quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Lanchonete

  

O asfalto brilha o sol amarelo no toldo da lanchonete

Do outro lado da rua, a escavadeira molda o terreno seguindo pré-determinadas ordens

A vida trepida suas moléculas de beleza nua na tarde de sexta-feira

Da lanchonete aprecio o alquímico vir e ir de situações momentâneas ao comando da vida

Inserido nessa alquimia, componho a grandeza de ser eu mesmo, constante em busca de ser eu e nada mais

O vento movimenta partículas invisíveis, arrasta a folha seca que desaparece do meu campo de visão

Da lanchonete olhares se cruzam despreocupados de suas individualidades mortas

Arrisco uma frase de efeito no poema alcoólico ferindo o conteúdo e desprezando a forma

Feito isso, assino o poema, peço a conta, pago e me ponho a caminhar nesse sol que brilha no asfalto o amarelo do toldo da lanchonete

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Lane

  

Lane estava parada, meio que encostada na porta, confiante dentro do vestido preto. Trazia nos lábios um sorriso curto e nos gestos uma refinada lassidão ao comer em pequenas garfadas preguiçosas o bolo comprado na doceira. Demorava propositadamente cinco minutos mastigando cada pedaço que colocava na boca. Seu olhar penetrante se ampliava na vastidão do pensamento, atravessava o espaço sem atingir um alvo especifico. Nisso duas lágrimas escorreram, sem que músculo algum se alterasse em sua bela fisionomia, salgando o delicioso bolo.
 – Pouco me importo se ele vem ou não. -
pensou, consultando o relógio, presente de Sandoval.

Se não se importava porque continuava esperando? Alimentava alguma esperança? A razão gritava que não, o corpo implorava que sim. Enquanto não se decidia, a dúvida era adoçada, atenuada, assim como lentamente o pedaço de bolo sumia do prato. Certas mulheres quando angustiadas não comem nada, mas com Lane a coisa era diferente, tomada por uma compulsão incontrolável , comia um doce atrás do outro.  De vez em quando olhava para os lados na esperança que ele aparecesse. Ou caminhava pelo corredor do shooping lentamente, de uma porta a outra. Tentava se manter calma, contudo a pele tremia num regozijo de raiva, insultando-a vergonhosamente. Sempre calma, razoável, compreensível, e, no entanto, era tomada agora por um descontrole berrante.

Agia de uma maneira completamente diferente da Lane na noite de autografos. Apesar do momento que, para ela era grandioso, embora achasse não ser preciso todo aquele  aparato, sua calma foi gritante até para os amigos e parentes que, estranharam conhecendo-a como conheciam.  Com fama de tímida, que se envergonhava por qualquer coisa, Lane mostrou-se competente, segura de si, flanando  exuberante por entre os convidados.

— Lane leia para nós, por favor. - uma voz anônima se fez ouvir lá do fundo.

Sem pestanejar, abriu o livro e leu três poemas, fazendo sua voz soar como cristal por sobre as pessoas. Nesse exato momento viu Sandoval conversando com um desconhecido que não lembrava de haver  convidado. Não deu a mínima atenção, continuo a leitura com voz firme e segura. Ao terminar foi ovacionada calorosamente. Seu sorriso de felicidade partilhava com o noivo Sandoval, com os convidados e com as amigas. Nada mais lhe aconteceria, o  que justificava sua atitude ao dizer que estava pronta para enfrentar o passo seguinte da sua vida que seria, talvez, o casamento.

Enquanto conversava com a Frô, respondendo suas perguntas quando viu Sandoval conversando com o desconhecido.

- A Eliane não poderia vir; a Asta, olha ela lá conversando com o editor; a Amélia mandou um lindo cartão, depois eu te mostro; a Silvana Guimarães escreveu o prefácio do livro, ligou dizendo que está a caminho.

E ao virar o rosto para cumprimentar Isabel, pela segunda vez viu Sandoval falando com o desconhecido. Quem será ele? Estava curiosa, queria saber quem era, mas não podia deixar de cumprimentar a Silvana que acabava de chegar. Reparou que os dois se afastavam como se quisessem ficar sozinhos.

Voltando a realidade, impaciente, consultou o relógio. Atrasado, estava atrasado mais de uma hora. Saiu do shooping e ao atravessar a rua, foi pega pelo braço. Era Sandoval:

- Desculpe, me atrasei.

- Tudo bem. - respondeu como se nada tivesse acontecido.

Vendo o noivo o rancor desapareceu. Ao toque da mão quente a ira se desvaneceu. Ouvindo a voz máscula, aconchegante, suas pernas arquearam. Havia nela uma necessidade em tê-lo para si, ter a carne dele em sua carne. Não suportava ficar longe por muito tempo. Reconhecia o desespero em que se encontrava, mas ao lado de Sandoval, toda e qualquer preocupação sumia.

E aquela noite foi surpreendente. Lane descobriu um Sandoval que não conhecia . Convido-a para jantar num dos melhores restaurantes; tomaram champanhe, coisa que há tempos não faziam; recusou seu apartamento e não aceitou ir para a casa dela. Foram para um hotel requintado onde passaram a noite mais formidável que Lane jamais pensou que um dia passaria. Sentiu-se realizada, completa, pronta para o futuro.

No dia seguinte acordou na fluidez do sonho sem entender o que realmente acontecera. Ao se espreguiçar viu sobre a penteadeira um ramalhete de flores e ao lado uma carta. Abriu a carta:

- Querida, te amo, sou sincero. Estou indo embora. Perdoe-me.

Nisso ouviu dois toques de buzina. Foi até a janela e lá estava Sandoval ao volante do carro acenando um adeus para ela, tendo ao lado, o rapaz com quem estivera conversando durante a noite de autógrafos.

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Luzes do meio dia

 

 percorrem nuvens azuladas misturadas ao branco cinza da temperatura de verão nada prometedor. Reflexos das comemorações passadas entre brindes e uivos de vivas condicionados na esperança de nos primeiros dias ao raiar do sol possam ter como premio a tão falada felicidade. Nuvens esparsas se condensam sem prenunciar chuva descaracterizando o tom cinza ao dia que se torna noite e amanhã úmida promete um dia abrasador.

 

Bem que tentei fazer parte do clubinho dos populares, dos que se julgam os tais, não nasci para estar no primeiro plano, para ator principal, sou coadjuvante...

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

luzes refletem sombras

 


entre transeuntes e carros apressados

a noite chega mais uma vez

bebemos novamente a vida

 

encontro repetido

um novo encontro

tim tim! saúde!

aos Rascunhos Poéticos

 

Bittar / Pastorelli

domingo, 27 de outubro de 2024

maçã

 

tua forma avermelhada não me inspira à poesia

me inspira a comê-la e assim acabar com a minha azia

sábado, 26 de outubro de 2024

Mais um Natal

 Mais um Natal corre nas veias da cidade com suas frias luzes e com suas metálicas musicas.

 

Marionetes pipocam falsa felicidade no deslumbrar da fome em cada esquina da Paulista.

 

Risos nervosos escondem a alegria fútil do prazer consumista abarrotando lojas tétricas.

 

E, todos os anos, crucificamos Cristo sem que percebemos.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Mais uma vez

  

Mais uma vez me deixo envolver na vida por amá-la demais e, peregrino, percorro todos os meandros da insana vivência que há entre os edifícios humanos na vã esperança de alcançar o nirvana total.

 

Mais uma vez o ruído interpenetra na atmosfera do silêncio como arma destruidora obrigando a um reconstruir incessante num labor estafante cujo perigo não posso desprezar.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Masoquismo

 

Pelo balcão de mármore preto, vozes escorrem em indecifráveis espumas brancas.

Espelhos partem em intrincáveis pedaços em incógnitas direções refletindo luzes opacas no masoquismo das sextas-feiras.

Bebem-se aflições maceradas pela bebidas regurgitando desagradáveis risadas.

Todas sextas-feiras são iguais, poucas diferenças há entre uma e outra.

A diferença quando se faz presente está na companhia, o que, nem sempre se tem a perfeita companhia para saborear um bom chope gelado.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

meu amor

  

meu amor é luz que devora

a sombra dos corpos ungidos

num só conjunto de formas

em noite cálida e enluarada

 

meu amor é composto de gesto

que alimenta minha paixão

num descrever de poéticos atos

enaltecendo meu pobre coração

 

meu amor é isso e não é nada

quando perto provoca em meu peito

 o desejo de possuí-la o ano inteiro

 

meu amor é nada e é isso tudo

quando longe a saudade incita

a morrer cada minuto que passa

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Meu eu primeiro

  

Essa teimosia em realizar gestos invisíveis de viver um pouco cada dia, é que me leva a percepção das coisas que me rodeiam e que influem em minhas decisões.

Nem sempre as decisões são espontâneas, mas são carregadas de uma força interior que corroem o sistema nervoso por não poder ser livre e ao meu gosto.

Quando há a espontaneidade, me assusto, pois não estando acostumado julgo ter feito um inconveniente e, o pior, é que me faz cair numa censura intimidando-me a encolher e ficar quieto até que a poeira se assente.

É uma armadilha que me aprisiona dentro de mim  mesmo e faz com que eu retroceda devido ao receio de me mostrar na totalidade como deve ou deveria ser o meu eu primeiro.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

meus passos me levam

  

meus passos me levam de um lugar a outro

passos que não tropeçam

no íngreme caminho da vida que me leva

vou a nenhum lugar chegando

à noite que me prepara

a ter aflição como companheira

escondo a face conturbada na tristeza de amar

angustiado espero tua volta

quando todos os dias abro a janela

e deixo entrar tua ausência

domingo, 20 de outubro de 2024

Mil faces na Páscoa de 2006.

  

O sol reparte a vida em claridade e sombras que languidamente se estendem por prédios, carros, pessoas famintas ou não, árvores, concreto, calçadas limpas, esburacadas, fachadas protegidas por máscaras individuais preocupadas apenas com a aparência compondo assim o meio dia dessa quinta, véspera de feriado.

 

Deslizo como zumbi esfomeado de saber que a vida não mudará só porque tomei determinada decisão. Sou mais um ponto na cosmologia da cidade, o qual percorro labirintos que sossegado transpiro numa aderência pragmática que interfere na pele.

 

Mas essa interferência poderá ser uma visão solitária dos prédios que se erguem altivos para o além como monstros assustadores retaliando vidas que não conseguem um pouco de ar para respirarem normalmente.

 

Interferência que se estende até segunda onde a manhã  de frio,  vento e garoa transcende preocupações que se poderá tomar a semana toda.

 

O que não me preocupa, pois as preocupações devem ser resolvidas uma a uma conforme forem aparecendo e, não antecipadamente como muitos tentam fazer.

sábado, 19 de outubro de 2024

minha alma não sonha

  

minha alma não sonha mais

meus olhos parados não enxergam mais

não é mais a razão da minha vida

enlouquecido me tornei

folheio sempre o mesmo livro

releio sempre a mesma história

tornei-me frágil

fechei a boca

morro sem principio

e sem fim

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

minhas mãos deslizam

  minhas mãos deslizam

no corpo da tua

refletida na tua

pele nua

 

dentro desse

aforismo louco

teu nome pronuncio

num grito eco

toda essa paranóia

desenfreada e louca

quinta-feira, 17 de outubro de 2024

Mozart

  

A boa música emerge em meio a suave chuva que nesse momento desaba sobre a Paulista, onde transeuntes caóticos no vai e vem da vida, nada sabem sobre Mozart, transcendendo toda e qualquer razão emotiva que consiga transmitir a universalidade musical com a universalidade humana.

quarta-feira, 16 de outubro de 2024

muita coisa

 

não me lembro

o que me lembro

está nos poemas

nas crônicas

nos contos

e nas memórias

que ao longo

da vida escrevi

 

se quiserem de mim saber

isto ou aquilo

é só lerem meus relatos

que realmente saberão

se bem ou mal

eu existo

terça-feira, 15 de outubro de 2024

na escura noite

 

procuro teu rosto

busco teus lábios

para um beijo

gostoso e prolongado

 

acaricio os seios

do teu sentimento

abraço teu exausto corpo

que lânguido repousa

entre os lençóis

 

um brilho louco

brilha dos meus olhos

desejando-te imensamente

 

porém

num gesto mortal

expulso da cama

sou acordado

pelas lambidas

do maldito

do teu cachorro

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

na paz do teu olhar

 na paz do teu olhar

és a força

que me conduz

 

tua alma

luz cálida

que me ilumina

é seiva

que me alimenta

 

em você

encontrei

a doce paz

que sempre

procurei

domingo, 13 de outubro de 2024

Na tela do monitor

 Na tela do monitor enquanto o sol bate na parede branca cinza do prédio, onde funcionava um hospital, o cursor aguarda o momento para deixar no seu rastro símbolos que formarão palavras. Ao longe soa o martelar de ferros na construção de prisões verticais... Sombras deslizam silenciosamente emborcando o tempo e espaço numa coisa só... Nuvens se dispersam aclarando o azul que se mostra límpido...

 

... as palavras demoram pra pousar no lugar correto do meu entendimento... 

sábado, 12 de outubro de 2024

nada sou

 

serei nada

nada sou

se realmente deixei

de ser o que não sou

 

se não sou

o que eu deixei

de ser

nada serei

o que eu sou

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

não acreditei

 não acreditei

que tudo acabou

quando você me deixou

 

bateu a porta

da rua e gritou:

a vida boa você levou

 

não me importei

deixei meus passos

me levar pro mundo afora

 

pois o que sei agora

é que nunca acreditei

que realmente

você fosse embora

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Desistir

 

não desisto

se o matar é algo constante

até mesmo fato presente

 

não me conduz ao hábito

mesmo que seja tarde

 

corro em disparada

na auto estrada

 

fujo da angústia cega

desviando-me da vala

profunda e certa

 

percorro ruas, pontes e estradas

recorro às memórias passadas

e despreocupado

abro cartas dinamitadas

 

não desisto

não há volta

se houvesse volta

sei que não

seria essa

a hora exata

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Não pense mais no assunto

 Correu o dedo sobre o amendoim. Onde e quando foi que escreveu essa frase? Correu o dedo sobre o amendoim salgado que o garçom trouxera.

Lembrava até da cena nitidamente. Mas onde e quando escrevera? Gostava de amendoim, é claro, mas isso não queria dizer nada.

Na mesa ao lado, quatro rapazes conversavam bravatas entre um copo e outro de cerveja. Eles, também não saberiam dizer quando escrevera a frase. E muito menos o garçom, que neste momento, aproveitava a folga para conversar com o chapeiro. A televisão estridente também não o ajudava em nada, pelo contrário, atrapalhava.

Correu o dedo sobre o amendoim.

Correu o dedo alongando o máximo possível e, um a um, foi fechando sobre a caneta. Ao sentir a frieza do objeto entre seus dedos, começou a escrever aleatoriamente.

A mão deslizava cobrindo as linhas da velha agenda, preenchendo-as com garatujas que mal se conseguia entender. Descendo linha por linha, a caneta imprimia na folha, ao comando da mão, palavras na agenda de três anos atrás.

E sem se resolver, estrangulou o temor da frase no fundo do copo, colocou ponto final e fechou a agenda não pensando mais no assunto.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

não quero o poema

isto ou aquilo

 

quero o poema

aqui e agora

 

quero o poema

alegremente despudorado

 

quero o poema

vida no teu corpo

sempre homenageado

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Naquela noite.

  

Imaginei dizer ao meu amor palavras que revelasse todo meu sentimento, mas naquela noite, a paixão conduziu os gestos na palma da mão em lascivos volteios ensandecidos e, criei um mundo que logo se desfez pela temporalidade do momento onde, cada um levou o seu mundo de lembrança dentro do peito que nos aquecerá até o próximo encontro.

domingo, 6 de outubro de 2024

“Naquele dia de verão em que choveram flores vermelhas”

 

o sol por entre os edifícios as dores da manhã resplandece no murmúrio de vida e o vento metálico sibila, numa morna aragem, as folhas das árvores balouçando rumores esquecidos onde, absorto na minha prisão diária, pela janela embaçada, construo os passos nesta prosa poética, tentando assim matar a saudade que nesse verão frio, vejo a cena emoldurada pelo batente da janela, como fotografia fixada na retina do meu flash, e do azul do céu, caem flores vermelhas atapetando a avenida dos bancários homens de negócios que só se importam com dinheiro e no canto da esquina, a mulher faminta, recolhe em sua mão as flores vermelhas que lhe aquece o coração

sábado, 5 de outubro de 2024

Nascimento.

 

Corria, e como corria! Seus pés chapinhavam no lamaçal, produzindo um som seco e angustiante. De vez em quando, tropeçava, não chegava a cair, pois suas mãos ágeis, apoiavam-se no desespero de ser alcançada pelo espectro tenebroso que a seguia. Com esforço endireitava o corpo e colocava mais agilidade nas pernas quebrando a água em reflexos onde a lua repartia em pequenos brilhos de medo.
 
Corria, e como corria! Corria na medida certa da afobação, lutando aflita em sair do charco sombrio de sua aflição. Seu pai, que nunca tivera medo de nada, lhe ensinara a enfrentar o medo, principalmente o abstrato medo que vem lá de dentro e aterroriza o viver cotidiano. E, ela, enfrentava sim, enfrentava com determinada coragem que seus pés conseguiam levá-la longe do perigo. Não estava fugindo, claro que não, covarde não era, estava sim, tentando ganhar tempo, conseguir aplacar a dor vazia que alimentava seu alucinante sentir-se perseguida pela sombra de algo que não sabia o que era.
 
Precisava de um plano. Assim que conseguisse bolar um plano se colocaria na defensiva e enfrentaria o espectro que a seguia.
 
Tinha a determinação consciente de que ao enfrentar o perigo estaria livre dele. Mas no momento tinha só que correr, correr mesmo que parecesse estar no mesmo lugar. Assim parecia, pois a sua frente erguia-se o brilho da lua fortalecendo as sombras dos pequenos arbustos que, aos seus olhos, pareciam gigantescos monstros a assustá-la.
 
Ela corria, e como corria! Entre os intervalos da respiração, criava uma teoria para acabar com o terror que a invadia. E qual seria essa teoria, perguntou no silencio sombrio da lua prateando a água. Primeiro era preciso saber por que estava correndo insanamente neste charco de lama fedida. Puxando a respiração e dando um pequeno intervalo para que o peito recebesse todo o ar e enchesse o pulmão, questionou a mente em busca de uma resposta.
 
Porque corria, perguntou novamente. E, lá do fundo do poço, o eco da resposta sonorizou seus lábios em palavras que ouviu nitidamente.
 
- Corria para enfrentar o medo simplesmente e viver no nascimento de ser apenas feminina.
 
Era isso? Não, não podia ser. Precisava entender o que lhe acontecia.  Então como justificar o espectro que a seguia? Parou por uns minutos, apoiou as mãos nos joelhos, encostada a uma árvore, chegou à conclusão de que ainda teria que correr muito.
 
Nisso um grito estridente rasgou a noite silenciosa prateada pela luz da lua. Dilacerou sua carne virgem pronta para aceitar o perigo de ser feminina.     
 
Foi então, que uma ternura leve a envolveu num aconchego de paz e compreensão. Não precisava mais ter medo do espectro que a seguia. Olhou para traz. Teve a certeza de que não era mais perseguida. Suspirou aliviada. Sentou no tronco e apoiou as costas na árvore.
 
Nesse instante, uma ternura quente se projetou de dentro dela.
 
Levou a mão entre as coxas e colheu o nascimento adocicado e vermelho da vida, fazendo-a mulher.

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Navego no rio o qual não sei o nome.

  

A temperatura fria da carne ferida pelo tempo arrasta o dia que demorará a passar revelando assim a inconstância da vida.

 

Fria a carne se dilacera em orgasmos abstratos de solidão rememorando dias gloriosos que talvez poderão voltar novamente para a felicidade de dois corações ora separados.

 

Dilacera os gelados dedos em transpor para o papel ou para a tela fria do computador sentimentos guardados em caixas minúsculas alojadas na memória deflagrada pelo o amor distante.

 

Gelados correm os fios metálicos ferindo em ondas silenciosas os passos que no dia a dia serão impressos na calçada solitária perseguindo o perfume que ficou impregnado na pele em noites quentes de amores.

 

Correm, sim correm, correm numa lentidão cuja sina se vê impregnado na face saudosa de risos de seu rosto que longe poderá estar fazendo o que?

 

A temperatura fria cruza num risco leve o rio em que navego ao sabor da correnteza... mas não estou triste e, sim, apenas melancólico...

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

nem sei se sei

  (gostava tanto de você)

 

nem sei

se sei

se você

realmente foi embora

 

nem sei

se sei

se constantemente

tenho saudades de você

 

só sei

que você não sabe

que de tristeza

é minha vida agora

 

só sei

que você não sabe

é que minha alma ficará

marcada pelo tempo

que ainda tenho de viver

 

nem sei

se sei

se você morreu mesmo

nessa minha melancólica historia

 

nem sei

se sei

se quero chegar ao final

dessa estrada sem você

 

só sei

que você não sabe

é que a solidão ronda

meu quarto a toda hora

 

é

eu sei

e você não sabe

e nunca saberá

que sempre te amei

mesmo quando você

me dizia: ah! não enche o saco,

to com dor de cabeça agora

 

só sei

o que você não sabe

que a sombra do passado

me acompanha em cada canto

desse meu triste quarto

 

nem sei

se você sabe

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

nesse barco sem rumo

 

somos objetos perdidos

a balançar nas ondas

do eterno dia a dia

 

somos atados à vida

e aos berros fugimos

da força como o réu

foge da sentença

anunciada

 

somos estranhos boçais

estúpidos ignorantes infernais

que no batuque do samba

 

não somos um bamba

em barulhentos blocos carnais

sambamos os eternos carnavais

terça-feira, 1 de outubro de 2024

... neste sábado

 

... neste sábado em que o sol alegremente invade as estruturas do saber concreto da vida e, que a bela música do Secret Garden ganha a janela, numa eufórica dança com o sol e, que uma enxurrada de mensagens dedicadas às mães caem em minha caixa postal e, que ainda, tendo meu joelho abrandado a dor, estando na expectativa de ser operado, revelo uma insistência de querer cada vez mais amar tudo o que me rodeia vivendo intensamente meus passos ora incertos, ora periclitantes, mas sempre decidido a caminhar, custe o que custar, e lhes digo: não concordo com dia disso ou dia daquilo, dia de fulano ou de sicrano, pois todos os dias e todos aqueles a quem eu amo homenageio vivendo cada dia mais realizando meus feitos com amor levando-os na fotográfica memória em meu coração, e,  mesmo que um pouco só a cada dia, ser o mais feliz  possível...

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...