antes de tudo
quero lhe dizer
prove meu mundo
da minha boca
partiu um longo beijo
para a tua boca
sentir o meu desejo
antes de tudo
quero lhe dizer
provou meu mundo
jamais há de me esquecer
antes de tudo
quero lhe dizer
prove meu mundo
da minha boca
partiu um longo beijo
para a tua boca
sentir o meu desejo
antes de tudo
quero lhe dizer
provou meu mundo
jamais há de me esquecer
ao descobrirmos nossos sentimentos
quebramos a noção do tempo
no reflexo da água
criamos o momento
e como ondas
expandimos-nos no firmamento
o que importa?
se sou poeira que o vento leva constantemente de um lado
para o outro
entre todos os
elementos, sou o grão compondo a areia
que o vento
constrói as dunas de solidão
solidão obscena
que corrompe as manhãs amortalhando as dores do passado
e mistificando
as dores do presente
os insensatos
gritos da ave rompe a esfera das palavras
o teu nome
cristalizo na esperança perdida
a ecoar no
deserto do meu futuro
sou o homem que
ninguém sabe
caminhante sob
o céu escaldante
e ácido sem
principio e fim
as coisas transitam no emaranhado
sigilosa das palavras, lembrando nossa pequena existencia, dentro do sistema
que é o marasmo da vida
as coisas são consistência única
e meros objetos para servirem a caterva medrosa, ambiciosa e alucinada
e, simplesmente, cada uma tem sua
função colocando o ser humano integrado a sua criação e ao sistema evolutivo
denominado: natureza
as crianças mudas correm
entre o transito humano
da cidade financeira
cegas de fome e inexatas
tem suas rotas alteradas
pelo vicio tornando-as estúpidas
simples marionetes da dor
as crianças mudas pulam
como bombas humanas
saltam radioativas da miséria
perante a sociedade
que ignora sua existência
sobe a marquise
do medo e da repugnância
em vê-las morrendo ao relento
às vezes rasgo a palavra ao infinito
outras vezes
é o infinito da palavra
que escorre
sonoramente na calçada
denunciando meu caminhar tedioso,
quando o vento carrega os pedaços
mesmo
assim não tenho que desistir
continuarei até que não haja o infinito
e estarei
só no espaço único da minha
vida flanando na felicidade de só ser
Derrama a vida sua seqüência de atos impulsionando os atores a papéis aos quais foram destinados sem saberem o que vão representar.
Personagens que em seus afazeres
diários, são pressionados a tomarem decisões importantes ou meras soluções, mas
que, tanto uma como outra, ocasionarão mudanças em seus comportamentos.
O fio musical de uma flauta não
soaria mais doce se não houvesse esses percalços dirigindo nossos passos na
senda da vida.
Como a musica torna-se mais bela
ao se misturar ao ronco do avião que passa sua metálica existência
integrando-se num som só compondo assim esse único e belo momento.
Não sei, assim como há poesia em
tudo, há também música, música no brilho do sol, no azul do céu, no concreto da
cidade, nos carros, nas praças, nas ruas, no sorriso do menino de olhos
redondos de fome, na pobreza física e mental, no amor, no desamor, na tristeza,
em fim há música como há poesia em tudo, até no silêncio da alma.
no coração de concreto
mesmo que o verão termine
em meu peito sofrido
há sempre um jardim
não me queixo
queixas não resolvem
sinto o perfume
da poesia escalando
vias ruas avenidas
praças afins
meus olhos tristonhos
sabe que um dia
vou te encontrar
e você vai sempre
se lembrar de mim
a boa música emerge em meio a
suave chuva que nesse momento desaba sobre a Paulista, onde transeuntes
caóticos de sua individualidade, num vai e vem surrealista, nada sabem sobre o
gênio Mozart, o qual transcendendo toda e qualquer razão emotiva que consiga
transmitir a universalidade musical com a universalidade que o ser humano possa
conseguir.
Cada partícula do vento
Osvaldo Pastorelli / Ly Sabas
Cada partícula do vento
que como gelo corta
representa um beijo
que a vida em meu rosto
dá
Cada
partícula do vento
que como
beijo me toca
desperta volúvel
desejo
ora
acalma... ora provoca
Cada partícula do vento
que como vinho me
aquece
recebo na pele em
delírio
a doce e bela primavera
Cada
partícula do vento
que como
carinho me enternece
entra verão,
sai outono, volta o inverno
e o encanto
sempre reaparece.
li diversas e chatas leituras
passei por perigosas experiências
vicie-me em drogas e venenos
procurando o tempo perdido
infelizmente não o encontrei
so tive dores de cabeça
e aborrecimentos
não vou por onde devo ir
não vou por lugar nenhum
vou por todos lugares
sem destino
sem eira
sem beira
obedeço tão somente
meu caminho
meus desejos
piso em pregos
em pedras
em gramas
em lamas
vou por caminhos
estreitos ou largos
vou para purificar
o meu carma
Ela foi embora, disse ao vê-la pela
janela entrar no Uber preto. Repetiu: Ela foi embora, como se fosse um mantra
com a finalidade em não se deixar desconfortável com o fato dela ter saído de
casa. Foi embora, repetiu, foi ela que foi embora não ele, ela que rompeu com o
relacionamento. Não se importou. Da janela viu ela entrar no Uber sem olhar
para cima. Mesmo depois de o carro ter dobrado a esquina, ficou por um bom
tempo olhando a rua, talvez, na esperança de que ela voltasse, mas nada
aconteceu. A rua continuou deserta como sempre fora. Reconheceu-se no silencio
do corpo e se jogou no sofá a suas costas. Caiu sentado como fardo que é jogado
a esmo em qualquer canto. Sozinho, estava sozinho como vinha desejando a muito
tempo e só não o fazia por achar tal procedimento difícil e, no entanto, ali
sentado olhando para as paredes, se espantou como fora fácil. Uma onda de
felicidade o invadiu. Quis gritar, dançar, pular, mostrar o quanto estava
satisfeito, mas, subitamente achou-se tolo. Porque? Estava sozinho, posso fazer
o que eu quero, disse quase gritando. Posso dormir a hora que eu quero. Posso
acordar a hora que eu quero. Posso tomar banho com a porta do banheiro aberta.
Posso mijar despreocupadamente. Posso
andar nu. Posso tomar cerveja estupidamente gelada. E principalmente Posso ouvir
música o tempo que eu quiser
Posso estar sendo maldoso? Não, não
estava não, estava sendo realista, sendo ele mesmo. A primeira providencia que
pôs em pratica foi encher a geladeira de cerveja, em seguida ligou o som no
último volume. Ergueu os ombros, ficou ereto, a cabeça erguida, deu umas
passadas de um lado para o outro da sala todo orgulhoso, não pelo fato dela ter
ido embora, mas pelo fato que agora era ele com ele mesmo. Feliz abriu a lata
de cerveja e sentou-se no sofá. As coisas agora vão se deslanchar, vou progredir,
vou ser mais ativo, por que não? Sorriu confiante.
No entanto, um mês, dois meses, quatro
meses depois, cairá num rotina frustrante como tinha sido a anterior.
Continuava na mesma vidinha, apenas com a diferença que estava sozinho como
sempre desejou estar.
meu coração
como a brisa
amorosamente
beija teu corpo nu
não sei porque
bate feliz
ao sentir
o sal em tua
pele amorenada
sorrindo
meu olhar
beija teus pés
onde pisam
sequiosos
meus lábios
tua beleza
admiram
como a brisa
beija teu corpo
delicadamente
doce e sutilmente
teu corpo se inclina
sobre o meu
extasiados bebemos
o liquido do prazer
fecundando o momento
na plenitude da água
banhamo-nos
de intenso prazer
Tendo lido, não sei onde, se
revista, ou jornal, um texto em que, a palavra puteiro aparece várias vezes.
Achei que deveria escrever algo relacionado com essa palavra. Puteiro: de puta
+ eiro, chulo, prostíbulo, reunião de putas que estão ali tão somente a putear,
isto é, estão descompondo-se em gestos obscenos, ofensivos, o seu modo de vida.
Assim do nada a palavra aparecia
aos meus olhos como algo extravagante, ofendendo meus olhos, determinando a
palavra puteiro, como um termo forte. Decidi então, escrever um texto que
começasse com essa palavra. Mas não consegui
porque notei que coisas estranhas pairavam sobre a palavra, arrastando meus
passos para o lado lúgubre da cidade.
E seguindo as sombras, conclui
que seria seduzido por pensamentos frágeis que se debatiam numa desorganização
que me assustava.
Fiquei firme em meus intentos,
enquanto finas teias se entrelaçava à intricada
organização das reflexões, que, ligeiramente emaranhadas por causa da
ética moral burguesa, escarravam em ritmos arreganhados de beijos alucinantes
destruindo, assim, o preconceito preso por paredes moralistas.
Reconheci-me como bravo guerreiro
lutando afoitamente no intuito de ganhar e manter o resquício de felicidade que
ainda poderia ter.
Joguei-me contra tudo e contra
todos, sem perceber a ferida maculando a área limpa que em mim ainda havia.
Poderia me entregar ao suicídio
maldizendo aos quatro ventos a chance perdida, e deixar o olhar da alma sem
enxergar como verdadeiramente eu sou.
Lá vamos nós para mais uma sexta feira. Mais um final
de semana que, como todos os finais de semana, promete. Às vezes esse promete
acontece, outras não. Às vezes vem em forma de problema, ou de chateação que
não sabemos filtrar e assim tirar a substância positiva. E quando esse promete
surge dessa maneira, um restolho dele fica no subconsciente que dificilmente será
esquecido. Passam anos e anos, ele está lá, cutucando, nos lembrando do que
fizemos. Quando isso acontece com certa freqüência, cria-se uma paranóia que
arruinará o indivíduo por toda a vida, sem que ele saiba o que realmente está
se passando com ele. Só vai ter noção do que vem fazendo ou do que fez depois
que estiver afundado na lama, no fundo do poço onde a saída é tragicamente
maligna. Ou por algum fenômeno ou conforme o problema cai-se num labirinto que
nem a psiquiatria conseguirá livrar o indivíduo. Por isso, tenho uma teoria:
nada me aflige nada mais me leva ao desespero de querer arrebentar o mundo com
um tremendo murro. Não vale a pena, o mundo não vai arrebentar com o meu frágil
murro mesmo, o que vou conseguir é um tremendo machucado tendo que medicar a
mão para não perdê-la. Portanto, meus amigos, tenham um bom fim de semana, com
muito sol, muito sorriso na alma e na face do coração e abra a porta para a
compreensão e felicidade.
Luminosos cintilam palavras
inofensivas diante de olhos estupefatos de álcool.
No sobe e desce dos passos
incertos, sem saberem do destino, o vento açoita rumores na alma excitados pelo
ardor da noite.
Ruge monstros metálicos
assustando feras desprevenidas de opções, escondidas nos shopping desta selva
consumista.
Entrosados deuses financeiros,
bocejam tédios devoradores engolindo a fraqueza faminta de poderes.
Choram estrelas falsas no céu
televiso e nas folhas penduradas estrategicamente pela cinzenta e metálica
selva.
Grita a leoa seu mecanismo de
imposição aos sedentos de, por instantes, aparecerem uns aos outros.
Grupos aqui e ali, tagarelam estultice
projetando a existência de cada um.
Concretiza assim, mais uma
sexta-feira perdida nas brumas da aventura não realizada.
concreto 01
o barco no azul da imensidão
navega no azul mar
formando filete azul de ar
quebrando meu azul solidão
confidências escritas nos ramos
finos e frágeis da árvore-vida correm o risco de serem quebradas e, ou o vento
a carrega, ou no chão se integram ao húmus do planeta dando assim, vida a
outros elementos
confidências aos ouvidos prontos
a escutarem o que lhe é dito numa lascívia umidade de águas límpidas e refrescantes
palavras escritas como suave
grito que da alma soa em alaridos mudos onde apenas ao interessado as entenda
ondas que partem do meio do lago
em círculos iguais e se desmancham na margem molhando os olhos da mata que o
circunda
os olhos do confesso brilham em
direção ao confidente e os dois juntos partilham dos mistérios que só a eles
interessam lábios em lábios fechados
sussurros entrecortados por
exclamações oscilam como donos absolutos da verdade - confidências são para mudos
falantes e não para bocas surdas
Correm vozes entrecortadas por humanos mecânicos despejando poluentes venenosos na carcaça metálica da cidade.
Olhos passeiam por enferrujadas calçadas em trôpegos passos de delinqüente
vivendo a mendicância amorosa.
Braços criam evoluções inexpressivas no emaranhado carinhoso de mãos
acariciando corpos preenchidos de ausência solidária.
Circulam expressões magnetizadas de frieza sanguinolenta ricocheteando no muro
impenetrável de calor carnal.
Os sons deságuam no ambiente
levando de roldão qualquer tipo de sentimento sem piedade e sem rancor.
O ambiente no meio dia dessa
segunda feira deixa transparecer uma meia quietude humana ausente
regozijando-se em alimentar o corpo faminto.
Segunda feira onde as sombras
projetadas nos prédios criam enigmáticas figuras estranhas e atrativas.
Sombras que, em obediência ao
astro rei, deslizam no sentido único até que algo ou algum motivo se interponha
ao sol apagando assim, as abstratas figuras.
E ao escurecer, meus dedos
descansam ao lado do teclado, retraindo, por instantes, a criatividade.
vejo transeuntes com seus
sofrimentos
vejo crianças maltrapilhas ao
desalento
vejo mendigos ao relento
vejo a vida em evolução
da cidade doida alucinada
que não sabe dos seus filhos
adoidados
ao longe o sol ilumina
a vida cinza de concreto
irisa a paisagem
num amplo risco
de luz amarelada
fecho a janela
desligo a televisão
vou de rua em rua
de esquina em esquina
nos olhares que me espiam
nos copos dos bares
onde as almas se esvaziam
procurando você, meu amor
que sei realmente
hei de encontrar
Esticou os braços. Espalmou o ar
frio da noite. Ao mesmo tempo, lágrimas corriam pela face macilenta bem no
momento em que o violino lançou no
ambiente, uma doce e prolongada nota de tristeza. Uma nota meio que amórfica e,
no entanto, constatou que não estava triste. Constatou arrepiado que estava
apenas um pouco chateado, quer dizer, achava que estivesse um pouco chateado.
Colocou o livro sobre a mesinha improvisada e inclinou a cabeça para trás
apoiando-a no travesseiro alto. Seu olhar dançou pelas paredes da sala e se viu
impregnado nos quadros e desenhos organicamente pendurado revelando sua poética
existência. Fechou os olhos. Tentou dormir. E quando amanheceu acordou dentro
da realidade dos seus sonhos para serem ainda realizados. Sorriu como alguém
que encontra um novo amor. Decidiu viver mesmo que os sonhos nunca sejam
realizados.
dedico este livro a falsa glória que se tornou essa trajetória onde o desprezo se declara nas linhas em branco jogadas no lixo da nossa história
“Tenho que te
contar algo”.
Me disse um dia
que não lembro qual foi. Numa voz calma, firme, ela me disse:” Tenho que te
contar algo”, e tudo continuou na mesma. Nada mudou. Não estranhei, quer dizer,
não havia o que estranhar se o que estava acontecendo era porque eu precisava
saber. Um sentimento bateu fundo me obrigando a criar um alerta. Esse “tenho
que te contar algo” não era costume dela. Quando tinha que falar ela falava na
cara de quem fosse, não media as palavras, portanto esse “tenho que te contar
algo” soou estranho, fez com que eu ficasse com um pé atrás. O que seria? Sem
me importar aparentemente, continuei fazendo o que estava fazendo. Talvez,
estivesse tomando café, não sei. Minutos depois disse:
“Conheci uma
pessoa”.
Continuei tomando
café silenciosamente.
“Me apaixonei por
ela”.
Sem proferir uma
palavra continuei com o meu café, se era café que eu estava tomando, não sei.
“Portanto não
tenho motivo para ficar aqui, vou embora”.
Minha mão tremeu
ligeiramente. Continuei calado.
“Não vai dizer
nada?”
“Não vou, disse
para ela, para que se já foi tudo resolvido sem me consultar. Decidiu trocar-me
por outro não tenho o direito de interferir, não é mesmo? Tchau e bença seja
feliz”.
Decepcionada com
a minha calma, saiu da cozinha batendo os pés no ladrilho. Acabei de tomar
café, se era o que estava fazendo mesmo, pois não lembro. Por que isso?
Conheceu um cara melhor que eu? Transa melhor? Tem um pau maior que... para!!
Para de pensar bobeira, cara. Aconteceu, aconteceu ora bolas. Instantes depois
ela aparece com uma pequena mala e um mochila nas costas.
“O que você achar
o que for meu, me avisa que mando alguém buscar.”
Saiu batendo a
porta, nem disse passe bem, seja feliz, saiu e pronto. “O que for meu...”. Seu
uma merda, não tem nada aqui seu. Não tem direito nenhum, tudo o que tem aqui é
meu. Assim ela saiu da minha vida para nunca mais voltar.
a prata do meu coração
deixei no teu sangue
o ouro da minha paixão
levei comigo o rastro
dos teus passos
levei comigo as carícias
dos teus abraços
no rosto guardei
o beijo do teu fel
rasguei as cartas
joguei-as no rio
da desilusão
tornei intimo
da louca
e insana
devassidão
Correu um risco no ar.
Brilhou cristalino olhar que
luziu extinguindo no sentimento fechado. Cruzou os dedos imaginativos sobre as
lembranças. Cotovelo apoiado no balcão sujo do bar deixou os nervos corroerem a
carne rígida para depois pousarem lânguida na vontade de permanecer um pouco
mais.
Permaneceria sim. Sabia que
permaneceria.
O combinado foi de demorarem só o
necessário.
Assim, arrastou a vontade para
dentro e pediu outra cerveja.
E inesperadamente correu o risco
pelo balcão pousado entre a distancia que o separavam.
Olhou, claro não deixou de olhar,
o fluido magnético se interpôs ao ver que era correspondido.
O combinado foi de só demorarem o
necessário.
E o necessário findava em mágoa
escorrendo no tempo esgotado.
Não é sua culpa, pensou meio que
desgostoso, não claro que não, já estava a espera um longo tempo.
Portanto, não era culpa sua se
seu olhar bateu de frente na musculatura do desejo que aflorava.
Numa lentidão preparada, mas
disfarçada para que não parecesse ansioso, levou o copo à boca e bebeu um bom
gole de cerveja.
O coração sorriu afugentando o
desespero da espera frustrada.
Aproximou-se encurtando a
distância que para ele, parecia grande.
Encurtou, fizera o certo.
Enroscou-se na sensação
garantida.
Pensou: o combinado foi de só
demorarem o necessário.
Portanto não sentia remorso ao
sair do bar acompanhado.
Rosymary
estava cansada depois de seis longas horas aprisionada dentro do ônibus. Seus
olhos, de um preto mais para claro, ardiam devido à noite insone e às luzes que
passavam velozes na monótona paisagem escura. Consultou o relógio pela
milionésima vez e constatou surpresa que dali a cinco minutos estaria na
rodoviária. Por isso, jogou o cansaço todo na poltrona fechando os olhos. Ao
descer do ônibus sua mente abrangeu rostos apressados e nervosos. Caminhou
segura, com passos marcantes bem femininos, por entre a multidão até o local
que sempre combinava esperar por Lucas. E nesse simples deslocar, via os longos
minutos de sua vida escoar-se como água caindo do chuveiro. Impaciente tentou o celular novamente pela
quarta vez, mas nada, caixa postal. “Que droga”, gritou em pensamento. Onde ele
estaria? Teria recebido o seu torpedo? Não entendia o porquê de deixar o
celular desligado. Não queria falar com ela? Já teria ele decidido tal coisa?
Impossível! Assim mesmo, tentou ainda mais umas duas vezes. Caixa postal. Contendo
a raiva que roía seus sentimentos, procurou a mesa do encontro com os olhos
marejados pela saudade aflita e jogou-se na cadeira, num modo desleixado que
não era de seu feitio.
Acendeu
um cigarro, deu duas tragadas rápidas e apagou no cinzeiro. Apoiou os cotovelos
na mesa e afundou o rosto nas mãos. Estava muito cansada, seu raciocínio tornava-se
lento. Mesmo depois das férias forçadas que se haviam dado, reconhecia que
Lucas não estava nem um pouco preocupado em mudar nada. A última conversa que
tiveram fora desgastante, muitas coisas foram ditas, mas nem todas as verdades
de seus sentimentos. Essas Rosymary sabia, jamais seriam ditas ou esbravejadas,
pelo menos não do jeito que ela fazia em sonhos. Neles era capaz de chamá-lo de
cafajeste e outras baixarias. E mandava às favas sua formação rígida, que a
forçava a ser educada mesmo em situações críticas como a que estavam vivendo.
O
movimento da rodoviária em véspera de feriado começou a afetar sua segurança e
resolveu beber algo para relaxar. Enquanto bebia tentou falar com Lucas mais
algumas vezes e acabou chegando à conclusão que teria que pedir muitos outros
“algos”. Diante dessa horrível perspectiva, forçou o pensamento para fora de
si. Escorregou o olhar em volta caindo novamente no meio da agitação em que
vinha se desorganizando por causa dele. Dele! Porque se preocupar com Lucas e
como ele permitira que ela ficasse assim, melindrosamente em perigo? Ela também
tinha uma parte de culpa no processo. Frustrada, catou as preocupações colocando uma
a uma em sua caixa de desafetos, organizando-as para depois, no sossego do ódio
apaziguado, conforme fosse apropriado resolvê-las de uma vez só.
Tinha
consciência de que talvez jamais acontecesse isso. Há anos, tantos que já nem
sabia quantos, vinha acumulando-os, bem trancafiados, até que se tornavam
ridículos diante de seu raciocínio lógico e saíam da caixa por si só. Agiam
como seres vivos e independentes que saem de nossas vidas sem ao menos dizerem:
“Cansei, fui!” Sabia que sem ajuda não resolveria o caos em que se transformara
sua vida sentimental. Mas tinha orgulho e vergonha demais para isso. Como
reconhecer, mesmo que para um terapeuta, um estranho, ser uma profissional
segura e bem sucedida que não conseguia gerir sua vida pessoal? Que não tinha
coragem para pensar, quanto mais falar: “Eu fracassei”?! Para ser sincera,
ainda não considerava que houvesse fracassado totalmente. O erro não fora tão
somente dela, Lucas também tinha a sua cota e ainda não haviam colocado um
ponto final na relação, por mais conturbada que estivesse.
Olhou
o relógio, pegou o celular, tentaria a ultima vez. Não melhor, não. Já não
sabia se queria falar com ele. Não naquele momento em que estava tão confusa. Resolveu ir embora, mas antes de qualquer
movimento, o aparelho começou a tocar. Era Lucas. Melhor não atender, não
queria atender, não deveria, sabia disso, mas sem notar já estava falando. De
imediato não ouviu o que ele dizia, seu coração pulsava forte, doendo no peito.
Forçou a mente a abrir e ouvir o que ele tinha para lhe dizer. Que cara-de-pau,
além de dizer que não poderia ir buscá-la, depois de mais de uma hora esperando
por ele, ainda diz que está com Alfredo que, cheio de problemas, precisava de
companhia e conselhos de um amigo. Como sempre apelava vergonhosamente, já que
sabia que ela dava valor a esse tipo de situação. Depois de algumas desculpas
do tipo “você sabe que eu não faria isso à-toa” acabou sendo envolvida pela
emoção e aceitando o convite para almoçar na casa dele. Ao mesmo tempo em que
aceitou, sentiu-se encabulada por não haver recusado. Agora ficaria com aquela
sensação desagradável, torcendo para que alguma coisa acontecesse impedindo-a
de ir.
Terminou
a bebida, pagou e caminhou até o ponto de táxi. Não gostou da cara do motorista,
teria preferido ir no carro seguinte, mas era obrigada a seguir a ordem dos
carros. Acomodou-se no banco dando o endereço de casa. Precisava tomar um banho
depois de passar a noite toda no ônibus e parte da manhã sentada na rodoviária.
Melhor nem se lembrar desses detalhes. Embora tivesse aceitado o convite e
fingido desculpar Lucas, qualquer motivo serviria de estopim para a bomba em
que haviam se transformado suas frustrações. Examinou a cara do motorista pelo
espelho e descobriu o porquê de seu desconforto. Ele lembrava outro caso
antigo. Por alguns minutos fantasiou que parava o carro, pedia satisfações e
depois implorava para reatar Ela então gritava todos os impropérios que estavam
amordaçados em sua caixa. Levou um susto quando o carro realmente parou diante
do prédio.
Rosymary
subiu a pequena escada estreita quase arrastando a mala e praguejando
mentalmente. Abriu a porta do apartamento, jogou a bolsa no sofá, chutou a mala
com raiva até o quarto, despiu-se enquanto ouvia os recados na secretária
eletrônica e abriu a torneira do chuveiro. Testou a temperatura com o pé e
depois em movimentos lânguidos deixou a água molhar o pensamento físico
relaxando os nervos. Aproveitou a tranqüilidade a envolver sua pele interior
examinando a silhueta no espelho grande atrás da porta. Aos poucos sua figura
foi sumindo devido ao vapor da água quente. Sorriu meio forçado, sem vontade
até. Não porque achou engraçado, mas por ver-se sumindo junto com o reflexo,
diluindo-se dentro do vapor.
Segundos
depois não havia mais nada dela; apenas a água caindo do chuveiro e escorrendo
pelo ralo, e o sabonete abandonado no chão do Box.
Ly Sabas / Pastorelli
Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...