quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.800(2022)

                                

Coçou a virilha. Não tinha pudor. Não importava onde estivesse. Com quem estivesse. Se tinha que fazer, fazia. E mais uma vez fez. Coçou a virilha despudoramente. Procurou não olhar, verificou que não podia deixar de notar o constrangimento nos rostos dos imbecis moralistas. Não sentiu desconforto. Nem aborrecimento. Sorriu com o sorriso de pouco caso. Nisso surgiu do meio da multidão o cano da arma. Não se sobressaltou. Não se descontrolou. Manteve-se firme. Apenas se surpreendeu por ser ela. Numa idiotice heroica, postou-se bem à frente do cano. Olhou o pequeno objeto metálico. Depois para a mão que segurava. Fixou o olhar nos olhos escuros que o olhava. Esperou pelo clique que não houve. Deu as costas. Saiu andando devagar e devagar escutou o clique seguido pelo baque da bala entrando no corpo. Lentamente se virou. Esticou o braço. Abriu a boca para falar. Pendeu para a frente caindo, rolando para o chão de terra batida. Estava morto.

É isso... ou, não é?

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Cerração.


Seis horas dizia o mostrador luminoso do rádio relógio. Logo em seguida, a campainha do celular também começou a berrar. Relutante, com a sonolência impregnada nos braços, soergueu o corpo num ângulo em que pudesse alcançar com as pontas dos dedos o interruptor do alarme do rádio relógio. Já o celular foi obrigado a erguer mais o corpo esticando a mão e arrebatar o pequeno objeto de cima da cômoda e desligá-lo. Voltou a deitar-se com o rosto voltado para o lado da parede.

Segundos depois, ao abrir a porta recebeu no rosto a neblina cerrada enregelando as fibras musculares. Não deixou de conter os dentes que batiam um ao outro. Fechou o último botão da jaqueta de couro sujo e saiu. A visibilidade nula encobria tudo na manhã que deveria pelo menos apresentar o morno sol de outono. Cauteloso, evitava dar passadas largas, pois olhando para baixo, não via as pernas, do joelho para baixo estavam encobertas pela nuvem cinzenta escura. Arrastava os pés apalpando degrau por degrau.  
Na rua a situação estava catastrófica. O ar parado impregnava a neblina nos corpos como grude. Não se enxergava nada. Era preciso o maior cuidado para não colidir com as pessoas paradas ou que vinham em sentido contrário. Conseguia escutar o ronco dos veículos, assim mesmo sutilmente, pois como as pessoas, os veículos andavam lentamente. Ouvia-se algumas vezes batida de lataria e vidros quebrados. Logo a seguir, uma porta sendo violentamente fechada e vozes discutindo vorazmente para depois sumir no silêncio que envolvia tudo.

Parado no meio fio da calçada a espera do fretado, aguçava a audição a fim de vislumbrar sons que pudesse identificar o ônibus. O que o aterrava mais a situação era o pesado silêncio que se fazia ouvir, de vez em quando interrompido por barulhos difíceis de identificar.
Nisso, ouviu o som de uma porta se abrindo bem na sua frente ao mesmo tempo um voz que o convidava a entrar. Ufa! Estava ficando nervoso, disse a si mesmo pisando nos degraus do ônibus. Envolvido por uma quentura opressiva, notou que o veículo também, em seu interior estava completamente impregnado pela cerração. Não viu o rosto do motorista, apenas sua voz dizendo: bom dia. Entrou. Olhou para o pessoal todo encoberto pela neblina pairando sobre eles. Achando sua poltrona, sentou e quieto ficou a matutar o que estava acontecendo.

Quase que instantaneamente, viu-se plainando numa atmosfera suave, apesar de sentir certa acidez nos movimentos. Plainava no ar parado, sem vento, sem brisa num gesticular egocêntrico dos braços. Dirigia-se sem noção do destino, como arco que retesado lançava a flecha ao alvo. E qual era o alvo que deveria atingir? Não sabia. O único que sabe é o dono do arco e flecha. A principio, a velocidade lenta, dava a dimensão que não chegaria nem na metade do percurso. No entanto, ao chegar à metade do lançamento, sentiu um impulso violento, onde quase perdia o sentido sendo apenas levado pela noção do caminho a percorrer.
Com os braços abertos ouviu o aviso sonoro de que chegava ao andar. Saiu do elevador confiante de ser ele mesmo, assim como o dia era o dia de uma manhã fria e de pouco sol. Passou o crachá para liberar a porta de vidro, em seguida para marcar o horário de entrada, e sentou em sua baia para o cumprimento de mais um dia de felicidade.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.800(2022)

   

        

Coçou a virilha. Não tinha pudor. Não importava onde estivesse. Com quem estivesse. Se tinha que fazer, fazia. E mais uma vez fez. Coçou a virilha despudoramente. Procurou não olhar, verificou que não podia deixar de notar o constrangimento nos rostos dos imbecis moralistas. Não sentiu desconforto. Nem aborrecimento. Sorriu com o sorriso de pouco caso. Nisso surgiu do meio da multidão o cano da arma. Não se sobressaltou. Não se descontrolou. Manteve-se firme. Apenas se surpreendeu por ser ela. Numa idiotice heroica, postou-se bem à frente do cano. Olhou o pequeno objeto metálico. Depois para a mão que segurava. Fixou o olhar nos olhos escuros que o olhava. Esperou pelo clique que não houve. Deu as costas. Saiu andando devagar e devagar escutou o clique seguido pelo baque da bala entrando no corpo. Lentamente se virou. Esticou o braço. Abriu a boca para falar. Pendeu para a frente caindo, rolando para o chão de terra batida. Estava morto.

É isso... ou, não é?

domingo, 28 de agosto de 2022

O conjunto

                      Para Jean Silvestre.


Estou grávida foi o que ela disse. Foi o que ele ouviu. Estava dentro dela quando ouviu dizer: estou grávida. Na mesma hora o excitamento broxou o fluxo sanguíneo se retraiu deixando-o perdido. Estavam no papai e mamãe como sempre, comprimindo os seios dela em seu peito, com as pernas abertas recebendo-o, foi que, tempos depois, percebeu o quanto de maldade havia naquelas palavras. Estou grávida. Nesse: estou grávida desabou toda sua infraestrutura masculina provocando nele, a repulsa daquele momento. Murcho, quieto, sem ter o que falar, rolou o corpo para o lado direito dela.

Grávida! Como grávida? E o trato que fizeram? E a palavra dada? Você não vai dizer nada, perguntou novamente ela. O que ela quer que eu diga? Que estou contente? Feliz? Radiante? Não sei. Pego de surpresa não tinha nada para dizer. E o que ela queria que ele dissesse? Se ela não cumpriu o combinado e não ele. Ela que tinha que lhe dizer. Estou tão feliz, disse jogando a perna por cima da dele e abraçando-o. É. Está feliz. E ele? Não pergunta se está ou não feliz? Pouco importa o que estivesse sentindo. Pouco importa saber que com essa gravidez seus projetos estavam indo para o ralo.

O processo estava para ir a julgamento. Contava com a condescendência da lei dando-lhe a razão. O CD estava indo bem, com uma venda razoável. Ganhando o processo poderia partir para o segundo CD, lançar o DVD e agendar shows. O único senão é o trabalho que daria para agrupar novamente os músicos, mas isso é o de menos. Estava confiante. Nada haveria de interromper esse processo todo. E...

Estou grávida disse ela. Foi o que ele ouviu. Grávida!
Juntou os papéis. Anotações e mais anotações. O material que tinha acumulado nesses anos todos dariam para uns quatro CDs ou mais até.  Nisso ouviu na voz do juiz ao bater do martelo à sentença dada. Por mais de dez anos, nem ele e nem a gravadora poderiam usar o nome do conjunto em benefício próprio, os ganhos advindo da venda do CD, o único CD, seria todos da gravadora...
Depois de todos esses anos não via mais motivações e nem esperanças em reavivar o conjunto. Os amigos se dispersaram, estavam em outra, tocando com outros músicos, seguindo a vida. E ali, naquele amontoado de papéis tem material para mais de um CD, falou para si mesmo.

Ouviu que o chamavam. Já estou indo, respondeu. Pai, o senhor vai tocar guitarra? Não meu filho, papai não sabe mais tocar guitarra. Abraçado ao filho de sete anos, saiu fechando o escritório.

sábado, 27 de agosto de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.798(2022)

        

         Jogou a lata de cerveja vazia no lixo. Bom, é melhor dormir, disse a si mesmo com vontade de escrever o conto guardado na mente. Até já tinha o tema. O seu cabelo. Longo. Grisalho. Lindo. Bonito. Comprido até na cintura. Você com esse cabelo comprido fica com cara de velho. E daí? Pouco me importo, foda-se. No fim do ano pode trabalhar de Papai Noel. Que vá a merda Papai Noel. Que inferno. Faço o que bem entender com o meu cabelo. Se magoava. No entanto muitos o elogiavam. Um tempo atrás, mas muito atrás mesmo, um cabeleireiro não quis cortar. É muito bonito, me recuso a cortar, ele disse. Isso aconteceu a muito tempo, nem adulto era, estava na fase adolescente. Foi o tempo em que não entendia das coisas dos mais velhos, em que devia apenas obedecer. O pai que mandava e ele tinha de obedecer. Obedecia, mas um dia, já estava com barba e outras coisas com o que os adolescentes se importavam, cortou o cabelo deixando cheio nos lados e arredondado atrás. Nesse dia sentiu-se importante, já era adulto, o pai nada falou, conheceu que não podia mais mandar no filho. E agora aos sessentas anos quando lhe perguntavam o que passava no cabelo, respondia nada, apenas sabonete. Não acreditavam. Mas, como! E era verdade, simples assim. Apenas água e sabonete. Impossível! É verdade não uso mais nada, respondia. E assim ele vinha fazendo, até que um dia lhe deu na veneta de usar shampoo. Mas queria um bom. Perguntou aqui e ali, perguntou para diversos cabelereiros, não lhe deram uma resposta adequada, uns diziam uma marca outros, marcas diferentes, por fim decidiu por ele mesmo. Comprou o que achou melhor, olhou o rotulo, as especificações, revigorante e fortalecedor, é esse mesmo disse ao pegar o frasco da gondola. Seguiu com perfeição o recomendado nas instruções atrás do frasco. Lavou duas vezes, enxaguou duas vezes também, enxugou bem enxugado, passou a escova umas quinhentas vezes, e, depois de se admirar no espelho do banheiro foi dormir satisfeito. No dia seguinte ao acordar, constatou que tivera bom sono, era outro. A primeira coisa que fez se postou a frente do espelho. Quando se viu refletido, sentiu um baque, o peito se inflou, cambaleou e estatelado caiu no chão gelado. Ao ser socorrido ninguém acreditava que aquele careca caído no chão gelado do banheiro um dia tivera um lindo e longo cabelo.

         É isso... ou, não é?

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

O guarda-roupa, a luta final


Para não esquecer colocou na carteira, junto aos cartões, principalmente do Ticket Restaurante, os recortes que imprimiu do site da Livraria, os livros: Lavoura Arcaica e Um copo de cólera, de Raduan Nassar.  Só precisava não se esquecer de não atravessar para o lado direito da Augusta de quem sobe, pois não estava indo ao banco, e, sim, estava indo a Livraria Cultura. Isto porque, pobre vai mais ao banco do que ao banheiro quando está com diarreia, e, como sendo um avoado, uma cabeça oca, apesar dos seus trintas anos, precisava sempre de um lembrete para isso ou para aquilo. O que lhe vinha à mente uma constante pergunta: será que já estava adentrando no mal de Alzheimer? Credo! É jovem ainda. Doença não escolhe idade, dizia a mãe. Realmente, concordava com ela. Até poderia ser, por que não? Não queria pensar nisso no momento. O que tinha em mente era comprar esses dois livros que o maldito cupim comeu o único volume que ele tinha. Uma edição do Círculo do Livro. Fazer o que? Não poderia ficar sem essas duas preciosidades. Portanto, dobrou os recortes, e, colocou na carteira e a carteira no bolso da calça jeans. Saiu para almoçar.
Apesar da pequena neblina e da temperatura baixa de manhã, o meio dia dos angustiados estava meio quente pela fome de viver.*
Os pequenos grãos de papéis e madeiras umedecidos pulavam desordenados a cada martelada que ele dava na madeira podre. Seu cabelo já estava escuro, pois, não colocara nada para proteger os belos fios acinzentados. Tinha que limpar um pouco, retirar aquela crosta de barro esburacado que se formara no fundo emendando com o teto do guarda-roupa. Ao retirar os livros, isto é, o que sobrara, tinha que ter um cuidado para que eles não se desfizessem ao toque dos seus dedos, havia uma camada de pó por toda a parede do guarda-roupa. Entre muitos livros viam-se os pequenos vermes de corpo branco com a cabeça escura tendo um pequeno ferrão. Um deles caiu na mão ferroando a pele deixando um pequeno vergão avermelhado. Não precisou tirar os parafusos, estando à madeira umedecida e podre, com rápidas marteladas, uma a uma conseguiu deslocar os lados e, em seguida, o teto que caiu sem precisar colocar força nenhuma, e, por último, as divisórias e o assoalho. Com um suspiro de “acabei”, limpou o chão do quarto, e estranhou o espaço enorme, que não aparecia, aumentando o tamanho do ambiente. Agora era preciso chamar o pintor para dar um retoque na parede escura em contrapartida com as outras paredes, esperar os caras medir e montar o próximo guarda-roupa que, talvez daqui a trinta ou quarenta anos, se ele estiver vivo, empenhar-se numa nova batalha. Quem sabe! Assim como o amor um dia acaba, o guarda-roupa não permanecerá eternamente.
Apagou a luz e, tendo o dever cumprido, pegou a toalha, a roupa, entrou no banheiro para um bom e merecido e prolongado banho.

* Fome de viver. Excelente filme com a Catherine Deneuve, Susan Sarandon e David Bowie, do diretor Tony Scott, irmão de Ridley Scott. A trilha sonora difícil de achar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

O sonho


O pensamento rasgava o silencio. O corpo na quietude da carne e os ossos se debruçavam na inquietude das sombras colaborando para enriquecer as formas difusas. Os olhos fixos no teto de madeira saboreavam a mancha escura de abstrata ilusão fazendo o peito arfar num ritmo controlável. Pelos cantos dos olhos, sem movê-los, distinguiu claramente o vai e vem das pessoas ao querer solucionar algo que estava fora do seu alcance. Ouviu um soluçar de lágrimas contidas. Em seguida um assuar de nariz entrecortado por soluços pequenos. Não conseguia distinguir se era homem ou mulher, criança não era, tinha certeza. Não tendo outra coisa a fazer, a não ser ficar deitado, num controlar a respiração, numa rigidez absurda, apurou o ouvido em direção ao choro. Mesmo assim, foi impossível notar a procedência. Momento lhe parecia homem outras vezes, parecia mulher. Optou por mulher, pois homem é mais difícil cair no choro, já a mulher por qualquer coisa abrem a boca, disse sorrindo sem mexer os lábios. Gozado, sentiu-se sorrindo sem, no entanto sentir a boca se mexer.
Sonho. Será que estava sonhando? Como se sonhava sem estar propriamente dormindo! O que não conseguia e, por várias vezes tentara sem êxito, se mexer, isto é, os músculos, os nervos, a pele, a unha reagiam ao comando sem que ele movesse sequer um milímetro que fosse do corpo. Rígido, foi que percebeu, estava rígido. Como ficará desse jeito? Por que tinha a sensação de algo que já fora, de algo predestinado a seguir adiante, de algo sem noção do que seja e nem para onde irá? Um gosto de fuligem, madeira queimada, misturada a cinza quente o envolvia por todos os lados. O pior é que a quentura da pele tornava-se insuportável. A noção que lhe vinha à mente era de que queimava sem dor, sem queimadura. Vivia o calor abrasador, mas esse calor abrasador não o importunava, não o queimava, as chamas lambiam seu corpo intensamente, por todos os lados, por todos os cantos e não sentia o calor. Fechou os olhos, encarapitou-se no pensamento e rasgou o silencio.
Ao abrir os olhos, veio ao seu nariz um odor de cinza. Arrepiou-se, estava totalmente coberto por cinzas escuras e brancas, com manchas marrons. Flutuava, disso tinha certeza, flutuava os pés não alcançavam o solo, a terra, a areia. Ouvia o marulhar das ondas sem que elas chegassem aos seus pés. O corpo se desintegrara, pois a noção de corpo surgiu em pequenos pedaços de carne esturricada, pequena envolta pelas cinzas. Deixou de formular perguntavas que não lhe respondiam nada. Um pequeno calor ainda lhe aquecia. Sem saber se horrorizado ou não, constatou, sua percepção não captava mais o todo, e, muito menos as partes, tudo era um amontoado de cinza quente. Relaxou não se preocupava com mais nada.

Foi então, que a água salgada o arrastou para as profundezas das ondas, sepultando o que ele um dia fora. Ao longe uma gaivota lançou seu trinado de fome. O sol se escondeu entre as nuvens e, na praia, uma figura ajoelhada, talvez, rezava uma oração à mãe natureza sem perceber a onda beijando seus joelhos.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

O casamento.

                        Para Anderson e Kamila.


As trombetas tocaram. As cordas tangidas pelos arcos deram os primeiros acordes. Os tambores rufaram a melodia. E as vozes elevaram a música em todos os cantos da igreja. As portas do templo gloriosas se abriram. Por ela entraram dois trompetistas que com passadas rígidas, paravam pela nave soando os acordes de Zaratustra até os degraus do altar. Em seguida, duas crianças, duas meninas ricamente vestidas, ao comando do diretor do espetáculo se postaram ao lado do altar. Depois sucessivamente, entraram os casais de padrinhos perfilados na elegância dos ternos e vestidos. No momento que os atores coadjuvantes se postaram em seus lugares, a marcha Nupcial elevou os corpos e olhares para o fundo do templo na expectativa dos atores principais.

E lá estavam o pai e a noiva. O pai radiante, feliz não só por estar ao lado da filha, como por ter conseguido até aquele momento, dado não só a si mesmo tudo o que conseguiu, mas a filha que depois do belíssimo espetáculo estará voando com suas próprias asas, retribuindo com sua vida feliz, tudo o que os pais lhe ensinaram.
E lá estava o terceiro ator, o noivo que, tendo recebido dos pais a coragem, a força, a honestidade e, com o amor que lhe transmitiram a espera de oferecer tudo isso e muito mais, a sua companheira para assim, continuarem a saga da humanidade e, com orgulho estampado no sorriso feliz, receber das mãos do pai, a mulher que completará sua vida, assim como ele completará a vida dela.
E lá estava os coadjuvantes, a maioria na simplicidade de ser, participando do espetáculo não só como convidado, mas como humildes participantes daquelas duas vidas que hoje partirão para uma única vida: de amor e felicidade.

E ao soar os acordes da belíssima música, talvez a mais clássicas de todas as músicas, a Ave Maria, os corações compungidos pela beleza, tanto do espetáculo como o amor aos dois ajoelhados recebendo a bênção do sacerdote, deixaram escapar uma lágrima que o flash estampou nos rostos dos pais e convidados.

Apesar da temperatura fria, a lua brilhou na quentura dos abraços e felicitações, entre risos e vivas, entre champanhe e bolo, iluminando os passos de duas aves em seus primeiros voos sem a batuta dos pais.
Felicidades hoje e sempre.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Sorriso sem moldura.


A foto sorri. Traça um sorrir sem delineamento conclusivo de que seja o sorrir para quem o olha. Teu sorriso vem do fundo dos tempos onde dois era para ser um, mas um não queria que fossemos dois. Vem e lanceta a pele do momento causando angústia quase que provocativa.

Sorri a foto. Risca o tempo com um traço obscuro que se funde em lembranças difusas, se faz presente no sorriso captado pela câmara fotográfica. Imóvel seu sorrir risca profundo corte na pele oculta onde a face macerada tenta esconder as cicatrizes.

No entanto, querendo ou não, o sol brilha ofuscando os olhos de luz morna e suave. Percorre, em passos lentos, mas decididos, os lugares por onde andarilhos, sem medo, passeavam. E tantos foram os lugares que, um a um se desvaneceram, sem que percebêssemos que o futuro estava ali e não no amanhã. Corríamos diversos perigos, físicos, abstratos e intelectuais por não saber como deveria cada passo nos conduzir, já que um mais decidido que o outro, nunca se adiantava para mostrar o caminho certo.
 Abalroado por sentimentos nada esclarecedores, tombávamos com a imbecilidade egocêntrica e tímida sem conclusão certa. Mesmo assim, teimávamos num ponto que, talvez pudesse ser o fim de tudo, e, no entanto, não sabíamos que era apenas o começo de todo o fim.

E, assim foi não sei se para o meu desconforto, não sei se foi para o seu contentamento, a distância separou nosso destino cabendo cada um o seu. A partir do momento em que nossa decisão foi tomada, sigo meu destino pisando feridas em pedras de espinhos que dilaceram minha carne. O que não quer dizer que seja saudade, não é, eliminei a saudade do meu peito, em substituição carrego a esperança morna de um dia ter novamente em meus braços, quem um dia deixou de me amar.

domingo, 14 de agosto de 2022

Ao rasgar a face.

Ao rasgar a face.


Não podia correr. Não sabia por que, apenas lhe era proibido correr. Percebeu também, não tinha capacidade para correr. Sentiu-se cansado quando, há poucos instantes, precisou acelerar os passos ao atravessar a rua. Não foi praticamente uma corrida, foi mais um acelerar as pernas para que não fosse atropelado. Foi isso apenas. Não podia caracterizar tal feito como corrida. Claro que não! Se o vissem diriam que fora. Bom o problema não era dele, pensou aliviado.
Sendo assim, continuou andando rente à parede.  Seguia em linha reta. Não se preocupava em desviar dos outros, os outros que se desviassem dele. De vez enquanto esticava os dedos e deixava que sentissem a porosidade das pedras. Outras vezes, forçava os dedos até que, a carne sendo perfurada, sangrasse. Queria se integrar aos componentes que deram forma as casas, aos prédios, aos edifícios vazios de almas e cheios de vidas. Achava que devia amar as pulsões reinantes entre os ferros e cimentos e calcários como se fosse sua vida que ali estivesse. Como se vivesse a vida de cada um reinante no dia-a-dia. Chorou no silêncio das lágrimas petrificadas ao rasgar a face.

Em silencioso choro, compreendeu, ao se refazer totalmente, pedaço por pedaço, aqueles instantes que, por segundos, lhe pareceu insinceros. Sim, chorou, deveria se envergonhar? Não claro que não. Apenas que o choro repercutiu nas entranhas, esfolou paredes que deveriam permanecer impassíveis. Chorou o esporro da carne no aconchego dos lençóis amarfanhados pelos corpos suados e cansados.

Aquietou-se. A carne seguiu a quietude do corpo enovelando-se na alma saciada e feliz. Foi então que se deslumbrou. O mundo se fez luz brilhando sorrisos nas brancas asas das pombas.

sábado, 13 de agosto de 2022

Se não sabe brincar não desce pro play.


Se não sabe brincar não desce pro play, disse batendo a porta, deixando-a naquele quarto de hotel barato. Seminua, sentiu o mundo desabar. Irritada, não com o que ele dissera ao sair, mas quando entre suas pernas demonstrando a virilidade de macho dominador, ao acariciar sua virilha, introduzindo o dedo faminto em sua calcinha, puxando-a para baixo, com a voz alterada pelo arfar do desejo, maldosamente dissera aos seus ouvidos: com essas pernonas parece uma seriema insaciável. Seriema! Seriema a puta que te pariu, gritou empurrando ele que caiu da cama! Tudo bem, grandona, perna comprida sempre fora chamada de Ema, apelido de infância, mas não podia tolerar isso dele, do homem que amava. E além do que ele era infantil demais. Não suportava a infantilidade dele. Como era infantil, meu Deus! Não suporto infantilidade, disse levantando-se da cama com lençóis encardidos. Achava ridículo ver pessoa com mais de quarenta anos agir como se tivesse dezoito ou vinte anos. Não era contra as brincadeiras, até brincava algumas vezes, mas ele exagerava, a todo o momento, sem motivo algum, soltava seus ditos infantis: se não sabe brincar não desce pro play, dizia alterando a voz debochando, ou, ema ema cada um com seu problema ou, ainda mais ridículo impossível: ema ema a Silvia é uma seriema. Tinha vontade de esbofetear aquela cara de babaca. Elogiava todas as vezes que via jovens fissuradas em shoppings, com seus piercings e argolas alargando o furo das orelhas e tatuagens. Quando ele apareceu com a tatuagem de um cisne estilizado no braço, se zangou, brigou, discutiu, não entendia como uma pessoa podia maltratar a si mesmo, além do que debochou dos seus princípios religiosos ridicularizando-a. Com muito custo, recolheu a mágoa, aceitou, pensando que o seu amor por ele fosse mais forte, que sobrepujaria todo e qualquer empecilho, o qual seria, com a felicidade, compensada no futuro. Enganara-se. Se não sabe brincar não desce pro play. Ema ema a Silvia é uma seriema. Foi demais. Não queria mais saber dele, disse entregando a chave para o recepcionista que a olhou imaginando sabe-se lá o que.
Agora, sentada nesses bancos exíguos, com o joelho quase tocando seu peito, não suportava olhares de curiosidade gravados nela. Já tinha ensopado dois lenços, impulsiva não se controlava, quer dizer, tentava, mas não conseguia reprimir o choro. Silencioso, mas era choro. O que não suportava eram os olhares que sabia, tentavam descobrir porque a seriema estava chorando.

Principalmente o coroa com aquela moça. Percebeu que ele lhe dissera alguma coisa no ouvido dela, pois logo em seguida, a moça a olhou, surgindo em seus lábios um sorriso reprimido. Droga! Vão todos a puta que pariu, pensou ao assuar-se no lenço encharcado de lágrimas. Estação Penha anunciou o alto falante. Levantou-se e assim que o trem parou, passou pelos dois, empurrando-os sem ao menos se importar com o que dissessem. Cada um vive as suas próprias dores sem se importar com o sofrimento alheio, disse pisando firme na plataforma da estação.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Quero falar com Deus ou Zé da escada.


                              A escada, como o pé de feijão, é considerada símbolos fálicos e, penetrando nas nuvens, tal simbologia torna-se mais contundente. No entanto, quando sugeriram usar os feijões, ele prontamente os rejeitou. Primeiramente, foi o que disse, os feijões iriam demorar muito para crescerem, e depois, não via graça nenhuma em feijões mágicos, pois mágicas hoje em dia é impossível de existir. Sim e a mãe dizia: nada é impossível, o impossível é Deus pecar e mulher urinar na parede. Além do que não teria trabalho nenhum, a não ser, molhar os ditos cujos dos feijões duas vezes ao dia, o que para ele é maçante. Para provar sua necessidade em falar com Deus, teria que suar a camisa, fazer uma escada até o céu e falar com ele lá em cima, cortar a madeira, medir uma a uma e construir a escada. A princípio, começou timidamente a elaborar a ideia. Estudou mecanicamente os atos, as ações, como deveria ou como não deveria agir. A dinâmica, a inclinação, os graus de cada degrau, a velocidade do vento, enfim todos os parâmetros possíveis e impossíveis. Esboçado todo o plano físico e abstrato, foi à procura do material. Rodou a cidade toda, conseguiu encontrar o que precisava nos arredores, quase no limite entre uma e outra das cidades.

                              Estava quase desistindo quando seus olhos ofuscados pelo sol da tarde, fez com que virasse o rosto para esquerda e, foi, então que viu o que precisava. A loja pequena com os materiais espremido e esparramado numa confusão paranoica parecia mais um oásis no deserto da solidão. Cauteloso entrou. Coisa que nunca imaginou que existisse no Brasil, só em filmes americanos, ao abrir a porta, esta fez com que soasse o sino.  Foi tomado por uma nostalgia melancólica e suave de paz e ao mesmo tempo de fúria amarga. Percorreu com o olhar de investigador que entra pela primeira vez num local, demarcando o que lhe era possível, os ângulos, os materiais, as sombras, e, principalmente, o vendedor. Parado no meio da loja escutava o silêncio porejando vida em sussurros imperceptíveis vindo de todos os lados. Não se amedrontou, até sentiu um frêmito de prazer percorrendo a espinha. Nisso, vindo de um dos cantos embalado pela sombra, soou uma voz anasalada, meio tétrica, forte na dicção. Com uma torção de meio centímetro, virou a cabeça. Não viu nada. Apenas sombra. Aguçou a visão e, assim que seus olhos se acostumaram, viu uma figura magra, alta, com movimentos suaves, sem pressa, num estilo barroco, perguntando o que desejava. Zé que ainda não era da escada, puxou o papel do bolso e entregou para a figura bizarra acreditando que fosse vendedor. A figura alta e magra leu a lista de materiais prometendo que no dia seguinte, entregaria a mercadoria pedida.
                              Dois dias depois, Zé que ainda não era da escada, recebeu os materiais e, no mesmo instante deu iniciou a sua soberba escada que o levaria até o céu para que pudesse falar com Deus.

 

 

                              Zé levantou cedo. Não podia se certificar, mas achava que fora uma hora, e, se estivesse errado, afirmaria com convicção que fora duas horas mais cedo do que de costume. Tomou um café bem reforçado, pois tinha a noção de que trabalharia a manhã toda sem parar. Ao abrir a porta, o sol que surgiu violento, estava mais brando, o que facilitaria o serviço. Distraído, com boa parte do projeto avançado, tendo dois lances da escada pronta, bem medida, posicionada nos ângulos para contrabalancear com o vento e, se houvesse temporal, o que concluíra em seus estudos teóricos expostos em linhas, riscos e cálculos na prancheta lambida pela brisa suave da manhã, foi quando notou o homem tirando fotografia. Provavelmente um repórter de algum jornal, pensou. Como vazou o que iria fazer? Quem deu com a língua nos dentes? Se a notícia se esparramasse não trabalharia sossegado. E tido e feito. Não conseguiu impedir o sujeito. Nas edições da tarde dos jornais, saiu estampado seu rosto de fuinha cansado, tendo acima o título da matéria: Igual ao Zé do Burro, Zé da Escada quer encontrar Deus no céu e falar com ele. Lendo a matéria pode imaginar quem fora o delator, apesar de que não disse categoricamente que faria a escada e, muito menos, que guardasse segredo, mas mesmo assim, deveria pelo menos informá-lo. Seria o máximo de respeito por ele, era o que achava. Aquele merda do Osvaldo, apenas ele ouviu o que eu disse. Quando encontrar com ele vai ver só, disse martelando um prego.

                       Nem bem terminara o pequeno almoço, ouviu a campainha tocar. Quem seria? Para seu espanto, ao abrir a porta, uma enxurrada de flash, microfones, câmaras foi apontada para ele. E agora, Zé? O que eu faço, pensou amaldiçoando o amigo. Pediu silêncio. Com voz embargada pela raiva ou, humilhação? Pouco importava. Solicitou atenção e, pediu que o deixassem trabalhar que depois das dezoito horas daria uma entrevista coletiva, caso contrário, iria pedir reforço da polícia para expulsar todo mundo do seu quintal. E fotografia? Olhou para quem lançou a pergunta e, calmo, respondeu, sim, podem tirar, contanto que não atrapalhem meu serviço. Assim combinado, assim feito. Zé da Escada, como agora era denominado, trabalhou sossegado, durante seis horas sob chuva de flash. Vão gostar assim de fotografia na puta que pariu, pensou.

                              Às dezoito horas chegou e, como prometera, estava pronto para a entrevista. Depois de certo alvoroço, de um zum zum disparatado, com certa impaciência, a turba foi organizada. A primeira pergunta que lhe fizeram foi: porque ele estava fazendo igual ao Zé do Burro, se é que ele conhecia. Sim, conhecia, sim. Ele não estava fazendo e nem sendo igual ao Zé do Burro. Zé do Burro fizera uma promessa, isso é que é gostar de animal, disse logo em seguida, mas ele não fizera promessa, apenas iria lá em cima falar com Deus, sem intermediário nenhum, não precisaria de Santa Bárbara nenhuma e muito menos de Padre. Cansado de rezar, de pedir, sem ser atendido, tomou a decisão de ir lá pessoalmente falar com O Todo Poderoso. Isso é blasfêmia, gritou alguém. Talvez um religioso fanático, pensou. Não, não era blasfêmia, não visão dele não era blasfêmia. Apenas estava cansado de pedir e não receber nada. Mas como não está recebendo? Essas coisas não se vê, não sentimos, vamos transformando e mudando nosso modo de vida e do nosso pequeno mundo. Sim, até poderia ser, mas para ele isso era muito pouco, não era um São Tomé, mas precisava ver para crer.  Zé da Escada, não tem medo do pecado? Pecado? Quem disse que pecado existe? Pecado é fazer aquilo que acreditamos? Pecado é fazer o que gostamos? Não, não existe pecado. O senhor não tem medo da ira de Deus? Aí está outra pergunta que farei a Ele. Por que Ele é tão imperioso com o ser humano que tanto ama? Isso é ser Deus? Castigar a gente assim inescrupulosamente, sem piedade, como se fosse um vingador? Se eu amo uma pessoa não vou querer que nada de ruim aconteça a essa pessoa. E se Ele nos ama realmente, porque deixa que coisas terríveis nos aconteçam?

 


                              Isso é loucura! Você é um louco, sabia? Todos são loucos. Eu não sou! Claro que é. Se não fosse não estaria aqui lutando pela melhor reportagem. Não estaria empurrando, cotovelando, enfiando esse microfone no meu nariz. Somos todos um pouco loucos, paranoicos, esquizofrênicos. Se assim não fosse, ninguém concretizaria seu sonho. Você não luta, não faz sacrifícios, até vende a mãe, chega a matar, para realizar alguma coisa? Então, estou realizando um sonho, mas não estou matando, prejudicando ninguém. Sou louco, mas minha loucura é sã. Está indo contra princípios religiosos e morais. Baboseira. Religião foi inventada pelo homem para controlar o homem e suas riquezas, moralidade não existe na cabeça dos sonhadores, principalmente daqueles que realizam o sonho. Então quer dizer que você não acredita em Deus? Não disse isso. Mas disse que a religião foi inventada pelo homem para controlar o homem! E não foi? Além do que isso não quer dizer que eu deixei de acreditar em Deus ou não. Deus existe e se Ele for a nossa semelhança Ele é sado masoquista. Nisso a sirene da polícia se fez ouvir. Você vai ser preso, disse uma mulher loira que estava ao lado dele. O carro da polícia parou e rapidamente o policial desceu empunhando a arma. Quem é o Zé da Escada? Ninguém respondeu. O policial perguntou de novo. O rapaz de blusa azul e calça jeans, respondeu. Não o conheço. O policial perguntou novamente. O mesmo rapaz respondeu que não conhecia. O policial ia perguntar pela quarta vez, quando um barbudo saindo de traz do Zé da Escada, respondeu com a mão em seu ombro direito: seu guarda, este é que é o Zé da Escada. O policial se voltou para ele dando ordem de prisão. Espera um pouco seu guarda, porque estou sendo preso? Por perturbar a ordem pública e incentivar o povo a desordem. Vão me levar à presença de Pilatos? O que? Deixa para lá. Algemado foi colocado no carro que saiu com a sirene berrando histericamente.

                              Os jornais, a televisão, os blogs fuxiqueiros, os Orkut sensacionalistas, noticiaram aos quatro ventos o dia do julgamento de Zé da Estrada. O fórum estava cheio. Dando início a sessão, o Juiz ao interrogar o réu, não viu nele o arruaceiro perigoso como dizia a acusação. Feitas as apresentações, os advogados partiram para a primeira batalha, depois vieram às réplicas e treplicas e, por fim, fechando o espetáculo, juiz e jurados partiram para a votação. Para surpresa geral, o réu foi absolvido por cinco a dois. Ao sair do plenário, Zé da Escada viu o juiz fazer o gesto característico de quem lava as próprias mãos em água abstrata. Sorriu.

                              Noventa dias depois, Zé da Escada anunciou que a escada estava pronta e, que dali a dois dias estaria subindo para falar com Deus. Fotógrafos, repórteres, câmeras de televisão se postaram nos fundos da casa. Como Zé da Escada não noticiou a hora passaram a noite e a madrugada a postos, prontos para registrar a gloriosa subida. O sol começava a surgir, alongando as sombras entre o asfalto e as casas, quando ouviram um grito de: olhe, ele está subindo. Todos se voltaram para a escada, fotógrafos dispararam seus canhões, as câmeras de televisão interromperam a programação matinal e passaram a transmitir ao vivo, repórteres com suas vozes empostadas, tentavam transmitir o clima do momento em detalhes meios que exagerados. Por vinte minutos seguiram passo a passo os pés de Zé da Escada subindo degrau por degrau. De repente, saindo das nuvens, surgiu a mão de Deus, disseram quase ao mesmo tempo, pegou Zé da Escada pela mão direita e puxou o franzino corpo que sumiu entre as nuvens. Estáticos, silenciosos, parecia que o mundo tinha parado nos eixos. Não se ouvia nem o respirar de uma mosca. Foi então que ouviram outro grito vindo de dentro da casa do Zé da Escada. Correram para lá e, Zé da Escada estava morto e estirado em sua cama.
                              Quase um ano depois, quando o povo já estava esquecendo-se do Zé e sua escada tendo sido derrubada por um vento inesperado, começaram a ouvir que havia um médium, para os lados da zona lesta da cidade, fazendo milagres se autodenominando como Zé da Escada.

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

O sonho


O pensamento rasgava o silencio. O corpo na quietude da carne e os ossos se debruçavam na inquietude das sombras colaborando para enriquecer as formas difusas. Os olhos fixos no teto de madeira saboreavam a mancha escura de abstrata ilusão fazendo o peito arfar num ritmo controlável. Pelos cantos dos olhos, sem movê-los, distinguiu claramente o vai e vem das pessoas ao querer solucionar algo que estava fora do seu alcance. Ouviu um soluçar de lágrimas contidas. Em seguida um assuar de nariz entrecortado por soluços pequenos. Não conseguia distinguir se era homem ou mulher, criança não era, tinha certeza. Não tendo outra coisa a fazer, a não ser ficar deitado, num controlar a respiração, numa rigidez absurda, apurou o ouvido em direção ao choro. Mesmo assim, foi impossível notar a procedência. Momento lhe parecia homem outras vezes, parecia mulher. Optou por mulher, pois homem é mais difícil cair no choro, já a mulher por qualquer coisa abrem a boca, disse sorrindo sem mexer os lábios. Gozado, sentiu-se sorrindo sem, no entanto sentir a boca se mexer.
Sonho. Será que estava sonhando? Como se sonhava sem estar propriamente dormindo! O que não conseguia e, por várias vezes tentara sem êxito, se mexer, isto é, os músculos, os nervos, a pele, a unha reagiam ao comando sem que ele movesse sequer um milímetro que fosse do corpo. Rígido, foi que percebeu, estava rígido. Como ficará desse jeito? Por que tinha a sensação de algo que já fora, de algo predestinado a seguir adiante, de algo sem noção do que seja e nem para onde irá? Um gosto de fuligem, madeira queimada, misturada a cinza quente o envolvia por todos os lados. O pior é que a quentura da pele tornava-se insuportável. A noção que lhe vinha à mente era de que queimava sem dor, sem queimadura. Vivia o calor abrasador, mas esse calor abrasador não o importunava, não o queimava, as chamas lambiam seu corpo intensamente, por todos os lados, por todos os cantos e não sentia o calor. Fechou os olhos, encarapitou-se no pensamento e rasgou o silencio.
Ao abrir os olhos, veio ao seu nariz um odor de cinza. Arrepiou-se, estava totalmente coberto por cinzas escuras e brancas, com manchas marrons. Flutuava, disso tinha certeza, flutuava os pés não alcançavam o solo, a terra, a areia. Ouvia o marulhar das ondas sem que elas chegassem aos seus pés. O corpo se desintegrara, pois a noção de corpo surgiu em pequenos pedaços de carne esturricada, pequena envolta pelas cinzas. Deixou de formular perguntavas que não lhe respondiam nada. Um pequeno calor ainda lhe aquecia. Sem saber se horrorizado ou não, constatou, sua percepção não captava mais o todo, e, muito menos as partes, tudo era um amontoado de cinza quente. Relaxou não se preocupava com mais nada.

Foi então, que a água salgada o arrastou para as profundezas das ondas, sepultando o que ele um dia fora. Ao longe uma gaivota lançou seu trinado de fome. O sol se escondeu entre as nuvens e, na praia, uma figura ajoelhada, talvez, rezava uma oração à mãe natureza sem perceber a onda beijando seus joelhos.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Então vou comprar uma bengala.


Sempre dizia que não tinha graça pegar o fretado. Não acontece nada, o máximo que pode acontecer é o ônibus furar o pneu, mais nada. Já o metrô acontece coisas mais interessantes, todo o dia surge um fato novo para quebrar a harmonia, todo o dia é gente nova que se descobre, cada macaco no seu galho, como diz uma música, além do que é mais rápido que o ônibus. E as conversas que o ouvido capta? Cada disparate, as brincadeiras dos jovens, as pessoas apressadas, o corre-corre, os mochileiros com suas mochilas as costas atrapalhando, as cotoveladas, os olhares feios, as paqueras, as pisadas no pé a ponto do sapato ser arrancado, as brigas... E altas horas da noite! As noites de sábado para domingo ou, mesmo de sexta para sábado, onde os atrasados se desesperam para não perder o último metrô. Enfim, ele pegava, melhor dizendo, pegou o metrô por mais de dez anos, de casa para a Paulista, da Paulista para casa.

Mas como dizia aquele filosofo inconsequente: o tempo não para. E sem perceber, os anos foram avançando e, quando deu por si, estava na era do Condor. Com dor aqui, com dor ali, e outras dores. A pior era a dor nas costas. Não podia ficar muito tempo em pé, a dor começava na cintura e descia pela perna esquerda. E como sempre era difícil conseguir um banco para sentar, isto porque, pegava o metrô na estação Tatuapé. Depois de muita insistência dos amigos e familiares, resolveu passar para o fretado.
 Assim sendo, apesar de uma hora prisioneiro, (é uma prisão assim como é uma prisão ficar oito horas fechado num prédio fazendo o que não se quer), viu as vantagens. Não precisava esperar um ônibus mais vazio, pois de casa até o metrô ele pegava um ônibus. Estava fora do empurra-empurra. Chegava uma hora mais cedo. Durante o trajeto podia dormir, cochilar, até roncar, ler, escrever, olhar pateticamente pela janela, com o celular tirar fotos inusitadas da cidade para colocar no blog.

Agora, depois de mais ou menos, três ou dois anos, os donos da razão, empoleirados em seus poleiros políticos, estão querendo restringir ou acabar com o fretado. Como dizia um motorista: o que atrapalha o trânsito é os maus motoristas, os que compram a habilitação. Como pode uma coisa dessas? Não é restringindo ou acabando com o fretado que o trânsito da cidade deixará de ser caótico!! O que é preciso é uma conscientização política, social eliminando os fraudulentos e os ladrões, criando obras e situações que beneficiem o povo. Por outro lado, o povo também tem que ter uma conscientização de vivência do que deve ser feito ou do que não deve ser feito, ser mais atuante política e socialmente. Saber em que votar, e não votar por votar.  

E, mais uma vez, descendo do fretado em frente ao Conjunto Nacional, ao passar em frente a uma loja, disse a meia voz: então vou comprar uma bengala. E entrou na loja.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Isso não acontece no fretado.


Ontem como sempre faz, sem pressa e, também ter pressa no meio dessa multidão é coisa de doido, portanto, no seu ritmo, como diz uma das propagandas do metrô: cada um tem o seu ritmo, isso referente às escadas rolantes, ele se postou atrás de todos a espera do metrô. Quando esse chega, o pessoal vai entrando e, às vezes ou sempre, o vagão lota e assim ele fica para o próximo bem na frente, bem na faixa amarela que é a sua segurança. E aquele dia foi igual. O povão entrou, ele parou na faixa amarela, mas quando o povão começou a se mexer no momento em que a porta abriu, surgiu uma mulher, baixa meio gordinha pele mais para escura do que branca sem ser de cor, parou na frente dele, isto porque, o aviso sonoro a fez retardar o passo. Ele, teimoso, não arredou pé, ficou ali encostado nela, quer dizer, ela que se encostou a ele, e deve de ter sentido os dedos dele que segurava a pasta alisando a bunda mole dela, tanto é que aos poucos ela foi desviando e saiu da sua frente. Mesmo assim, sentia a pressão da carne da coxa contra seus dedos. Pouco se importou. Quando o metrô parou e a porta foi aberta, a mulher entrou como um rojão, pois, talvez como ele, viu o lugar no banco cinza, e para lá ela se precipitou. Ele foi atrás dela, não tão precipitadamente, mas teve a intenção de surpreender a mulher e sentar primeiro, mas não foi possível. Isto porque, ela pediu licença para o rapaz por um lado e ele foi pelo outro lado e, sendo ela a primeira, o rapaz deu passagem para ela. Ele se postou no outro lado, mas nem bem ela sentara com sua bunda mole, viu-o e ao mesmo tempo, levantou-se cedendo o lugar para ele.

- O senhor quer sentar, perguntou num sorriso de quem diz: droga de velho!

- Claro, por favor, respondeu ele rindo por dentro.

Isso não acontece no fretado.

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Voltava do recital de todos os sábados. Eram umas onze horas e qualquer coisa, pensou mal olhando o relógio.  O recital tinha sido proveitoso. Apresentou seus textos que foram bem acolhidos, todos gostaram, pensou. Leu três poemas, dois contos e uma crônica. Tinha sido bom afinal.

O vagão estava nem cheio e nem vazio. Como não era o último metrô, a maioria dos passageiros era de rapazes e moças que vinham de baladas, passeios ou sabe-se lá o que. Casais abraçados sonolentos um se apoiando no outro. Grupos de rapazes aqui, grupos de moças lá, no meio uma turminha toda de preto em conversas animadas. Uma ou outra pessoa mais idosa, raros que com os olhos de peixe morto, sonolentos não viam à hora de chegar a casa. Em frente a ele, quer dizer, na porta oposta, estava um grupo de rapazes entre seus quinze a dezoitos anos, eram mais ou menos uns cinco. Dois deles conversavam sem que pudesse entender se amistosamente ou se estavam trocando insultos, pois, de vez enquanto um dava um empurrão no outro que mais parecia um afago do que qualquer outra coisa.  Não conseguia distinguir o que falavam, ouvia o timbre de suas vozes, mas tudo embolado com o som do metrô, a voz do alto falante, risadas, como uma coisa só. Observava-os com curiosidade, talvez dessa observação pudesse, mais tarde, quem sabe, criar um conto ou crônica. Observava-os por serem eles que mais chamavam a atenção. Percebia que a cena ficaria armazenada no subconsciente.
De repente, sem que ninguém percebesse, um tapa estalou no rosto de um dos rapazes. O que recebeu o tapa revidou com um murro, e, logo em seguida rolavam pelo assoalho do vagão. Os amigos, assustados, ao invés de separarem, se afastaram, deram mais espaço para os briguentos. Ele levantou, tanto pelo susto, pois vieram para o seu lado, e também, estava chegando à estação em que iria descer. Pensou em retirar a arma e registrar a cena, porém, preferiu deixar cair o celular no fundo do bolso da calça jeans. Não sabia o que poderia acontecer meio embriagado era capaz de perder o celular ou sabe-se lá o que, não é? Quando descia, quando seus pés pisaram na plataforma, ouviu alguém gritar:
- Vocês que são amigos não separam eles, não?

E ao mesmo tempo, passaram por ele, quase o derrubando dois seguranças que entraram no vagão e puxaram os briguentos para fora. Como era tarde, corria o risco de perder o último ônibus não esperou para ver o final da história.

Isso não acontece no fretado.

domingo, 7 de agosto de 2022

Um canto aos cariocas.


O sangue deixou de ser noticia
Não vende mais jornais e revista
O sangue não estampa mais o olhar faminto
Na vitrine de futilidade e a beleza dos ricos

A bala estoura perdidos meninos
Banaliza a vida nos choros sofridos
A beleza de braços abertos
Grandeza de concreto  
Chora lágrimas de ódio e espanto
Ao ver o morro de poesia e encanto
Se transformar em antro
De bandidos e assassinos

“Poetas seresteiros
É chegado à hora de cantar”
As belezas naturais
Dos morros e cidades
Invadidos pelos marginais.

sábado, 6 de agosto de 2022

Dificultoso labirinto.


Não tendo a paciência de uma dor, qualquer que seja, da mais insignificante até a mais pavorosa, incrustada no rosto, na face, no peito, nas costas, na virilha, onde for física ou abstrata, audaciosa ou acanhada, ela, a dor, faz parte dos seus passos, em pequenos atos delineados pelas quadriculadas divisas das chapas de cimento da imensa calçada.

Distraído, inconsequente, chuta, às vezes pisa, em pequenos nacos de carnes espalhados em determinados cantos e marquises dos edifícios mortos, onde os vivos se refestelam na carnificina a ostentar, com orgulho, a coleira de prisioneiro oito horas por dia.
Detestando a dificuldade, filtra na pele da mão a raiva intempestiva recolhendo a mágoa como quem bebe, a doce e refrescante água, que escorre entre os dedos da mão em concha.

E chora a dor do sofrimento, sangrando acordes cuja música se infiltra em seu ouvido ensurdecendo-o momentaneamente da realidade.
Assim, se fecha no intricado labirinto da angústia a espera da morte.

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

O dia do faniquito.


Pregava a madeira que, por determinação dela, queria por que queria que fosse colocada ao lado do quadro que, por ele, jogaria no lixo. Cada martelada na cabeça chata do prego repercutia no cérebro, pequenas vibrações parecendo fios finíssimos de cristal a se espedaçar em todas as direções. Ao perguntarem o do porque ter feito aquilo, seu rosto mostrava indignação sem saber, foi o que notificaram, e nem porque estava na sua casa pregando a madeira todo sujo de sangue. Não soube e, veria, a saber, pois, o que dissera foi demonstrativo de que sua mente não mais possuía a flexibilidade normal.

Pregava a madeira que, por determinação dela, e que falava mais que matraca em noite de procissão, se surpreendeu ao ver o martelo em sua mão manchado de sangue. Olhou para a roupa também suja de sangue. Horrorizou-se, quase desmaiou, contou o policial relatando o que ele lhe dissera. É não sabia dizer nem porque estava pregando a madeira quanto muito o martelo manchado de sangue em sua mão.

Pregava a madeira, claro que pregava, pregava também os finíssimos fios de cristais em cada canto do cérebro. Queria tirar os cristais da cabeça, não conseguia. Contou para o policial que o martelo caíra no dedo dela. Se tivesse arrancado os cristais da cabeça à coisa teria sido diferente. Será? Perguntou dentro de um sorriso que ele somente conseguiu decifrar. Olhava para o martelo indo e vindo, entrando e saindo do seu campo de visão. Como seria se eu mudasse a direção do martelo? Acabaria com esses cristais finíssimos espetando a cabeça? E quando percebeu, se é que tinha noção, o martelo com toda a força esmigalhou o dedo da mulher. Os vizinhos tinham ouvido um grito aterrorizado de dor, um grito que cortou a tarde como um estrondo anunciando chuva. Assim que a noticia varreu os lados da casa, ninguém acreditava.

Dona Júlia, mulher de seus quarenta e poucos anos, foi quem chamou a polícia. Todos os dias ela vai às compras. Às vezes demorava mais do que o costume, mas aquele dia deu faniquito nela, conforme suas palavras anotadas pelo policial em seu relatório. Até denominou aquele dia como o dia do faniquito. Não havia terminado de percorrer todo o supermercado, quando estava na caixa registradora com o carrinho pela metade, foi movida pela urgência de ir para casa. E todo o dia passava em frente à casa dos Marteli, e quase sempre, parava para bater um papo com a Senhora Marteli. Eram amigas mais de dez anos, quer dizer, se conheciam a mais de dez anos. A amizade delas não ultrapassava a porta de entrada. Como dizia seu filho: amizade de porta de rua. Realmente, antes daquele dia Dona Júlia nunca entrou na casa deles. Caminhava intrigada diante a angústia ou aflição, não sabia como definir. Distraída, assustou-se ao ver o senhor Marteli sentado na porta da casa, falando sozinho, e com a roupa manchada de vermelho. Medrosa, perguntou o que houve, ao que o senhor Marteli disse que estava tudo acabado, não ouvia mais os cristais se partindo. Dona Julia perguntou pela senhora Marteli. Com o olhar vidrado num ponto além dela, o que fez com que por duas vezes, olhasse para traz, respondeu que a senhora Marteli agora estava dormindo, que não fizesse barulho para não acordá-la. A porta estava meio aberta, portanto Dona Julia ao divisar o olhar pela porta reparou que a senhora Marteli estava caída no meio da sala.  Não ligando para o homem sentado à porta, entrou sendo seguida por ele que não parava de dizer que os cristais não estavam mais se quebrando e, que a senhora Marteli não iria mais falar como gostava, ela estava dormindo. Pronunciava o dormindo num sussurro que mal dava para ouvir.

Os policiais não tiveram muito trabalho, ao chegarem encontraram o senhor Marteli conversando com a Dona Julia como se nada tivesse acontecido. Explicava como os cristais deixaram de vibrar em sua mente. Agora há uma paz silenciosa, disse ao policial que cruzou os braços dele atrás das costas para algemá-lo. Dona Julia não deixou, disse que não precisava, apesar de tudo era um homem calmo, não oferecia perigo. O policial olhou para o seu superior concordando com Dona Julia.

O senhor Marteli, condenado há doze anos, passou a vida toda e, também disseram que no tribunal quando foi a julgamento, não parava de falar nos tais cristais e de como tinha se livrado dele. Dizia que tinha deixado à senhora Marteli dormir, para não ouvir mais sua voz que causavam a vibração dos cristais em sua cabeça.

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Jean Carlos.


Jean Carlos de tesoura em punho pôs-se em prestativa arrogância a cortar os papéis vermelhos em pequenos quadrados perfilando-os, de dez em dez a sua frente.  O corte da tesoura, meio cega, proporcionava aos lábios que, de vez em quando, expressasse um sonoro, puta que pariu ao ver o papel mastigado. A intimidade que ele tinha com a tesoura era zero. Tesoura é coisa de mulher, dizia. No entanto, por motivo alheio, cortava os papéis quadrados amontoando-os de dez em dez. Em seu íntimo achava aquilo um castigo, penalidade que não sabia qual e por que.  Silenciosos os olhos verdes claros, deslizaram longamente em torno de si para constatar que estava sozinho. Cortou os papéis vermelhos, eram os últimos, separando-os dos outros.

Jean Carlos depositou a tesoura em cima da mesa. Olhou os papéis cuidadosamente cortados e, amontoados em pilhas de dez em dez. Marcava o relógio a sua frente, onze horas e trinta minutos. O que deveria fazer agora?

Jean Carlos num impulso repentino, com a tesoura, rasgou a barriga profundamente. Quando o acharam, o corpo boiava numa enorme poça de sangue. Dos seus lábios exíguos, o sorriso se expandia na alegria da morte. Foi decretado luto oficial por cinco dias em sua cidade natal.
Jean Carlos anunciou o destino de cada um que prantearam na quietude das velas acesas. Na rua o vento carregava as últimas folhas de papel vermelho que ainda faltavam para serem cortados.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Pássaro noturno.


“Você me abre seus braços e a gente faz um país”, a voz rouca de Marina, audaciosa sensualidade de mulher liberal, soava nos cantos da sala causando sonolência. Esticou os braços para cima até sentir os músculos estendidos quase rasgando a pele. Os ombros reagiram, os nervos gritaram na dor do cansaço, a pele esticada mostrou a falta de movimento. Num repente, levantou-se e desligou o som, apagou a voz chata da cantora, se anestesiou no silêncio dos espaços.

Abrirei meus braços, voarei para todos os países que eu quiser, disse se aproximando da janela. No rosto o calor frio da manhã apagou o desassossego que o acompanhava desde o instante em que colocou os pés fora da cama. Nem o café quente, sempre reconfortante, deixara-o satisfeito. Em pequenos goles sorveu o liquido preto, a quentura escorreu para dentro do organismo indiferente ao que fazia.

Carros, buzinas, gritos, sirenes chegavam ao décimo andar abafado, uma sonoridade de desgaste revelando a agonia da humanidade. Escancarou a janela e recebeu os sons em seu ouvido, ampliando dessa maneira a capacidade de ouvir o silêncio vibrando em seus pedaços de vida.

Longo tempo ficou extático, braços abertos prontos para alçar voo, recebendo todo tipo de som que ricocheteava na pele perfurando seu sentimento musical. Firme, fixo e forte com os olhos extáticos na vivência daqueles instantes, soltou-se na profundeza da noite. Aproveitou a corrente de ar quente, se envolveu e deixou-se levar distante de onde estava.

Como se o remorso o espetasse, ou a angustia de ter se deixado para traz, ou mesmo, o que não queria admitir, a saudade de ser o que era antigamente, olhou por cima do ombro enquanto o vento desalinhava seus cabelos pretos. E entre os fios do cabelo, viu-se morto, em pé, com os braços abertos, a espera de algo, a espera de alguma coisa que já chegara e que não viu e, não vendo, como estátua ficou preso ao seu tempo para o resto da vida.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O cigarro.

         Para todos os fumantes, amigos e inimigos.



Acendeu o cigarro. A fumaça espiralou a cinzenta opacidade da baforada no ar levando-o a pensar até onde chegara. Tinha chegado a aquela decisão não fora por culpa dele, muito menos por algo que fizera. Reconheceu-se introspectivo até beirando o perigo de se engolfar numa sombria e soturna solidão. Mas não se importava. Olhando a fumaça do cigarro mal apagado no cinzeiro, achava até que desejava a solidão, se fosse menos sombria quem sabe. Teria mais chance de vencer? Seria isso, e involuntariamente acendeu outro cigarro. Era o último do maço. Com cuidado, desamassou as partes amassadas, deixou-o bem certinho, depois com cuidado colocou em cima da pilha que estava no canto da sala. A pilha já estava quase na metade da parede. O que tinha de tão importante naqueles maços vazios e empilhados naquele canto? É, o que tinha? É minha coleção, ou será que ninguém teve uma coleção? Uns tem coleção de cachorros, pedras, chaveiros, conchas, namoradas, e quinquilharias diversas. Ele tem de maço de cigarros vazias. O que é que tem isso? Alguém poderá dizer que é anormal. Pouco estou me lixando. O importante é fazer minha coleção. Apagou o cigarro jogando no lixo já abarrotado de pitucas.
Na cozinha, bebeu café gelado. Procurou nos bolsos, não encontrou o maço. Precisou ir à sala. Retirou um cigarro e enfiou o maço no bolso. Voltou para a cozinha servindo-se novamente de café gelado. Pensou em fazer algo para comer. Chegou à conclusão que não estava com fome, portanto não tinha necessidade de preparar comida, apesar do relógio de parede marcar onze horas e quarenta minutos. Introduziu o cigarro entre os lábios e puxou mais uma tragada. O peito se inflou de ar acinzentado satisfazendo o vício. Foi tomado por uma excitação um pouco descontrolada. Não precisaria de subterfúgios para se saciar.
Saiu para o corredor silencioso do prédio. Desceu até o térreo. Passou pelas áreas de lazer e pelas salas de festas. Ela não estava ali. Encontrou-a varrendo a área perto do deposito de produtos de limpeza. Sem dizer nada, pegou-a pela mão e arrastou para dentro do depósito fechando a porta. Uma hora depois, saia de lá, com pose imponente, dizendo nos gestos e andar: é assim que sacio minha sede, não preciso de outras artimanhas, não sou fraco.
 Quando pressionou o botão do elevador, sentiu-se esquisito. Uma comichão na ponta do dedo, como se estivesse se esfumaçando. À medida que chegava ao seu andar, a sensação parecia aumentar. Deu de ombros. Inalou um forte cheiro de fumaça ao fechar a porta atrás de si. Não percebeu, ao largar o chaveiro em cima da mesa que, ao entrar em contato com a madeira, o chaveiro se desfez em fumaça. Foi então que decidiu fazer algo porque achou que estava com fome. Preparou um suculento lanche com tudo o que era de direito. Mas ao colocar o delicioso e gordo lanche na boca, se sobressaltou. Tinha gosto de fumaça de cigarro. Tossiu como se acabara de dar uma longa tragada. A boca era só fumaça. Soltou o lanche que ao bater no chão se desfez em fumaça também. Assustado encostou-se a pia, mas ao contato com seu corpo, a pia também entrou em processo de transformação. Horrorizado presenciou um a um dos móveis e objetos do apartamento se desmanchando. E quando faltava apenas ele, não deu tempo nem de correr para a porta. Foi tragado pela impiedosa transformação.  No meio da sala, ficou uma bola espessa de fumaça preta, compacta, flutuando, parecia que procurava uma saída. Quando por fim, num surdo estouro a bola compacta preta e espessa, explodiu lançando seu odor para todos os cantos do apartamento.
Um ano depois, saia do elevador um senhor, baixo, careca, de óculos, falando com o rapaz que o seguia.

- Vou te mostrar esse apartamento porque você disse estar necessitando bastante. Como não consigo alugá-lo, prometi que o deixaria fechado para sempre. Quem morava nele era um jovem como você, se dizia escritor. Antipático, introspectivo, falava pouco, quase ninguém o conhecia, egocêntrico, nada sociável, vivia a maior parte do dia trancado. Por sorte, era bom pagador, nunca atrasou o aluguel. Todos os meses era batata, não faltava. Chegava o dia, tava ele lá batendo na minha porta com o dinheiro do mês. Não sei o que houve, aliás, ninguém sabe, contei para todos e ninguém entende como aconteceu. Morava quase um ano, quando um dia o cara se escafedeu. É. Sumiu, desapareceu. O cara levou tudo. O engraçado é que ninguém viu nada, nem caminhão, nem ninguém descendo as escadas, a pergunta ficou no ar: como é que ele fez a mudança? Então, ficou só esse cheiro insuportável de fumaça de cigarro. Está sentindo? O apartamento é esse, não vou forçá-lo a alugar. Eu sei. E pense que eu fiz o que? Pintei, mandei raspar as paredes, o assoalho o teto, até ficarem só tijolos, foi passado uma tinta impermeabilizante, mas sabe o que aconteceu? O apartamento ficou cheirando a novo um dia só, no outro dia estava novamente com esse cheiro horrível de fumaça de cigarro. Não entendo. Não vai ficar com ele, não é. Já sabia. Não, não tem que se desculpar, entendo. Parece àquela história que virou filme, como é o nome mesmo? Ah! Isso mesmo, 1408, só que aqui é apartamento e não quarto de hotel, não é.  Entendo, não vai querer alugar, não é? Você não é o primeiro e nem será o último. Acho que vou precisar vender, ou derrubar o prédio e erguer outro. Acho que só assim eliminarei esse forte cheiro de fumaça de cigarro.
Fechou a porta e entrou no elevador sem ver que uma pequena nuvem de fumaça cinzenta saia por baixo da porta.

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Sola.


Andava com precisão matemática. Não podia mexer rapidamente um pé após o outro. Avançava um, esperava um pouco, quando sentia que o pé estivesse calcando a sola e esta a calçada, aí sim, procurava mudar o outro. Estava indo milímetro por milímetro. Seus dedos meio longos, toda vez em que ela erguia o pé, se fechavam na borda da sola para que esta subisse junto e não precisasse arrastar o pé. Trabalhoso, concordava. Além do que atrapalhava o vai e vem das pessoas, quase todas apressadas da vida. Já fora uma mulher apressada, agora não era mais. Preferia andar na monotonia lenta dos passos do que andar na monotonia dos passos na rapidez assassina. Ainda bem que podia ter aquela sola dada por seu pai. Ele lhe dissera:

- O que você prefere: o cano da bota ou a sola.

Ao que ela respondeu prontamente:

- A sola.

Preferiu a sola por ser grossa, duraria mais que o cano. Não podia reclamar. Escolhera dessa maneira.

- Que tal o senhor me dar meia bota? A outra metade eu compro, perguntou.
Prontamente aceitou, e no mesmo instante lançou a pergunta, que provavelmente ela não esperava.

- Já que vou dar meia bota, dou a sola, está bem?

Surpresa, pois pensou que ele iria abster-se como sempre fazia, aceitou. Apenas não contava com os imprevistos financeiros. Motivos corriqueiros, nada importantes, mas que não podia desfalcar o controle da conta corrente que vinha a muito periclitante. Tinha que guardar alguns trocados, não muito, o apartamento estava quase pronto, os arranjos do casamento em franco andamento, se viu privada da meia bota. Não se importou. Amarrou a sola ao seu pé e contente, como o rei nu, viveu nessa opulência até o dia que conseguiu comprar a outra metade da bota.
Aí, sim, gritou aos quatro cantos:

- Agora tenho tudo, sou rica, e, principalmente, sou feliz.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...