sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

a geléia esparrama

 

a geléia esparrama sua massa gélida, disforme, na panacéia acrílica, e a manhã tropicália se anuncia, no brilho do sol, estampado na bananeira, o verde escuro que se realça contra o céu anil

 

a alegria se contorce esférica nos ferros da anticomunicação, projetando assim, a tristeza melancólica no sorrir fechado da criança que mendiga

 

na anarquia constelada passeiam urubus sonoros mitigando a política nos carnavais que a tudo se assiste de camarote a folia dos loucos governamentais

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A guitarra

 

A guitarra fere ensandecida as fibras sensíveis da carne em harmonia com o prazer de intensamente viver os transcorridos minutos cujos acordes nos coloca em comunhão e a mercê da paz e amor com os deuses da música.

 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

A humanidade caminha sempre

  

Meio-dia e quarenta e nove. Repousa a calma do almoço no silêncio dos objetos expostos sobre a mesa, com a finalidade de servirem aos propósitos para os quais foram projetados e fabricados.

 

Tão quieta está a esfera, peso de papel, como também o durex, os lápis e canetas, que em posição horizontal repousam palavras guardadas na ponta dos meus dedos, a régua medidora de comprimento e de traçar linhas absolutamente retas. Igualmente, repousam no silêncio, o grampeador e o perfurador, objetos contundentes: um fura e o outro perfura.

 

Repousa ainda, a consciência das pessoas, na promessa de mais um dia cumprido com seus deveres morais, profissionais e familiares, sem ao menos atentar para o que acontece além das suas vidas.

 

E assim caminha a humanidade: diante de fatos mundiais ou casuais, ora feliz, ora deprimida, suportando a carga que ela própria ajudou a criar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A imagem no vidro

 

A imagem no vidro da janela é desfigurada pela persiana que, ao sabor do vento, de vez em quando se move lentamente profetizando que a vida sempre continua e nunca deve ser parada.

 

A esfera de acrílico reflete meu inverso numa linguagem muda de objeto que como souvenir enfeita o espaço num silencio extático traduzível apenas aos que tem a capacidade de ver além de suas fibras que a vida contínua e que nunca deve ser estagnada.

 

Aos ouvidos dos incautos o som do martelo nos metais propaga-se apesar das janelas fechadas com suas terríveis persianas impedindo a claridade confirmando que a vida mesmo que seja ínfima e miserável deve ser constante e jamais desprezada.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

a liberdade

 a liberdade

é o abraço

do sol

onde a alegria

percorre

as fibras nuas

do corpo

 

a liberdade

é o beijo da lua

onde a paixão

escorre

nas fibras do prazer

alimentando

a carne nua

de cada ser

domingo, 26 de janeiro de 2025

a liberdade

 a liberdade

é o abraço

do sol

onde a alegria

percorre

as fibras nuas

do corpo

 

a liberdade

é o beijo da lua

onde a paixão

escorre

nas fibras do prazer

alimentando

a carne nua

de cada ser

sábado, 25 de janeiro de 2025

lua só

 lua só

 

a lua está lá

ninguém a vê

mas sabemos que está

iluminando a noite fria

e a minha agonia

que não se dissipará no fundo de um copo

talvez, quem sabe, aumentará

ao saber que a noite se findará

nos recolheremos para chorar

relembrando outras noites que não mais voltarão

e nos feitos cegos seguindo a procissão 

ao nos recolhermos à solidão

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

a luz noturna bate

  

a luz noturna bate

e rebate

e reflete

a saudade imensa

que me invade

nesta solitária noite

 

tomo quantas cervejas

acho necessário tomar

mas você não chega

no horário combinado

 

pago a conta

vou embora

predestinado

para chegar

em casa não

tenho hora

quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

A mãe natureza.

          

O sol desenha tiras de sombras no armário cinza encostado a parede. Desenhos projetados pela cortina ao sabor da brisa que oscila a temperatura da sala. Temperatura controlada pelo ar condicionado proporcionando ao ambiente agradável condição de convivência e trabalho.

Aos poucos as sombras desenhadas no armário cinza encostado a parede desaparecerá, apenas sua abstrata forma na mente de quem o observou, ainda permanecerá por um prolongando tempo. Mesmo essa forma abstrata, um dia desaparecerá completamente não restando mais nada do que era um desenho feito pelos raios do sol.

A mão da mãe natureza cria suas obras constantemente em performances primorosas onde “poetas, seresteiros, enamorados” tem o privilégio de observarem suas soberbas criações.

E numa dessas performances, a mãe natureza criou sua mais bela obra: a mulher.

Parabéns mulher por sua beleza física e intelectual, mãe, amante, conselheira e apaziguadora.

Parabéns a todas as mulheres sejam elas quais forem.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

A manhã discorre seu orgasmo

 A manhã discorre seu orgasmo frio enquanto o som do sax arranha a garganta do dia aliviando a tensão passada de susto e medo que alvoroçou a população.


Gritam-se vozes em todos os cantos da cidade seus mortos numa data que deveria ser de alegria homenageando quem deu a luz aos seus filhos.

Vozes que silenciadas repercutem na fibra da carne e que não esquecerá as atrocidades presentes futura e nem as passadas.

Vozes que há tempos vem clamando medidas enérgicas que só são empregadas aos desvalidos da sorte enquanto benfeitores são protegidos por leis que funcionam so no papel.

A manhã brilha alegre demonstrando que a natureza continua seu dia a dia sem se importar com o que aconteça com ela e muito menos com a humanidade

Ela continua e continuará a mostrar sua beleza aquecendo e alimentando tanto uns como outros, sejam eles quais forem merecedores de seu quinhão.

pastorelli – ao som de House of the rising sun – Eric Burdon

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

a morte está na vida

  

assim como a vida

esta nas flores

no canto dos pássaros

e

no sorrir alegre

ou

faminto de uma criança

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

A poça de água.

  

Era o seu aniversário. Por isso passara na loja e comprara uma bengala como presente para ele mesmo. Já que ninguém lhe dava o que ele queria, sempre ganhava presente errado. Olhou-se no espelho. Concordou, a bengala conferia-lhe realmente porte charmoso, elegante. Olhou de novo seu reflexo no espelho da loja. Não era nenhum House e muito menos David Niven, mas tinha lá sua elegância. De mais a mais, talvez a bengala favorecia a perna esquerda que, volta e meia, doía. Saiu da loja contente, sorriu para o sol que estampava alegria no sorriso dos edifícios e refletia nos carros e lojas da avenida Paulista em plena tarde de abril. Era seu aniversário, por isso sorriu feliz.

 

Caminhava devagar, não tinha pressa, queria tirar o máximo proveito do novo presente, e feito menino que ganha o brinquedo desejado, garboso, girava a bengala de um lado para o outro, como se dissesse:

 

- Olhem a minha bengala. Não estou elegante com ela?

 

Porém ninguém se preocupava com seus problemas corriqueiros não queriam nem saber dele e, muito menos da bengala. Ah! Tudo bem, pouco me importa, o que vale é o que eu sinto, pensou ao atravessar a rua. Passava em frente ao Parque Trianon quando parou indeciso. Entrava ou não no parque? Por fim deu de ombros e entrou. Notou a atmosfera gostosa e refrescante das árvores convidativas ao passeio por entre as alamedas do parque. Nisso ao pegar uma das alamedas laterais, virando de repente, deparou com uma imensa poça de água.

 

Parou. Ficou olhando para a poça com os olhos assustados, cabisbaixos. Olhou para os lados. Não viu ninguém. Do outro lado da poça também não havia viva alma. Um silêncio medonho desabou sobre ele fazendo-o arcar os ombros ligeiramente. Que raios essa poça de água está fazendo aqui atrapalhando meu passeio, perguntou-se. Olhou para traz, não, não poderia voltar, quem volta regride no tempo e na vida, dizia sua mãe, que Deus a tenha. Não era realmente de voltar por onde já tinha passado. Seguia essa regra a risca, pois se voltasse estaria retrocedendo, estaria morrendo antes da hora.

 

Parado, olhando a poça que cristalina refletia as folhas das árvores sorrindo para ele. E agora, tinha noção que as plantas a sua volta estavam perguntando. E agora o que faria? Não sabia. Precisava seguir adiante, não podia ficar parado, tinha que continuar seu passeio com a elegante bengala que comprara no seu aniversário. Pular. Poderia pular? Não, não poderia, se o fizesse, mesmo que o seu pé tocasse no outro lado, escorregaria caindo dentro da poça. Maldita poça, praguejou baixinho.

 

Imóvel, tremendo de raiva por sua impotência, desejou nunca ter comprado a bengala. Se não tivesse a bengala, não teria alimentado seu orgulho em passear como imponente cretino achando-se o tal. Quem sabe se contornasse a poça? Nada feito. Contornar significava demonstrar que era um perdedor. E perdedor é que ele não era. Então, como faria? Com a ponta da bonita bengala cutucou a água que sorriu em pequenas ondas desafiando-o. Que merda, e agora José, seu covarde, com medo de uma poça de água. Suava, tremia, a temperatura do corpo aumentou, o estomago embrulhado produzia uma acidez que subia até a garganta num arroto azedo.

 

De repente, do outro lado estava um menino que lhe sorria. Assustou-se, não viu ele chegar. Nisso, lentamente, o menino começou a atravessar a poça de água. Com os olhos aterrados viu os pés do garoto acima da água, como se levitasse. Afastou-se com medo. Estava vendo o sobrenatural. Mas em dado momento, o menino tropeçou quase caindo. Foi que viu que a poça de água era rasa. E, quando o menino passou por ele, notou que os sapatos estavam secos. Olhou para trás vendo-o desaparecer na curva da alameda no mesmo instante em que lhe lançava um sorriso de deboche.

 

Prendendo a respiração, avançou com toda empáfia, fez o mesmo que o menino. Levitou por cima da água e transpôs a poça.

domingo, 19 de janeiro de 2025

A pomba vai

 A pomba vai de um lado para outro incansável sobre o asfalto quente. Pobre ave feia, não tem um destino para ser cumprido, tem o instinto que lhe diz o que fazer até que algo a faça alçar vôo. Ando como essa ave feia de um lado para o outro e volto constantemente ao banquinho da lanchonete sorvendo meu destino no álcool que concretiza minha sobrevivência sem ter instinto de voar ao teu destino.

sábado, 18 de janeiro de 2025

a primavera

 

congelou o asfalto

no farol os carros pararam

de susto os pedestres

foram tomado de assalto

 

ainda bem que todos se salvaram

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

A rosa desfolhou

  

A rosa desfolhou estrelas no caótico chão da avenida e o branco dos meus olhos rolou por tua nuca nua e azul salgando tuas tetas molhadas de suor ao se refestelar nos teus quadris cujo altar todos os dias me glorifico.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

a taça de vinho

  

sobre a toalha branca rendada, conduz meus olhos, comparando a figura cristalina com a quina da mesa, onde a luz quase ferina, espelha no vinho o brilho do desejo licoroso da minha vida

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A temperatura baixa.

  

A temperatura baixa causa um cheiro de preguiça, que se eleva do asfalto, molhado pela garoa da madrugada. Os passos, cansados pela sobrevivência, arrastam-se como lamentos. Ele tem somente a capacidade de sentir-se bem consigo mesmo; tem que usar de subterfúgios, que só o enganam por poucos instantes. Ele sabe, conhece os passos de andarilho sobrevivente ao caos de uma ditadura social político e familiar, de cujo estigma vem tentando se livrar e, como ocorre com todos, eliminar, da expressão facial, o gosto pela liberdade. Gosto, sentido em pequenas gotas que, do frasco de soro, caem, só para mantê-lo vivo. Alimentado dia após dia, tem, na esperança, o que sempre quis ser, e não o que a família ou a sociedade hipócrita querem que ele seja. Não teve e nunca terá a saudade para se  alimentar da ausência de alguém que o quer bem, ou que seja querido por ele. Sofre, sim, uma ausência sem significado, ou que talvez tenha um significado, porém longe de ser assimilado.

 

Todos os dias, com dificuldade e desprezando a angustia, abre uma porta, nem sempre favorável à intensa dor que o dilacera, mas que lhe traz algum motivo para continuar e destruir a ausência que o alimenta e, ao mesmo tempo, o consola.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

a vida é um tédio

  quando a obrigação que se tem é de ficar com a perna esticada sem direito de movimento na manhã linda que se dissolve ao passar lento do tique e taque do relógio

 

é um tédio que avança para dentro de outro tédio bem maligno em superioridade tornando-me aborrecido impaciente com o nada que me envolve sem que nada possa eu fazer a não ser olhar olhar olhar e nada mais

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

A vida é uma viagem...

  

Será?

 

Ou será um jogo onde o que vale são as paixões que sentimos num vai e vem levando-nos às vezes a esmo de um lugar ao outro, pisando em angustias, numa vivência de fugas que nos dá uma pequena e efêmera satisfação?

 

Ou uma viagem onde a barca corpo carrega a passageira alma atravessando o rio da vida entre correntezas e corredeiras que são por nós desprezíveis mas que devemos enfrentá-las para que possamos chegar ao outro lado são e salvo.

 

Ou será um grande salão onde temos que dançar conforme a música obedecendo a ritmos desprezíveis e horríveis melodias porque temos que sobreviver no dia a dia sacana e besta?

 

A vida pode ser uma viagem, assim como pode ser um jogo, ou ainda um grande salão de danças, só não podemos embarcar nessa viagem sem ter um destino programado; como também não podemos entrar no jogo com dados marcados, joguemos sim, mas com a confiança de que queremos um dia e, vamos claro, ganhar; e finalmente, se estamos num grande salão de danças, vamos dançar a música que gostamos, que queremos, não vamos nos entregarmos aos ritmos e melodias só porque não queremos ficar à margem dessa sociedade egocêntrica e massificante.

 

A vida é uma viagem se assim a queremos que seja, mas que seja uma viagem agradável e de belas paisagens.

 

A vida é um jogo se jogamos com confiança e honestidade sem sacanagem com o fito de ludibriar o parceiro ou a parceira.

 

A vida é um grande salão de danças onde nossos passos serão mostrados sem orgulho e sem preconceito apenas porque gostamos de uma boa dança.

domingo, 12 de janeiro de 2025

abri teu sentimento

  

abri teu sentimento

afastei as pedras do caminho

entrei na tua vida

movendo-me lentamente

para não atrapalhar

tua agitação que me chamava

 

vi o redondo destino

levando-me as invisíveis esferas

ao abraçar tua matéria

viva e abstrata

 

apanhei uma réstia de lua

sobrevoei o caminho

infinito onde

amei tua nudez

misturando nossos prazeres

numa experiência

cósmica e imoral

sábado, 11 de janeiro de 2025

acertos e desacertos

  

tudo tem

sempre motivo

ouça o que eu digo

 

concordo plenamente

mas nem todo motivo

há de nos alterar profundamente

 

é só um contratempo

coisa que acontece

de repente

 

que devemos, às vezes, relevar

para que não haja mágoa realmente

 

tudo bem, tudo certo

ninguém é perfeito

e eu posso até

não ser o mais certo

 

a certeza como a perfeição não existe

aprendemos mais com os erros

do que com os certos

 

isso é tudo e tenho tido

 

Bittar / Pastorelli

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Copos de vidro.

  

Ele estava cansado, mas não desanimado, embrulhava os copos de vidros como lhe disseram. Estava fazendo isso sem saber o motivo. Sabia que tinha que ir para algum lugar mas, o motorista, assim parecia ser lhe dissera:

- Mas antes de irmos temos que embrulhar esses copos.

E explicou como ele devia fazer, colocar o copo num jornal e embrulhar dobrando as pontas para dentro do copo e a outra em volta do copo e, assim ele fazia. Mas, era um serviço maçante que não acabava, tirava o copo de uma caixa embrulhava e colocava em outra caixa. O lugar era minúsculo, tinha tanta caixa que não dava nem para se mexer direito. Já não via mais o motorista, se é que era mesmo o motorista, olhando para as caixas veio-lhe a mente um filme que assistira. O personagem principal, um judeu, preso num campo de concentração alemã em que tinha que carregar pedras de uma lado para o outro constantemente, num enervante terror psicológico e físico que chegou num momento, não aguentando mais, se jogou contra a cerca eletrificada. Ele estava dentro de uma Kombi, se é que era uma Kombi, e não tinha certeza se a lataria da Kombi estava eletrificada, não ousou constatar tal fato. Nisso ouviu ser chamado por uma voz que não soube definir se era masculina ou feminina, apenas compreendeu que ele tinha que levar um pacote para a Secretaria da Fazenda. Pegou a encomenda e o endereço e foi. O prédio era uma edificação baixa, com uma pintura amarela desbotada, suja, precisando de uma urgente reforma. Entrou no estabelecimento deparando logo com um longo corredor, ao final se viu de frente com outro corredor, este com diversas portas a direita e a esquerda. Abriu portas, viu enormes salas, viu pequenas salas, andou por vários corredores, subiu e desceu escadas e não encontrava onde deveria entregar o pacote. Foi então que percebeu que não lhe disseram para quem entregar e nem em qual departamento. Mesmo assim, se achegou perto de uns jovens que se aboletavam numa mesa e perguntou:

- Para quem entrego isso?

Olharam para ele com olhares de quem nem está ai com o problema alheio. Um moreno enrolou um papel fazendo um canudo, dobrou no meio e entregou para ele.

- Com isso você poderá achar quem ficará com esse pacote.

Ele olhou para o canudo e pensou:

- Como vou achar com esse troço.

E andou por mais corredores estreitos, largos, curtos, longos, até que resolveu telefonar para alguém, foi quando ouvi a campainha tocar.

- Terminou seu tempo. Volte na semana que vem.

Ele se levantou, saiu batendo a porte onde se lia numa placa pendurada: Psiquiatria.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Acorde, vamos acorde!

 

Ouvia um miado longe, distante, mal conseguindo distinguir. Um miado meio arranhado que lentamente se aproximava até que chegou bem perto. Olhei o rádio relógio: quatro horas da madrugada. Que saco! Fui obrigado a levantar. Assim que abri a porta, Jhony Folgado entrou desembestado. Troquei a ração e ele se pôs faminto a devorar a comida. Observei a esganação do felino. Em seguida passou para a vasilha onde estava a água. Fiquei esperando, pois assim que terminasse sabia que sairia. Dito feito. Terminou de comer e beber se pôs feito um lorde em frente à porta como se dissesse: vamos abre a porta para mim. Obedeci claro. Foi quando vi na lavanderia meu sobrinho neto de quatro anos, isto é, pensei que fosse ele, mas na verdade era o filho do meu cunhado, irmão da minha mulher. Chamei o menino: “Gustavo”, não me respondeu. Mas como poderia ser o meu sobrinho, se ele estava com dezoito anos? Fui até lá. Ao entrar na lavanderia não tinha ninguém. Será que estou sonhando? Não dei pelota. Nisso escutei barulho de carro. Subi os degraus e vi o Fusca branco, todo amassado na frente e minha mulher saindo de dentro do carro. Com muita perícia ela estacionou o fusquinha num lugar bem exíguo que mal dava para ela e minha filha descer do carro. Tinham ido buscar a amiga na estação, pensei.

Voltei para dentro de casa. O gato continuava miando. Tentava acender a luz da cozinha e não conseguia. “Calma Jhony”, vou acender a luz  depois vou te dar comida.” Como não conseguia acender a luz, dei um murro no interruptor. De repente, eu estava na sala gritando ou, melhor, tentando gritar: Acorde, vamos, me acorde. E ao mesmo tempo minha boca foi se fechando, começando do lado esquerdo para o direito. Estava me sentindo sufocado. O peito angustiado. Se eu fizer barulho elas vão me acordar, pensei. Bati palma, bati nos móveis, e nada, ninguém acordava. E a boca cada vez mais fechada, já estava apenas sussurrando, acorde, me acorde, e nada. Não acordava e ninguém me acordava. De repente, como se levasse um susto, senti o peito abrir deixando o ar entrar. Acordei suado, o quarto no maior silencio. Suspirei aliviado, me acalmando. Olhei o rádio relógio, eram cinco horas. Faltavam ainda uma hora para levantar. Perdi o sono, não conseguia mais dormir. Bem feito quem manda assistir esses filmes bobos onde a personagem, mediúnica sonha com o que vai acontecer com ela.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Ah! rua Silvia...

  

Faziam dois meses de casado e eu já estava desempregado. Não fiquei desesperado. A única coisa que me azucrinava ou, achava que poderia me azucrinar, era a família da minha esposa achar que eu era mais um vagabundo. Talvez até minha esposa pensasse assim. Dois meses de casado e fui demitido.

 

Trabalhava na linha de montagem da Philco do Tatuapé. A empresa estava criando uma linha de montagem de televisores importados. Ela tinha arregimentado vários alunos que estudavam eletrônica no Colégio Lavoisier para um treinamento de mais de seis meses. As peças vinham do exterior para serem montados aqui e depois os televisores seriam exportados para os Estados Unidos. Portanto fiquei seis meses tendo instruções sobre eletrônica básica e de como era o funcionamento de um televisor, válvulas – naquela época ainda havia televisores com duas válvulas, hoje a única válvula é o tubo -, as peças, as placas, os transistores, a trilha de solda, enfim tudo o que seria necessário saber.

 

Mas por uma viravolta política, tal operação foi proibida, parece que limitaram as exportações e importações, não sei. E, como também as demissões estavam sendo rigorosamente controladas por causa da crise do desemprego, mais de quinhentos funcionários ficaram sem fazer nada, por mais de meses e meses perambulamos pela fábrica matando o tempo até que conseguissem uma colocação para todos.

 

Fui designado, primeiramente para a linha de montagem dos televisores pequenos, depois me jogaram na linha de montagem dos rádios. Era um serviço estressante, onde eu tinha que fazer uma porcentagem por dia de serviço não podendo ser essa porcentagem abaixo de oito, vamos dizer. E como não estava me adaptando, um dia o encarregado me mandou fazer um serviço e como não o obedeci, fui demitido.

 

Não esquentei. Tinha experiência em operar máquinas NCR, portanto passei a consultar as colunas de empregos dos jornais. Já estava quase um mês parado, quando numa quarta-feira, subindo a São João, desanimado, visitado umas não sei quantas agências de empregos, passando por uma banca, resolvi comprar o Estadão. Entrei na Praça da República, que naquela época era bem mais decente do que hoje e bem menos perigosa, sentei num banco e passei a ler o jornal começando, é lógico, pela coluna de empregos. Havia muitos, quando deparei com um anúncio grande onde se pedia um operador de NCR com experiência, mas não trazia o nome da firma, apenas o endereço. Na mesma hora, rasguei o anúncio, larguei o jornal no banco. Procurei saber onde ficava a Rua Silvia e me dirigi para lá.

 

A rua começa na Pamplona, travessa da Paulista e termina, se não me engano, numa praça que no momento não lembro o nome. Desci a rua até o número indicado no anúncio e, qual não foi a minha surpresa ao ver o imponente prédio branco com o nome da firma em letras grandes: LIQUIGAS.

 

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Ah! rua Silvia... 1

  

A rua Silvia é uma rua estreita, com pouco movimento de carros, na frente do prédio havia uma lanchonete, ao lado um estacionamento, uma creche, o prédio até que tinha sua imponência característica de todos edifícios, tinha um aspecto diferente, pois parecia um navio, um transatlântico, seu bico arredondando impunha uma arrogância arquitetônica.

 

Como tinha vindo pela Paulista, passando pela Pamplona, peguei a rua no início e, por ser uma ladeira, descia verificando os números, quando me defrontei com o branco rústico de sua pintura, tendo o nome da firma num espaço grande bem visível: LIQUIGÁS. Na mesma hora pensei, se eu conseguir o emprego desse não vou sair, se não me mandarem embora, sairei só depois de aposentado.

 

O hall de entrada não era propriamente o que eu esperava que fosse, espaçoso, com o balcão de atendimento à direita de quem entra e os elevadores à esquerda e, um pouco ao fundo, o relógio de ponto. Apresentei-me, a recepcionista ligou para alguém e pediu que eu esperasse. Foram minutos não angustiados, poderia ser que naquele momento eu estivesse, mas pensando hoje com mais clareza, creio que não foram tão angustiosas como foram outras esperas. Verifiquei que vários funcionários batiam o cartão de ponto entre oito horas e oito e meia. Será que o regime era de horário alternativo? Isto é, quem entrava às oito sairia às dezessete horas e, quem entrava as oito e meia sairia as dezessete e meia? Não precisei esperar muito tempo para saber isso não. A recepcionista me chamou e me indicou o andar e a sala aonde deveria me apresentar. Entrei no elevador e pressionei o botão correspondente. Saindo do elevador dei de cara com a sala. A porta da sala aberta entrei ressabiado. À esquerda vi primeiramente, dois funcionários, um moreno e um moreno claro. Perguntei para um deles:

- Por favor, senhor Nilson?

- Nilson, o candidato que você esperava está aqui – gritou o moreno.

- Mande ele aqui – ouvi uma voz

- Segue em frente à direita.

Segui o caminho indicado e...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Ah! rua Silvia... 2

 

Segui o caminho indicado e ao virar à direita deparei com dois homens, um magro, de bigode, o outro, mais velho, pelo menos aparentava, cabelo cinza, talvez pintado, nem gordo e nem magro, com uma voz sibilante, indicou a cadeira a sua frente:

- Por favor, sente.

- Senhor Nilson?

- Sim.

Sentei esperando a bateria de perguntas, mas apenas me perguntou:

- Você mora onde?

- Zona leste, Cangaiba.

- Onde fica isso?

- Depois da Penha.

- É meio longe não acha?

- É do outro lado da cidade, mas não se preocupe, não chegarei atrasado não.

- Bom do jeito que você fala até parece que já está empregado.

- Não, nada disso, é que ao chegar aqui senti segurança, só isso, mas não me considero empregado não. Ainda não fiz o teste, não é?

- Certo. Quanto tempo você é operador NCR?

- Uns cinco ou seis anos.

- Tem prática então?

- Sim.

- Pois bem, você fará o teste e depois conversamos certo?

- Tudo bem.

Pegou o telefone e ligou para alguém:

- Castilho... Bom dia... Tudo bem... Certo! Não, espere... Venha até aqui, desça aqui... Não, agora. Obrigado.

Dali a pouco chegou um rapaz moreno claro:

- Castilho.

- Sim, Nilson.

- Leve o... o seu nome mesmo...

- Osvaldo.

- Ah! Leve o Osvaldo e dê umas fichas para ele lançar e, depois volte aqui.

- Ta certo Nilson.

- Vai com ele, Osvaldo.

- Está certo.

Segui o rapaz chamado Castilho. Boa pessoa, falante, tirador de sarro. Subimos um andar.

- O serviço está super atrasado. O rapaz que trabalhava como operador NCR, sem explicações nenhuma, pediu a conta. Como eu já tinha certa prática, me colocaram no lugar dele.

Entramos numa sala onde a máquina NCR quase que tomava conta do espaço. Ao lado dela tinha uma mesa com uma calculadora.

- Você vai lançar esse dia que comecei e vamos ver como vai se sair.

O movimento do dia era meio grande, cada ficha tríplice apresentava de dois a quatros lançamentos. Não me acanhei, estava num terreno que eu conhecia, portanto em menos de cinco minutos tinha lançado tudo. O Castilho se assustou:

- Que? Já terminou?

- Sim.

- Bom, vamos descer e ver o que o Nilson vai dizer.

Descemos, estávamos no décimo primeiro andar. Chegamos lá, sentei de novo em frente ao Nilson. O Castilho mostrou a ficha contábil onde eu tinha feito os lançamentos.

- Nilson, aqui está o movimento que ele lançou e a ficha.

O Nilson olhou para a ficha, leu, e falando para mim:

- Bom, parece que está tudo certo, está bom, mas ainda tem mais candidato para se apresentar, daqui dois dias lhe daremos a resposta. Certo?

- Tudo bem – respondi desanimado.

- Se daqui a três dias não lhe comunicarmos nada, telefone pra gente. Está aqui o telefone.

- Falou senhor Nilson e...

- Por favor, nada de senhor...

- Tudo bem, Nilson

- Até mais, Osvaldo

Saí do prédio pensando: bem se não deu certo dessa vez, aparecerá outra que poderá ser melhor que essa. Mas para minha surpresa, no dia seguinte, logo às nove horas, me ligaram dizendo que eu tinha passado. Que me apresentasse naquele dia mesmo com os documentos. E, é claro, á uma hora estava lá e no dia seguinte comecei a trabalhar nesta família chamada Liquigás.

sábado, 4 de janeiro de 2025

ainda que...

 

 

ainda que eu andasse por avenidas

ainda que eu andasse por ruas

perdido eu estaria nas praças

perdido eu estaria solitário

por não conhecer o que é o amor

por não conhecer o que é o mal

dessa ferida que dói sem doer

dessa felicidade sem ser feliz

 

mesmo que seja o amor ingrato

mesmo que eu tenha todos os dias

a cada ato desse sofrível drama

de sangrar no pano de prato

as lágrimas em cada ato

por não conhecer de fato

o que é o amor verdadeiro

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Amor platônico

  

O mosquito pousa em tuas pernas procurando alimento.

Invejo esse inseto que já conhece o gosto do teu sangue.

Quisera ser esse mosquito e sugar amorosamente teu doce sangue.

Mas num gesto violento, tua mão esmaga o coitado.

Pensando bem, quero ser o que sou: um eterno apaixonado.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

andava pela Paulista

 

 

andava pela Paulista

quando de repente vejo

ao longe uma estranha figura

 

o coração acelerado dispara

logo depois se põem em guarda

 

pois o que eu vejo

é uma pobre criatura

pedindo a cada transeunte

para aplacar a fome

uma mísera moeda

que na esquina da Augusta

a um menino entregava

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Antes de mais nada, a música.

 

 

Antes de mais nada prefiro

a música sempre música

ao vago e dissoluto ardor

da vida oca e vazia

 

Antes de mais nada

preciso despojar

a ambigüidade dos sons

tornando-o claro e puro

 

Ouvir com os olhos doce

como se fossem os olhos da amada

carregando toda a emoção

na sonoridade impulsiva

das notas envolventes

 

Antes de mais nada

da música quero o matiz

inebriante da sua cor

que me liga ao suave

toque de um piano

num adágio sustenido

 

Quero da música

a eloqüência pulsante

de um verso musical

espargindo-se ao vento

de uma manhã virginal

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...