segunda-feira, 30 de setembro de 2024

no azul do céu

  

o azul do céu transpassa o vidro de lamina fina e através dos frisos da cortina acaricia a retina dos olhos tristes nesta manhã fria

 

o ar desloca de um lado para o outro a multidão que como a cortina o vento balança num sentir a vivência completando a sina do intenso viver

 

carrego meu corpo em direção ao friso de luz que me levará ao mar bravio para conquistar o que de ti mereço

 

e no azul do céu tranqüilo repousaremos no calor de nossas almas

domingo, 29 de setembro de 2024

no calor da tarde

 

soava nos pés do dia

 o tec tec da máquina

em que costurava o suor

alimentando nossas vidas

 

silenciosamente

ajudava em nosso sustento

não nos deixando

ao relento

 

trazia no peito

o ardor pela vida

compreensiva e humilde

plantava amor

e carinho tendo

na simplicidade

sua força construtiva

que nos deixou

em forma de saudade

sábado, 28 de setembro de 2024

No chão frio.

  

Dois corpos no chão frio do banheiro rolam abraçados no desejo de serem um só quando, um sorri entre o frio dos dentes e diz:

 - Nossa! Como está gelado esse ladrilho...

 Nisso um dos corpos se vira. Estende a mão e interrompe a campainha do telefone.

 - Era engano, disse numa voz arrastada pela emoção de estar ali com quem desejava.

 Ele então voltou para a posição inicial.

 E, a partir desse momento, reviu todas as ações da sua vida como se fosse um traje completo encobrindo os pormenores que não queria esquecer.

 Sentia-se meio ridículo nu e de meias pretas sendo abraçado, mas não se importou, pois o que valia era fazer o que desejava fazer sem guardar qualquer remorso ou algum preconceito maldoso.

 Assim ficou no aconchego frio do ladrilho aquecendo-se no corpo que o abraçava.

 E dormiram toda a eternidade que um prazer poderia proporcionar aos dois corpos no chão frio do banheiro abraçados no desejo de serem só um.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

no fim da tarde

 no fim da tarde

poetas poetam

pelo reencontro

pela nova etapa

 

sempre renovada

a cada copo brindado

a cada conversa revigorada

 

no bar da banca

a isca de frango saborosa

vai bem com loira gelada

 

apreciando a vida que passa

no vai e vem da moçada

que olha e repara

mas logo segue em frente

já que a fila tem que andar

 

e não ficar parada

pois cada um tem o seu destino a cumprir

tem sua história para ser escrita

no grande livro da vida

 

que é nada comparada

ao universo que é tudo

 

a ordenar as passos aflitos

e cansados dos compromissos

compondo assim o tudo

e o nada de cada um

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

No meio do nada

  

No meio do nada

o nada encontramos

na correria efêmera

do dia-a-dia cinzento

 

Corremos em busca

do que pensamos querer

e encontramos o ser

mais perdido que nunca

 

Mesmo assim vivemos

vivemos querendo mais

vivemos desejando mais

vivemos amando mais

 

E na ponta da faca

equilibramos nossas vidas

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

No palco gostoso que é a vida

 

Meu receio é ao deixar esse palco, isto é, essa cena de vir e ir, de condução, ônibus, metrô, esse trajeto da Paulista, esse observar o vai e vem constante de pedestre dos mais diferentes lugares e, dos mais diferentes aspectos físico, penso: será que continuarei escrevendo? Será? Prevejo não sei o que; uma hora escrevendo dia todo, outra hora desenhando, não sei, vou ter que me programar e seguir com obrigatoriedade, como se estivesse trabalhando. Não vou ter mais o silêncio das falas chatas, não vou ter mais o empurra e empurra do metrô, não vou ver mais a Paulista locomotiva das ações políticas, sociais e sexuais, não vou ver mais suas adjacências, bem isto é, não com tanta freqüência. 

Papagaiasses ridículas que num momento diverte, mas no dia a dia aborrece.

Será que verei esse prédio pronto? O trabalhador prédio em construção, num momento de filosofia rural, olha o edifício bonito a sua frente e pensa que talvez a vida que levamos seja melhor que a dele. Que ele não suportaria viver oito horas por dia trancado num escritório sentado à mesa fazendo trabalho maçante. E nós daqui olhamos para ele e não conseguimos entender o que faz uma pessoa ficar dependurada numa altura absurda, arriscando a vida por uma mísera quantia de sobrevivência. Talvez nos acham infelizes e talvez nos pensamos isso deles. Mas a felicidade não esta no que fazemos, está no que fazemos por gostamos de fazer o que fazemos.

A felicidade está em sabermos vivos neste palco gostoso que é a vida.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

não tenho nenhuma oração

 

não acredito em deuses

acredito na vida

e quero vivê-la intensamente

e vivê-la significa aceitar os desígnios dos meus passos com sua trama e seus efeitos e defeitos

e viver sem perdão

o perdão é apenas aceitável aos que não acreditam na vida

acredito na vida

e tudo o mais é ilusório que o livre arbítrio me ilude constantemente

quero o tudo e nada tenho por que simplesmente

sou o que sou o que eu quero ser

o resto não importa se minhas palavras

não caírem no esquecimento entre folhas amareladas

pelo tempo

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Nunca desistir

  

Busco na realidade entender o que abstratamente a vida joga em minha cara no surreal dos dias de sol onde, prisioneiro respiro, os instantes e segundos até que a liberdade venha bater a minha porta.

Corro o risco, é claro, de me tornar desinteressante, mas isso aos olhos dos poucos que me conhecem ou que desejam, de alguma maneira ou de outra, me conhecer.

E incessantemente, chuto baldes de merdas, chuto pedras, desvio de socos, escarros palavras, e me mostro vulnerável pronto a cair e pronto a me levantar e nunca a desistir.

domingo, 22 de setembro de 2024

o acidente

 

... não se ouviu a freada brusca seguida do barulho da batida e nem de lataria retorcida e muito menos de vidros sendo quebrados, não se ouviu nada disso, e, muito menos se pode dizer que tenha sentido o corpo indo para frente e voltado para traz caindo pesadamente no banco, não, não pressentiu nada disso, apenas a batida na cabeça acima da nuca e ele em pé falando descontroladamente sem entender o que dizia, aos seus pés, no chão a bolsa a tiracolo que ele pegou, depois a mulher dizendo, minha bolsa, senhor sai daí logo, e foi então que viu o vidro traseiro todo estilhaçado, e o cobrador falando, alguém se machucou, não ninguém se machucou, foi à resposta, sentia a dor meio que violenta na cabeça, passava a mão na esperança de que não tivesse sido nada mais que uma pancada, os passageiros ficaram indecisos no que fazer, pois o micro ônibus estava atravessado na rua atrapalhando o trânsito o qual queria ser descongestionado findando o buzinar insistente, dali a pouco surgiu o motorista, encostou o veiculo, desceram, desnorteado não sabia para onde ir, foi para a traseira, voltou, desistiu, foi para frente, tornou a voltar, se encostou na parede, por fim deu o sinal para outro micro ônibus que parou, entrou, sentou no último banco, ainda bem que há o bilhete único, senão seria aquela bagunça de pagar ou não novamente a condução, encostou a cabeça no banco, seu controle emocional estava voltando ao normal, apenas a dor furando a cabeça com pontadas finas rasgando as fibras do osso levando-o a passar constantemente a mão na certeza de que fora apenas uma batida e nada mais, fechou os olhos, deixou a escuridão do nada invadir seus olhos, foi pouco a pouco sendo levado, e sorriu, não feliz, sorriu por não estar mais sentindo a dor, sorriu e virou a cabeça para o lado e...

sábado, 21 de setembro de 2024

o ar inebria a noite

 o ar inebria a noite

deixando na tua boca

meu beijo que de repente

enlaça nossos corpos

num longo abraço

 

o poema cheira a rosa

que tão somente perfuma

o ato nos envolvendo

 

o qual caberá o tempo

de levar o seu amor

ao eterno esquecimento

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

o bicho homem

  

na argamassa da cidade

corre a veia da fome medigando

pelas ruas a ignorante miséria

a revolver detritos sentimentais

 

entre ferros retorcidos

molambentos vorazes

engolem o vazio

sem noção de serem

gato rato ou cão

 

e na imundície

de seres vivos

dorme o bicho

homem debaixo

da marquise da vida

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

o circo está formado

 o circo está formado

o pipoqueiro e sua pipoca

o camelô e sua mercadoria

o transeunte e sua curiosidade

o transito parado e sua pressa

o guarda apitando o silencio que não se faz

assim, atores refazem a vida do corpo estatelado no asfalto, sem se importarem com o dia-a-dia da vitima

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

O dia e a noite

  

o dia se enrubesceu ao ver o sorriso de alegria

do menino-adulto que na esquina da dura vida

sem entender a podre existência sofrida

se alimenta do vício esbaldando-se de euforia

 

o dia revoltou-se e estendeu sobre a cena um manto                      

para que ficasse oculta entre sombras de becos escuros                  

e não servisse de exemplo as centenas de nascituros                       

flores do lodo prontas à brotarem causando espanto                      

 

e a noite trouxe no vazio do seu bojo em lágrimas secas

almas que se espreitam nas úmidas calçadas frescas

esfaceladas na agonia da  fome se entregam a sorte

 

noite e dia buscam pseudo-fantasia que reconforte                

dia e noite encontram trancadas todas as portas                      

meninos-adultos, carentes flores semi-mortas ...       

 Pastorelli / Ly Sabas

terça-feira, 17 de setembro de 2024

O frio passeia

 O frio passeia entre os escombros da cidade sem dó e caridade congelando os carentes de sorte propagando a morte.

 

Ruidosos passos da alma, caminhantes ousados, enfrentam  o destino que lhe foram dados ou por eles foram criados.

 

Cristaliza no tempo a memória de cada um marcando com ferro e aço sua permanência criativa ou apenas figurativa.

 

Assim caminha o mundo junto com a humanidade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

O gato.

  

- Porque o senhor não  pergunta para o Japonês?

- E você acha que o gato vai estar lá?

- Eu acho.

- E como você pode ter certeza?

- Ele não estava seguindo a gata preta?

- Estava.

- E até fez aquela barulheira de madrugada.

- É que bateram nas tábuas debaixo da janela.

- A gata preta é do Japonês, se não for dele, é da outra vizinha.

- Não vai adiantar. E depois, se ele falar: É, o gato está aqui sim, mas é da minha filha. O que eu vou dizer.

- Pede para ele provar.

- Provar! Se realmente ele fosse nosso... Mas, ele chegou assim como não quer nada e foi ficando.

É, chegou como não quer nada e foi ficando.

Nunca tivemos um animal, não por que não queríamos, mas porque morando no terreno da casa da sogra, já viu.

Mas o gato chegou miando pelos cantos do terreno, vinha na gente batia com a cabeça com uma certa força na perna como se quisesse algo. Colocamos água, leite, pedaços de carne que meio a contragosto foi comendo.

Cinza, pelo suave, curto, bonito, com uma coleira que, depois ficamos sabendo ser antipulga. Na verdade ele não tinha pulga, não tinha nada que o desabonasse. Parecia ser um gato de madame, vivendo em apartamento, mimado, só comendo na mão da gente.

Resolvemos levar o gato na veterinária. Ah! Para tirar ele de casa, foi um trabalho! O bichano tinha medo da rua. Na primeira tentativa o gato saltou dos meus braços e fugiu para o fundo do quintal. Precisamos, com uma toalha grande, envolvê-lo totalmente, tampando sua cara e, assim mesmo, me deu várias mordidas.

A veterinária não achou nada nele, nenhuma doença, e concordou quando dissemos que era gato mimado, só comia na mão, que deveria ser de alguém que mudou e, procurando a casa antiga se perdera. Nos orientou que comida comprar, deu um remédio que ele tomou na marra e, se prontificou ficar a nossa disposição caso dela necessitássemos.

Já vai para dois meses que folgadamente ele se esparrama no sofá como se fosse o dono. Não é um gato que brinca, pula, corre, salta, não, fica quieto, o maior tempo deitado, se achega no colo da gente e fica todo encolhido.

Mas na manhã de quarta-feira estranhamos, tinha sumido. Trocamos a água, a comida e, mesmo assim não apareceu. Procuramos nos cantos do quintal e nada, não achamos. Ficamos chateados, meio triste, já estávamos nos apegando a ele.

- Isso tinha que acontecer.

- Para onde será que ele foi?

- Vai ver que voltou para sua casa.

- Não sei, acho que ele seguiu a gata preta...

- Fique sossegada, se ele tiver que voltar ele volta.

No fim da tarde já estávamos conformados. Parecia que faltava alguma coisa, sentíamos a falta dele.

À noite, estávamos assistindo CSI (Crime Scene Investigation), quando ouvimos um miado meio distante. Corremos para o quintal. Lá estava ele, miando com fome.

- Sábado vamos levar ele para a veterinária medicar suas feridas.

- Pai!

- O que?

- Mandamos castrar?

- É maldade não acha?

- Acho.

- Se ele futuramente aparecer muito machucado, aí acho que devemos castrá-lo.

 

domingo, 15 de setembro de 2024

O inevitável não tem explicação

  

Se eu vir você de novo eu te mato, entendeu?

 

Disse Luciandro aos gritos para uma Lisiandra comovida, por estar naquele momento fazendo o que há muito tempo achava que deveria ter feito: viver sua vida simplesmente.

 

Não se sentia abalada pela ameaça de Luciandro, pois achava que ele não tinha competência para cumprir a ameaça. Sempre fora um frouxo – pensou - ao puxar a cadeira e olhar para os lados. Sentou-se e cruzou os braços sobre a mesa. Não precisa demonstrar receio, disse para si mesma, relaxe os nervos. Afinal, nada fizera para se sentir perseguida. É que, desde a ameaça do Luci – ele não gostava de ser chamado dessa maneira – sentia como se estivesse sendo seguida. Encravara-se nela uma paranóia, o inconsciente adotara a atitude sem o conhecimento dela. Que mania de sentir-se perseguida, diziam as amigas. Isso é só para chamar atenção - diziam às amigas que se diziam amigas. Não era nada disso, sabia que não era: e então, o que era?

 

A separação fora demais dolorosa. Guardava ainda os gritos de Luciandro. Como foram terminar um relacionamento que, por parte dela, achava que estava às mil maravilhas? É que lentamente, sem perceber, a paixão que os unira foi-se desgastando no egoísmo individual, até que a corda, como dizia sua mãe, arrebentou. Discutiram fora dos limites que duas pessoas ´civilizadas´ poderiam fazê-lo, até que os vizinhos, envergonhados, chegaram até a chamar a polícia. Li não acreditava na ameaça de Luciandro, mas por um mecanismo no sistema de preservação, passou a desconfiar que vinha sendo seguida. E toda vez que chegava a um local olhava para todos os lados, num gesto mecânico que nem percebia estar fazendo. Passara a ser um tique nervoso.

 

Li procurou deixar o corpo ereto numa tentativa em diminuir a dor nas costas. Chamou o garçom. Com olhar mortiço devaneou pelo ambiente da pequena lanchonete com cadeiras distribuídas pela calçada. Escolhera uma que ficava quase encostada à parede procurando se esconder. Era, também, uma estratégia: assim poderia apreciar o movimento da rua e ver quem entrava e quem saia.

 

Assustou-se com a voz grave do garçom. Mecanicamente pediu uma caipirinha. Caipirinha? Ao mesmo tempo sentiu-se deprimida. Fazia tempos que não tomava nada alcoólico. Por quê caipirinha? Queria demonstrar que não estava mais sob o jugo de Luciandro? A verdade é que nunca dera a mínima para as proibições idiotas dele. Se não bebia era para evitar brigas, no que não era compreendida principalmente pelas amigas que achavam que ela estava terrivelmente perdida...e, as amigas  - que se diziam amigas, a chamavam de “dominada”. Li sabia que não era nada disso, mas não adiantava explicar, o inevitável não tem explicação.

 

Acendeu o cigarro. No momento que pousou ligeiramente a mão sobre a mesa, notou. E ao notar o que ocorria, nada nela se alterou -, e muito menos na aparência externa de suas feições femininamente delicadas. Assim recebeu o fato como deveria receber, por que deveria ser assim. E sua mão, levemente pousada sobre a mesa, se movimentou num imperceptível gesto de contração. Pequena dor percorreu todo o seu braço, morrendo na altura do ombro. Sorriu, estava sendo observada. Foi esse fato que fez sua mão tremer levemente. Notou o olhar do homem no outro canto da lanchonete. Isso fez com que um clique soasse em alguma parte do seu organismo avisando que ficasse de sobreaviso. Porque deveria se colocar em sobreaviso, perguntou - ao beber a caipirinha. Quem seria? Alguém a mando de Luciandro? Impossível! Com que finalidade? Seria um detetive? Será que nem de longe estaria livre do maníaco do Luciandro? Besteira. O que tinha que fazer era apreciar o vai e vem da rua. Acendeu outro cigarro. Sua mão tremia quase imperceptivelmente, por dentro. Via na atitude grotesca do homem, com o olhar fixo em seu decote,  uma arrogância provocativa. Fez menção de sair e procurar outro lugar. Mas não daria esse prazer de ser considerada por ele uma vencida. Não, não daria esse prazer, fosse ele quem fosse.

 

Portanto continuou mantendo na superfície da pele a calma necessária. Num gesto decidido apagou o cigarro no cinzeiro já cheio. Não atinava o que faria com os dias que agora tinha livres. Planejara sonhos, sonhos que queria realizar...e que devido ao contratempo chamado Luciandro, foram se desvanecendo. Assim, como um raio cristalino, um a um. Pediu mais uma caipirinha. Notou que o garçom não tirava os olhos de suas pernas. Não se mortificou com o fato, aliás, não deu importância: saindo dali seria totalmente esquecida. O homem continuava observando-a. Será que era detetive? Tinha aparência de ser. Paletó, gravata, rosto quadrado, feições rústicas, grossas sobrancelhas, nariz delicado, boca larga, pele queimada, deveria ter um metro e noventa de altura. Tinha realmente aparência de detetive.

 

Estremeceu. Um filete estranho introduziu-se em sua mente forçando o fluxo do pensamento. Não se preocupou com a interiorização ao surgir a idéia maluca. Precisava de uma aventura. Melhor, queria ter uma aventura. Assim, demonstraria tanto para ela como para Luciandro que tinha capacidade de curtir a vida com seus quase trinta anos. Sabia-se bonita e atraente. Por quê não conquistar o homem que estava esquadrinhando sua figura? E cujo olhar, a percorrer seu corpo devagar deixava um rastro quente? Poderia, assim, ter a certeza de quem ele realmente era.

 

Preparou-se colocando os nervos no lugar. Deu uma ordem pra que a mão parasse de tremer. Dirigiu o olhar ferino em direção ao homem que, para sua surpresa, já pagava a conta.

 

Horrorizada, viu o homem que provocara seu desejo tatear, à procura de algo fora de seu foco, pegar uma bengala branca, levantar-se e sair da lanchonete. Vagarosamente.

sábado, 14 de setembro de 2024

o jardim resplandece

 o jardim resplandece em luz, sombras e formas definidas

a sombra surge da luz e emoldura os contornos sutis no mármore do tempo

a forma tem o vazio, onde a paisagem em silêncio, traz a palavra terra no fundo do olhar mudo

assim, surge a dor estampado em estrelas luminosas no jardim em sombras e formas definidas.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O micro preto, o teclado preto e o mouse preto.

 

Ouvia os mecanismos em seu interior trabalhando para mantê-lo em pé, se não ouvisse pouco se importaria com as dores, com o cansaço, com a angústia e outras coisas que afligiam e  comumente eram chamados de problemas. Mas um problema, para ser realmente chamado de problema, só se o mundo desabasse. Como o mundo não desabava, não havia problema nenhum.

Desviou-se da mesinha onde estava uma senhora elegantemente vestida. Sua tranqüilidade contrastava com o movimento das pessoas que, nessa hora da manhã, estavam apenas preocupadas em chegar a algum lugar.

Parou à espera do farol abrir e imaginou se um dia conseguiria caminhar tudo o que lhe estava predestinado, ou melhor, se conseguiria chegar até o fim. Havia uma enorme pressão dele próprio que o fazia movimentar a onda de moléculas à sua volta. Atravessou a rua num sonambulismo aterrador, com o olhar fixo num ponto distante de sua mente. Na mansidão do sol banhando os prédios, arrancou o crachá da bolsa, liberando a catraca para adentrar por oito horas na prisão de sempre, suportável apenas por precisar sobreviver. O reflexo das luzes acesas no ladrilho do corredor, numa simetria grotesca, feriu seus olhos, lembrando-o de suas obrigações e responsabilidades.

Assim, livrou-se das idéias, ligou o micro preto com seu teclado e mouse preto, conscientizando-se de que estava amando cada vez mais a vida.

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

o muito que eu tenho

 o muito que eu tenho é o nada nesse caminhar sobre os passos onde becos ecoam silêncios de vozes unindo nossas almas ao mesmo destino

 

o muito que eu tenho é frio dos versos levados pela corrente das adversidades costurando numa só nossas vidas

 

o muito que eu tenho está na natureza da minha individualidade que mesmo vivendo nesse mundo louco posso afirmar que eu te amo

 

o muito que eu tenho é o vazio da vertigem nos envolvendo malignamente no limite que temos enchendo-nos de felicidade e alegria

terça-feira, 10 de setembro de 2024

O nosso amor se enveredou

 

O nosso amor se enveredou na mata da cidade, dispondo-nos ao afago das praças.

 

Nós dois partimos a esmo colhendo o beijo secreto nos mármores das estátuas pichadas.

 

Nasceu dessa nossa individualidade, o ódio levando-nos as desventuradas dores da solidão.

 

E a cinza da Fênix no vento da amargura, semeou nosso destino no crepúsculo apagado conferindo-nos a imortalidade dos perdedores.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

O passado não me interessa.

  

O vento balança a angústia e se dispersa na rotina de papéis que vão sendo arquivados em caixas de papelão. Registros de vidas guardadas no tempo que não espera nossa decisão. Jogo para dentro a magoa, lacro a caixa, e chamo o carregador para levá-la.

Não adianta alimentar sentimentos masoquistas, também não posso fugir deles. Faz parte da paixão que consume o nada.  Apenas a voz do Milton Nascimento repete nada, nada, nada, que se infiltra, fibra por fibra, na sensibilidade.

Nada é onde caminho num prazer á procura de reaver a última lembrança. Procura que me leva de bar em bar, consumindo chopes um atrás do outro, tendo no rosto o sorriso de caçador e, por fraqueza, surrupio carícias entre um olhar e outro na luz difusa do bar decadente.

Não olho o passado, ele não me interessa.

domingo, 8 de setembro de 2024

O ponto

 

O ponto encerra a sentença para que se possa começar outra sentença, seguindo o raciocínio da primeira ou completamente diferente.

 Representa quase sempre o final, encerramento de algo.

 Ponto de ônibus: Ajuntamento de pessoas a espera da condução para que se possa locomover de um lugar ao outro.

 Ponto de táxis. Ajuntamento de carros a espera de pessoas para levá-las de um lugar ao outro.

 Ponto onde se marca a posição dos atores, tanto no teatro como no filme e, assim, possa apresentar um espetáculo digno de ser assistido.

 Ponto de costura onde a linha une ou remenda panos esgarçados ou não, ou ainda, onde pano devidamente cortado, costurado com pontos pequenos, cria-se uma vestimenta, um vestido, um terno, uma saia ou uma camisa.

 Ponto cirúrgico onde o médico competente costura o corte feito na carne lesada por algum ferimento ou doença.

 Ponto, texto didático que o professor expõe aos alunos numa classe de aula.

Ponto, uma pequena mancha arredondada que serve para finalizar um enunciado, um texto, um pensamento.

Ponto, sinal deixado por uma picada de agulha, ou de algum inseto qualquer, pernilongo principalmente.

Ponto, na geometria é o limite entre a interseção de linhas.

Ponto, cada uma das pintas nas faces dos dados ou nas cartas de jogar onde o viciado perde até a alma.

Ponto, livro que se marcam as faltas ou o comparecimento dos funcionários prisioneiros da sobrevivência.

Ponto, grau de consistência que se dá ao açúcar em caldo para satisfazer a cozinheira orgulhosa de seus comensais.

Ponto,  enfim, vários outros motivos ou definições que se pode usar o ponto, mas aqui serve para colocar um fim neste texto inconsistente que está apenas enchendo lingüiça e nada mais.

sábado, 7 de setembro de 2024

O promotor tinha razão?

 

O promotor até que tinha certa razão, só que não podia levar em consideração com tanta eficácia o depoimento de um menino que na época do crime tinha onze anos. Jogou a responsabilidade para os jurados, acontece que estes não possuem uma qualificação contundente, ficaram quietos, não caíram na falácia do promotor. A acusação deveria antes ter pedido o livro de fotos para reconhecimento e no julgamento tivesse o livro à mão e assim sanar a dúvida. Os réus quando detidos, como é de praxe, são fotografados, e na ocasião um deles estava com barba. Quando o menino, no tribunal, não reconheceu um dos réus, pois ele estava sem barba. Foi então que o promotor acionou seus asseclas e conseguiu a informação que na prisão os condenados não podem ter barba e nem cabelo comprido. Por isso o réu estava ali sem barba.

O pior ou o mais engraçado, é que a mãe do menino reconheceu os dois réus sendo até categórica com relação ao que matou o marido. E outro ponto que achei que o promotor estava com a razão. Um dos réus, o que realmente matou o pai do menino estava de camiseta branca e, o outro, estava com blusa vermelha. O promotor queria que eles trocassem de camisa e blusa para ver se o menino realmente reconhecesse o que estava sem barba. Mas o juiz não concordou por estar o promotor fazendo as coisas como se fosse ele o dono do plenário, o que achei que ele, o promotor se excedia, mas a idéia era boa. Foi infeliz não propondo ao juiz sua idéia antes de realizá-la.

Dois sujeitos tinham ido a favela cobrar uma dívida, mas ao chegar lá foram perseguidos por um bando de seis caras e, na fuga, entraram na casa do pai do menino assassinando o coitado friamente na frente do filho e da mulher. E os dois, mãe e filho, acusaram ter sido o réu de camisa branca.

Encurtando a história, o réu de camisa branca pegou dezoito anos de cadeia, com atenuante, pois além de matar o pai, feriu outro, e na ocasião ele tinha dezoito anos. O outro réu foi absolvido mesmo fichado na polícia e ter já pego cadeia por delitos anteriores.

Isso é a vida...

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

O que comigo se passa

 

Lampejam os meus olhos fixos na vontade de viver cada manhã como se fosse a última.

Trespassa o momento num brilho de contorno pardacento e meio que colorido, interrogando o destino dos meus passos na calçada fria e irregular dos sentimentos.

Seria como se eu estivesse num profundo sono trazendo a tranqüilidade na face dos mortos feridos pelo sono eterno.

As linhas do tempo ferem com turvas manchas do esquecimento emoldurando meu corpo numa fimbria de luz.

Existe uma qualidade fria de me queimar constantemente com a brasa viva de cada palavra que ouso expressar.

Portanto me mantenho na quietude em meio às grosseiras e pontudas palavras semicerrando as pálpebras para não revelar o que comigo se passa.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O senhor e a criança.

 

Mãos espalmadas alcançam o teto das indignações.

Sentidos equilibram-se no movimento das emoções desencontradas.

Ouvidos atentos procuram nos sentimentos dispersos apoio à preocupação em chegar no horário do destino.

Nisso uma pequena mão espalma sua curiosidade na página do livro que o senhor de cabelos brancos está lendo.

Desviando o olhar da página, o senhor ergue os olhos e meigamente sorri para a criança que no colo do pai ou de algum parente, retribui com aquele olhar perdido, talvez sem entender o que se passa.

Os pequenos dedos ainda em crescimento tentam pegar o livro e sorri como se dissesse: “Não tenho medo do senhor.”

E novamente sorri agora despreocupada sem saber os perigos da vida.

Dali a instantes o senhor fecha devagar o livro e estende para aquela mão virgem de caricias e ações.

A criança tenta segurar o livro e não consegue.

O senhor sorri.

Retira a mão da criança que abraça como pedindo proteção o pescoço do pai ou de algum parente,

O senhor guarda o livro em sua pasta e, acariciando a pequena mão, se despede da criança que não vê nele mais nenhum perigo.

A voz do alto falante anuncia o fim da viagem onde, o senhor e a criança se dispersam  na poeira dos compromissos esquecendo-se um do outro.

 

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

terça-feira, 3 de setembro de 2024

O sol em gotas de suor

 O sol em gotas de suor trinca o asfalto que escorre manchando minha camisa branca. Entre as mesas desocupadas, silencioso, sou envolvido pelos ruídos da existêncialidade de cada um onde a finalidade é de que tudo que acontece é chamado de destino. Mas pergunto: Onde está que não me encontram? Eu que devo procurá-los? E porque tem que ser assim? E não cinematograficamente: Não seguimos o script? Então?! Onde está que não me encontra? Não! Não me recrimine. Estou te procurando sempre. Você que não me acha. Eu que sou culpado? Acho que não estamos sempre no lugar certo e na hora certa. Concorda? Será que um dia estaremos no lugar certo e na hora certa?

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O tempo está impregnado

 O tempo está impregnado de vontade onde o ser tendo ou não qualidade sempre será modificado.

 

Continuamos e devemos continuar embutidos no doce calor da esperança envolvidos pelo amargo papel da saudade.

 

O tempo cobre o chão de verde mata assim como de verde cinzenta das queimadas e a lembrança desliza como frio manto da futilidade.

domingo, 1 de setembro de 2024

O vento balança a angustia

 O vento balança a angustia dispersando os papéis arquivados em caixas frágeis de papelão. Registros de momentos guardados no tempo que não espera. E a paixão se acomoda na saudade que me consome. Se nada com nada é o que eu digo, porque nada talvez tenha a dizer. Só a música se infiltra fibra por fibra, elevando o grau de sensibilidade à máxima potência do meu sentimento. Se nada digo, é porque na sexta o vazio caminha à procura da ultima esperança. 

A procura do último bar. Do último chope, do último sorriso. Caçador passa a ser caçado, rouba carícias entre um olhar e outro na luz difusa do bar. Faminto, age sorrateiramente vagando por mesas e corpos que, como ele, também espera. Pouco se importa com a situação. Aprendeu a eliminar o tédio de sempre se estar só.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...