segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.482(2020)

       

            Boa tarde.

            O dia caminha nos seus intricados fios imperceptíveis levando-me com ele. Não posso seguir sozinho. Não sei o quanto posso seguir sem a sua companhia, somos um só, e nesse um só seremos tudo, seremos o audacioso, seremos invencíveis, conquistaremos todo o potencial de ser o que somos, de sermos os únicos e, ao mesmo tempo, sermos o nada.

            Olho no espelho e digo:

            — Te amo.

            Todos os dias, sempre que passo em frente ao espelho digo esse Te amo para aumentar a confiança de que algum dia estaremos junto.

            É isso... ou, não é?

domingo, 30 de agosto de 2020

Série desenho 65


 

 


 

Desenho: pastorelli

 

 

Composição em vermelho.

 

 

Componho as cores dentro das formas

Que o lápis traçou num esboço primário

 

Componho os passos dentro do sentimento

Que o destino traçou, criando

O que eu sou

Um personagem secundário

sábado, 29 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.481(2020

                 Bom dia.

            Sinto-me impotente. Parece que aquela vontade de fazer algo que não se sabe o que é aumentou e, ela, sente-se amarrada, presa oscilando no desvario de incertezas. Nada será como antes? Ou tudo continuará igual como sempre foi? Não sei, não sei se há respostas para essas perguntas, não sei nada e nada saberei se não quebra os paradigmas construindo outros mais significativos, com mais positividade. Deixar a onda me carregar juntamente com o todo acelerando a centelha divina. Soltar as atitudes, os desejos, não fazer pressão ao que se deseja. Deixar fluir tudo o que a mente cria e, assim, colapsar a onda das probabilidades.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Série desenho 66

 



Desenho: pastorelli

 

 

Melhor canto

 

 

O melhor canto era aquele na sala, entre a cristaleira e o grande móvel de carvalho, onde estavam os livros. Ali um por um, li vorazmente. Até me esqueciam, quando lembravam ou já tinham almoçado ou tomado o café da tarde. Dali eu não saia. Participei de muitas aventuras, viagens por mares, selvas, lugares surrealistas, misteriosos, fui para o passado, também para o futuro, conheci monstros, vampiros, dinossauros, mulheres e formigas gigantes, plantas carnívoras, tudo o que se podia imaginar.

Hoje o melhor canto não existe mais, a casa foi vendida, derrubada, no lugar agora é um enorme estacionamento.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.480(2020)

 

  

            Bom dia.

            Silencio de frio, de temperatura baixa que congela até os ossos da imaginação. Dedos enregelados teclam na eminência das palavras certas ou, das palavras corretas. Estas impregnadas de símbolos se caracterizam de soberbas sarcásticas por não serem as desejadas. Mesmo assim, imprimem seus átomos de consciência elevada na probabilidade de colapsar a onda da existência. Será que serão compreendidas? Será que serão aceitas? Tudo são conjeturas de uma mente que se propõem em expandir o colapso da matéria onda da própria existência.

            É isso... ou, não é?

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Série desenho 67

 

 

Série desenho 67

 


Desenho: pastorelli

 

Cone

 

 

Figura geométrica

Tenda de índio

Copinho de sorvete

Objeto de ornamento

Chapéu de mágico

De bruxo ou bruxa

Ou de Papai Noel

Tanto faz assim

Ou assado

O cone é um cone

Mil qualidades

É um mistério

Uso que se faz dele

Cada um usa

Como bem quiser

Quem tem sabe

Onde e como

Deve usar

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.479(2020)


 

            Bom dia.

            Não sei, há uma sensação de impotência, de algo que deve ou deveria ser feito e não tem como fazer. Esse ficar me deixa angustiado, triste, não tem como ser vinte e quatro horas alegre esbanjando otimismo. Não tem, no entanto, devemos ter. Já comecei quinhentas vezes fazer meditação, seguir uma ordem de sequência como forma de exercício, mas qual, paro e não dou continuidade. Pensamentos vem e vão, nem sempre pensamentos que quero que seja positivo. Ficam pulando de assunto sem uma sequência proveitosa. Caralho!

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Série desenho 68

 


 Desenho: pastorelli


Coqueiro

 

Oi trepa no coqueiro

No coqueiro trepa menino

Pega o coco mais doce

Vamos fazer uma batida

Pra rebater esse calor

Que derrete a cabeça

Mais dura que há

domingo, 23 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.478(2020)

         

            Bom dia.

            Acabei de ler A Sibila, de Agustina Bessa-Luis.

            Recomendo. Muito bom.

            É isso... ou, não é?

sábado, 22 de agosto de 2020

 

 

Série desenho 69

 

 


 

 

Desenho: pastorelli

 

 

Coração

 

 

Bate tristonhos os olhos nas pedras molhadas pela chuva escorrendo solidão entre as flores do jardim sem ti.

Bate e rebate na parede da angústia o não estar aqui no meio dos objetos quietos enfileirados pela estupidez de querer enfeitar o que não mais interessa.

Rebate e bate as fibras do relógio humano na esperança de algo acontecer e tudo deixar de ser o que é para ser o que se quer.

Bate tristonhos os olhos nos sonhos adormecidos na esperança de não acordar mais.


 



sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.477(2020)

 

   

            Bom dia.

            As palavras fogem. As que consigo pegar são essas que ora vocês estão lendo, se é que estão. As melhores sabendo que seriam usadas fugiram assim como o ladrão foge da polícia, se é que hoje em dia ladrão tenha medo da polícia. Audaciosos como são, talvez a polícia é que tenha medo de ladrão. Esses meus dedos, apesar de suas características de longo e fino, não têm mais a agilidade de antigamente, trazem o inevitável passar do tempo em sua pele fina e rugosa. Coitados fazem o que podem. Portanto leitores, se contentam com essas que aqui trago para a leitura de vocês.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Série desenho 70


 

 


Desenho: pastorelli

 

 

Coração falido

 

 

Faleceu em uma noite fria de um mês qualquer, no pulsar da esperança, um coração falido.

Cansado, apesar de jovem, não aguentou as decepções amorosas da vida.

Fechou as veias lentamente sem dor e sem remorso, bebendo o último copo de cerveja, fumando o último cigarro, suspirou no embalo da mágoa recalcada.

Beijou a face gelada da eterna companheira e empunhou a foice agradecendo por todos esses anos não ser esquecido.

Assim foi um coração combalido pelas amarguras, pelas mentiras, pelo preconceito, pela desigualdade, pela fome, pelo sorriso de escárnio, pelos falsos amigos, pelas traições, pelos beijos frios, pelos abraços traiçoeiros, pela falta de compreensão, pela indiferença, por amar demais e não ser amado, por acreditar e ser desacreditado...

A quem possa interessar o velório será na Praça dos Esquecidos, Bairro Saudade...

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.476(2020)

        

            Bom dia.

            Os dias me fazem impotentes nesse silencio de medo.

            Não estou onde eu quero.

            Alucinada a caneta traça no papel linhas sinuosas em busca da perfeição no abstrato inexistente.

            Nas ranhuras do papel encontro os beijos que você não me deu.

            É isso... ou, não é?

 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Contos surrealistas 111

 

Aspirina resolve

 

 

Consulto o papel amarelo

O saldo da minha conta

Quase arranco os cabelos

Está totalmente no vermelho

 

Faço, refaço trifaço

As contas não consigo

A multiplicação dos pães

Vejo-me em grande perigo

 

O que fazer pergunto aflito

Recorrer a empréstimo bancário

Render-me a juros salafrários

 

Qual o que abafo o grito

Vou até o bar da esquina

Tomo uma caipirinha

 

E para dormir uma aspirina

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.475(2020)

        

            Bom dia.

            Chove. Choveu a madrugada toda.  E pelo jeito vai chover o dia todo. “Chove, mas só chove”.

            Vou passear nas transversais da parede e no canto da sala junto à porta, no boteco da esperança, beberei um brinde a você que ausente não se pronuncia. Beberei o amor ao o que foi e ao que deveria ter sido. E no vislumbre da luz criando sombras, meu corpo na cama fria irá esquentar o teu na tentativa de esquecer o que foi e deveria não ter sido.

            É isso... ou, não é?

domingo, 16 de agosto de 2020

Contos surrealistas 112

 

Uma pequena cena.

 

Era terça-feira. A temperatura instável produzia um frio irritante, mesmo assim, pediu uma cerveja, logo depois de uma caipirinha e, enquanto bebia saboreava os pedaços de isca de frango. Os pequenos dentes, bem tratados, penetravam nos nacos proporcionando prazer ao saciar a fome. Abriu a ensebada agenda e, na primeira linha, escreveu:

 

Sou falsa imagem projetada na vida pelo lápis da imaginação. Sulcando as fibras imprimo linhas dando forma que preencherá todos os espaços da folha. Às vezes paro indeciso, para onde vou? Para a esquerda na horizontal ou na vertical? Em obliquo criando um ângulo ou uma perspectiva diferente, moderna, ou devo seguir o padrão que coloca na minha mesa comida? Como não tenho que me preocupar com o leite das crianças, desenho círculos desconexos interligando uns aos outros sem me impressionar com o certo ou errado, se a estética é ultrapassada ou underground, se com isso firo a dignidade da arte acadêmica ou marginalizada. Tenho o que dizer aos fariseus medrosos que se escondem atrás das armas. Se não me entendem não sou culpado pela ignorância artística. Leiam, procurem saber os dos porquês disto e daquilo, e verão o quanto são ignorantes.

 

Fechou a agenda. Já não estava tão frio, a garoa tinha parado, mesmo assim algumas pessoas estavam com o guarda-chuva aberto. Pediu mais uma caipirinha e outra cerveja. Apesar de ainda sentir fome desfragmentou a bebida no estomago diluindo o sabor da comida. Nisso uma onda de sentimento bateu no peito. Não sabia o que fazer. Abriu novamente a agenda e escreveu:

                        

                         Serpenteando o contorno da abstração, sigo o meu instinto de intelecto medíocre e sobrevivo à margem da sociedade. Sou peregrino do infortúnio soterrado de emoções que me levam desordenado a lugares incertos e duvidosos. Sigo por fortuitos caminhos onde os ladrões de sentimentos roubam da alma a dignidade. Não reclamo, pois metade do que eu passo foram por mim realizados em atitudes voluntárias que naquele momento me deram prazer. Hoje ao rever meus passos vejo que muitos poderiam ser evitados, os quais hoje não me envergonham e muito menos, me arrependo.

 

Fechou novamente a agenda. Pagou a conta. Saiu a caminhar sob a garoa fina molhando os ossos de concreto. Aos poucos sua figura macilenta foi se incorporando a massa até que não se podia distinguir quem era quem. E ao se expandir a cena em cento e oitenta graus, expondo a avenida toda, lentamente surgiu, letra por letra, a palavra: fim.

sábado, 15 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.474(2020)

 

           Bom dia.

            Frio. Choveu de madrugada. A manhã úmida queima a pele com a temperatura baixa. Silencio em torno da perspectiva de um dia agradável dentro dessas paredes que me envolve como monstro me assustando de angústia. Mas venço todas as tentativas de me apavorar com as armas que possuo. Ora esse escrever, ora as músicas que ouço em alto e bom som, e outras, o meu desenhar e, além disso, meu artesanato de vasos de caixas de leite, papelão, garrafas e outros utensílios. Assim, a cada manhã venço uma batalha, não a luta, mas cada batalha, não posso vencer a luta, se a vencer embarcarei no trem azul na última viagem.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Contos surrealistas 113

 

Quinhentas palavras.

 

O sol, depois de vários dias de chuva, iluminava a lateral do muro e aos poucos, numa evidência despercebida, entrava pela porta aberta da sala. Lucio em frente ao micro remexia a mente a procura de palavras. Não se desesperava nunca foi de se desesperar, aliás, seu lema era não entrar em desespero por nada que fosse. Até o tempo determinado o texto estará pronto, dizia toda às vezes. Portanto, começou a digitar e, como sempre faz, não tendo nada programado, nem história, nem personagens, cenários, clima e muito menos esboço, assim que os dedos pressionaram as teclas freneticamente sem que lhe desse tempo em pensar ou coordenar as ideias, as palavras foram digitadas aparecendo letra por letra no monitor.

E ao ver o sol banhando o meio da sala soube que mais uma vez conseguiria cumprir o projeto das quinhentas palavras. Os dedos ágeis, uma a uma, pressionavam as teclas numa rapidez meio que estonteante. O que vinha a mente passava para o monitor sem se preocupar com as palavras ou erros que fossem surgindo. A sua preocupação era com o conteúdo e com as frases de efeito, bonitas e consistentes dando ao conto força e beleza. Depois numa leitura criteriosa eliminaria os excessos e, se houvesse tempo, passaria por uma revisão cuidadosa.

E quando o sol deixou o meio da sala, e a sombra dominou todo o ambiente, interrompeu o trabalho e pressionou o interruptor fazendo com que a luz artificial inundasse tudo ao redor. Como estava em pé, aproveitou e tirou da geladeira uma cerveja voltando para a sala com ela aberta. Tomou um bom gole e, duas horas depois, havia cinquenta latinhas vazias ao seu lado. Continuou escrevendo, só que agora mais lento, mais devagar. A mente jorrava aos borbotões palavras inundando a tela do monitor. Percebia o trabalho penoso o qual teria que se impor.

No instante em que os ponteiros se encavalaram sobre o número doze, concluiu que não tinha mais nada para dizer e, sendo assim, pressionou o ponto final, salvou, copiou, colou no corpo do e-mail, endereçou, clicou e enviou. Pronto mais uma missão cumprida. Já estava desligando o computador quando uma dúvida o sobressaltou. Abriu o arquivo e leu atenciosamente. Sim, estava bom, o final pecava um pouco, não era um final verossímil, será que agradaria? O importante não é agradar e, sim, ter criatividade fazendo o certo. Foi dormir sossegado com a convicção de que acertara.  Porém, Lucio não contava com uma coisa: a sua distração.

 No dia seguinte ao ler os e-mails, recebeu um da coordenadora do projeto Quinhentas Palavras, dizendo o seguinte:

- Caro Lucio. Você foi desclassificado, mandou para a lista e não para mim, portanto seu texto não entra na competição. Como é o seu quarto erro ficará proibido por quatro meses de participar do projeto Quinhentas Palavras ou você pensa que aqui tem alguém com cara de palhaço não tem não. Assinado: coordenadora do Projeto Quinhentas Palavras.

Aparvalhado chutou as cinquentas latinhas vazias de cerveja.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.473(2020)

         

                Bom dia.

            Quinta feira.

            Todos os dias como um mantra digo:

            — TE AMO.

            E a energia, a consciência dessas palavras surfando nas ondas da paixão, bate em teu peito aquecendo-o e volta ao meu conectando nos para o todo o sempre.

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Contos surrealistas 114

 

Boate Futuro

 

Na porta da boate, vestido a caráter, camisa branca, paletó preto, calça jeans e sapatos branco, impaciente Mateus esperava como haviam combinado. Ou talvez, por não controlar a ansiedade, tinha chegado mais cedo. Tudo bem, até pode ser, mas consultando não sei quantas vezes o relógio, teve a certeza do atraso do amigo.

Josué começava sentir a presença de Mateus incomodando-o. Enquanto se vestia, matutava como tocar no assunto com Mateus. Conheciam-se a mais de sete ou oito anos, mas tudo um dia acaba, disse ao vestir o paletó preto.

A noite prometia. Temperatura agradável. A movimentação em frente ao clube era grande. Não parava de chegar gente. A fila estava descomunal. Ainda não era meia-noite, pelo vai e vem Mateus imaginava a agitação dentro do clube intensa. Muitos, mesmo tendo o ingresso, eram barrados, não constavam da lista vip de reservas.

Mateus jogou o cigarro longe que ao bater no asfalto soltou pequenas fagulhas até parar embaixo do carro. Irritado mordeu de leve os lábios procurando se controlar. Josué estava mais de uma hora atrasado. Ao retirar outro cigarro do maço viu o amigo virar a esquina.

- Mais um pouco estava quase indo embora. – disse num tom azedo.

- Não seja dramático. – respondeu Josué.

- Não sou dramático, sou realista.

Olhando para o letreiro de neon com o nome da boate, Josué respondeu pensativo:

- Vejo que o nosso futuro será sombrio.

- O que você disse?

- Deixa pra lá. Vamos logo.

A noite estava começando. Mateus percebeu o quanto de decepcionante iria ser. Não queria pensar no que não devia, no entanto a atitude de Josué fazia com que as coisas fossem diferentes. Não queria brigar, assim ignorou ao ver Josué com o olhar perdido longe dali. Também não deu importância quando o amigo lhe disse:

- Não espere por mim, lá dentro a gente se encontra.

Está certo, não vou te esperar e duvido que nos encontremos lá dentro, pensou Mateus lendo o nome da boate: Futuro.

- Meu futuro está lá dentro, aqui fora deixo meu passado. – disse entregando o ticket ao entrar.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.472(2020)

 

    

Bom dia.

Quarta feira de um dia claro...

Apesar da pandemia ainda tenho de conviver com a tua ausência e todos os dias renunciar a dor de não ouvir tua voz.

E essas paredes me leva onde você não deveria estar e me trazer onde estou.

Não sei soltar ainda os sentimentos em tua direção.

É isso... ou, não é?

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Contos surrealistas 115

 

Obediência

 

Maria José entrou correndo pela sala.

- Ei, mocinha, não cumprimenta as visitas.

- Não dá mãe...

- Vamos, seja obediente – reprendeu a mãe.

Maria José volta temerosa.

- Boa tarde.

- Boa tarde. – respondem as visitas.

E todos olham para uma menina chorando por cima e por baixo. A mãe envergonhada manda a menina sair com um sorriso amarelo se desculpando.

domingo, 9 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.471(2020)

 

        

            Bom dia. Terça. É terça... distraído estava escrevendo quando uma cabeça de mulher aparece na porta.

            — Desculpe, pensei que era a minha casa, sai e não lembro onde é minha casa.

            — Ela é depois dos prédios, falei para ela e voltei minha atenção para o que estava escrevendo.

            Onde moro é uma vila comprida com doze casas uma ao lado da outra. A minha é a primeira e a dessa senhora deve ser a sétima ou oitava casa. Me disseram que ela não regula bem da cabeça. Pouco a vejo, aliás não só ela como todos os outros moradores.

            Bem... é isso... ou, não é?

sábado, 8 de agosto de 2020

Contos surrealistas 116

 

O pacote

 

 

Lucius Claudius consultou o cardápio. Acabou optando pelo lanche mais barato. Pressionou o botão no centro da mesa e o cardápio holográfico apagou. Logo em seguida o garçom com voz metálica colocou a sua frente o que pedira. Não levou nem dois segundos. A eficiência trazia estampada no quadro do restaurante à nota máxima: dez. Aliás, quase todos os restaurantes, principalmente os do centro, os de prestígios, que possuíam condições financeiras, tinham aderido ao modernismo. Não se via mais a mão humana, tudo era mecanizado, desde o preparo da comida até a mesa do cliente. O que deixava o ambiente meio que frio sem a agitação de garçom de um lado para o outro, vozes reclamando, pedindo, fila de espera, em contrapartida, tudo era rápido, eficiente, limpo, comida saborosa, não se perdia tempo.

Lucius Claudius consultou o relógio estampado na parede. Cedo ainda, resmungou mentalmente enquanto mastigava o pedaço de frango ao molho inglês. Não tinha intenção e nem queira demorar, apenas sentia que algo o atrasaria. Não tinha certeza o que era e nem o que poderia ser, sentiu na pele o vento frio. Nisso, ouviu a voz metálica do garçom:

- Senhor Lucius Claudius?

Espantado, ergueu os olhos para a figura ao lado da mesa:

- Sim.

- Mandaram entregar esse pacote para o senhor.

E sem dizer mais nada e, sem dar tempo de Lucius Claudius retrucar, o garçom colocou o pacote na mesa e foi embora. Que modo rudimentar de entregar encomenda! O certo seria receber e, só depois de aceitar e assinar o aviso holográfico, é que a encomenda seria entregue. Olhou o pacote sem tocar. Que embrulho horrível, papel amassado, cheio de carimbos e selos, o seu nome e endereço estavam escrito na letra antiga. O que poderia ser? Quem mandou para ele? Não havia remetente, apenas um carimbo ilegível. Pensou em devolver. Não, não era aconselhável, teria que passar por um questionário enfadonho explicando por que estava devolvendo.

E se fosse uma bomba? Iguais aquelas de cem atrás? Impossível, terrorismo não existia mais, o mundo tornara-se um só país. E se fosse algum inimigo? Ele tinha inimigo? Acreditava que não. E se esquecesse o pacote em cima da mesa ou da cadeira? De nada adiantaria. Os garçons metálicos estavam programados a levar ao destino qualquer objeto abandonado no restaurante, portanto era bem capaz ao chegar à casa encontrar um deles na portaria do prédio. De duas uma, no caso de bomba: abrir em casa e morrer sozinho ou, abrir aqui e morrer acompanhado. Optou pelo segundo.

- Quero morrer acompanhado, chega de ser sozinho.

Pensando assim, abriu o pacote devagar. Tirou o primeiro papel, tirou o segundo, e, abriu a caixa...

Ninguém sabe explicar, nem a polícia, nem os estudiosos mais capacitados, não sabem o que aconteceu. Até o rapaz, testemunha do caso que disse:

- No momento em que abri a porta o prédio desapareceu, ficou só o espaço vazio do que era o restaurante.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.470(2020)

 

            

            Bom dia. Segunda feira. manhã de sol. Dez e cinquenta e um. Fazer o que novamente? O que foi feito ontem? Nada de nada. Nem escrever, nem ler, nem meditar, nem... nem... Esses dias estão me deixando num continuum movimento parado. Penso em fazer algo e aí vem aquela frase que se tornou frequente:

            — Não preciso fazer agora, nesse instante, tenho bastante tempo para fazer, então deixemos para amanhã.

            E nesse deixar para amanhã o nada invade e caio na leseira de não fazer o que quero ou que deveria ser feito. Merda.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Contos surrealistas 117

Não há perdão


Correu os dedos pela perna direita passando pela coxa até a virilha, depois, correu os dedos pela perna esquerda passando pela coxa até a virilha...

Foi quando ela gritou:

- Papai, o Nando quebrou a minha boneca.

Até hoje, aos setenta anos, ainda lembra-se da tremenda surra que levou.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.469(2020)

            

            Bom dia. Sábado. O dia. O sol. Silencio. Lá fora deve estar gostoso. Aqui dentro de casa tenho que colocar blusa. Frio. Caderno. Celular. Som desligado. Cachorro que late. Livros fechados. Desenho a espera de ser desenhado. Vozes que passam carregando seus donos. Portão que bate. Canetas e lápis no sossego de que serão usados. Uma figa vermelha acima do batente da porta, coloquei ali para espantar os maus olhados, mas dois depois levei um tombo na rua. Sábado, pois é, sábado. Quero e ainda não me desfiz desse trambolho que é esse sofá de dois lugares. Ocupa muito espaço. Outro latido de cachorro. Bem...

            É isso... ou, não é?


terça-feira, 4 de agosto de 2020

Contos surrealistas 119

o gravador de mente


preciso me acostumar com o aparelho...

tenho que por em prática o que inventei...

é preciso de uns acertos...

e não pode ser grande...

tenho que adaptá-lo as fitas existentes...

senão ficará inviável e caro...

só consegui com fitas VHS...

tenho que transformar para mídia...

vou colocar meia...

meus pés estão congelando...

e olhe que está fazendo um sol até que gostoso...

o sono tá querendo me vencer...

tenho dormido mal...

também fico inventando futilidades...

quem vai querer gravar a mente...

o pensamento...

só você mesmo...

vou andar um pouco para espantar o sono...

........

espera...

tenho que bolar...

não bolar não...

tenho é que escrever um relatório minucioso com todos os termos técnicos de como consegui tal façanha...

porra e o que li, os esboços que fiz, os desenhos e mais desenhos, os projetos que desenvolvi, alguns nem saíram do papel, outros se transformaram em sucatas, consultei termos de engenharia acústica, mecânica, horas e horas, noites e noites praticamente sem dormir...

e há um problema sério...

como provar...

como fazer com que acreditem em mim...

não é só apresentar a gravação...

é preciso uma demonstração...

por exemplo, o que escrevo aqui é o meu pensamento gravado...

então...

quem vai acreditar nisso...

é complicado...

ninguém vai querer sair por aí com um capacete desse tamanho, não é...

vou bolar algo decente, um chapéu, diminuir os fios, deixar só dois...

....

....

estão me vigiando...

querem o meu invento...

se cair em mãos perigosas não sei o que poderá acontecer...

desconfio de uma pessoa...

está sempre de branco...

ele aparece de repente do meio da multidão com uma seringa na mão...

...

...

escondi o aparelho...

foi difícil achar um lugar...

ninguém o encontrará...

queimei todas as anotações...

tenho elas aqui na memória...

gravadas em códigos que eu criei...

vou...

preciso correr...

o cara de branco com a seringa na mão está fazendo perguntas...

não vou responder...

ficarei calado...

consegui...

ele foi embora...

....

....

não por favor...

onde é que estão me levando?

...

não sei mais...

perguntam sobre gravador de mente...

não sei o que é isso...

dizem que eu inventei...

não sou inventor...

falo para me deixarem em paz...

não adianta, não ligam...

vou é ficar quieto no meu canto...

não vou responder mais nada...

...

...

...


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.468(2020)

           

            Bom dia. Bom dia e mais bom dia que o dia seque mesmo que você tenha ou não caganeira.

            Não sei se é ruim ou péssimo, mas toda vez que vou fazer algo pergunto:

            — Isso é necessário?

            Como exemplo, peguei o celular, vi, li e deletei as mensagens e depois com ele na mão e com aquela cara de quem comeu não gostou ou não sei o que, fiz a pergunta:

            — Por que peguei o celular?

            E com uma cara de merda respondi:

            — Não sei.

            Bem, o sol está mais quente hoje, acordei meio tarde, fiquei num acorda e dorme, mas me levantei bem disposto esquecendo até a dor nas costas. Não tenho dor nas costas, dizem que se você repetir várias vezes o que te incomoda, ela será eliminada. Tem uma palavra para isso que não lembro. Acho que é confirmação. Espero que tenham entendido.

            É isso... ou, não é?


domingo, 2 de agosto de 2020

Contos surrealistas 120

Comprovado

 

 

Diziam: “Você é invisível.”

Tanto nas brincadeiras como nas conversas dos adultos.

Até o dia em que deu um beliscão na coxa da gostosa tia Adelaide.

Levou uma tremenda surra.

Ficou provado que ele não era invisível.


Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...