Enquanto Jonathan não sabe o que lhe acontecerá, coisa que o leitor ao progredir na leitura vai imaginando, o personagem dele sabe o que lhe acontecerá. Sabe que deve por em prática o plano bolado. Apenas precisaria colocar um toque de Albert Camus ou, talvez mais superficial, tipo Stephen King.
E ao mencionar a si próprio refletido no espelho, um arrepio percorreu o corpo dando-lhe mórbida satisfação. Só precisara definir a vitima. Um desconhecido? Não, não teria prazer nenhum. Prefere uma pessoa conhecida. Uma pessoa chegada a ele, uma pessoa... Não sei, gritou abafando o grito na garganta. Velho? Seria fácil demais. Tem que ser mais jovens, aliás, velhos não transam como os jovens, disse sorrindo ao lembrar-se de duas pessoas idosas beijando-se despudoradamente. Não soube explicar, mas a cena revirou o estômago. Tudo bem continuou pensando, tudo bem, eles também tem desejo, necessitam de sexo como qualquer outra pessoa. Não, velho, pessoas idosas não tem nenhum prazer. Não oferecem resistência suficiente. É preciso um jovem, forte, que ofereça resistência, que desse prazer em concretizar o ato. Todo ato deve ser seguido de prazer. Pois concretizar um ato sem prazer, é como beijar mulher feia, disse ao fechar a porta do guarda-roupa.
Estevam, nome provisório, estava com os dias contados, dissera o médico. Contados em anos, dois anos, fora categórico o diagnostico, se por sorte ou por uma advertência milagrosa, coisa que era impossível de acontecer, talvez chegasse a quatro ou cinco anos, mais que isso difícil. Claro, como todos os seres, abstrato ou não Estevam entrou em pânico, em estado de choque por vários dias, como um autômato andava de um lado para outro não se importando com nada. Assim ficaria se não tivesse acontecido uma reviravolta em seus pensamentos. Foi, vamos dizer algo despertou dentro dele dizendo que poderia e, o que era melhor, deveria fazer o que entendesse. Sempre foi um cara além do seu tempo, tendo passado por diversas e esdrúxulas experiências, começou a matutar o que ainda não fez e o que satisfaria o seu eu faminto.    
Alinhavou numa ordem morbidamente servil, tudo o que até agora fizera. Cauterizou as partes negativas, detalhou as partes positivas e, tirou das experiências o sumo que pudesse fazer da insanidade a linha do seu progresso. Criou um minucioso roteiro para evitar os imprevistos sem cair nas mesmices do dia-a-dia. Depois de pronto, passou a estudar a vitima. O mais dificultoso foi à escolha, o que lhe tomou mais tempo. Tudo porque não conseguia definir as características de cada uma, mesmo porque sua visão era uma visão estereotipada, isto porque, não tinha uma intimidade que pudesse ser constante. Estevam não era de muito amigos e, os que tinham não os consideravam como realmente deveria.

Portanto, minuciosamente se preparou como o caçador se prepara para caçar. Tendo a caça escolhida se colocou em campo cortejando, estudando os modos, as atitudes, os caminhos até que sentiu a caça pronta para ser abatida. E nesse dia, num golpe suave, mas certeiro abateu a caça e levou-a ao local escolhido. Tudo dentro do planejado, enquanto estava adormecida, curiosamente passou a vasculhar milímetro por milímetro as partes externas do animal. Correu a língua umedecida pelas reentrâncias saboreando a pele salgada e doce. Perpassou a mão calejada pela convexidade dos pelos aquecidos farejando o líquido da vida. Lentamente, percebeu o despertar da caça, o efeito do éter estava terminando, assim sendo não deixou que gritasse proporcionando um vai e vem brutal e ofegante. Ao mesmo tempo enlaçou o pescoço doce e gostoso com um fio de nylon, o qual ia apertando ao ritmo das estocadas. Num frenesi, chegou ao orgasmo no instante em que a vitima soltou o último suspiro.

Dias depois a policia encontrou um corpo em decomposição boiando no rio que passava nos arrabaldes da cidade. Dado como indigente assim foi enterrado.


Largou o jornal em cima da mesa no centro da sala. Pegou o copo de uísque. Abriu a janela e o barulho do dia irrompeu o ambiente adentro. Como pode essas coisas acontecer? Acreditava que isso só acontecia em romances, livros, filmes não na vida real. Mas lá estava estampado no jornal a noticia do assassinato. Apenas a descrição da moça era diferente, o resto é tudo igual, até o modo como detalhara no conto. Outra coisa. O jornal que ele vendeu a história e que foi publicado o conto, não noticiava o assassinato, só os outros jornais. Será que tinha o dom da premonição? Duvidava. Voltou para a poltrona assustado com o que pensava. Alguém estava escrevendo sobre ele, alguém estava manejando seus gestos, seus atos como se ele fosse uma marionete, assim como ele escrevia sobre Estevam! Bom, engoliu o uísque de um gole só. Encheu novamente o copo e sentou-se em frente ao micro.

Estevam estava excitado. Não podia negar. Todo o trabalho que tivera para enredar a caça, fora de uma capacidade excitante. Via que não ficaria muito tempo sem cometer outro assassinato. Notava por baixo da pele, o fogo queimar em ardência pelo desejo a saciar. Corria novamente em sentir o impulso dominando-o. Ouvir a vibração do medo nos olhos doloridos da vitima. Escutar as lamentações doces e suaves percorrendo os labirintos do ouvido. Captar as veias pulsando sobre a pele num excitamento incontrolável.

Quando o veredito médico foi pronunciado, não entrou em desespero, caiu numa passividade gritante onde não sabia o que lhe poderia acontecer. Foi quando, num estalo, já que de uma hora para outra iria morrer, descobriu que podia fazer algo que nunca fizera. Depois de muito matutar, depois de colocar todas as coisas que já fizera que denominasse como experiências, em estudo, chegou à conclusão que nunca praticou um assassinato. A princípio se horrorizou com a ideia. No entanto, quanto mais pensava, mais fortalecia a vontade em concretizar o ato. E um dia, inconsciente, viu sobre a mesa o plano escrito em detalhes, apontando as coordenadas, os riscos, e as vantagens. Claro, surpreendeu-se. Não lembrava ter escrito todo aquele amontoado de anotações e direções. Dos seus lábios contraídos surgiu um sorriso levianamente cruel.

Caiu em si. Era aquilo mesmo que gostaria de fazer. Era aquilo a última coisa que faria na face da terra. Matar! Que gosto há em matar? Que sabor deveria ser ao ver alguém morrendo diante dos seus olhos. Estevam não sabia. Precisava colocar o plano em prática para saber. E não pensou duas vezes. Esboçado o plano, plano executado.

Olhou para o jornal dobrado em cima da mesa no centro da sala. Em letras de caixa alta, gritava no silencio das palavras: ENCONTRADO UM CORPO FEMININO ASSASSINADO VIOLENTAMENTE. Ao ler aquilo, corroborou todo poder orgástico de sentir-se um deus.


Qual o objetivo da vida? Onde lera isso? Procurou nos escuros recantos e, sem querer, lembrou-se de uma brincadeira que a mãe fazia. Parada no ponto do ônibus, para amenizar a impaciência da espera, ela dizia:

- Vamos ver se você descobre onde está escrito a palavra Bolo?
E sendo ele criança, estava aprendendo as primeiras letras, portanto começando a ler, procurava ansiosa a palavra por ela escolhida. Às vezes levava tempo para encontrar, ou encontrava fácil, ora estava num letreiro, numa placa indicativa, na parede de algum prédio, ou mesmo em algum veículo parado. Com isso a espera tornava-se amena.

Foi então que, com um gesto de mão alisando os cabelos rebeldes, lembrou onde tinha lido. Ao pegar o pote de ração, seus olhos cinza escuro deram com o panfleto jogado displicentemente em cima da cristaleira da cozinha.

No mesmo instante em que leio, jogou a pergunta para dentro dele, filtrando de uma maneira diferente, reformulando: Qual o objetivo da tua vida? Aterrorizado, o olhar perdido nas letras, permaneceu aterrado no meio da cozinha sem ter a resposta certa ou conveniente. E, assim mesmo, tornou a reformular a pergunta: Qual o objetivo da vida? Puta que pariu, disse mentalmente, não nunca tinha pensado na vida, se ela tinha ou não um objetivo. Jogou-se na cadeira que rangeu sob seu peso. Colocou mais uma dose generosa de uísque no copo. O objetivo da vida! Que coisa expectante essa. E a vida tem algum objetivo? Primeiramente antes dessa há outra pergunta mais importante. O que é a vida? É, isso mesmo. O que é a vida? Porra, pergunta difícil deveria ser proibida. A vida, ora a vida é a vida, nada mais. A vida é tudo que vemos e sentimos. É tudo que nos faz sentir que somos importantes a ela. A vida não cabe numa resposta, mesmo que a resposta seja tão imensa quanto à própria vida. É um troço incomensurável que não cabe numa frase, numa sentença e muito menos numa teoria bem explanada. A vida é um tudo e ao mesmo tempo é o nada que trazemos dentro de nós. Cada um tem e vê a vida como lhe é importante ser e sentir.

Despejou as últimas gotas de uísque no copo, jogou a garrafa no lixo, prestando atenção no som oco ao bater do vidro na lata, já pensando em comprar outra. Bem, a vida não é só acordar, levantar, tomar banho ir para o trabalho, discutir futebol e, muito menos é, ficar em baladas, beber, paquerar mulheres fáceis e descartáveis num frenesi alucinante. Não era nada disso. A vida era algo, além disso, algo...! É um romper as células compreensíveis, é beber a visão diurna em que deparava todas às vezes ao abrir os olhos. É satisfazer desejos boiando no limo do preconceito moral. É alimentar a alma livrando-se da razão atrofiada pela monotonia da sobrevivência
E ele? Tinha direito a desejar o seu objetivo? Creio que sim, claro que sim, principalmente nas minhas condições, o direito da vida é todo meu, isto é, posso fazer dela o que eu quiser. Até matar? E por que não? Já que vou morrer mesmo? Tem certeza? Olha os exames médicos indicam que o máximo que posso viver é um ou dois anos. E pergunto: porque tenho apenas de viver esses dois anos, isto se os exames médicos não estiverem errados, certo?
Que certo que nada... Porra!

 

Estevam não sabia por que se impacientava. Quando se sentia assim, é que alguma coisa lhe aconteceria. Andando despreocupado, não pensava propriamente em nada. Vazia a mente, flanava sentindo os pés em longas passadas como se estivesse pisando em flocos de nuvens. Suas passadas eram frias, não calculadas, sem o ardoroso esbravejar do calcanhar batendo nas pastilhas da calçada.

Cronometrava o tempo de uma passada a outra, o tempo em que o calcanhar esquerdo levava para bater na calçada enquanto o calcanhar direito se elevava na espera da sua vez. Assim distraído, nessa concupiscência quase matemática, não reparou que em sentido contrário surgiu uma loira que, por motivos desconhecidos, trombou com ele. Foi um encontrão repentino curto, mas que o abalou por não estar à espera dele. Seus ombros, dele o esquerdo e o dela o direito, se chocaram a ponto de fazer com que inconsciente do ato, desse um passo a traz. Despertado do devaneio, movimentou os lábios para expressar uma desculpa, mas se retraiu magoado ao ver que a loira mal prestou atenção nele.
Foi como um alerta psíquico. A princípio pequeno, em seguida, aumentou de intensidade. Pequenas pontadas prolongaram-se cada vez mais. Rilhou os dentes, quase esbravejou filha da puta não pede desculpas não? Seguiu com o olhar lúdico a figura esbelta rebolando desejo entre a multidão. Gritou entre dentes um palavrão seguido de isso não vai ficar assim. Girou o corpo, cravejou os olhos na blusa vermelha estampada. Como autômato passou a segui-la.      
Não sabia por que seguia a loira, quer dizer, saber sabia, não nitidamente. Sabia que tinha ou precisava aplicar um corretivo. Seus modos denunciavam ser ela desprovida de qualquer tipo de compaixão. E como detestava pessoas sem compaixão! Chegava a ter pena, chegava a sentir na pele a dor que ela provocava. Por isso a seguia. Sim era por isso mesmo.

Viu o caminho que ela fazia, onde morava, e chegou ao dia-a-dia ter total conhecimento do seu mais íntimo movimento. Com isso foi fácil capturá-la como se captura uma borboleta. Pensou radiante ao vê-la deitada, frágil no banco traseiro do carro. Mais uma borboleta para minha coleção. Ah! Pena que não sou colecionador, não é? Sorriu satisfeito.

 

...talvez um dia / por descuido ou fantasia / helena, helena, helena, como gostava dessa música! Vivia cantando: helena, helena... Mas hoje não gosto mais, sabe por quê? Vulgaridade sabe o que isso, Elena tornou-se vulgar, não acho que você sabe, não é, vulgaridade é isso o que se tornou Elena, tudo culpa da novela, mas o nosso problema não é esse certo? Sabe por quê? Por que estou feliz, é feliz, ah, não sabe ou não quer dizer, ah! Desculpe, não posso deixar você sem a mordaça, vocês mulheres são idiotas, não sabem fazer outra coisa a não ser gritar, por quê? Está com medo? Não precisa ter medo, não vou fazer mal, sou até paciencioso, não sou? Arisco até dizer que sou muito carinhoso. Sou sim. Vocês mulheres é que não contribuem, então preciso usar um pouco da minha habilidade de sedutor. Sou gostoso, não acha? Ah! Não sabe. É claro, dormiu o tempo todo, acho que me descuidei nas gotas. Ah, vou lhe contar um segredo. De toda a Elena, você é a que mais gostei? É verdade. Por isso vou deixar você viver. É não vou matá-la. Sou caridoso também, não sabia? As outras eu matei, precisei matá-las. Não me obedeceram. Se me obedecer deixo você viver... Porém.... Há sempre um, porém nas histórias, já reparou? Ta vendo aquelas duas espingardas apontadas para nos dois? Então, um delas esta carregada. Não sei qual é, portanto, quando abrirem a porta as duas vão disparar, mas só uma contém bala, certo? Vou sentar-me ao teu lado, uma espingarda é para mim e a outra é para você. Correto? Elas estão por um mecanismo meio que complicado para explicar, ligado à porta, quando ela for aberta, acionara o gatilho das duas, simultaneamente, mas apenas uma irá disparar a bala que certeira, se destinará a mim ou a você. Achou que iria se safar assim numa boa é? Não, nada disso.

 ...talvez um dia / por descuido ou fantasia. Puxa! Gostava mesmo dessa música. Sabe a Elena primeira, a que me passou para traz, vivia me dizendo. Sabe o que ela me dizia: você é um cara chato, sabia, não sabe fazer amor, você não tem pênis... É você não sabe fazer amor. Ela me disse. Reparou como é feio: fazer amor, não acha? Em inglês é mais bonito: make love, não é mais bonito. Making Love, fazendo amor. Porra devia ter nascido inglês. Mas não fui nascer nessa merda aqui então caço as minhas Elenas com as quais gosto de brincar. .  Você é a única com quem brinquei mais. Não acha que inglês é mais bonito que português? Puxa! Eu acho. Porra! Mulher pare de chorar, dessa maneira me deixa nervoso e nervoso não sei o que faço, entende? Dê-me um beijo, não quer? Problema o seu, é uma oportunidade de ficar uns instantes sem a mordaça.          

Já está na hora de fazer os preparativos. A polícia logo estará arrombando a porta. Caralho fui cuidadoso o tempo todo, e como me descobriram. Como? Tinha noção que menos dia ou mais dia essa minha brincadeira acabaria sendo descoberta. Puta que pariu só que poderia ser mais pra frente e não agora. Fazer o que. Nunca podemos ter sempre o que queremos, não é mesmo? Chega de falatório, vamos nos preparar. Vou colocar você mais para cá, bem de frente aquela espingarda. Vou aplicar um sedativo em você e depois em mim, assim quando as espingardas forem disparadas morremos sem saber e, o que é melhor, sem dor. Pronto, agora fique quieta que o remédio vai fazer efeito. Isso durma querida, durma, beijo-te pela última vez, meu amor. Puxa! Poderíamos até casar... Você não pode ver, mas estou chorando...  Vamos seu molenga, pare com essa baboseira e se prepare. Assim, sento nessa cadeira perto de você, Elena e, o mesmo sedativo que te apliquei aplico em mim. Pronto, agora é esperar... o... reme...dio ... fazer... efeitooooooooooooo....

terça-feira, 19 de abril de 2022

Um bom vinho.


Fugitivo da podre realidade
Sob os escuros cantos da cidade
Cultivo a minha dura felicidade

Uma boa garrafa de vinho
Vai bem prá caralho
Neste feriado prolongado

segunda-feira, 18 de abril de 2022

O baladeiro.


Sonolento. Com gosto amargo na boca. Não é ressaca, pensou enquanto seus passos meios descompassados pisavam a calçada lisa e plana ao virar a esquina da Augusta com a Paulista. Cinco e quarenta minutos marcava o relógio no centro da ilha que dividia a rua, que naquela hora começava a aumentar o trânsito. Um céu de tonalidade cinzenta, sem deixar perceber se choveria ou se o sol despontaria, fez com que levasse a mão aos olhos numa tentativa de eliminar um pouco a ardência.

Dezoito graus registrava o mesmo relógio. Um pequeno vento gelado arrepiou a pele. Precisava beber algo, a garganta seca reclamava. Olhou para a esquerda, nada aberto. Olhou para a direita, também nada aberto. Lembrou. Há um bar na Consolação que fica aberto vinte e quatro horas. Dirigiu-se para lá. Nisso quase trombou com uma banca de camelô. Pediu desculpa para o olhar enviesado da mulher sem se preocupar com ela. Não viu a careta que ela lhe fez pelas costas.

A vida é uma sucessiva  passadas que vamos imprimindo na página da alma, disse a meia voz. Sorriu. Engraçado, filosofar na madrugada de segunda, quer dizer, madrugada há muito tempo que deixou de ser, já está amanhecendo. Sentia a cabeça latejar, sedento, precisava de uma bebida, aliviar o gosto de cabo de martelo amarrando a boca. Atravessou a passagem subterrânea cheirando a urina. Porque não reformam essa passagem e fazem dela uma pequena galeria? Encostados pelas paredes, vários casais se amassavam num despudor proposital. Passou por eles procurando não dar atenção.

Com alegria que respirou o ar razoavelmente agradável ao sair do outro lado da Consolação. Ao entrar no bar, recebeu no rosto o vozerio ensurdecedor misturado com o ar quente do ambiente. Estranhou ver o bar cheio em plena manhã. Com muito custo encontrou um banquinho no balcão. Chamou o garçom:
- Por favor, uma cerveja.

Tinham marcado ás oitos horas. E como é costume do pessoal, estavam atrasados, quase nove horas e, nada deles. E assim que todos chegaram partiram para o que chamaram de: Desfloração do Ricardo, já que ele estava completando a maioridade e, a meia boca maldosamente, diziam ser ele ainda virgem. Para que o festejo ficasse marcante, levaram-no, sem que Ricardo soubesse para uma boate gay. Estavam meios chapados quando entraram na boate que, quinze minutos depois, tinham se dispersado um do outro. Enquanto saboreava o Bloody Mary lentamente, seus olhos passeavam displicentes pelo mar de cabeças que dançavam na pista e outras que iam e vinham como se não tivessem um porto para ancorar. Numa dessas mudanças de olhares, reparou Ricardo conversando com uma loira espetacular e, apontando para o lado dele. Não deu muita importância ao fato. Só começou a se incomodar quando viu que a loira vinha em sua direção. Pensou em fugir, pois na mesma hora desconfiou de sacanagem que os amigos estariam aprontando com ele. Porém, devido à aglomeração perto da sua mesa, ficou impossibilitado de se mexer. Assim sendo, passivamente esperou que a loira se aproximasse. No instante em que ela chegou perto, segurou-a pela mão puxando-a para a pista de dança, não dando tempo para que ela abrisse a boca. Com sua perspicácia arguta, malandro como era, viu que a loira era um travesti. Enquanto dançavam, maquinou como largaria a coitada sozinha no meio do salão. Por sua sorte, um cara todo gracioso se achegou a eles, com um olho grande na loira, o qual ele não se fez de rogado, passou ela para o rapaz. Voltou para a mesa. Instantes depois, saturado de cerveja saia da boate.

- Por favor, cobre a cerveja, disse estendendo uma nota dez para o garçom.
Recebeu o troco e saiu. Precisou fechar um pouco os olhos devido à claridade da manhã de segunda-feira. Por onde andaria a turma, pensou ao descer a escada rolante da estação do metrô Consolação. Bom, amanhã é outro dia, quando encontrar com eles perguntarei, pensou encostando a cabeça no vidro do trem adormecendo logo em seguida.

domingo, 17 de abril de 2022

Camelô.


Consultou o relógio. Onze horas. Daqui a pouco almoçaria. Nessa hora o movimento sempre maior quando os prisioneiros burocráticos deixavam a prisão por uma hora ou duas horas, para alimentarem a carcaça. Ela, apesar de não ser uma prisioneira burocrática também estava com fome.

- E Ezequiel que demora droga!

As segundas-feiras tinha que levantar mais cedo quem chegasse primeiro garantia o lugar para a semana toda, o melhor lugar na Avenida Paulista, e para ela, o melhor lugar era em frente ao banco. Não sabia dizer por que, talvez no primeiro dia que viera para a Paulista, conseguira fazer mais de cem reais. E como Ezequiel trabalha a noite, das dezoito horas as vinte e quatro horas, ela vinha para a avenida, na parte da manhã e a tarde ele ficava até umas dezesseis horas. E hoje que parecia que o comercio estava bom, ele demorava! Que merda!

- Zefa você ouviu dizer que estão querendo tirar a gente daqui?
- Quem lhe disse isso?

- Corre boato tudo por culpa daquele escritor besta que vem escrevendo sobre nós?

- É, que sujamos as ruas, atrapalhamos os pedestres e outras coisas mais.

- Pode deixar um dia ele terá o que merece.

Zefa não gostava muito de falar nessas coisas. Tinha a sua banca de camelô por que o porcaria do seu homem não ganhava bem, quer dizer, nunca ganhou bem, até desconfiava que vivesse a suas custas. Se às vezes trabalhava era apenas para disfarçar. O idiota não parava em emprego nenhum. Já estava cansado do cara. Olhou novamente o relógio. Meio dia, se desse uma hora e ele não tiver chegado, guardava as coisa e iria embora, que se foda tudo.

 Distraída atendendo uma mulher que não decidia se levava a pulseira ou anel, assustou-se quando Ezequiel tocou-lhe o ombro.
- Já disse para não me assustar desse jeito.

- Tudo bem?

- Tudo bem. Vai levar esse?

- Sim vou, quanto é?

- Dez reais.

Assim que a mulher pagou e foi embora, levou os olhos para dentro do banco e viu uma cena que fizeram seus olhos brilharem mais ainda. Um rapaz sacava dinheiro, até pode ver o valor das notas, cem reais, no caixa eletrônico.

- Ezequiel, veja.

- O que mulher?

- Aquele rapaz saindo do banco.

- O que tem ele?

- Sacou dinheiro tudo em nota de cem.

- É?

- É sim.

Ezequiel olhou para os lados, depois para a mulher que olhava para ele sério e disse:

- Espere aí que já volto, não vai embora.

E como podia ir embora! Impaciente, forçava-se a não olhar na direção por onde fora Ezequiel. Nervosa, pouca atenção dava aos fregueses. Depois de um prolongado tempo de angústia, viu Ezequiel se aproximando.

- E aí?

- Já almoçou?

- Não.

- Então vamos almoçar.

- Mas as bugigangas? Onde deixamos.

- Espere aí.

Dirigiu-se ao rapaz ao lado, com uma banca de relógios e ósculos pirateados.
- Por favor, eu e minha mulher vamos almoçar rápido, pode dar uma olhada na nossa banca? Não vamos demorar, e nem precisa vender nada, apenas olhar para que não a levem.

- Pode ficar sossegado.

- Obrigado.

Ezequiel e Zefa desceram a Rua Augusta apressados, desviando das pessoas como precisassem chegar logo. No primeiro restaurante entraram. Assim que estavam acomodados, Ezequiel tirou do bolso e mostrou para Zefa.

- Nossa! Ezequiel, quanto é isso?

- Contei rapidamente e tem setecentos reais.

- Beleza.

- Vamos comer como reis hoje e a noite cinema, o que acha?

- Combinado. Mas... Ezequiel, tava pensando....

- Sei o que está pensando.

- Sabe?

- Sei e lhe digo uma coisa, fique de olho no banco que o resto é comigo.
- Combinado.

Nesse dia Ezequiel e Zefa viveram o dia mais feliz da vida deles.

sábado, 16 de abril de 2022

O assalto.


Quinze horas. A fila parada dava-lhe nos nervos. Angustiava-se por nada. Como por nada? Passou por maus momentos e não tinha que se angustiar? As coisas negativas estavam sempre o acompanhando. Quando pensava que os eixos correriam nos trilhos, pronto, catacumba, o trem se descarrilava e era um sufoco para colocar nos eixos novamente. E, ali, estava ele mais uma vez tentando colocar os eixos debaixo das rodas do trem. Esperava que agora ele, o trem, andasse seguro por um bom tempo.

Uma coisa que ele falou, logo que deu entrada na delegacia, foi à falta de policiais na Avenida. O delegado não gostou muito não, mas também não retrucou. Ficou quieto anotando as informações que ele passava. O que irritava foi às minúcias que o delegado o interrogava, como se ele estivesse inventando. Que coisa! Um dos pontos que mais intrigava o delegado era a quantia que ele dizia ter no bolso. Como uma pessoa pode ter essa quantia assim no bolso? Não resolvia, aliás, por mais de três vezes explicou que ele tinha essa quantia no bolso por ter feito um saque no caixa eletrônico do banco.
- Que banco?

- América do Sul.

- Que agencia?

- Agencia da Paulista.

Ao dizer a agencia, notou que o delegado trocou um olhar com os policiais. Percebendo que ele notara a troca de olhares, o delegado disse:
- Bem, hoje com você já é a terceira vítima que sofre com esse mesmo golpe.

- E...

- E todos foram do mesmo banco, América do Sul.

- Isto quer dizer?

- Por enquanto nada.

- Como nada? A meu ver aqueles camelôs ficam de olho em quem saca, pois o vidro é transparente e avisa o comparsa que acompanha a vitima até ter a oportunidade em aplicar o golpe.
- É, mas não sabemos se é um ou dois ou quantos.

- Quanto a isso é com o senhor. Sinto muito, vim fazer o boletim de ocorrência.
- Ta certo, assine aqui.

José sairá do banco apreensivo. Sabia que não podia ter aquela quantia no bolso, mas era preciso, tinha que depositar no Bradesco. Com um olho nas costas e outro nos lados, descia a Rua Augusta num passo meio que apertado, desviando dos pedestres da melhor maneira que a agitação permitia. Ao passar em frente à vitrine, onde há dias vinha namorando uma calça jeans, por uma fração de segundo, apenas uma parada repentina, foi empurrado ao mesmo tempo em que sentiu uma mão no seu bolso. Devido ao vai e vem das pessoas, não foi possível segurar a mão do ladrão, pois quase fora jogado para fora da calçada, por pouco o ônibus não o atropelou. Desnorteado, verificou, os oitocentos reais haviam sido surripiados do seu bolso. Entrou em pânico, já viu seu nome sujo na praça, metade estava destinada as contas tendo, até algumas atrasadas,
Bom, como diz os conformistas: ainda bem que foi só o dinheiro, o pior seria se tivessem tirado a sua vida. É, tirado a vida, o que me parece à mesma coisa, não parece? A fila começava a andar. Segundos depois, passava por baixo do vidro os oitocentos reais que a empresa adiantará o qual, será descontado parcelamento no pagamento. Mais uma vez saiu do banco, mas agora tinha a certeza de que nem tudo estava perdido. Sorriu, havia uma pequena crença de luz ao virar a esquina.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

O delegado.


Souza estava no cargo mais ou menos dez anos. E na mesma delegacia. Não era um cara violento, a não ser quando precisava, em ocasiões difíceis. Sendo alto, ombros largos, pesando uns oitenta quilos, um rosto quadrado tipo Mat Dillon, achava-se até bonito. Tinha um conhecimento e cultura acima da média, recostado na cadeira, saboreava o charuto preferido e, imaginava o que poderia fazer para melhorar a vida. Em matéria de literatura, lia apenas à policial, cujo personagem Sam Spade, de Dashiel Hammett era o seu preferido.

Sua visão de vida era que o homem é homem e mulher é mulher, qualquer tipo de desvio tinha que ser eliminado, chegando ao ponto de uma irracionalidade preconceituosa até. Por causa da função de delegado, em alguns momentos, sentia-se preso sem poder aplicar o que achava certo. O que o deixava enfurecido. Dizia que nada mais o impressionava. Já tinha visto Deus e o Diabo na terra do sol. Aturava a mulher de longe, não suportava a falta de qualidades domésticas que admirava em outras mulheres. Tinha um relacionamento meio que conturbado com o filho, pouco se falando um com o outro. A vida é o que ela é e, nada se podia fazer, tem que aceitá-la, era o seu lema. Exigia dos subordinados pontualidade e fidelidade. Se for preciso, para manter, o que dizia ser sua teoria, matar, ele mataria. Ocasião que por duas vezes teve oportunidade.
Uma das coisas que gostava de fazer era dar um role pela Paulista. Um passeio despreocupado, uma caminhada observando as pessoas, os movimentos dos carros, os entra e sai dos bancos, bares e lojas. Conhecia a Avenida muito bem, fazia questão de, mesmo que fosse um Olá, ou um Bom dia, conversar com os donos dos bares, lojas, cinema, com os moradores de rua, os camelôs; às vezes mandava dar uma corrida nos camelôs, apenas para mostrar serviço, como dizia. Já fora acusado de fazer uma pequena máfia, de ter aceitado subornos, de fazer vista grossa referente à questão dos camelôs. Nada disso era verdade, já recebera suborno sim, mas de altas autoridades do governo, de deputados e até de senadores, mas nunca dos pobres coitados dos camelôs. Sabia que alguns tinham condições de viverem, de trabalharem condignamente, e se estavam ali com suas bancas ou barrancas por não gostarem de trabalho. O que ele nada podia fazer. Isso era assunto da prefeitura e seus corruptos fiscais.

Fechou os olhos tragando a última baforada do gostoso charuto. Nisso, mostrando a angústia apavorada no rosto claro, de óculos com aro de tartaruga, esbaforido, entrou na sala Nando metralhando com palavras desconjuntadas por causa do ar preso em seus pulmões.

- Delegado! Delegado!

- Diga estafermo, o que houve?

- Delegado. Houve um acidente na Paulista...

- E eu com isso, não é minha jurisdição.

- Sei delegado. Sei. Mas o senhor precisa ir ver.

- E porque deverei ir ver?

- É que seu filho está envolvido.

- O quê?

quinta-feira, 14 de abril de 2022

O acidente


Apressado, sempre apressado, rugiu a mente ao olhar pelo ambiente do quarto checando a memória. Bom, penso que não estou esquecendo nada. Colocou sobre a escrivaninha o bilhete dentro do envelope branco. Fechou a porta e, já apertava o botão chamando o elevador, quando resolveu voltar. Abriu a porta e, rasgou o bilhete com envelope e tudo e jogou no lixo. Melhor ele não saber agora, mais tarde visitaria o pai e, contaria tudo. Isto é, se o velho conseguisse entender. Ao virar a cabeça olhando por cima do ombro, viu o livro. Não podia deixar o livro. Pegou o volume de cima da mesa, olhou o título: Imortal, de Anderson Santos. Mais um livro sobre vampirismo, disse com um sorriso nos lábios. Presente do seu amigo poeta Osvaldo, cara metido a poeta, ganhador de alguns prêmios não lá muito importantes. Vou ler com carinho, disse jogando o livro para dentro da mochila.

Depois de mais de vinte anos sob o domínio paterno, achou que estava no momento de ele próprio fazer sua vida. Construir seu caminho. Sair da sombra do pai. Tudo bem crescera e vivera à custa paterna, devia lhe isso, sem dúvida, não estava desprezando todos esses anos que foram dedicados a ele, só que se sentia sufocado, tolhido, não podia fazer nada sem antes pedir autorização ao velho. Droga! Tenho minha vida, disse a meia voz ao subir para o ônibus. Tinha marcado com o amigo de se encontrarem em frente ao Masp.

Rodrigo, o Rodriguinho como era denominado, o que detestava, para diferenciar do pai, Rodrigo Alves de Sousa, o Sousa, o Senhor Sousa, ou o Delegado Sousa, como sempre ouviu chamarem o pai. Agora que não tinha mais a avó para interpor entre eles, não via mais o do porque permanecer junto ao pai. Muito menos com a mãe, uma mulher desprovida de maternidade, que se lembre nunca a viu cuidando dele. Quem fazia tudo era a avó paterna, essa na verdade era a sua mãe, dissera um dia ao pai.

- Escuta... Você não... Bem, sabe o que quero dizer.

- Se sou gay? É isso? Tem medo que seu filhinho seja um veado, uma mulherzinha?  Tenha dó, vê se enxerga velho.

- E você é?

- O que o senhor acha?

- Bom não acho nada.

- Então é melhor o senhor achar alguma, gritou batendo a porta da rua.
Que merda, disse ao entrar no carro.

- O que foi você disse?

- Júlio, meu pai, Julio.

- O que tem ele?

- Vamos sair logo daqui que vem vindo um policial.

Júlio olhou para a esquerda, ligou o pisca, mudou a marcha, pisou no acelerador, virou a direção à direita para entrar na Avenida Paulista e, não viu o ônibus que abalroou o veículo jogando-o longe, que por sua vez, bateu no carro a frente e capotou.

Quando Sousa chegou já tinham removido o filho para o hospital. Agora estava ali naquele ambiente frio sentindo o calor da morte. O amigo do filho tivera morte instantânea. Rodrigo ficou em coma durante uma semana e, durante esse tempo todo Sousa não saiu do lado do filho.

Uma semana depois estava enterrando o filho na bela cripta que tinha no cemitério ao lado da avó.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Os apaixonados


Não que o esperar pudesse incomodá-lo. Não claro que não. O que o incomodava era a demora que se prolongava além do normal. Não se considerava um chato, é que as pessoas o ludibriavam na cara dura. Parecia que ele não se importava com isso. No entanto, a fraqueza começava a dar sinais de fortalecida, coisa que vinha lentamente, há muito tempo, se alimentando dos fracassos apoiado na timidez. Abria os olhos. Abria a mente. E descobria o encoberto. Descobria as malvadezas se, involuntária ou não, daqueles que ele pensava que o amava. O mar de transeuntes passava por ele como se não o vissem. Passavam feitas ondas de vozes, sons, inaudíveis, carnes sacolejando suas obscenidades provocando-o. No longe, conturbada a visão parecia que todos eram uma só pessoa. Como demorava em chegar!!! Porra! Não tinham marcado em frente à Gazeta? As precisamente vinte horas em ponto? E onde estava ela que não aparecia? Queria ir embora. Não podia. Dera sua palavra. Vou esperar, sim, disse ele diante da insistência dela.
Vou esperar, sim, maldita a hora em que dissera isso. Promessa tem que ser cumprida, apesar de que não era bem uma promessa, dera sua palavra e agora tinha que mantê-la, é isso. Se houvesse um motivo que anulasse tudo, que impedisse dele estar esperando-a. Mas não, nada impedirá de acionar uma trava fazendo com que a máquina parasse. Nada! Nada!

Seus olhos cansados pela impaciência viam em cada transeunte a figura de Raquel. Na apaixonada querência de que ela chegasse logo, via numa japonesa a figura da mulher, pudesse ser alemã, mulata, negra, o que fosse o coração exultava, não de alegria, e sim, de que a espera estava no fim. Ledo engano, a vista turva confundia as aparências. Então, forçava a mente a lembrar com que roupa ela sairá de manhã. Não conseguia. Vinham-lhe todos os tipos de roupas, blusa, saia, vestido, calça jeans, sapato, sandália, e nada de acertar. E o cabelo? É mesmo! E cabelo? Ah! Era difícil, pois todos os dias ela se transformava, mudava o penteado de tal maneira que não tinha certeza se era a Raquel que conhecia.
Enervado, andando de um lado para outro, subira e descera varias vezes as escadas da Gazeta, indeciso não sabia o que fazer. Continuar esperando? Sim, claro, dissera que a esperaria. Mas droga, cadê a consciência dela em deixar ele plantado na Paulista como um idiota sem noção de que atitude tomar. Nisso resolveu andar um pouco mais, isto é, ir até a esquina. Qual não foi a sua surpresa ao vê-la conversando com a Rute. Ao vê-lo Raquel se despediu rapidamente da amiga e se aproximou dele.
Estavam a um bom tempo caminhando lado a lado sem pronunciar uma palavra um para o outro. Em determinado momento, Raquel fez menção em pegar a mão de Renato. Mas este recuou, não deixou. Nada disse, continuou quieta, pensando. Se ele estivesse com bronca ou raiva, deveria se explodir, gritar, assim se sentiria melhor. O silêncio torturava. Por outro lado não daria a oportunidade de ser a primeira a falar. Se ele quisesse que fosse o primeiro e não eu, disse para sim. Renato não encontrava as palavras necessárias que diriam tudo o que estava querendo dizer. A mente criava um vazio que remoia deixando-o numa passividade aterradora. Rute se aproximara de Raquel, como dissera, por amizade apenas. O que ela e nem Raquel percebiam que essa amizade se interpunha entre ele e Raquel e, que Raquel por sua vez, demonstrava não se importar com os sentimentos de Renato.  
Por fim, entre os dentes, conseguiu articular frase a qual, foi preciso Raquel prestar atenção. Já não lhe disse o que eu penso de Rute? Já não lhe disse que essa menina ou mulher, seja lá o que ela for não é boa companhia? Ah! Quer dizer que está com ciúmes dela? Retrucou Raquel pondo um pouco de ironia na fala. Ciúmes? Ah quem dera eu ter ciúmes, se eu tivesse lhe diria. Você já estaria morta, já teria assassinado você e mais ela. Raquel se assustou com a veemência com que ele empregou na voz. Pensou em recuar, mas decidiu avançar no ataque. E por que não? Claro que está com ciúme e, de uma mulher, está me chamando de lésbica? Renato crispou as mãos enfiando a unha na palma para não desferir um soco. Não me importo o que você faz ou deixa de fazer, só sei que depois que você conheceu essa menina, você é outra, não é a que eu conhecia. Quase que ela expressou em voz alta. Meu caro é amor, isso é amor, mas preferiu ficar calada, idiota como ele era, compreenderia erroneamente.

Foi então que Renato compreendeu. Tudo não estava mais existindo, tudo agora era outra coisa, havia em seu peito sentimentos outros que faria com que caminhassem caminhos ainda não caminhados. Surpreendeu-se. Não se sentia frustrado, desanimado e muito menos magoado, o que viu foi uma estrada comprida, não larga, com grandes árvores costeando as margens para que ele pudesse ter sombra suficiente na sua nova caminhada.
Sorriu alegre, não se preocupou em dar adeus para Raquel, sabia que ela estava compreendendo o que ele compreendia agora. Assim se pós a caminhar na nova estrada sem olhar uma única vez para trás,

terça-feira, 12 de abril de 2022

O pivete


Um grito sobressaiu na tarde ensolarada, entre buzinas, carros, ônibus, transeuntes, vozes dispersas e sirenes de ambulância ou de carro de polícia, um grito de: fui roubada, pega ladrão. A pobre senhora indefesa ficou apalermada no meio da calçada, bem em frente ao bonito prédio da FIESP. Logo em seguida passando por ela, um policial sai em perseguição ao ladrão. O que a senhora e poucos que estavam ao lado dela viram, foi um pivete sair correndo e virar a esquina sentindo jardins.

O pivete, ágil arrancara a bolsa da distraída senhora que a levava displicentemente a mão. Vendo aquela facilidade, Zé não teve dúvidas, como estava ao lado, num safanão arrancou a bolsa ao mesmo tempo em que empurrava a mulher que, quase caiu por cima das revistas da banca de jornal. Com muito custo, que para ela pareceu eternidade, se equilibrou e berrou seu grito de revolta: fui roubada, pega ladrão. Zé ouviu o berro, e entre dentes disse: a vaca tinha que gritar, que merda.

Zé correndo o mais que podia, por estar dias sem comer, só com crack na cabeça, prestava atenção nos detalhes dos seus movimentos. Pegou a Alameda Santos, virou na Alameda Jaú e entrou no Parque Ten. Siqueira Campos, mais conhecido como Parque do Trianon. Ali entre as árvores se sentiria seguro. Procurou o lugar menos movimentado, atravessou a ponte e se enfiou quase no meio do mato. Qual não foi sua decepção ao abrir a bolsa. Soltou um palavrão: que porra de velha é essa que não anda com dinheiro. Merreca de trezentos reais. Enfiou o dinheiro no bolso da frente do que poderia ser chamado de calça. Achou também um cartão de banco envolto por um papel onde estava escrito, o que deveria ser a senha bancaria. Guardou o cartão e o papel no bolso de traz da calça. A bolsa e o resto dos pertences jogou na primeira lixeira que encontrou.

Ao virar a esquerda para atravessar a ponte de volta, foi agarrado por um policial que foi intimidando. Oh! Pivete, o que temos aí? Nada seu guarda. Como nada? E o que é aquilo que jogou na lixeira? Não joguei nada, seu guarda. Vamos ver. Agarrou Zé pelo braço e o arrastou com ele. Como nada, disse o policial enfiando a mão na lixeira, como nada, o que é isso? Papel? Hein! O que é? Parece-me uma bolsa, não acha? O energúmeno, o que você fez? Assaltou alguma senhora ou foi alguma velhinha? Não quer responder, não é? Então vamos fazer o seguinte: ou você me dá uma parte do que você roubou ou vai daqui direto para o juizado de menores. O que acha? Só de ouvir falar em juizado de menores, Zé se aterrorizava. Foram os piores anos de sua vida, assim sendo, concordou em dividir a grana com o policial.

Filha da puta, disse baixinho assim que o guarda se distanciou. Ainda bem que ele pegou o cartão bancário da dona. Procurou um caixa eletrônico de pouco movimento. Enfiou o cartão no local próprio, digitou a senha, e retirou seiscentos reais, amanhã tiro o resto se a vaca não bloquear o cartão. Passou numa lanchonete, comeu um suculento lanche acompanhado de uma gostosa e gelada guaraná. Nisso ouviu que o chamavam. Não faltava mais nada, não é? Espere onde está indo assim com tanta pressa, disse Leo. E o que você está fazendo no meu território? Zé ficou calado, esquecera que a Avenida era demarcada por território, um mendigo não podia agir em território que não fosse o seu. Esquecera-se disso, mas também não podia perder a bobeira da velha. Escuta Leo, estou aqui só de passeio. Ah! É prove ou deixe ver o que tem no bolso. Não tenho nada, disse receando a ação de Leo. Sendo mais forte e maior, Leo arrancou a força do bolso da calça do Zé os seiscentos reais. Nossa, trabalhou bem, hein pivete. Toma, fique com cinquenta reais para não dizer que sou bondoso.

Olhou para a nota amassada em sua mão. O que dava para fazer com cinquenta reais, perguntou desanimado. Bom dava para fazer apenas uma coisa, e foi o que fez. Sabia onde o Lombriga ficava, foi a procura dele. Ao sair do Parque Trianon viu Leo falando com o Policial. Desgraçados, agora vão dividir a grana dele. Deu meia volta e saiu por outro portão para que eles não o vissem. Lombriga se assustou com a quantidade de crack que ele pediu. Não queria vender cinquenta reais. Depois de tanta insistência de Zé, acabou cedendo. Afinal ele não tinha nada com isso, se o cara queria se matar o problema não era dele.

Com os cinquenta reais de crack no bolso, procurou aquele lugar escondido no Parque Trianon. Sentou no chão sujo, cheirando urina, esperma e encostou as costas na árvore e puxou o cachimbo do bolso, acendeu o isqueiro, esquentou a pedra e passou a fumar. Instante depois se sentia livre de tudo e de todos. Depois do policial, do Leo, da fome, dos cheiros, das andanças, era um levitar acima da vida, acima do seu corpo, livre dos tormentos e dores, sorriu um sorriso descompromissado num jardim cheio de flores perfumadas. Sorriu um sorriso eterno.

E assim o encontraram. E assim sua foto foi estampada em todos os jornais e revistas e, aproveitando o ano de eleição, um político o usou como plataforma para sua candidatura. E sem que se soubessem, esse político venceu com uma grande margem de votos.
É a vida, e a vida sempre continuará sendo vida.

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Nirvana

                                                                            

Na amargura das pedras, o suor dos corpos presos ao ar quente e sufocado, solicitou que ele fizesse mais esforço que, com isso, tornou intenso o descômodo que sentia.

Não se digladiou com palavras fortes ou obscenas, aceitou o desconforto seguindo o caminho que, previsto, lhe daria a oportunidade de ser ou mesmo, de encontrar-se consigo próprio.

Assim, conduzia os passos seguros e decididos, ora pisando nas pedras que rolavam precipício abaixo, ora lhe davam apoio necessário aumentando a confiança em si mesmo.

Essa confiança adquirida à dura pena, integrou-o ao ambiente em que vivia, solidificou sua participação integra e congênita de ser ele mesmo e não o que desejavam o que dele queriam que fosse.

Não cantou vitória, mesmo porque ainda não era o momento certo a se vangloriar dos feitos, tudo bem, pequenos, mas com a precisão certa e emocional que lhe fora dirigida.

Emoção que transbordou em delírios carnais degustando naco por naco, recolhendo o sumo principal para seu alimento dia após dia, sem justificativa alguma de que deveria fazer o preparo de seu alimento.

Olhando pela janela dos óculos, divisou, não só o alimento, como divisou o além se estendendo por campos imensos de trigo e milho e arroz e feijão.

Mais uma vez ouviu a voz, não da razão, mas a voz do coração abriu os braços, recebeu o vento quente do meio dia e, deitou-se na imensidão verde dos sonhos levando-o ao nirvana do corpo sentindo o corpo em si mesmo.

domingo, 10 de abril de 2022

Quitação.


Perco o interesse vivendo no sumo do sentimento que escorre entre os fios do coador de pano. Não percorro mais o ingrediente liquefeito dos meus passos triturando as pedras do calçamento.

Não há socorro na evidência de se salvar por salvar e muito menos por humanitarismo, o que há é a individualidade se firmando como lei imposta e não adquirida.

Não sou repórter da humanidade, não sou funcionário da Globo e de nenhuma mídia televisiva e muitos menos jornalística, sou repórter dos acontecimentos que invadem meu sentir.

Deixo o caminho atual para trilhar outro talvez, purificando-me nos mistérios que há nos pés de cada indivíduo que cruzam comigo.

Eis o mistério dos caminhantes, decifrar os passos de cada um na evolução dos pecados sem cair na vida eterna do pai glorioso.

Não lembro onde joguei a camisinha da minha primeira transa. Felicidade não se conquista, há de se ter na pele queimada o despudor de senti-la porejando prazer e gozo.

Não morro de amor por ninguém e, ninguém morre de amor por mim, portanto estou quite com a humanidade.

sábado, 9 de abril de 2022

Amizade.

 

 Não consigo, através da névoa que encobre meus olhos, ver a paisagem que a minha frente se desenrola. Pequenas manchas se distribuem aqui e ali moldando sombras indistinguíveis. Forço a vista a ponto de sentir a pressão do globo tentando abrir a Íris o quanto ela pode. Não consigo, mas forço, quero ver o que não estou vendo, quero distinguir as sombras que, sei, são imagens formidáveis e belas povoando a magia dos meus sonhos. Não, não sou cego, cego sou das suscetibilidades não apreendidas que, uma vez ou outra, fura a pele trazendo-me a realidade crua e inviável onde meu corpo repousa no marasmo manso da afabilidade. Não sei, não sei, não sei se é isso que me interessa. Não sei francamente. Mas é isso que no dia a dia ofereço ao deus do corpo adormecido.

Nem toda a luz no final do túnel é a luz que desejamos, por isso ofereço meu braço para que possamos juntos, vencer a luz capenga e alcançar a verdadeira luz consolidando assim, nossa amizade.

sexta-feira, 8 de abril de 2022

o primeiro dia do resto da sua vida.*

 

Não tenho mais tempo. Disse melancólico. Tempo não tenho mais, repetiu fechando a porta do guarda-roupa e, assim, escondeu o reflexo do fracasso no espelho tosco. E para que se preocupar com o tempo? Tivera quarenta e nove anos de tempo para fazer o que bem quisesse e, agora é que descobriu não ter mais tempo! É um fracassado mesmo, não é? Até podia ser, no entanto se fossem costurar os pormenores, as insignificâncias, os passos tortos, trôpegos e, alguns, desviado do curso normal de suas andanças, um bom estudioso biograficamente falando, o acusaria de ser interpreto vagabundo escorando-se nas paredes do não visível.

Não tenho o tempo. O tempo consumível que arrasta carnes e ossos em degradação do indivíduo. Tamanha preocupação fazia com que lutasse contra o temor da solidão. Mesmo saciada a carne, mesmo que os beijos não mais se prolongassem em tamanho e muito menos em intensidade, a solidão era a primazia na lista dos temores. Não a solidão de se sentir longe da pessoa amada, mas a solidão de se sentir no vulcão grotesco da humanidade e não ser aceito, não ter a razão solidificado ao se defrontar com o desprezo. Não temia a solidão, temia o ficar só no meio da multidão sentindo o peso do desprezo.

Não tenho mais nada. Nunca teve coisa alguma. Nem a solidão do corpo saudável. Essa é meramente desprezível no instante que a ânsia de ser saciada consuma os desejos em quartos escuros e baratos para, depois, constatar a força nos atos decididos. Força que se esvazia aos primeiros contratempos sociais da natureza urbana massacrante.

Com quarenta e nove anos de idade a consistência tornava-se opaca, fluída em experiências nem sempre proclamada na vitória de se sentir competente. Daqui mais ou menos dois meses completará cinquenta anos. E daí? O que isso representa na sua vida? Que conseguiu viver todo esse tempo? Lá vem o tempo de novo a perturbá-lo. Que está mais experiente, com mais conhecimento? Deve agradecer pelos fios brancos de cabelos? Agradecer a carne flácida, as olheiras, rugas, bicos de papagaios, movimentos lentos entorpecendo desejos? Deverá bater palmas pela falta de apetite sexual?

Há uma coisa que ele desconhece ou, talvez conheça, mas na sua ignorância intelectual, não dá a mínima importância. Ele continuará, sabe que continuará mesmo que seja aos trancos e barrancos. Sabe que esse é o primeiro capítulo do resto da sua vida. Quem sabe, amanhã haverá mais um capítulo.


*   - título inspirado no disco de Rita Lee, Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

o segundo dia do resto da sua vida

 

Era estranho. Quer dizer, se achava estranho ao descobrir desconhecer sua ignorância intelectual. Tal descoberta se deu ao fato de que não tinha perspectiva de que viveria ou não as futuras manhãs. Não existia proporção nenhuma de se entregar, capenga ou não, lutaria com as forças da razão, mesmo que o coração não se manifestasse muito, lutaria. Rezava para que o coração suplantasse a razão.

Um cansaço ameno se abateu sobre ele. Olhou o horizonte e ouviu a voz da consciência proclamando-o a lutar com todas as suas forças. E lutaria, sabia que lutaria. Não era fraco, mesmo que em certos momentos parecesse fraco, não era. O que notava, era pouca animação para realizar movimentos concretizando-o na cena real da vida. Gostava muito da coxia. Ali ninguém o notava e dali, talvez, podia ajudar mais se estivesse em primeiro plano no palco. Sem bem que, em momentos, a depressão era mais aguda, ansiava pelo primeiro plano, desejava o lugar do ator principal. Sabia da impossibilidade de estar à frente do que quer que fosse. Não fora designado a essa função. Mesmo estando na coxia, atrás do palco, sentia-se impotente, sem o que fazer, sem tomar iniciativa. Chegou à conclusão, se fazia o que fazia era porque possuía fraca determinação e não ter consistência nos atos e não ser persistente nos projetos sempre proposto e nunca terminado.

Seguia o curso normal das coisas como se as coisas não lhe pertencessem, como se elas estivessem ali para lembrar o que fora ou que era. Apenas indivíduo se arrastando no mosaico de pedras frias em busca de algo sem resposta. O pior é que não sabia o que seria esse algo. Talvez a estúpida felicidade de vida sem problemas, sem consistência como a maioria dos burgueses insípidos buscam. Talvez a incongruência de ser amado na pele de outros sem se importarem com ele, sem lhe darem atenção. Mas quanto a isso, havia uma parcela despudorada de culpa, pois vivia alheio ao que se passava a sua volta, parcela que não desprezava, mas que não conseguia se desvencilhar dela. Sua comunicabilidade não chegava aos padrões falsos os quais estava acostumado a ouvir. Não chegava...

Nada o atormentava. Nem mesmo a idade que avançava entre os meandros da dúvida e angústia. O jato notara, não era o mesmo de vinte ou mesmo de dez anos atrás. Antes era um jato nervoso, irritante no barulho contra a porcelana do vaso parecendo arrebentá-la. Hoje, parecia mais um fino intrigante escorrer de goteira ensurdecedora sem vitalidade. O prognóstico médico não o deixou preocupado, no entanto não poderia se descuidar. Estava com a próstata um pouco inchada, com uns comprimidos ingeridos um por dia, não faria com que voltasse ao normal, mas evitaria o aumento de tamanho. Afinal, estava entrando na chamada e vulgar terceira idade.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

o terceiro dia do resto da sua vida

   

                Copie você mesmo – é o único meio de viver.

                                                                       Clarice Lispector.

 

Daniel nome que lhe vinha sempre à mente. Por que Daniel cansou de perguntar. Não se lembrava de nenhum Daniel importante... Ah! Sim, se lembrou de um: Daniel, na cova dos leões. Hebraico. Deus é meu juiz. Anjo da guarda. Pessoa atenciosa, ligado à família, de senso maternal, gosta de se sentir importante, mas nem sempre convincente, útil e necessário e de responsabilidades que não dá conta de si. Traz na palavra uma só verdade e não é de voltar atrás. Sempre ocupado, fazendo algo sem ter uma hora livre para o lazer. O perigo é se tornar dependente e infantil, sempre pendurado nos outros. Este é o Daniel, esse sou eu, o Dan, ou Dani, poucas pessoas o chamavam pelo nome: Daniel Cláudio. Até que o nome tinha um quê de imponente, sorriu: Daniel Cláudio. Enchia a boca, como dizia a mãe. Os amigos, parentes, era Dan ou Dani, nunca Daniel e muito menos Daniel Cláudio.

Fumando preguiçosamente, com os músculos soltos na cadeira de balanço, se encasquetava ao pensar de onde tiraram esse nome: Daniel Cláudio. O Daniel tinha a certeza de que fora do romance O LUSTRE, de Clarice Lispector, romance que sua mãe vivia lendo e relendo. Mas o Cláudio? Seria o Marzo, galã de novelas? Por que não Nilson? Jayme? Reinaldo? Ou mesmo Edvaldo, com o d mudo mesmo. Ou César. Talvez Wanderlei ou, Álvaro, Ricardo... O que fazia uma pessoa rotular outra que pouco conhecimento tem da vida? Ainda bem que não colocaram Osvaldo. O vizinho alcoólatra, briguento, batia sempre na mulher e nos filhos, não trabalhava chamava-se Osvaldo. Volta e meia a polícia baixava e levava o malédico para a cadeia onde passava três ou quatro dias preso. Para depois, repetir a dose, às vezes ficava mais tempo na cadeia.

Foi preciso parar com a obsessão em conhecer a origem do nome, saber o porquê seus pais colocaram sem ele pedir, e muito menos, sem perguntar a ele. Daniel Cláudio era repulsivo, não gostava, em suas moléculas existia o desconforto da pessoa Daniel Cláudio. Se a salvação estava em copiar já não sabia em quantas partes seria possível se copiar. E todas às vezes, ao se levantar, tomava ao pé da letra as palavras cruciantes. Era a mola, o impulso ferrenho que o fazia colocar os pés fora da porta. De enfrentar a caterva empurrando-o de um lado para o outro. Vivia de empurrão físico e intelectualmente.

Na solidão da casa o silêncio abrandava o vazio que o oprimia. Sergey Rachmaninoff no seu Concerto n. 3, para piano invadiu a alma dos móveis levando-o a esfera do infinito sabendo-se que, Daniel Cláudio, querendo ou não, sobreviveria, apesar da tempestade.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...