segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 301

o ministério do sexo


- o ministério do sexo seguro recomenda: texto desaconselhável a menor de vinte anos, as pessoas moralistas e as senhoras e senhoritas praticantes do bom sexo seguro, mamãe e papai, pois contem cenas de sexo explicito e termos chulos, no caso de reincidência, procurar a delegacia do menor mais próxima -  


Houve um dia..., quer dizer uma noite intragável em que ele andava pela cidade, isso era mais ou menos..., não, não sabia precisar com exatidão as circunstâncias horárias, mas era uma noite de verão terrivelmente quente, em que estava precisando de algo excitante, de algo que fosse proibido, que o levasse a aplacar a inquietação do calor noturno.

Claro, poderia fazer muita coisa, ir a lugares fabulosos, boates, bares, caçar pelas esquinas do pecado, porém sua falta de perspectiva monetária o atrapalhava, além do que não possuía a audácia precisa para se aventurar sozinho em exóticas aventuras. Sua capacidade operística desconhecia os points interessantes, os fascínios das luzes e sons ao longo da avenida. Por sua timidez caipira não vivia em grupos de amigos onde cada um conhecia algo fascinante nas noites calorosas do verão.

Sendo assim, quando se deu conta, estava dentro do cinema vendo um filme de baixa categoria onde casais fogosos se enroscavam em histórias fajutas só para demonstrarem suas aptidões sexuais. A cena que se desenrolava na telona, apresentava de tudo o que era de mais escroto em matéria de sexo. Além do casal central explicitamente, ora anal ora oral, havia swing, três ou quatro homem e uma mulher, ou cinco ou seis mulheres e um homem, ou mesmo homossexualismo descarado.

Por que estava ali? – perguntava tediosamente pensando em ir embora. Nada daquilo estava apaziguando-o, vamos dizer assim, sua falta de aptidão. Fixou sua atenção na tela, na cena de dois homens se beijando enquanto duas mulheres falicamente os satisfaziam. Inclinou a cabeça para trás. Fechou os olhos e procurou ficar alheio ao que se passava na tela. Estava assim por quase cinco minutos, quando sentiu uma mão deslizar por sua coxa em direção à braguilha da calça jeans. Virou para a direita a cabeça lentamente. Ao seu lado estava um casal, homem e mulher, ela loira, ele moreno, beijavam-se ao mesmo tempo em que ela introduzia a mão entre sua braguilha. Quieto, fascinado, intrigado e imóvel permaneceu sentindo os dedos suaves avançando delicadamente. Aos poucos, não encontrando resistência, a mão envolveu todo o adormecido despertando-o. Ereto, livre do tecido áspero do jeans, recebeu a macieza da boca feminina. Rilhou os dentes segurando o imponente Vesúvio impedindo-o de lançar sua lava quente e gostosa. Enquanto isso, o parceiro da loira, penetrava-a numa posição inexistente no Kama Sutra. Assim ficaram por longos segundos.

- Agora é a minha vez – disse ela se desvencilhando do parceiro. Em seguida ficou de joelhos na poltrona, e, ofereceu a ele, a gruta profunda e escura, para que Teseu eliminasse o terrível Minotauro.  
- A filha da puta está sem calcinha, vem preparada a safada – pensou ao se enfurnar na gruta misteriosa.

De repente notou que a razão e o prazer fugiam ao descontrole perigosamente. Ao seu lado direito, o parceiro da loira, participava de um bouquet furioso, a sua esquerda, sem saber como, surgiu um cara de espada em riste oferecendo-se ao que a loira aceitou afetuosamente masturbando-o, e, acima de sua cabeça, outro a penetrava oralmente. Achou melhor dar fora dali.

Lentamente escorregou o corpo por baixo da loira, pulou o cara que de joelhos enterrava o rosto entre as pernas do moreno. Antes de sair olhou para traz. O que viu foi um amontoado de sombras no lusco fusco da projeção do filme.

Saiu do cinema. Recebeu no rosto a brisa da madrugada. Sorriu. Procurava aventura e acabava de fugir de uma. Como o ser humano é baixo! Como pode se rebaixar tanto dessa maneira, apenas para se satisfazer sexualmente! Não condenava tal atitude, condenava os meios, a forma de realizar certas fantasias. Achava que deveria sim, satisfazer as fantasias, por pra fora os desejos mais íntimos sem culpa e sem ferida. Correto ou não, não criticava, apenas ressaltava para o perigo dessas promiscuidades que, pelo que parecia ninguém estava nem aí. Atravessou a rua, ao dobrar a esquina topou com um grupo de jovens.

- Ua, gostosão, como está essa beleza entre as pernas – disse e ao mesmo tempo apalpando-o.

- Nossa! Que beleza, quer me comer?

Sentindo pena e ao mesmo tempo certa asquerosidade no ato, empurrou o rapaz brutalmente.

 - Vai se foder, cara e não me enche o saco.

- Ei, machão se cuida senão um dia pode pegar o seu, viu?


Não deu pelota, desceu rapidamente a avenida. Olhou o relógio. Faltava ainda trinta minutos para o metrô abrir suas portas. Cansado sentou no degrau e encostou a cabeça na parede.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 302

  Puxou da arma


Puxou da arma
Colocou a frente do rosto
Braço esticado mirou
E se fez ouvir um clik

E a figura do mendigo abraçado
Ao poste do semáforo dialogando
Consigo próprio ficou gravada  
Para sempre na pequena câmara
Do seu celular

sábado, 29 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 303

Na cumplicidade do dia


Na cumplicidade do dia, a vida amalgama-se num só grito
Ouve-se o som rascante rasgando a carne dos prédios
Vê-se o sangue de concreto cimento solidificando peças sobre peças
Uma sobre as outras na construção da individualidade perigosa

Um beijo estala seu sentido de beijo lascivo intrigante sem se importar
Que o veja ou deixa de ver na plataforma das angústias do uterino metrô
Ruge as engrenagens transportando e levando dúvidas não respondidas

Vozes silenciam a alma compartilhando com toda a vida de cada um

Pressa tardia leva passos seguidos de outros passos ao seu destino

Desço na minha estação meu conforto peregrino ausente
Deparo com os teus olhos mirando o horizonte do meu corpo

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 304

Ele, com as mãos




Ele, com as mãos nos olhos, contornara a nudez da palavra seguindo letra por letra, até formar silabas que, por sua vez, deu forma a palavra. Sorriu. Não sabe por que, mas sorriu. Será que consegui escrever uma frase de efeito? Isso é literatura? Bom, o importante é que estou escrevendo seja lá o que for, estou colocando em símbolos gráficos pensamentos e ideias. Colocou ponto final. Afastou-se. Leu mais uma vez. Ah! Está bom, melhor é impossível. Quem quiser que escreva melhor. Fechou o Word, desligou o micro. Pegou a cerveja e foi se estirar a beira da piscina.
Ele, com a pele excitada, sentiu a cadeira quente nas coxas e nas costas... O sol da tarde esparramava cintilante brilho sem ofuscar os olhos. Tomou três goles de cerveja estupidamente gelada. Coçou a virilha por cima do calção. Ah! Se ela estivesse aqui nesses contornos da tarde emoldurando nossos corpos, seria digno de uma pintura concreta abstrata, disse para si mesmo. Estirou as pernas. Coçou novamente a virilha e sentiu o ardor de lábios roçando-o.
Ele, com o corpo apático, deitou a cabeça no travesseiro e sorriu. Mais uma vez, enganou-se na solitária prosaica vida. Mais uma vez, o ácido da ausência lhe fez companhia. Sorriu. Virou o corpo, abraçou o travesseiro e mais uma vez, dormiu na paz apática de simplesmente existir.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 305

Carrego na ponta


Carrego na ponta dos dedos
O desejo dos teus lábios quentes
Instigando-me a devorá-los

Carrego na ponta dos dedos
O desejo dos teus pelos
Envolvendo-me por inteiro

Carrego na ponta dos dedos
O desejo frenético da pélvis
Num vai e vem ritmado

Carrego na ponta dos dedos
O liquido quente escorrendo
Na modorra do banho solitário

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 306

Pisou nas pastilhas


Pisou nas pastilhas pretas e brancas da calçada. Ergueu os ombros, estufou o peito e, decidido, como prometera a si mesmo, começou a andar em linha reta, sem desviar de quem quer que fosse. Os fracos e incomodados que se desviem era a sua opinião. Consultou o relógio do celular. Sete horas e cinco minutos. Estava muito cedo, resolveu dar uma volta no quarteirão. Não queria chegar antes das oito ao escritório. E para que? Não tinha necessidade. Portanto com passos distanciados, jogando os músculos da perna para frente, sentindo os nervos relaxados, o sangue chacoalhando nas paredes das veias proporcionando liberdade aos movimentos, com as mãos nos bolsos, dirigiu-se para o lado esquerdo.

Passou pela farmácia onde se via um movimento razoável de hipocondríacos consumindo remédios como se estivessem num supermercado consumindo alimentos. Parou em frente à banca. Olhou as revistas, livros, magazines, HQs interessantes estrangeiras, jornais mostrando os últimos crimes da semana. Nada lhe interessou. Ao sair da banca, sem perceber, seu cotovelo bateu nas costas de um rapaz que folheava uma revista. Desculpou-se. Não ouviu o comentário sibilado entre dentes. Continuou a andar sem pensar no incidente.

Despreocupado, com a mente navegando de um ponto ao outro da avenida, ora pousando numa pessoa, ora pousando nos prédios, ou talvez, nos carros indo e vindo, seguia a linha da manhã ensolarada. Como prometera seguia numa linha só, reta, as pessoas que desviassem. Via nisso certa alegria grotesca. Distraídas ou apressadas, quando percebiam, desviavam dele num movimento ágil, às vezes esbarrando um ombro ou o braço. Nisso, não notou o rapaz que em sentido contrário, esbarrou nele tocando de leve as mãos. No mesmo instante se voltou e se desculpou o que fez também o rapaz. Já se preparava para atravessar a avenida quando sentiu tocarem o seu ombro.

- Desculpe, por favor.

- Pois, não.

- Pode me dar uma informação.

- Claro qual é?

- Onde é a Fenac?

- Fenac?

- Sim, a Fenac.

- Bom, ela fica para lá, perto da Brigadeiro.

- Estamos longe?

- Não muito.

- Você vai para lá?

- Não.

- Para onde você vai?

- Para o trabalho.

- Ah, sim.

- Além do que está cedo para Fenac abrir.

- Eu sei.

- Você sabe é?

- Sei. É que fiquei interessado em você.

- O que?

- É você me interessou.

- Não entendi.

- Eu explico.

- Vamos ver então.

- Bom o caso é o seguinte. Eu estava na banca quando você deu uma cotovelada nas minhas costas.

- Lembro, mas eu me desculpei.

- Sim, se desculpou. Acontece que eu entendi como algo além de uma desculpa me entende?

- Não, não entendo.

- Bom, segui você, sem me ver, ultrapassei você e fui ao teu encontro em sentido contrário. Esbarramos-nos, e levemente toquei sua mão, você se virou se desculpando, o que fiz também.

- O que?

- Pensei que você estivesse afim de mim também.

- Espere aí. Não sou o que está pensando.

- Não sei. Se quiser dinheiro posso te pagar.

- Não...

- Posso te arrumar uma menina novinha caso queira.

- Espera. Você está me cantando em troca de dinheiro ou de uma garota?
- Praticamente sim.

- Escuta amigo, desculpe se lhe dei essa impressão. Nem te percebi. Não me leve a mal, mas não sou o que está pensando.
- Então vê se presta atenção quando esbarra em alguém, falou malandro.
- Vou prestar atenção daqui para frente.

Atravessou a avenida rapidamente. Do outro lado olhou para traz. O rapaz ainda estava lá parado observando-o. Nunca mais andou por aquele lado da avenida com medo de encontrar com o rapaz novamente.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 307

  Buraco! Estava num buraco

 


Buraco! Estava num buraco. Ou aquilo não era um buraco? Se não era o que era então? E o que estava fazendo nesse buraco? No meio da Paulista? No meio da calçada do Conjunto Nacional? Tudo bem, mas como se explica ele dentro desse buraco? Não tem explicação, caiu e pronto. Olhou para cima e viu o círculo branco pequeno do céu. Mas como poderia dizer que estava num buraco na Paulista? Claro, escuta os carros, os ônibus, as pessoas, os passos das pessoas, as vozes das pessoas? Mas isso pode se ouvir em qualquer buraco da cidade seja onde for. Sim, concordo, mas olhe para cima, preste bem atenção, esta vendo, no meio do céu, não está vendo a marquise do Conjunto? Então, portanto estou na Paulista. E como não fui prestar atenção! Bem feito, prestasse mais atenção, aguçasse mais os ouvidos, mas não, quer andar despreocupado, pensando na morte do boi, com essa mania de andar molemente, indolente, desleixado, admirando a bunda das meninas, se extasiando com a sexualidade das mulheres de barriguinha de fora, se preocupando apenas com o que poderá escrever todas as manhãs, isso que dá. Agora está preso dentro desse buraco.

Já esteve em outros buracos? Não lembrava. Talvez já estivesse quem poderia dizer com firmeza? Levantou. Esfregou os olhos para que se acostumasse com o escuro, para que pudesse visualizar alguma coisa. Talvez uma saída. Buraco não tem saída. Tem? Não sei, a não ser, subir pelas paredes e sair pelo circulo de luz lá em cima. Foi o que tentou, mas a parede lisa, meio que úmida e gosmenta trouxe ele de volta ao chão. Não tinha como sair. Gritar não adiantaria ninguém lá em cima o ouviria. Precisava sair do buraco. Mas como? Sentou. A umidade do chão invadiu o jeans grosso e alcançou a carne dolorida e cansada. O peso do silêncio angustiava prendendo sua respiração que se tornou mais compassada. Sentiu algo roçar seu braço esquerdo. Recuou apavorado. O que seria? Barata? Rato? Aranha?

- Não se assuste. Você não está sozinho nesse buraco. – falou um senhor de cabelos branco sentado ao lado dele.

- Como?

- É você não é o único nesse lugar. Olhe em volta.

Horrorizado vislumbrou a sua volta outras pessoas.

- Você não está sozinho – disse o velho - caiu aqui esquece o mundo lá de cima.

- Não, não posso esquecer o mundo lá de cima não. Tenho casa, família, amigos... Só não sei como foi que cai aqui ou por quê?
- Resignação – falou o velho.

- Resignação?

- Isso mesmo. Somos todos uns resignados.

- Eu não sou resignado.

- Se não é porque está aqui?

- Porque tropecei em algo e não vi o buraco, aliás, buraco tem em qualquer lugar, não é?

- Concordo. Porém nem todos os buracos são iguais.

- Aí que está. Não sou igual a vocês, resignados, vou procurar um meio de sair daqui.

- Então porque continua sentado?

- É porque não sabia onde estava e que havia outras pessoas, pensei que estivesse sozinho.

- É isso aí.

- Isso aí o que?

- Ninguém vive sozinho, não é?

Estava ficando com raiva do velho. Não seria como eles. Procuraria uma saída sim, aí veriam que ele não era o que pensavam. Com muito esforço conseguiu se levantar. Deu uns passos para frente. Bateu na parede. Girou o corpo meio grau à direita. Deu mais alguns passos. Outra parede. Girou mais o corpo quase todo. Deu outros passos a frente. Mais uma parede. Desistiu. Sentou novamente. Compulsivamente a garganta se prendeu num espasmo de choro. Segurou. Homem não chora, disse mentalmente. Deitou no chão úmido. Procurou descansar, talvez dormir eternamente. Fechou os olhos tentando descobrir onde estava o velho.

- Que velho?

- O velho que dizia que eu não iria sair do buraco.

- Não sei de velho nenhum.

- Ah! Bom, vou continuar dormindo.

- Nada de dormir. Levanta. Precisa tomar o seu remédio.

- Remédio?

- É o remédio se quiser ficar bom e sair daqui.

- Ah! Está bem. Vou tomar o remédio sim, afinal quero ficar bom.
Pegou o comprimido da mão da enfermeira, colocou na boca e depois entornou um bom gole de água. Em seguida, estirou o corpo todo dentro do buraco pouco se importando se iria ou não sair dali. Queria apenas, no momento dormir.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 308

 Silenciosos



Silenciosos os objetos estampam a imobilidade do ser humano
Demonstram a fragilidade de cada um ao ser manuseado
Na pacifica incongruência da vida cada objeto tem sua finalidade
Servir a quem deles precisarem nesta quinta feira de verão

Ruge lá fora, o brilho do sol irisando sombras e divisas abstratas
Queima aqui dentro peles delicadas em reclamações disparatadas
Fálicos pudores encobrem moralismos pardos em noites claras
Risadas e vozes passeiam por entre mórbidos escombros da carne

Teus olhos se dispersam entre multidões pecaminosas e frágeis
Guardo na lembrança tua presença intensa e maravilhosa
Não padeço da tua ausência que não existe no eternamente

Não padeço, pois sempre tenho você junto a mim à hora que quero
Mesmo estando longe ou perto recolho tua ausência na palma da mão
E silenciosamente, durmo na paz de sermos dois num só coração

domingo, 23 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 309

                Para a Erica Meneguine


Com o destino reservado, talvez, traçado por ele, durante todos esses anos, mais uma vez, numa manhã de sol encoberto por nuvens pouco densas, com a promessa de um dia meio inverno e meio verão, ele que nada desejava, além de viver a vida da maneira que lhe conviesse, fazendo o que lhe desse na telha, claro, sem prejudicar terceiros, colocou os pés novamente, no calçamento de pequenas pastilhas que orlava o quarteirão todo em volta do Conjunto Nacional, na esperança de passar o dia, como disse o motorista do fretado: “Mais uma sexta feira finalmente”, ao que ele respondeu: “Ainda bem que é mais uma sexta feira novamente”, sem maiores consequências, além de cumprir seu enfadonho trabalho.
Dominado por um sentimento minimalista, cuja estrutura alicerçada num barroquismo cristalizado por antepassados acostumados pela dominação materna, tendo a paternidade quase ausente de sua vida, atravessou a Avenida vendo de longe o cachorro deitado ao lado do seu dono no vão da porta do Bradesco.

Mendigo e cachorro causavam admiração aos passantes, principalmente aos que por ali passavam todos os dias. O cachorro de pelos marrons claros e curtos, olhos azuis, dando a impressão de bem tratado, nunca deixava seu dono sozinho. O mendigo sempre trajando a mesma roupa maltrapilha, meio magro, barbudo, cabeludo parecendo sujo contrastava com o cachorro bem tratado. E outro detalhe, o cachorro não era preso por nada, nem coleira, corrente, nada, talvez, preso pela afeição que ele dedicava ao dono e, logicamente, o dono a ele.

Parou em frente aos dois. O que poderia ter levado um sujeito a viver na rua, a ser um morador de rua? Perguntou-se mentalmente. Procurou o celular no bolso, se preparou para tirar uma foto, quando se viu entrando numa sala modestamente mobiliada. Seu pensamento procurava pela noiva que sabia estaria à espera dele. Procurou-a na cozinha, no quintal, na varanda, subiu a escada, e ao abrir a porta do quarto, horrorizado, deparou dois corpos nus na cama de casal. Transtornado, com a vista turva, saiu devagar, desceu a escada, pegou o revólver que o pai guardava na despensa, subiu a escada, e apontava a arma para o pai e a noiva que nada percebia, quando se sentiu puxado pela barra da calça. Olhou para baixo e viu o cachorro ganindo como se pedisse para que ele saísse dali. Por momentos, com a arma apontada para os corpos enlaçados, ficou indeciso se apertava ou não o gatilho. Por fim, abaixou a arma, deu as costas, desceu a escada e ganhou a rua. Andou o dia inteiro e a noite toda, não sabia por onde andara e nem o que fizera, quando percebeu, estava admirando as águas turvas do rio Tietê.

O silencio da madruga o empurrava a tomar uma decisão. Com os olhos fixos na água preta iluminado pelos faróis, jogou as pernas por sobre a amurada da Ponte das Bandeiras. Inclinou o corpo para frente, começava soltar os dedos da amurada fria quando ouviu de novo o ganir do cachorro. Voltou à cabeça para traz e para baixo, lá estava o fiel amigo que o acompanhou o tempo todo sem reclamar. E agora, parecia que pedia para que ele não pulasse nas águas escuras do rio venenoso. Desceu da amurada, se agachou, abraçou o cachorro e, finalmente, chegou a uma decisão que deixou seu peito aliviado. Tirou a carteira do bolso, retirou o dinheiro, e um por um foi jogando no rio os documentos e os cartões dos bancos e, por último a própria carteira. A partir desse dia não era mais a mesma pessoa, esqueceu-se de quem era e passou a viver na rua junto com o seu amigo fiel companheiro. Essa é a minha vida, disse para ele que o olhava em pé, em frente ao Bradesco.

Essa é a minha vida, ouviu dentro de sua mente, dentro de sua cabeça, e quando percebeu o cachorro e o mendigo não estavam mais a sua frente. Atravessavam a rua um ao lado do outro. Ainda pode ver o mendigo voltar à cabeça em sua direção e acenar um adeus com a mão encardida. Nunca mais viu os dois, nem o cachorro e nem o mendigo.

sábado, 22 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 310

 O som da voz



O som da voz tocou a pele. Sua vibração percorreu todo o corpo. Foi ao encontro dos cantos e recantos, lambendo torso, quadril e membros numa lentidão sôfrega e amena ao mesmo tempo. Deixou-se tocar, deixou-se levar na harmonia do som. Expôs-se violentamente a todos os requintes. Pouco se importava se o ridículo dos movimentos seria exposto. Aliás, não tinha que se importar, pois estava ali para isso. Criar o ridículo do prazer sem limite.
Num regozijo a voz soou dentro da carne. Escutou a entonação percorrendo a parede interna. Escutou e, porejando suor, colocou-se ao comando dispondo toda a energia no ato. Assim foi por mais de horas num convívio de receber e oferecer.

O sol despontou nos corpos adormecidos no prazer de sentir um ao outro.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 311

 Exausto


Exausto. Era o que estava sentindo. A roupa molhada não pingava, exalava suor quente por todos os poros. Há quanto tempo estava nessa situação? Não podia dizer com exatidão. Apenas sentia o som penetrando na pele, atravessando a carne, moendo os ossos e eletrizando os nervos condutores dos movimentos. Não conseguia parar. As vibrações dos vidros das janelas fechadas, as moléculas das paredes, a estrutura do prédio vibravam junto com ele desenfreados. Seus membros, rebeldes, não obedeciam ao seu comando, se jogavam de um lado para outro desengonçado. Via corpos extremados de cansaço estirados no chão. Alguns ainda gesticulavam os dedos até que estes paravam imóveis no ar.
Uma coisa que ele notou, depois de algum tempo, é que só havia homens, rapazes, e raros idosos e, todos, ou pelo menos a maioria, estavam estendidas no chão. Uns com a roupa estraçalhada, outros complementam nus, alguns esparramados sobre as mesas, cadeiras. Assim mesmo, a maioria ainda aguentava o frenético ritmo desembestado da música.

O que é isso? Perguntava. Como fora parar ali? Lembrava que os amigos o convidaram. E onde estavam eles agora? Não os via mais. Será que estavam jogados em algum canto esfarrapados de tanto ouvirem a música? Não sabia. Nisso, surgiu em sua mente conturbada uma ideia. Viu a porta. Estava meio aberta e um raio de luz da madrugada se infiltrava por ela iluminando o corredor. Num esforço, tentando manter o controle sobre os seus movimentos, foi forçando-se a ir para o lado da porta. No entanto, havia uma energia que prendia seus pés, não o deixavam avançar. Com muito custo, entre um passo e outro, conseguiu tirar os sapatos. Com isso sentiu a força brutal que o aprisionava ceder milímetros. Sentiu a fraqueza, sentiu e lentamente, com a planta dos pés doendo, como se pisasse em cacos de vidros, avançar. Sorriu, vou vencer, disse para si. A barriga da perna, dura, latejava em dormência quase causando uma câimbra. Mas, não deu importância, quer dizer, não ligou.
Dessa maneira, com muito custo, passando por corpos estirados em poças de suores e cerveja, foi levando seu esquálido corpo em direção à porta.

Precisava sair do raio da música, não ouvi-la, não adiantava tapar os ouvidos, tinha que sair daquele ambiente, concluiu puxando o ar para o peito pronto a arrebentar. Olhou para o meio do salão e viu homens desequilibrados numa orgia de movimentos ridículos. Perto da porta entreaberta, quase escutando o silencio da madrugada que dava lugar à claridade da manhã, sentiu a energia da música enfraquecendo. Seus braços já não se movimentavam desordenadamente, assim sendo, agarrou a porta e puxou as pernas que ainda teimavam nos passos da música, e num violento esforço, se projetou para a porta afora.

Caiu na calçada úmida da madrugada. Deitado, sentindo o contado do calçamento, acima dele o céu que aos poucos clareava não aguentou nem mais um pouco. Virou de lado e dormiu, dormiu até que o barulho do quotidiano o despertou. Levantou. Sacudiu a poeira da noite anterior. Tomou o ônibus e foi para casa.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 312

  Movimentou as mãos


Movimentou as mãos em sentido contrário uma da outra, rasgou o papel de anotações num vagar instigante, como se ouvisse o estilhaçar de vidros caindo aos seus pés. Percebeu a Epifania do momento, percebeu e guardou no gesto ao jogar o papel rasgado no lixo perto da escrivaninha, aonde todos os dias vinha escrevendo compulsivamente. Desprezou a religiosidade que não tinha cabimento, mas tomou conhecimento dos gestos compulsivos que o fazia escrever religiosamente.

Tomou um bom gole de café com conhaque. O líquido quente desceu queimando a parede da garganta num dilacerar de tecidos. Recostou os largos ombros no espaldar da cadeira. Pensativo, com as mãos unidas como se rezasse, lentamente dirigiu a mente em busca de algo que não sabia o que era.

Dirigiu o olhar para fora, além da janela aberta, onde descortinava um gramado verde recém-aparado e, mais ao longe um pequeno declive em direção ao jardim. Estava quase três horas sentado em frente ao micro e poucas palavras tinham sido digitadas. Deu um giro de cento e oitenta graus na cadeira. Levantou-se. Saiu da sala.
Na cozinha preparou um suculento lanche de mostarda, pipoca, e pimenta. Com uma cerveja gelada, saboreou o lanche degustando cada porção de ingrediente. Depois de terminado a refeição bizarra, limpou os lábios com o guardanapo de papel. Soltou um arroto. Limpou os dentes com o palito. Voltou à sala.

Olhou o micro com sua proteção de tela com figuras das mais estranhas possíveis. Sentou na cadeira giratória. Tomou conta dele uma excitação impossível de controlar. Sempre que comia um lanche bizarro, como diziam, com cerveja gelada, podia contar, uma excitação o dominava. Às vezes era incontrolável. Ficava com vergonha, pois sempre estava acompanhado. Não tinha como esconder. Outras vezes corria ao banheiro para se aliviar. Era fatal, sabia disso, mas teimava sempre em comer seus lanches bizarros. Quando não era pipoca com mostarda, era pipoca com linguiça crua. E não podia faltar a cerveja gelada.

Como estava sozinho não deu importância ao fato. Isto é, procurou se aliviar da maneira corriqueira de sempre. Trancou-se no banheiro por vinte minutos. Extasiado e satisfeito voltou para a sala. No monitor as figuras das mais estranhas as mais comuns, passavam sucessivamente. Reviu o que escrevera. Que coisa sem sentido! Pensou ao final da leitura. Quem se interessará por isso, pensou. Bom, como não posso rasgar o monitor em dois, como fiz com o papel que agora está no fundo do lixo, só posso desligar essa porcaria. E foi o que fez. No entanto, sem atinar como foi, esbarrou no monitor que tombou no tampo da mesa e, por uma infelicidade, talvez o cabo estivesse curto, o monitor escorregou para a beira da mesa e caiu no chão se espatifando em dois.
Foi nesse momento que tomou conhecimento de um fato estarrecedor. Junto com o monitor, ele, a sala e tudo o mais, também se espatifaram em dois.

Reconheceu, era um personagem a mercê do seu autor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 313

 O arroz


O arroz! Como gosto de arroz não está escrito. Como arroz de tudo quanto é jeito. Não vou aqui descrever o que se pode ou não comer com o arroz. Mas aquele arroz estava muito abusado. E como estava. E olhe, eu não tinha bebido nada, nem cheirado, nem fumado. Apesar de que gosto muito de um fumo às escondidas. É tem que ser às escondidas e em público. Esse negócio de fumar em lugar seguro não é comigo. Mas naquele dia estava em branco, branco como uma folha virgem a espera do jato gostoso e preto da tinta. Não, eu não tinha fumado mesmo.

O restaurante como sempre lotado. Tive que esperar uns segundos até que a mesa do canto fosse liberada. Assim sendo, como meus olhos não ficam sossegados, passou a observar o pessoal faminto e desesperado. Nessas horas se descobre os infortúnios e os ridículos de cada um. Bem, eu estava na minha, quer dizer, sempre estive na minha, gosto mais de observar as pessoas do que ser observado. Se alguém me observa, ponto para essa pessoa. Nisso o garçom, acho que foi o Lira, acenou pelo espelho da parede esquerda dando a entender que tinha um lugar vago. Dirigi-me para lá. Como eles dizem: o salão nobre que, de nobre não tem nada, é apenas aconchegante e nos dias de verão um pouco abafado.
- O que vai hoje.

- O de sempre, filé de frango e legumes.

- É pra já.

Enquanto esperava, fui destrinchando o pão molhando no molho da pimenta. Quando o Lira trouxe o prato notei algo diferente, mas não disse nada. Comecei a comer. Primeiramente optei pelo file de frango. Depois, coloquei no prato um pouco de arroz. Com a colherinha despejei um pouco de molho de pimenta e, coloquei o outro pedaço do filé de frango. Distraído, mecanicamente fatiando o frango, saboreando os legumes embebidos em azeite, foi que notei a diferença. O arroz... Bom, devo dizer alguns grãos de arroz, começaram a se mexer. A princípio era um grão somente, em seguida surgiu o segundo, logo após o terceiro e, quando percebi estava uns dez grãos dançando na borda do prato onde se via o emblema do restaurante entre filetes pretos e vermelhos. O gozado é que não me surpreendi. Sabia que isso um dia aconteceria, só não previ que fosse hoje. Por momento hipnotizado fiquei observando-os dançando de um lado para o outro, dando piruetas, pulando no feijão como se fosse uma piscina... Estes, os grãos de feijão, por sua vez nada diziam nada faziam quietos recebiam os grãos de arroz e, como não podiam sair dali, davam o braço... – se é que eles, tanto arroz como feijão tivessem braços - uns aos outros e saiam dançando, melhor dizendo, nadando no caldo escuro do feijão.
Fiquei embasbacado, olhando aquela pantomima esdrúxula.
Achei melhor não dar importância ao fato. E nem devia, ninguém acreditaria mesmo e, parecia que só eu estava vendo o espetáculo dos exibidos grãos. Coloquei de lado o prato. Decidi comer somente o file de frango e os legumes.

Do caixa, quando estava pagando a conta, ainda pude ver os malditos grãos em seus malabarismos de dançarinos exuberantes. Balancei a cabeça de um lado para outro, como se dissesse:
- Não se fazem mais feijões e arroz como antigamente.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 315

 Lena sorriu


Lena sorriu. Achava engraçada a persistência de Mané. Tinha ele como um cara legal, atraente, se vestia bem, bom de lábia, mas era como bater em ferro frio. Não conseguiria nada com ela.
Por nove anos desfilava na escola de samba. E todo o ano, aos sábados, Mané grudava nela o ensaio todo, não arredava pé nem um minuto. Constrangia-se com a persistência dele. Pressentia os olhares invejosos das mulheres em geral, olhares que se pudesse, fulminaria ela do mundo deles.

Lena sorriu. E quando Lena sorria o mundo tornava-se mais brilhante, as coisas tinha mais sentido, seu peito se inflava de força extraordinária, mas Lena não era do mundo deles. Mané sabia disso, e como sabia. Crioulo, crescido na favela, nunca tivera oportunidade de sair do seu círculo de pobre... Às vezes conseguia algo extra e desfrutava dos prazeres da noite, o que era raro.
Quando Lena começou a comparecer anualmente aos ensaios da escola, Mané esqueceu os limites que a vida impunha. No primeiro instante se apaixonou por Lena. Eliminou barreiras, preconceitos, falatórios e tudo o mais. O que importava era estar perto de Lena. E, todo ano estava lá presenciando o ensaio de Lena.
Lena sorriu, aliás, estava sempre sorrindo. Não havia tempo ruim para ela. Enfrentava os percalços sorrindo. Tinha gente que se incomodava com o sorriso dela, achava que era impossível uma pessoa sorrir constantemente. No entanto Lena era assim, não sabia ser de outra maneira. Não havia contratempo ruim, e, se houvesse, claro que há, é impossível uma pessoa viver sem contratempo ruim, portanto, os momentos negativos, como ela dizia, chutava para escanteio, sorria, arregaçava as mangas e partia a enfrentar novos obstáculos.

Como naquele ano. Lena chegou à escola e foi informada que seu lugar não seria mais na ala das passistas. Fora colocada em outro lugar. Ficou intrigada, apreensiva. Esperou minutos longos, quando em fim, a informaram que ela seria a madrinha da bateria. Como? Por quê? Quis saber. A madrinha oficial estava com o pé quebrado e, como não havia tempo para chamar à substituta, resolveram colocar ela. Aceitou se não aceitasse talvez, seria convidada a sair da escolha e nunca mais poderia desfilar.

Lena sorriu ao ouvir atrás de si a bateria batendo no compasso do seu coração. Postou-se, e começou seus primeiros passos, gingando os quadris ao ritmo da música. Nisso seus olhos pretos defrontou-se com uns olhos escuros que a fitava. Não era possível! Estava bem na frente do Mané que a lambia com os olhos úmidos de prazer. Ele sorriu para ela. Não se importou se postou no seu lugar, e durante o desfile todo, ela brilhou intensamente. Mané com o coração explodindo mais que a bateria, se esmerou levando a escola ao primeiro lugar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 316 a 322

 O maníaco do bilhete


Em letras garrafais, caixa alta, leu no jornal da manhã:

O maníaco do bilhete volta a atacar.

A notícia, pequena nota quase ao rodapé da primeira folha, dizia que o maníaco tinha atacado uma moça na linha de ônibus Praça do Correio – São Miguel. A moça, loira, busto empinado, vestindo blusa que deixava a mostra sua barriga lustrosa de pequenos pelos loiros, calça jeans desbotada, deu queixa na delegacia de São Miguel. Como fora um ato inesperado, desprovido de qualquer premeditação, na opinião do delegado após ouvir a declaração da vítima, não pode guardar as feições do atacante que, assim que jogou o bilhete em seu colo, rapidamente desceu do ônibus.
Largou o jornal em cima da mesa da sala. Ah! Quer dizer que o maníaco atacou mais uma vez! Excelente...  Lançou no ar da cozinha cheirando café requentado, um pequeno e curto sorriso de satisfação. Sentou a mesa saboreando o café. A culpa não é dele, bem sabia. A culpa era daquele senhor com mania de escritor, de poeta. Tudo começou quando ele mostrou para o senhor o pequeno conto que escrevera.

- Lega, está muito bom.

- Obrigado.

- Agora para ficar excelente acho que você deveria entregar para a musa que te inspirou.

- O que? Entregar para ela?

- É! E porque não? Tem medo?

- Não é medo. Acho que não é direito, ela vai saber que estou interessado nela.

- E não está?

- Estou...

- Então, não tem nada de mais entregar para ela, ou será que você é covarde.

- Não sou covarde, disse num tom ríspido.

E dia após dia, perguntava se ele tinha entregado. Chamava-o de covarde, idiota, bundão e outras coisas mais. Já estava de saco cheio. Quando uma manhã ao vê-la subir no ônibus acompanhada da amiga, não resistiu. Lançou a folha no colo da moça e desceu rapidamente. Ao pisar na calçada, foi tomado por um excitamento do qual gostou. E a partir desse dia, aprimorou a técnica e passou a ser o maníaco do bilhete.

Voltou a ler a pequena nota no jornal:

“Uma senhora dizia que nos tempos dela isso acontecia com certa frequência, era comum receber bilhetes declarando paixão, amor, aventura, mas não desse jeito... onde o maníaco atirava o bilhete sumindo logo em seguida.”

A polícia pede para quem for atacado novamente, guarde o bilhete e apresente a delegacia mais próxima. Só assim pegaremos esse malandro.
Atirou novamente o jornal em cima da mesa. Estirou-se no sofá. Fechou os olhos imaginando o próximo ataque.

 

 

Depoimento de Jerome:

A noite estava amena. Mesmo com o verão chegando ao seu clímax, à temperatura estava meio úmida e fresca, nem quente e nem fria. Talvez o movimento hoje seja normal, pensei abotoando a jaqueta. Fechei a porta do vestiário e tomei meu lugar para cumprir o turno. Até parece que isso é uma prisão, o que, de certa maneira não deixa de ser, disse mentalmente. A minha função, além de atender, é claro, verificar as mesas se estão com os saleiros, paliteiros, vinagreiros, os vidros de óleo cheio, se tem guardanapos de papel, se as mesas e o chão estão limpos... Coisas corriqueiras como costumo dizer.

Quando iniciei o turno havia apenas dois casais de namorados sentados, um no meio e o outro no fundo da lanchonete. Portanto, tudo calmo. Engraçado como o paulistano gosta de comer, parece que não tem outro lugar, outro passeio além de restaurantes e lanchonetes. Bom ainda bem, não é? – pensei olhando para o cardápio que coloquei em cada mesa. De repente, sem atinar como, a lanchonete estava repleta. Lá fora começava a formar uma pequena fila de espera. Não sabia se isso era bom ou não, mas comecei a notar que a frequência estava aumentando, não era a mesma desde que comei a trabalhar aqui. Bom para o patrão, ruim para nós que temos o serviço dobrado. – resmunguei para mim mesmo.
Tenho o costume ao atender olhar nos olhos das pessoas. Não tenho memória fotográfica, mas costumo lembrar-me dos acontecimentos, de tudo que tenha passado durante o turno todo. No entanto aquela noite, mais propriamente de madrugada, pois achei que tivesse sido de madrugada, isto porque o movimento maior começou perto da meia-noite. Por mais que me esforce não consigo recordar se tinha alguém, homem ou mulher, sozinho. Acho que todos estavam acompanhados.

Assim, do bilhete lembro sim. Estava registrando um pedido quando senti tocarem meu ombro.

- Por favor.

- Sim.

- Poderia entregar esse bilhete para aquela loira acompanhada daquele rapaz?

- Pois não.

Preocupado em anotar o pedido com medo de errar, não prestei atenção ao rosto do rapaz. Peguei o bilhete e entreguei a moça. Esta, surpresa, olhou o pequeno papel dobrado, perguntou:
- O que é isso?

- Um bilhete para você.

- Para mim?

- Sim

- Quem mandou?

- Foi aquele rapaz... – respondi procurando onde estaria sentado o rapaz. Não achei. Fiquei sem saber o que responder.

- Tudo bem, obrigado.

Foi nesse instante que caiu a ficha: seria o maníaco do bilhete? Voltei aos meus afazeres. Não dei importância e não prestei mais a atenção à loira e seus amigos. Dali a instantes começaram a alterar as vozes, pouco dava para perceber o que diziam, pois servindo as mesas não tinha como prestar a atenção. Por fim, pediram a conta, pagaram e saíram, brigando não mais com palavras alteradas, mas com as vozes brandindo um ao outro a raiva e indignação. O carro saiu do estacionamento cantando pneu.

Depois a madrugada, pois já era mais de duas horas, transcorreu na maior calma.

 


Paul estava preso. Não sabia como. Precisava escrever sobre o assunto para não ficar angustiado como das outras vezes, se livrar daquela prisão. A única maneira de colocar para fora do íntimo à influência do que sentia. Ou talvez, a forma como vinha sentindo as coisas que lhe acontecia inesperadamente. Tentara de várias maneiras livrar-se da prisão e, a melhor que achou foi escrever, assim se sentiria livre daquele merda de poeta que o jogou nesse mundo de bilhetes frenéticos. Momentos havia que só o escrever não o ajudava em nada, se aboletava no banquinho do bar e enchia a cara projetando seu carma holográfico em várias esquinas usufruído nas sextas-feiras.

Observou os sentimentos variados sem a possibilidade de estar perdido procurando apoio num alicerce cerebral enfraquecido. Viu apenas um objetivo. Teria que escolher a próxima vitima. Pensou ter em mente a pessoa certa, porém concluiu que o melhor seria sair aleatoriamente, escolher um ambiente, lanchonete, restaurante ou mesmo bar, e caçar a vitima no seu próprio habitat.
Tomou banho solitário ao expelir o líquido da vida que, junto com a água cheia de espuma, desceu para o ralo. O tremor dos músculos tenso o dominou. Enojado do que fizera, desligou rapidamente o chuveiro, se enxugou e saiu. No quarto o silêncio da água pingando do corpo o deixou apaziguado.

Rodou o carro sem destino certo. Virou a esquerda, depois à direita, foi em frente, parou num bar tomou um café, e ao passar por uma grande avenida foi que notou a lanchonete. Permaneceu por instantes admirando-a. Bonita, com traços arquitetônicos simples e atraentes. Mas o que mais chamou sua atenção foi à pequena fila que se formava. Deixou o carro no estacionamento e aguardou. Assim que um grupo de pessoas entre moças e rapazes se postou no final da fila, se aproximou e, ficou ali, parecendo que estava com eles. Teve a sorte de o garçom ter colocado-os numa mesa próximas. O plano estava dando certo. Agora era só pesquisar a vítima.
Devagar conduziu os olhar em linha reta, de onde estava até a porta, depois virou para a direita, percorreu toda a extensão, em seguida, numa diagonal cheia de obstáculos, notou a loira acompanhada de uma morena. Talvez, amigas. Achou o que queria. Fez o pedido. Enquanto esperava, foi arquitetando como agiria a partir desse momento. Primeiro teria que forçá-la a olhar para ele, notar sua presença. O que não foi nada difícil. Pois na primeira cruzada de olhares, lançou a isca e, ao que tudo parecia, a presa fora fisgada. O que ele não contava foi com os dois rapazes que apareceram, talvez estivessem na toalete. Droga! Merda tenho que mudar os planos, não. Nada disso, vou seguir com o planejado, rugiu silencioso.

Saboreava o lanche se preparando para o momento certo. O lanche estava muito bom, preciso vir aqui outro dia com mais calma, sentir melhor o sabor, pensou sem se descuidar. Ainda bem que o rapaz estava de costas para ele. Quando seu olhar cruzou com o dela, Paul sentia a eletricidade correr pela espinha como à língua úmida lambendo a pele. Era como se seus lábios vagarosos, depositasse em seus olhos um beijo sedutor. Deslizou uma das mãos para baixo da mesa. Prendeu a respiração, e, soltou logo depois em golfadas pequenas. O momento era esse, sussurrou levantando-se.
Fechou a conta, passou pelo garçom pedindo para entregar o bilhete e saiu. Postou-se num lugar onde poderia ver o que aconteceria. Orgulhoso e excitado, prestou atenção quando o bilhete foi entregue para ela. Denotou seus olhos vasculhando o ambiente para saber quem poderia ser o remetente. O rapaz arrancou o papel da mão da loira, falando, gesticulando todo ciúme. Brigavam, vamos esperar para que termine como foi planejado, pensou Paul. Nisso, xingando um ao outro, saíram da lanchonete.
- Já te disse que não sei quem é?

- Ah! Não sabe quem é! Como é inocente! Nem demonstrou surpresa ao ler o bilhete.

Entraram no carro. O rapaz ligou, acelerou, mudou a marcha e os pneus cantaram em direção à saída do estacionamento. Paul correu para o seu, ligou, acelerou, mudou a marcha e sem que os pneus cantassem seguiu-os. Esse negócio de seguir, ver, presenciar a agitação, fazia a adrenalina subir num regozijo extremo. O carro a sua frente, guinando ora para a esquerda, ora para direita, indicava que os dois ainda discutiam. Sorriu contente, mais uma vez o show se completava, mais uma vez dormiria satisfeito.

Nisso o carro deu uma guinada, bateu com o pneu na guia da calçada, e capotou girando várias vezes. Paul brecou, desceu. Estático presenciou até que o veículo parou com as rodas para cima. O coração agitado, batendo compulsivamente, Paul se aproximou. O que viu o deixou alegremente satisfeito. O rapaz estava com a direção enterrada no peito. A loira gemia num tom seco, pouco audível. Paul foi para o outro lado e viu o rosto bonito todo desfigurado. Seus olhos ainda brilhavam. Abaixou-se até ficar com o rosto dele encostado ao chão. Aproximou-se mais que pode e beijou aqueles lábios machucados. Beijou sugando o prazer do sangue quente satisfazendo-o virilmente.

De repente ouviu o gritar da sirene. Levantou-se rapidamente. Não poderia deixar-se pegar. Foi quando viu nas mãos do rapaz o bilhete. Deu a volta e arrancou o papel da mão do rapaz. Correu para o carro, deu a ré, entrou na transversal ganhando a escuridão da madrugada.



Jerome prestando atenção nos afazeres ouviu no noticiário local a reportagem do acidente. A princípio, tomado pela surpresa, não soube o que fazer. Desorientado foi até o telefone, fez menção de discar, desistiu, voltou para a sala, olhou para a televisão esbravejando notícias... Tinha noção de alguma coisa, não sabia o que era. O que impulsionou a ter essa noção? Talvez certa lembrança da época em que trabalhava as sextas-feiras. E, como toda a sexta-feira, o movimento era mais intenso, dia em que os solitários procuram preencher o vazio na companhia dos amigos ou, na companhia de desconhecidos na esperança de aventura ou sei lá o que. O rapaz do bilhete, como ele chamava, se acomodava no banquinho costumeiro, e até meia noite mais ou menos, bebia seu chope todas as sextas-feiras. Quando completava seis chopes, pagava a conta, escrevia o bilhete, pedia para Jerome entregar para a pessoa que ele escolhera. Jerome atendia ao pedido. Nunca tivera a curiosidade em saber o conteúdo dos bilhetes. Será que era a mesma pessoa? A morena de boca larga dissera que fora encontrado na mão do motorista pedaço de papel, o qual, o delegado imaginava fosse de um bilhete. Uma testemunha ocular informou que vira uma pessoa se aproximar do veículo tombado, e , ao ouvir a sirene da policia, fugira apressada. Deveria ligar para o delegado? Lembrava bem do casal, pois assim que entregara o bilhete começaram a discutir acaloradamente. Era impossível esquecê-los.  Já o cara que pediu para entregar o bilhete, não o reconheceria.
Os rostos, esquisitos, meios deformados na televisão, instigava para que telefonasse ao delegado. No entanto tinha a divida noção que, se o fizesse perderia o sossego. Seria obrigado a dar depoimento, além de sofrer a pressão por não se lembrar da fisionomia do maníaco do bilhete. O que deveria fazer?


Quando Walker entrou na lanchonete, Jerome estava no fundo da loja arrumando as últimas mesas. De onde estava, viu a figura estranha pedindo informação para a moça do caixa. Maria ao ouvir a voz firme se sobressaltou Engoliu o susto junto com o pensamento, e apontou para o fundo da loja. Jerome sem parar de trabalhar, presenciou toda cena.

- Bom dia, Sr. Jerome?

- Bom dia, senhor...

- Walker

- Pois não, o que senhor deseja.

- Podemos conversar num lugar mais sossegado?

- Um momento.

Inclinando o corpo por cima do balcão, gritou um nome:

- Jean, por favor, pode vir até aqui.

- O que deseja, disse Jean com seus um metro e setenta, feições de fuinha, com um bigode que descia pelos lados dos lábios, formando um cavanhaque em baixo do queixo.

- Fique aqui um pouco. Tome conta enquanto converso com esse senhor.
- Está bem, não demore.

- Pode deixar.

Voltando a atenção para Walker disse:

- Vamos andando, Senhor...

- Walker.

- Ah, sim, desculpe, vamos andando então, Senhor Walker.

Entraram numa pequena sala onde se via uma estante ao fundo abarrotada de livro e no centro uma mesa e duas cadeiras e mais nada.
- Por favor, sente, disse Jerome.

- Obrigado, respondeu Walker relanceando os olhos pela sala.

- Creio que o senhor veio por causa do meu telefonema.

- Sim. E gostaria de saber por que telefonou?

- Bem, para ser preciso nem eu mesmo sei por que telefonei.

- Nesse caso não sei do por que estarmos falando, não é?

- Espere, deixe expor para o senhor. Depois me dirá o que acha.

- Então diga, estou ouvindo.

- Antes de trabalhar aqui, trabalhava no bar Corsário...

- Sei onde fica esse bar.

- Não existe mais, fechou.

- Não sabia.

- Trabalhava das seis as três ou quatro horas da madrugada, dependendo do dia, fechando sempre com o último freguês. E toda sexta-feira aparecia um cara quieto, não falava com ninguém. Chegava pedia um chope e ficava bebendo até meia noite. Não passava de seis chopes por noite.

- Sim, e daí?

- Espere. Ele tinha uma mania. Quando chegava perto da meia noite, escrevia um bilhete e pedia para que eu entregasse para determinada pessoa, claro, que toda sexta feira era uma pessoa diferente, nunca a mesma.

- Interessante. Quer dizer que ficava bebendo até meia noite, escrevia o bilhete e pedia para você entregar?

- Isso mesmo.

- E o que ele escrevia nesses bilhetes?

- Não sei, nunca tive curiosidade em ler.

- Não conversava com ele?

- Não, e ele não conversava com ninguém.

- Interessante. E o que esse cara tem haver com o maníaco do bilhete?
- Achei que pudesse ser a mesma pessoa. Pois esses dois que morreram, que a televisão não para de falar estavam aqui naquela noite, e um cara pediu para que eu entregasse um bilhete para a moça.
- Como? E como era esse cara?

- O de agora ou outro?

- Bom, os dois.

- Olha o outro era baixo, magro, quieto, loiro, não dava para ver seu rosto, suas feições, pois como sabe o bar não tinha muita iluminação, era um ambiente para encontros, sei é que me entende.
- Entendo.

- E depois, não dava para ficar parado, conversando, tinha sempre que atender um e outro ao mesmo tempo.

- Sei. E quando foi isso?

- Bem, um ano atrás.

- O senhor acha que pode ser a mesma pessoa?

- Tudo é possível.

- E o cara de agora que pediu para você entregar o bilhete para a moça?
- Olha, não sei, não prestei muita atenção. Não sei por que aquela sexta-feira estava uma noite muito agitada. Se aqueles dois não brigassem passariam despercebidos.

- Entendo. Ele estava sozinho?

- Não, acho que estavam com uma turma de rapazes e moças. Naquela noite não tinha ninguém desacompanhado.

Nisso abriram a porta abruptamente.

- Desculpe, não sabia que você estava aí.

- Já estamos saindo, disse Jerome.

Assim que a porta foi fechada, Jerome disse.

- Bem, senhor Walker espero que tenha ajudado em alguma coisa.
- Ajudar não ajudou muito, mas como você deve saber, pois vejo que tem uma coleção enorme da Rainha do crime, digo: tudo, até mesmo uma informação que nada tem com a investigação é válida.
- Esses livros não são meus, são do meu chefe, isto é, do gerente.
- Qual o nome dele?

- Nilson Davanço.

- Nilson Davanço? Que nome mais esdrúxulo, não acha?

- Não posso dizer nada, veja o meu: Jerome.

- É cada um tem o nome que merece.

- Falou e disse senhor Walker.

- Obrigado pela informação. Se precisar posso falar com você novamente?
- Claro, estarei sempre aqui depois das dezoito horas.

- Falou Jerome. Passar bem.

- Passar bem, senhor Walker.

Assim que o delegado saiu da lanchonete, Jerome chamou:
- Zeca, pode vir, vamos pendurar essa faixa antes que o chefe chegue.
E quando o chefe chegou e abriu a porta do seu pequeno escritório, emocionado leu a faixa pendurada na estante:

“Parabéns, senhor Nilson Davanço, felicidades é o que desejamos. Assinado: seus funcionários dedicados.”

 


Paul se jogou no sofá. Lançou no espaço um longo suspiro. Esticou o braço, pegou o controle, ligou o som e a música invadiu os meandros escuros.


Por tanto amor, por tanta emoção

A vida me fez assim


A vida. A vida. O que é a vida? Para que serve a vida? O que ela me trouxe ou o que ela me deu? Nada. Nada. Nada tenho da vida a não ser esse longo e tenebroso respirar que queima os sentidos. A vida é um amontoado de sentimentos que serve apenas para retalhar a carne. A vida... Que merda!


Doce ou atroz, manso ou feroz

Eu, caçador de mim


Gostava desse trecho quando Milton com a voz potente, a melhor voz que já ouvira, em sua opinião, soltava a frase: doce ou atroz, manso ou feroz, eu, caçador de mim. Era como fagulhas incandescentes imprimindo na pele impotente e fraca. Na cozinha abriu a geladeira. Estava quase vazia, tinha que comprar muita coisa, principalmente cerveja. Pegou uma e voltou ao sofá.  

Preso a canções

Entregue a paixões

Que nunca tiveram fim

Vou me encontrar longe do meu lugar

Eu, caçador de mim


Preso a vida se entregava com paixão aos movimentos dos passos manso ou feroz. Pressentia que nada há para temer, no entanto guardava o sentir na parede do quarto com o maior temor.
Entrou no quarto. Relanceou os olhos pela parede toda forrada de pequenos recortes de jornais, vários bilhetes ordenados por datas. O seu segredo. Segredo guardado por vários anos. Ali estava do primeiro ao último bilhete que escrevera. A princípio timidamente foi só para assustar, reconhecia, depois foi se aperfeiçoando até sentir o requinte do último entranhado na pele. Foi com satisfação que viu os corpos embaixo do carro. Sentiu-se pleno e satisfeito ao beijar aqueles lábios femininos ainda quentes de sangue. Ah! O prazer que sentiu!

Ao lamber carinhosamente cada bilhete e cada pedaço de jornal onde cada ataque era mencionado, quase que detalhadamente, enchia-o de prazer, era outra pessoa, não era mais o cara tímido, fraco, humilde como...

- Paul, Paul, chegou outro bilhete. Deve ser da tua mãe.

Nos seus dez ou doze anos de desgosto, correu todo feliz, achando que o bilhete lhe traria alguma alegria. E qual não foi sua decepção. Sua mãe mais uma vez o deixava para traz, o deixava nas mãos de estranhos. Nunca recebera dela atenção nenhuma, nem uma palavra, nem abraço. Eram bilhetes e mais bilhetes. E todo esse ano guardou os bilhetes, todos eles, sem exceção. Ali estavam eles alinhados na parede do quarto, recebendo a fria umidade da parede. Alguns estavam com manchas de bolor, outros ainda estavam intactos, dava para ler as palavras no garrancho meio que desleixado da mãe. Tinha um especial. Esse ele não desfazeria dele nunca.

Estava brincando na sala quando ouviu barulho de carro sendo estacionado.
- Minha mãe, gritou todo eufórico.

Correu ao encontro da mãe, mas não viu carro nenhum. Voltou triste e solitário aos seus brinquedos. Instantes depois, a empregada lhe entregava um bilhete. Da sua mãe se desculpando mais uma vez por não conseguir ser mãe. Enfiou o bilhete no bolso e continuou com seus únicos amigos: os brinquedos. Fazia já um tempo grande que brincava quando viu a empregada subindo as escadas com uma bandeja de café. Estranhou, como poderia se estava ele e a empregada somente em casa! Com o coração batendo esperou que ela descesse. Foi o que aconteceu. Ela desceu sem a bandeja. Isso fez supor que sua mãe estava lá em cima. E por que não o chamou? Subiu a escada de dois em dois degraus. Chegou à porta do quarto da mãe. Abriu. Seu coração parecia explodir. Seus olhos brilharam fora das orbitas. Suas mãos tremeram.
- Mãe..., gritou.

E não pode acreditar no que via. Havia um homem junto com a mãe deitados na enorme cama. Louco de raiva, pois sua imaginação concluiu: o culpado era aquele homem que lhe roubava a mãe. Correu, pegou a primeira coisa que sua mão conseguiu pegar e desferiu um golpe na cabeça daquele homem que não sabia quem era. O sangue jorrou encharcando tudo. Histérica a mãe gritava como louca, gritando que o filho era louco. Paul correu para a mãe implorando:
- Mãe sou eu. Eu te salvei. Eu te salvei.

Porém a mãe o empurrou, gritando como louca. Depois disso, Paul não se lembrava de nada. Por muito tempo ficou num local todo branco, onde só tinha gente vestido de branco e, todos os dias, era obrigado a tomar de hora em hora um remédio amargo. Quando saiu estava com mais de vinte anos.

 


Em letras garrafais todos os jornais estampavam a mesma notícia, apenas mudando um pouco o enfoque:


Preso o maníaco do bilhete, leia a notícia na página...


Conforme a declaração do delegado Walker, o maníaco do bilhete foi pego em flagrante. Depois de vários estudos, tanto psicológico como intelectual, sobressaindo o estado paranoico esquizofrênico do criminoso, o delegado montou um esquema bem elaborado e, com a participação de seus comandados, foi possível prender o meliante. Segue abaixo uma declaração do próprio delegado Walker.
- Só conseguimos pegar Paul Walinder depois de um estudo elaborado pela psicóloga Rosangela Norbete, e, com os dados minuciosos desse estudo é que montamos o esquema de prisão. Assim fomos andando com as investigações onde descobrimos fatos esclarecedores surpreendentes. Como todo criminoso tem seus passos preso ao passado, na raiz familiar, Paul Walinder tinha o seu. Descoberto a raiz e o porquê de suas ações foi fácil prendê-lo. Desde o segundo, vamos dizer ataque, fomos seguindo seus passos, claro que meio que sem regras, mas depois do terceiro ataque, é que conseguimos analisar sua conduta e seu modo de agir. Para melhor esclarecimento passo à palavra a psicóloga Rosangela Norbete.

- Como disse bem o delegado Walker, fomos andando com as investigações e, por que não dizer, com algumas experiências. Somando as investigações e as experiências, destacamos vários elementos perigosos e elucidativos até a prisão de Paul Walinder. Descobrimos ser ele filho da grande atriz falecida há cinco anos, Julia Walinder e do grande arquiteto Oscar Walinder. A mídia em geral sempre fomentou a existência desse filho, mas nunca podia comprovar. Investigando aqui e ali, soubemos da existência de um diário de Julia. Com certos movimentos de persuasão conseguimos ter acesso a esse diário. Lendo com o maior cuidado, descobrimos que Paul Walinder nunca soube da existência do pai. Nunca procurou saber se ele existia ou não. Nunca teve contato com a mãe, pois não o reconhecia como filho. Sempre detestou crianças, conforme suas entrevistas. Assim, Paul Walker foi criado pela governanta que volta e meia lhe mandava bilhetes como se fosse da mãe. E, naquele dia fatídico, Paul Walinder pensando que a mãe corria perigo, ao ver os dois na cama, sem saber, com o taco de golfe, matou o próprio pai na tentativa de salvar a mãe, como as testemunhas disseram no julgamento. Tresloucada a mãe que, já não reconhecia o filho, passou a odiá-lo internando o pobre coitado. Logo a morte de Julia Walinder, o sanatório não tinha mais como manter Paul em suas dependências, com um laudo fajuto, deu alta a um doente que nunca deveria ter alta. Dessa maneira, Paul carregando sem saber a fama de parricida, desprezado pela mãe, providenciou para que todos os namorados e, principalmente as namoradas que fossem parecidas com a mãe deviam morrer. Como sempre a vida toda recebeu bilhetes achou que os jovens namorados deveriam receber um bilhete antes de morrer. Completamos todas as suas características assassina ao vermos em sua casa, a parede toda forrada de bilhetes que escrevera e bilhetes que recebera da mãe. O resto vocês conhecem e não preciso mencionar os fatos.

Menos de um mês depois ninguém mais lembrava quem fora o Maníaco do bilhete.


Pastorelli / Jean Alzair

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...