domingo, 28 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.639(2021)

             É me pegaram, queriam me linchar, me jogarem na cadeia, cidade pequena é uma merda, depois de muito falatório resolveram me darem uma tremenda surra, me deixaram em frangalhos e me proibiram de voltar a cidade, me expulsaram da minha terra natal, e aqui estou sentado à beira do caminho sem beira e nem eira sem saber o que fazer, não tenho ninguém, meus pais nunca ligaram para mim, fui expulso da própria casa, bem tenho que fazer alguma coisa, já sei...

            Dias depois acharam o corpo boiando no rio e lá deixaram no esquecimento podre contaminando a água e o ar.

            É isso... ou, não é?

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 96

As secas de Vento Forte

 

 

Mara Lúcia, vindo da escola ao chegar ao portão da casa, foi quem deu o alerta, primeiro para a mãe que saiu assustada com o grito da filha e, depois para uma cidade incrédula que em seguida, temerosa teve que enfrentar o problema.

Apontando o dedo para o alto, Mara Lúcia mostrou para a mãe o corvo pousado bem na beirada do telhado. Dona Anastácia com sua voz analasada lançou a agourenta ave vários xos xos na tentativa de espantá-la, o que foi infrutífera. Em seguida atirou pedras o que, também, não resultou em nada, o famigerado corvo nem se mexeu.

Mara Lúcia puxando a saia da mãe gritou novamente.

- Olha os outros telhados, mãe.

Dona Anastácia acompanhou o dedo da filha e estarrecida viu que em cada telhado de cada casa havia um ou dois corvos.

- Nossa Senhora dos Aflitos, o que é isso? Venha ver seu Maneco, gritou para dentro do armazém.

Seu Maneco olhou, viu, entrou e voltou com a espingarda. Mirou e atirou. O corvo atingido caiu aos pés de Dona Anastácia, mas logo em seguido outro corvo veio tomar o lugar do antigo. Assim foi várias vezes, o que Seu Maneco determinou que matar os corvos não resolveria o problema.

Nessa altura o pânico estava instalado na pequena cidade de Vento Forte. Todos perguntavam  e se perguntavam o que era aquilo? Como e por que os corvos apareceram assim inesperadamente. O prefeito não sabia explicar, por isso chamou autoridades que entendia de aves, especialmente em corvos.

Os religiosos diziam que era o fim do mundo. Os adivinhos que uma praga tinha sido lançada sobre a cidade de Vento Forte. Os mais céticos não dava bola, continuavam a viver sossegadamente. Até que alguém mais tarimbado, perguntou quantas pessoas viviam em cada casa, quantos eram casados, quantos eram solteiros, quantas mulheres, quantos homens, quantas virgens e quantas não eram e, por A mais B explicou:

- Vejam: Dona Anastácia tem uma filha virgem, portanto um corvo só no telhado da casa dela. Já o prefeito, Seu Maneco, e outros, que não vou mencionar, têm mais de uma filha virgem, seu prefeito tem duas, portanto dois corvos no telhado da casa dele, Seu Maneco têm quatro, quatro corvos.

Três dias depois ninguém mais se incomodava com as agourentas aves e, três dias depois, elas sumiram como apareceram e, três dias depois, as virgens ficaram doentes. Os diagnósticos dos doutores da medicina foi que os úteros ficaram secos, não podiam engravidar. Assim passaram a ser  chamadas de As Secas de Vento Forte.

Dessa maneira a cidade foi minguando, não houve mais nascimento e Vento Forte gradativamente virou cidade fantasma.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.638(2021)

             É isso, eu trabalho aqui, sabia, ah não sabia né, presumi que não soubesse, o que, eu monstro, ah faz me rir, olhe bem para mim, o que está achando, monstro não é, aliás não só sou monstro pelo o que eu faço e sei que isso não é normal, é uma bestialidade, mas sou monstro também fisicamente, veja minhas orelhas, maior que do Dumbo, veja o formato da minha cabeça, parece um lápis, meus olhos, mais esbugalhados do que olhos de sapo, minha boca, um lábio grosso e outro fino, meu nariz, mais feio do que Cyrano de Bergerac, sem contar aliás com essa enorme cicatriz que adquiri na minha juventude, então é isso, fui aceito para esse serviço estupido por causa da minha feiura, agora me diz, o que eu faço com os meus hormônios que todos os dias a flor da pele pronto a explodir, o que eu faço, me masturbo, claro né, mas isso não me satisfaz mais, entende, como todo mundo quero sentir carne roçando carne, entende, e sempre fui rejeitado, nem as prostituas me quiseram, aí surgiu esse emprego, me aceitaram e aqui estou limpando esses corpos maravilhosos, não acham, vejam essa moça, bonita, seios rígidos ainda, barriga sedosa quase sem pelos, ah essa gruta quem aguenta, então o que você acha, isso mesmo o que está pensando, a terra vai comer mesmo não é o que dizem, sei não precisa falar, eu sou monstro fisicamente e  moralmente, se me pegarem, oras não estou nem ai...

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 97

O hotel.

 

Onde estaria se não fosse aqui? Não conseguiria viver em outro lugar. Encheu o copo. A espuma transbordou escorrendo pelo mármore escuro. Chegaria a algum ponto onde a calma o sossegasse? Balançou a cabeça. Não se pode viver com perguntas idiotas, principalmente as que não têm resposta. Estava sentado longe da porta, mesmo assim sentiu o vento frio quando o rapaz entrou. Parou no meio do bar e os olhares de ambos se cruzaram. Não me venha sentar ao meu lado roçando o joelho só para puxar conversa. Por infelicidade o rapaz sentou ao seu lado encostando joelho com joelho cumprimentando-o. “O direito do mais forte é a liberdade”*, disse o rapaz. Concordo em parte, pois nem todos possuem, retrucou. O direito é uma utopia para enganar os esperançosos, ouviu a voz fanhosa do rapaz. Chegou à conclusão que aquela conversa não levaria a nada. Terminou a cerveja, pagou, disse boa noite e saiu para noite gelada. Abotoou a jaqueta de couro, enfiou as mãos nos bolsos e seguiu meio apressado para não perder o último metrô.

Ao chegar à esquina teve a impressão de que estava sendo seguido. Foi uma sensação instantânea. Olhou para traz. Viu um vulto se escondendo atrás do poste. Deu de ombros. Atravessou a rua. Deu mais uns passos e rapidamente se virou. Conseguiu ver uma camisa vermelha se esconder atrás do pipoqueiro. Nisso sentiu tocarem seu ombro e ao mesmo tempo uma voz baixa no ouvido. “Olhe bem lá no alto”. Que? Ouviu de novo. “Olhe bem lá no alto”. Procurou o dono da voz, mas não descobriu no vai e vem dos transeuntes. Olhe bem lá no alto, o que será? Meio timidamente olhou. Enxergou a mulher na janela do quinto andar do hotel gesticulando para ele. Com certa dificuldade entendeu que era para entrar no hotel.  

Ao passar pela porta giratória reconheceu-a. Mostrando-se senhora de si, o abraçou e beijou como se fossem íntimos há muito tempo. Vamos para o meu quarto, disse levando-o pelo braço. Ele quis retrucar, mas ela colocou o dedo em seus lábios. No quarto, assim que ela fechou a porta, foi puxado recebendo um demorado beijo. Incrédulo, sem saber o do porque aquilo estava acontecendo, foi empurrado no sofá. Não resistiu se entregou aos beijos possuindo-a como nunca mulher nenhuma o possuiu. Quando acordou no dia seguinte, se viu sozinho na enorme cama.

Recebeu o ar frio da manhã ao pisar a calçada quando algo pontudo cutucou suas costas. Você é obediente e não se vire, pois posso te furar cara. Gostou do que encontrou lá no alto? Ele balançou a cabeça afirmativamente. Então me passe quinhentos paus pela diversão. Obedeceu entregando o dinheiro por cima do ombro. Não olhe para traz, continue andando. Refreando a curiosidade ao chegar à esquina, olhou para traz. Foi quando teve a certeza de que estava sendo seguido. Mas era tarde demais.

 

* Título de um filme de Rainer Fassbinder.

 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.637(2021)

             O que eu faço aqui, pensou ao ver o brutamontes a sua frente. Um homem alto, corpo largo, barrigudo, bigode extravagante, com um olhar de matar mosca no escuro, a fazer perguntar que ele já explicou umas quinhentas vezes:

            --- Não conheço aquela mulher. Não sei quem é.

            Então por que a perseguia? Por que a beijou nos lábios? Por que pegou a bolsa dela? Ele apenas recebeu o aviso do seu companheiro de que ela tinha sacado uma quantia o qual ele teria incumbência de aliviar a mulher desse incomodo. Incomodo? Que incomodo? Ora, de carregar o dinheiro. Mas, o dinheiro é dela! Como você sabe se é dela, ela pode ter sacado para outra pessoa... Ah! você é um reles de um ladrão, isso sim. Ladrão! Isso mesmo, um idiota de um ladrão. Que palavra feia e pesada, prefiro mais aliviador de peso, sabia que as pessoas tem coisas que não lhe servem e passam a carregar como um fardo, um peso que elas próprias não sabem que são peso? Não sabia não. Pois é, eu alivio as pessoas desses pesos. Ora bolas, vai a merda você com essa baboseira. Não é não, acredite. Para mim chega, levem ele vai ficar um bom tempo preso.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 98

 

E mais uma vez...

 

 

O vazio preenche as linhas brancas do caderno. Escrevo e a alma se enche de esperança por algo que ainda não aconteceu. Se aconteceu passou por mim sem me dirigir uma palavra. Nas mãos inertes de diálogos pousam silabas perdidas sem conexão. Agitam-se como organismos vivos no perigo de caírem ao chão e se quebrarem. Pequenos pedaços de cristais vibram ao sentir o sangue pulsando dentro da pele. As paredes aprisionam objetos descoloridos espalhados nos cantos e cantoneiras da sala. Lançam olhares opacos sem vida uns para os outros que se chocam ao meu olhar desorientado e sem brilho. Resolvo sair, perambular pelas ruas desertas de passos incertos. Cruzo com edifícios cheios de vidas preocupadas como zumbis sedentos de alimento.

Não devo me desorientar. O que acontece é por acontecer. São traumas que carrego a vida toda. Entro no Monarca com a intenção de beber uma cerveja. Quando dou por mim há vinte garrafas vazias a minha frente. Vinte garrafas cujo liquido entornei goela abaixo e agora serei obrigado a pagar. Retiro do fundo do bolso as malignas notas, passo para o cara do caixa. Recebo o troco num desdém de terror. Saio do bar pisando nos abstracionismos dos meus pés que deflagram moléculas estúpidas.

Vagueio incerto no caminho que é meu. Minha alma, meu espírito, minhas fibras voltam-se no itinerário onde surge a figura bela e nua na lembrança de você. E aquela noite brilha na intensidade do desejo envolvendo-nos mais uma vez. “Mais uma vez, mais uma vez, estou aqui... A barra do amor é que ele é meio ermo, a barra da morte é que não tem meio termo...”, a canção vibra os cubos de gelo no fundo do copo.

E mais uma vez volto aos braços da cama que me abraça sem reclamar.  

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.636(2021)

             Indecisa parou a porta do banco atrapalhando quem queria sair ou entrar. Por instantes, olhou para a direita e depois para a esquerda. Em seguida como se levasse um choque ou um espetada de alguma agulha invisível, se pôs a correr desviando das pessoas. Instantes depois, um homem saiu do banco correndo na direção da mulher, dava a impressão que a perseguia. Com dificuldade ia desviando das pessoas as vezes sem evitar trombar com algumas. Nisso ouviu-se uma freada brusca e um grito de mulher. Ele parou, teve a noção que não precisaria correr mais. E lentamente chegou aonde à mulher fora atropelada. Esparramada no chão, com sangue escorrendo pela boca, a bolsa um pouco distante do corpo, ele se agachou, beijou-a nos lábios, pegou a bolsa e levantando-se entrou na Rua Direita. Supreendentemente sentia-se leve, poderia dizer até contente, sorriu, ficou com vontade até de cantar, mas seu desejo foi interrompido por dois policiais que apareceram a sua frente e o algemaram levando-o preso.

            É isso... ou, não é?

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 99 – Fogo e paixão

 

Fogo e paixão


Olhou-a bem nos olhos.

Não residia mais naquelas águas suaves.

Pulou no fogo das perdições e se queimou no inferno das paixões.

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.635(2021)

            

            Segunda feira. Dia oito de fevereiro. Começou as aulas. Metade presencial e metade a distância. Quem quer, manda os filhos para as aulas presenciais e quem não quer ficam em casa. Assim sendo começou o ano quase que propriamente dito, não haverá carnaval, portanto não teremos os quatro dias de folga, de praia, dizem que o carnaval será em julho. Que palhaçada. E assim a humanidade podre segue o seu caminho hipócrita e fútil.  

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 100

  

Ceci e Peri

 

Ceci e Peri, pela primeira vez se beijaram.

No dia seguinte ao lavar a roupa, dona Maria suspirou preocupada, Peri já não era mais criança.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.634(2021)

         

            Mudar, mudar, mudar e mudar isso ou aquilo, o pensamento, o modo de vida, sair da zona de conforto, fazer, trabalhar, ajudar os necessitados, quebrar os paradigmas, romper os preconceitos, desvendar o véu das incertezas, não cair em tentação, não alimentar a vingança, perdoar, ter sempre pensamentos positivos e atitudes positivas, controlar o que pensa pois, o que se pensa se cria, desligar-se de pessoas toxicas, não maldizer, não criticar, não ouvir música ruim, não maltratar os animais, as plantas, estudar, estudar, estudar, não ser materialista, não ser individualista, ajudar, ajudar, ajudar, enfim, ser um santo, um iluminado, transmitir bondade, boas ações, pois o que você emite você recebe de volta, emitiu amor recebe amor, emitiu raiva recebe raiva, entende, você realmente entende? Sim, eu entendo perfeitamente. Legal...

            É isso aí... ou, não é?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 101

 

Intimação

 

Aos doze o pai perguntou:

- Já tem pelo no saco?

Aos quinze o pai interrogou:

- Já tá comendo as menininhas do bairro?

Aos vinte o pai o intimou:

- Vê se vira homem seu merda!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.633(2021)

                 E lá vamos para mais um dia de positividade, vamos captar a energia da vida, das coisas, das matérias, as boas vibrações e espalhar aos necessitados... Mente sã Corpo são. ”Muitos usam a expressão Uma mente sã em um corpo são”, mas não sabem que a famosa citação latina é derivada da Sátira X do poeta romano Juvenal. A curiosidade é que a frase é parte da resposta do autor à questão sobre o que as pessoas deveriam desejar na vida.

Segue a citação de Romano Juvenal

Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são. Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, desconheça a ira, nada cobice e creia mais nos labores selvagens de Hércules do que nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.

Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio; Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.”

Fonte: https://buddhaspa.com.br/blog/qualidade-de-vida/conheca-a-citacao-completa-mens-sana-in-corpore-sano/

 

É isso... ou, não é?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 102

                                                     Prisioneiro

 

A música suave levava-o a sonolência. Sempre a mesma, não mudava. Sem acordes altos e nem baixos, com uma sonoridade reta sem volteios. O torpor o vencia fazendo-o cair numa dolência a ponto de perder a noção do tempo. Já não sabia quantas horas ou dias estava acorrentado. Com os olhos e boca vendados, não enxergava nada, apenas ouvia sons de passos, de objetos metálicos, e a maldita suave música que não parava nunca. Além disso, sentia roçar a pele das bochechas um rústico pano, o que fazia acreditar ser um capuz. O medo, certeza de fraqueza, alimentava a força em evitar o medo, o que lhe dava segurança para não cair no desespero. Onde estava? Porque estava amarrado, vendado e encapuzado? O que queriam dele? Não era rico, nem famoso, pobre burguês sem chance de vencer nesse mundo capitalista, não conseguia imaginar o motivo disso tudo. Às vezes sentia a mão de alguém entre a roupa acariciando a pele, outras vezes, algo que não definia roçar o rosto por cima do capuz.

Raquel com certeza estaria zangada. Quanto tempo será que o esperou? Tinham combinado de se encontrarem em frente ao Cine Unibanco da Rua Augusta, mas não lembra se chegou a vê-la ou não. Tinha parado na esquina com a Rua Luiz Coelho quando um sujeito ao passar por ele esbarrou em seu ombro. Quando acordou, acreditava que tinha sido drogado ou algo semelhante, pois ao abrir os olhos encontrou a escuridão. Tentou falar, como se estava amordaçado, tentou se mexer como se estava amarrado, apenas ouvia passos, objetos metálicos sendo manuseados e a torturante música sendo tocada continuamente. Por quanto tempo ficou desacordado?

Nisso ouviu uma voz cortante gritar:

- Corta.

Através da venda percebeu que luzes foram acesas. Vozes gritavam ordens, reclamavam pedidos, parecia que havia mais pessoas. O que está acontecendo? Descobriram-me? Será isso?

- Diretor, onde está o Roberto?

- Não tinha gravação com ele hoje.

- Não?

- Não, por quê?

- O que ele está fazendo ali no canto do cenário?

Fui descoberto, até que fim.

- Ah! Aquilo é a caixa do prisioneiro que usamos como duble quando não há gravações com o Roberto.

Como duble? Não estão me vendo aqui? Que silêncio! Apagaram as luzes novamente. Pelo menos não estou ouvindo mais a droga de música, pensou ao encostar a cabeça na madeira da caixa preciso descansar, amanhã haverá novas gravações.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.632(2021)

             Caramba carambola sou do samba e não me amola... e a mola do sistema empurra a caterva para mais perto do precipício. E ela não percebe, cega, surda e muda, deixa-se levar, seus valores egoístas e consumistas não a deixa notar o quanto fútil ela é. E o que devemos fazer para não sermos empurrado? Abrir os olhos, mudar o pensamento vigente, quebrar os preconceitos, transformar os paradigmas, sair do acomodado, encher o peito e o pensamento de poder positivo, eliminar todo o negativismo que há em você, parar de fumar, de beber, controlar os seus pensamentos, pois, o que você pensa você cria, você é o responsável por tudo o que acontece com você, com sua vida, pensou criou, desfoca o pensamento dos problemas, da doença, das dívidas, das negatividades que o envolve, se livra das pessoas toxicas, ajude os necessitados, distribua amor, paz, não se lamente, não seja vitimista, não critica, não mal diz, não pense em vingança, seja positivo em tudo o que fizer...

            É isso... ou, não é?

 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 103

A última pá.


O rio o cortava em dois. Corredeira de sentimentos retalhava-o de cima embaixo. Não tinha pretensão em dominar o barco batendo nas margens do ódio ou da intransigente indiferença. Deixava-se levar pelos acontecimentos, mesmo que com isso viesse causar dor física. O escrever já não o prendia as coisas pequenas, aos detalhes da vida, a dor é que conduzia o olhar aos insignificantes momentos, aos instantâneos ínfimos do pensamento.

Precisava comprar pão, tinha necessidade de viver. Não ia comprar flores, não possuía qualidade para ser anfitrião e dar um jantar, além do que não conhecia nenhum escritor famoso. A manhã repartia a rua em sombras e claridade e, apesar da hora, estava quase deserta. O tédio causava sensação de algo antigo, como uma música tediosamente tocada sem interrupção. Ao receber o pão e pagar no caixa, surgiu a cruciante pergunta: quem é você? Ora bolas, sou um sujeito comum igual a qualquer um com quem cruzo na rua! Aí que estava a questão: comum. Não via empecilho algum nisso. O que recusava entender é que ele era comum demais, o que chegava às vezes ao cúmulo da estupidez.

Jogou o saco com os cincos pães em cima da mesa rispidamente. Não viu a esposa que ao sair do banheiro presenciou o gesto brusco do marido.

- Pra que jogar o pão dessa maneira?

Não deu atenção. Subiu as escadas e se trancou no quarto. Queria colocar em palavras o que estava sentindo, dar a noção exata do que se passava. Pousou os dedos em cima das teclas prestas e deixou que passeassem a vontade pelas letras. Numa agilidade da qual se orgulhava, foram surgindo no monitor palavras, frases, sentenças, períodos formando ideias não muito claras do pensamento. Nisso, a mente se abriu e como cenas cinematográficas, lembrou-se de um fato ocorrido.

Era uma tarde, como a de hoje, clara e quente, quando do alto da escada ouviu a mulher gritar:

- João, corre, a tia caiu no banheiro.

Esse a tia caiu no banheiro ao invés de acudir rapidamente, deixou-o preso à cadeira, foi preciso à esposa sacudi-lo. E indeciso, pensou em procurar outra chave ou forçar a porta com uma ferramenta, até que, com um chute, conseguiu arrebentar a fechadura.

A tia estava caída entre os cacos do boxe, ensanguentada e nua. Com a ajuda da mulher, conseguiu leva-la para o corredor. E ali, em pé, ouvindo a respiração ofegante da pobre mulher, enquanto a esposa providenciava o socorro, constatou quanto havia de fragilidade em seu intimo ao ponto de não conseguir salvar e nem derramar uma lágrima pela tia.

E assim que o coveiro jogou a última pá de terra cobrindo o caixão, tomou conhecimento de como era um ser comum demais.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.631(2021)

 

            Domingo pé de cachimbo. Domingo que não se faz nada e tudo se faz para o bem da prosperidade, família e tradição. Dia de almoço diferente, talvez um nhoque, macarrão com frango ou, uma ida ao restaurante, mesmo com a pandemia. Ah! vamos de máscara, nos cuidamos. Sim, nos cuidamos de máscaras, passamos álcool gel toda hora nas mãos e esquecemos da alma que necessitada muita mais de álcool gel do que as mãos. Assim caminha a humanidade individualista, egoísta e consumista. Humanidade que parte para ser controlada, melhor dizendo, já é controlada só que ela não sabe, e aos poucos está descobrindo que é controlada até que um dia será totalmente escrava. E ninguém faz nada para que isso não aconteça. Para que? Não vou deixar meus costumes, meu arroz e feijão, minha picanha, meus sapatos, preciso comprar todos os dias um novo, meus vestidos, meu carro, meu isso e meu aquilo, meu filho necessitada de brinquedos novos, últimos lançamentos, um IPAD melhor, Iphone melhor, melhor isso melhor aquilo, ninguém sabe viver com o que tem, quer sempre mais e mais e nesse mais em mais será controlado totalmente.

            É isso... ou, não é?

 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 104

                                 A verdade dói mais que a mentira

 Em uma engrenagem perfeita a roda gira dentro dos eixos, talvez infinitamente, se a manutenção for rigorosa e constante. Mesmo assim há o desgaste das peças, o que é natural. Quando a porta mudou de cor, de vermelho para o verde e abriu ao mesmo tempo ouviu a voz metálica:

- Estação Planetária de Sirius. Ao ouvirem o sinal não entrem e nem saiam do trem. A faixa amarela é a sua segurança.

Ao descer na plataforma, subiu a escada e saiu da estação, entrando no carro estacionado em frente onde leu no parabrisa: Truman – destino: Centro Comercial de Sirius. No momento em que se acomodou e a porta fechou, ouviu um sibilar agudo e o pequeno carro levitou por cima da esteira na direção do centro.

O que fazia nesse planeta distante numa galáxia distante? Tudo indicava, como lhe disseram, viera para coordenar uma pesquisa de urgência. Só espero não encontrar nenhum monólito gigante. Apesar dos avanços tecnológicos, algumas coisas ainda permaneciam os mesmos, refletiu vendo a paisagem monótona correr diante dos olhos.

Ouviu também que, quem vinha para Sirius era por defeito ou, por não servir mais na engrenagem do sistema. Em qual categoria se enquadrava? Defeito ou não servia mais? Tudo bem sentia às vezes a máquina óssea falhar, como se dois ossos raspassem um no outro causando uma pequena dor. Não era caso para alarme, discreto como sempre fora, achava que ninguém soubesse. No entanto estava nesse planeta horrível, fazendo o que? Coordenar uma pesquisa estúpida, talvez até inventada, apenas uma farsa para cobrir a verdade. E por que é preciso de subterfúgios, por que não ser direto, dizer logo por que o mandaram para Sirius? A verdade dói mais que a mentira. A mentira suaviza a dor, tem-se o baque da descoberta, mas depois certa compreensão dos fatos ameniza o sofrimento.

Há muito tempo tinha o pressentimento de viver falsamente, como marionete obedecendo ao comando de mãos invisíveis. A dúvida o atormentava. Seria ele máquina ou somente um item descartável? Se fosse máquina não estaria aqui, trocava-se a peça ruim por uma boa e estaria novinho novamente. Era um item descartável, chegou à conclusão. Será desmontado, partes por partes, cabeça, tronco, membros, órgãos, classificados e expostos à venda no caso de algum ser humano ou máquina precisarem ou, se no caso a validade for vencida, as peças serão derretidas para a fabricação de novas.   

E da prateleira, no meio de diversas cabeças, mudo sem poder pronunciar uma sílaba, foi que viu suas partes serem derretidas no grande caldeirão bem no meio do galpão.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.630(2021)

 

            Por em prática o que se pense e sente. Isso mesmo, sair dessa letargia de todos os dias fazer a mesma coisa, desapegar desse comodismo, levantar e sentar a frente do micro e escrever, postar, curtir, compartilhar, reparou que sua vida é só isso, seu mundo é postar, curtir, compartilhar, responder mensagens, escrever e nada mais, são coisas corriqueiras. Tem razão e para piorar veio essa pandemia que nos obrigou e nos obriga a ficar em casa, não é? Sim, mas não coloque toda a culpa na pandemia, ela dificultou um pouco as coisas, mas você pode sair desse comodismo. Como te disse, tenho feito sim, aos poucos estou fazendo o que se deve fazer, deixei a leitura por necessitar em prestar atenção e com isso fico sem ouvir música, tenho me desfeito dos livros por falta de espaço e precisar financeiramente de dinheiro, estou focando mais nos desenhos, desenhado todos os dias por ser algo mais prazeroso e com isso não deixo de ouvir música, sem música não vivo. Sei...

            É isso... ou, não é?

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 105

 

E viveram felizes para sempre

 

- Só preciso de um tempo, se é que me entende, depois podemos viver juntos, compreende?

Jorge acreditava nas palavras só não sabia se Andrea o levava a sério. Tinha a certeza que sim, isto porque, olhava-o bem nos olhos. Prometera vida melhor, um lugar decente para trabalhar, sair da boate onde toda a noite se travestia, promessas que pretendia cumprir. No entanto preso à vida de casado as soluções tornavam-se lentas.

Doralice ofendida vivia se perguntando: como foram chegar ao ridículo de tamanha proporção em que estavam? Como foi tão cega e não ver o que se passava? Tinha alguma culpa? Talvez, deveria ser mais atuante, menos passiva, exigente até com o marido... O que lhe adiantava agora as perguntas? O que foi não volta mais, foi e pronto.

Andrea vivia, comia, dormia e trabalhava na boate, não tinha outra opção. Conhecera Jorge numa noite depois de show em que ele foi até o camarim para conhecê-la. Admirado por ela, Jorge propôs que fossem morar juntos. Aceitou, não podia perder tal oportunidade, era uma forma de sair, pelo menos algumas horas da boate, mas com uma condição, que ele largasse a mulher. Foi nesse momento que Jorge lhe disse:

- Só preciso de um tempo para falar com Doralice, entende?

- Certo – respondeu Andrea antevendo uma possível decepção.

Para sua surpresa, dez dias depois, Jorge chegou e lhe disse:

- Aluguei um flat, pegue suas coisas e vamos.

Assim estavam os dois vivendo docemente quando uma tarde surge Doralice esbravejando porta adentro.

- Escuta aqui, Jorge. Essa situação ridícula não pode continuar. Faz um mês que não aparece em casa. Depois que conheceu... Esse... Essa... Anor...

- Anormalidade não, meu bem. Travesti, não vamos engrossar não, ouviu?

- Doralice, sejamos maduros. Gosto da Andrea, prometi morar com ela...

- E eu? Você não prometeu nada?

- Nem somos casados... Também, gosto de você, mas é diferente, é um gostar de outra maneira...

- Diferente no que? Diga-me? É o que há no meio das pernas, é isso?

- Doralice, seja sensata, por favor.

Nisso, de dentro da bolsa, Doralice tira uma arma e aponta para os dois que, assustados recuam.

- Doralice, cuidado, veja o que vai fazer.

- Vou matar os dois, você e ela... Ou ele... Ou é melhor matar só você, hein Jorge? O que acha? Talvez, ela, aí você fica só para mim.

- Espere, vamos conversar. – disse Andrea.

- Conversar uma ova!

- Escuta que tal se morássemos todos juntos. – disse Jorge.

- O que? Você está louco? Isso é...

- É o que, Doralice?

- É ridículo.

- Não é não. Pense bem, você terá duas pessoas para amar e que te amam. Não precisará trabalhar, eu e Jorge trabalhamos para você. Só terá que cuidar da casa, lavar roupa e cozinhar. O que acha?

Enquanto falava, Andrea foi chegando perto até que tirou o revolver da mão de Doralice e abraçou-a.

Assim viveram felizes para sempre.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 106

 

O convite, será...

 

O ar noturno entrava pela porta da varanda balançando levemente as folhas da pequena árvore no canto da sala. Pegou a caneca, encheu de água e regou a planta que tomava o vaso todo. Logo precisaria mudar para um maior. Colocou a caneca dentro da pia, despejou uma dose generosa de uísque no copo e voltou para sala. Seus olhos, acostumados com a pouca claridade, permitia andar sem bater nos móveis. Estando no décimo quinto andar, a claridade da cidade lançava para dentro a luminosidade da madrugada. As sombras emolduravam a angústia desordenando os pensamentos. Quanto tempo esse estado catatônico permaneceria nele? Há um niilismo meio que latente nos movimentos, pensou melancólico.

Talvez, o erro seja a performance nos jogos da vida. Quem sabe se desempenhasse com mais confiança e corretamente as regras do jogo. Que vão à merda as regras. Para que servem? Tolher os incautos? Aprisionar os tímidos? Lançar duvida? No escuro da sala o pulsar dos móveis corria nas veias. Tinha bronca quando algo interrompia a rotina. Mais de cinco horas esperava dentro do escuro a volta da energia. Preso dentro de um acontecimento que não esperava, não via alternativa senão sair. Tateando se vestiu e meio às cegas, tendo apenas uma fraca luz, desceu com cuidado as escadas.

Chegando à calçada, contente pela proeza, constatou que uma fina garoa molhava os alicerces da cidade. Mais essa ainda rilhou entre os dentes. Atravessou a rua e entrou na padaria vinte e quatro horas. Pediu um maço de cigarros e uma cerveja. Foi sentar no canto, onde estava mais escuro. Apesar do gerador, a iluminação fraca construía figuras interessantes na parede branca. Começava pequena, depois se alongava tomando quase a parede toda, e terminava pequena. Por um bom tempo ficou perdido nas figuras indo e vindo, se misturando, se complementando, unindo, desunindo. Terminou a cerveja, pagou e saiu.

Já não chovia mais. Parado no meio fio tirou um cigarro e ao riscar o fósforo, ouviu buzinar e um carro parar perto dele. Terminou de acender o cigarro e se inclinou para ver quem era.

- Pra onde vai? Quer uma carona?

Pra onde eu vou? Se quero uma carona? O cara ta pensando o que?

- Quer uma carona ou não?

Pensou nas probabilidades. Olhou para o prédio. Subir os quinze andar de escada não era façanha para ninguém, muito menos para ele, preguiçoso. Depois, não tenho nada para fazer mesmo.

- Quero sim, respondeu entrando no carro.

Talvez viesse a se arrepender desse ato, queria matar o tédio, poderia se arrepender, mas agora não era momento de pensar nisso, disse sorrindo levemente.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 107

  

Estação S O S

 

 

O relógio gira lento

- quando se espera –

Às 24 horas

O dia inteiro

 

 

O trem passa rápido

- quando se quer lento –

E eu na plataforma

Pensando no dinheiro

 

Apelo ao banco financeiro

Que me arranca o pelo

Ao invés de livre

Torno-me prisioneiro

 

Não vejo solução rápida

Nesta tarde nada trágica

Sou simples passageiro

Pessoa nada prática

À espera de algum

Santo milagreiro

Que me tire

Dessa vida

Sem graça

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 108

 

Jorge e José


A noite avançava madrugada adentro. Jorge saboreando o uísque observava a pista de dança. Abarrotada fazia com que o pessoal se esfregasse um ao outro. Já não se dançava, parecia um bando de feras se arrastando pelo prazer de espantar a solidão. Às vezes Jorge curtia um desprezo por aquilo tudo, outras um intenso prazer descontrolado a ponto de paralisar os movimentos que, depois, se transformava num gosto amargo de algo perdido. Não deixava a porta aberta para o remorso e, muito menos, para o arrependimento.

José se embrenhara no meio da multidão deixando-o pateticamente sozinho. Não se aborrecia com isso, afinal estava ali por vontade própria. Aceitara o convite pelo prazer da aventura. Durante o trajeto não disseram nada além dos cumprimentos e apresentações. Jorge em determinado momento quase desistiu, mas foi segundos rápido que afastou do pensamento. Não sabia explicar, assim que entrou no carro, notou em José, uma pessoa em que podia confiar.

Sozinho José dançava jogando o corpo esguio ao ritmo da música numa leveza absurda. Gostava das pessoas, até talvez, da humanidade. Agia descontrolado numa fúria branda, se arriscando ao adágio de ganhar ou perder. Não confiria as perdas e muito menos os ganhos. Para que? Se aborrecer inutilmente, dizia todas as vezes que se aventurava pelas noites de insônia. Ao ver o rapaz saindo da padaria, parado no meio fio da calçada, imaginou que estivesse indeciso, sem saber o que fazer ou para aonde ir. Num gesto instintivo encostou o carro e fizera o convite. Surpreso, não esperava aceitação, cumprimentou, se apresentou e no silêncio das vozes seguiram até a boate.

O sono embebido pelo álcool pesava nos olhos de Jorge. As pernas, por estar muito tempo sentado, adormecidas, o irritava, portanto, não viu outra solução a não ser andar pelo salão. Foi então que a encontrou, quer dizer, se trombaram. Por estar meio embriagada, pediu ajuda para chamar um taxi. Como bom cavalheiro, Jorge a levou até a saída e a colocou dentro do veículo.

De onde estava, tendo uma visão boa do lance, José viu quando os dois, de braços dados, se encaminharam para a saída. Estando longe não ouviu o que disseram, apenas imaginou e, como a imaginação é um bicho de asas, voou para lugares onde José não poderia fazer parte. A raiva e o ódio, amigas da decepção, embaçou a visão dos sentimentos. 

Ao entrar no apartamento, o ar abafado invadiu seus poros. Abriu as janelas, queria amplidão dos espaços, sair da condição de fera sem ter aonde ir. Abriu a geladeira e tomou um longo gole de água gelada. Em alguma parte do corpo crescia uma ferida. Jose se jogou na cama e caiu num sono profundo.

Lá fora, começava a surgir os primeiros clarões do sol.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Contos surrealistas 109

  

O saco.

 

 

Despudorado, ele balançou o saco, sorriu.

Tímida, envergonhada, ela sorriu.

Nascia, nove meses depois, um lindo bebê.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.629(2021)

             Bom dia. Bom dia, como está? Não sei, quer dizer acho que vou eliminar a Lecimar. Por quê? É algo fictício, é um anagrama se é que é, e depois quando descobrirem não vão gostar, entende? Entendo. Portanto, Lecimar não existe mais, teve um pequeno momento de existência. É uma pena, também acho que o seu poder de imaginação é fraco, nulo, você não consegue imaginar uma pessoa a sua frente dialogando com você. Nem tanto, pode se dizer que sou acomodado. Acomodado é igual a fraco. Não, fraco não sou, talvez lento, talvez acostumado com coisas ou fatos corriqueiros, pequenos, talvez não saiba pensar grande, não me ensinaram ou não me acostumaram a pensar grande, o que eu tenho me basta e nesse pouco que me basta o universo devolve esse pouco, entende? Entendo, é só mudar isso, transforme seus pensamentos, sentimentos para algo maior. Eu tenho feito isso, mudei meus pensamentos, no entanto, os sentimentos parecem continuar os mesmos, isto é, se eu amo e não sou amado, se preciso de algo e recorro alguém, se tenho que fazer determinada coisa e peço a opinião para terceiro e não vou lá e faço, creio que seja isso o que está me atrapalhando, compreende? Sei, então comece a mudar logo. Bom, estou mudando, já mudei, preciso pôr em prática.

            É isso... ou, não é?

 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.628(2021)

             Bom dia. Bom dia, como vai? Vou bem, estou conseguindo por em prática as minhas caminhadas. Legal? Sim, até hoje estou caminhando um pouco por dia. Muito bom, e hoje onde você foi? Sabe, as vezes sucumbo a nostalgia e fico com vontade de visitar onde morava, e hoje fui caminhar pela Edimburgo e em seguida pela Londrina. E como foi? Chato e meio tristonho. Por quê? Não reconheço mais os lugares, está tudo mudado, diferente. E você queria que tudo continuasse o mesmo, não houvesse transformação. Em parte, sim, mas sei que isso é impossível, mesmo assim valeu ter passado por esses lugares. Se valeu legal, alguma coisa você tirou algo positivo. Sim, foi, não sei o que, mas foi positivo, sim. E amanhã vai caminhar? Sim, vou...

            É isso... ou, não é?

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A pia

 A pia.

Ela estava desorientada quando o pai e a filha entraram. A cozinha estava uma bagunça. O cabelo cheio de farinha, queria fazer um pão e, para ajudar, a pia entupida.
- Me dá esse desentupidor.
Tentou uma vez, duas, três, na quarta vez forçou com mais violência que a cuba metálica deu um estalo.
- Vai quebrar minha cuba que eu quero ver depois para arrumar.
O pai olhou para ela com a testa franzida como se dissesse: "Vai catar coquinho ." Nisso o pai chamou a neta.
- Manoela.
A neta veio correndo.
- O que foi vô.
-Ajuda vô. Repete comigo.
- O que vô?
- São Sá longuinho, São Sá longuinho, ajuda o vô desentupir a pia que dou três pulinhos.
A neta repetiu com o vô.
- Oh se o vô conseguir desentupir, você tem que dar os três pulinhos e o vô também.
- Tá bom.
Respondeu a neta e voltou a brincar. O vô voltou a atenção para a pia e depois de duas forçadas a pia foi desentupida. Chamou a neta de novo.
- Manoela.
- Desentupiu vô?
- Sim. Dá os três pulinhos.
A neta deu os três pulinhos.
- Agora é o vô.
O vô também deu os três pulinhos. A filha olhou para o pai e disse:
- Eu hein não quero saber dessas coisas não.
O vô e a neta caíram na gargalhada.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...