quinta-feira, 30 de abril de 2020

Série desenho 95



Ele


ELE questionou as palavras. Uma a uma foi separando e classificando, até o momento que, embaralhadas pelo vento, pegou a palavra revolver e manchou o chão com a palavra sangue.




desenho: pastorelli

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Série desenho 96




Elefante


Elefante pisa de mansinho
Não acorde o menininho
Que dorme sossegado
Nos braços do pai amado



desenho: pastorelli

terça-feira, 28 de abril de 2020

Série desenho 97



Eme


Eme, se não estava enganado, a sua colocação era a décima terceira, uma antes de Ene e uma depois de Ele. E isso o chateava? Olhou para os seus traços que o desenhista traçou no papel Verge e, concluiu, tinha dias, momentos que se chateava sim, outra não estava nem aí. Por exemplo, numa frase, era mais empregado que Ele e Ene, no entanto, havia frases que ele nem aparecia, o que o deixava frustrado. Por fim, depois de muitas reflexões chegou à conclusão de que era importante assim como Ele e como Ene, pois existia muita Maria, Mercedes, Madalena, Mirian, Margarida, Malena, Manoela, Mariana, Maira, Marlene, Marica, Michele, Monique, Malu, Monica, Mayara, Mirela, Maisa, Maiara, e por aí vai, sem contar os nomes masculinos, mas esses Eme nem queria pensar...



desenho: Pastorelli

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Série desenho 98



Eme

Emeraldo saiu de casa cedo. Não disse nada, nem bom dia e nem tomou café. Saiu simplesmente. Não foi de carro, tomou o ônibus que passava em frente a casa e, depois o metrô. Em pé segurando na barra fria de metal, com a cabeça apoiada no braço direito chegou à conclusão que não valia a pena viver dentro de uma perspectiva sem valor, vazia, sem significado. Pra que esse ir e vir insensato? Colher a pressão de estar vivo, de estar fazendo algo inútil, sem prisma de melhora?
Emeraldo saiu do trem e se dirigiu para outra plataforma. Entrou no trem que voltava. Sentado com a cabeça apoiado no vidro da janela, via as imagens passarem vertiginosa sem tempo de se fixar num ponto. Sua vida era assim, vertiginosa, sem se fixar num ponto. Uma hora era o patrão, outra ora era a amante, em outro momento era a esposa, quando não os filhos, e ultimamente o amigo vinha lhe propondo algo sórdido. Queria que morassem juntos. Não estava esquecendo as prestações das escolas dos filhos menores e o colégio do filho maior. A vaidade descontrolável da esposa e suas artimanhas fúteis de socialite. Os amigos que cobravam sua presença nos jogos de futebol aos domingos com seus machismos preconceituosos arrogantes.
Emeraldo saiu do trem e se dirigiu para outra plataforma pendendo o corpo pra frente quando o trem saiu do túnel ensanguentando quem estava por perto.

sábado, 25 de abril de 2020

Série desenho 99





Marinalvo e Severina


Severina gostava de rock e música religiosa.
Marinalvo ouvia sertanejo e música erudita.
Quando a TPM atacava era Queen, Estatus Quo, Yes, Gun´s Rose, Led Zepelim, Beatles, Angra, Kiss, Black Sabat, e Van Halen o dia inteiro. Até aí tudo bem, mas não sei se era pior ou não, Severina com sua voz rouca de Janis Joplin cantava junto com os seus ídolos e não desafinava, sabia as letras na ponta da língua.
Marinalvo de fone de ouvido, nesses dias, saia regendo Mozart, Brahms, Beethoven, Smetana, Glass,  Devorak, Mendelson, Weber, Techaikosv, Verdi, Wagner, armazenados no celular e voltava só a noite, depois do Jornal da Globo.
Mas um dia, não se sabe como, caiu nas mãos de Severina um cd da Enya e, também Marinalvo, sem saber como, descobriu Secret Garden e, a partir desse dia passaram a ouvir New Age no café da manhã, no almoço, no lanche da tarde, na janta e ao dormir.
E um ano depois o primeiro filho nascia cujo nome que lhe deram foi: Enyo Garden.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Contos surrealistas 150


Contos surrealistas 150

caça

vozes sucumbem no silêncio
 de palavras não proferidas

abstratos fonemas versejam
entre perdidos seres

sílabas ditas aqui e ali 
ricocheteiam nos olhos
mortiços da noite

entre as luzes procura-se
a forma que combina
ao atrativo físico

e

entre um gole e outro
na espuma da solidão
o vazio de ser só
preenche o vazio
de só ser

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Contos surrealistas 152


Gruta do Carimbado

Estavam na entrada da gruta. Rodrigo olhou para Genivaldo que, sem dizer nada, sorriu para Eduardo, e Eduardo devolveu o olhar para Rodrigo dizendo:
- Vamos.
Assim os três acenderam as lanternas, passaram pela faixa com os dizeres:
- Proibida a entrada.
No momento em que  transpuseram o limite de entrada, tinham a noção de que não voltariam e não desistiriam, apesar da funesta lenda que a gruta possuía. Todos que se propuseram a explora-la se perderam ou morreram, pois ela era infinita é o que diziam. Os três tomaram a decisão, depois de ouvirem o noticiário noturno dizendo que o governo decidira fechar a entrada para que ninguém mais tentasse explora-la.
- Quem sabe a gente consiga descobrir o mistério dos desaparecimentos, disse Rodrigo.
- Podemos ficar famosos, retrucou Eduardo.
- Aparecermos na televisão, respondeu Genivaldo.
- Ou provavelmente morremos, falou Eduardo.
Rodrigo e Genivaldo lançaram um olhar de desagrado e Genivaldo dando um tapa na cabeça de Eduardo disse:
- Vamos e deixe de falar besteira.
A princípio não precisava das lanternas, a claridade que entrava iluminava, mas ao se aprofundarem a escuridão tomou conta. Caminhando um atrás do outro, os três iam com cautela.
- Pisem onde eu piso, disse Rodrigo.
Perceberam que a gruta se afunilava mal conseguindo passar um por vez. Nisso ouviram um:
- Cuidado.
E Rodrigo e lanterna sumiram na escuridão. Genivaldo e Eduardo pararam. Um iluminou o rosto do outro espantado sem saber o que fazer. Genivaldo direcionou a lanterna para baixo e viram um declive metálico. Iluminaram novamente o rosto um do outro. A pergunta que surgiu no olhar deles foi:
- O que faremos?
Genivaldo olhou para o declive para Eduardo.
E se deixaram escorregar. Segundos depois caiam numa sala toda iluminada com uma mesa bem no centro. Em cima da mesa tinha uma campainha com uma tabuleta dizendo:
- Toque a campainha para ser atendido.
Eduardo tocou a campainha e a sala se transformou aprisionando os dois dentro de uma enorme bola ao mesmo tempo em que uma fumaça escura fez com os dois desmaiassem.
Genivaldo abriu os olhos. Estava num enorme compartimento com grandes tubos de vidros. Dentro de cada tubo tinha uma pessoa. A sua frente estava Eduardo e ao lado dele, estava Rodrigo. Pareciam desmaiados. Tentou gritar, não conseguia não saia som nenhum da garganta, a massa gelatinosa que o envolvia não deixava se mover. Nisso a porta se abriu e por ela passou um gigante. Ele se ajoelhou, abriu um dos tubos e tirou de dentro um homem. Horrorizado Genivaldo viu que era Rodrigo. De repente um som estridente se fez ouvir e tudo começou a girar.
No dia seguinte os noticiários proclamavam a noticia de um terremoto de pequenas proporções, pois não houve estrago nenhum na cidade, apenas a gruta conhecida como a Gruta do Carimbado sofrera desabamento ficando em seu lugar um enorme buraco circular parecendo que ali estivera um disco voador e o desaparecimento de três crianças.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Contos surrealistas 153


Companheira

O frio corta
Menos que a angústia
Menos que a depressão
Menos que a dúvida

O frio é moleque
Não está nem aí
Para as maluquices
Disto ou daquilo

Ele corre no vento
Levando de um lado
Para outro sentimento
Que ora me aflige
E que ora me alegra

Preciso não ligar pra ele
Preciso aumentar mais
O volume da música
Dançar como louco
Na sala
No quarto
Na cozinha
No quintal
Talvez na rua

Deixar a preocupação
De que há algo ainda
Para ser feito
Não ligar que no peito
A companheira eterna
Arrebente-me por inteiro

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Contos surrealistas 154


O amigo

Suportou com reprovação o olhar duro e inquisidor da enfermeira. Não lhe deu satisfação, pegou as chaves do carro e, ao entrar no elevador, verificou que estava atrasado. Fazer o que! Não aguentava ficar preso com um doente que não o reconhecia. Isso não quer dizer que não o amava, claro que o amava, com toda a força do coração, o que não podia era morrer junto com ele. E ao deixar sozinho não significava desdém ou falta de amor ou outra coisa que pudesse passar pela cabeça da enfermeira. Afinal fora contratada para que? Além do mais, Valter o fizera prometer que não se prendesse com o avançar da doença. Fosse viver a vida, não foi isso que prometeram um para o outro, viver a vida. Portanto, nada de remorso ou complexo de culpa.
Girou a chave na ignição, deu um pequeno arranco, e subiu a pequena rampa da garagem. Passou pelo segurança que, provavelmente, assim como a enfermeira, deve ter pensado horrores. Que se dane! Cuidem de suas vidas que é o melhor que fazem, disse ao entrar na pequena rua ladeando o edifício. Que se danem todos. Pisou no acelerador, assim que o sinal ficou verde, e, decidido tomou a via expressa.

- Boa noite. Desculpe o atraso.
- Boa noite. Que isso! Valter está melhor?
- Está na mesma. Onde eu sento?
- Fique a vontade...
- Obrigado.
Cansado foi obrigado a admitir. Estava cansado de tudo, dele próprio, de Valter, doença, obrigações, remédios, médicos, vozes, bebidas, comida, de sexo, da falta de sexo, de estar ali querendo estar em outro lugar e, quando estava em outro lugar queria estar ali, enfim, um cansaço enfadonho reconheceu. Nisso, uma voz se fez ouvir a sua direita.
- Parece que está aborrecido.
- Como?
- É aborrecido, cansado, como se estivesse em outro lugar e não aqui.
Foi então que percebeu. Sentara ao lado de um rapaz moreno, cabelos pretos, testa larga, olhos claros acastanhados, nariz pequeno em confronto com os lábios finos, olhando-o diretamente nos olhos.
- Desculpe se o aborreço.
- Não, nada disso. Apenas espantado.
- Adivinhei?
- Parece que sim.
Sim, adivinhara, como? Estava transparente demais? Não sabia disfarçar o que se passava dentro dele. Reconheceu a fraqueza. Tinha que erguer o escudo, se fortalecer, não deveria ser fraco tanto assim. No entanto, ali estava ouvindo palavras conhecidas na voz de um desconhecido. Colocaram um peso sobre ele que não conseguia levantar, sair dali, parar de ouvir a voz desconhecida. Por outro lado, algo na voz daquele sujeito trazia uma espécie de conforto, de leveza, de suavidade, ao ponto de chegar a dizer:
- Vamos sair daqui, está muito barulho.
- Está certo, vamos.

Eram mais de sete horas quando abria o portão do prédio sob o olhar interrogador do porteiro. Estacionou o carro, pegou o elevador e o espelho refletiu outro ele que o deixou satisfeito. Abriu a porta do apartamento, encontrou a enfermeira dormindo no sofá. Dirigiu-se ao quarto, Valter também dormia profundamente. Sentou na beirada da cama e ao pegar na mão do companheiro notou a rigidez fria da morte.
Na cozinha, sem nenhum arrependimento, tomou uma longa doze de uísque. Quinze minutos depois, se preparou para oferecer ao amigo um digno enterro.

domingo, 19 de abril de 2020

desenfreados


e as palavras proferidas
ferem a parede do desejo

não só sobrevoam
corpos braços e cabeças
como penetram sexo adentro
num rugido surdo de amor

o farfalhar das peles
gera a continuidade
do passado presente
e futuro

sua voz
em frases curtas
proferidos entre
ais e sim
quebram
a timidez e a ousadia

impossível a mudez
se na tua e na minha
pele nua esta
nossos desejos
desenfreados

sábado, 18 de abril de 2020

Contos surrealistas 156


Usado

Edgar estava no décimo copo e não via probabilidade alguma de acontecer algo que o fizesse permanecer na festa. Deveria ter ficado em casa, pensou. Nisso foi empurrado para dentro do banheiro e sentiu-se beijado não dando chance para que revidasse.
- Desculpe. Preciso dar uma mijada disse o estranho.
Quieto encostado á porta, Edgar viu que Álvaro presenciara tudo. Porra! La vem cena de ciúmes, pensou.
Edgar e Álvaro se conheceram numa boate em que frequentavam uma vez por mês. Cruzando entre os corredores e os ambientes, numa dança aqui, outra ali, descobriram afinidades e decidiram morar juntos. E agora, depois de cinco anos, talvez estivesse na hora de terminarem.
Com o copo pela metade, indeciso, tomado por sentimento de culpa, olhava para o rosto de Álvaro esperando que lhe dissesse alguma coisa. Talvez, uma reprimenda por presenciar a cena do beijo. Afinal o beijo não representava nada para ele, mas sabia que para o ciumento do namorado fora o cúmulo da infidelidade, por outro lado, não adiantaria nada dizer que não fora ele quem beijou e, sim, foi beijado, não houve reciprocidade.  
Na verdade Álvaro não estava preocupado ao ver o namorado beijando outro homem, aliás, tudo fazia parte de uma trama, pois não tinha coragem em romper com Edgar. Vinha saindo às escondidas com Cristiano há algum tempo acabando por se apaixonarem. Fossem onde fossem, à surdina, evitando que Edgar o visse, Cristiano estava onde eles estavam com a finalidade de, um pequeno acidente, causar ciúmes e assim provocar a separação entre eles. A princípio Cristiano não topou o plano de Edgar, porém, como a paixão sendo mais forte, e só o fato da aventura acabou cedendo. E, ao que tudo indicava, essa foi à noite decisiva.
A festa estava bastante animada, o que era uma característica da Arlete. Trabalhando como promotora em eventos, tanto restrito como em shows, sabia promover festa decente, e as festas da Arlete eram de arrasar quarteirão, como dizia os amigos. Edgar quase não perdia uma, claro desde que fosse convidado, e quando Arlete convidava não podia recusar para não correr o risco de perder a amizade. Havia um lema: tudo o que Arlete pede, quer ou ordena deve ser cumprida. E assim era. Por isso ao serem puxados pela mão não fizeram objeção nenhuma e, obedientes foram apresentados à Lucia e Cida.
Lucia e Cida conhecidas por uma produção artística muito elevada precisavam de uma pessoa de confiança para o projeto que estavam elaborando. Sabendo das qualidades intelectuais e produtivas de Edgar, o contrataram para trabalhar com elas. Edgar como queria pensar na sua relação com Álvaro, aceitou o serviço e passou três anos viajando por vários lugares, coletando, analisando as fotos de Lucia e organizando textos para a edição do livro.
Sendo o trabalho árduo passou a conviver intimamente lada a lado com Lucia quase todos os dias e, também logo a publicação do livro, estavam constantemente dando entrevistas em jornais, revistas e televisão. Corria o boato que estavam noivos, o casamento seria breve e outras fofocas que nenhum dos dois desmentiam. Até a briga e o quase rompimento entre Lucia e Cida, foi alvo das fofocas a ponto de mencionarem o relacionamento sexual entre eles. No mesmo instante em que o contrato acabou Edgar retornava.
Cansado da correia, das bajulações, Edgar estava contente em voltar, apenas ignorava como seria recebido pelos amigos e, principalmente pela cidade. Ele que mudou ou foi à cidade que mudou, era a sua pergunta enquanto o taxi corria pelas ruas. Não era pretencioso a ponto de procurar Álvaro, soubera da sua união com Cristiano, portanto deveria esquecer e começar do zero, o que era desgastante. Aos poucos foi ajustando os sentimentos, se enfurnou no trabalho que nem lembrava mais de Álvaro, Lucia e Cida e, muito menos livro...
Por isso foi com espanto que, ao ser tocado no ombro, deparou com Lucia a sua frente. Trazia ao colo uma criança, um menino dos seus três anos de idade. Sabia que elas queriam adotar uma criança e, felicitou-a desejando tudo de bom. Durante a conversa, sem se controlar, uma força o obrigava a olhar a criança no colo da mãe. Os traços, os olhos principalmente, a boca, a forma do queixo, os lábios, o cabelo, a cor, dava a sensação de já ter visto aquelas características. Foi quando viu seu reflexo no espelho atrás de Lucia. Sem perceber, soltou:
- Eu te conheço.
E sem que Lucia tivesse tempo em retrucar, Edgar num ímpeto disse quase ríspido:
- Esse menino é meu filho, gritou convincente do que dizia.
Lucia desmentiu dizendo que o adotaram, que só porque transaram uma vez não lhe dava o direito em ser o pai, que ele estava louco, e em seguida, despediu-se rapidamente com a desculpa de se encontrar com a Cida.
Semanas depois, numa das festas da Arlete, estando numa roda de amigos cujo tema da conversa era criança, filho, gravidez e sexo, ouviu de alguém dizer que havia pessoas que usavam outras pessoas conscientemente,  e deu como exemplo Lucia e Cida, que estavam à procura de um homem para engravidar uma delas, e completou enfática:
- Ouvi dizer que conseguiram, não sei quem foi o felizardo se é que se pode chamar o cara de felizardo.
Edgar sentiu olhares dirigidos a ele. Sem dizer nada, foi até onde estavam as bebidas, se serviu uma boa dose de uísque que bebeu numa golada só. Caminhando na noite enluarada, fechou a jaqueta e respirando fundo, murmúrio:
- Merda. Fui usado duas vezes...

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Contos surrealistas 157


O ato

Teatro cheio. A plateia não tirava os olhos, principalmente do sujeito magro que no centro do palco fazia gestos lentos e mirabolantes.
Confiante de suas habilidades regia a atenção de todos com a maior facilidade levando-os a olhar ora para uma direção, ora para outra quando de repente, todos desapareceram, o teatro ficou vazio, a cortina caiu silenciosamente.
Ninguém mais viu ou soube do paradeiro daquelas pessoas e, um sujeito magro entrou em seu carro alçando voo para o espaço sideral.
No painel do carro surgiu uma frase: mais um ato finalizado a contento.
E um dedo fino apertou o botão: enviar.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Contos surrealistas 158


Coragem!

Tinha coragem sim, porque demonstrar para a sociedade, a família, os amigos e, principalmente as meninas? Comprovação de masculinidade? Besteira.
Posicionou, abriu as pernas, abriu a braguilha, puxou o pau para fora e urinou em cima do rosto que sorria para ele.
Ovacionado pegou o retrato do diretor da escola e pendurou na lousa.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Contos surrealistas 159


Cancer

                         E se dissesse que estou com uma filha da puta de uma doença terminal o que me diriam? É o que me diriam? Por favor, não venham com chavões, com clichês, com frases bestas e repetidas, coitado, tão novo, é a vida, por favor, sejam criativos, digam algo novo que ninguém disse ainda e, outra coisa, nada de pena, já chega a pena que sinto de mim mesmo.
A merda é que soube da pior maneira.
A doce garota por baixo de mim, numa voz sensual, pelos menos pretendia ser, repetia várias vezes: “vai meu coroa, goza, gostoso, goza”, e, humildemente satisfiz o desejo dela, gozei entre os seios que jorrou, apesar da minha idade, leitoso  lambuzando o queixo dela.
Foi então que a menina deu um grito estarrecedor:
- Que caralho é isso? Sangue? Seu morfético é coisa que se faz? Tá doente, velho de merda.
E por aí afora foi ela aos berros para o banheiro me xingando de tudo o que era nome feio conhecido e desconhecido. Fiquei sem saber o que fazer, com cara apalermada. Queria me esconder num buraco e não sair mais.
O rapaz que estava entre as pernas da menina, levou uma tremenda joelhada no instante do grito, simplesmente se vestiu e saiu sem dizer uma palavra. O berro escandaloso da garota e nem a porra com sangue não doeu mais que o silêncio do rapaz.
                         É. Foi assim que descobri, por uma foda, que estava fodido.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Contos surrealistas 160


                          Ele disse: Te amo.

- Te amo, ele disse pela primeira vez.
- Estou vendo O Faustão, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela segunda vez.
- Estou vendo Marilia Gabriela entrevista, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela terceira vez.
- Estou vendo Bela Gil receitas, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela quarta vez.
- Estou vendo Saia Justa, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela quinta vez.
- Estou vendo O Jornal da Globo, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela sexta vez.
- Estou vendo Cartão Verde, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela oitava vez.
- Estou vendo Decora, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela nona vez.
- Estou vendo o jogo de vôlei, respondeu ela.
- Te amo, ele disse pela décima vez.
- Não enche o saco, respondeu ela.

Em seguida os dois se levantaram e de frente um do outro começaram a se despir.
Primeiro ele tirou a blusa dela abrindo botão por botão.
Ela tirou a camisa dele abrindo botão por botão.
Depois ele tirou o sutiã dela bem devagar.
Ela abriu a braguilha da calça dele que caiu aos seus pés.
Ele fez o mesmo com a calça dela que também caiu aos pés dela.
Em seguida ela abaixou a cueca de bolinhas dele.
Ele fez o mesmo com a calcinha de bolinhas dela.
Nus um de frente para outro, sentaram no chão da sala e começaram a se beijarem lentamente.
E a partir dai fizeram amor de todas e várias maneira, deitados, de pé, de lado, no sofá, na cadeira, na mesa, na pia, no tapete, debaixo da mesa, até a exaustão.
Cansados um caiu ao lado do outro.
Olhando o teto da sala ficaram mais de uma hora imóveis ao ponto de não mais sentirem a respiração.
Passados uma hora, levantaram e cada um vestiu sua roupa e sem se olharem saiu ele por uma porta ela pela outra porta.
A cortina desceu.
Foram ovacionados insistentemente por mais de trinta minutos e, como os atores não voltaram ao palco, à plateia foi embora decepcionada.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Contos surrealistas 161


Ele não é cozinheiro.

- Meninas, vocês estão com fome? Perguntei:
- Sim, respondeu a Manoela.
- Quero um ovo grande, disse a Eduarda.
Fritei dois ovos, passei duas fatias de pão de forma na frigideira, cortei os ovos e o pão e levei para elas na sala.
- Quero arroz, disse a Eduarda.
Respondi:
- Arroz não tem.
- Faz, vô.
- O vô não sabe fazer arroz isso é com a sua mãe, ela faz.
Estavam comendo quando a mãe chegou.
- Que beleza estão comendo!
A Eduarda foi logo dizendo:
- Ele não é cozinheiro.
- Quem Eduarda? perguntou a mãe.
- O vô.
- Por que?
- O vô não sabe fazer arroz.
Pois é, preciso aprender a fazer arroz.

domingo, 12 de abril de 2020

Contos surrealistas 162


Retorno

Todos ouviram. Ela não pode se conter, agora sabiam da situação. O que fazer, perguntou olhando para as mãos. Nada foi a resposta. Nada repetiu mentalmente. E nada fez durante o dia todo. Fechou-se no quarto, ligou o som e desligou-se de tudo. Passou dois dias trancada. No terceiro dia abriu a porta para o coordenador:
- Bom dia.
- Bom dia, respondeu a contra gosto.
- Afinal o que foi aquele grito? Correu o risco em ser desconectada.
- Como assim!?
- Você foi criada para satisfazer as pessoas.
- Espere ai, não sou uma boneca sexual, não.
- Você não entende...
- O que?
- Olha não sou eu que vou lhe dizer. Aqui está o anel, se colocar no dedo, aceitaremos o teu retorno, se não colocar saberemos que não retornará.
- E se eu não retornar?
- Será desconectada.
- E se eu retornar?
- Bom terá que passar por todo o processo, como se fosse à primeira vez, e sabe como é doloroso, pois vai reiniciar desde a parte baixa do sistema até chegar onde estava.
Ficaram em silêncio.
- Aí está o anel, disse o coordenado se levantando. Tem mais dois dias para pensar, se nesses dois dias você não aparecer saberemos que não retornará.
O coordenador saiu fechando a porta bem devagar.
Ficou um bom tempo fixando o anel. Como névoa que aos poucos se dissipa, sua mente obscurecida foi clareando e as lembranças surgiram como onda que arrebenta na praia.

Naquele dia eram duas para satisfazer o público que, consistia praticamente de homens, e o que pediam elas tinham que obedecer. Afinal, eram inferiores, nascidas escravas. Estavam nuas dançando no tablado, isto é, ela, a 3030 não tinha nada no corpo, a sua companheira, a 3012 estava só de calcinha E em volta olhares cobiçosos apreciavam suas performances. Foi quando alguém gritou:
- Quero sexo explícito.
3030 mordeu o lábio inferior numa atitude resignada, como se dissesse para a companheira:
- É agora.
3012 aproximou-se dela e levemente acariciou sua face dando-lhe um beijo bem devagar. Sentiu um formigamento subindo por entre as pernas que a deixou meio bamba. Já tinha transado com outras naquele mesmo palco, por isso ficou meio envergonhada pelos sentimentos que afloravam naquele momento. Não sabia por que, mas deixou-se levar. Ou melhor, foram se conduzindo conforme a excitação aumentava. Num beijo ardoroso, onde as línguas se enroscavam 3030 admirava a perícia de ambas, afinal, bonecas como eram, estavam tecnologicamente avançadas para serem simples robôs.
Algo a perturbava, e ao deslizar a mão entre a calcinha percebeu o por que. Tentou se desvencilhar, mas 3012 segurou com força seu corpo contra o dela e sussurrou em seu ouvido:
- Fique calma. Continue, estamos aqui para satisfazer essa plateia avida de prazeres. Não tenha receio.
Abraçadas, seios espremidos um no outro, notava os bicos rígidos. Numa atitude despercebida pela companheira, 3030 abaixou a calcinha e saiu da frente dela.
No primeiro momento, ouviu-se um OH! geral, seguido de um silêncio estático como se todos não estivessem acreditando no que viam. Imóveis, pegas de surpresa, ficaram as duas, principalmente 3012 que não espera tal reação da amiga, e, 3030 que não se supunha tão audaciosa. Imobilidade essa quebrada pelos aplausos, assovios, e apupos de:
- Boa!
- Magnifico!
- Continuem!
- Não parem!
3012 sem controlar a raiva, puxou 3030 para o meio do palco, violentando-a sem dar tempo de qualquer reação da companheira. 3030 a principio quis reagir, no entanto se entregou ao furor da amiga que cega a penetrou por vários minutos.
A plateia ensurdecedora incentivava as duas num clímax tribal e, quando chegaram ao orgasmo, parecia que todos sem exceção, gozaram junto. Mas ninguém percebeu o desmaio e o grito da 3012 e o anel saindo do seu dedo e rolando pelo chão do teatro.

Ali no silêncio do quarto, decidiu o que deveria fazer. Não podia ser desconectada, passaria fome. Retornando para o sistema, apesar do reinicio doloroso, teriam, ela e o filho, teto e comida. Abraçou o ventre imaginando-o, dali uns quatros meses enorme, e enfiou o anel no dedo.  

sábado, 11 de abril de 2020

O patinho cri cri.


            — Era uma vez um patinho.
            — O patinho feio outra vez, vô?
            — Não Eduarda, não é o patinho feio. É o patinho cri cri.
            — Patinho cri cri, vô?
            — É, Manoela.
            — Por que patinho cri cri?
            — Calma que vocês saberão. Posso contar?
            — Pode — disseram a duas.
            Era um patinho diferente de seus irmãos. Enquanto seus irmãos faziam qua qua, ele fazia cri cri. Dona Pata estava envergonhada, não sabia o que fazer. Seus irmãos já não o deixavam brincar, expulsavam o coitado de todas as brincadeiras. Dona Pata, a mãe, escondia o pobrezinho dos outros bichos para que não caçoassem dele. Pensava até em expulsar o patinho cri cri de seu convívio. Até que um dia, quando estavam caminhando até a lagoa para nadar, numa corrida para não ficar atrás, o patinho cri cri tropeçou numa pedra e bateu a cabeça no chão. Com o choque pulou do seu bico um grilo que, todo eufórico, saiu pulando e, cricrizando, sumiu no matagal. Dona Pata voltou e pegou na sua asinha, pois se ele tivesse orelha seria orelha que ela pegaria, e toda brava disse para o patinho cri cri:
            — Quantas vezes já falei para vocês não comerem porcariada? Tem que comer minhoca, larva, formiga, e outras coisas boas, e não coisas que não conseguem comer. Olha aí, os humanos, comeram porcariada agora estão doentes, presos em suas casas. Que isso sirva de lição para todos. Vamos nadar.
            E toda serelepe tomou o caminho da lagoa toda feliz. Mais feliz ficou o patinho cri cri que agora não fazia mais cri cri, e sim qua qua.
            — Gostaram?
            — Gostamos, vô.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Contos surrealistas 163


Voltas

Perdido... Estava perdido... Olhou pela quarta ou quinta vez ao redor. Já passei aqui. Estou só dando voltas. Porra! Como sairei dessa situação?
- Luiza vem almoçar, escutou.
- Já vou mãe.
A mão surgiu de novo pegando-o pela gola e, com cuidado, depositou na caixa. Em seguida, dobrado viu a cidade ser colocada ao seu lado.
Daqui a pouco a escuridão tomara conta seguida de um clique, disse para si mesmo.
E foi o que aconteceu.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Contos surrealistas 164


Encontro.


2010 sorriu ao apertar o botão e sentir o jato de ar seco e quente lambendo o corpo. Te encontro em Marte foi o que dissera 2034 ao descer do flutuador em frente ao prédio em que morava.
Excitado, 2010 saiu do vaporizador. Passou pela cozinha, apanhou o absinto gelado. Apesar da chuva a noite estava agradável. Puxou a cadeira para a varanda, relaxadamente sentou sem se importar com o frio em seu corpo atlético. Isso desacelerava o prazer sexual. Animado com o sentimento novo queimando o peito.
 Estalou os dedos e o clarão iluminou a parede da varanda e uma voz monocórdica se fez ouvir:
- Foi decretado por ordem do Sindicato dos Flutuadores Empresariais e Particulares greve a partir da meia noite de hoje. O presidente do sindicato afirmou que se alguém for pego descumprindo a ordem de greve será multado em 1000 dracmas reais.
2010 coçou a cabeça. Como faria para ir ao Te encontro em Marte? Sua tecnologia não era tão avançada como a de 2034. Necessitava dos flutuadores para se locomover. Quando 2010 foi construído, era o top do top dos humanos robotizados. Depois surgiram os 2034 com tecnologia que ninguém pudesse vinte anos atrás imaginar. Não foram criados para servirem, não tinham manuais de instruções, foram criados para povoarem o planeta, para procriarem. Não eram humanos no sentido restrito da palavra e, ao mesmo tempo, não eram androides. Mas qual a diferença entre humanos e androides? Era a manchete estampada na revista holográfica. Lendo o artigo chegou a conclusão que essa diferença não existia, era tudo marketing, tudo um amontoado de teorias sem conteúdo, fatos apenas para vender jornais e revistas. O que tornavam os robotizados diferentes dos humanos era o número de fabricação que traziam marcado no braço, e o fato de não poderem se envolver intimamente, seja sexual, social e amorosa com os humanos.
Tanto os robotizados como o não robotizado tinham conhecimento desse fato, portanto cada um viviam no seu mundo, se envolviam uns com os outros apenas superficialmente quando algo fosse necessitado, fosse caso de urgência.
Portanto quando 2010 chegou ao Te Encontro em Marte, 2034 já estava esperando.
- Puxa! Pensei que não veria.
- Disse que veria não disse?
- Sim, disse, mas é que com essa greve...
- Ainda bem que acabou.
- É ainda bem, sorte nossa.
- Então vamos?
- Está afim?
- Claro.

Os jornais holográficos espalhados pela cidade noticiavam:
Atenção. Hoje às 14 horas será o julgamento do humano robotizado e do não robotizado, o primeiro caso homossexual da história. Os dois foram flagrados num quarto de hotel onde mantinham encontros regulares muito íntimos.”

- Atenção, silêncio, pedia o juiz.
Dirigindo-se ao 2010 perguntou:
- Você não sabia que 2034 é humano não robotizado?
- Não sabia.
E ao 2034 perguntou:
- E você, 2034 sabia que 2010 é robotizado?
- Sabia sim.
Coçando o queixo enquanto escrevia, o juiz decretou:
- 2010 declaro culpado por não se informar sobre 2034 de sua procedência humanoide. E 2034 declaro também culpado por se envolver sexualmente com um robotizado sabendo de sua procedência.
Depois de uma pequena pausa, voltou a falar:
- 2010 sua sentença será o desligamento completo de suas funções. 2034 como não podemos desliga-lo, condeno a servir no planeta agrícola pelo resto da vida.
Batendo o martelo:
- Dou por encerrado a sessão.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Contos surrealistas 165


A passeata.

Sentia o dedo sujo de verde raspando a pele do rosto perto da faixa amarela. O tédio estava tomando conta do corpo. Poderia ter recusado, mas a promessa de estar ao lado da pessoa que se sentia atraído fez com que dissesse sim. Portanto não cabiam reclamações. Seu lado intimista não suportava politica, não que ficasse por fora dos acontecimentos. Todo politico é um ladrão, dizia com certo desprezo.
Desceu as escadas de dois em dois degraus. Rapidamente chegou a rua. Lá estavam eles, lá estava ele todo pintado, o rosto e peito em faixas de verde e amarelo. O coração acelerou ao abraça-lo. Rindo e contentes se dirigiam para o ponto combinado. Juntou-se aos participantes gritando slogan que, talvez, nem acreditassem. Naquele momento a vida tornava-se positivamente mais alegre e mais confortável. Seu peito encheu-se de euforia.
Ao virarem a esquina, toda a vibração desapareceu para dar lugar a angústia e a opressão. Deram de cara com a patrulha de choque. O pessoal posicionado na frente recuou por segundos, mas empurrados pelos que vinham atrás ergueram a cabeça desafiadora sem medo nenhum. Sentiu a mão dele segurando a sua dando-lhe confiança. Foi quando lançaram bomba de fumaça envolvendo-os totalmente. Não enxergava mais nada, ficou tudo escuro. A mão dele escorregou da sua. Amedrontado foi empurrado de um lado para outro entre gritos de recuem e pega e prende. De repente o silêncio imperou. Não se ouvia mais nada. Abrasador silêncio caiu sobre ele. Sem saber o que fazer, resolveu ficar parado. Numa expectativa apavorante a fumaça foi se dissipando. Quando a claridade invadiu seus olhos que arregalados silenciosamente gritaram medrosos.
Onde estava? O que acontecia? Cadê ele, o pessoal, a tropa de choque? Sumiram! Olhou para cima. Um sol abrasador queimava as costas. Olhou para os lados, nada, apenas vazio. Não se via edifícios, ruas, casas, lojas, tudo desaparecera. Sob os pés apenas a larga estrada de pedras amarelas.  Começou a andar, isto é, sentia que estava andando, mas permanecia parado, quem estava se movendo era estrada como se fosse uma grande esteira, e, horrorizado a estrada se afunilava surgindo paredes dos dois lados. Tentou se virar sair correr em sentido contrário, sem sucesso, estava preso, não podia fazer nenhum gesto, nem piscar. A estrada esteira levava-o não sabia para onde, as paredes se afunilavam ia ser espremido a qualquer momento.     
Nisso surgiu o buraco, a estrada terminava nele para onde estava indo, ou melhor, sendo levado. Horrorizado não ouvia o grito saindo da garganta, não tinha onde se segurar as paredes lisas esticou os braços na vã tentativa de segura-las, sem conseguir. Caiu no escuro do buraco, faltava-lhe ar, sentia-se sufocar. O corpo girava de um lado para outro batendo nas paredes. Ao longe uma pequena luz encheu sei peito de esperança. Um clarão ofuscou seus olhos.
Aos poucos abriu os olhos e ouviu vozes.
- Está acordando.
- Onde estou, perguntou angustiado.
- No crematório.
- O que?
Não houve mais tempo, foi consumido pelo fogo.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Contos surrealistas 166


Dois José e uma Maria.

Como de costume se sentou no canto onde podia observar toda a movimentação do restaurante. O que no momento não lhe interessava quem entrava ou quem saia, já foi à época em que se divertia com a agitação da noite de boemia.  Queria apenas tomar cerveja ao sabor de uma leitura. O movimento não estava tão intenso. Chamou o garçom.
— Por favor, outra cerveja – pediu assim que ele se aproximou.
Três segundos depois a cerveja estava a sua frente.
— Obrigado.
O garçom se afastou.
Abriu o livro. A leitura até que era boa, mas se arrastava a ação não saia do mesmo lugar, quer dizer, ação não havia apenas situações improvisadas. Mesmo assim se impunha a leitura e, conforme progredia anotava palavras, frases, sentenças. Fez uma releitura das anotações, riscou algumas, acrescentou outras, retificou e, por momentos ficou olhando o vazio a sua frente com a caneta na boca quando notou os olhos de José Augusto fixo nele. Não deu muita importância, continuou lendo. No entanto o canto dos olhos procurava a direção daqueles olhos a perturbá-lo. Fechou o livro. Ergueu o copo a altura do rosto e fez um gesto convidando-o. José Augusto não se sobressaltou com o convite, apenas não esperava que fosse assim instantâneo. Levantou-se, pegou a garrafa e o copo e se dirigiu a mesa dele.
— Prazer, José Augusto, disse ao se aproximar e puxar a cadeira.
— Prazer, José Antônio.
José Augusto sorriu cumprimentando-o.
— Do que está sorrindo, disse José Antônio.
— Do nosso nome.
— Ahn!
— José Augusto e Antônio.
— Dois José A.
— Coincidência?
— Será! Você acredita em coincidência? Perguntou José Augusto.
— Olha não sei, apenas acredito no imprevisto, como nesse momento.
— E esse momento para você é um imprevisto?
— Vamos dizer que sim. Por quê? Para você, não é?
— Primeiro acho que devemos saber o que é imprevisto.
— Algo que surpreende que não se prevê...
— Então sou algo que te surpreende?
— Sim, por que não!
— Não sei se posso levar isso como elogio.
— Creio que sim, disse José Antônio. Estava aqui no meu sossego, lendo, tomando minha cerveja quando sou surpreendido por seu olhar.
— Ah quer dizer que tirei você do sossego? Perguntou José Augusto.
— Sim e não, não fique chateado, pois é sempre bom conhecer novas pessoas, novas ideias e...
— E... o que?
José Antônio ficou sem graça, pensava numa maneira de responder sem que fosse atrevido.
— Nada, apenas um pensamento ousado.
— Diga essa ousadia. Quem pensa em dizer algo e não diz peca duas vezes, como dizia a senhora minha mãe.
José Augusto encheu os copos e pediu mais uma cerveja.
— Sua mãe é sábia...
— Sim, todas as mães são sábias, respondeu José Augusto. Mas ainda não disse a sua ousadia.
— Bem... talvez possamos ser bons amigos.
— Ah! Para você isso é ousadia?
— Para quem é tímido não deixa de ser.
— Você tímido? Você que me convidou...
— Tudo bem, não vamos discutir.
— Você que me convida...
— Porque você estava olhando para mim.
— Quer dizer que eu dei coragem a você para me convidar?
— Até pode ser.
— E se eu não o tivesse dado essa coragem?
— Estaríamos olhando um para outro e cada um tomando a sua cerveja.
— Essa conversa está muito absurda para o meu gosto, respondeu José Augusto.
— É nos absurdos que está à verdade, replicou José Antônio.
— Quem pediu a última cerveja?
— Isso tem importância?
— Não sei curiosidade. Por favor, garçom, outra cerveja.
Já estavam a bastante tempo conversando asneirice, como dizia José Augusto, e não repararam que o ambiente agora, movimentado precisavam falar um pouco mais alto. José Antônio levantou-se.
— Já vai embora?
— Vou ao banheiro.
— Ah! Está bom.
José Augusto ao abrir a porta do Box estava perturbado com a conversa, não atinava como seguia num rumo surrealista. Espero que ao voltar para a mesa José Augusto tenha ido embora, senão vai ser penoso dispensá-lo sem uma desculpa concreta a não ser o seu humor sendo deteriorado pela conversa grotesca, pensou ao subir o zíper da calça jeans, se lavar e sair do banheiro.
Ao se aproximar da mesa suspirou aliviado, José Augusto tinha ido embora. Sentou deixando toda a decepção escorrer fora do corpo. Estava chamando o garçom para fechar a conta quando surgiu José Augusto.
— Pensei que tinha ido embora, disse José Antônio.
Nisso o garçom se aproxima.
— Pois não.
— Por favor, a conta...
— Não nada de conta, traz outra cerveja, pediu José Augusto.
O garçom se retirou.
— Nem conversamos direito...
— Achei que tinha ido embora.
— Já disse isso. Troque o disco, repreendeu José Augusto meio autoritário. Só porque fui tragar um cigarro não quer dizer que eu tenha ido embora.
—Você fuma? Perguntou José Antônio demonstrando surpresa.
— Só quando estou ansioso, porque, isso te incomoda?
— Não, claro que não.
— Então por que essa cara de nojo?
— Não, nada disso, não desaprovo e nem aprovo, gosto é gosto.
— Ah bom pensei que fosse preconceituoso com os fumantes.
— Porra cara! Reparou na nossa conversa?
— O que tem ela?
— Nunca vi uma conversa surrealista e absurda como essa.
José Augusto sorriu e tomou mais um gole de cerveja. Sim, é verdade, a conversa estava mais que absurda a ponto de se arrepender em ter aceitado o convite de José Antônio. O             mais engraçado é que não conseguia manter-se sério como era do seu feitio e não achava uma maneira em introduzir assunto que não fosse surreal. Desconfortante sua posição, mas em fim, em algum ponto do seu corpo algo lhe dizia para não alterar em nada daquilo, pois estava gostando da situação, da conversa e... de José Antônio. Após essas reflexões, disse:
— Agora quem vai ser ousado sou eu.
— O que?
— Sim, ousado. Vou ser ousado com você.
— E por quê?
— Digamos que eu goste de surpreender os tímidos.
— Ah! E quer ver minha reação, não é mesmo? Perguntou José Antônio.
— Puxa! Leu meu pensamento?
— Intuição intelectual, vamos dizer.
— Ok por essa não esperava.
— Então diga a sua ousadia, meu caro José Augusto.
— Que tal irmos para um hotel?
— Que?
— Ops! Desculpe, o que quis dizer é porque não vamos fazer uma viagem?
— Viagem...?
— Sim, minha tia tem uma casa no litoral e poderíamos passar um fim de semana na praia. O que acha?
— Podemos combinar.
— Combinado, veja quando pode e me diz.
— Falou.


Maria José Augusto se levantou cansada, toda dolorida, estomago embrulhado e uma constante azia que a obrigava arrotar, mesmo assim dirigiu-se a cozinha a fim de fazer café. Os rapazes ainda dormiam e, ao lembrar-se deles, sorriu. O cheiro do café bateu em seu nariz obrigando-a a correr para o banheiro e se ajoelhar em frente ao vaso sanitário. Vomitou o que podia e o que não podia. Um torpor a invadiu. Droga! Quem manda beber em demasia, disse mentalmente. Lavou-se e foi terminar de fazer o café.


Estavam os três comendo pipoca e vendo um filme, quando José Augusto trouxe a garrafa de tequila e os copos. Timidamente começaram a beber, instantes depois, a garrafa já estava com três dedos de tequila e o filme tinham o esquecido. José Augusto propôs um jogo.
— Que tal jogarmos estripe pôquer?
Maria José olhou para José Antônio e depois para o sobrinho. Surpreendeu-se com a ousadia de José Augusto, seu peito batia ansiosa, ousou imaginar como seria ver José Antônio... Passou a língua pelos lábios.
— Eu topo, disse com confiança.
 José Antônio intrigado com a proposta do jogo analisou rapidamente a situação. Um dos dois se interessava por ele. Seria Maria José? Desde que chegou ao ser apresentado, notou nos olhos castanhos um brilho explodindo que traduziu como paixão repentina. Quanto a José Augusto desde o primeiro dia percebeu nele o interesse mantido a uma distância não muito grande, se quisesse era só esticar a mão, no que, como notou José Antônio, retardava o gesto não sabia por quê. Por fim, disse meio tímido:
— Também topo.
José Augusto por sua vez vivia com a alma agitada, sem sossego, quase sempre no limite do desespero. E ao aceitar o convite de José Antônio nada mais fez do que alimentar a ansiedade ativa, levando-o a agir inesperadamente. José Antônio para ele era apenas uma pessoa, claro a princípio, viu certa resistência travada pela conversa surrealista, mas agora, ali numa brincadeira erótica, notou algo que poderia render sabe-se lá o que, pensou ao distribuir as cartas.


— Quanto tempo nós dormimos? Perguntou José Augusto parado a porta da cozinha só de cueca.
Maria José se assustou:
— Merda! Assustou-me!
— Desculpe, não tive a intenção, respondeu José Augusto levando a mão à cabeça. Credo! Que ressaca!
— Vai se vestir, caramba.
— Porra! Desculpe, disse José Augusto.
Saiu dando um giro de cento e oitenta graus. Pouco depois foi a vez de José Antônio aparecer.
— Bom dia, disse bocejando.
Vestia uma bermuda jeans e uma camisa branca, os cabelos castanhos claros desalinhados, os olhos acusava uma noite mal dormida.
— Onde está José Augusto? Perguntou passando a mão pelos cabelos.
— Não sei, foi se vestir. Apareceu aqui só de cueca, respondeu Maria José. Senta e tome café.
 José Antônio encheu a xícara de café com leite, cortou o pão, passou manteiga e se sentou. Maria José saboreava o corpo enxuto do amigo se movimentando pela cozinha numa desenvoltura descontraída. Quando o sobrinho falou que vinha acompanhado, não imaginou como ficaria perturbada com tal fato. O caso é que fazia tempo que não tinha uma relação afetiva e amorosa com ninguém e, ao ver José Antônio, viu-se descontrolada emotivamente. Sentiu toda a virilidade no aperto de mão firme e contagiante. Por sua vez, José Antônio percebeu que sua figura masculina afetava os sentimentos de Maria José. Ficou na retaguarda a espera de algum sinal, afinal era apenas convidado.
Sendo tímido, quase se podia dizer, extremo, sentia-se estranho por agir espontâneo, sem ter aquele sentimento de estar fazendo algo alheio ao seu desejo. E, também, por ter dormido com José Augusto, coisa que nunca passou por sua mente que aconteceria isso algum dia. Sem preocupação nenhuma, sentou à mesa para o café sem constrangimento puxando conversa com Maria José.
— Caramba! Bebemos demais ontem, me desculpe, devo ter passado para você má figura. Disse José Antônio.
— Até que horas ficaram jogando? Eu não aguentei, estava vendo que vomitaria se não saísse do quarto.
— Sinceramente não sei só me lembro de que seu sobrinho estava sem cueca e dançando no meio do quarto. Acho que depois apaguei.
— É a primeira vez que vem para cá?
— Sim, primeira vez.
— Espero que venha mais vezes.
— Tudo depende se eu for convidado...
— Por mim está convidado sempre, não precisa nem avisar. Respondeu Maria José sentando-se a sua frente.
Nisso José Augusto se joga na cadeira ao lado de José Antônio que pego de surpresa se afasta um pouco.
— O que foi?
— Nada, apenas me assustei não te esperava.
— Caramba! Só lembro o momento que você saiu do quarto e depois não me lembro de mais nada.
— Nem que dançou pelado? Perguntou José Antônio.
— Não lembro. Fiz isso?
— E o pior.
— Tem pior?
— Queria sair para rua...
— Está brincando! José Augusto envergonhado não acreditava, o amigo tirava sarro dele, pensou.
— Estou falando sério. Deu-me um trabalho segurar você no quarto. Teve um momento que me pegou desprevenido e abriu a porta da rua e, para te impedir, acabei derrubando a iluminaria. Não sei se quebrou.
Todos olharam para a iluminaria tombada perto da porta. Maria José ergueu o objeto.
— Não acredito, disse José Augusto rancoroso.
— Olha aqui.
José Antônio esticou o braço, havia um arranhão seguido de uma mancha vermelha.
— Isso foi de puxar você para dentro do quarto. Ainda bem que logo em seguida você desmaiou em cima de mim.
José Augusto corou, não sabia o que dizer. Por fim só conseguiu agradecer e se desculpar.
— Oh! Cara me desculpe, não sabia o que estava fazendo.
 — Eu sei, entendo, não sei como pude te segurar, estava bêbado também, só sei que riamos à beça. Você não escutou nada, Maria José?
— Não, eu apaguei assim que meu corpo se encostou ao colchão. Dormi atravessada na cama do jeito que eu estava. Fiquei toda dolorida.
José Antônio sentia-se bem entre os dois, apesar de não ser muito comunicativo, até que estava se saindo bem. E o fato de estar com ressaca não o deixava envergonhado e, muito menos, ao acordar abraçado ao amigo. Levantou-se foi ao banheiro, tomou banho, e viu que José Augusto não estava mais lá. Vestiu-se e no corredor cruzou com o amigo que voltava ao quarto, talvez, para se vestir, pois estava só de cueca. Na cozinha encontrou Maria José fazendo café. Estava com a cara própria de quem está com ressaca, riu mentalmente, porém se sobressaltou com a pergunta de Maria José.
— O que foi?
—Nada, observando seus movimentos pós embriagues.
— Faz favor, não repare isso não é sempre que acontece.
— Não estou criticando.
Maria José apesar da idade tinha seus encantos, não muito alta, cabelo castanho claro, mais para loiro, olhos penetrantes não parando num lugar só, corpo bem torneado de quem faz academia, mexia com José Antônio de uma maneira, inusitada, sensação de impotência por ser tia do seu amigo. Mas isso não queria dizer nada, crescia nele uma pontada de desejo que o excitava. Desviou os olhos.
Por sua vez Maria José notou que sua feminilidade perturbava o amigo do seu sobrinho. Não o provocava isto porque se sabia ser mulher que já passou dos seus momentos de conquistas. Não se desprezava por causa da sua idade, não era isso, tinha ainda pontos fortes em que os homens a fitavam com avidez, era apenas, talvez, paz interior em que não sentia mais a necessidade de se saciar femininamente.


 José Augusto parou na porta do quarto. Lentamente se aproximou dos dois. Quando estava perto é que o perceberam.
— José Augusto! – gritou Maria José rolando para o lado e se cobrindo.
José Antônio assustado arregalou os olhos e cobriu o sexo encabulado.
Com o olhar vazio, sem dizer nada, acariciou a face com suavidade o rosto e o beijou. José Antônio retribuiu sorvendo o desejo dos dois. Maria José sentiu a mão de José Antônio acariciando seu seio. A princípio, por causa, do sobrinho se retraiu, mas ao ver a mão deliciosa de José Antônio em sua pele, não se preocupou, deixou-se levar aproveitando o sabor de tudo aquilo.
José Augusto não olhava para a tia, se entregava completamente as caricias de outro homem. José Antônio ao ver o amigo entrando no quarto, no entanto, o que esperava fosse acontecer não aconteceu, para sua surpresa foi além do que imaginara. Assim sendo, sem se importar com a Maria José deixou-se levar nas caricias de José Augusto.
Em poucos instantes três corpos rolavam na cama sem pudor e sem acanhamento. Quando o dia amanheceu José Antônio acordou com o corpo colado ao corpo de José Augusto e Maria José estava na cozinha fazendo café.


— Bom dia.
— Bom dia.
— Tomei uma decisão.
— Qual?
— Vou embora essa tarde.
— Por quê?
— É melhor para nós três.
— Se você acha...
— Já conversei com José Augusto e ele concordou.
— Mas e vocês?
— O que temos nós?
— Bem... Não estão...
— Namorando?
— Sim.
— Não, somos apenas bons amigos e nada mais.
— Então é melhor mesmo.
— O que?
— Você ir.
— Também acho.


Seis meses depois Maria José estava grávida.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...