Acasos
e descasos
...
se você quiser ir embora, chamo um Uber,
pela quarta vez me perguntava,
o que me fez responder grosseiramente,
não quer que eu fique,
com uma expressão de inexpressivo
desinteresse, me disse,
não é isso, é que você
está com uma cara de quem comeu fígado cru,
é lógico, queria estar
em casa a essa hora, mas como você me segurou, então melhor aproveitar a festa,
não acha, afinal mereço não é,
você que sabe,
portanto a situação
ficou nesse pé, não liguei, procurei tirar o maior proveito possível da
situação, percebi que ela não queria que eu ficasse, era véspera de São João,
tinha pedido minha ajuda para comprar as coisas que iria fazer, além é claro,
para pendurar as bandeirinhas, limpar a casa, o que não me fiz de rogado,
ajudei no que pude dentro das minhas possibilidades, por isso me senti no
direito de ficar sem ser convidado, como o pessoal estavam chegando achei que
seria mal interpretado sair naquele momento, Mary com seus um metro e oitenta,
olhos azuis, loira, cabelos lisos, um rosto ovalado bem expressivo, era uma
excelente amiga, mas quando queria ser sacana, tirava proveito dos amigos e não
se fazia de rogada, pedia, exagerava como estava fazendo comigo, ao toque da
campainha, enxugando as mãos, correu abrir a porta dizendo,
deixe que eu atendo,
evidentemente que eu
deixei, afinal não era eu o dono do apartamento, era ela, assim sendo, com um
sorriso de orelha a orelha recebeu Clara e
sua companheira Cida e seu irmão, o Eliseu, moreno alto, magro mas com
um corpo de academia, cabelos castanhos, olhos profundos de uma beleza quase
melancólica, lábios finos que revelava um sorriso de dentes brancos e bonitos,
o rosto de traços bem definidos que deixou minha amiga com os olhos arregalados
e queixo caído literalmente, ao cumprimenta-lo senti no aperto de mão uma força
diferente como se dissesse:
estamos juntos,
olhei em seus olhos me
passando uma tranquilidade que ele ao mesmo tempo tomou conhecimento, Eli como
gostava de ser chamado, detestava seu nome, durante a noite toda não dirigiu-se
nenhuma vez a mim diretamente, muito menos nossos olhos se cruzaram, também não
me dirigi a ele abertamente e quando fiz me obriguei a não olhar em seus olhos,
em contrapartida Mary o alugou constantemente, era Eli aqui, Eli acola, venha
me ajudar Eli, por favor Eli, não largava em nenhum momento o pobre rapaz, eu
tinha noção de que ele sabia o jogo que Mary fazia com ele, como bom convidado
em momento algum deixou de ser gentil e prestativo, a conversa se desenrolava
entre os quatro numa fluidez até que
aprazível, para deixar Mary chateada, ofereci quentão para Eli, foi o único
momento em que nossos olhos se tocaram, passado um tempo, uma hora talvez, ou
um pouco mais, disfarçadamente Mary me carregou até a sacada e sussurrando me
disse:
eles vão dormir aqui,
não tem lugar para você, portanto dê uma desculpa para ir embora, vou chamar o
Uber,
e não me dando tempo de
responder, anunciou num bom tom alegremente,
o Martim está indo
embora,
ah! já, está nem
começamos a festejar
disseram quase em
uníssimo,
desculpem é que tenho
compromisso logo de manhã,
eu também disse Eli,
e além do mais
continuei tenho uns desenhos para terminar já adiei muito eles,
me despedi de Clara e
Cida, ao me despedir de Eli, ele me entregou um cartão dizendo:
me liga
ao mesmo tempo me beijou
na boca,
o engraçado é que eu já
sabia que você agiria daquela maneira ao me despedir,
e eu fiz porque tinha a
noção de que você sabia,
pena que não vi a cara
das meninas,
bem posso dizer que
ficaram espantadas e a Mary não falou mais comigo o resto da noite, antes de
você sair, ela a Clara e a Cida me pressionaram para dormir lá, e uma hora
depois que você saiu, me despedi delas e nem perguntaram se iria dormir lá ou
não,
por onde andará Mary,
a última vez que ouvi
falar dela estava na Inglaterra casada com um lorde,
bem, deixemos o passado
e vamos para a sua mãe que nos espera para almoçar,
vamos sim...
É
isso... ou, não é?