terça-feira, 31 de dezembro de 2024

antes de tudo

 

antes de tudo

quero lhe dizer

prove meu mundo

 

da minha boca

partiu um longo beijo

para a tua boca

sentir o meu desejo

 

antes de tudo

quero lhe dizer

provou meu mundo

jamais há de me esquecer

 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

apoteose

 

ao descobrirmos nossos sentimentos

quebramos a noção do tempo

no reflexo da água

criamos o momento

e como ondas

expandimos-nos no firmamento

domingo, 29 de dezembro de 2024

aqui hoje agora o instante

 

o que importa?

se sou poeira que o vento leva constantemente de um lado para o outro

entre todos os elementos, sou o grão compondo a areia

que o vento constrói as dunas de solidão

solidão obscena que corrompe as manhãs amortalhando as dores do passado

e mistificando as dores do presente

os insensatos gritos da ave rompe a esfera das palavras

o teu nome cristalizo na esperança perdida

a ecoar no deserto do meu futuro

sou o homem que ninguém sabe

caminhante sob o céu escaldante

e ácido sem principio e fim

sábado, 28 de dezembro de 2024

as coisas transitam

 

as coisas transitam no emaranhado sigilosa das palavras, lembrando nossa pequena existencia, dentro do sistema que é o marasmo da vida

 

as coisas são consistência única e meros objetos para servirem a caterva medrosa, ambiciosa e alucinada

 

e, simplesmente, cada uma tem sua função colocando o ser humano integrado a sua criação e ao sistema evolutivo denominado: natureza

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

as crianças mudas correm

  

as crianças mudas correm

entre o transito humano

da cidade financeira

cegas de fome e inexatas

tem suas rotas alteradas

pelo vicio tornando-as estúpidas

simples marionetes da dor

 

as crianças mudas pulam

como bombas humanas

saltam radioativas da miséria

perante a sociedade

que ignora sua existência

sobe a marquise

do medo e da repugnância

em vê-las morrendo ao relento

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

às vezes rasgo

  

às vezes rasgo a palavra ao infinito

 outras vezes é o infinito da palavra

  que escorre sonoramente na calçada

   denunciando meu caminhar tedioso,

    quando o vento carrega os pedaços

     

     mesmo assim não tenho que desistir

   continuarei até que não haja o infinito

  e estarei só no espaço único da minha

vida flanando na felicidade de só ser

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Até no silêncio da alma.

 Derrama a vida sua seqüência de atos impulsionando os atores a papéis aos quais foram destinados sem saberem o que vão representar.

 

Personagens que em seus afazeres diários, são pressionados a tomarem decisões importantes ou meras soluções, mas que, tanto uma como outra, ocasionarão mudanças em seus comportamentos.

 

O fio musical de uma flauta não soaria mais doce se não houvesse esses percalços dirigindo nossos passos na senda da vida.

 

Como a musica torna-se mais bela ao se misturar ao ronco do avião que passa sua metálica existência integrando-se num som só compondo assim esse único e belo momento.

 

Não sei, assim como há poesia em tudo, há também música, música no brilho do sol, no azul do céu, no concreto da cidade, nos carros, nas praças, nas ruas, no sorriso do menino de olhos redondos de fome, na pobreza física e mental, no amor, no desamor, na tristeza, em fim há música como há poesia em tudo, até no silêncio da alma.

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

bate outra vez a esperança

 

no coração de concreto

mesmo que o verão termine

em meu peito sofrido

há sempre um jardim

 

não me queixo

queixas não resolvem

sinto o perfume

da poesia escalando

vias ruas avenidas

praças afins

 

meus olhos tristonhos

sabe que um dia

vou te encontrar

e você vai sempre

se lembrar de mim

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

boa música

  

a boa música emerge em meio a suave chuva que nesse momento desaba sobre a Paulista, onde transeuntes caóticos de sua individualidade, num vai e vem surrealista, nada sabem sobre o gênio Mozart, o qual transcendendo toda e qualquer razão emotiva que consiga transmitir a universalidade musical com a universalidade que o ser humano possa conseguir.

domingo, 22 de dezembro de 2024

Cada partícula do vento

Cada partícula do vento

 

Osvaldo Pastorelli / Ly Sabas

 

 

Cada partícula do vento
que como gelo corta
representa um beijo

que a vida em meu rosto dá


Cada partícula do vento

que como beijo me toca

desperta volúvel desejo

ora acalma... ora provoca

 

Cada partícula do vento

que como vinho me aquece

recebo na pele em delírio

a doce e bela primavera

 

Cada partícula do vento

que como carinho me enternece

entra verão, sai outono, volta o inverno

e o encanto sempre reaparece.

sábado, 21 de dezembro de 2024

caminhei por longos caminhos

 


li diversas e chatas leituras

passei por perigosas experiências

vicie-me em drogas e venenos

procurando o tempo perdido

infelizmente não o encontrei

 

so tive dores de cabeça

e aborrecimentos

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

canto

 

 

não vou por onde devo ir

não vou por lugar nenhum

vou por todos lugares

sem destino

sem eira

sem beira

 

obedeço tão somente

meu caminho

meus desejos

 

piso em pregos

em pedras

em gramas

em lamas

 

vou por caminhos

estreitos ou largos

vou para purificar

o meu carma

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Ato 2

  

Ela foi embora, disse ao vê-la pela janela entrar no Uber preto. Repetiu: Ela foi embora, como se fosse um mantra com a finalidade em não se deixar desconfortável com o fato dela ter saído de casa. Foi embora, repetiu, foi ela que foi embora não ele, ela que rompeu com o relacionamento. Não se importou. Da janela viu ela entrar no Uber sem olhar para cima. Mesmo depois de o carro ter dobrado a esquina, ficou por um bom tempo olhando a rua, talvez, na esperança de que ela voltasse, mas nada aconteceu. A rua continuou deserta como sempre fora. Reconheceu-se no silencio do corpo e se jogou no sofá a suas costas. Caiu sentado como fardo que é jogado a esmo em qualquer canto. Sozinho, estava sozinho como vinha desejando a muito tempo e só não o fazia por achar tal procedimento difícil e, no entanto, ali sentado olhando para as paredes, se espantou como fora fácil. Uma onda de felicidade o invadiu. Quis gritar, dançar, pular, mostrar o quanto estava satisfeito, mas, subitamente achou-se tolo. Porque? Estava sozinho, posso fazer o que eu quero, disse quase gritando. Posso dormir a hora que eu quero. Posso acordar a hora que eu quero. Posso tomar banho com a porta do banheiro aberta.

Posso mijar despreocupadamente. Posso andar nu. Posso tomar cerveja estupidamente gelada. E principalmente Posso ouvir música o tempo que eu quiser

Posso estar sendo maldoso? Não, não estava não, estava sendo realista, sendo ele mesmo. A primeira providencia que pôs em pratica foi encher a geladeira de cerveja, em seguida ligou o som no último volume. Ergueu os ombros, ficou ereto, a cabeça erguida, deu umas passadas de um lado para o outro da sala todo orgulhoso, não pelo fato dela ter ido embora, mas pelo fato que agora era ele com ele mesmo. Feliz abriu a lata de cerveja e sentou-se no sofá. As coisas agora vão se deslanchar, vou progredir, vou ser mais ativo, por que não? Sorriu confiante.

No entanto, um mês, dois meses, quatro meses depois, cairá num rotina frustrante como tinha sido a anterior. Continuava na mesma vidinha, apenas com a diferença que estava sozinho como sempre desejou estar.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

carinhoso

 

meu coração

como a brisa

amorosamente

beija teu corpo nu

 

não sei porque

bate feliz

ao sentir

o sal em tua

pele amorenada

 

sorrindo

meu olhar

beija teus pés

onde pisam

 

sequiosos

meus lábios

tua beleza

admiram

 

como a brisa

beija teu corpo

delicadamente

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

clímax

  

doce e sutilmente

teu corpo se inclina

sobre o meu

 

extasiados bebemos

o liquido do prazer

fecundando o momento

na plenitude da água

banhamo-nos

de intenso prazer

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Como verdadeiramente eu sou

  

Tendo lido, não sei onde, se revista, ou jornal, um texto em que, a palavra puteiro aparece várias vezes. Achei que deveria escrever algo relacionado com essa palavra. Puteiro: de puta + eiro, chulo, prostíbulo, reunião de putas que estão ali tão somente a putear, isto é, estão descompondo-se em gestos obscenos, ofensivos, o seu modo de vida.

Assim do nada a palavra aparecia aos meus olhos como algo extravagante, ofendendo meus olhos, determinando a palavra puteiro, como um termo forte. Decidi então, escrever um texto que começasse com essa palavra.  Mas não consegui porque notei que coisas estranhas pairavam sobre a palavra, arrastando meus passos para o lado lúgubre da cidade.

E seguindo as sombras, conclui que seria seduzido por pensamentos frágeis que se debatiam numa desorganização que me assustava.

Fiquei firme em meus intentos, enquanto finas teias se entrelaçava à intricada  organização das reflexões, que, ligeiramente emaranhadas por causa da ética moral burguesa, escarravam em ritmos arreganhados de beijos alucinantes destruindo, assim, o preconceito preso por paredes moralistas.

Reconheci-me como bravo guerreiro lutando afoitamente no intuito de ganhar e manter o resquício de felicidade que ainda poderia ter.

Joguei-me contra tudo e contra todos, sem perceber a ferida maculando a área limpa que em mim ainda havia.

Poderia me entregar ao suicídio maldizendo aos quatro ventos a chance perdida, e deixar o olhar da alma sem enxergar como verdadeiramente eu sou.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Compreensão e felicidade

  

Lá vamos nós para mais uma sexta feira. Mais um final de semana que, como todos os finais de semana, promete. Às vezes esse promete acontece, outras não. Às vezes vem em forma de problema, ou de chateação que não sabemos filtrar e assim tirar a substância positiva. E quando esse promete surge dessa maneira, um restolho dele fica no subconsciente que dificilmente será esquecido. Passam anos e anos, ele está lá, cutucando, nos lembrando do que fizemos. Quando isso acontece com certa freqüência, cria-se uma paranóia que arruinará o indivíduo por toda a vida, sem que ele saiba o que realmente está se passando com ele. Só vai ter noção do que vem fazendo ou do que fez depois que estiver afundado na lama, no fundo do poço onde a saída é tragicamente maligna. Ou por algum fenômeno ou conforme o problema cai-se num labirinto que nem a psiquiatria conseguirá livrar o indivíduo. Por isso, tenho uma teoria: nada me aflige nada mais me leva ao desespero de querer arrebentar o mundo com um tremendo murro. Não vale a pena, o mundo não vai arrebentar com o meu frágil murro mesmo, o que vou conseguir é um tremendo machucado tendo que medicar a mão para não perdê-la. Portanto, meus amigos, tenham um bom fim de semana, com muito sol, muito sorriso na alma e na face do coração e abra a porta para a compreensão e felicidade.

sábado, 14 de dezembro de 2024

Concretiza-se mais uma vez

  

Luminosos cintilam palavras inofensivas diante de olhos estupefatos de álcool.

 

No sobe e desce dos passos incertos, sem saberem do destino, o vento açoita rumores na alma excitados pelo ardor da noite.

 

Ruge monstros metálicos assustando feras desprevenidas de opções, escondidas nos shopping desta selva consumista.

 

Entrosados deuses financeiros, bocejam tédios devoradores engolindo a fraqueza faminta de poderes.

 

Choram estrelas falsas no céu televiso e nas folhas penduradas estrategicamente pela cinzenta e metálica selva.

 

Grita a leoa seu mecanismo de imposição aos sedentos de, por instantes, aparecerem uns aos outros.

 

Grupos aqui e ali, tagarelam estultice projetando a existência de cada um.

 

Concretiza assim, mais uma sexta-feira perdida nas brumas da aventura não realizada.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

concreto 01

 concreto 01

 

o barco no azul da imensidão

navega no azul mar

formando filete azul de ar

quebrando meu azul solidão

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

concreto 2

  

verde

    de ver

          vejo

verde

      de ver

            verde

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

confidências

  

confidências escritas nos ramos finos e frágeis da árvore-vida correm o risco de serem quebradas e, ou o vento a carrega, ou no chão se integram ao húmus do planeta dando assim, vida a outros elementos

 

confidências aos ouvidos prontos a escutarem o que lhe é dito numa lascívia umidade de águas límpidas e refrescantes

 

palavras escritas como suave grito que da alma soa em alaridos mudos onde apenas ao interessado as entenda

 

ondas que partem do meio do lago em círculos iguais e se desmancham na margem molhando os olhos da mata que o circunda

 

os olhos do confesso brilham em direção ao confidente e os dois juntos partilham dos mistérios que só a eles interessam lábios em lábios fechados

 

sussurros entrecortados por exclamações oscilam como donos absolutos da verdade - confidências são para mudos falantes e não para bocas surdas

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Correm vozes entrecortadas

 Correm vozes entrecortadas por humanos mecânicos despejando poluentes venenosos na carcaça metálica da cidade.


Olhos passeiam por enferrujadas calçadas em trôpegos passos de delinqüente vivendo a mendicância amorosa.


Braços criam evoluções inexpressivas no emaranhado carinhoso de mãos acariciando corpos preenchidos de ausência solidária.


Circulam expressões magnetizadas de frieza sanguinolenta ricocheteando no muro impenetrável de calor carnal.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Criatividade

  

Os sons deságuam no ambiente levando de roldão qualquer tipo de sentimento sem piedade e sem rancor.

O ambiente no meio dia dessa segunda feira deixa transparecer uma meia quietude humana ausente regozijando-se em alimentar o corpo faminto.

Segunda feira onde as sombras projetadas nos prédios criam enigmáticas figuras estranhas e atrativas.

Sombras que, em obediência ao astro rei, deslizam no sentido único até que algo ou algum motivo se interponha ao sol apagando assim, as abstratas figuras.

E ao escurecer, meus dedos descansam ao lado do teclado, retraindo, por instantes, a criatividade.

domingo, 8 de dezembro de 2024

da janela vejo o mundo em movimento

 


vejo transeuntes com seus sofrimentos

vejo crianças maltrapilhas ao desalento

vejo mendigos ao relento

vejo a vida em evolução

da cidade doida alucinada

que não sabe dos seus filhos adoidados

 

ao longe o sol ilumina

a vida cinza de concreto

irisa a paisagem

num amplo risco

de luz amarelada

 

fecho a janela

desligo a televisão

sábado, 7 de dezembro de 2024

de noite e de dia

  

vou de rua em rua

de esquina em esquina

nos olhares que me espiam

nos copos dos bares

onde as almas se esvaziam

procurando você, meu amor

que sei realmente

hei de encontrar

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Decisão.

  

Esticou os braços. Espalmou o ar frio da noite. Ao mesmo tempo, lágrimas corriam pela face macilenta bem no momento em que o violino lançou  no ambiente, uma doce e prolongada nota de tristeza. Uma nota meio que amórfica e, no entanto, constatou que não estava triste. Constatou arrepiado que estava apenas um pouco chateado, quer dizer, achava que estivesse um pouco chateado. Colocou o livro sobre a mesinha improvisada e inclinou a cabeça para trás apoiando-a no travesseiro alto. Seu olhar dançou pelas paredes da sala e se viu impregnado nos quadros e desenhos organicamente pendurado revelando sua poética existência. Fechou os olhos. Tentou dormir. E quando amanheceu acordou dentro da realidade dos seus sonhos para serem ainda realizados. Sorriu como alguém que encontra um novo amor. Decidiu viver mesmo que os sonhos nunca sejam realizados.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

dedicatória

  

dedico este livro a falsa glória que se tornou essa trajetória onde o desprezo se declara nas linhas em branco jogadas no lixo da nossa história

 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Ato 1

  

“Tenho que te contar algo”.

Me disse um dia que não lembro qual foi. Numa voz calma, firme, ela me disse:” Tenho que te contar algo”, e tudo continuou na mesma. Nada mudou. Não estranhei, quer dizer, não havia o que estranhar se o que estava acontecendo era porque eu precisava saber. Um sentimento bateu fundo me obrigando a criar um alerta. Esse “tenho que te contar algo” não era costume dela. Quando tinha que falar ela falava na cara de quem fosse, não media as palavras, portanto esse “tenho que te contar algo” soou estranho, fez com que eu ficasse com um pé atrás. O que seria? Sem me importar aparentemente, continuei fazendo o que estava fazendo. Talvez, estivesse tomando café, não sei. Minutos depois disse:

“Conheci uma pessoa”.

Continuei tomando café silenciosamente.

“Me apaixonei por ela”.

Sem proferir uma palavra continuei com o meu café, se era café que eu estava tomando, não sei.

“Portanto não tenho motivo para ficar aqui, vou embora”.

Minha mão tremeu ligeiramente. Continuei calado.

“Não vai dizer nada?”

“Não vou, disse para ela, para que se já foi tudo resolvido sem me consultar. Decidiu trocar-me por outro não tenho o direito de interferir, não é mesmo? Tchau e bença seja feliz”.

Decepcionada com a minha calma, saiu da cozinha batendo os pés no ladrilho. Acabei de tomar café, se era o que estava fazendo mesmo, pois não lembro. Por que isso? Conheceu um cara melhor que eu? Transa melhor? Tem um pau maior que... para!! Para de pensar bobeira, cara. Aconteceu, aconteceu ora bolas. Instantes depois ela aparece com uma pequena mala e um mochila nas costas.

“O que você achar o que for meu, me avisa que mando alguém buscar.”

Saiu batendo a porta, nem disse passe bem, seja feliz, saiu e pronto. “O que for meu...”. Seu uma merda, não tem nada aqui seu. Não tem direito nenhum, tudo o que tem aqui é meu. Assim ela saiu da minha vida para nunca mais voltar.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

deixei no teu sangue

 

a prata do meu coração

deixei no teu sangue

o ouro da minha paixão

 

levei comigo o rastro

dos teus passos

levei comigo as carícias

dos teus abraços

 

no rosto guardei

o beijo do teu fel

 

rasguei as cartas

joguei-as no rio

da desilusão

tornei intimo

da louca

e insana

devassidão

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Demorar só o necessário.

  

Correu um risco no ar.

Brilhou cristalino olhar que luziu extinguindo no sentimento fechado. Cruzou os dedos imaginativos sobre as lembranças. Cotovelo apoiado no balcão sujo do bar deixou os nervos corroerem a carne rígida para depois pousarem lânguida na vontade de permanecer um pouco mais.

Permaneceria sim. Sabia que permaneceria.

O combinado foi de demorarem só o necessário.

Assim, arrastou a vontade para dentro e pediu outra cerveja.

E inesperadamente correu o risco pelo balcão pousado entre a distancia que o separavam.

Olhou, claro não deixou de olhar, o fluido magnético se interpôs ao ver que era correspondido.

O combinado foi de só demorarem o necessário.

E o necessário findava em mágoa escorrendo no tempo esgotado.

Não é sua culpa, pensou meio que desgostoso, não claro que não, já estava a espera um longo tempo.

Portanto, não era culpa sua se seu olhar bateu de frente na musculatura do desejo que aflorava.

Numa lentidão preparada, mas disfarçada para que não parecesse ansioso, levou o copo à boca e bebeu um bom gole de cerveja.

O coração sorriu afugentando o desespero da espera frustrada.

Aproximou-se encurtando a distância que para ele, parecia grande.

Encurtou, fizera o certo.

Enroscou-se na sensação garantida.

Pensou: o combinado foi de só demorarem o necessário.

Portanto não sentia remorso ao sair do bar acompanhado.

domingo, 1 de dezembro de 2024

Dissolução de um sentimento ferido

  

Rosymary estava cansada depois de seis longas horas aprisionada dentro do ônibus. Seus olhos, de um preto mais para claro, ardiam devido à noite insone e às luzes que passavam velozes na monótona paisagem escura. Consultou o relógio pela milionésima vez e constatou surpresa que dali a cinco minutos estaria na rodoviária. Por isso, jogou o cansaço todo na poltrona fechando os olhos. Ao descer do ônibus sua mente abrangeu rostos apressados e nervosos. Caminhou segura, com passos marcantes bem femininos, por entre a multidão até o local que sempre combinava esperar por Lucas. E nesse simples deslocar, via os longos minutos de sua vida escoar-se como água caindo do chuveiro.  Impaciente tentou o celular novamente pela quarta vez, mas nada, caixa postal. “Que droga”, gritou em pensamento. Onde ele estaria? Teria recebido o seu torpedo? Não entendia o porquê de deixar o celular desligado. Não queria falar com ela? Já teria ele decidido tal coisa? Impossível! Assim mesmo, tentou ainda mais umas duas vezes. Caixa postal. Contendo a raiva que roía seus sentimentos, procurou a mesa do encontro com os olhos marejados pela saudade aflita e jogou-se na cadeira, num modo desleixado que não era de seu feitio.

Acendeu um cigarro, deu duas tragadas rápidas e apagou no cinzeiro. Apoiou os cotovelos na mesa e afundou o rosto nas mãos. Estava muito cansada, seu raciocínio tornava-se lento. Mesmo depois das férias forçadas que se haviam dado, reconhecia que Lucas não estava nem um pouco preocupado em mudar nada. A última conversa que tiveram fora desgastante, muitas coisas foram ditas, mas nem todas as verdades de seus sentimentos. Essas Rosymary sabia, jamais seriam ditas ou esbravejadas, pelo menos não do jeito que ela fazia em sonhos. Neles era capaz de chamá-lo de cafajeste e outras baixarias. E mandava às favas sua formação rígida, que a forçava a ser educada mesmo em situações críticas como a que estavam vivendo.

O movimento da rodoviária em véspera de feriado começou a afetar sua segurança e resolveu beber algo para relaxar. Enquanto bebia tentou falar com Lucas mais algumas vezes e acabou chegando à conclusão que teria que pedir muitos outros “algos”. Diante dessa horrível perspectiva, forçou o pensamento para fora de si. Escorregou o olhar em volta caindo novamente no meio da agitação em que vinha se desorganizando por causa dele. Dele! Porque se preocupar com Lucas e como ele permitira que ela ficasse assim, melindrosamente em perigo? Ela também tinha uma parte de culpa no processo.  Frustrada, catou as preocupações colocando uma a uma em sua caixa de desafetos, organizando-as para depois, no sossego do ódio apaziguado, conforme fosse apropriado resolvê-las de uma vez só.

Tinha consciência de que talvez jamais acontecesse isso. Há anos, tantos que já nem sabia quantos, vinha acumulando-os, bem trancafiados, até que se tornavam ridículos diante de seu raciocínio lógico e saíam da caixa por si só. Agiam como seres vivos e independentes que saem de nossas vidas sem ao menos dizerem: “Cansei, fui!” Sabia que sem ajuda não resolveria o caos em que se transformara sua vida sentimental. Mas tinha orgulho e vergonha demais para isso. Como reconhecer, mesmo que para um terapeuta, um estranho, ser uma profissional segura e bem sucedida que não conseguia gerir sua vida pessoal? Que não tinha coragem para pensar, quanto mais falar: “Eu fracassei”?! Para ser sincera, ainda não considerava que houvesse fracassado totalmente. O erro não fora tão somente dela, Lucas também tinha a sua cota e ainda não haviam colocado um ponto final na relação, por mais conturbada que estivesse.

Olhou o relógio, pegou o celular, tentaria a ultima vez. Não melhor, não. Já não sabia se queria falar com ele. Não naquele momento em que estava tão confusa.  Resolveu ir embora, mas antes de qualquer movimento, o aparelho começou a tocar. Era Lucas. Melhor não atender, não queria atender, não deveria, sabia disso, mas sem notar já estava falando. De imediato não ouviu o que ele dizia, seu coração pulsava forte, doendo no peito. Forçou a mente a abrir e ouvir o que ele tinha para lhe dizer. Que cara-de-pau, além de dizer que não poderia ir buscá-la, depois de mais de uma hora esperando por ele, ainda diz que está com Alfredo que, cheio de problemas, precisava de companhia e conselhos de um amigo. Como sempre apelava vergonhosamente, já que sabia que ela dava valor a esse tipo de situação. Depois de algumas desculpas do tipo “você sabe que eu não faria isso à-toa” acabou sendo envolvida pela emoção e aceitando o convite para almoçar na casa dele. Ao mesmo tempo em que aceitou, sentiu-se encabulada por não haver recusado. Agora ficaria com aquela sensação desagradável, torcendo para que alguma coisa acontecesse impedindo-a de ir.

Terminou a bebida, pagou e caminhou até o ponto de táxi. Não gostou da cara do motorista, teria preferido ir no carro seguinte, mas era obrigada a seguir a ordem dos carros. Acomodou-se no banco dando o endereço de casa. Precisava tomar um banho depois de passar a noite toda no ônibus e parte da manhã sentada na rodoviária. Melhor nem se lembrar desses detalhes. Embora tivesse aceitado o convite e fingido desculpar Lucas, qualquer motivo serviria de estopim para a bomba em que haviam se transformado suas frustrações. Examinou a cara do motorista pelo espelho e descobriu o porquê de seu desconforto. Ele lembrava outro caso antigo. Por alguns minutos fantasiou que parava o carro, pedia satisfações e depois implorava para reatar Ela então gritava todos os impropérios que estavam amordaçados em sua caixa. Levou um susto quando o carro realmente parou diante do prédio.

Rosymary subiu a pequena escada estreita quase arrastando a mala e praguejando mentalmente. Abriu a porta do apartamento, jogou a bolsa no sofá, chutou a mala com raiva até o quarto, despiu-se enquanto ouvia os recados na secretária eletrônica e abriu a torneira do chuveiro. Testou a temperatura com o pé e depois em movimentos lânguidos deixou a água molhar o pensamento físico relaxando os nervos. Aproveitou a tranqüilidade a envolver sua pele interior examinando a silhueta no espelho grande atrás da porta. Aos poucos sua figura foi sumindo devido ao vapor da água quente. Sorriu meio forçado, sem vontade até. Não porque achou engraçado, mas por ver-se sumindo junto com o reflexo, diluindo-se dentro do vapor.

Segundos depois não havia mais nada dela; apenas a água caindo do chuveiro e escorrendo pelo ralo, e o sabonete abandonado no chão do Box.

 

 

Ly Sabas / Pastorelli

 

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...