quarta-feira, 30 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.696(2021)

 

            Entediado por sobre os óculos via a movimentação na estação Penha do metrô. Poucas pessoas, talvez por ser feriado, talvez por causa da pandemia, mesmo assim o vai e vem era significativo. Tinha intenção em escrever num derramamento de palavras sem pensar muito tempo nelas. Como fossem surgindo na sua mente pulassem para o caderno numa informidade estética e imprescindível. As vezes achava ter conseguido outras não, o importante é tentar sempre, todos os dias se possível. Eram onze horas e três minutos quando desceu no Tatuapé, onde a movimentação era maior devido ao complexo de shopping. Caminhou mais lento possível e desceu a escada rolante. Como todos os dias, esperou o segundo ônibus, tendo o trajeto curto não via necessidade de pressa, aliás coisa que nunca teve.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 29 de junho de 2021

Contos surrealistas 41

  

Horário nobre.

 

O JN anunciou no horário nobre. O pai desceu as escadas afoito e cobriu a menina, que tinha caído do décimo andar, com a sua camisa de malha fina.

A noite estrelada chorava lágrimas de brilho enquanto o pobre homem se amaldiçoava ao ser preso.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.695(2021)

 

            Se inquieto estava não deixava transparecer. Seus movimentos lentos, pequenos, sutis imprimia aos gestos mínimas ações que ninguém notava. Sempre desejou e trabalhou para em qualquer lugar que fosse passar desapercebido, não ser notado. E em toda as etapas da vida o êxito foi completo. Se jubilava com as performances fosse onde fosse. Sugava o controle das emoções o máximo possível criando o contido, a não alegria. Não era de futilidade, tinha pavor do medíocre. E dessa maneira procurava viver intensamente, pois se fosse de outro jeito não seria viver. Por isso anotava os acontecimentos, tantos os banais como os extraordinários num delírio de desejos e prazeres. 

            É isso... ou, não é?

domingo, 27 de junho de 2021

Contos surrealistas 42

De Lorean

Ivy mudou a marcha dando um tranco no cambio, um para frente e depois outro para trás ao mesmo tempo para o lado. O carro foi impulsionado para frente cantando pneu. Não tinha o costume de tratar o veiculo dessa maneira, talvez preocupada com os papéis que precisava levar para o cartório, não prestou atenção no que fazia.

Ivy compreendeu que chegava num estágio de equilíbrio na vida. Não que a vida fosse ou tivesse lhe proporcionado momentos ruins. Houve, é claro, os altos e baixos como todo casal. Lembrava com perfeição todos os detalhes da festa que, devido aos problemas de saúde, foi preparada as pressas. Depois de quatro anos estava completamente recuperada. Devido a isso, com filhos adultos, entendeu que não podia mais agüentar aquela relação, vamos dizer, desequilibrada. Portanto, enfrentando comentários nada estimuladores, separou-se e, como dizia a quem a recriminasse: “Agora vou viver a minha vida, chega de viver a vida dos outros.”

Nessa altura, com quatro netos, passou a se dedicar quase exclusivamente a eles. Aonde ia levava todos a tiracolo, aniversários, festas, teatros, cinema, parques, zoológicos, com isso deu outro impulso a vida. Foi então que um fato interessante a surpreendeu, pois não contava com o inesperado, o que para ela nesse momento da vida não fazia diferença nenhuma. Os fatos sejam eles interessantes ou não, a mim não me interessam, dizia

Foi então que, Walter vendo-a na fila do cinema para comprar ingressos toda atrapalhada, foi em seu socorro. Comprou dois saquinhos de pipoca e levou para os meninos. A partir daí criou-se entre eles uma camaradagem muito forte que, para o namoro e depois o casamento foi um pulo. Ivy percebeu naquele sorriso largo emoldurado por um bigode grisalho uma possível felicidade e, sendo assim, agarrou com as duas mãos os saquinhos de pipoca agradecendo gentilmente a ajuda.

Virando a esquerda no seu De Lorean rumo ao futuro, a sua máquina do tempo como dizia sempre que entrava no Passat verde, sentia-se leve, confiante e segura, parou no sinal vermelho. Quando foi pegar a bolsa que estava no banco do passageiro, viu o vidro ser quebrada e um braço passar pela janela e arrebatar a bolsa. Ivy deu um grito, abriu a porta e saiu atrás do ladrão gritando: “Meus documentos... pega... meus papéis de casamento, vou casar amanhã,” Um homem que, depois se apresentou como policial a paisana, saindo da loja, socorreu-a em perseguição ao ladrão. Por infelicidade do ladrão, ao virar a esquina, deu de cara com um policial, prendendo-o

No dia seguinte, saiu a noticia no jornal: “Noiva recupera os papéis de casamento”.

sábado, 26 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.694(2021)

 

            Esboço é o que devo fazer para escrever as caraminholas que surgem em minha mente. Se faço um esboço, um estudo para o desenho, por que não fazer um estudo para escrever, mesmo que seja um texto de uma frase, de uma palavra ou mesmo uma sílaba. E como devo fazer esse esboço, como devo começar? Descrevendo o personagem principal em todos os seus detalhes até quando vai ao banheiro para as suas necessidades fisiológicas. Seu caráter, seu orgulho, vontades, de vontades, o que gosta ou o que não gosta, certo? Depois o ambiente em que vive, se o ambiente influi em sua vida, os amigos, os inimigos, enfim tudo, tudo mesmo, para depois pegar esse personagem pelo cangote, como se pega gato, e jogá-lo no meio da história e fazê-lo se movimentar como você desejar, afinal ele é sua criação, deve obedecê-lo, não é mesmo?

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Contos surrealistas 43

                                     Tiros na Paulista.

 

 Ao introduzir a chave na fechadura ouviu o tiro. Ficou à espreita, parado, indeciso não sabia se girava a chave e abria a porta. De onde veio o tiro? Do apartamento? Do corredor ou da escada? Girou a chave, empurrou devagar a porta. Foi quando ouviu o segundo tiro. Não teve dúvida. Foram do seu apartamento. Bem devagar abriu a porta e deixou-se escorregar para dentro. Pressionou o interruptor de luz ao mesmo tempo em que a sala se iluminava uma sombra furtivamente entrou no quarto de hóspedes. Olhou em volta, não viu nada que pudesse improvisar como arma. Decidiu por um cinzeiro pesado. Deslizando rente à parede, silenciosamente, chegou à porta do quarto. Num movimento rápido entrou e ao mesmo tempo acendeu a luz. Não tinha ninguém. Surpreso procurou nos cantos dos móveis, embaixo da cama, no closet, nada, não tinha ninguém. Intrigado voltou para a sala colocando o cinzeiro em cima da mesa. Concluiu: foi sua imaginação, só pode ser onze horas e quarenta e cinco minutos, chegando da balada, cansado, meio embriagado, deve ter sido isso, pensou, vou tomar um banho e cair na cama que é o melhor a fazer.

Quando saía do chuveiro enrolado numa toalha, a campainha tocou. Quem seria a essa hora? Eram dois homens dizendo-se investigadores ao mostrar os distintivos.

- Foram daqui os tiros?

- Que tiros?

- Disseram que os tiros foram aqui. Você não ouviu?

- Não ouvi... Quer dizer ouvi sim, mas não foram daqui.

- Podemos entrar?

- Sim... Acho que podem, entrem.

Os policiais entraram como se fossem donos. Com um olhar de cento e oitenta graus observaram a sala toda.

- Qual é o seu nome?

- Meu nome... Ricardo.

- Se importa se olharmos o resto do apartamento?

- Não... Tudo bem podem olhar.

Enquanto um olhava a cozinha e a área de serviço, o outro foi olhar os quartos.

- Mora sozinho seu Ricardo?

- Sim, moro.

- Venha ver, seu Ricardo como a Paulista hoje está quieta. Por que será?

- Não sei por que, respondeu Ricardo chegando à sacada.

Nisso o policial que fora verificar os quartos, chamou:

- Chefe, venha aqui um momento, por favor.

O Chefe ao entrar no quarto soltou uma exclamação:

- Puta merda, o que é isso? Seu Ricardo de quem é esse sangue?

Ricardo chegou à porta do quarto exclamando:

- Sangue? Onde?

- Veja essa poça de sangue.

- Não sei não. Quando entrei agora pouco não vi sangue nenhum.

- Não viu a poça de sangue?

- Não... Bem... Quando cheguei ouvi os tiros e depois um vulto entrando nesse quarto.

- Como é? Explique-me que não entendi.

Pacientemente Ricardo narrou tudo o que lhe acontecera.

- Nesse caso acho que devemos levá-lo à delegacia para um depoimento mais esclarecedor e mandar fazer análise desse sangue.

- É necessário isso? Não matei ninguém, os senhores não estão vendo corpo nenhum e não fui eu o autor dos tiros.

- Eu sei, precisamos fazer alguma coisa e, depois é só rotina, amanhã você estará livre. Acho melhor o senhor se arrumar.

Ricardo não entendia o do porquê de tudo aquilo. Não esperava que um dia fosse estar dentro de uma cadeia. Já passava mais de quatro horas, logo amanheceria e ele seria solto. Assim que saísse o resultado da análise do sangue, estaria livre de tudo isso, voltaria à vida normal. Quem fora o autor dos tiros? E o vulto que ele viu entrando no quarto? Quem seria? E o sangue? Como não reparou? Não estaria sonhando? Tudo isso é um pesadelo, isso sim. Logo voltarei à vida normal.

Nisso, um som esquisito, como se alguém estivesse martelando madeira, interrompeu seus pensamentos. Parecia soar longe, mas que ia se aproximando lentamente. Aquilo martelava seu cérebro, provocando dores horríveis. Sem noção do que estava fazendo, esticou o braço e interrompeu o rádio relógio. O suor escorria do rosto empapando o travesseiro. Acordou aliviado. Tudo não passou de um sonho, pensou ao abrir o chuveiro.

Chegou atrasado na empresa, e para compensar, como forma de desculpa, se entregou completamente ao serviço. Ao meio dia, o convidaram para o aniversário do subchefe à noite numa balada. Assim que aceitou o convite algo soou meio estranho. Balada! Isso estava parecendo... Deixa pra lá, pensou, o negócio é curtir a vida. Foi o que fez, não pensou em mais nada. Mas ao chegar ao apartamento e ao introduzir a chave na fechadura ouviu o tiro. Ficou à espreita, parado, indeciso não sabia se girava a chave e abria a porta. De onde veio o tiro? Do apartamento? Do corredor ou da escada? Girou a chave, empurrou devagar a porta. Foi quando ouviu o segundo tiro. Não teve dúvida. Foram do seu apartamento. Bem devagar abriu a porta e deixou-se escorregar para dentro. Pressionou o interruptor de luz ao mesmo tempo em que a sala se iluminava uma sombra furtivamente entrou no quarto de hóspedes. Olhou em volta, não viu nada que pudesse improvisar como arma. Decidiu por um cinzeiro pesado. Deslizando rente à parede, silenciosamente, chegou à porta do quarto. Num movimento rápido entrou e ao mesmo tempo acendeu a luz. Não tinha ninguém. Surpreso procurou nos cantos dos móveis, embaixo da cama, no closet, nada, não tinha ninguém. Intrigado voltou para a sala colocando o cinzeiro em cima da mesa. Concluiu: foi sua imaginação, só pode ser onze horas e quarenta e cinco minutos, chegando da balada, cansado, meio embriagado, deve ter sido isso, pensou, vou tomar um banho e cair na cama que é o melhor a fazer.

Quando saía do banheiro enrolado numa toalha, parou no meio do corredor. Já tinha passado por isso. Estou repetindo o que aconteceu ontem? Ou será que ainda é hoje? Já vi esse filme, sei o que vai acontecer daqui a quinze minutos. Esse é o meu mantra, precisarei repeti-lo quantas vezes para continuar a minha vida normal?

Sentou no sofá e ficou esperando na calma da madrugada os acontecimentos se repetirem.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.693(2021)

 

            O que fazer com a insônia? Aproveitar para ler, escrever... não sei. Deitei-me ontem eram onze horas e qualquer coisa e as três horas levantei-me de tanto rolar de um lado para outro.

 

            Não sei se posso dizer que descobri a sexualidade aos... creio que o melhor e mais honesto é dizer deixei aflorar buscando me concentrar em descortiná-la de sob o manto da timidez. Mesmo assim não foi amplamente descortinada como penso que deveria ser. Há algo ainda me segurando que antigamente me impunha a enfrentar: o medo. Do que? Por quê? Não atinava com o que me ocorria, hoje há resquícios que devo eliminar se quero viver amplamente.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Contos surrealistas 44

                                 Piquinique.

 

Ela arrumou a comida sobre a toalha para o piquenique, quando com a mão aberta expulsou a mosca varejeira de cima do bolo caramelado. Instantes depois a mosca estava de novo varejando o bolo. Quieta, devagar, conseguiu com o dedo indicador e o polegar dar um piparote na mosca que foi lançada longe caindo dentro da poça de água.

Confiante sorria com satisfação ao ver a mosca se debatendo, mas o que ela não sabia era que as moscas se comunicam entre si e, quando menos esperava tinha um enxame de mosca em cima dela.

Desorientada, se debatendo, aos gritos, tropeçando nas comidas não viu para onde estava indo quando rolou o barranco do rio e se afundou na água barrenta.

Satisfeitas as moscas voltaram aos seus domínios.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.692(2021)

  

            Ontem fui deitar mais ou menos as onze horas e eram duas horas da madrugada ainda rolava na cama sem conseguir dormir. As duas levantei-me e escrevi um pouco, li, desenhei e pensava ver um filme, no fim decidi desenhar mais um pouco e quando foi umas três e meia, fui para cama e como pedra dormi e só fui acordar hoje as noves e vinte. Merda, não é!

            E alguém está interessado em saber que horas fui deitar-me, levantar, o que fiz e o que não fiz? Ora bolas! Isso é encher linguiça, isto é, babaquice de quem não tem o que fazer, que se acha escritor, que há leitores com a possibilidade de lerem o que escrevo. Merda, não é!

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Contos surrealistas 45

                                 Sua majestade.

                                 O sábado, na opinião de Jeremias estava um inferno. Escaldante torrando miolos até de asfalto. Suado sentia as gotas de suor escorrendo pelas costas queimando a pele nua. Estava mais de duas horas retirando os restos do guarda roupa. Mobília que resistiu trinta anos, talvez até quarenta e, agora, por causa dos miseráveis cupins estava em pedaços. Silenciosos foram comendo papel e madeira na ânsia insaciável em progredir.

Tudo começou com uma trilha na parede branca, saindo da caixa de tomada rente ao rodapé. Quando Jeremias abriu a caixa e retirou o espelho, um enxame de cupim voador invadiu o quarto. Atordoado, Jeremias caiu sentado ao ver a nuvem sobre a sua cabeça. Foi então que lembrou, ao procurar embaixo da pia, que não tinha veneno, mesmo assim espirrou SBP na esperança de matá-los. O que não adiantou nada, apenas deixou os insetos mais alvoroçados, mais irritados. Nisso sentiu uma picada no pé, logo em seguida outra no ombro e, uma terceira no peito. Uma tontura tomou conta dele fazendo-o cair desmaiado.

Aos poucos foi abrindo os olhos. Não distinguia as formas esquisitas a sua frente. Ouviu um chiado, não soube como definir, mas entendeu o som, ou melhor, dizendo, as palavras contidas no chiado:

- Apesar de que a morte é só o começo, posso dizer que você não está morto.

- Não estou morto? Então onde estou?

- No meu cupinzeiro, eu sou a rainha.

- Como vim parar aqui?

- Os cupins trabalhadores responsáveis em me alimentar trouxeram você.

- O que? Está me dizendo que vou virar seu alimento?

- Isso mesmo.

- Não pode ser!

- Como não pode ser? Se você destruiu todo o alimento que estávamos nos alimentando.

- Mas vocês destruíram meu guarda roupa e meus livros.

- Não me interessa você agora é meu alimento...

- Espera... Espera!

- Espera o que? Para que?

- Espera vocês não podem me comer...

- O Jeremias! O que se passa com você? Quem vai te comer, homem?

- O que?

- Calma Jeremias.

- O que foi? Onde está a rainha do cupinzeiro?

- Que rainha, meu! Ta louco é?

- Vai ver que a batida soltou os parafusos da cabeça dele – disse um menino ao lado da cama.

- Não fale assim com seu pai, menino – respondeu a mulher.

- Maria, o que aconteceu? Eu estava falando com a rainha do cupinzeiro que me queria comer.

- Eu não disse. Soltou os parafusos.

- Fique quieto, menino. Jeremias, a porta do guarda roupa caiu em cima de você. Felizmente não aconteceu nada, você só desmaio.

- Então não tem rainha nenhuma?

- Não tem. Levanta, vai tomar um banho e venha almoçar.

Assim que mãe e filho saíram do quarto, Jeremias sentou na cama colocando os pés no chão. Ressabiado, calçou o chinelo e olhando para os lados, saiu do quarto fechando a porta devagar com medo de que algum inseto o estivesse seguindo. O que ele não viu foram dois olhinhos brilhando no canto do guarda roupa que faltava desmontar.

domingo, 20 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.691(2021)

             Estou testando o que venho pensando fazer: voltar a escrever no ônibus. Se consigo não sei, será difícil por falta de prática e por ser viagem curta, não fico no ônibus nem trinta minutos. Enquanto nos anos noventa, o trajeto que eu fazia era, às vezes, mais de uma hora, portanto tinha mais tempo de observação e os absurdos que acontecia não estava em nenhum gibi. Apesar de pegar um ônibus, metrô e ônibus os trajetos são pequenos, preciso ter um senso sensivelmente de observação e memória para depois no sossego de casa escrever alguma coisa. Quem sabe praticando consigo, se consegui esse pequeno texto posso conseguir outros, não é verdade?

            É isso... ou, não é?  

sábado, 19 de junho de 2021

Contos surrealistas 46

                                 Prudência.

 

 A mãe dizia sempre:

- Não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje.

Ele não ouviu. Agora está sempre fazendo tudo o que é para ser feito hoje, pois não sabe se amanhã haverá mesmo um amanhã.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.690(2021)

         

            O que podemos fazer com uma roupa que que começa a se esgarçar? Continuar usando-a, não é mesmo? E se ela, no caso uma calça jeans de um cinza claro, pano fino, bonita e que cai bem no corpo e, devido ao tempo de uso, começa a esgarçar na coxa um pouco acima do joelho? Continuar usando-a, não é mesmo? Está na moda calça com rasgos na perna, não está? Vejo muitos com calças com rasgos um maior que o outro. E por que não devo usá-la? Ah! não posso por causa da idade? Que absurdo. Queria continuar usando-a, até pensei em costurar um pedaço de pano por cima dos rasgos, um que fosse bem diferente da cor da calça, um xadrez por exemplo. No entanto na adiantaria nada, seu esgarçar continuaria de onde a agulha for passada com a linha, entende. Essa calça tem mais de seis anos de uso. Creio que nem serviria transformá-la em pano de chão, se esfarelaria ao primeiro contato com o chão. Outro dia, no ônibus, vi um sujeito com uma calça costurada como imaginei fazer na minha. Só que a costura estava por baixo do rasgo, estava bem-feita, acho que saiu da fábrica desse jeito. Até aí nada demais. O que era engraçado é que o rapaz moreno, geração academia, tronco forte, braços grossos tatuado, esbanjando virilidade de se faze inveja estava com uma bolsa mais para feminina que masculina. Era uma bolsa características delicadas, quase quadrada, alça para pendurar nas costas e alça de mão, num tom de marrom claro, beirando ao bege escuro com bolinhas marrom escuro, até que a bolsa era bonita. O problema, quer dizer, até aí nada de mais, ele pode e deve usar o que acha que deve usar, o que achei esquisito, desproporcional, um homão daquele com uma bolsa pequena pendurada nas costas largas, um contrassenso meio que absurdo, toda aquela virilidade a flor da pele e em contrapartida uma bolsa pequena e feminina as costas. E ao descer olhou para mim franzindo as sobrancelhas num ato de contrariedade. Será que leu meus pensamentos, pensei. Eu hein!

            É isso... ou, não é

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Contos surrealistas 47

                                     Páscoa

  

Eles quase todos os fins de semana iam pescar as margens do Rio Mojiguaçu, na Cachoeira de Emas. E naquele dia ensolarado, bonito, o pai lançou a linha que foi cair quase no meio do rio. Quando mesno esperava sentiu que fisgara um peixe. Era uma Piaba grande, toda listrada.

Com cuidado ele foi puxando a linha com o peixe se debatendo. De repente, num safanão a Piaba se soltou, caiu no barranco em declive, o pai afobado não querendo perder o peixe, escorregou e caiu lá embaixo na água do rio.

O filho em pé, não soube o que fazer. Por fim, ajuntou os apetrechos e voltou para casa. Ao abrir a porta, a primeira coisa que viu foi o pai sentado a mesa, segurando a enorme Piaba, sorrindo para ele.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.689(2021)

            Felizes para sempre.

 

            Ao se divorciar não pensou que daria tantos falatórios. E o que ouviu o deixou descrente, tanto do ser humano como das pessoas, principalmente as mais chegadas. Uns diziam que ele agora estaria livre para comer as menininhas. Que absurdo! Outros que era um coroa safado e iria aproveitar o que até o momento não aproveitara. Não deu ouvidos. A esposa não lhe disse nada, apenas concordou com o divórcio assinando os papéis numa boa. Aí tem coisa foi o que pensou. Os filhos, o mais velho não quis saber de porra nenhuma. A filha apenas balançou a cabeça pouco se lixando com os pais. O menor deixou transparecer um certo desgosto, mas também não se opôs a separação.

            E assim a humanidade seguiu seu fluxo sem maiores problemas. E dois anos ou três anos se passaram quando ele reuniu todos para anunciar seu casamento. Casamento?! Disseram perplexos. Sim vou me casar e para isso vou dar um almoço em minha casa convidando todos pelo WhatsApp. Como nenhum jamais viu ou ficou sabendo de algo, apenas que raramente ele saia de casa, foi com estranheza e curiosidade que todos estavam naquele sábado ensolarado em volta da mesa. A ansiedade era a tônica e na expectativa estavam à espera de ser anunciada a notícia. Quem seria a pessoa? Cadê a namorada? A única mulher era a filha dele. Será que a namorada chegaria depois do almoço? Enfim, como se dizia antigamente: a curiosidade matou o gato e, dito e feito. Quando estavam saboreando a deliciosa sobremesa ele se levantou e anunciou sem muito preambulo:

            --- Vou me casar com esse belo rapaz que agora apresento a vocês: Ricardo, meus filhos e meus amigos.

            E puxando Ricardo pela cintura deu-lhe um beijo. O silêncio que se fez em seguida trincou o momento em vários estilhaços. O filho mais velho largou a taça de sorvete que ao bater no prato se fez em vários pedaços e, numa repulsa lançou no ar:

            --- Que nojo.

            E se levantou bruscamente derrubando a cadeira que ao cair quebrou o tampo de vidro da mesinha e saiu do apartamento batendo a porta. A filha que bebia vinho retrucou:

            --- Velho sem vergonha.

            E jogando o líquido na cara do pai ao mesmo tempo arremessou a taça que por um triz não acertou o rosto saindo também do apartamento. E se dirigindo ao filho caçula perguntou?

            --- E você não vai falar nada?

            Se ajeitando na cadeira disse:

            --- Olha velho não tenho nada com tua vida. Você faz o que bem entender, só não venha mais tarde me encher o saco. Deixe-me saborear esse macarrão que está uma delícia, aliás parabéns ao cozinheiro.

            --- Obrigado, disse Ricardo. 

            --- E vocês, meus queridos amigos? Não tem nada para dizer?

            --- Bem, quanto a mim, só lhe desejo felicidades, disse Andrade.

            --- É o que desejo também, replicou Silvio. Mas me responde apenas uma curiosidade. Quem é a mulher da relação?

            --- Vá a merda Silvio, não vou responder, se quiser saber veja um vídeo do meu amigo Fabricio Viana que explica isso.

            E dois meses depois eles se casavam e viveram felizes para sempre, isto é, se o para sempre existe mesmo.

            É isso... ou, não?

terça-feira, 15 de junho de 2021

Contos surrealistas 48

Absurdo.

 

A farsa se apresentava no papel direitinho com todas as letras, palavras, vírgulas, ponto, dois pontos, reticências, colchetes, parênteses como mandava o figurino.

Todos tinham na ponta da língua a sua deixa para entrar e, todos entrariam confiantes sem medo de errar.

Mas eis que o vento varreu as folhas, dispersou as letras, misturou as palavras, vírgulas e pontos saíram dos seus lugares e, ninguém mais entendeu a farsa.

Uns condenavam o corretor ortográfico que enlouquecera, outros acusaram o Sr. Aurélio que, defasado, não ensinava mais nada, era apenas um aglomerado de signos absurdos, e outros ainda, gritavam que era o sistema.

Como ninguém entendia ninguém, as escolas foram fechadas, e a profissão de professor foi extinta.

domingo, 13 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.688(2021)

           

            Ele com os dedos levantados acima do teclado ficou à espera. Ficou a espera até que os dois celulares tocaram o alerta para que fosse tomar o remédio. Tirou os óculos colocando-os sobre a mesa ao lado do notebook e se levantou. Atravessou a sala e na cozinha em cima do armário pegou a caixa dos remédios. Por sinal dois remédios que tinha de tomar todos os dias. Ao abrir a caixa pensou o que sempre pensava nesses momentos. Os médicos devem ter alguma participação na venda de remédios, pois ele se sente bem, não sente nada e tem que tomar esses comprimidos. Bom vamos tomar, é prevenção seu Osvaldo eles dizem. Que assim seja, amém. Retirou os dois comprimidos da cartela, colocou um pouco de água no copo e empurrou os comprimidos goela abaixo. Pegou uma torrada do pacote aberto em cima da mesa e voltou para a sala e sentando-se novamente em frente ao notebook para escrever essas mal traçadas linhas ou palavras por não ter outras e se certificou que é uma merda ser cronista ter todos os dias assuntos para escrever sua crônica...

            É isso... ou, não é?

sábado, 12 de junho de 2021

Contos surrealistas 49

                                     Surpresa!

 

Os dedos correram pelos botões da blusa, e um par de seios redondos foi descoberto.

Confiante, desceu mais a mão quando de repente se viu jogado na cama revirando os olhos sem conseguir gritar por socorro.

Não adiantava se desesperar sabia, o demônio seria saciado, assim, consolou-se mordendo a fronha do travesseiro.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.687(2021)

         

            Querida poeta amiga Cissa, eu dobro sim a pontinha das páginas, até com satisfação, dobro sim. Como pode imaginar estou relendo A Pontinha das Páginas de sua autoria. Livro gostoso de se ler, muito bom, gostando dele, parabéns. Sabe eu usava marcador de página, quer dizer algumas vezes usei, a última foi com o marcador do livro Theus do jornalista, blogueiro, psicólogo, escritor premiado Fabricio Viana. Tinha A Pontinha das Páginas, uma coletânea dos Anjos de Prata e outra coletânea de Poesia do PD Literatura na mochila e, inadvertidamente coloquei junto com eles um vidro com cloro e, adivinha o que aconteceu: é isso mesmo, vazou molhando os livros e o marcador. Os livros pendurei no varal para secar, mas o marcador se desfez, não foi possível recuperá-lo, melhor, pois da última vez ao abrir o livro fiquei sem saber o que fazer com ele, se enfiava entre as páginas, se no fim do livro, sei que acabei derrubando livro, marcador, ósculos, celular, então prefiro dobrar a pontinha das páginas. Estraga o livro? Não sei. Perde o valor? Não, pois o que conta é o seu conteúdo, não é? Para mim livro tem que circular e não mofando entre traças numa estante, tem que circular...

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Contos surrealistas 50

Devaneio surrealista.

Abriu a boca. O grito não saiu. Engoliu a raiva enquanto a televisão mostrava uma garota ridícula, de calcinha e sutiã, andando de um lado para o outro num quarto de segunda categoria. A música ensurdecedora invadia os cantos vibrando cristais que tilintavam um no outro. Lembrou de um vídeo do Michael Jackson. Nisso o telefone tocou. Era o síndico pedindo para abaixar o som, os vizinhos estavam reclamando.

- Puta que pariu, não posso fazer o que eu quero é?

Berrou desligando na cara do síndico.

Retirou o CD e, num gesto de desprezo, jogou o pequeno disco pela janela que voou caindo em cima do carro que passava. Ouviu o motorista xingar. Não deu atenção, o motorista não poderia saber em qual janela fora. Colocou uma dose grande de uísque no copo e de um gole só virou garganta abaixo.

- Puta merda!

Subiu no parapeito da sacada, abriu os braços e se jogou no vazio. Não teve medo, do sexto andar não morreria, pensou ao sentir o vento batendo no rosto.

- Viva Santo Daime, gritou engolindo ar.

Esticou os braços para frente e iniciou o voo vertiginoso. Primeiro subiu bem alto.

- Pra cima e avante.

Depois girou o corpo para a direita numa curva espetacular. Em seguida para a esquerda bem rasante assustando os transeuntes despreocupados na Avenida Paulista. Distraído, prestando atenção nas pessoas abobalhadas, bateu no pilar do MASP caindo dentro do pequeno espelho de água.

- Droga!

Todo molhado, saiu da água suja e fria, resmungando impropérios. Sem se importar com os curiosos foi deitar-se no sol para se secar. Não soube quanto tempo dormiu, quando acordou o dia tinha virado noite e sentiu o vento meio que gelado ferir as pernas nuas. Estava de camisa e cueca, roubaram a calça jeans. Tendo o peito angustiado, aflito procurou a parte mais escura da rua puxando a camisa como se com isso aliviasse o constrangimento. Em cada olhar havia um olhar de reprovação, cada pessoa estava preocupada consigo mesmo. A individualidade era o fato mais importante do ser humano. Eu estou bem que se foda os outros, que vença o mais forte, esse era o lema da humanidade.

De repente a bexiga começou a incomodar.

- Caralho, onde vou achar banheiro agora?

Lembrou do Shopping Center Três, não estava longe, acelerou o passo. Aflito procurou um dos banheiros. Entrou no primeiro esbarrando num rapaz que saia. Os boxes estavam todos fechados. A timidez impedia que urinasse nos mijadores pendurados a parede. Não sabia o que fazer. Saiu angustiado. Entrou em outro e para sua sorte tinha um box livre sem privada, sujo, fedido, tendo apenas um buraco que parecia uma boca aberta querendo abocanhar o membro. Enojado voltou ao primeiro banheiro. Os boxes continuavam fechados. Apelou para os mijadores mesmo. Procurou um no fundo onde achava que poderia urinar sossegado e respirando fundo para se concentrar num desligamento total, não reparou no rapaz que se postou ao seu lado.

- Pronto! Puta merda, agora é que não consigo urinar mesmo. Travei, porra vá urinar em outro lugar, pensou indignado.

Mesmo assim voltou a se concentrar o que não deu resultado. Arrumou-se e caiu fora. Ao sair o rapaz jogou um beijo ao qual retrucou com um gesto obsceno. Nisso, o tempo com seu paradoxo intrincado, deu um giro jogando-o no fluido gasoso onde se viu flanando por cima da cidade.

- Que merda! Virei anjo em Asas do Desejo? Cadê a minha trapezista?

O silêncio dos inconformados o envolveu placidamente. Trespassou o núcleo da vida e explodiu em branco e preto. Não há mais choro, não há mais dor, não há mais dúvida, não há mais angústia, não há mais timidez, apenas o desejo de ser ele mesmo. O foco é a transformação do amor como experiência única e humana. E tudo o que importa é beber um café, fumar um cigarro, olhar a noite, filtrar todas as experiências humanas tão fascinantes como um beijo e, assim reconhecer a própria natureza humana. O muro caiu, The Wall tornou-se ícone do próprio passado.

- Mas espere aí! Onde está o terror? Não é esse o gênero?

- Sim, é esse mesmo.

- Então onde se encontra o terror?

- O terror não está nas letras e muito menos nas entrelinhas, muito menos ainda na trama ou conteúdo. O terror está nos leitores, nos comentaristas com seus placares que terão que ler essas linhas, esse texto é que é o terror, compreende?

   - Pirou na batatinha? Escorregou na maionese? Comeu cocô quando criança?

- Você não compreende. Não sei nada de futebol, menos ainda de terror, não entendo muito bem de escrever, mas escrevo por isso me alucinei com Santo Daime para ver o que saia e saiu isso aí, se está bom só os comentaristas poderão dizer.

- Vou ser sincero. É um amontoado de palavras sem consistência, não vai prender a atenção de ninguém e muito menos dos comentaristas.

- É um risco que devo correr. Se tiver um só que goste, já está bom.

- Você já escreveu coisas bem melhores.

- Não se pode sempre estar escrevendo obra prima, concorda?

- Não sei, acho que está se depreciando e, o que é pior, depreciando os competidores.

- Se é isso que está parecendo peço que me desculpem.

- Tomara que o entendam.

Em silêncio fechou a porta do pequeno armário trancando a consciência estampada no espelho. Apagou a luz do banheiro. Na sala, em frente à tela do computador leu atenciosamente o texto. Até que estava bem escrito, não estava tão ruim. Copiou e colou no corpo do e-mail e clicou em enviar. Pronto. Está feito. Agora é só esperar. Desligou o computador, tomou uma dose de uísque. Ficou uns instantes parado no meio da sala com o copo vazio numa das mãos. Por fim, balançando a cabeça, apagou a luz e foi dormir.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.686(2021)

           

            Percorro detalhes que foram cogitados na ausência do corpo, e assim, os passos dados serão amórficos de tanto trilhar caminhos sujos sem perspectivas de se sair dele e não proliferar ideias mesquinhas cuja planta foram plantadas em algures que não seja o próprio quintal pela aparência de querer o incrível na ousadia de se transformar radicalmente se tatuando formas figuras nos braços da vida sem se importar que com isso seja a ousadia compreendida na Matrix sendo incompreendido além do normal surfando em ondas de prazeres cuja agonia se destaca no brilho dos olhos envoltos pelos cabelos soltos ao vento salgado da manhã desta sexta feira mais uma que enfrento calmo e decidido na malemolência de me sentir no aqui e agora e sempre amém.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 8 de junho de 2021

Contos surrealistas 51

                                 Aniversário

 

A festa estava linda. Bandeirolas penduradas, bexigas, chapéus na cabeça das crianças, risos, parabéns, brindes.

De repente um grito seguido de tiro.

Correram todos. O marido flagrou a mulher com o cunhado na suíte do casal.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.685(2021)

            

            Domingo, seis horas e cinquenta minutos, deveria estar debaixo das cobertas enrolado no cobertor sonhando sonhos futuros e não futuros, sonhos realizáveis e não realizáveis e não aqui na frente dessa tela.

            Segunda-feira, vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos, procurando fazer alguma coisa para matar a insônia, escrever, ler, ver um filme pornô, desenhar, tomar uma caipirinha, fazer o que? escrever o que?  me vem à mente uma porrada de frases, algumas cabeludas. Ler o que? tenho vários livros, mas nenhum me chama a atenção, mas tenho que ler. O Word grifou duas palavras e vou reescrevê-las e ele vai grifá-las novamente: uma porrada. Na primeira propõe no lugar de uma porrada escrever “grande quantidade” o que perderia a força da sentença; na segunda vez o Word grifou apenas porrada que ele propõe escrever “pancada”, mas deixarei como está. Bom voltando ao que fazer o próximo item é: ver um filme pornô, coisa que não me atrai, viu um viu todos. Desenhar é o seguinte, não vou desenhar porque até o momento estava desenhando, até é provável que volte a desenhar, e por último, tomar uma caipirinha, é o que vou fazer, mas não uma simples, fazer uma dupla ou tripla assim mato dois coelhos com uma cajadada só: mato a insônia e durmo e mato o frio que está de matar.

            É isso... ou, não é

domingo, 6 de junho de 2021

Contos surrealistas 52

                             Paris Ainda é Uma Festa

 

Com dificuldade, conseguiu fechar a mala. Tudo pronto, só esperava o táxi. Sentia-se finalmente livre. E a partir de hoje, o que faria com a liberdade que conquistara? Com a sensação de não ter que explicar mais nada, uma leve angústia surgia, roendo a paz. Depois de tantos anos, descobriu a coragem. Era outro. Reconhecia que estava mudado.

Nisso, ouviu a buzina do táxi. Arrastou a bagagem com a ajuda do motorista, que reclamou do peso, colocando-a no porta-malas. "É que estou levando livros, por isso, está pesada", disse a ele.

Enquanto o carro fazia o trajeto por avenidas perfeitas para Ayrton Senna, seus olhos iam acompanhando as formas dos prédios tão bem conhecidos, pela última vez. Não estava com remorso, sabia que um dia isso aconteceria, e esse dia chegou, disse para si mesmo. De leve, bateu uma pequena saudade no peito, que o obrigou a dar um suspiro.

Na rodoviária, colocaram a mala num carrinho. Ele pagou ao taxista, e se distraiu um pouco, observando o indo-e-vindo das pessoas. Antes de embarcar, entrou no banheiro. Trancou-se no último boxe e, saiu, momentos depois, levando apenas a mochila nas costas.

Três dias depois, enquanto tomava café num bar de Saint-Germain-des-Prés, em Paris, numa manhã de sol esplêndido, a polícia arrombava um boxe no banheiro masculino da rodoviária e encontrava uma mulher morta dentro da mala, que estava ali.

sábado, 5 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.684(2021)

           

            Embriago-me no doce sabor alcoólico da tua pele morena e viajo ao destino de me sentir teu e ao mesmo tempo perdido no breu dos pensamentos. Carrego a lucides do tempo que possibilitara de encontrar-me onde desejaria estar. Desejo anatômico pueril que se desvanece ao amanhecer. Ouço canções que me transporta e a realidade se torna forte e verdadeira ao findar da música. Mesmo assim sei que nada foi em vão e em vão nada será no futuro, mesmo que nunca mais nos vejamos.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Contos surrealistas 53

 

Ela

 

Prometera tudo, até mudar de vida, o que não adiantou nada. Então o deserto se instalou em seu peito.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.683(2021)

           

            Três anos depois João se casava com a babá e, dava aos filhos uma madrasta. Marli, a ex-babá, definitivamente se incorporou no papel de mãe dando afeto e carinho aos filhos de João. Aos vinte anos Juliano resolveu morar sozinho. Nada justificou os apelos de João, da madrasta e da irmã. Ele tinha que sair daquela casa e pronto. Juliana até o compreendia, também se sentia um peixe fora da água, principalmente que dali a nove meses nasceria o seu meio-irmão. Assim como o irmão sairia a correr o mundo, só não ia agora por não se sentir segura das suas reais convicções. Portanto, foi com uma ponta de inveja e tristeza que naquela tarde de sol, abraçou o irmão desejando-lhe sorte. Juliano deixou a casa onde passara a infância entre festas e folguedos que no futuro fariam partes das letras de suas músicas. Uma das primeiras providencias tomadas, foi encontrar um empego e lugar para ficar. O emprego, depois de muitas andanças o encontrou nos classificados dos jornais. E no assombro das novidades começou a trabalhar, a principio timidamente, porém, devido a confiança em si mesmo e tendo uma personalidade paciente e forte, logo estaria entre os amigos nos hapy-hours das sextas-feiras. 

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Contos surrealistas 54

 

O Segredo da curva.

 

O sol naquela região não parecia ser o mesmo. O povo da cidade dizia que ao virar a curva do caminho o sol deixava de ser sol, tornava-se manso, não queimava, não ardia com tanta intensidade como em outros lugares. Corria o boato que, bem na curva, o Francisquinho tinha sido assassinado violentamente.

Francisquinho era um menino de uns dez anos, bondoso como ele só, não fazia mal nem para uma mosca, diziam as pessoas quando falavam nele. Vivia cantando musicas religiosas, sempre rindo, nunca chorando ou se lamentando da vida. Menino pobre vivia num casebre com o irmão e a mãe viúva.

Um dia encontraram seu corpo mutilado, ensangüentado, assassinado a pauladas. A mãe não agüentou a dor morrendo uns dias depois, e o irmão sozinho, caiu no mundo, não voltando mais para o povoado. O povo condoído com tanta desgraça colocou uma cruz e passaram a venerar a curva do caminho como passou a ser chamado. A partir desse dia notaram que o sol naquele lugar era diferente.

Anos depois surgiu na cidade um padre que, ao saber da história, passou a cuidar do local, construiu uma capela e incitava o povo a fazer romaria à capela do Francisquinho como passou a ser chamado.

Veio o progresso com seu motor destruindo tudo e se não fosse o padre a capela do Francisquinho teria sido posta ao chão. Com a ajuda dos romeiros e campanhas junto aos empresários conseguiram erguer a Igreja do Francisquinho como você pode ver. E como já estou com a idade avançada, você que irá me substituir, achei melhor lhe contar essa história. Não, ninguém até hoje soube quem assassinou Francisquinho, talvez os mais velhos saibam, mas não dizem nada. Não quero perdão, nem do céu, de ser humano nenhum e muito menos de Francisquinho. Fiz tudo isso foi por um impulso forte que me obrigou a agir dessa maneira.

Meu irmão morreu por pura inveja minha, ciúmes por ser o querido da mamãe, por ser bondoso demais, era só Francisquinho pra cá, Francisquinho pra lá, e uma tarde na curva do rio... Foi fácil. Não tive remorso, não na hora, pois pensava que mamãe iria ter olhos só para mim, ledo engano, sua dor foi imensa, morreu logo em seguida. Fiquei sozinho no mundo. Bom ai está minha história, padre Felisberto, o segredo da curva do caminho. Morro sossegado precisava contar para alguém.

Assim que o padre acabou o relato, dando o último suspiro, padre Felisberto fechou seus olhos e passou a cuidar do enterro, pois o padre do Francisquinho, como era conhecido, era muito querido por todos, principalmente os mais velhos.


terça-feira, 1 de junho de 2021

Contos surrealistas 55

Imitação chinfrim


Biscoito era assim chamado por causa da cara redonda, apelidado pelo bonitão da turma, o gostoso. Mas hoje as coisas vão mudar disse para si mesmo.

Ao chegar perto do pessoal:

- E aí, Biscoito.

- Biscoito é o caralho, meu nome agora é Bolacha.

E deu uma paulada na cabeça do bonitão. Agora cumpre pena por ter matado o filho do senador.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...