O vento balança as folhas do
pensamento levando-me ao brilho misterioso do teu olhar.
O vento balança as folhas do
pensamento levando-me ao brilho misterioso do teu olhar.
Roça a pele dos objetos empurrando moléculas resistentes com seu aroma suave de quarta-feira agradável e frutífera.
Presságios que seus olhos de brilho castanhos trouxeram para minha pele árida de afagos e carinhos.
Abro o peito à saudade deixando que o vento de leve bata em meu corpo como se fosse o beijo que não me deste.
Guardo cada molécula do vento como garantia dos beijos que ainda espero e desejo receber.
Assim, refreando a ansiedade, coloco um ponto final na angústia, salvo o arquivo no coração da vida, fecho o Word revelador dos meus desejos e abro o programa da sobrevivência e me ponho a trabalhar corajosamente.
O verde invade
O verde invade
o quadro da janela
inundando olhos verdes
na visão de olhar
o verde inquietante
a invadir o quadro
da janela inundando
olhos verdes na visão
inquietante a invadir
o quadro da janela
onde o verde invade
o quadro da janela
inundando olhos verdes
na visão de olhar
o verde inquietante
a invadir a visão
da minha mente
Olhar guerreiro se estende no
cinzento horizonte das ruas incita e ao mesmo tempo apazigua o povo em sua luta
diária
Olhar guerreiro tem no
surrealismo da vida as linhas criativas do sentimento em perspectivas sonoras e
olfativas
Olhar guerreiro tem no coração a
paz e a paixão de poeta que se emociona com o olhar caótico da cidade
o tempo
olho o tempo em torno do poema
não me perco de vista
sei do meu corpo o que dele
preciso no tempo que me modifica
entre os dentes extraio o gosto
de sangue que há em cada poema da minha vida
nada vejo aqui se olho
olho se nada vejo aqui
aqui olho se nada vejo
vejo aqui se o olho nada
nada vejo aqui sem o olho
É verdade
queira eu ou não
primavera frio ou verão
a bola no gramado alemão
vai rolar enfurecendo o povo
no mundo todo
mas uma coisa lhe digo
meu caro irmão
por mim futebol
não haveria não
onde há muito dinheiro
deixa de ser arte
deixa de se ter emoção
joga-se por dinheiro
e não pelo lábaro
que ostenta as estrelas
na verde mata destroçada
o azul do céu estagnado
o amarelo ouro roubado
e o branco manchado
dessa nossa linda nação
onde tem vez o ladrão
e o inocente nas esquinas
ou preso em suas casas
passa fome analfabeto
sem que possa ter
sequer um tostão
não meu amigo-irmão
sei que gosto não se discute
mas futebol copa
comigo não tem vez não
fui pego em flagrante
sei, eu sei, estava aborrecido
mas caramba!
você tinha que me deixar vermelho
com aquele tremendo beijo
naquela tarde chuvosa da Paulista?
Nana tinha no rosto o cansaço das atribulações em que, jogada sem aviso
prévio, obrigava-a redobrar a atenção nas coisas, nas pessoas e,
principalmente, no que intelectualmente vinha
fazendo. Seu processo de criação consistia captar todas as emoções que fossem
possíveis, com uma calma sincera e silenciosa sem alarde, para depois,
registrar em prosa ou em poesia. Não aceitava a idéia de certos poetas que tratavam
a arte como linha de montagem. Concebiam seus poemas um atrás do outro numa
espontaneidade que chegava a esgotar sua capacidade que, sabia, ser pequena. É
inconcebível tal prática, pensava para sim mesma, sem declarar abertamente com
medo de magoar pessoas que aprendera a gostar. Participava como experiência,
não entrava na onda de se ter um pouco de fama pela produção. Fazia já três
meses que estava no grupo, aliás, um grupo onde se podia conversar com pessoas
inteligentes, prestativas, atenciosas o qual ela era grata, pois tratavam-na
com atenção respondendo todas as dúvidas que surgiam.
O processo criativo do grupo consistia, sob um tema apresentado, criar um poema quase que um atrás do outro prejudicando assim, a qualidade. Tímida e envergonhada se descontrolava fazendo surgir uma barreira entre ela e a criação. Por mais que a elogiassem, não acreditava muito no seu potencial criativo. Via-se pequena num lento processo de crescimento. Para Nana precisava de uma espécie de torpor melancólico, quase depressivo para surgir uma criação poética de qualidade. Um processo que vinha de dentro para fora e, não de fora para dentro. Nisso, uma pontada minúscula de saudade, assim pensou que fosse, pulsou dentro do peito. Lembrou de como e porque começara a escrever.
Na época namorava o Marciel. Planejavam marcar o noivado. Mas um dia Marciel chegou dizendo que não a amava mais. Reviu seu choro convulsivo e descontrolado. Não brigaram. Não discutiram. Ela não quis saber o porque do rompimento. A partir desse dia, o mundo tinha acabado. Abraçou o desanimo e se entregou a um automatismo gritante. Parou de comer, não queria sair mais. Foi então que uma de suas amigas comentou:
- Quando temos algo que nos incomoda, devemos falar dele quase que intensivamente, como uma ferida, não mexemos nela colocando remédio? Então, é a mesma coisa. Falemos da dor que nos incomoda para que seja ela curada.
Nana pensou:
- Não sou de falar, talvez escrevendo... quem sabe!
E foi o que fez. Começou a escrever, não propriamente poesia, mas prosa diária. Os primeiros textos saíram péssimos, reconhecia. No entanto, foi se esforçando, lendo, procurando exemplos, conversando aqui e ali, até que se aprimorou na prosa. Não estava ainda cem por cento, e nunca estaria, não possuía o dom que muitos têm, reconhecia. Entrou numa lista de discussão pela Internet e daí conheceu o grupo o qual vinha participando. Mudara completamente, já não era mais a apaixonada chorosa deixada pelo namorado. Aliás, nem lembrava mais do Marciel.
Consultou o relógio. Precisava correr senão perderia o último ônibus. Os encontros estavam terminando muito tarde. Por outro lado não conseguia e também não queria sair mais cedo. O problema era depender de condução, do metrô. Droga! Porque não comprava um carro?
Entrou no trem procurando um lugar agradável para que pudesse continuar lendo o livro. Porém, levada pelo empurra-empurra, sem que percebesse, levou-a a ficar no corredor, bem no meio do vagão. Tudo bem pensou, o jeito é me equilibrar. Nisso seu olhar divisou um rosto conhecido perdido no meio da multidão. Impossível! Não pode ser! Será? Sonhara tanto um dia encontrar assim por acaso com Marciel que, agora que acontecia custava a acreditar. Mas era ele, sim. Sentado perto da janela conversando animadamente com uma garota. Seria sua namorada? Não, não era. Logo a moça se levantou e despediu-se dele. Nesse momento Marciel ergueu os olhos e olhou em sua direção. Não a reconheceu. Nana num nervosismo excitado se sentou ao lado dele. Só então ele a reconheceu. Ficou uns minutos olhando-a meio que espantado.
- Olá, como está? – perguntou Nana
- Oi, Nana. Puxa! Não tinha reconhecido você.
- Tudo bem?
- Tudo bem. O que faz aqui a essa hora? – olhou o relógio – Quase meia noite.
- Pois é, não te dizia que as coisas mudam.
- É verdade.
- Então, eu mudei, agora fico até mais tarde na noite. E você?
- Estou vindo do trabalho, sou agora divulgador de produtos.
- Tem recebido os meus textos? O livro onde publiquei o conto sobre nós?
- Sim recebi e obrigado, só não te liguei para agradecer por falta de tempo...
- Eu sei, não tem problema, só de saber que tem recebido está ótimo. Olhe vou descer na próxima...
- Eu sei, como sempre fica no meio do caminho, não segue comigo até o fim, né?
- Acontece que você... bom deixa pra lá. Toma, esses são os dói últimos livros que publiquei. Um dia qualquer apareço na tua casa para escrever a dedicatória, está bem?
- Está bem.
Percebeu uma indiferença nesse “está bem”. Despediram-se com um leve beijo.
Subindo a escada rolante Nana teve a certeza de que uma fase da sua vida estava indo embora naquele trem. Desaparecia na bruma da noite uma época que nunca mais teria uma outra igual. Sentia-se grata por tê-lo conhecido e, o mesmo espera que fosse da parte dele, mas se também não fosse não se importava. Era grata por terem seus destinos se cruzado.
Aconchego-me nos teus braços no gosto de ficar sem planos de partida.
Sou todos os dias envolvidos no vai e vem das emoções que se repete na estação-cidade aonde uns chegam, outros partem e muitos querem ficar.
Amo os dois lados da vida: as aventuras e desventuras, os encontros e desencontros, os amores e desamores e caminho nos trilhos do infortúnio aguardando um dia a nossa partida desse nosso lugar.
A dor
ao vê-la passar majestosa
não é maior
do que saber
o
quanto aos outros é preciosa.
Teu
andar carregado de prazer
se faz
sentir por todos desejada.
Mulher
que rebola audaciosa
cujo
olhar lança maliciosa
será da
vida um dia arrancada.
Seu
amor morrerá no esquecimento
Poucos
terão no seu sentimento
o ardor
da mulher orgulhosa
ficando
apenas na lembrança
a noite
em que morreu a esperança
em ter
nos braços a mulher melindrosa
A mente se esfacela em tiras
iguais a tira da cortina impedindo a claridade.
Colho o que plantei, pois sei o
que devo ou não fazer.
Continuarei plantando sementes
que só no futuro irão dar frutos.
Quais os frutos que não tenho
permissão para saber, apenas sei que colherei.
Não me importo com a colheita,
sei que me influenciará de alguma maneira.
O único cuidado que deverei ter é
colher adequadamente os frutos.
Claro que ao plantar as sementes,
procuro de algum jeito plantá-las corretamente, dentro do padrão em que, por
todos esses anos, venho-me beneficiando, isto é, vivendo.
Não tenho preocupação nenhuma em
desvencilhar dos erros, dos passos mal dados.
Por enquanto caminho no meio fio
do perigo sem saber qual lado devo pender.
Equilibro-me no amor que tenho á
vida.
Os riscos traçados pelas lajotas marcam figuras que perambulam seus mal
traçados desenhos em desejos ávidos de abraços e beijos e alimentos,
confundindo com o alarido de bocas que não se calam.
Luzes brilham a fome em anúncios
gustativos de odores em disputa da melhor freguesia.
Poucos solitários bebem a solidão num
copo de chope ou degustam a paz de estarem sozinhos consigo mesmo.
Palavras voam esparsas chegando até a
mim enfraquecidas pelo burburinho geral.
Espocam risos, gargalhadas e lágrimas
de saudades ou romances acabados que ricocheteiam nos pilares da praça de
alimentação.
Impassíveis, os riscos traçados pelas
lajotas refletem a angústia, medo e a dúvida de um amanhã que não sabemos como
será.
Pulsa nas veias de concreto a busca do amor numa aflitiva troca de olhares afugentando da vida a amargura.
quadros representam vidas que se foram
estudos sombreados
meramente idealizados
segredos transmitidos
em linhas e curvas
em claros e escuros
que permanecem
no tempo e no espaço
nas salas e escada
da Casa das Rosas
a informarem
que já não existem mais
Palavras vazias escorregam da ponta dos dedos eletrizando o teclado que me hipnotiza.
quando chove
ando
e
nado desviando-me dos guardas-chuva
infernais
quando chove
ando
e
nado por ruas nuas de vidas e nada mais
quando chove
ando
e
nado sem carro escarrando nos quintais
quando chove
ando
e
nado em ruas sujas e imundos canais
quando chove
ando
e
nado por viadutos e compridas marginais
quando chove
ando
e
nado entre granizo lodaçais
Quando
ele chegou havia poucas pessoas. Ao assinar a lista de presença verificou
que a acusação era uma advogada, pensou: isso deve ser bom, pois ela vai
escolher mulher e não homem. Aos poucos a sala foi se enchendo. Outra coisa que
fortaleceu o seu parecer, é que dos quatorze jurados, três eram homens, o resto
todas as mulheres. Mais uma chance dele escapar. Foram buscar um jurado no
outro plenário para que fosse possível o julgamento. O oficial saiu no corredor
e chamou pelo nome três pessoas. Ih! Isso é mau, será que vai ter testemunhas?
Nisso uma senhora já avançada na idade entrou acompanhada de um sujeito moreno.
Entraram e sumiram lá para dentro. Depois ela voltou sozinha. Logo em seguida
entra o Promotor, um advogado gordo, olhar duro como se fosse dono do plenário.
As peças estavam colocadas no tabuleiro, só faltava dar início ao jogo, o
que foi feito. O réu, aquele moreno que estava acompanhado com a advogada,
não estava algemado, foi conduzido ao seu lugar. O juiz entrou, todos ficaram
quando houver o nada
cantando a voz soltarei
em brado e vigoroso cantar
despojando-me do meu
corpo a dor atroz
não deixarei o nada
residir por muito tempo
no templo do meu ser
pois despojado e nu
depositarei o que sou
recolhendo-me no que fui
e mostrando-me o que serei
Quando o vazio abarrota o sentimento, tudo parece
demasiado insignificante e as insignificâncias que, nos dias normais não se
presta atenção, passam a ter importância.
Tem se a impressão que se desliza numa fragrância leve
a ponto de não sentir o chão, de não sentir o sol, de não sentir o ar, se
esquece as angustias do dia a dia e, passa a prestar atenção nos pormenores,
naqueles pormenores que nos dias comuns não se nota. Uma hora é um papel jogado
displicentemente na calçada, um carro que guincha o pneu numa freada, um riso
que se ouve sem saber de onde vêm, conversas que se cruzam ficando na memória
pedaços de vozes, o brilho da manhã estampando a janela de algum prédio humano,
enfim...
...quando o vazio abarrota o sentimento, se faz uma
rota diferente emocional, criando assim, forças para continuar na estrada da
vida, continuar com o papel destinado neste palco imenso, caótico e belo...
e não me olha
digo que não me importo
com teu desprezo
e com facilidade bebo
outra taça de vinho
Continuo dormindo e acordando no dia a dia de um cotidiano que mês a mês repetem-se todos os anos.
Os gestos transcorrem na insinuação do medo ao serem impressos no papel mágico do tempo.
Percorro trajetos insidiosos numa repetição infindável reparando em insignificantes detalhes para alimento dos olhos e da mente.
Guardo os símbolos para futuros textos prosaicos revelando nas entrelinhas o eu envergonhado de cidadão que se julga fora do tempo.
A manhã de sol aberto influenciará normalmente o ciclo de cada individuo preocupados tão somente onde pisam.
Famintos perambulam nas sombras escondendo-se da sociedade egoísta e fútil e individualista.
Olhos esbravejam falares sexuais em corpos exibicionistas que desfilam sua massa de podres poderes.
Bom dia, meus amigos, assim caminha a humanidade.
Assim Caminha A Humanidade
Lulu Santos -
Ainda vai levar um tempo
Pra fechar o que feriu por dentro
Natural que seja assim
Tanto pra você quanto pra mim
Ainda leva uma cara
Pra gente poder dar risada
Assim caminha a humanidade
Com passos de formiga e sem vontade
Não vou dizer que foi ruim
Também não foi tão bom assim
Não imagine que te quero mal
Apenas não te quero mais
Não te quero mais
Não mais
Nunca mais
Nisso no meio da sonolência que invadia meus olhos já marejados de tanto bocejar, soou uma voz forte impondo seu domínio:
- O menino! Não quer sentar?
Só ouvi a voz que soava nas minhas costas sem que eu conseguisse ver o dono.
- Ó rapaz dê o lugar para o menino.
Virando um pouco o corpo, vi uma mão se estender para segurar a mão do menino que sentou no lugar que o rapaz desocupara.
Tudo bem! Deixando de lado o humanitarismo, mas essas pessoas que se dizem caridosas agindo dessa maneira em público, tornam-se arrogantes, preponderantes como se fossem os donos da verdade.
Há alguns que estando quase dois metros longe do deficiente ou de algum senhor de idade, se fazem de caridosos a ponto de interromper a seqüência natural das coisas interpondo-se na vida alheia. Tal atitude deixa constrangido quem está sentado dormitando na maior cara dura tanto quanto o deficiente ou o senhor de idade.
Presenciei uma vez uma cena surrealista digno de humor. Uma mulher vendo um senhor em pé, não se contentou, em quanto não fez o rapaz ou moça, não lembro, se levantar, e fazer o senhor que, veementemente não queria, pois desceria logo, não faz favor o senhor tem todo o direito, e olhava com cara de reprovação para o rapaz que indeciso não sabia se levantava ou continuava sentado. Tanto fez que o senhor acabou sentando o que agradeceu calorosamente ao rapaz. Chegando à estação seguinte o senhor se levantou e desceu do trem. Ainda da plataforma olhou para a senhora e sacudiu a cabeça como se dissesse:
- Está vendo sua intrusa, não disse que desceria logo.
Essas pessoas que se dizem em público, com tal atitude, caridosas, a posto que na rodinha de amigos tomando uma caipirinha e falando mal da bunda das mulheres num machismo exacerbado, digam arrogantes:
- Ah! eu falo mesmo, quando vejo injustiças desse tipo me intrometo mesmo – e para complementar coçam descaradamente o saco e dão uma cuspida de lado.
Creio que essas pessoas, principalmente os homens, falam baixinho em casa numa demonstração de quem canta mais alto é a galinha.
Acordou apressado. Olhou o
relógio que martelava o silencio com o seu bip-bip. Seis horas e quinze
minutos. Estava dentro do horário. Mesmo assim, acelerou os movimentos.
Trocou-se, se lavou, pegou as coisas e saiu. Já estava subindo o segundo lance
de escadas quando enfiou a mão no bolso. Droga! Tinha esquecido a conta da Vivo
no bolso. Colocara no bolso para não esquecer... Voltou e deixou a conta em
cima do computador, se alguém não tirar ela dali... Saiu. Ao fechar o portão
notou mais uma coisa. Estava levando a chave da esposa. Oh! Que merda! Tudo bem
é sexta-feira, pensou. Abriu novamente o portão, desceu as escadas, abriu a porta
e colocou a chave em cima do móvel da cozinha. Bem que ela merecia ficar presa
mesmo, pensou enquanto aguardava o ônibus. A vida tinha que ser mesmo assim?
Será que tudo o que fazemos tem alguma razão? Talvez, por que... Ah! Ele
lembrou que tinha eliminado do dicionário a palavra “porque”, agora precisa
eliminar a palavra “Se”. Por sorte o metrô, apesar do aviso do alto falante:
“Devido a chuva o metrô por motivos de segurança, está com a velocidade
reduzida e com maior tempo de parada”. Assim que o metrô deu partida, a barriga
começou com seus reverterios. Mais essa
ainda! Espero que dê tempo senão... Chegando no Paraíso, ao descer, com o seu
corpo frágil e pequeno, foi empurrado de um lado para outro. Uma mulher
baixinha olhou para ele e disse: O merda! Não empurre. Não deu pelota para ela,
fez uma careta mostrando a língua, o que tinha era vontade de dar um safanão na
cabeça dela isso sim. Saindo do metrô chovia uma chuva fina, e com isso os
marreteiros vendendo guarda-chuva a cinco reais atravancava a saída. Teve
vontade de comprar um... Rápido entrou no Banco, retirou seus mil reais para o
fim de semana, atravessou a Augusta. Entrou na farmácia, comprou o que queria
comprar, acelerou o passo, pois os reverterios da barriga aumentavam. Enquanto
seguia em baixo da marquise do Conjunto Nacional, ficou imaginando como estaria
o outro lado da rua com os camelôs. Ah! Que se danem eles... Em passos lentos, pois não adiantava correr
mesmo, como diriam: se correr na chuva você se molha mais, atravessou a rua e
desceu a Frei Caneca. Como diz o ditado: chuva não mata, só dá pneumonia. Até
que não seria mau, assim ficaria uns dias em casa. Estava suando, mesmo com a
temperatura baixa. Entrou no prédio, pegou o elevador. Que coisa! Parece que a
barriga sabe quando estamos chegando, ela fica mais impaciente. Entrou
apressado, jogou as coisas em cima da mesa e entrou no banheiro. Ah! Que
alívio! Ao ligar o micro ouviu alguém dize: hoje o seu bom dia será sobre a
chuva, dando bronca, não é? Ele riu, esperou o Windows ser carregado, abriu o
Word e se pôs a escrever freneticamente, sem se preocupar com isso ou com
aquilo, se a vida era isso ou não, queria apenas e necessariamente escrever e,
se possível sempre... Afinal a vida é tudo isso e muito mais, talvez até no fim
do dia surja alguma surpresa... Um telefonema... Quem sabe...
Lorca – gazel da morte sombria
quero do vento
a caricia dos teus cabelos
quero do sono
o segredo dos teus sonhos
quero da tua boca
os beijos que nunca beijei
quero do sol
a luz dos teus olhos
do instante só quero
a felicidade de possuía-la
inteira
Realmente, onde estávamos não
tinha mesmo cara de escritório, mas fico perguntando: será que não tem como
voltarmos para lá? Claro que não, pois um passo dado não se retrocede, temos
que irmos em frente seja o que for, ou seja, qual for às conseqüências. Na
doutrina kardecistas há uma lei que diz que devemos pagar nossos débitos
passados. Exemplo: se em vidas passadas fiz algum mau para fulano, nessa vida
sou obrigado a pagar, não passando o que fulano passou, mas nos aproximando um
do outro. Vejamos quem está a minha volta: esse, aquele, outro, o..., a... , lá
o... , bem resumindo, umas oito pessoas. Caçamba! Isto quer dizer que tenho de
pagar meus débitos para oito pessoas! To ferrado! Mas posso pensar de outra
maneira, porque eu tenho que pagar? Será que essas oito pessoas não têm que
pagar também? Ah! Claro que sim. Então a situação está equilibrada. Mas vamos e
venhamos: é um porre para não falar, ou melhor, não digitar um palavrão. Ah!
Que saudades da rua Silvia...
o vento caminha entre as pernas
da cidade enxugando as lágrimas no lenço da fatalidade
o sol equilibra-se nos galhos
tortos e anuncia a alegria estampada nas bancas de jornais e revistas relatando
a tragicomédia brasileira que todos os dias as rádios prenuncia
nomes entre dentes garrafais e
fotos de falsos rostos, enchem de cores os olhos dos outdoors a embalar sonhos
e amores em ilusões perdidas
em cada boca suculenta toma-se
coca-cola embrenhando-se em academias enferrujadas ao som de aparelhos de
halterofilismo arcaico
como água poluída, escorre a
fome, fecha-se o livro e se dispara o fuzil mostrado a cores na televisão todos
os dias
“o sol é tão bonito
quero seguir vivendo
por que não...
eu vou...
por que não...”
Véspera de feriado. E daí? Um dia que apenas quebra
levemente a rotina. Um dia que não se trabalha que não se tem a obrigatoriedade
de colocar a coleira de prisioneiro da sobrevivência e, pensamos, vamos fazer o
que gostamos de fazer. Isso para alguns. Para outros talvez seja um dia pior do
que se estivesse trabalhando.
E para mim? Como será esse dia “livre”? Será um dia
como outro qualquer, apenas que, hoje à noite não me preocuparei com a hora,
dormirei bem tarde, e só acordarei, talvez lá pelas onze horas ou mais.
Levantarei, comprarei o pão e frios para o café, sentarei em frente ao micro,
mandarei e responderei alguns e-mails, e depois, se o animo me comandar,
sentarei a mesa da cozinha e terminarei um desenho que faz tempo devia ter
terminado. Vamos ver. Ah! Claro esqueci o mais importante, farei tudo isso
ouvindo meus CDs prediletos. Pretendo...
E isso me deixará mais rico ou mais pobre? Isso me fará
mais importante? Creio que no amadorismo da minha pele, a primeira vista, nada
se alterará, mas na profundeza do labirinto, alguma coisa mudará. O que? Só
saberei diante dos problemas, aos quais deverei estar preparado.
Porém, hoje, segunda-feira, dia 24/04, descubro que
nunca estou devidamente preparado. Haverá sempre algo que me desequilibra, me
balança e, que me custa retornar ao equilíbrio normal.
retrato
violão
roupa acetinada
troféus
pertences de uma época
que dela ficou apenas as canções
emolduradas nos corações
dos eternos românticos enamorados
perdidos em vinis
no tempo que não volta mais
ROMANCE VERDE
Osvaldo Luiz Pastorelli
Ficou olhando as palavras impressas no papel branco
da ensebada agenda: Romance verde. Por que romance? Não gostava de romance,
isto é, nunca conseguira escrever um. Ainda mais verde! Por que verde? Não
tinha predileção por nenhuma cor, aliás, tinha uma queda pelo cinza e suas
variações de tons, mas nada que se pudesse dizer que ele fosse um fanático.
Nada disso. Então, por que verde? Ainda mais romance! Escarafunchou a mente e
nada achou no labirinto de idéias, que em grupos sistemáticos eram arquivadas
no inconsciente.
O sol ardia numa constância de brilho estampando
sombras — verdes?! — em formas variadas nos concretos da vida. Coçou o queixo,
uma proeminente penugem de barba crescia no seu rosto ovalado. Sua visão de
águia — sempre achara que enxergava como uma — planava por longínquas
distâncias de branco e meios-tons de cinza. Não via nada verde. Só o cinza
predominante, poucos brancos e nenhum verde. Que merda! De onde saíra essa
esquisitice de verde, meu Deus?! Voltou a atenção para a agenda ensebada e pela
décima vez leu: Romance verde.
Largou tudo. Achou melhor largar tudo. Tomou um bom
gole de água gelada. E uma onda de energia fria foi tomando conta dele. Sentiu
a pontada de uma pequena lembrança, sabia de onde vinha essa sensação, não se
esforçou em barrá-la, deixou, abriu os canais sensitivos e preparou-se para
recebê-la.
E quando ela chegou, perdeu o domínio. Resignou-se.
Só podia fazer isso naquele momento. Refestelou-se na cadeira e procurou,
embalado pela música, apreciar o movimento do tempo. Que mais poderia fazer,
prostrado diante da circunstância, cuja pressão vinha da palavra verde escrita
na agenda ensebada? Nesse instante, como o brilho de um fósforo riscado, em sua
mente surgiu a pergunta que se esfacelava no asfalto quente, escorrendo em
pequenas gotas de suor. Onde estariam os olhos verdes que diziam amá-lo? Tentou
imaginar o que estariam fazendo. Mil coisas, talvez. Contanto que estivessem
pensando nele, tudo bem. Na vida, escreveu, tudo é possível, o que não é
possível é amar e não ser amado. Ele era amado? Julgava que sim, pois todos os
dias se falavam ao telefone...
Com os olhos despreocupados e, evidentemente satisfeitos,
alongou-se indolentemente, abrangendo o verde do outro lado da rua, onde o
caminhão da prefeitura esvaziava duas caçambas de lixo, encostadas ao muro. Os
garis puxavam a caçamba perto do caminhão e, por um sistema de alavancas e
ganchos, o conteúdo era jogado para dentro, onde o maquinário triturava o lixo.
Um cheiro forte de comida e outras coisas estragadas atravessou a rua e chegou
até ele, obrigando-o, por momentos, a tapar o nariz. Ainda bem que já tinha
almoçado. Olhou para os lados, as pessoas reclamavam.
— Nada posso fazer — disse o proprietário, ao atender
à reclamação da senhora na mesa ao lado.
Realmente, é uma coisa insuportável, que se tornava
suportável por se estar ali tão somente por necessidade.
— Daqui a uns dez minutos o cheiro some — retrucou o
garçom.
De fato, depois que o caminhão esvaziou as caçambas e
foi embora, ninguém mais se preocupou com o cheiro ruim. O ser humano gosta de
reclamar para ser notado ou, mesmo, por ter que reclamar, simplesmente.
Pouco depois a calma voltou a reinar, então pôde se
entregar, de novo, aos pensamentos. Assim seus olhos enfatizaram o verde mato
protegido pelo precário muro, denotando falta de cuidado, cheio de buracos
imensos, por onde o mato invadia a calçada. E crescia desordenadamente. Mesmo
não vendo, podia ter certeza de que as raízes ferozes de vida se aprofundavam
no solo, se esparramando em várias direções. Mas o verde que o pressionava, que
o deixava perturbado não era o verde visível, concreto, era o verde que lhe
vinha à mente por algum motivo e que o fez escrever na agenda velha e ensebada
as palavras: Romance verde.
Romance verde?! Contornou de leve as letras, uma por
uma, com a ponta do dedo. Notou a aspereza concreta das palavras sem que
pudesse assimilar o seu abstracionismo. Sorriu. Mansamente, percebeu que
escrevera sob comando alcoólico e que não percebera quando seus grossos dedos
fizeram com que a esferográfica deslizasse sobre as linhas da agenda velha e
ensebada. Deduzia que uma insignificante obsessão tomava seu ser. Precisava pôr
um fim nesse descontrole emocional. Chamou o garçom. Pagou a conta e saiu.
Quando entrou no metrô, o sol começava a declinar,
dando passagem para a noite que já envolvia os transeuntes em meio aos
luminosos das vitrines. Transitava entre sentir de dentro dele e sentir de fora
o que ressurgia em pequena amargura. Escalou os picos do sentimento,
demorando-se um pouco a presenciar a população regurgitante em seus movimentos
cheios de medos implícitos.
Pulsava o sangue nas veias incandescentes, aflorando
a dor crônica.
Encostou a cabeça à janela do trem e fechou os olhos.
Deixou seu destino entregue ao sono que o vencia naquele momento.
Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...