quinta-feira, 25 de maio de 2023

Pequenas histórias 64

 

No silêncio do sol afundo meus pés na areia preta que escorre suarenta dos corpos seminus.

Há uma metálica nítida arrogância transitando nos meandros do corpo sem proteção.

Comandos agilizam sentimentos que percorrem os nervos da cidade arrepiando a pele nos prédios luxuosos.

Vozes digitam falas lidas no compasso dos e-mails perdidos e sem respostas.

Fecham-se vidas solitárias fixas no monitor esperança de companhia.

Ouve-se a sirene cortando a noite em fios tênues de desespero.

Alguém desligou o micro no suicídio de uma noite suja e sem estrelas.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Pequenas histórias 65

 

Raízes me envolvem de essência onde a vida presente no dia-a-dia caótico

me diz: somos um poema.

Sobre tua pele cataliso a superfície do prazer, cujo animal violento quer

apenas um abrigo a saciar os desejos alimentos.

Escreve-se, assim, a poesia despida de refúgio e de palavras nuas

envolvidas no idioma da arte refletida nos símbolos dos corpos.

Nada é por hábito, tudo são prazeres de versos enrolando-se em trepadeiras

de sentimentos onde, a poesia, se fixa nas raízes que nos envolvem numa

única essência: viver o presente eternamente.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Pequenas histórias 66

 

Não estava preocupado com o horário. Precisava antes comprar um sapato senão não conseguiria trabalhar direito.

- Mas você vai perder a hora. – disse Silvio de repente.

Assustou-se não tinha visto o amigo.

- Ué! Como você veio parar aqui?

- Me mandaram.

- Te mandaram?

- Sim.

- E quem foi?

- Bom, só posso dizer que é alguém que se preocupa com você.

- Ninguém se preocupa comigo. Cada um se preocupa consigo mesmo.

- Aí que se engana amigo. Tem sempre alguém se preocupando com alguém.

- Está bem, acredito. – respondeu com ironia.

Nisso parou em frente a uma grande vitrine. Os sapatos numa ilusão de espelhos ou, sei lá o que fosse, davam a impressão de estar indo e vindo, de uma ponta a outra da vitrine. Pareciam que andavam vazios de pés.

- Isso tudo é enganação. – disse um rapaz ao lado dele apreciando a vitrine.

- O que?

- É. Essa vitrine. Pura enganação.

- Mas que é criativa ela é.

- Você vai entrar nessa loja? – perguntou num tom de repulsa.

- Vou. Por quê?

- Se eu fosse você não entraria.

- Ainda bem que não sou você.

- Essa loja é loja de gay?

- Como? Não entendi?

- É. Os vendedores são gays.

- E o que tem isso.

- Deviam morrer todos que fossem gays.

- Assim como os que fossem negros, nordestinos, pobres, judeus...

- Isso mesmo, morte a toda escória da humanidade.

- Que absurdo. – disse mais para si mesmo.

Entrou na loja sem dar pelota para o rapaz que olhou furioso para ele.

- Olá, Denílson. Tudo bem?

Aproximou-se dele um rapaz moreno, da mesma altura, sorridente, vestindo camisa branca e calça azul marinho.

- Tudo bem, Leo. Você não tem aparecido, por quê?

- É eu sei. Trabalho, trabalhado demais.

- Trabalho é bom, mas o laser é melhor.

- Quem é aquele cara lá fora que está olhando para nós?

- É um doido preconceituoso que quer matar a escória da humanidade.

- Conheço esse tipo de gente. Se sentem o dono da razão.

- É uma pena. Rapaz novo, bonito e perdido em suas razões fúteis de cidadão frustrado.

- Mas o que traz você aqui?

- Bom, vou querer um sapato. Você sabe, se eu não comprar um sapato não conseguirei trabalhar direito.

- Que número?

- O número de sempre e o modelo de sempre.

- Vai experimentar?

- Não. Vou levar e depois se não servir devolvo amanhã.

- Está bem. Vou buscar e já volto.

Enquanto esperava, Leo deu uma volta pela loja. Não estava movimentada. Os poucos fregueses que perambulavam pelas estantes eram jovens atrás das marcas e não da qualidade dos sapatos. A maioria dizia-se avançados, usando roupas manchadas, calças esgarçadas, camisas listradas, peito aberto mostrando correntes de todos os tipos, cabelos espetados, cortado rente, topetes dos mais diversos, pintados, enfim, era um pessoal que Leo conhecia por freqüentar muito as noites, mas que não aprovava como viviam.

- Pronto, aqui está, Leo.

- Obrigado.

- Até mais.

- Vê se aparece.

Leo saiu da loja. Lançou um olhar rápido para os lados. Não viu o rapaz preconceituoso que queria limpar a humanidade da escória. Riu. Olhou o relógio. Estava um pouco atrasado. Agora tinha que apressar o passo. Talvez cortar caminho. Ou pegar um ônibus. A única coisa que o atrapalhava era o sapato dentro da sacola com propaganda da loja. Droga! Virou o quarteirão à esquerda. Foi então que ouviu o pio da águia. Virou-se e viu a águia grande branca voando em sua direção. Não se mexeu. Quieto sentiu as garras da águia em seu ombro e viu a avenida ficar cada vez mais longe até que não viu mais a rua, a cidade...

E ninguém também não se preocupou mais com ele e ele, nunca mais se preocupou com os outros.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Pequenas histórias 67

 

Tinha ódio quando o mandavam fazer serviço de rua. Não adiantava reclamar, acabava fazendo, como agora. Mais de três horas na fila. Quando chegou a fila virava o quarteirão. Depois de três horas é que entrou no prédio. Ainda bem, pois começava a chover. Mesmo assim, os respingos da chuva batiam na perna da calça. Esticou o pescoço por cima do ombro do rapaz a sua frente. Havia umas “quatrocentas” pessoas para serem atendidas.

- O que foi? Está querendo passar na mina frente, é? – perguntou o rapaz.

- Não nada disso. É que estou aqui a mais de quatro horas e essa merda de fila não anda.

- É a primeira vez?

- Sim, é.

- Ih, então trate de se acalmar. Aqui é assim mesmo, demorado pra caralho.

- È um absurdo, um desrespeito. Onde já se viu isso!

- Brasil.

- O que?

- Só no Brasil que se vê isso.

- O que essa cambada de preguiçosos fazem?

- Nada.

- Estou vendo.

- Olha o nosso guichê.

- O que tem?

- Veja, a senhora que está atendendo. Atende com pouco caso, fazendo tricô e comendo seu sanduíche, mal dando atenção ao rapaz... E não é só ela, é em todos os guichês.

- Por que não manda embora um funcionário relapso como ela?

- Funcionário público.

- O que tem funcionário público?

- Nunca é mandado embora. Olhe, o pessoal que vem aqui é macaco velho. Veja aquele ali. Deixa seu lugar guardado e sai vendendo salgadinhos. Disse que conseguiu comprar um carrinho. Acredita?

- Acreditar não acredito, mas tudo é possível nessa vida.

- Minha velha e querida mãe que está no céu dizia: “Nesta vida, meu filho tudo é possível. Impossível é Deus pecar e mulher mijar na parede.”

- Hoje em dia acho que até mulher mija na parede.

- Olhe aquele outro na fila ao lado. Aquele, sentado na cadeira de praia. Faz todo trabalho de escola aqui. Está no último ano.

- Estou vendo que vou sair daqui só amanhã.

- Isso não, eles dão uma senha.

- Então vou ter que voltar aqui amanhã.

- Claro, mas isso não é o pior.

- Não! E o que é pior que isso?

- Você ser mandando de um guichê para o outro.

- Como assim?

- Não pense que ao chegar ao guichê, àquela boa senhora vai carimbar o seu documento e te mandar embora. Vai nada. Tem sempre alguma coisa faltando, outro documento, uma certidão, um requerimento. Aí ela te manda para o outro guichê para providenciar o documento faltando. Às vezes é uma simples assinatura, mas assim mesmo ela te manda para outro guichê e, assim sucessivamente você vai de guichê em guichê até quando não se sabe.

- Credo! Você está exagerando.

- Estou é! Bem até posso estar, mas que você vai de guichê em guichê até que eles se deem por satisfeito. Espere e verá.

Não quis acreditar no que o rapaz dissera. No entanto, estava ali mais de cinco horas! Será que o rapaz está com a razão? Bom, que tivesse, o negócio é esperar mesmo. Sentou no chão e encostou as costas no pilar. De repente, era como se flutuasse, como se um vento leve batesse nele e fizesse com que saísse do chão. Que esquisito! – pensou. Olhou para os lados e viu dois dedos segurando-o pela borda. O que? Sou um papel? Não pode ser como? Sim, se transformara num papel. Estava sendo carregado pelo rapaz que estava na sua frente. Num ângulo esquisito, de baixo para cima, viu o rosto do rapaz, a narina com os dois buracos. Credo! Foi passado pela abertura do guichê. A velha e boa senhora com rispidez pegou o papel que era ele, olhou, depositou no balcão e pegou no carimbo para carimbá-lo.

- Não espere! Não carimbe, sou eu, não sou papel! – começou a gritar desesperadamente.

- Hei! Calma, levanta cara, é a sua vez.

- Ahn! O que... A desculpe cochilei.

- E estava tendo pesadelo. – riu o rapaz

domingo, 21 de maio de 2023

Pequenas histórias 68

 

Ele deu um longo e esticado espreguiçamento. Sentiu os músculos repuxados.

Ergueu bem os braços forçando o tronco a se alongar. Depois, girou a cabeça de um lado para o outro. Olhou o pessoal compenetrado no serviço. Cada um com suas preocupações. Cada um com seus esquemas de vida. Com seus sentimentos nobres e angústias plebeias a espera do milagroso sábado.

Finalmente o sol se infiltrava pelas cortinas fechadas. O dia se fazia em seu esplendor dentro da prisão a qual, era obrigado permanecer. O bocejar quase contínuo inundou seus olhos de lágrimas que escorreu desimpedida de obstáculos.

Pensou no que escrever. Não tinha um fio condutor como ontem e anteontem. O que o ajudou foram à fluidez dos sonhos que ficaram martelando na mente. Hoje não sonhou, isto é, se sonhou não sabe, pois como dizem os médicos: o ser humano sonha a noite inteira.

Correu os dedos pelo teclado preto. Percebeu a força das palavras. Cutucavam a pele num processo doloroso desenfreando movimentos rápidos para os lados e para cima e para baixo. O vazio desencadeava outros vazios que se chocavam um com outro tolhendo a criatividade. A inspiração tornava-se ofegante onde as palavras balbuciadas eram constantemente escritas e reescritas.

Abriu a garrafa tomou um bom gole de café. O gosto adocicado caiu no estomago refazendo com que o sistema tomasse as providencias devidas. Ficou a escuta por momentos, com os olhos pregados no horizonte da parede a sua frente. No branco sujo havia uma mancha mais saliente do que as demais. Não conseguia tirar os olhos dela. Parecia que formava um rosto, depois se alongava numa flor com proporções surrealistas, terminando por voltar a ser um rosto. Assim ficou por minutos que lhe valeram horas. Ao perceber a divagação o sol se escondia por traz das persianas. Olhou o relógio. Fechou os programas salvando os arquivos. Guardou os papéis. Deu uma ordem na mesa. Desligou o computador. Saiu para a liberdade de poucas horas. Liberdade de engano, de falsificação. Não podia fazer o que bem entendesse. Vamos dizer. Cumpriu com uma obrigação, agora teria que cumprir outra chegando a casa para que a engrenagem matrimonial funcionasse dentro da podre burguesia. Como sempre, ao chegar não encontrou ninguém. Fechou a porta, passou a chave e desapareceu envolto nos pensamentos.

Lá fora o sol lambeu a porta da imensidão onde a fantasia se realizava a cada findar de um novo dia.

sábado, 20 de maio de 2023

Pequenas histórias 069

 

Os olhos perdem-se na curvatura do ar que, por sua vez, se sujeita aos contornos dos objetos vazios que preenchem o ambiente. Os corpos, perdidos nas obrigações profissionais, circulam o ar com seus movimentos e respirações suarentas, sem perceberem o que fazem. Risos e falas constroem á parte um mundo subjetivo de sentimentos e idéias de sonhos nem sempre catalisado na esperança de concretizá-los. São partes de experiências que cada um vai acumulando nas veias as quais, pulsam freneticamente. Experiências nem sempre entendidas como experiências mas, como obrigação, tanto profissional como social. Mesmo que essas experiências estejam encravadas na carne, carregadas desde os primórdios dos tempos, mesmo que seja uma herança dos nossos antepassados, não deixam de serem experiências. Quando deparamos com um desejo, - nos primeiros anos de nossa vida temos apenas desejos -, às vezes surpreendidos por não entender, ficamos por instantes amedrontados, assustados, e acabamos por agir inconscientemente e impulsivamente.

Entrando na adolescência, vamos nos surpreender com os primeiros impulsos de desejos, excitamento, amor, desamor, ódio, raiva, vingança... E quando deparamos como toda essa amalgama de situações, ficamos perdidos, sem saber o que fazer. É claro, estamos repetindo as mesmas situações que nossos avôs, tataravôs passaram, apenas numa situação diferente, num clima diferente, numa sociedade completamente diferente, mas que não deixa de ser uma experiência inédita para nós.

O bom filósofo é aquele que sabe explanar suas idéias, seus conceitos. Ou seria dizer: o bom escritor. Porque ele pode-se dizer escritor, mas filósofo está longe disso.

A vida é uma sucessão de atos e gestos que vamos ao dia-a-dia concretizando. Vamos assim, criando uma composição surda de melodias impregnadas de pequenas partículas de atividades. Somos compositores de nossas próprias melodias que tangendo a corda do espaço, vibramos, às vezes, em sintonia com outras cordas interagindo ou não com elas.

Assim é a vida, assim caminha a podre humanidade.

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Pequenas histórias 70

 

Bom, verdade corria, não muito, mas corria, entrava por uma rua, virava à esquerda, andava uns três ou quatros quarteirões e virava à direita, houve momento que não viu duas lombadas, na primeira deu a impressão que o carro ia se desmanchar, na segunda quase bati a cabeça no teto, brecadas, uma quatro, abruptamente, me assustou, não, não perguntei, não queria ofendê-lo, poderia ficar magoado ou qualquer coisa assim, não quis nem pensar em perguntar se  estava perdido, acho que o deixaria com raiva ou sei lá o que, aquilo já me cansava, não um cansaço de estar rodando, rodando, rodando, até talvez em círculo, pois na situação em que me encontrava, não distinguia a rua, as casas, os prédios, as placas então... Nem pensar, quando meus olhos caiam numa, ela já estava para traz, não sei, realmente não sei quanto tempo levamos rodando por aquelas ruas, sinceramente não sei, se rodamos uma ou duas horas não sei, não lembro, estava preocupado em não perder o último metrô, sabia, por isso corria, não o culpo, se dava para sair mais cedo? dava mas sabe como é, quer dizer não deu, não deixaram, certo, podia fazer valer minha vontade, minha decisão, sei, mas estava gostoso, a conversa, o vinho, os livros, os poemas escritos, a comida, uhm  estava tudo muito bom, tudo uma

delicia, não percebemos a hora, eu sei, agora estou aqui, mas o carro parou antes, estava parado, o caminhão não teve tempo em desviar e chocou com o veículo bem no  meu lado, por isso estou aqui, sabe não me arrependo, é, não me arrependo de nada, apenas me arrependo do que não fiz, se pudesse voltar... Sei que não há essa possibilidade, não é, compreendo, se houvesse essa possibilidade gostaria de voltar para fazer tudo o que ainda não fiz, é só do que me arrependo, não ter feito o que queria fazer, não posso né, sei, devo ficar... Mas será que não dá para nascer de novo o quê? Impossível, que pena... No momento não, tenho que ficar uns quarenta anos, nossa vou estar bem velho então, ah! Aqui a gente não envelhece, já é alguma coisa, mas... O que isso quem são vocês, por que essa gritaria chamando o médico, ahn! O que, coma, estava em coma, quarenta dias em coma, nossa, to cansado, quero dormir... Enfermeiro... Não se preocupe agora ele vai dormir um pouco... Vou é... Que legal...

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Pequenas histórias 71

 

Ontem apenas alterei o número do cabeçalho e nada escrevi. E não quero escrever sobre falta de inspiração. Isso já deu muita manga para vários autores escreverem, não quero ser mais um, apesar de que já escrevi sobre esse tema que, para mim, já a muito batido.

Também não quero escrever sobre o tempo, esse verão de frio e chuva e garoa que só atrapalha e impede os movimentos. Moro num país tropical, se gostasse de frio iria morar na Groenlândia, se é que lá é frio.

Também não quero escrever sobre o fretado. Gozado, depois que passei a usar o fretado nunca mais escrevi sobre ele. E muito menos com o que ocorre durante a viagem. Viagem! Não deixa de ser uma viagem, de casa aqui levo aproximadamente uma hora. Mas não quero falar sobre ele, apesar de que hoje passou cedo, vamos dizer no horário, e chegou aqui na Paulista antes das oito.

Também não quero escrever sobre me policiar, pois já escrevi duas vezes nesse texto a expressão: “apesar de que”, e um texto com palavras repetidas torna-se um texto pobre, fajuto, demonstra a pouca capacidade criativa do escritor.

Também não quero escrever sobre a reforma do calçamento da Avenida Paulista e o transtorno que está causando. É reforma para melhorar, logo espero, esse transtorno acabara.

Também não quero escrever sobre a espera longa que se tem para pegar o elevador, e nem sobre o pessoal, uns com a coleira a mão outros já com a coleira parecendo que tem um peso enorme pendurado no pescoço, não quero escrever sobre isso, não.

Também não quero escrever sobre a ansiedade em cumprimentar os aniversariantes. Parece uma paranoia obsessiva que, se não cumprimentar será entendido como se não gostasse da pessoa. Para mim, se me cumprimentarem ou não me cumprimentarem não faz diferença nenhuma, não vou ficar magoado ou chateado, não me sentirei nem mais gordo e nem mais magro.

Também não quero escrever sobre o desaparecimento do fone de ouvido que estava em cima da mesa, onde o deixo todos os dias. Não que seja algo importante, mas se sumiu uma porcaria de fone de ouvido, futuramente poderá sumir algo mais valioso. E também, não estou culpando ninguém pelo seu sumiço, pois pode ser que ele tenha caído num dos cantos da mesa, ou enroscado em algum monte de papéis, quem sabe!

Também não quero escrever sobre o que faço, sobre o meu serviço ingrato e chato. Se faço esse serviço, perfurar papéis o dia todo é por que não me esforcei para ter uma função melhor, portanto nada de me lamentar.

Também não vou escrever sobre o aprisionamento necessário, o qual sou forçado há oito horas por dia para me manter sobrevivente dessa massa invisível chamada de humano.

Também não quero escrever sobre as dores nas costas. A dificuldade que às vezes tenho ao me levantar de manhã. A dificuldade em erguer as caixas, coisa que o médico me proibiu. Talvez, será preciso uma operação, não sei ainda. E também, o medo de perder o convênio e enfrentar as filhas enormes dos SUS da vida.

Também não quero escrever sobre os amigos reais que são poucos e fiéis, pois como dizia a filosofa minha mãe: antes pouco do que muito. E nessa filosofia barata de beira de fogão, fui criado humildemente. Talvez, por isso não almejo vida melhor, o pouco que tenho me basta, não tenho pretensão em ser rico, pois sempre me julguei rico.

Também não quero escrever sobre os amigos virtuais. Os amigos que desde um mil novecentos e noventa e oito compartilho ideias, ensinamentos poéticos. Desde a Sociedade dos Poetas Urbanos, passando pelo Mar de Poesia, depois Fórum de Poesia, Escritas, Blinda Alvorada, Amantes das Leituras, Anjos de Prata – onde publico meus textos: www.anjosdeprata.com.br -, Ateneu, Amantes da Poesia, Rascunhos Poéticos, aos sábados na Casa das Rosas, onde conheci poetas formidáveis e sei que vou conhecer muitos outros, tanto ou quanto formidáveis aos que já conheço, e o blog: Poetas Lusófonos: http://www.poetas-lusofonos.blogspot.com, onde depois de anos, os poetas amigos voltam a se encontrarem.

Também não quero escrever sobre a fome. Verme faminto que nunca está saciado. Verme que alimenta a máquina política a engordar em época de eleições. Não, não falarei dela, a fome, solitária corroendo estômagos perdidos nas marquises da cidade, engabelados pelo craque de sonhos não realizados.

Também não quero escrever sobre o vicio. O vicio mórbido que todos um dia deveriam experimentar isto porque, toda experiência é válida, consumista estampando noticias na mídia em geral. Viva o vicio sincero elevando a intelectualidade de nosso ser a cada dia vivido.

Também não quero escrever sobre o amor, o amor que engole que domina machista ou feminista, o amor solitário refugiando nos copos vazios de alma a procura de companhia. O amor triste pisando poças iluminadas pela lua da madrugada depois da chuva. O amor não alcançado em noites de caça por bares e boates e saunas de desiludidos da vida.

Também não quero escrever...

Espere. Disse a imagem refletida no espelho a sua frente.

Sim. Disse ele, o que foi?

Porra! Você escreveu que não quer escrever sobre uma infinidade de coisas.

Sim!

Reparou que nesse não dizer, você disse o que não queria dizer?

Ele olhou seu reflexo.

Vá à merda!

Salvou o texto. Clicou em enviar. Fechou o Word. Pensou: mais um texto para o editorial da revista. Fechou o note book. Encarou seu eu no reflexo do espelho. Tomou uma decisão. Jogou o note book no espelho. Reluziram estilhaços de vidros por todos os lados do seu sentimento. Depois sentou na poltrona e se serviu de uma boa dose de uísque e adormeceu sossegado.

No dia seguinte, os vizinhos presenciaram a ambulância levando-o para a última viagem.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Pequenas histórias 72

 

mergulho nas horas ao longo da avenida afagando segredos

entre os solitários sorrisos preocupados em apenas ser

não encontro-me no lugar das pedras para me satisfazer

encontro-me em lugar nenhum talvez para ser caçado

 

e adormeço na sombra da morte divina companheira

 

anoiteço nas horas ao longo da avenida revelando segredos

em noites onde a carne faminta se expõem ao clamor dos desejos

inútil a carne pálida de esgotada vida se extingue ao clarear

do dia cujas horas compridas engole o sêmen desprotegido

terça-feira, 16 de maio de 2023

Pequenas histórias 73

 

o gozo dos olhos é a beleza dos corpos na intimidade

do prazer em sentir outra vida glorificando vidas

o gozo do sorriso é o sorrir tendo a satisfação do sexo

na entrega total satisfatória e continua renascendo sempre

 

o gozo corre pela espinha do paladar lambendo língua com língua

e na multiplicação de caminhos que se encontram na vertical

o gozo se infiltra nos poros dilatados dos músculos e veias

alongando a sede dos pêlos intumescidos de satisfação

 

o gozo do coito se agasalha no grito animalesco onde

as palavras esconde no estômago a mudez dos lábios

o gozo se infiltra no sabor do liquido supremo revelando

a verdade renascidos nos corpos o prazer de sentir vida

 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Pequenas histórias 74

  

Meus olhos pousam na estátua fria exposta no jardim do sentimento. Num pequeno relance visualizo sistematicamente toda a seqüência da criação da forma. A frieza não me fere mais do que a frieza do não sentir trespassando-me furiosamente. Firo-me à colher as migalhas do olhar a me enregelar de ódio meu peito em chama. Colho os frutos arenosos caídos no solo infértil pelo tempo apodrecido de não sentir-me mais como nos primeiros anos de convivência.Satisfaço-me em cada esquina onde o olhar da vida lanceta meus desejos em pequenos jatos de prazer. Prazer que delicia os poros encharcados de suor numa sofreguidão inesgotável, Adormeço nos braços fortes da angústia e solidão.

domingo, 14 de maio de 2023

Pequenas histórias 75

 

Nos intervalos da minha vida o sentir escala vários graus de emoção

deparo-me com o abismo do que devo e do que não devo

e digo o que não quero

e penso no imponderável calando-me diante do ponderável

 

Nos intervalos da minha vida o sentir escala vários graus de comoção

entrego-me à fala muda dos símbolos emoldurando a vida na arte de viver

e vivo esmurrando ponta de faca diante da timidez que me cala

 

Nos intervalos da minha vida o sentir escala vários graus de paixão

dispo-me do ser que sou e desejo ser o que não sou e deparo-me

com o que não quero entre o ser e o não ser no fundo do copo contemplando

a burguesia falida

 

Nos intervalos da minha vida o sentir escala vários graus de pecado

desfaço-me dos nós enrolados no perdido

e vazio sentimento que à margem do prazer navega

nas ondas da decepção e do ilusório êxtase carnal

 

Nos intervalos da minha vida o sentir escala vários graus de amor

onde disputo a caça entre caçadores vorazes pela presa fácil

que futuramente constará no relatório sexual

 

Nos intervalos da minha vida o sentir nunca tem respostas...

sábado, 13 de maio de 2023

Pequenas histórias 76

 

Meus lábios sorriem nos teus lábios retalhando-me de inesgotável prazer.

Colho a saliva na intumescida carne pontilhada de estrelas esparramadas

Na relva umedecida da madrugada.

Abraçados, contemplamos o amanhecer emoldurado pelo sol beijando o campo

da felicidade.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...