terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 173

 

Os gestos concretizam no ar da manhã amena, toda a essência do indivíduo revelando-o em atitudes que o comporá aos olhos da humanidade. – pensava ao atravessar a Paulista, as sete e quinze, portanto, como estava adiantado, resolveu dar uma passada pelas bancas de jornal. Entrou numa, entrou noutra, não achou nada interessante, quer dizer, talvez tivesse, mas não para ele. O que chamou sua atenção foi uma HQ do The Spirit, criação do excelente desenhista Will Eisner. Decepcionou-se, pois além de ser colorida, não era desenhada por seu criador, mas por outras mãos deixando os traços estilizados sem o romantismo dos preto e branco. Não era muito ardoroso dos HQ coloridas, achava que as histórias, os traços, os personagens ficavam chapados, não tinham volume que o traço preto e branco possibilitava. Não tinha nada contra os coloridos, mas desde que fosse criado para serem coloridos, e, não pegar um preto e branco e passar para o colorido. E em The Spirit, Eisner consegue prodígios com a pena, mostrando ao leitor vários ângulos de observação, de dramaticidade, profundidade, conteúdo, volume nas histórias e nos personagens. Ainda bem que ainda não tiveram a audácia de levá-lo a telona, transpor para o cinema e, espero que nunca o façam.

E o sol em repartições ébrias de luzes invade o espaço delicado da alma enclausurada na fornalha da saudade. O solo de guitarra grita vozes transparecendo vidro dilacerado ferindo o asfalto de sangue. Passos escorrega na delicadeza dos saltos esgueirando-se com medo de cair nos obstáculos da vida. Sonora é o sentimento que busca no além a fibra de resistência. Sabei que não estará mais aqui, sabe que não voltarás mais aqui, sabe, mesmo assim busca nesse não sei o que gostaria que fosse. Pendura a carcaça falida no copo de chope escorrendo lágrimas quentes no gelo que o queima. Pendura a carne no grito agoniado do rock esgarçando ternura e ódio num mesmo sentido. Ouve e quieto conduz as partículas nas madrugadas em direção às estrelas que sorriem na tristeza noturna de apenas serem estrelas. Lança um sorriso englobando todos os seus sentidos até que se torne um só na imensidão das galáxias. Serenamente dorme apoiado em braços de fluidez quimérica ouvindo o grito rascante do amor...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 174

 

A caneta, o estilete, o grampeador, o telefone mudo, transparece na quietude do meio-dia ensolarado depois de dias friorento.
O que esses objetos podem significar no dia-a-dia de sobrevivência gotejando pelos poros da preguiça a vontade de chutar tudo e mandar para aquele lugar aonde ninguém vai?

O papel se dobra por causa de sua maleabilidade amorfa sintética de ser apenas um papel a serviço de mãos sádicas. Mãos que poderá usá-lo sabem-se lá pra que. No momento se presta apenas para limpar os ósculos.

As pastas azuis claras e escuras esperam sua finalidade de uso se comportando dentro da integridade de cada uma.

O mouse se encaixe dentro da palma da mão numa atitude feminina acalentando a quentura da pele com sua frieza em servir passivamente.
A tesoura, instrumento perigoso, mortal em mãos desvirtuadas da moral, cujo beneficio é cortar os liames que prende um objeto ao outro ou, simplesmente dilacerar peitos sanguíneos de morte ferida.
O calendário, marcador do tempo que não espera os atrasados e, muito menos, os imóveis de sentidos que não sabem o que fazer, opera sarcasticamente nas vísceras das moléculas envelhecendo-as.
A única salvação é a música, como disse um doido dos neurônios: a música é ópio da humanidade, até pode ser, mas ópio que opera milagre, que reúne povos, pessoas diferentes, num só balançar de ossos de um lado para outro. Ópio que por três dias ou mais até, cantou o amor entre os homens de boa vontade e cheios de prazeres a luz do sol e ao sabor da lua.

E viva o amor.

Como disse Pelé em solo americano: Love, love, love...

domingo, 29 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 175

 

Cansados olhos pousa na manhã ensolarada em objetos a procura de um tema, de um indicio de escrita, de algo novo, diferente e, para o seu espanto, repara que não há nada novo, de diferente, tudo continua a mesma coisa ontem, hoje e sempre. O poder de escrita é pequeno, diminuto diante do grande poder que há dentro do peito machucado.

Nada é mais sincero do que a dor sentida ao não querer sentir a dor. No entanto, parecendo ou não ela está lá, por mais disfarce que usamos, por mais expansivo que sejamos ela está lá. Não adianta sorrir diante de um dia ensolarado, não adianta sorrir ao ver o sorriso de uma criança, não adianta se emocionar com uma estupenda música, ela vai sempre estar lá comunicando: veja não me esqueça.

E quem consegue esquecer a dor? Quem consegue extirpá-la quando mais precisamos dela? Não há poeta que não consiga se livrar dela. A dor é necessária, mais necessária que amar.

sábado, 28 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 177

 

Nas sombras do sol rente a parede, caminhava despreocupado. Não pensava em nada, quer dizer, em nada que fosse considerado por ele, naquele momento, como importante. Cabeça erguida, ombro levantado, dava-lhe a sensação de estar esticando os músculos das costas fazendo com que a dor diminuísse. Precisava ficar atento, acostumado com uma postura relaxada, quando menos notasse os ombros estavam caídos para frente. Tinha que caminhar não retesado, de uma maneira que não se sentisse teso, sem que o corpo, os músculos, enfim, a carne toda do corpo sentisse a tensão do dia-a-dia. Era o que vinha pondo em prática nesses últimos dias. Assim, conseguia caminhar longo percurso sem sentir a perna dolorida, e, tinha se prometido – se cumpriria era outros quinhentos - mas tinha prometido quando fosse possível, faria uma e gostosa caminhada. É, fazer tudo bem, o problema era dar continuidade. Sabia que começaria com entusiasmo, com vontade, porém, um tempo depois, um mês ou um pouco mais, acabava desistindo. Parava. Mesmo por recomendação médica não tinha jeito que o fizesse continuar. Podia ficar despreocupado, pois ninguém mais o molestaria recomendando a não parar. A princípio enchiam a paciência dele, chovia recomendação em cima de recomendação; a mãe vingativa não cozinhava o que ele gostava, o pai dava-lhe uns cascudos para saber quem mandava a irmã poucas vezes retrucou o seu procedimento. Enfezado saia para a rua, voltava só a noite, onde ouvia de novo as admoestações de sempre. Por isso tomava seu banho, jantava o mais rápido, sem abrir a boca, e subia para o quarto, passava a chave, deitava na cama até que o sono viesse dominá-lo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 178 - 179 – 180

 Incompreendido

  

Ruan andava rente à parede, propriamente arrastava-se sem se preocupar com as protuberâncias esfolando o ombro e o braço direito.  Aos trambolhões seguia determinado. Não dava bola para a caterva que vinha em sentido contrário. Às vezes proferia frases soltas, algumas delas palavrões. Chegavam a empurrá-lo para o lado sem motivo. Porque agiam assim contra ele? Não fizera nada. Apenas estava andando normalmente como todo mundo estava. Seus passos eram retos, decididos, trazia o corpo empinado como disseram que deveriam ser esticados, os ombros levantados. Então? Por que toda essa violência? Nada fizera. Só porque não suportava ficar em casa ouvindo baboseiras, preferindo a rua não era motivo para que fosse tratado dessa maneira. Bebera um pouco, reconhecia, mas foi só um pouco nada mais. Não estava com a mente embotada pelo álcool, sabia o que estava pensando, onde pisava o que estava olhando.

- Você não presta, não faz nada, é um parasita. – dissera o pai.
Como! Parasita? Onde foi que ouviu essa palavra? Não, onde foi que leu essa palavra? Livro, filme... Ah! Lembrou. Os Parasitas, de Daphine Du Maurier. Que falta de criatividade do pai, pensou desgostoso. E eu que sou parasita? E ele? O que é? Parasita e meio, ora bolas. Só sabe me chutar, xingar, falar mal dos outros, nem liga para mãe. Pelo menos tento alguma coisa. O que? Escrever. Não está bom? Escrever não é profissão. Mas será quando me descobrirem. E por falar nisso, percebo que está nascendo outro personagem, quem sabe com esse consigo deslanchar legal.

Um personagem, e como seria esse personagem? Seria, ou deverá ser um personagem depravado, inescrupuloso, sádico, prostituto, michê que só quer ter prazer para si próprio pouco se lixando para os prazeres dos outros. Um moleque viciado, mas não em drogas pesadas, só na maconha, que faz da Avenida Paulista sua praça, sua morada, seu campo de caça. Ih! Que barra! Conseguirá criar um personagem assim? Tentará claro que tentará, não foi assim das outras vezes? Foi então nada de se preocupar com o se conseguirá ou não. Escreva, o que vier a mente, depois apara, reescreva quantas vezes for necessário, moldando o personagem.
Ruan monologava enquanto pisava nos raios do sol banhando a calçada larga, nova da avenida. Como era gostoso andar nessa calçada renovada, limpa sem os costumeiros camelos a sujá-la. Nisso bateu num obstáculo. Parou. Olhou o que era. A multidão estacionara na beira da calçada esperando o sinal abrir. Um sujeito virou o rosto olhando feio para ele. Deveria se desculpar? Não deveria, e se desculpar por quê? Por ser distraído? Não me desculparei. Será que nunca se distraiu na vida? Claro, que já. O distrair é necessário para cruzarmos olhares de ódio ou de raiva. Ruan não tinha olhar de ódio e muito menos de raiva, e sim, um olhar distraído, fora de ângulo, numa direção além do sujeito. Assim que o sinal abriu, sem saber por que, atravessou junto com a caterva.
Atravessou a rua seguindo a multidão. Seguia o instinto do sujeito que olhou feio para ele. Seguia no desvão da vida. Passeou o corpo dolente por baixo do MASP. O espaço que se estende por sobre a rua lá embaixo dando sensação de solidão mórbida de paz. Inclinou meio corpo, o nada que o separava entre o parapeito até o asfalto que parecia minúsculo, enchia-o de dolorida angústia em abraçar tudo aquilo flanando no espaço feito pássaro urbano. Respirou fundo. Sentou dando as costas para o mundo rugindo lá embaixo. Trouxe a atenção para o mundo aqui em cima, forçou-se a observar o que ocorria a sua volta. À direita, meio que distante estava um casal de namorados aos beijos e abraços. À esquerda, dois mendigos aproveitavam a sombra da tarde para descansar a fome num pequeno cochilo. Como colocaria o personagem nesta cena, nesse ambiente de normalidade aparente? Como agiria diante das circunstâncias? Ficaria parado, conversaria com alguém, ou esperando que o abordasse puxando assunto? Não sabia, não tinha noção. Teria que esboçar com traços psicológicos, social e sexualmente no contexto da história. E a história? Como seria? Droga! Não tinha paciência para essas coisas. Gostava de imaginar ao mesmo tempo em que ia escrevendo. Como agora. Imaginar o seu “eu” dentro dessa cena em que se encontrava. O seu “eu”, essa é boa. Seria como aquele sujeito aos abraços e beijos com a namorada? Ou mendigo como esses que estão dormindo? Para isso precisava ter conhecimento razoável sobre eles. Que tal chegar neles para uma entrevista? Diria que era repórter de uma revista e que estava fazendo uma determinada pesquisa. E o que perguntaria? Sei lá, muitas coisas. Mesmo que formulasse um questionário essencial, ele não ficaria realmente conhecendo-os para tê-los como modelos de personagem. Talvez, entrando na pele deles, no mundo deles vinte e quatro horas, e, mesmo assim, não teria um personagem cem por cento.

Olhava para o transito que se desenrolava quando um rapaz sentou ao seu lado.

- Olá. Morgando ao sol da tarde? – perguntou o rapaz.

- Pois é mano, descansando a carcaça como lagarto.

- Tá afim?

- Afim do que.

- Uma pitada?

- Uma pitada?

- É, ou nunca deu uma...?

Uma pitada! E por que não? Quem sabe as coisas se transformariam na rapidez de um piscar de olhos. Numa freada de carro, ou mesmo, num... Relâmpago ou sei lá o que. Aceitou.
- Obrigado. Aceito.

Aspirou lentamente o cigarro, o sabor adocicado queimou a garganta e esparramou pelo pulmão levando-o a tossir, os olhos lacrimejaram ardentes. Aspirou novamente, agora com mais firmeza consciente dos efeitos. De repente o mundo tornou-se livre de preocupações, nada mais o atazanava, poderia escrever sobre o que quisesse que sairia bem, o corpo se relaxou, despertando da prisão da carne, o sangue fluía em seus ouvidos murmurejando vida. Estava feliz. Quis dizer isso ao companheiro. Virou-se para falar, quando percebeu que ele estava longe, parecia que estava fugindo. Andava depressa e olhava para traz como se estivesse sendo seguido. Instante depois viu dois policiais no alcance do rapaz. Rapidamente, apagou o cigarro enfiando a bituca no bolso. Decidiu sair daquele lugar. Caminhou para a avenida e seguiu em sentido contrário aos policias. Atravessou e entrou no parque Trianon.
Passeava por entre as alamedas projetando sombras de alívio. Queira continuar pitando a bituca. Primeiro precisava acendê-lo, mas como, não tinha fósforos? Nisso passou um senhor com cigarro na boca.

- Por favor, poderia me dar fogo?

O senhor, cabelos bem grisalhos, desconfiado parou e passou o cigarro aceso para ele. Acendeu a bituca com longas tragadas.
- Obrigado, senhor.

Deus as costas e não viu que o senhor ficou observando seu caminhar. Ruan procurou num lugar afastado do movimento. Queria fumar despreocupado, sem interrupções. Achou um banco isolado quase no meio das árvores. Dirigiu-se para o banco. Esticou-se de comprido, as pernas pendiam para fora do banco. Acima dele as ramagens verdes das árvores cruzavam-se em intricados galhos conduzindo seu pensamento para todos os lados.

Como é gostoso a paz das sombras embalando os sonhos, pensou. Nisso uma formicação subia por seus pés. O que seria? Não quis saber. Ficou imóvel sentindo o formigamento pelas pernas, pelos joelhos, pelas coxas, e notou que abriam a braguilha da calça. Delicia de viagem, disse para si mesmo. Excitado deixava-se bolinar sem se preocupar por quem fosse. Talvez, alguém querendo aventura sexual, e me viu topado dando sopa, procurou se arriscar. Ainda bem, que vá em frente.

Relaxou o corpo, e se viu por entre as folhas das árvores, flanando entre os galhos livre de toda e qualquer motivo de preocupação. Queria que essa sensação se tornasse definitiva, que ficasse sempre ali nas alturas entre as folhas e sombras úmidas de liquido quente.
Um frêmito perpassou pelo corpo. Caiu direto no banco. Doíam as costas por ter deitado de mau jeito. Sua calça apresentava uma enorme mancha úmida e escura. Nesse momento, ouviu duas senhoras que passavam:

- O mundo está perdido mesmo. Não há mais censo de vergonha.
- Horrível mesmo. Acabou-se o romantismo, minha irmã. Hoje em dia faz-se qualquer coisa em qualquer lugar.

E sumiram na curva da alameda.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 181

Eu não minto nas palavras que aos borbotões se esparramam no crepúsculo do teu ser ainda adormecido. Palavras lambem o teu dorso como foice afiada corta a grama do saber. Deslizo inconsciente entre as palavras na procura do teu físico que não tenho em meu poder. Percorro trilhas murchas de gramas e flores desiludidas jogadas no lixo. Cato algumas refazendo o percurso por onde devo seguir até amealhar o fruto que a mim deve ser ofertado. Colho desse fruto o sabor da vida lambuzando-me num coito amoroso onde dois é um e, em uníssemos, letárgicos caímos no profundo ser que há em nos dois. Fechamos os olhos, dormimos a eterna aurora na oferenda um ao outro. Eu não minto nas palavras que aos borbotões se esparramam no crepúsculo, eu apenas sinto-as me regozijando em teu corpo nu pronto a se entregar aos prazeres da alma nua.


quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 183


Ruan estava se sentindo como o personagem do Selton Mello, Lourenço no filme O Cheiro do Ralo. O cheiro fétido que todos sentiam, Lourenço se desculpava dizendo que era do ralo e não dele. Só que ninguém dizia para Ruan que ele fedia, ou que estivesse fedendo, talvez por delicadeza, para não ofendê-lo. Deduzia que somente ele sentia o seu fedor, e isso quando precisava fazer suas necessidades fisiológicas. Quando estava nos limpamentos ao ver suas impurezas escorrendo pelo ralo, ops, quer dizer, pelo esgoto do vaso sanitário, isso o deixava meio deprimido, pois não era do seu feitio negligenciar a higiene corporal. Tomava banho todos os dias, às vezes até três vezes ao dia, quando possível, e quando não podia se enchia de perfume, desodorante, e dos melhores, não gastava seu rico dinheiro com produtos inferiores. Então porque se sentia fétido? Não era do vaso entupido que demorava a engolir suas impurezas, não era. Era dele mesmo, percebia. Estaria se deteriorando lentamente? Credo!
Deu risada. Pelo que ele saiba estava usando aparelho auditivo e não aparelho olfativo. Será que sua deficiência auditiva aguçou a olfativa? Riu para o espelho que lhe mostrava sua face de todos os dias. Face que ainda não se acostumara com ela. Bom, de duas uma, ou ele estava mesmo se desintegrando fetidamente ou então, o que era o mais provável, o mundo é que estava fedendo e não ele. Considerou a segunda hipótese, o mundo é que estava mesmo se desintegrando na merda de todos os dias. Apagou a luz e saiu do banheiro se preocupando com outras coisas mais interessantes.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 184


Lágrimas rolam no asfalto de plástico e o pássaro artificial canta seu canto mecanizado. Pingos de cristais pálidos, as lágrimas se estilhaçam ao cair furando o asfalto como lâminas de sangue. Esborrifa aroma podre aos que estão perto, aos que não ouvem o grito da baleia embalada nas redes da morte. O sal escurece a sombra pela falta de memórias que serão armazenadas em alfarrábios modernizados operantes ao simples clique.

Prisioneiras crianças brincam ao sabor de pais assassinos onde as balas perdidas violam a paz sibilando a morte em cada passo nosso no dia-a-dia.

Amém.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 185

 

“Onze e trinta e cinco minutos por onde o raio do sol, transpassando a cortina amarela de plástico nauseabunda de calorífico aroma de comida podre, invade o ambiente amórfico de degustações contábeis e financeiras. Números são jogados nas abstratas comercializações baseados em leis, códigos e artigos como grilhões prendendo cada indivíduo em suas baias prisões. Suspensos pelas decisões sem que se possa contradizê-las, cargos são criados ao mesmo tempo em que outros são desativados para o bem conforto da grande mãe empresa. Sobreviventes lutam contra o vírus ao fazer paralelo de outras atividades extras sem prejudicar o seu fazer profissional.”
Credo! Porque não consegue um escrever mais simples, modesto, sem a porfia de intelectualidade barata? Não sabe que isso não faz com que seja mais lido? Mas como poderá tornar seus textos mais simples, leve, poético? Deixar fluir quimeras que pelas pontas dos dedos digitem caracteres da mente? Não esforçar o conteúdo encefálico a pensar além do seu QI? Bom, ele tenta, bem que tenta que o diga quem o lê. E continuará sempre tentando, nunca passou pela sua mente um dia ter que parar. Não pensa em parar... Por mais sofrível que seja sua escrita, continuará escrevendo, até que os dedos sejam imobilizados pelas dores do reumatismo. Portanto, o aguardem...

domingo, 22 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 186

 

Pare o tempo para que eu possa lhe dizer o quanto te amo.

Pare o tempo, por favor.

Pare o tempo na ponta da estrela para que eu possa recolher um pequeno brilho e depositá-lo nos teus lábios finos e sensuais.
Pare o tempo para que eu possa pegar um acorde da guitarra do Floyd e transformá-lo eternamente em nossa canção.

Pare o tempo no celuloide azul da liberdade e que eu possa deixar-te livre palmilhando a estrada ao meu lado.

Pare o tempo na esquina da vida e que eu possa laçar nosso destino levando-nos a seguir junto o mesmo caminho.

Sim, pare o tempo, imobilize as horas, os minutos, os segundos, para que possa entender porque te amo tanto.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 187


A todo instante cai uma lágrima dos olhos da alma
A todo o momento a lágrima desliza pelo descampado rosto
E repousa no teu colo aveludado
A todo instante
A todo o momento
Recolho a lágrima na concha da minha mão
E sorvo sua consistência para dentro do meu corpo
Corpo que reclama o seu
O seu aveludado e adocicado
Que transpassa o meu
Que verga o meu
E ao teu sentir
Sem piedade
Sem mágoa
Sem dor
Sem angustia
Apenas te sinto
Em todas as direções

Minha pele eriça
Tão somente
Em pensar
Na tua pele
Aveludada e doce
Agasalhando
A minha na concha
Uterina do prazer

“Quem sabe
Faz hora
Não espera
Acontecer”

Como não
Sei fazer a hora
Espero acontecer

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 188


Pegou o extrator enfiando a ponta por baixo do grampo e num só movimento, rasgando a pele do fraco papel que sangrou lágrimas de letras e números emporcalhados em débitos, créditos, saldos, dívidas, extraiu o pequeno metal enferrujado. Sentiu-se potente, nada o derrubaria naquele momento em que se aconchegou na voz melodiosa de Amy Lee.

Não era sua musa, aliás descobriu que não tinha musa nenhuma, amava todas e nenhuma em particular. Ruan não colecionava pôster pelas paredes do quarto, não demonstrava a imbecilidade ejaculatória como brinde, preferia as paredes totalmente brancas.
Sentado no meio do quarto, com as janelas fechadas, na maior escuridão, a voz de Amy Lee perfurando a essência da carne, levava-o a viajar por mundos surrealistas. Levitando o corpo atravessou a parede branca projetando-se em solos ao acompanhar dos dedos do guitarrista.

Sorriu, sorriu ao divisar um ombro moreno que uma blusa deixava amostra. E levemente, sem que a dona do ombro notasse, depositou em forma de flor, um beijo agradecendo por divisar entre escombros humanos a vida que ali pulsava docemente iluminando a existência.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 189


Cabeças se dispersam no ambiente de contas entre risos disfarçando alguma alegria. Lá fora o sol estampa a claridade natural comunicando que a vida continua apesar de ser uma só. Os infatigáveis objetos presenciam a solenidade de todo o mês na mudez material. Flutuações sonoras encobrem flatulências de realizações abortadas durante o caminhar de sobrevivente eterno.
A cidade explode raios irisantes de tortura deformando meninos de plásticos nos faróis com suas arrogâncias de famintos. Zumbis deflagrados pela tecnologia apertam botões alimentando suas intelectualidades imbecis urrando de alegria a cada gol de vitória.
Entre a multidão não vejo você. Não a vejo. Deixei de vê-la, não por minha vontade, mas devido ao medo de perdê-la na inconstância do sentido em não tê-la tão perto de mim como deveria ser.
A placa desprendeu-se do céu e inocentes morreram. Ele foi o único que se salvou. E aterrorizado descobriu que ainda a amava.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 190

 

No sorriso do gato de Alice mora o mistério dos passos que por muitos são ignorados. Labirinto de magia sombria, o olhar sorriso do gato, transporta sonhos para realidades distantes difíceis de alcançar, mesmo os sonhos se proliferam na mata vertiginosa do sexo alucinado escorrendo orgasmo podre pela cidade de zumbis.
Dormem silenciosos movimentos enclausurados no miasma da madrugada pousada nos cantos escuros das pedras da solidão aterradora. Poucos são os que temerosos, saem a perquirir dos mistérios que o levam a agir envolto na obscuridade da própria alma. Aqueles que ousam, guardam experiências macabras revelando o que eles são na claridade da pele. Alguns passeiam sua vida restante em manicômios onde o lixo humano é depositado.
O escárnio é evidente, o desprezo é vulgar, a indiferença é arma a lancetar de sangue os esquecidos moribundos de si mesmos. Gritos, lamentos não resolvem o problema da fome, do suicídio, do estupro, do parricida, do assassino de filha, do desamor... Não resolve.
Mas continuamos a nos envolver no sorriso do gato de Alice como se fosse a nossa salvação. Para termos a liberdade total é preciso assassinar o gato de Alice e assim apagar o sorriso de mistério que nos envolve.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 191

 O Incurável Parte I


Entre pétalas de margaridas ele acordou e sorriu vislumbrando a magia da natureza operando em todos os seres.

Então levantou-se entusiasmado com todo aquele perfume que as flores exalavam e feito criança corria, maravilhado com tanta beleza.
Quando menos percebeu, pisou num buraco, tropeçou em uma pedra áspera e caiu num abismo escuro, quando ia chegar à rasa água que no final se encontrava, acordou do sonho que como sua vida simples pobre e fedorenta, repentinamente tomou um soco na cara ao se deparar com a cruel realidade que tinha como vida.

Olhou para seus poucos pertences que ainda lhe restavam, debaixo daquele velho viaduto. Pensou:

"Quanto tempo dormi? Ah o que importa, gostaria de não mais acordar."
Virou-se pro outro lado e dormiu novamente.


Jean de Queiroz

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 192


Divisórias interceptam frequências de emoções nos olhares indiferentes que no dia a dia dominam a paisagem de concreto. Cada divisória representa uma sequencia de atos nem sempre corretos, alguns falhos, onde cada indivíduo pisa na vida de asfalto quente e sujo. É uma eterna sequencia de ser morrendo e de não ser vivendo enlouquecido no prisma dos faróis quilométricos.
Mesmo que o sorrir avança para o amor, o desamor nunca busca o sorrir. No entanto a esperança vence no cansaço de se encontrar o amor onde nunca se imagina que esteja. O amor realmente existe? Pergunta o incrédulo. Responde o crédulo: claro que não existe, pois se existisse não haveria tanto desgraça no mundo.
E o dia continua na sua vertiginosa intensidade louca de ser mais um dia apenas. Só a música poderá abrandar a intensidade ser e não ser ao mesmo tempo em que se vive no parapeito do abismo.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 193


       Foi algo não imaginado. Surpreendeu-se, claro que se surpreendeu, mesmo que preparado estivesse não poderia evitar a surpresa. E ele não tinha se preparado. Quando diziam que se preparasse para os imprevistos, não ouvia, desprezava conselhos.

“O prevenido vale por dois” – dizia sua mãe.

Nunca deu ouvido, saia sempre sem guarda-chuva. E ela retrucava quando voltava molhado.

“Bem feito, não recomendei para levar guarda-chuva, conselho de mãe não se despreza.”

É, dava razão agora, mesmo assim não gostava de conselhos. Sabia que desde o nascimento o ser humano está preparado para colher o seu destino, fizesse o que fizesse. Destino! Outra coisa que não acreditava muito, não. Se o destino dele é ser feliz, por que deveria labutar para conseguir a felicidade? Se ficasse imóvel parado, não seria feliz? Não, não seria, é preciso fazer para ser, lhe diziam os filósofos da vida. Quer dizer que o seu destino é esse: fazer para ser?

Todas essas questões lhe vieram à mente ao deparar com o inusitado, com o não imaginado, o tal do imprevisto.

“Não levou o guarda-chuva, bem feito.” – pareceu ouvir a voz da mãe.
       E foi um soco no estômago, não foi um soco, foi uma explosão atômica.                                                     Não contava com isso. Relutou sem saber como dar prosseguimento. Tentou desviar, tentou pela razão, tentou pelo conhecimento, tentou pelo coração, nada adiantou, não tinha como fugir e, como lutador que sempre pensou que fosse, enfrentou com o espírito elevado, enfrentou.

Assim que abriu a página, assim que seus olhos castanhos claros puxados para o verde depararam na imensidão do branco do papel, decidiu-se finalmente. Pegou da borracha e apagou aquele infernal ponto preto, enorme bem no meio da página.

A partir desse momento, conseguiu escrever, conseguiu expressar os sentimentos aglomerados em seu peito.

Nunca mais se preocupou com o que deveria ou não escrever.

sábado, 14 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 194

 

           Manchas de pensamentos invadem o cérebro na busca em dizer o certo. Cola-se aqui e ali, metamorfoses de palavras nem sempre a certa. Os dedos obedecem tão somente. Obedecem pressionando teclas pretas do sentir a vida escorregando entre os dedos num finíssimo fio de areia úmida e gostosa. Não há como aprisionar, prender cada grão de areia assim como não há como prender o sentimento que escorre pela garrafa de cerveja para o copo e do copo para a garganta seca de se saber amado.

Quisera o poder de conciliar todo o sentir numa palavra de uma silaba só. Quisera ter na palavra a música cheia de acordes sublimes que me leva as lágrimas. Quisera conter essa lágrima em minha mão e entregá-la a você como prova de nossa existência única e bela. Quisera ser, não só a lágrima, mas todas as lágrimas quentes ou frias para poder sacrificar meu sentimento dirigido a você que longe está e não me ouve. Quisera e como!
           No entanto tenho, como companheira, apenas manchas de pensamentos que, inescrupulosamente invadem meu cérebro ao querer tão somente, dizer o certo do meu amor a você. Eis aqui a minha questão de fé. Eis aqui o mistério da paixão. Eis aqui a nossa crucificação.
           Morrerei por ter e não ter o seu e o meu amor.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 195

 

- Vou te amar para sempre, dizia todas as manhãs quando o sol entrava pela janela do quarto e nos acordava. Depois, colocava Fredy Mercury interruptamente enquanto na nudez do corpo, preparava o nosso café.

- Vou te amar para sempre, era o que me dizia. E, todas as manhãs, Fredy Mercury permanece mudo enquanto que o sol bate na janela suja do quarto queimando minha pele e, nu permaneço na cama sem tomar café.

E quando me dizem:

- Você é muito triste.

Respondo:
- Não, não sou triste, amo a vida tão somente.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 197

 

Abriu o guarda-chuva de cinco reais. Logo viu o quanto perecível era o guarda-chuva de cinco reais. Abriu o guarda-chuva. Precisava abrir. Não parava de chover. Saiu na hora do almoço sem guarda-chuva. Não se molhou porque vestia a jaqueta jeans a qual, abotoou até o pescoço, no entanto a cabeça recebia os pingos, nem grossos e nem finos, do que parecia ser uma chuva. Foi então que reparou. Nesses momentos de transtornos, como a chuva, as pessoas ficam mais agitadas, os carros se avolumam, o brilho individual se espelha nas poças de águas acumuladas pela calçada desregular. Saiu do prédio sem saber se estava ou não chovendo. Saiu. Enfrentou os pingos da água que caia das nuvens, apesar de que não se via nuvens nenhuma, mesmo assim, abotoou a jaqueta jeans e enfrentou a chuva. Claro, como sempre foi preciso desviar dos guarda-chuvas com suas ponteiras assassinas. E bravamente, como herói arqueológico, foi desviando dos algozes pontas. São e salvo chegou ao restaurante. Só o ralo cabelo estava meio úmido. Passou o braço da jaqueta nos cabelos procurando secá-los.
O restaurante com sua capacidade meio cheia, não querendo, estavam com pressa, precisou esperar uma mesa. Por sorte, uma no canto foi logo desocupada. Dirigiu-se para lá. Sentou. Fez o pedido. Amassou a pimenta no prato e passou lentamente a saborear o pão molhando-o na pimenta.

Bem, encurtando a história. Logo chegou o prato pedido. Comeu, pagou e saiu do restaurante. Passou pelo vendedor de guarda-chuvas de cinco reais, comprou um e alegremente foi embora. Entrou no prédio, esperou uns longos segundos pelo elevador. Assim que ele chegou pressionou o andar, e assim que ele chegou ao quinto andar, saiu, abriu a porta de vidro, passou o cartão na máquina (?) e dirigiu-se a sua baia. Não sou cavalo, pensou. Ligou o micro, escreveu essas palavras grotescas, colocou o ponto final. Fechou mais uma vez o World. E mesmo não querendo, se pôs a trabalhar. Que merda!

Pequenas histórias 196

 

Ruan desceu do ônibus e, como estava chovendo, abriu o guarda-chuva. Atravessou a rua apressado, esbarrou nas pessoas, uma senhora até ficou indecisa sem saber para que lado ir deixando-o atrapalhado. Ao chegar à Paulista, parado a espera do sinal abrir, se perguntou:

- Por que estou apressado? Tenho ainda quarenta e cinco minutos, não tenho motivos para andar como louco. Talvez, por querer fugir da chuva. Uma alternativa. No entanto não é uma chuva na concepção da palavra. É mais uma garoa ou, como diz os equivocados da vida, é chuva de molhar trouxa. O que não deixava de ter um pouco de razão. Pois se ficar muito tempo na garoa acaba-se molhado. Mas não era o caso nesse momento, pensou irritado com os guarda-chuvas espetando a cabeça.
Acontece que a questão não é essa, pensou ao subir a pequena escada que levava ao edifício de vidro.

- Não sou nenhuma Sofia* e não tenho nenhum professor de filosofia. O problema é o seguinte: será que precisamos explicar tudo o que fazemos? É preciso de uma explicação? O homem precisa se explicar porque faz isso ou porque faz aquilo? Aparentemente não. Por que aparentemente? Creio que dependerá da sua situação social e, talvez de onde ele estiver. Então ele precisará se explicar? Sim e não. Por que sim e não? Por exemplo, eu, Ruan, apressado para não me molhar, dirigindo-me ao trabalho, o que se poderá considerar que também não quero perder a hora, se não abrir o guarda-chuva, se estou sendo um trouxa tomando garoa, não preciso me explicar, certo? Nesse caso sou indivíduo anônimo, as pessoas passam ou cruzam comigo não querem nem saber quem eu seja e, poucos estão se importando do porque de estar me molhando nessa garoa. Certo? Até o momento certo. Mas se você, nessa chuva, deitar de barriga para cima, ali, no meio dos dois prédios, vai ter que se explicar. Sim, acho que vou principalmente para o segurança que, talvez delicadamente peça para sair dali, me levantar ou, no caso de resistência da minha parte é capaz de levar-me preso. Isso me faz lembrar o mendigo que estava em pleno meio-dia dormindo no canto do muro. E por que acontece isso? Por que tanto eu como o mendigo atrapalhamos a arquitetônica beleza ferindo os olhos dos que nada enxergam. Isso mesmo. Então, qual a conclusão que temos? Bom, o homem precisa, em determinados momentos se explicar, e em outros não precisará se explicar. E em que momentos serão esses que ele não precisará se explicar? Bem, será em decisões que não atrapalhem outros ou lugar em que ele se encontra. Resumindo: em decisões próprias, como ir ao cinema, comprar um livro, fazer amor, dormir, em fim, em pequenas decisões. Isto mesmo. Ah! Lembrei-me de uma coisa: é melhor parar por aqui, pois o campo é muito bom para uma discussão, tem muito pano para manga, mas deixe-me terminar, colocar um ponto final, salvar, fechar o World, e trabalhar senão terei que me explicar, certo?

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 198

O cursor pisca a impaciência na espera tão somente que os dedos da incerteza teclem letras sabias e compreensíveis. Os dedos imóveis pousam levemente sob as teclas, procura o comando certo para agir. Esperam no repouso das sombras encolhidas pelas marquises de cimento e lágrimas. Deita o mendigo no concreto da tua vida molhado pela chuva da madrugada. Sorri o passante pouco se lixando com a alheia vida de fome e sem teto. Quem sabe o que poderá ter acontecido ou, porque chegou a esse ponto o mendigo? Para que vou me preocupar com a vida alheia se tenho a minha cheia de problemas familiares, vícios, finanças, e outras merdas que atrapalham meu viver. É o que todos fazem sem remorso. Afinal é a vida e a vida não se pode alterar. Cada um tem a sua merecida ou não. Cada um tem a sua ao palmilhar os caminhos que o trouxeram até a esse momento. Pouco importa se o sol rasga o finito do ser. Pouco importa se a solidão se infiltra na esperança morta num copo de cerveja ao fechar do último bar. Não quero saber, não tendo ninguém enchendo o saco, que tudo o mais vá para o inferno, não é o que dizia o Rei falido, que não sabe se deita na cova ou não? Pois é, caminhamos zumbis, caminhamos sobre os trilhos enferrujados, pois o trem azul partiu há muito tempo.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 199

 ... Que o Vento o Carregue.


Ficou de cócoras e com um pano limpou a calçada. Estendeu o pano, sentou-se com as costas apoiadas a parede do edifício, o único residencial naquele quarteirão. Sentou-se, se ajeitou, colocou os panos de pratos bordados por ela, todos enrolados dentro de um cesta de vime. Cruzou as pernas, pegou Jorge das mãos de Ilda, procurou deixar o filho confortável entre suas pernas, e em seguida, colocou a frente da cesta de vime uma caixa pequena de papelão.

- Ilda não vá longe.

- To com fome, mãe.

- Eu sei filha. Também estou com fome. Toma coma essa bolacha, disse para a filha retirando da sacola um pacote.

 Lena tinha a perspectiva de pelo menos vender uns três panos de prato. Daí poderia comprar um lanche para ela e para a filha, apesar de que a ordem de Genor é de levar toda a grana para ele. No entanto não podia deixar a filha com fome. Só esperava que não aparecesse nenhum guarda e arrastasse para a delegacia como fora da última vez.

- Olha Dona, se eu pegar de novo a senhora, serei obrigado a chamar a assistência social. Aí eles vão tirar as crianças e levar para o juizado de menores.

- Mas Doutor, preciso alimentar meus filhos.

- Sei, mas isso o que a senhora faz é abuso ao menor.

- Não tenho com quem deixar eles, doutor.

- E o seu marido?

- Marido, doutor, está dois anos sem emprego e parece que gostou de ficar sem trabalhar. Só sabe beber e bater na mulher.

- Bem, dessa vez passa, mas da próxima não tem perdão. É a lei e estou cumprindo a lei.

É a lei, é a lei disse rispidamente várias vezes. Ora a lei, quem é essa senhora que não me deixa trabalhar, sustentar meus filhos? Não queria nada para ela, não queria ver os filhos sofrerem.
Chegando à casa, se é que aquilo poderia ser chamada de casa, o marido já veio agredindo-a, arrancando a bolsa das suas mãos, tirando dela o pouco que conseguira. Novamente bêbado, pensou ela, acho que nem foi procurar emprego. Avançou em cima dele, deu um empurrão que caiu na cama desacordado. Olhou para aquele homem que um dia se dizia ser seu marido. Sentiu pena dele e de si mesmo. Arrumou as poucas coisas que tinha num saco, pegou Jorge no colo, deu a mão para Ilda, saindo do barraco.
- Mãe, chamou Ilda.

- O que foi filha.

- Aonde vamos?

- Para longe daqui

- E o pai?

-... Que o vento o carregue.

E erguendo o braço acima da cabeça, com a mão fechada, gritou:
- Você “nunca mais vai passar fome outra vez”, minha filha.

domingo, 8 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 200

  

Às vezes é como uma guitarra que, em solos estridentes, rasga ondas num vai e vem, levando-o de um lado para o outro; outras vezes é como um violino que, em notas de lâmina não afiada, arrasta-o um dia após o outro num traduzir lamentável.

“Decifra-me ou te devoro”, pergunta a esfinge no deserto arenoso da solidão em fria solidificação de cimento e lágrima.

Não tendo como lema a decifração de enigmas, é devorado pelo continuo viver alimentando-se nos estridentes acordes, ora da guitarra, ora do violino.

Vive assim, numa linha frágil que de um momento para outro poderá arrebentar e, sem piedade, o lançará ao abismo profundo e pontiagudo da vida pela vida.

Lança-se sem pestanejar as aventuras do cotidiano sem indagar como deve ou não ir, como deve ou não estar preparado para consequências advindas ao seu proceder.

Não indaga no que deve ou não no que quer.

Já tem o que lhe é suficiente, para que vou querer mais, responde aos que lhe indagam da felicidade.

A felicidade está no olhar as coisas, os objetos, as ações alheias, está dentro dele e não no que poderá ou no que deverá fazer.

Todos os dias beija o ombro nu da carne refazendo-se nos passos em direção a morte de si mesmo.

Reconstrói dessa maneira, o peregrino que há dentro dele desprezando a dualidade.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 203

 

Com determinada decisão econômica nos movimentos, puxo teu corpo para dentro do meu. Ouço leve roçar de pele em seus ouvidos pedindo mais. Satisfaço-te dentro da equação prazerosa de sentir-me dentro de ti. Rolamos nos lençóis da noite estrelada pela imensidão de luzes palmilhando nossos corpos nus. Da janela aberta, além da brisa refrescante da madrugada, os sons longínquos da vida alheia nos chegam excitando nossos desejos. Saboreando cada momento, celebramos num brinde único, em taças finas, o vinho doce num frenético enlaçar de satisfação e prazer.
Abraçados dormimos lambendo o saboroso mel da vida.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 204


A tesoura atravessou o dedo de lado a lado. Entrou pela direita saindo pela esquerda. O sangue esguichou manchando os papeis e a mesa branca de vermelho quente e gosmento, como num filme de Quentin Tarantino. Ele não emitiu nenhum som, nem um "aí", ninguém ouviu nada, apenas perceberam quando o corpo se inclinou para o lado quase caindo da cadeira de estofado cinza surrado.

- Segura, não deixe cair.

- Tiram a tesoura do dedo.

- Não tiram. Vocês não sabem se pode cortar mais ainda.

- Tragam papel para enxugar o sangue.

Um correu até o banheiro e voltou com pacote de papel que esparramou por cima do sangue. O que não adiantou nada.
- Se afastem, deem espaço, por favor.

- Coloquem papel no dedo dele.

- Não resolve.

- Alguém liga para o médico, gritou uma voz esganiçada.
Pegaram a lista e não conseguiam achar o ramal do médico.
- Vai alguém lá embaixo chamar o médico, disse outro.

Saíram correndo escada abaixo.

- Olha ela, está passando mal, tiram-na daqui.

- Que coisa! Grávida curiosa sai daqui.

Nisso o médico chegou.

- Onde está o rapaz que cortou o dedo.

- Aqui doutor.

- Nossa que sangreira! O que aconteceu?

- Não sabemos, doutor. De repente ele estava desmaiado com a tesoura atravessado no dedo.

- Ele tinha o costume de tirar os grampos dos papéis com a tesoura.

- Não usava o extrator de grampos, não?

- Usava, mas tem uns papéis, esses processos grandes, vem grampeado com um grampo grosso que o extrator não consegue tirar.
- E aí ele usava a tesoura.

- Isso mesmo, doutor.

- É preciso tirar a tesoura.

- Quer ajuda, doutor?

- Vou precisar sim.

Abriu a maleta e tirou os instrumentos.

- Por favor, alguém segura o dedo assim. Isso. Agora vou alargar o corte e você puxa a tesoura, certo?

- Certo doutor.

 O médico enfiou a lanceta entre a carne e a tesoura e ergueu para cima dando espaço para tirar a tesoura.

- Pronto. Pode puxar a tesoura.

Dali um minuto a tesoura tinha sido retirada.

- Agora precisamos levar para um hospital.

- Se ele acordasse...

- Olhe ele está voltando a si.

Aos poucos ele foi abrindo os olhos.

- O que aconteceu? O que houve? - perguntou desorientado.
- Não aconteceu nada. Precisamos levar você a um hospital, pode caminhar?
- Hospital? O que aconteceu?

Nisso ao ver sua mão enfaixada, o sangue manchando a gase que o médico colocara, desmaiou novamente.

Duas semanas depois ele saia do hospital. Chegando a casa, a mulher lhe perguntou:

- E o que médico disse?

Ele olhou para o dedo em riste, o indicador da mão direita, respondeu:
- A tesoura cortou os nervos do dedo e não foi possível recuperá-los.
- E o que isso quer dizer?

Sorrindo com a mão fechada e só com dedo duro apontando para o nada, disse com um ar malicioso:

- Isso quer dizer que meu dedo perdeu os movimentos, não dobra mais, ficará assim duro para sempre.

E ao mesmo tempo em que falava, chegou perto da esposa e a abraçou por traz deslizando o dedo entre suas coxas.

A mulher lhe deu um safanão:

- Seu porco nojento, não tem vergonha não. Não encoste esse dedo sujo em mim senão eu o corto.

E se trancou no quarto deixando-o abestalhado no meio da sala.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 201

 

No escondido da pele instala-se cada um no seu canto de preocupações mudando o rumo do pensamento.

Cria-se angustias de paz não encontrada onde alguns pensam financeiramente na solução dos problemas.

Outros apenas querem fugir dos perigos doentios que aferrolham os corpos intoxicando-se nos barbitúricos da vida.

Outros ainda, na paz bucólica longe do cimento e asfalto.
Abra os seus olhos - diz o cantor -, e veja a magia do momento, deixe os mistérios para os loucos da poesia, para os insanos da paranoia cinematográfica, para as letras utópicas escritas e musicadas dos drogados, para os desvairados dos borrões de tintas incompreensíveis.
A vocês normais cabem o que sabem fazer muito bem: VIVER, viver apenas bem o cotidiano de burgueses refestelando-se nos passeios dominicais em restaurantes lotados de churrascos empobrecidos e, embebedando-se alcoolicamente nas decisões milionárias dos ídolos futebolísticos.

Abra os olhos para a alegria da morte e para a tristeza do nascimento enquanto há salvação.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Pequenas histórias 202

 

Esmigalha o pó dos sentimentos nas frias esquinas recheadas de solidão amortizando a paixão solitária.

Soa em algum apartamento vazio de alma o som de piano num repercutir monótono de teclas de marfim concretizando o existir.
O corpo se eleva efêmero na batida das notas a cada passo ao calcar a calçada uniforme de indivíduos ausentes de amor.
Sem um ponto de chegada, ausente de si mesmo, pouco se lixando, caminha a satisfação entre transeuntes levados por alguma necessidade.
Olha as vitrines iluminadas de incongruências fétidas pelo prazer do consumimos desenfreado.

Ele olha sem ver o que esta a sua frente.

Olha por olhar e sorri, não precisa mais consumir para ser feliz.
Descobre que a felicidade não está atrás da vitrine enfeitada.
Descobre que a felicidade não é consumir o instinto de possuir apenas por possuir.

Descobre que a felicidade está tão somente além ou, melhor, está aquém do necessitado para se viver.

Descobre que para viver é preciso somente navegar nas ondas do coração seguindo os batimentos.

E tal descoberta, renova-o por inteiro e por inteiro vai ao encontro da felicidade dentro de um sorriso correspondido.

Assim, mais uma vez, abre a janela da alma, abraça o som do piano e deixa que Beethoven conduza-o pela sinfonia da vida.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...