Lane estava parada, meio que encostada na porta,
confiante dentro do vestido preto. Trazia nos lábios um sorriso curto e nos gestos uma refinada lassidão ao comer em pequenas
garfadas preguiçosas o bolo comprado na doceira.
Demorava propositadamente cinco minutos mastigando cada pedaço que colocava na
boca. Seu olhar penetrante se ampliava na vastidão do pensamento, atravessava o
espaço sem atingir um alvo especifico. Nisso duas lágrimas escorreram, sem que músculo algum se
alterasse em sua bela fisionomia, salgando o delicioso bolo.
– Pouco me importo se ele vem ou não. - pensou,
consultando o relógio, presente de Sandoval.
Se não se importava porque continuava esperando?
Alimentava alguma esperança? A razão gritava que não, o corpo implorava que
sim. Enquanto não se decidia, a dúvida era adoçada, atenuada, assim como
lentamente o pedaço de bolo sumia do prato. Certas mulheres quando angustiadas
não comem nada, mas com Lane a coisa era diferente, tomada por uma
compulsão incontrolável , comia um doce
atrás do outro. De vez em quando olhava
para os lados na esperança que ele aparecesse. Ou caminhava pelo corredor do
shooping lentamente, de uma porta a outra. Tentava se manter calma, contudo a
pele tremia num regozijo de raiva, insultando-a vergonhosamente. Sempre calma,
razoável, compreensível, e, no entanto, era tomada agora por um descontrole berrante.
Agia de uma maneira completamente diferente da Lane na
noite de autografos. Apesar do momento que, para ela era grandioso, embora
achasse não ser
preciso todo aquele aparato, sua calma
foi gritante até para os amigos e parentes que, estranharam conhecendo-a como
conheciam. Com fama de tímida, que se
envergonhava por qualquer coisa, Lane mostrou-se competente, segura de si,
flanando exuberante por entre os convidados.
— Lane leia para nós, por favor. - uma voz anônima se fez ouvir lá do fundo.
Sem pestanejar, abriu o livro e leu três poemas, fazendo
sua voz soar como cristal por sobre as pessoas. Nesse exato momento viu
Sandoval conversando com um desconhecido que não lembrava de haver
convidado. Não deu a mínima atenção, continuo a leitura com voz firme e segura.
Ao terminar foi ovacionada calorosamente. Seu sorriso de felicidade partilhava
com o noivo Sandoval, com os convidados e com as amigas. Nada mais lhe
aconteceria, o que justificava sua
atitude ao dizer que estava pronta para enfrentar o passo seguinte da sua vida
que seria, talvez, o casamento.
Enquanto conversava com a Frô, respondendo suas perguntas
quando viu Sandoval conversando com o desconhecido.
- A Eliane não poderia vir; a Asta, olha ela lá
conversando com o editor; a Amélia mandou um lindo cartão, depois eu te mostro;
a Silvana Guimarães escreveu o prefácio do livro, ligou dizendo que está a
caminho.
E ao virar o rosto para cumprimentar Isabel, pela segunda
vez viu Sandoval falando com o desconhecido. Quem será ele? Estava curiosa,
queria saber quem era, mas não podia deixar de cumprimentar a Silvana que
acabava de chegar. Reparou que os dois se afastavam como se quisessem ficar
sozinhos.
Voltando a realidade, impaciente, consultou o
relógio. Atrasado, estava atrasado mais de uma hora. Saiu do shooping e ao atravessar
a rua, foi pega pelo braço. Era Sandoval:
- Desculpe, me atrasei.
- Tudo bem. - respondeu como se nada tivesse acontecido.
Vendo o noivo o rancor desapareceu. Ao toque da mão
quente a ira se desvaneceu. Ouvindo a voz máscula, aconchegante, suas pernas
arquearam. Havia nela uma necessidade em tê-lo para si, ter a carne dele em sua
carne. Não suportava ficar longe por muito tempo. Reconhecia o desespero em que
se encontrava, mas ao lado de Sandoval, toda e qualquer preocupação sumia.
E aquela noite foi surpreendente. Lane descobriu um
Sandoval que não conhecia . Convido-a para jantar num dos melhores
restaurantes; tomaram champanhe, coisa que há tempos não faziam; recusou seu
apartamento e não aceitou ir para a casa dela. Foram para um hotel requintado
onde passaram a noite mais formidável que Lane jamais pensou que um dia
passaria. Sentiu-se realizada, completa, pronta para o futuro.
No dia seguinte acordou na fluidez do sonho sem entender
o que realmente acontecera. Ao se espreguiçar viu sobre a penteadeira um ramalhete
de flores e ao lado uma carta. Abriu a carta:
- Querida, te amo, sou sincero. Estou indo embora.
Perdoe-me.
Nisso ouviu dois toques de buzina. Foi até a janela e lá
estava Sandoval ao volante do carro acenando um adeus para ela, tendo ao lado,
o rapaz com quem estivera conversando durante a noite de autógrafos.