sábado, 31 de agosto de 2024

O vento balança

 

O vento balança as folhas do pensamento levando-me ao brilho misterioso do teu olhar.

 Teu sorriso brilha na tristeza do beijo que furtivamente me roubou.

 Escondendo do frio, tuas mãos nos bolsos, procuram na macieza quente do tecido, as minhas que anseiam por um carinho.

 Teu sexo se fecha ocultando a fenda profunda onde guarda o segredo da vida.

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

O vento matinal.

 

 O vento nesta manhã clara agita as tiras da cortina forçando sua entrada no ambiente abafado de claridade artificial.

 Roça a pele dos objetos empurrando moléculas resistentes com seu aroma suave de quarta-feira agradável e frutífera.

 Presságios que seus olhos de brilho castanhos trouxeram para minha pele árida de afagos e carinhos.

 Abro o peito à saudade deixando que o vento de leve bata em meu corpo como se fosse o beijo que não me deste.

 Guardo cada molécula do vento como garantia dos beijos que ainda espero e desejo receber.

 Assim, refreando a ansiedade, coloco um ponto final na angústia, salvo o arquivo no coração da vida, fecho o Word revelador dos meus desejos e abro o programa da sobrevivência e me ponho a trabalhar corajosamente.

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

O verde invade

 O verde invade

 

O verde invade

o quadro da janela

inundando olhos verdes

na visão de olhar

o verde inquietante

a invadir o quadro

da janela inundando

olhos verdes na visão

inquietante a invadir

o quadro da janela

onde o verde invade

o quadro da janela

inundando olhos verdes

na visão de olhar

o verde inquietante

a invadir a visão

da minha mente

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Olhar guerreiro

  

Olhar guerreiro se estende no cinzento horizonte das ruas incita e ao mesmo tempo apazigua o povo em sua luta diária

 

Olhar guerreiro tem no surrealismo da vida as linhas criativas do sentimento em perspectivas sonoras e olfativas

 

Olhar guerreiro tem no coração a paz e a paixão de poeta que se emociona com o olhar caótico da cidade

terça-feira, 27 de agosto de 2024

olho em meu corpo

  o tempo

olho o tempo em torno do poema

 

não me perco de vista

 

sei do meu corpo o que dele preciso no tempo que me modifica

 

entre os dentes extraio o gosto de sangue que há em cada poema da minha vida

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

olho nada

 

nada vejo aqui se olho

olho se nada vejo aqui

aqui olho se nada vejo

vejo aqui se o olho nada

nada vejo aqui sem o olho

domingo, 25 de agosto de 2024

Olho no lance

 

 

É verdade

queira eu ou não

primavera frio ou verão

a bola no gramado alemão

vai rolar enfurecendo o povo

no mundo todo

mas uma coisa lhe digo

meu caro irmão

por mim futebol

não haveria não

onde há muito dinheiro

deixa de ser arte

deixa de se ter emoção

joga-se por dinheiro

e não pelo lábaro

que ostenta as estrelas

na verde mata destroçada

o azul do céu estagnado

o amarelo ouro roubado

e o branco manchado

dessa nossa linda nação

onde tem vez o ladrão

e o inocente nas esquinas

ou preso em suas casas

passa fome analfabeto

sem que possa ter

sequer um tostão

não meu amigo-irmão

sei que gosto não se discute

mas futebol copa

comigo não tem vez não

sábado, 24 de agosto de 2024

ontem

 fui pego em flagrante

sei, eu sei, estava aborrecido

mas caramba!

você tinha que me deixar vermelho

com aquele tremendo beijo

naquela tarde chuvosa da Paulista?

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Os caprichos de Nana

  

Nana tinha no rosto o cansaço das atribulações em que, jogada sem aviso prévio, obrigava-a redobrar a atenção nas coisas, nas pessoas e, principalmente, no que  intelectualmente vinha fazendo. Seu processo de criação consistia captar todas as emoções que fossem possíveis, com uma calma sincera e silenciosa sem alarde, para depois, registrar em prosa ou em poesia. Não aceitava a idéia de certos poetas que tratavam a arte como linha de montagem. Concebiam seus poemas um atrás do outro numa espontaneidade que chegava a esgotar sua capacidade que, sabia, ser pequena. É inconcebível tal prática, pensava para sim mesma, sem declarar abertamente com medo de magoar pessoas que aprendera a gostar. Participava como experiência, não entrava na onda de se ter um pouco de fama pela produção. Fazia já três meses que estava no grupo, aliás, um grupo onde se podia conversar com pessoas inteligentes, prestativas, atenciosas o qual ela era grata, pois tratavam-na com atenção respondendo todas as dúvidas que surgiam.

O processo criativo do grupo consistia, sob um tema apresentado, criar um poema quase que um atrás do outro prejudicando assim, a qualidade. Tímida e envergonhada se descontrolava fazendo surgir uma barreira entre ela e a criação. Por mais que a elogiassem, não acreditava muito no seu potencial criativo. Via-se pequena num lento processo de crescimento. Para Nana precisava de uma espécie de torpor melancólico, quase depressivo para surgir uma criação poética de qualidade. Um processo que vinha de dentro para fora e, não de fora para dentro. Nisso, uma pontada minúscula de saudade, assim pensou que fosse, pulsou dentro do peito. Lembrou de como e porque começara a escrever.

Na época namorava o Marciel. Planejavam marcar o noivado. Mas um dia Marciel chegou dizendo que não a amava mais. Reviu seu choro convulsivo e descontrolado. Não brigaram. Não discutiram. Ela não quis saber o porque do rompimento. A partir desse dia, o mundo tinha acabado. Abraçou o desanimo e se entregou a um automatismo gritante. Parou de comer, não queria sair mais. Foi então que uma de suas amigas comentou:

- Quando temos algo que nos incomoda, devemos  falar dele quase que intensivamente, como uma ferida, não mexemos nela colocando remédio? Então, é a mesma coisa. Falemos da dor que nos incomoda para que seja ela curada.

Nana pensou:

- Não sou de falar, talvez escrevendo...  quem sabe!

E foi o que fez. Começou a escrever, não propriamente poesia, mas prosa diária. Os primeiros textos saíram péssimos, reconhecia. No entanto, foi se esforçando, lendo, procurando exemplos, conversando aqui e ali, até que se aprimorou na prosa. Não estava ainda cem por cento, e nunca estaria, não possuía o dom que muitos têm, reconhecia. Entrou numa lista de discussão pela Internet e daí conheceu o grupo o qual vinha participando. Mudara completamente, já não era mais a apaixonada chorosa deixada pelo namorado. Aliás, nem lembrava mais do Marciel.

Consultou o relógio. Precisava correr senão perderia o último ônibus. Os encontros estavam terminando muito tarde. Por outro lado não conseguia e também não queria sair mais cedo. O problema era depender de condução, do metrô. Droga! Porque não comprava um carro?

Entrou no trem procurando um lugar agradável para que pudesse continuar lendo o livro. Porém, levada pelo empurra-empurra, sem que percebesse, levou-a a ficar no corredor, bem no meio do vagão. Tudo bem pensou, o jeito é me equilibrar. Nisso seu olhar divisou um rosto conhecido perdido no meio da multidão. Impossível! Não pode ser! Será? Sonhara tanto um dia encontrar assim por acaso com Marciel que, agora que acontecia custava a acreditar. Mas era ele, sim. Sentado perto da janela conversando animadamente com uma garota. Seria sua namorada? Não, não era. Logo a moça se levantou e despediu-se dele. Nesse momento Marciel ergueu os olhos e olhou em sua direção. Não a reconheceu. Nana num nervosismo excitado se sentou ao lado dele. Só então ele a reconheceu. Ficou uns minutos olhando-a meio que espantado.

- Olá, como está? – perguntou Nana

- Oi, Nana. Puxa! Não tinha reconhecido você.

- Tudo bem?

- Tudo bem. O que faz aqui a essa hora? – olhou o relógio – Quase meia noite.

- Pois é, não te dizia que as coisas mudam.

- É verdade.

- Então, eu mudei, agora fico até mais tarde na noite. E você?

- Estou vindo do trabalho, sou agora divulgador de produtos.

- Tem recebido os meus textos? O livro onde publiquei o conto sobre nós?

- Sim recebi e obrigado, só não te liguei para agradecer por falta de tempo...

- Eu sei, não tem problema, só de saber que tem recebido está ótimo. Olhe vou descer na próxima...

- Eu sei, como sempre fica no meio do caminho, não segue comigo até o fim, né?

- Acontece que você... bom deixa pra lá. Toma, esses são os dói últimos livros que publiquei. Um dia qualquer apareço na tua casa para escrever a dedicatória, está bem?

- Está bem.

Percebeu uma indiferença nesse “está bem”. Despediram-se com um leve beijo.

Subindo a escada rolante Nana teve a certeza de que uma fase da sua vida estava indo embora naquele trem. Desaparecia na bruma da noite uma época que nunca mais teria uma outra igual. Sentia-se grata por tê-lo conhecido e, o mesmo espera que fosse da parte dele, mas se também não fosse não se importava. Era grata por terem seus destinos se cruzado.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

partida

 Aconchego-me nos teus braços no gosto de ficar sem planos de partida.

 

Sou todos os dias envolvidos no vai e vem das emoções que se repete na estação-cidade aonde uns chegam, outros partem e muitos querem ficar.

 

Amo os dois lados da vida: as aventuras e desventuras, os encontros e desencontros, os amores e desamores e caminho nos trilhos do infortúnio aguardando um dia a nossa partida desse nosso lugar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Pecadora mulher

  

A dor ao vê-la passar majestosa

não é maior do que saber

o quanto aos outros é preciosa.

Teu andar carregado de prazer

 

se faz sentir por todos desejada.

Mulher que rebola audaciosa

cujo olhar lança maliciosa

será da vida um dia arrancada.

 

Seu amor morrerá no esquecimento

Poucos terão no seu sentimento

o ardor da mulher orgulhosa

 

ficando apenas na lembrança

a noite em que morreu a esperança

em ter nos braços a mulher melindrosa

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Pensamentos em uma manhã qualquer.

  

A mente se esfacela em tiras iguais a tira da cortina impedindo a claridade.

Colho o que plantei, pois sei o que devo ou não fazer.

Continuarei plantando sementes que só no futuro irão dar frutos.

Quais os frutos que não tenho permissão para saber, apenas sei que colherei.

Não me importo com a colheita, sei que me influenciará de alguma maneira.

O único cuidado que deverei ter é colher adequadamente os frutos.

Claro que ao plantar as sementes, procuro de algum jeito plantá-las corretamente, dentro do padrão em que, por todos esses anos, venho-me beneficiando, isto é, vivendo.

Não tenho preocupação nenhuma em desvencilhar dos erros, dos passos mal dados.

Por enquanto caminho no meio fio do perigo sem saber qual lado devo pender.

Equilibro-me no amor que tenho á vida.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

pois é


a vaca berrou quando
o cavalo a cobriu naquela tarde
de verão em que o arrozal
balouçava ao sabor do vento

o rio lentamente corria
debruçando-se na paisagem
em beijos cálidos e atraentes

ao longe o pássaro
seu canto entoou
e levemente posou
no ninho alimentando
os filhos famintos de vida

o sol  alegre se pôs
concluindo assim
o ciclo contínuo
da natureza

a vida não estranhou
o berro da vaca

e muito menos
o ato inesperado
do cavalo

a natureza entoou
seu canto e glorificou
mais uma vez o amor

domingo, 18 de agosto de 2024

Praça de alimentação.

  

Os riscos traçados pelas lajotas marcam figuras que perambulam seus mal traçados desenhos em desejos ávidos de abraços e beijos e alimentos, confundindo com o alarido de bocas que não se calam.


Luzes brilham a fome em anúncios gustativos de odores em disputa da melhor freguesia.

Poucos solitários bebem a solidão num copo de chope ou degustam a paz de estarem sozinhos consigo mesmo.


Palavras voam esparsas chegando até a mim enfraquecidas pelo burburinho geral.

Espocam risos, gargalhadas e lágrimas de saudades ou romances acabados que ricocheteiam nos pilares da praça de alimentação.


Impassíveis, os riscos traçados pelas lajotas refletem a angústia, medo e a dúvida de um amanhã que não sabemos como será.

sábado, 17 de agosto de 2024

Pulsa nas veias

 Pulsa nas veias de concreto a busca do amor numa aflitiva troca de olhares afugentando da vida a amargura.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

quadros

 quadros representam vidas que se foram

estudos sombreados

meramente idealizados

segredos transmitidos

em linhas e curvas

em claros e escuros

que permanecem

no tempo e no espaço

nas salas e escada

da Casa das Rosas

a informarem

que já não existem mais

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Quando a vida enfeita a morte

 Palavras vazias escorregam da ponta dos dedos eletrizando o teclado que me hipnotiza.

 Vazias, no entanto, procuram no asfalto da madrugada concatenar meus pensamentos numa ordem precisa e compreensível.

 E no procurar, desfolham os minutos perdendo-se em idéias que não se fixam num único ponto.

 Desfolham como a flor amarela no chão tórrido pelo sol inclemente pedindo água para sobreviver.

 E como a flor, peço que amenize minha sede de poesia, eliminando assim, as palavras vazias que escorregam alimentando o meu texto.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

quando chove

 quando chove

    ando

e

    nado desviando-me dos guardas-chuva infernais

 

quando chove

    ando

e

    nado por ruas nuas de vidas e nada mais

 

quando chove

    ando

e

    nado sem carro escarrando nos quintais

 

quando chove

    ando

e

    nado em ruas sujas e imundos canais

 

quando chove

    ando

e

    nado por viadutos e compridas marginais

 

quando chove

    ando

e

    nado entre granizo lodaçais

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Quando ele chegou

 Quando ele chegou havia poucas pessoas. Ao assinar a lista de presença verificou que a acusação era uma advogada, pensou: isso deve ser bom, pois ela vai escolher mulher e não homem. Aos poucos a sala foi se enchendo. Outra coisa que fortaleceu o seu parecer, é que dos quatorze jurados, três eram homens, o resto todas as mulheres. Mais uma chance dele escapar. Foram buscar um jurado no outro plenário para que fosse possível o julgamento. O oficial saiu no corredor e chamou pelo nome três pessoas. Ih! Isso é mau, será que vai ter testemunhas? Nisso uma senhora já avançada na idade entrou acompanhada de um sujeito moreno. Entraram e sumiram lá para dentro. Depois ela voltou sozinha. Logo em seguida entra o Promotor, um advogado gordo, olhar duro como se fosse dono do plenário. As peças estavam colocadas no tabuleiro, só faltava dar início ao jogo, o que foi feito. O réu, aquele moreno que estava acompanhado com a advogada, não estava algemado, foi conduzido ao seu lugar. O juiz entrou, todos ficaram em pé. O juiz mandou todos sentarem e foi dada a partida ao jogo. E o sorteio começou: Fulana de tal chamou o juiz. A Fulana ficou em pé, e a advogada recusou. O juiz chamou outra Fulana, ao que a advogada novamente recusou. Em seguida o juiz chamou: Osvaldo Luiz Pastorelli, ah! Que merda, A advogada aceitou, mas para a felicidade dele o Promotor disse: Recuso Excelência e obrigado. Depois disso a advogada aceitou mais um homem e o promotor recusou e, ainda acrescentou: Recuso a pedido do jurado. No final a tribuna de jurados ficou composta de seis mulheres e um homem. Ele como sempre não quis saber a causa da acusação, pegou o atestado e como todos os outros jurados, se mandou do tribunal.

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

quando houver o nada

 quando houver o nada

cantando a voz soltarei

em brado e vigoroso cantar

despojando-me do meu

corpo a dor atroz

 

não deixarei o nada

residir por muito tempo

no templo do meu ser

 

pois despojado e nu

depositarei o que sou

recolhendo-me no que fui

e mostrando-me o que serei

domingo, 11 de agosto de 2024

Quando o vazio abarrota o pensamento.

  

Quando o vazio abarrota o sentimento, tudo parece demasiado insignificante e as insignificâncias que, nos dias normais não se presta atenção, passam a ter importância.

 

Tem se a impressão que se desliza numa fragrância leve a ponto de não sentir o chão, de não sentir o sol, de não sentir o ar, se esquece as angustias do dia a dia e, passa a prestar atenção nos pormenores, naqueles pormenores que nos dias comuns não se nota. Uma hora é um papel jogado displicentemente na calçada, um carro que guincha o pneu numa freada, um riso que se ouve sem saber de onde vêm, conversas que se cruzam ficando na memória pedaços de vozes, o brilho da manhã estampando a janela de algum prédio humano, enfim...

 

...quando o vazio abarrota o sentimento, se faz uma rota diferente emocional, criando assim, forças para continuar na estrada da vida, continuar com o papel destinado neste palco imenso, caótico e belo...

sábado, 10 de agosto de 2024

quando você passa

 e não me olha

digo que não me importo

com teu desprezo

e com facilidade bebo

 

outra taça de vinho

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Quarta feira.

 Continuo dormindo e acordando no dia a dia de um cotidiano que mês a mês repetem-se todos os anos.

 Os gestos transcorrem na insinuação do medo ao serem impressos no papel mágico do tempo.

 Percorro trajetos insidiosos numa repetição infindável reparando em insignificantes detalhes para alimento dos olhos e da mente.

 Guardo os símbolos para futuros textos prosaicos revelando nas entrelinhas o eu envergonhado de cidadão que se julga fora do tempo.

 A manhã de sol aberto influenciará normalmente o ciclo de cada individuo preocupados tão somente onde pisam.

 Famintos perambulam nas sombras escondendo-se da sociedade egoísta e fútil e individualista.

 Olhos esbravejam falares sexuais em corpos exibicionistas que desfilam sua massa de podres poderes.

 Bom dia, meus amigos, assim caminha a humanidade.

 Assim Caminha A Humanidade

Lulu Santos -

 Ainda vai levar um tempo

Pra fechar o que feriu por dentro

Natural que seja assim

Tanto pra você quanto pra mim

 

Ainda leva uma cara

Pra gente poder dar risada

Assim caminha a humanidade

Com passos de formiga e sem vontade

 

Não vou dizer que foi ruim

Também não foi tão bom assim

Não imagine que te quero mal

Apenas não te quero mais

 

Não te quero mais

Não mais

Nunca mais

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Quem canta mais alto é a galinha.

  Nisso no meio da sonolência que invadia meus olhos já marejados de tanto bocejar, soou uma voz forte impondo seu domínio:

 - O menino! Não quer sentar?

 Só ouvi a voz que soava nas minhas costas sem que eu conseguisse ver o dono.

 - Ó rapaz dê o lugar para o menino.

 Virando um pouco o corpo, vi uma mão se estender para segurar a mão do menino que sentou no lugar que o rapaz desocupara.

 Tudo bem! Deixando de lado o humanitarismo, mas essas pessoas que se dizem caridosas agindo dessa maneira em público, tornam-se arrogantes, preponderantes como se fossem os donos da verdade.

 Há alguns que estando quase dois metros longe do deficiente ou de algum senhor de idade, se fazem de caridosos a ponto de interromper a seqüência natural das coisas interpondo-se na vida alheia. Tal atitude deixa constrangido quem está sentado dormitando na maior cara dura tanto quanto o deficiente ou o senhor de idade.

 Presenciei uma vez uma cena surrealista digno de humor. Uma mulher vendo um senhor em pé, não se contentou, em quanto não fez o rapaz ou moça, não lembro, se levantar, e fazer o senhor que, veementemente não queria, pois desceria logo, não faz favor o senhor tem todo o direito, e olhava com cara de reprovação para o rapaz que indeciso não sabia se levantava ou continuava sentado. Tanto fez que o senhor acabou sentando o que agradeceu calorosamente ao rapaz. Chegando à estação seguinte o senhor se levantou e desceu do trem. Ainda da plataforma olhou para a senhora e sacudiu a cabeça como se dissesse:

 - Está vendo sua intrusa, não disse que desceria logo.

 Essas pessoas que se dizem em público, com tal atitude, caridosas, a posto que na rodinha de amigos tomando uma caipirinha e falando mal da bunda das mulheres num machismo exacerbado, digam arrogantes:

 - Ah! eu falo mesmo, quando vejo injustiças desse tipo me intrometo mesmo – e para complementar coçam descaradamente o saco e dão uma cuspida de lado.

 Creio que essas pessoas, principalmente os homens, falam baixinho em casa numa demonstração de quem canta mais alto é a galinha.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Quem sabe

  

Acordou apressado. Olhou o relógio que martelava o silencio com o seu bip-bip. Seis horas e quinze minutos. Estava dentro do horário. Mesmo assim, acelerou os movimentos. Trocou-se, se lavou, pegou as coisas e saiu. Já estava subindo o segundo lance de escadas quando enfiou a mão no bolso. Droga! Tinha esquecido a conta da Vivo no bolso. Colocara no bolso para não esquecer... Voltou e deixou a conta em cima do computador, se alguém não tirar ela dali... Saiu. Ao fechar o portão notou mais uma coisa. Estava levando a chave da esposa. Oh! Que merda! Tudo bem é sexta-feira, pensou. Abriu novamente o portão, desceu as escadas, abriu a porta e colocou a chave em cima do móvel da cozinha. Bem que ela merecia ficar presa mesmo, pensou enquanto aguardava o ônibus. A vida tinha que ser mesmo assim? Será que tudo o que fazemos tem alguma razão? Talvez, por que... Ah! Ele lembrou que tinha eliminado do dicionário a palavra “porque”, agora precisa eliminar a palavra “Se”. Por sorte o metrô, apesar do aviso do alto falante: “Devido a chuva o metrô por motivos de segurança, está com a velocidade reduzida e com maior tempo de parada”. Assim que o metrô deu partida, a barriga começou com seus reverterios.  Mais essa ainda! Espero que dê tempo senão... Chegando no Paraíso, ao descer, com o seu corpo frágil e pequeno, foi empurrado de um lado para outro. Uma mulher baixinha olhou para ele e disse: O merda! Não empurre. Não deu pelota para ela, fez uma careta mostrando a língua, o que tinha era vontade de dar um safanão na cabeça dela isso sim. Saindo do metrô chovia uma chuva fina, e com isso os marreteiros vendendo guarda-chuva a cinco reais atravancava a saída. Teve vontade de comprar um... Rápido entrou no Banco, retirou seus mil reais para o fim de semana, atravessou a Augusta. Entrou na farmácia, comprou o que queria comprar, acelerou o passo, pois os reverterios da barriga aumentavam. Enquanto seguia em baixo da marquise do Conjunto Nacional, ficou imaginando como estaria o outro lado da rua com os camelôs. Ah! Que se danem eles...  Em passos lentos, pois não adiantava correr mesmo, como diriam: se correr na chuva você se molha mais, atravessou a rua e desceu a Frei Caneca. Como diz o ditado: chuva não mata, só dá pneumonia. Até que não seria mau, assim ficaria uns dias em casa. Estava suando, mesmo com a temperatura baixa. Entrou no prédio, pegou o elevador. Que coisa! Parece que a barriga sabe quando estamos chegando, ela fica mais impaciente. Entrou apressado, jogou as coisas em cima da mesa e entrou no banheiro. Ah! Que alívio! Ao ligar o micro ouviu alguém dize: hoje o seu bom dia será sobre a chuva, dando bronca, não é? Ele riu, esperou o Windows ser carregado, abriu o Word e se pôs a escrever freneticamente, sem se preocupar com isso ou com aquilo, se a vida era isso ou não, queria apenas e necessariamente escrever e, se possível sempre... Afinal a vida é tudo isso e muito mais, talvez até no fim do dia surja alguma surpresa... Um telefonema... Quem sabe...

terça-feira, 6 de agosto de 2024

quero do vento

 Lorca – gazel da morte sombria

 

quero do vento

a caricia dos teus cabelos

quero do sono

o segredo dos teus sonhos

quero da tua boca

os beijos que nunca beijei

quero do sol

a luz dos teus olhos

 

do instante só quero

a felicidade de possuía-la

inteira

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Quinta feira cinzenta e fria

  

Realmente, onde estávamos não tinha mesmo cara de escritório, mas fico perguntando: será que não tem como voltarmos para lá? Claro que não, pois um passo dado não se retrocede, temos que irmos em frente seja o que for, ou seja, qual for às conseqüências. Na doutrina kardecistas há uma lei que diz que devemos pagar nossos débitos passados. Exemplo: se em vidas passadas fiz algum mau para fulano, nessa vida sou obrigado a pagar, não passando o que fulano passou, mas nos aproximando um do outro. Vejamos quem está a minha volta: esse, aquele, outro, o..., a... , lá o... , bem resumindo, umas oito pessoas. Caçamba! Isto quer dizer que tenho de pagar meus débitos para oito pessoas! To ferrado! Mas posso pensar de outra maneira, porque eu tenho que pagar? Será que essas oito pessoas não têm que pagar também? Ah! Claro que sim. Então a situação está equilibrada. Mas vamos e venhamos: é um porre para não falar, ou melhor, não digitar um palavrão. Ah! Que saudades da rua Silvia...

domingo, 4 de agosto de 2024

quero seguir vivendo

  

o vento caminha entre as pernas da cidade enxugando as lágrimas no lenço da fatalidade

 

o sol equilibra-se nos galhos tortos e anuncia a alegria estampada nas bancas de jornais e revistas relatando a tragicomédia brasileira que todos os dias as rádios prenuncia

 

nomes entre dentes garrafais e fotos de falsos rostos, enchem de cores os olhos dos outdoors a embalar sonhos e amores em ilusões perdidas

 

em cada boca suculenta toma-se coca-cola embrenhando-se em academias enferrujadas ao som de aparelhos de halterofilismo arcaico

 

como água poluída, escorre a fome, fecha-se o livro e se dispara o fuzil mostrado a cores na televisão todos os dias

 

“o sol é tão bonito

quero seguir vivendo

por que não...

eu vou...

por que não...”

sábado, 3 de agosto de 2024

Quinta feira.

  

Véspera de feriado. E daí? Um dia que apenas quebra levemente a rotina. Um dia que não se trabalha que não se tem a obrigatoriedade de colocar a coleira de prisioneiro da sobrevivência e, pensamos, vamos fazer o que gostamos de fazer. Isso para alguns. Para outros talvez seja um dia pior do que se estivesse trabalhando.

 

E para mim? Como será esse dia “livre”? Será um dia como outro qualquer, apenas que, hoje à noite não me preocuparei com a hora, dormirei bem tarde, e só acordarei, talvez lá pelas onze horas ou mais. Levantarei, comprarei o pão e frios para o café, sentarei em frente ao micro, mandarei e responderei alguns e-mails, e depois, se o animo me comandar, sentarei a mesa da cozinha e terminarei um desenho que faz tempo devia ter terminado. Vamos ver. Ah! Claro esqueci o mais importante, farei tudo isso ouvindo meus CDs prediletos. Pretendo...

 

E isso me deixará mais rico ou mais pobre? Isso me fará mais importante? Creio que no amadorismo da minha pele, a primeira vista, nada se alterará, mas na profundeza do labirinto, alguma coisa mudará. O que? Só saberei diante dos problemas, aos quais deverei estar preparado.

 

Porém, hoje, segunda-feira, dia 24/04, descubro que nunca estou devidamente preparado. Haverá sempre algo que me desequilibra, me balança e, que me custa retornar ao equilíbrio normal.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

retrato

 retrato

violão

roupa acetinada

troféus

 

pertences de uma época

que dela ficou apenas as canções

emolduradas nos corações

dos eternos românticos enamorados

perdidos em vinis

no tempo que não volta mais

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

ROMANCE VERDE

 

ROMANCE VERDE

 

Osvaldo Luiz Pastorelli

 

Ficou olhando as palavras impressas no papel branco da ensebada agenda: Romance verde. Por que romance? Não gostava de romance, isto é, nunca conseguira escrever um. Ainda mais verde! Por que verde? Não tinha predileção por nenhuma cor, aliás, tinha uma queda pelo cinza e suas variações de tons, mas nada que se pudesse dizer que ele fosse um fanático. Nada disso. Então, por que verde? Ainda mais romance! Escarafunchou a mente e nada achou no labirinto de idéias, que em grupos sistemáticos eram arquivadas no inconsciente.

O sol ardia numa constância de brilho estampando sombras — verdes?! — em formas variadas nos concretos da vida. Coçou o queixo, uma proeminente penugem de barba crescia no seu rosto ovalado. Sua visão de águia — sempre achara que enxergava como uma — planava por longínquas distâncias de branco e meios-tons de cinza. Não via nada verde. Só o cinza predominante, poucos brancos e nenhum verde. Que merda! De onde saíra essa esquisitice de verde, meu Deus?! Voltou a atenção para a agenda ensebada e pela décima vez leu: Romance verde.

Largou tudo. Achou melhor largar tudo. Tomou um bom gole de água gelada. E uma onda de energia fria foi tomando conta dele. Sentiu a pontada de uma pequena lembrança, sabia de onde vinha essa sensação, não se esforçou em barrá-la, deixou, abriu os canais sensitivos e preparou-se para recebê-la.

E quando ela chegou, perdeu o domínio. Resignou-se. Só podia fazer isso naquele momento. Refestelou-se na cadeira e procurou, embalado pela música, apreciar o movimento do tempo. Que mais poderia fazer, prostrado diante da circunstância, cuja pressão vinha da palavra verde escrita na agenda ensebada? Nesse instante, como o brilho de um fósforo riscado, em sua mente surgiu a pergunta que se esfacelava no asfalto quente, escorrendo em pequenas gotas de suor. Onde estariam os olhos verdes que diziam amá-lo? Tentou imaginar o que estariam fazendo. Mil coisas, talvez. Contanto que estivessem pensando nele, tudo bem. Na vida, escreveu, tudo é possível, o que não é possível é amar e não ser amado. Ele era amado? Julgava que sim, pois todos os dias se falavam ao telefone...

Com os olhos despreocupados e, evidentemente satisfeitos, alongou-se indolentemente, abrangendo o verde do outro lado da rua, onde o caminhão da prefeitura esvaziava duas caçambas de lixo, encostadas ao muro. Os garis puxavam a caçamba perto do caminhão e, por um sistema de alavancas e ganchos, o conteúdo era jogado para dentro, onde o maquinário triturava o lixo. Um cheiro forte de comida e outras coisas estragadas atravessou a rua e chegou até ele, obrigando-o, por momentos, a tapar o nariz. Ainda bem que já tinha almoçado. Olhou para os lados, as pessoas reclamavam.

— Nada posso fazer — disse o proprietário, ao atender à reclamação da senhora na mesa ao lado.

Realmente, é uma coisa insuportável, que se tornava suportável por se estar ali tão somente por necessidade.

— Daqui a uns dez minutos o cheiro some — retrucou o garçom.

De fato, depois que o caminhão esvaziou as caçambas e foi embora, ninguém mais se preocupou com o cheiro ruim. O ser humano gosta de reclamar para ser notado ou, mesmo, por ter que reclamar, simplesmente.

Pouco depois a calma voltou a reinar, então pôde se entregar, de novo, aos pensamentos. Assim seus olhos enfatizaram o verde mato protegido pelo precário muro, denotando falta de cuidado, cheio de buracos imensos, por onde o mato invadia a calçada. E crescia desordenadamente. Mesmo não vendo, podia ter certeza de que as raízes ferozes de vida se aprofundavam no solo, se esparramando em várias direções. Mas o verde que o pressionava, que o deixava perturbado não era o verde visível, concreto, era o verde que lhe vinha à mente por algum motivo e que o fez escrever na agenda velha e ensebada as palavras: Romance verde.

Romance verde?! Contornou de leve as letras, uma por uma, com a ponta do dedo. Notou a aspereza concreta das palavras sem que pudesse assimilar o seu abstracionismo. Sorriu. Mansamente, percebeu que escrevera sob comando alcoólico e que não percebera quando seus grossos dedos fizeram com que a esferográfica deslizasse sobre as linhas da agenda velha e ensebada. Deduzia que uma insignificante obsessão tomava seu ser. Precisava pôr um fim nesse descontrole emocional. Chamou o garçom. Pagou a conta e saiu.

Quando entrou no metrô, o sol começava a declinar, dando passagem para a noite que já envolvia os transeuntes em meio aos luminosos das vitrines. Transitava entre sentir de dentro dele e sentir de fora o que ressurgia em pequena amargura. Escalou os picos do sentimento, demorando-se um pouco a presenciar a população regurgitante em seus movimentos cheios de medos implícitos.

Pulsava o sangue nas veias incandescentes, aflorando a dor crônica.

Encostou a cabeça à janela do trem e fechou os olhos. Deixou seu destino entregue ao sono que o vencia naquele momento.

 

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...