quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Pequenas histórias 238

O pedaço desceu


O pedaço desceu queimando numa explosão de dor e sabor. Xingava no silêncio das palavras. Cortou outro pedaço. Com o garfo e a faca conseguiu transportar da travessa para o prato. Assim que a massa envolvida pelo molho vermelho caiu no fundo do prato, se moldou envolvendo todo o espaço. Foi nesse instante, com a boca salivando, decepou um naco e enfiou na goela abaixo que, devido à quentura, não teve tempo de mastigar convenientemente. Engoliu. Fez careta para disfarçar a dor. Tomou um gole de cachaça. Foi pior. A quentura da massa e molho batendo com a quentura alcoólica, provocou um reboliço no estômago levando-o contorcer-se de azia. O amigo presenciando tudo isso, preocupado, perguntou:

- O que foi?

- Nada, apenas um conflito de sistema um não aceitou o outro.
O suor frio escorria por sua testa. Fez um esforço. Engoliu a massa. Respirou fundo. Sorriu um riso amarelo. Tombou em cima do prato cheio de lasanha esparramando molho na camisa branca do amigo.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Pequenas histórias 239

 Assustou-se


Assustou-se porque ao seu lado, o garçom com um bloco e uma caneta, esperava o pedido. Assustou-se, não esperava que fosse tão prontamente atendido. Olhou para o cardápio meio que indeciso. O que pediria? Olhou para cima. Viu a cara do garçom numa perspectiva estranha que, indiferente, apenas esperava. Ele estava ali para isso. Esperar demorasse ou não. Ele era paciente. Foi treinado para isso: ser paciente. Nunca se alterar. Nunca erguer a voz, estivesse ou não com razão. Aliás, ele não tinha razão nenhuma, só os fregueses é que tinham razão. Esse era o lema da casa, o qual foi extensivamente recomendado pelo chefe.
Assustou-se, realmente, tinha que se assustar.  Distraído, pensando na vida ou, como dizia sua mãe, pensando na morte da bezerra, não percebeu a aproximação do garçom. Assustou-se, pois ao erguer os olhos, deparou com a cara amarfanhada, uma cara de destroços esquisitos. Mas tudo bem fez o pedido com a voz empossada. Sentia um prazer em mandar. Pediu enfatizando cada palavra num deslizar de letras pronunciando-as bem devagar. Tinha gosto de se fazer notar que, ele, possuía mais educação do que o garçom. Este conhecia esses tipos de nariz arrebitado e que não tinha um cão para puxar pelo rabo, como dizia seu pai. No principio, quando começou a se aperfeiçoar como garçom, ficava de uma maneira irritado, depressivo, mas com o correr do tempo, não dava mais pelota. Desprezava todo e qualquer tipo de pessoas esnobes.
Entrou na cozinha. Passou o pedido para o assistente.
- José já tenho o prato pronto. Não quer levar esse?

José indiferente pegou o prato e levou ao freguês de nariz arrebitado.
- Com licença, senhor.

- Nossa que rapidez.

Assim que ajeitou tudo sobre a mesa, cordialmente perguntou:
- Mais alguma coisa, senhor?

- Sim, mais uma coisa, por favor.

- Pois não, senhor.

- Suma da minha vista, não apareça mais aqui, nem para trazer a conta.
- Pois não senhor, o senhor é que manda.

Suspirou achando-se livre do garçom. Desviou os olhos para o prato e já começava a saborear a comida quando, sentiu uma pancada na altura do pescoço. Um frio cortante rasgou de um lado para o outro a garganta. O frio invadiu suas células paralisando-o. Num esguicho o sangue inundou o prato, a toalha branca ao mesmo tempo em que o corpo caiu por cima do prato esparramando tudo.

Sem se perturbar com os gritos, a balbúrdia, arrancou a gravata borboleta, o paletó ridículo e jogou tudo em cima do morto caído sobre o prato. Sentindo-se aliviado, saiu do restaurante. Ao chegar à calçada, suspirou:

- Como seria bom se no mundo não houvesse pessoas como aquele desgraçado.

Virou à esquerda, se embrenhou na escuridão, enquanto ao longe se ouvia a sirene da policia.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Pequenas histórias 240

Palavras procuram


... palavras cujas palavras com palavras vai dar a ideia que as palavras devem dar numa continuidade sem precedentes na imaginação do autor onde ele imprime palavras mais nada que palavras surgidas em continuo metabolismo pensativo rasgando os infinitos da mente ao arrancar lá dos cafundós do subconsciente palavras nada mais que palavras símbolos gráficos determinados pelo homem para que pudessem exprimir seus sentimentos inquietações e angustias e frustrações milenar passada de filho para filho desde que o homem é homem e continuará até que a humanidade venha sofrer o perigo de extinção por não dar bola as palavras ditas por séculos e séculos de vivência musical artística e teatral num palco molambento esquecendo-se da aprendizagem sanguínea herdada pelos pais cuja sobrevivência fez com que chegássemos onde estamos e num piscar de olhos poremos em perigo todo nosso ensinamento numa cédula eletrônica dando chance para que ladrões continuem se aproveitando das mazelas do povão que não tem condições de agirem por conta própria se aliando a malfeitores do colarinho branco acomodados em poltronas enchendo cada vez mais seus bolsos excluindo famintos desgraçados que nem sabe o que é a palavra quanto mais o que é um voto comprado ou não e que na esperança de ter um futuro promissor vota no primeiro cheio de promessas utópicas acreditando que terá um vida melhor ignorando ou não sabendo dos proveitosos da esperteza preferindo viver na mendicância cômoda acumulando centavos por centavos no dia a dia nosso de cada um...

domingo, 27 de novembro de 2022

Pequenas histórias 241

A todos os garçons do Monarca.


“Farrapo humano é um belo filme sob a batuta do gênio Billy Wilder, com as inesquecíveis interpretações de Ray Milland e Jane Wyman, abordagem realista e profunda num retrato devastador do efeito do álcool sobre seus dependentes, ganhador de quatros Oscar, é um filme imperdível.”

Estava lendo quando pediu:

- Instrumento, por favor?

- O que? O senhor me chamou?

- Sim. Você não é o Instrumento?

- Não, meu nome é Lira.

- Então, Lira é um instrumento medieval. É uma harpa minúscula usada pelos cantores medievais. Não sabia?

- Não, não sabia.

- Enquanto Roma ardia em chamas, o pederasta Nero, com sua lira, cantava uma ode em homenagem a cidade.

- Pederasta, senhor?

- Sim, pederasta. Não sabe também o que é?

- Não sei senhor.

- Veado, bicha, gay.

- Eu hein!

- Aliás, Nero mandou incendiar Roma para que ele pudesse com sua lira cantar em louvor a sua tão querida cidade.

- É mesmo! Mas eu não sou gay coisíssima nenhuma.

- Vai ver que você tem algum parentesco com o criador da lira.
- Sai para lá, que conversa hein! O que o senhor quer afinal, não posso ficar falando besteira o tempo todo.

- Ei, calma, meu querido, não se zangue. Traga-me mais uma dose.
Lira se afastou, voltando pouco depois com a bebida. Ele ergueu o copo a altura dos olhos. Mentalmente fez um brinde:

- Um brinde ao gênio Billy, um brinde ao seu farrapo humano em que estou me tornando. Maldita pinga. Um brinde a você também. Ah! Também não esquecemos, um brinde ao Lira pela paciência em me atender.

Num único gesto, entornou o conteúdo do copo para dentro da garganta, estalando a língua.

- O instrumento, por favor – chamou o garçom numa voz pastosa.
Lira quase o mandou a merda, mas lembrou das dívidas, aluguel, luz, leite para as crianças, fechou a cara e foi atender o sujeito.

- Quanto foi? Quanto devo não pagar?

E riu um riso fedendo a pinga.

- Cinco doses, dez reais.

- O que? Cem reais? Vinte reais a dose? Que ladroeira é essa?
- A dose é dois reais, o senhor tomou cinco doses, portanto são dez reais.
- Ah, tá certo. Pago para você mesmo?

- Não, pague no caixa, por favor.

Levantou cambaleando, quase caiu ao tropeçar no pé da mesa.
Lira pensou:

- Vai procurar sua turma e espero que não volte mais.

Ao limpar a mesa, viu que o sujeito tinha esquecido a revista. Lira pegou a revista e leu na capa em letras garrafais:

“Farrapo humano é um belo filme sob a batuta do gênio Billy Wilder. Todos envolvidos no alcoolismo deveriam assistir.”

Pensou em devolver, mas o sujeito já tinha saído. Jogou a revista no lixo, voltou sua atenção ao serviço, esquecendo o incidente.

sábado, 26 de novembro de 2022

Pequenas histórias 242

Os passos rasgam


Os passos rasgam o espaço num ritmo compassado, onde os pés defloram o que adiante se apresenta como obstáculos.
Nada o impedirá de seguir. Sabe que não há nada a impedir seus passos compassados num ritmo apressado. Não. Não há nada que o impedirá.

No entanto, alguma coisa indefinida nos seus passos, traduz a angustia do século de vivência humanitário. Não é culpa dele se o mundo é podre e está indo a bancarrota. Não, não é culpa dele.
Talvez, seja anormalidade dos seus sentimentos jogados ao léu boêmio sem ter outra coisa além do copo de uísque. Onde estão as mulheres que o acompanhavam? Onde estão os homens rudes na violência urbana a provocar seus devaneios poéticos intraduzíveis?
É! Onde estão? Perdeu o carisma das palavras. Perdeu as palavras num carismático caçar infrutífero.

Por isso se recolhe. Todas as noites antes que as estrelas brilhem no céu cinza da alma, se recolhe no aconchego dos sonhos em lençóis banhados de perfume artificial.

E, sonha. Sonha com os amigos descobridores de aventuras orgiasticas onde, cada um, terminava na cadeia da ressaca infernal.
Onde estão todos? Onde está ela? Que me acompanhava alucinado bebendo minhas palavras. Captava silaba por silaba em seu interior agasalhando falicamente o aprendizado que a ela transmitia.
Onde estão todos? Sumiram no alcoólico diário de suas vidas amargurando as saudades deixadas em cada peito, em cada copo deflorado nas madrugadas de sexo e rock´n roll.

Fecho-me nas palavras que ainda há para escrever.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Pequenas histórias 243

 Na umidade

 das mãos escorre gotas de chuva salpicando a carne sonolenta de saudade quando não se sabe do que e nem de quem. Em cada gota há o sorriso perdido do menino encolhido nos lençóis de jornais. Em cada gota o velho trôpego, maltrapilho, enrolado nos amarfanhados trapos da vida, encolhido se arrasta rente à parede como se dele fosse culpa de ser idoso. Há tanta coisa e as coisas que há ficam perdidas nos cantos da casa ao desapego de seus habitantes.

O relógio marca o momento do passado encravado na pele dos objetos mudos e surdos. Obediente, o percurso do tempo, encarcerados em prédios de agonia mórbida, fixados por pigmentos de ácido na tela do medo, representam a palidez de uma época falida. Não há salvação sem desprendimento palpável. Sem ressentimento de qualquer tipo. Sentimento, aliás, não tem vez, não é relevante sua importância diante dos sadismos utópicos enovelando o masoquismo da perda de identidade.

Somos o que somos sem salvação, engolfados no capitalismo vegetativo consumista lutamos para manter a respiração de nadador. Não representamos valores antigos, queremos impor nossos valores desprezando costumes e tradições de cultura sendo jogado no lixo fetos e mais fetos dos nossos fetos apodrecidos na vagina da cidade.

Ao luar cinzento o mendigo ergue sua taça de vinho imaginário e brinda a vida feliz, a sua vida de felicidade.

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Pequenas histórias 244

 Uma história real com pequenas pitadas de imaginação.


Julinho estava na calçada conversando com os amigos quando ouviu seu nome ser pronunciado. Do meio dos sons da avenida, captou a voz do amigo chamando-o. Virou a cabeça e a cabeleira loira foi jogada de um lado para o outro, fazendo-o se sentir numa onda de luz, como se estivesse num palco tendo sobre ele o holofote a iluminá-lo. Sorridente, ao ver o amigo que o procurava, dando prova da amizade que tinham um pelo outro, se virou com os braços abertos quando, aterrado, percebeu o projétil vindo em sua direção.
Estarrecido viu o sorriso triste do amigo, com um pé apoiando a bicicleta, e a mão empunhando o revolver em sua direção. Pode ver os belos olhos de Dinho chorando e dos seus lábios conseguiu ler:
- Desculpe amigo. Não posso fazer nada. É você ou eu.

Julinho ainda conseguiu ver o amigo se afastando rapidamente na bicicleta que ele lhe dera de presente. A bala penetrou na sua testa saindo do outro lado. Julinho não gritou ao sentir o impacto quente do projétil furando sua testa e arrebentando a nuca. Jogado para traz, caiu na calçada empapando a loira cabeleira de sangue. Sorriu ao ver a luz do poste iluminando-o. Sou feliz, pensou. Em seguida fechou os olhos calmamente.

 

Ricardo, Ricardinho ou Dinho para os amigos, descia a avenida pedalando o mais devagar possível. Queria prolongar o máximo que pudesse a angustia que arrebentava o peito. Chorando não conseguia entender o porquê fora escolhido para essa missão ingrata. Não podia fugir. Pensou em ir embora para outra cidade até outro estado. Sabia que não adiantaria nada. Seria alcançado pela Chefa. Caralho, agora que estava tudo bem! Estavam até arrumando o barraco para morarem juntos. Por que ele? Por que não outro? Não adiantava se martirizar tinha que fazer o serviço e pronto.

Arrumavam o barraco quando bateram a porta. Era o Miquelinho trazendo um recado da Chefa. Miquelinho tinha dez anos, era o mais novo da turma. Dinho tinha dezoito e Julinho dezesseis anos.
- A Chefa está te chamando, Dinho – disse Miquelinho com sua voz anasalada.
- Ok, estou indo.

O que ouviu dos lábios da Chefa, mulher de seus vinte e poucos anos, dona do ponto onde eles trabalhavam, deixou-o estupefato.
- Você precisa fazer um serviço para mim.

- Qual serviço chefa?

- Matar o Julinho.

- O que? Matar o Julinho?

- Sim, o Julinho.

- Por quê? Meu melhor amigo. O seu preferido de todos nós.

- Fiquei sabendo que ele está vendendo droga em outros pontos e ficando com o dinheiro para ele, e isso não admito.

- Mas...

- Não tem mas e nem menos mas, ou faz o serviço ou você morre. Escolhe.

Não tinha escolha, era a regra do jogo. O jogo do mais forte. Descia a avenida que naquela hora não tinha muito movimento. Já estava vendo o amigo com sua cabeleira loira, alegre como sempre. A única coisa que Dinho desaprovava no amigo era a mania de se vestir de mulher. Não era michê e nem travesti, era apenas uma forma de brincadeira. Era um porra louca como se dizia. Muitas vezes os dois entregando os folhetos das boates se divertiram a beça. Lamentou tudo agora era passado. Ficará no passado, disse seus olhos molhados de lágrimas. Parou a bicicleta bem em frente do amigo e chamou:

- Julinho.

E não esperou o amigo se virar. Ao mesmo tempo apertou o gatilho sentindo o coice da arma quando o projétil veloz foi buscar a testa de Julinho. Não esperou para ver o resultado, saiu o mais depressa que pode, pedalando freneticamente. Devido às lágrimas não enxergava nada, desejava sumir o mais rápido que pudesse. Tudo estava perdido mesmo, pouco importava a vida, pensou. Foi quando não viu o sinal fechar para ele. Atravessou o sinal e foi lançado longe por um caminhão jogando-o em cima do carro à frente. Seu corpo deu pirueta no ar e caiu em cima do vidro traseiro do carro cinza e escorregou para o asfalto, obrigando o motorista do caminhão a frear para não passar por cima dele.


Nota: a Chefa, por ser mandante do crime, pegou vinte anos de cadeia. Dona do ponto de trafego de drogas que tomou conta depois que o amante aidético faleceu, deixando-a com duas filhas aidéticas, usava os menores para vender a droga. A história é verdadeira, apenas inventei a relação entre os dois meninos: Julinho e Dinho.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Pequenas histórias 245

 Sorriu ao sentir


Sorriu ao sentir, sem ter que fazer força, o excremento sendo expelido involuntariamente. Ah! Que alivio! Expurgou do corpo a matéria podre. Puxou um bom pedaço de papel e, se limpou varias vezes. Depois jogou o sujo papel no vaso e deu descarga.
- Lá se vai minha parte pútrida se encontrar com outras pútridas partes. Os anônimos da vida. – pensou sarcasticamente.

Sorriu novamente. Será que um dia, como escritor reconhecido, ganhador de três jabutis, mais outros prêmios internacionais, (convencido!) teria coragem de escrever o putrescível da matéria? Claro que teria. Pois se ele é a matéria putrescível de todas as matérias! E não era? Claro que era. Pois com sensibilidade, coisa que lhe foi imposta e não adquirida, via-se forçado a escrever tudo o que a sua mente criava.

- Que merda!

Reconheceu-se: Sou prisioneiro da mente criativa ou da putrescível mente? Mas o que de importância há nisso? Dar a conhecer esses pormenores desagradáveis ao leitor? Estaria ele interessado? Quem vai saber! Talvez algum leitor, na sua coragem arrogante, afirmasse:
- Na putrescível matéria orgânica esteja estigmatizado todo o ser em sua forma primeira.

Resposta do escritor ao saber da opinião do leitor:

- Puta merda! Estarrecido estou com essa descoberta. Quer dizer que só escrevo merda, nada mais que isso! Nossa! O que faço se não sou escritor?

Num ímpeto de raiva, rasgou o papel, quer dizer, pressionou a tecla e deletou mais de cinquenta páginas. Depois colocou o cursor em cima da pasta, cujo título era: Meus textos. Ficou por segundos observando mais de quinhentos arquivos, todos os textos que vinha escrevendo. Vale à pena guardar toda essa porcaria? Estava tentado a apagar tudo o que escrevera. Não tinha mais importância. Era um amontoado de letras e palavras inaudíveis.

Nisso, ainda segurando o cursor em cima do arquivo, tendo a palavra Excluir em evidência, foi surpreendido pela gata que pulou por cima da sua mão, com a pata dianteira, pressionou seu dedo indicador e, com isso, deletou todo o arquivo. E o pior, o sistema travou, precisou reiniciar o computador. Assim feito, num arrependimento atrasado, verificou que a pasta contendo todos os textos, cujo título era: Meus textos tinham sido lançados pelo espaço. Escorraçou a gata que, amedrontada, se refugiou em baixa da estante.

E agora? É José, e agora? É enrolar o saco de estopa e cair no mundo afora. Foi o que fez. Fechou todos os programas. Desligou o computador. Fechou a casa. E caiu no mundo, dizendo:
- Prefiro à vida real a virtual.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Pequenas histórias 246

 Pavão misterioso


Chove. Pronunciava a palavra pausadamente olhando pela janela. Chove. Não ousava sair. E porque deveria sair? Não queria passar vexame. Não conseguiu desenvolver o protetor. Todos tinham o seu. Ele não. Tinha que usar guarda-chuva, capa e galocha. E quando isso acontecia sentia-se envergonhado, observado pelas pessoas como um parasita. Era um marginalizado por causa disso. Desde que se conhecia como gente, nunca houve um dia sem chuva. Diziam os antepassados que houve épocas de sol, de verão onde as pessoas podiam quase andar nus. Se não fosse pelo protetor que foi desenvolvido a partir de uma combinação genética e a natureza, descoberta por um cientista, o que possibilitou todos se movimentar livremente, menos ele e, talvez, se não houvesse o protetor o planeta estaria hoje desabitado.

Do quarto andar, a massa humana locomovendo-se de um lado para o outro era insignificante, não pertencia àquela caterva ignorante, sem um propósito, a não ser, viver seus dias infindáveis. Enquanto eles viviam a eternidade absoluta, ele vivia o tempo passando na carne, nas veias intumescidas, nos movimentos envelhecidos. Sentia asco, horror, ódio por todos eles. Zumbis do progresso mesquinho e infinito.

Ninguém mais nascia. Não havia mais nascimento. Não havia mais grávidas. O protetor, por uma razão mal explicada, deixou as mulheres estéreis e os homens impotentes, por outro lado, deu a eles a fonte da juventude, não envelheciam, não morriam. O que ele via pela janela do quarto andar é o que seria daqui a mil anos. Não sabia se isso era bom para ele que, lentamente envelhecia, ou era ruim. Eles ainda não atinaram com o que acontecia. Ainda embebidos pela alegria do viver sempre na eternidade, não vislumbravam o futuro de monotonia absoluta. Se não há renovação não há enriquecimento de espécie alguma.

Logicamente que ele, observando a caterva lá embaixo na rua constantemente molhada pela água meio ácida, - já fora mais ácida, matava os despreparados – desejava ser igual. A anormalidade traz prejuízo moral e intelectual aprisionando-o a margem da vida. Estava cansado de ser escorraçado. Não podia nem sair para almoçar. Fizeram um sistema de entrega no qual não precisava ir ao restaurante, ou mesmo, a lanchonete. Tinha que ficar a mercê deles. Merda! Queria ser normal. Queria ser igual a eles.
Porque a combinação médica prescrita não dera resultado nele? Fizera tudo, segundo a recomendação médica e, nada resultara, a não ser, a penugem que nascia em suas costas.
Abriu a porta do guarda-roupa onde tinha um espelho grande. Ficou nu. Reparou que não era só nas costas que lhe nasciam penas. Elas nasciam pelo corpo todo. Mexeu os ombros. A asa toda branca mexeu movendo o ar do quarto. Estou virando um pássaro? Chegou ao parapeito da janela. Ficou de cócoras. Olhou para baixo. Tudo continuava na mesmice de sempre. Bateu as asas. Sentiu o corpo se elevar. Tomou coragem. Jogou-se no vazio. Começou a cair. Sacudiu os ombros. A asa num sobe desce o impulsionou para cima. Estava voando. Gritou:

- Sou um pássaro. Sou um pássaro.

E sem que ninguém percebesse o que estava acontecendo, ele sumiu no cinza pálida do céu. Atravessou uma grossa nuvem e deparou com um sol radiante. Gritou novamente:
- Sou um pássaro feliz.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Pequenas histórias 247


Bateu o telefone com certa violência que ele até se assustou.  Mudo o aparelho preto sem as linhas modernas que imperava hoje em dia, não lhe deu explicação por sua atitude rude. Ele tinha o lugar para ficar, mas para que se preocupar com lugares se os lugares por onde passava nada lhe dizia de importante.

Ao bater o telefone notou que um raio pálido de sol fulgurava por entre as nuvens brancas. Hoje o dia será de temperatura agradável, foi o que ouviu da meteorologia. Poderia confiar na meteorologia? Bom, uns dois dias até que foi razoável a previsão.

Abriu a porta. Garoava. O vento gélido entrou por sua carne amortecendo a pouca alegria em ter o sol iluminando-o. Recuou. Fechou a porta. Faltava meia hora. Foi até o quarto e trocou a jaqueta jeans pela jaqueta de couro. Ao toque da jaqueta na pele a quentura o envolveu amortecendo o frio.  

Ouviu um murmúrio. Era a mulher resmungando. Queria dormir a preguiçosa. Lançou um olhar mortal de desprezo. Pouco se lhe dava o que ela queria ou não. Apagou a luz. Fechou a porta do quarto demonstrando a raiva explodindo por baixo das veias intumescidas pelo sangue.

Que coisa! – disse para sim. Que coisa! Todos ouviram a explosão do sangue esparramando pela humanidade. Só ele não ouviu. Por isso foi difícil encontrá-lo. Então a pergunta se fez concreta. Quem o encontraria? Amigo não tinha além dos amigos separados no tempo decorrido de suas vidas. Amores? Tivera o suficiente para azucrinar a cabeça.

Na independência dos passos agia conforme a calçada do sentimento.

domingo, 20 de novembro de 2022

Pequenas histórias 248

Sexta feira


Sexta mais uma vez.
Mais uma vez que se encerra o espetáculo semanal.
Mais uma vez que se expande a alegria pelo fim de semana.

Mais um fim de semana carregado de esperanças.
Mais um fim de semana que se concretizará realizações
Engrandecendo zumbis vazios de vidas fúteis.

A felicidade não está nas canções.
A felicidade não está nos gestos profissionais.
A felicidade não está nas vozes metralhando ferinas palavras.
A felicidade não está nos pratos escolhidos pelo sabor.

Encho meus olhos de tristeza na ausência de você.
Calo a voz no silêncio dos teus mudos passos.
Recolho os gestos na fugacidade das tuas mãos.
E ofereço meus lábios aos teus beijos não oferecidos.

Na cunilíngua não há espaço para palavras
Somente ejaculatórios gemidos de prazer concreto
No edifício de carne onde os andares se intumescem
Eleva-se a temperatura da penugem elétrica

E, no meia nove, as almas encontram o nirvana
Dos sexos a eclodir em explosões infindáveis
Saciando cansados corpos suados extasiados
Pelo prazer de sentir os corpos satisfeitos

Sexta feira.
Mais uma vez.
Mais uma vez recolho os pedaços
Da semana colando-os
Para enfrentar a semana
Que se inicia na segunda feira.

sábado, 19 de novembro de 2022

Pequenas histórias 249

 

Procurava um tema. Já não tinha mais a comoção de antigamente. Alojou-se no intimo uma passividade aderente obrigando-o a permanecer inativo parado no tempo ingrato. Levantou. Pegou uma cerveja. Desde que passou a morar sozinho evitava sujar copos, pratos... Detestava lavar louça, limpar a gordura. Por isso bebia a cerveja direta da garrafa. Parecia mais gostosa. Debruçou-se sobre a janela. Apesar de serem sete horas da manhã, o calor parecia ser um calor de quatro horas da tarde. Passou a garrafa gelada pelo rosto descendo para o peito nu. O suor empapava a barba por fazer. Achava-se romântico, isto é, a cena parecia romântica: estava, com o ombro apoiado no umbral da janela, deixando a cerveja escorrer pelo queixo molhando o peito. Lembrou-se de Leo. Será que se eu me jogar daqui cairei em cima de alguém? Talvez sim talvez não. Além do que ele não era Leo. Ele é o Jose Val. Nisso a campainha interrompeu seus pensamentos.

- Olá.

- Oi.

- Soube?

- Sim, fiquei sabendo.

- Leo morreu.

- Aos meus amigos.

- Maria Adelaide do Amaral.

- Está lendo?

- Sim, comecei hoje.

- Muito bom.

- Assistiu a minissérie?

- Não, você sabe que não assisto televisão. Você viu?

- Também não. Posso entrar?

- Ah! Claro, desculpe.

Maria Lúcia entrou deslumbrante com sempre. Estudavam juntos desde o ginásio. Faziam o curso de filosofia comparada na mesma faculdade. Como eram fanáticos por literatura, sem planejarem, toda vez que se encontravam, dizia um para outro algo sobre o livro que estava lendo, uma citação ou cena ou frase. O outro sempre tinha que adivinhar se não acertasse teria que comprar um livro. Maria Lúcia duas vezes pagou um livro para o amigo. Jose Val por sua vez, foi intimado a pagar uma vez só.

- Caramba! Não é nem dez horas e está um calor desses!

- Tire a roupa.

- Posso?

- Claro, sabe que entre nós não há pudores.

- É mesmo, respondeu Maria Lúcia se despindo.

Só de calcinha se aproximou do amigo. Tomou a garrafa das mãos dele. E com um bom gole na boca, beijou Jose Val obrigando-o a engolir a cerveja. Inesperadamente, sentindo os bicos dos seios espetando seu peito, preocupado em retribuir o beijo que recebia, foi forçado a engolir a cerveja transposta para a sua boca, levando-o a se engasgar babando o liquido gelado nos dois.

- Po, Maria Lucia, não faz isso!

- Por quê? Não gostou?

- Você sabe que não é isso.

- E o que é então?

- Caçamba! Posso ficar excitado e estuprá-la.

- Até que seria uma boa, sabia?

- Até pode, mas não quero.

- Tem razão. Também não quero ser estuprada, não por você...
Virou a garrafa tomando um bom gole, passando as costas da mão para limpar os lábios. Tinham uma amizade intensa, podia-se dizer até, despudoradamente sem nunca terem ido para a cama, no bom sentido da palavra. Os amigos não entendiam aquela amizade sem classificação, quer dizer, eles não conseguiam enquadrá-la numa classificação. Era uma amizade intensa, uma amizade que não se vê entre um homem e uma mulher.

- Posso te perguntar uma coisa?

- Claro Maria Lucia.

- Você nunca teve vontade de transar comigo?

- Não. Por quê?

- Ah! Não sei. Sou bonita e gostosa, atraente...

- Nunca disse ao contrário. Sabe que gosto de você, te admiro muito, acho bonito seu corpo, seus seios e tudo mais.

- Então...

- Então o que?

- Por que nunca transamos?

- Não sei. E você?

- O que tenho eu?

- Já sentiu com vontade de transar comigo?

- Pergunta difícil, não acha?

- Não acho, não.

- É impossível responder, pois desde criança nos conhecemos, brincamos juntos, fomos para a escola juntos, ginásio e agora faculdade. Sempre tivemos uma nítida franqueza, nunca rolou nada além dessa amizade... Não sei. Acho que não.

- Quer dizer que nunca se sentiu atraída por mim?

- Sim. Não, quer dizer. Acho você bonito, corpo atraente, másculo e tudo o mais, não sei, não teria tesão em dormir com você, e olhe que oportunidade nunca faltou.

- É eu sei. Às vezes me pergunto, se existe, claro, vidas passadas, acho que fomos irmãos, o que acha?

- Nunca pensei. Quem sabe.

- Nós somos a prova de que pode existir amizade entre um homem e uma mulher sem que haja sexo.

- Realmente. O que ninguém consegue acreditar nisso.



Estava urinando quando Romualdo entrou. Postou-se ao lado dele. Sentiu a veia se intumescer acelerando o coração. Cumprimentaram-se:
- Oi.

- Oi.

Sorriram um para outro. Não conseguia desviar os olhos. Romualdo sorriu levando a mão para baixo ao mesmo tempo em que conduzia seu olhar. Olhou obedecendo, não tinha como não obedecer, a atração o dominava, era mais forte, há muito tempo esperava uma oportunidade dessas, não poderia perder. Por isso, olhou.
- Então, gosta? – perguntou Romualdo.

Mal conseguiu expressar, sua voz saiu num grunhido imperceptível.
- Ahn!ahn...

- Quer pegar?

- Pegar?

- É. Pegar...

- Ahnnn..

- Ei, Josildo... Oh, Josildo, acorde, tá sonhando de olho aberto é?
- Ahn... Quero...

- O que você quer?

- Ahn, nada, não quero nada.

- Acho bom mesmo. Olhe o chefe quer que você leve esses papéis lá para baixo.

- Ok.

Pegou os papéis e saiu apressado. Estava meio excitado. Colocou os papéis na frente para ninguém perceber. Antes de sair da sala, olhou para traz. Lá estava Romualdo observando-o. Credo! Pirava, estava vendo alucinação. Nunca uma coisa dessas aconteceria com ele. Achava Romualdo bonito, mas... Precisava se controlar ou, pedir transferência.



Maria Lucia jogou o manuscrito em cima da mesa.

- Mais um romance com a temática gay?

- É o que vende.

- Quer dizer que você escreve conforme o que vende, é?

- Não vejo porque não aproveitar.

- Tudo bem. E a qualidade literária onde fica?

- E precisa ter alguma qualidade literária?

- Claro.

- Para que? Quem vai ler um livro de qualidade literária?

- Eu, por exemplo.

- Ah! Você não conta.

- Entendo. Responda-me.

- O que?

- O primeiro romance quanto vendeu?

- Vendeu bastante, muito até.

- E o segundo?

- Vendeu bem.

- E o terceiro?

- Pouco.

- Então, o que me diz.

- Nada.

- Nada? Ora, Jose Val. As vendas estão caindo.

- Ora, você não vai querer que me tranque num hotel para escrever.
- Quem sabe, assim você se ilumina mais e consegue escrever algo bom.
- Vá passear...

- Aliás, vou mesmo. To precisando.

Maria Lucia se vestiu. Tomou mais um gole de cerveja. Deu um beijo na boca do amigo, e saiu batendo a porta.

Pronto, estava sozinho outra vez. Leu o que estava escrito na telinha branca do computador:


“Jack não tem siso,

Jack não tem mais riso”.


Riu. Maria Lucia era uma brincalhona mesmo. Pegou outra garrafa de cerveja. Apoiou-se outra vez no umbral. Nisso, um grito ecoou lacerante seguido pelo barulho de estilhaço de vidro. Depois um silêncio enorme se fez ouvir.

E quando Maria Lucia entrou no apartamento do amigo, a primeira coisa que viu foi o que estava escrito na tela do monitor:
- “Finalmente, Leo se matou.”

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Pequenas histórias 250

 O médico lhe dissera

 
O médico lhe dissera:

- Isso é característica sua, do seu corpo, do seu organismo.

Ah! Quer dizer que esse Alien que tenho na barriga é característica minha? Eu que quis ter esse monstrinho, é? Que coisa!
- É gordura em pelotada, como caroços que as pessoas têm nas costas, tipo sebo. Não lhe faz mal nenhum, se quiser pode operar, em minha opinião não aconselho. Você não vai querer ficar com uma cicatriz feia na barriga.

Ah! Além de tudo está me chamando de seboso, é? Eu terei que passar o resto da vida com essa, como é mesmo que o senhor disse?
- Gordura em pelotada.

Isso mesmo. Vou ter que passar o resto da vida com pelotas de gordura avolumando na barriga. E se aumentar? Se crescerem outras? Ainda bem que não é para fora, é para dentro, só passando a mão é que se percebe.

Quando ele entrou no consultório, a primeira pergunta, depois de cumprimentá-lo e pedir que se sentasse, foi:

- Quem me indicou?

Quem indicou o senhor? Bem, Doutor foi o Doutor da firma.
- Qual o nome desse Doutor?

Porra! Doutor, o senhor faz pergunta difícil. Engraçado tenho ido sempre me consultar e até hoje não guardei o nome dele.
- Que firma o senhor trabalha?

Agipliquigas, ops! Desculpe Doutor, é Liquigas Distribuidora.
- Tudo bem.

Obrigado, Doutor até que o senhor é compreensivo.
- E o que traz aqui?

Bem, Doutor, o caso é que...

E, constrangido descreveu os sintomas intestinais pelos quais estava passando. Disse que sofria de diarreia, que em determinado dias seu intestino funcionava até que legal, mas outros dias era um desarranjo infernal, tendo dias de ter ido ao banheiro umas dez vezes.
-  Não é normal, mesmo.

Então, Doutor. Não tenho feito extravagância, tenho me alimentado normalmente...
- E que mais?

E há essas protuberâncias na barriga. E também, como há um histórico de câncer na família, meus pais, tios, tias e, agora, minha irmã, ressecada e de uma hora para outra começou expelir sangue, o médico que está tratando dela, disse que todos que fossem ligados a ela, filhos, netos, irmãos, aconselhava que fizessem colonos copia.

- Excelente procedimento. E o que foi diagnosticado na tua irmã?

Câncer, Doutor, câncer Doutor. Já está fazendo radio e quimioterapia.
- E qual o nome do médico que ela está se tratando?

Porra! Doutor, que pergunta difícil. Não sei o nome dele, não.

- E convênio? Ela está fazendo pelo convênio, não está?

Por...! Outra pergunta difícil, só sabe fazer pergunta difícil, é? Não sei. É necessário que o senhor saiba?

- Não, não é, gostaria apenas de saber.

Tá certo, voltando aqui trago o nome do Doutor e do convênio dela.
- Bom, primeiramente para sabermos exatamente o que lhe está acontecendo, é necessário fazer uns exames.

E entre eles, o de colonos copia, não é?

- Exatamente.

Po... Vão introduzir uma câmera no meu ânus, não é?

- Isso mesmo, mas não é caso de se desesperar.

O ânus não é do senhor, não é? Mas tudo bem, para quem já fez biopsia da próstata, a colonos copia é fichinha, não é?

Ele saiu do consultório meio entorpecido pelo sol da tarde. Tudo lhe parecia diferente, com outra dimensão além daquela que ele conhecia. Pisando com firmeza na calçada nova da avenida, atravessou a rua. Chegando ao serviço, jogou na gaveta as guias para os exames, passou a chave e procurou por um tempo esquecer-se deles.

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Pequenas histórias 251 252 253

 O presente.

 Sugestão do amigo poeta Savasini


           Precisava comprar um presente. Se é que precisava. Na verdade, estava em dúvida, não sabia definir com exatidão se ela merecia ou não. Cansado de suas impertinências, às vezes em demasia, caia sempre no lugar comum. No seu modo de pensar, o presente deve ser algo diferente, algo que a pessoa não estivesse esperando ganhar. Que sempre se lembrasse de você. É! E o que ela esperava ganhar? E o que comprar? Roupas? Nem pensar! Da última vez dera um vestido pensando que agradava, procurou um bem especial, uma saia estilo cigana, rodada, cheia de bordados, tecido especial, foi um desastre. No momento em que ela abriu o pacote, viu a seda estampada, puxou o nariz para um lado que ele conhecia bem. Assim mesmo, disfarçando ou tentando disfarçar a decepção, foi até ele e beijou sua face. Incrédulo pensou ter acertado em cheio. Porém, dias depois viu pedaços do vestido sendo usado como pano de chão. Nada disse. Apenas sentiu no peito a marca de que não acertará.

           Dessa vez tinha que acertar, porra! Disse entrando na loja. Já tinha vasculhado todos os magazines possíveis, talvez nessa loja chique encontrasse o que procurava. Dissimulando a timidez, perguntou a vendedora que se aproximava:

           - Ahn, por favor.

           - Pois não, senhor, o que deseja?

           Porra! O que ele deseja. Será que conseguiria expressar exatamente o seu desejo? Olhando para a bela morena a sua frente, exprimiu em pensamento:

           - Desejo você na cama comigo...

           - O que foi Senhor?

           - Desculpe nada não, não disse nada.

           Gentil a bela morena não deu a perceber o sentido de suas palavras.
           - Bom. O caso é o seguinte... To a procura de algo especial. De algo que nunca dei como presente entende?

           - Não sei se entendi direito. Mas o senhor está a procura de um presente magnífico. É isso?

           - Sim, vossa excelência captou minha mensagem jovem guru. Como será o feminino de guru?

           - Não sei senhor. E acho que isso não é o mais importante agora, não é senhor?

           - Evidente que não é. Desculpe-me, é que estou quase ficando louco por causa desse presente.

           - Entendo.

           E durante quase uma hora, a gentil vendedora morena, que só conseguia imaginá-la nua na cama com ele, ouviu várias sugestões que foi descartando uma a uma, até esgotar a paciência da moça.

           - Olha, desculpe tomar o seu tempo, a sua gentileza, não é nada disso.

           - Pois não, senhor. Estamos aqui para servi-lo. – disse com o semblante de que não era desejado ali.

           Novamente na calçada imprimindo os passos sem que ficasse a marca visível, como os famosos deixavam na calçada da fama, perdido, abobalhado, atulhado de dúvidas, já tinha esgotado todo o seu arsenal de probabilidades. O que deveria fazer, disse ao reflexo no espelho da vitrine de uma loja de calcinhas e sutiãs. Não, roupa intima nunca. Não conseguia nem comprar absorventes, como poderia comprar uma roupa intima para ela? Nunca, gritou o subconsciente.

           - Quanto custa? – perguntou.

           - Duzentos. – respondeu a coreana sem olhar para ele.

           - Duzentos o que?

           - Duzentos reais.

           - Tem desconto?

           - Desconto não.

           - Mas tá muito caro?

           - Se vai querer comprar, compra logo, se num vai querer comprar vou guardar.

           - Está bem, não precisa ser rude.

           - Num ser rude. Ser prática vendedora, negócio, dinheiro.

           - É eu sei.

           Estava quase duas horas naquele antro de bugigangas e tralhas contrabandeadas. Lojinhas minúsculas, apertadas onde mal dava para entrar e escolher com calma. Precisava empurrar, se enfiar entre corpos e corpos de homens e mulheres se quisesse comprar alguma coisa. Falar por cima dos ombros para o vendedor entender. Corredores e mais corredores deixando-o confuso, passando pelas mesmas lojas mais de uma vez.

           - O senhor de novo?

           - Ah! Desculpe, já passei por aqui?

           - O que o senhor acha?

           - Ta bem, não precisa se ofender.

           E lá voltava ele a perambular entre os corredores infernais. Até que conseguiu se achar naquele pandemônio de ida e vindas e vindas e idas. Uma barulheira de vozes e sons indecifráveis.

           - Desculpe. Com licença.

           Conseguiu entrar numa apertada lojinha. Tinha visto uma parafernália tecnológica. Talvez, ela gostasse, vamos ver, pensou ao erguer a cabeça para falar com o vendedor de cara amarrotado.

           - Diga.

           - Queria ver aquele porta-retratos.

           - Este?

           - Não, o outro, da direita.

           - Ah! Este?

           - Não, eu disse direita e não esquerda.

           - Sim. Pronto aqui está.

           Ao mesmo tempo em que o coreano o atendia, atendia também diversas pessoas, tudo numa confusão de vozes, perguntas e esclarecimentos.

           - Por favor, para que serve isso?

           - Ligar televisão.

           - Televisão?

           - É televisão – disse atendendo o sujeito ao lado dele – cinema, música o que quiser.

           - Interessante. Tem garantia?

           - Garantia? É?

           - É garantia.

           - Três meses.

           - Só isso?

           - Só isso mesmo.

           - Quanto é mesmo?

           - Duzentos e cinquenta.

           - Duzentos e cinquenta reais? Tem desconto?

           - ... – silêncio.

           - Faz um desconto que eu levo.

           - ...

           Ele ficou esperando.

           - Tá bom. Desconto, duzentos e quarenta.

           - Dez reais de desconto, razoável. Vou levar.

           Nisso ouviu-se barulho de portas metálicas, de correr, sendo fechadas com estrondo.

           - No. De novo? Segunda vez que eles aparecem. – disse o coreano arrancando o dinheiro e jogando a caixa na mão dele.

           No corredor não pode sair. Três policiais catavam as mercadorias e jogavam para dentro do saco plástico. De repente, ficou cara a cara com os policiais. Sem perguntarem nada, arrancaram da mão dele a caixa e jogaram para dentro do saco.

           - Ei, espere. Isso é meu. Comprei agora mesmo.

           Um dos policiais perguntou para o coreano de cara amassado.

           - Você vendeu para ele?

           - No, não vender nada pré ele.

           - O que? Não me vendeu o porta-retratos?

           - No vende nada aqui.

           - Vendeu sim.

           - Então mostre a nota fiscal – gritou o policial.

           - Não tenho nota nenhuma, eles não dão nota.

           - Então você não comprou nada.

           - Espere. O coreano filho da puta, diga para eles que comprei...

           - No. Coreano não vende sem nota fiscal.

           - Seu desgraçado, vou te bater.

           Os policiais o seguraram, mesmo assim, conseguiu com a mão fechada acertar o queixo do coreano que caiu para trás gritando.

           - Bateu em mim...

           Os policiais o agarraram.

           - Vamos. Vai para delegacia.

           Enquanto o levavam, olhou para traz e viu o coreano entregando um maço de notas para o policial que parecia ser o comandante da operação. Tentou se livrar das mãos dos soldados sem sucesso. Jogado para dentro do camburão, junto com os outros coreanos, sentiu-se humilhado, fraco sem poder agir. Olhou o relógio. Vinte e duas horas! Ela está esperando, é seu aniversário. Deve estar preocupada. Não vai acreditar no que está me acontecendo. Que merda! E enfiou a cabeça entre as mãos e dormiu.

           - Ei. Dorminhoco, acorde.

           Gritou o policial batendo com o cassetete nas grades. Levantou a cabeça sonolenta. Olhou em volta. Estava sozinho na cela.

           - O que foi? Onde estão os outros?

           - Que outros? Não têm outros, só tem você.

           - Como não! Quando me trouxeram tinha bastante coreano aqui na cela.

           - Cê tá sonhando, meu. Acorda malandro.

           - Não sou malandro.

           - Não grite comigo, o meliante, senão passa a noite aí para ver o que é bom.

           - Tá bom, desculpe.

           - Tá desculpado. Pode sair. Está livre. Não há nenhuma acusação contra você.

           - Que horas são?

           - Duas horas da madrugada. Pegue suas coisas e puxa o carro, vamos.

           Pegou suas coisas e saiu na madrugada silenciosa. E, agora, José? Perguntou a procura de um táxi. O que mais o preocupava era que não tinha como explicar para a mulher o que lhe acontecera. Não acreditaria nele. O que ela estaria pensando? Preparou-se para o que desse e viesse.

Acreditaria que andou a cidade toda para achar um presente especial para ela? Que foi preso naquela espelunca tentando comprar um porta-retratos digital? Não acreditaria. Também porque foi entrar naquela merda. Tinha conhecimento que a federal estava sempre dando batida, prendendo, apreendendo, fechando, mas também não podia a polícia esperar ele sair? E agora, José? Sem grana, sem o presente, sem nada, cansado, sujo, suado, cheirando a azedo, a roupa amarrotada. Bom, vamos ao que der e vier, pensou.
Ao descer do taxi, pagando a corrida ao motorista, olhou para cima. Que merda! A luz do apartamento estava acesa, isto queria dizer, que ela estava acordada esperando-o. Esticou o dedo para pressionar o botão do elevador, pensando melhor, decidiu subir pela escada, assim daria tempo para pensar melhor. Eram apenas oito andares.

           O casamento capengava há um bom tempo, desde o nascimento da segunda filha, procurava uma solução para que não degringolasse de vez. Já tinha feito de tudo, chegara ao ponto de se rebaixar, no entanto o ciúme terrível da mulher vinha estragando tudo. Até que um dia, não aguentando, anunciou que iria deixá-la. Disse num momento de raiva, num momento em que a razão falou mais alto que o coração. No mesmo instante se arrependeu. Não voltou atrás, ela não retrucou, ficou quieta, nada disse. Então, ele deixou como estava.

           Foi então, ao se barbear antes de sair para o trabalho, deu um ultimato a ele mesmo. Será hoje, vou procurar um belo presente para ela, tentar conquistá-la, aplacar o seu ciúme aterrador, provar que só ela é que era a dona do seu pensamento. Caso continuasse com os ciúmes decidiria mesmo a ir embora, deixá-la com as crianças. Mas como toda a regra tem exceção, como não podemos saber o que nos acontecerá um minuto antes, teve seu dia de azar. Que merda!

           Ofegante parou em frente à porta do apartamento. Tentou ouvir algum som, nada, silêncio total. Devagar enfiou a chave e girou. A porta foi abrindo lentamente. A sala silenciosa descortinou aos seus olhos. Deu dois passos para dentro da sala. A luz acessa, cruzando o teto estava duas fileiras de balões, ao fundo uma faixa com os dizeres: Parabéns, em cima da mesa viam-se copos sujos, pela metade, pratos de bolos amassados, guaranás tombados, uma cena tipicamente de aniversário. Parado no meio da sala ficou observando o vazio de pessoas. Onde estavam todos? Não o esperaram. Nisso, viu um envelope encostado no bolo. Abriu e leu:

           - Cansei de esperar. Fomos para a casa da minha mãe. Não sei se voltarei.

           Ele deu de ombros. Pegou uma garrafa de uísque, um copo, puxou a cadeira, apoio os pés sobre a mesa, derrubando o resto de bolo no chão. Pouco se importava com ela, no momento o que queria era tomar um bom e gostoso uísque enquanto ouvia o som da madrugada correndo lá fora.

           - Amanhã será outro dia, disse mansamente.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...