terça-feira, 31 de outubro de 2023

Pequenas histórias 47

 Sons 

 
Sons invadem o silêncio da voz muda ao dizer palavras inquietas. Sons, porque existem sons que se alojam onde menos se espera? Por que invade o campo das angústias, dos medos, das ansiedades, da espera que tenho de esperar sempre? Vivo na espera. Esta espera amaldiçoada a conduzir meus passos, minhas aflições no desejo de que tudo seja positivo, que nada saia ao contrário. Espera de relógio mal calculada as horas. Este não gostar que fiquem à minha espera acabo na espera do atrasado.
Meio dia e cinquenta minutos. Meio dia cuja temperatura sobe no despropósito de amolecer o corpo empanturrado de guloseimas sem a discrepância de se estar comendo o correto. Meio dia onde o fraco sol se impõe conduzindo o dia para um cinzento ameno bonito. Nem todos gostam da pedra ao molho pardo, mas garanto que todos gostam de serem bem alimentados. Nem todos gostam do supérfluo que dizem existir nas obras surrealistas. Não sei. O surrealismo deflagra o inconsciente sobrepujando o consciente metafísico em cores místicas, dando corpo ao abstrato.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Pequenas histórias 48

Dia vinte e um

 
Dia vinte e um de dezembro de dois mil e sete. O que esta data representa? Representa que faltam quatro dias para o Natal e três para a véspera, pois o que vale nesta festa religiosa católica falida é a véspera, poucos se importam com o dia propriamente dito, cujo valor religioso catolicamente falando, determinou-se o nascimento do maior anárquico da história: Jesus Cristo. Um revolucionário verdadeiro, o único que conseguiu mudar realmente o mundo, um mundo dominado por deuses e mais deuses, proclamando o amor à vida, a humanidade, ao oprimido. Um revolucionário de carne e osso, sem a áurea religiosa que lhe impuseram um revolucionário que se antecipou um século ao tempo em que vivia e, que os poderosos sentindo-se em perigo, crucificaram propagando o misticismo fanático matando e pilhando em nome das cruzadas, em nome da inquisição colocando na fogueira os "perigosos" que ameaçavam suas propriedades ricas e grandiosas. E assim, dominaram e, ainda dominam se enriquecendo cada dia mais, os mentalmente fracos que se subjugam aos rituais fúteis onde se vê é a opulência e a luxuria ao dinheiro e conforto e parafernália preconceituosa e moralista.
Que a força esteja com vocês, à força do amor, não só a carnal, mas a força do amor fraterno, o amor igualitário, o amor humanitário, que o amor seja a principal quesito em 2008.

domingo, 29 de outubro de 2023

Pequenas histórias 49

 Dia vinte e seis

 
Dia vinte e seis de dezembro de dois mil e sete. Escorre pelos poros aviltados por causa do calor, a preguiça que se estende nesses três últimos dias do ano. Três dias perdidos em desespero macerado na retraída feição, onde o desejo é evidente para que o término desses dias seja rápido e, dessa prisão necessária de individualistas egoístas, possamos sair, mesmo que por pouco tempo. Os gestos repetidos pesam nos braços fracos para a luta de mais um ano que se imagina diferente. Na beleza da manhã, aparentemente nada muda, quem tem responsabilidade nada faz, os que têm pouca responsabilidade nada representam, trabalham mais, o rico continua rico e, o pobre é cada vez mais pobre. Choram os perdidos em suas buscas infrutíferas, e choram os que não estão perdidos encontrando em falsas religiões o consolo de suas perdas. Sorri o ignorante satisfeito de mais uma conquista vã e, alegre, o humilde, tímido, se fecha em si a oportunidade que poderia mudar sua vida. Os que se julgam não amados casam e, o que se julgam amados se separam.
É a vida em seu ciclo ininterrupto e metafórico elevando e levando tudo num prisma fosco. Os capacitados veem a luz através do prisma, mas poucos terão a chance de realizar os sonhos ou, mesmo, mudar alguma coisa. Não existem heróis nesta modernidade capitalista. Há apenas destrutivos engajados em beneficio próprio. Molenga a burguesia se confraterniza em volta de mesas soberbamente recheadas de guloseimas, enquanto a burguesia das esquinas deita-se em suas guloseimas de sonhos e esperanças. Uma vez ou outra a chama da inquisição do nada ter o que fazer se eleva de um corpo maltrapilho ou, ainda, apedreja a pobre Madalena diarista sem saber o motivo do apedrejamento.
É o mundo ricaço enfrentando o mundo pobre que procura seu sol para se aquecer nos momentos de folga apenas, sem querer incomodar ninguém.
E na parede fica a marca da folhinha do ano anterior.

sábado, 28 de outubro de 2023

Pequenas histórias 50

 O que ele poderia

 
 
O que ele poderia dizer quando ela jogou o cartão a sua frente, em cima da mesa do computador e, meio ríspida, até autoritária disse:
- Anote o número desse cartão.
Realmente ele não disse nada, apenas olhou para o cartão, depois para ela, respondendo:
- Está pensando que sou seu secretário?
Ela não ouviu. Ultrapassava a porta ao se dirigir para a cozinha. Ele, realmente não disse nada. Estava escrevendo, quando ela entrou na sala com o cartão. Não dera atenção a ela. Só foi notar sua presença quando o cartão encobriu seu campo de visão. Não disse nada naquele momento e também não dissera nada no dia seguinte. E deveria dizer alguma coisa? Perguntou-se pressionando as teclas. Além do que não podia desviar os olhos da tela. Não podia deixar a imaginação escapulir assim, sem mais nem menos, tudo por causa de uma merda de um cartão. Tinha urgência em terminar a crônica. Não estava saindo uma das melhores, mas era necessário terminá-la. E voltando a atenção ao que escrevia, rapidamente esqueceu cartão, ela e tudo o mais.
Concentrou-se na tela do monitor e deixou os dedos livremente percorrerem as letras do teclado. Sentia as filigranas de cada letra com o seu potencial iconográfico. Sorriu. Não conseguia entender como alguém, nesse caso esse alguém era ela, não entendia que precisava estar só com ele mesmo. Se essa amálgama não funcionasse, ele como cronista, seria um zero a esquerda do sistema, seria um Zé ninguém, um Zé mesmo com minúscula. E, ela talvez numa premeditação se interpôs entre seus pensamentos e a materialização da merda do cartão tolhendo seus olhos.
Rilhou os dentes com força. Não deixaria esse pequeno detalhe interromper o trabalho. Levantou-se, empurrou a cadeira que bateu na estante com violência provocando a queda de um livro. Numa linha reta, o grosso volume, bateu em sua cabeça, resvalou na mesa e despencou no chão com suas páginas abertas. Meio atordoado chutou o livro que deslizou pelo assoalho se acomodando no canto da sala.
Assim que os atos se acomodaram, sentiu-se perturbado e, entendeu, por não ter o que dizer sua vida naquele instante, a partir daquele instante não teria convicção de continuar. Desligou o computador. Caminhando na lentidão da tarde onde o sol se punha, deixando o céu amarelo, pegou o livro e colocou em seu devido lugar. Antes de sair, fechar a porta olhou para o horizonte que já não apresentava o amarelado e, concretizou mais uma vez a vida inútil que vivia. Fechou a porta e deixou ficar na vida que o envolvia.

sexta-feira, 27 de outubro de 2023

Pequenas histórias 51

 Pequenas histórias 51

  

Deric toda vez que se olhava no espelho, perguntava:
- Onde meus pais foram arrumar esse nome da porra?
Não tivera tempo de perguntar, pois aos cinco anos ficara órfão. Morreram num acidente, Deric saiu ileso. Ficou pouco tempo no juizado de menores, até que um dia, surgiu um homem, localizado pela polícia, dizendo ser seu parente e, por ele foi adotado. Alberto e Marta Ramus, não tendo filhos, criaram ele com certo carinho não escondendo nada do menino. Deric passou a chamá-los de pai simplesmente porque achou que devia chamá-los assim. Mas quando alcançou a maioridade, o tratamento carinhoso lhe pareceu grosseiro, eles não eram seus pais, eram parentes distantes, portanto não via justificação nenhuma para tratá-los como tal. Marta e Alberto Ramus também, apesar de todo o carinho que tinha por ele, não via o do porque continuar a chamá-los de pai. E quando Deric decidiu sair de casa, não foram contra, aceitaram sua decisão, apenas fizeram um pedido e queriam que fosse atendido: que pelo menos uma vez por ano Deric fosse visitá-los podia ser no Natal ou no Ano Novo. E todo o ano Deric percorria os cento e setenta e cinco quilômetros para visitá-los.
Já fazia dez anos e, todos os anos, dizia a si mesmo que seria o último. No entanto, sem saber o motivo, cumpria o prometido. Não conseguia se desvincular da promessa. Olhando os canaviais ao longo da rodovia, mais uma vez disse a si mesmo que aquele seria o último ano. Percebia em suas palavras, a fragilidade da ação. O que lhe fazia se sentir fraco, o que fazia com que desejasse que alguma coisa acontecesse e esse ritual absurdo fosse interrompido. Queria que algo acontecesse ao invés dele romper e declarar aos pais sua decisão. Não tinha carinho nenhum e não desejava nada de mal a eles, o que não compreendia era sua fraqueza em colocar em ação o seu desejo. Deveria a tempos ter-se desligado dessa família que não era sua. E nem ele era deles. Será que não percebiam isso? Alberto e Marta Ramus percebiam sim, e tanto é que fizeram um acordo para que esse ano fosse o último. Deixariam finalmente, Deric livre deles.
Quando o táxi parou em frente à casa de Marta e Alberto Ramus, notou um silêncio penetrando como espada sem sentir dor nenhuma. Eles não estavam, como nos anos anteriores, esperando-o para as boas vindas. Deric pagou o táxi, percorreu o pequeno gramado, subiu os poucos degraus e entrou na casa.
Deric não entendia onde estava o absurdo no que fizera. Como relatou aos policiais que, depois de vinte dias, o prendera em sua casa a cento e sessenta e cinco quilômetros de distância, que fizera o que lhe pediram.
Só assim estariam livres tanto dele, como ele livre dos seus supostos pais.
- Mas eram seus pais adotivos. – disse numa voz sem acreditar no que ouvia o advogado de acusação.
Como Deric confessou o crime, relatando que matara os pais porque prometera a eles, o julgamento não foi longo, até rápido demais, o que nada surpreendeu o juiz.
- Por que matou os seus pais? – perguntou o advogado de acusação.
- Ora! Já disse várias vezes. Eles pediram, queriam morrer para ficarem livres de mim...
- E você deles.
- Isso mesmo.
- Você não está com remorso?
- Por que remorso? Não, não estou.
- Não está?
- Não estou. E deveria? Por quê?
- Ora, porque – quase gritou o advogado – o que vocês fez foi absurdo, atroz, assassinou a sangue frio dois velhinhos...
- Não, não assassinei ninguém.
- Como?
- Apenas contribui para um ato que eles não tinham coragem de praticar. Isso não é assassinato.
- Desisto Meritíssimo.
- Por favor, o senhor advogado de defesa deseja interrogá-lo?
- Sim, Meritíssimo.
- Deric, Conte para nós, principalmente para os jurados, o que você me contou.
- Que eles tinham medo?
- Sim, pode contar.
- Bom, como disse para o advogado aqui, eles tinham medo de ficarem sozinhos, isto é, se um deles morresse primeiro, como é que ficaria o outro? Como não tinha parentes nenhum, apenas eu, que não achava justo que fosse morar comigo, pois eu já estava preso a essa absurda promessa.
- Que promessa?
- De visitá-los todos os anos.
- Continue.
- Logicamente se um deles ficasse sozinho, seria posto num asilo e seria esquecido. E eles não queriam isso, se pudessem queriam fazer à última viagem juntos, isto é, queriam morrer juntos, ao mesmo tempo. Então, propuseram para mim, já que eles não tinham coragem e, que assim fazendo, não só eu estaria livre deles como eles estariam livres de mim. Como não achei absurdo nenhum, achei até um ato sublime, concordei. Apliquei uma dose excessiva de morfina e coloquei os dois deitados na cama como queriam. Acho que morreram como queriam.
- Uma coisa que intriga os jurados, e que transmito a você em forma de pergunta: Eles deixaram alguma herança ou você estava no testamento deles?
- Não deixaram nenhuma e eu não estava no testamento, pois que eu saiba não tinham nada de valor e nem dinheiro em banco.
- É só Meritíssimo.
No dia seguinte a mídia alardeava aos quatro cantos do país:
Jovem matador de velhinhos foi condenado por quatro votos a três. Sua sentença foi de cinco anos de prisão em regime fechado. Durante o julgamento, Deric, o assassino, demonstrava indiferença, como se não estivesse sendo julgado. Perguntando por um repórter o do porque de sua indiferença, respondeu:
- Já sei qual vai ser o veredicto. Portanto não vejo nenhum motivo para me preocupar.
- E qual vai ser o veredicto?
- Vou ser sentenciado a alguns anos de prisão.
- Mas me responda uma coisa.
- Pode perguntar.
- Você disse que matando os velhinhos...
- Velhinhos não, por favor, Alberto e Marta, eles tinham nome.
- Desculpe você disse que matando seus pais, você estaria livre deles.
- Sim, foi o que disse.
- E, no entanto vai ser preso, e onde fica essa sua liberdade?
- Ah! Entendo. Fiquei livre de um problema, e caio em outra prisão.
- Sim?
- A vida é feita de vários problemas, resolvi um, agora preciso resolver o outro. A gente se livra de um e cai em outro. Se não houvesse isso, a vida seria chata, não acha?
Deric colocou ponto final na frase. Pegou o calhamaço de papel, arrumou direitinho e enfiou num envelope pardo. Lacrou e chegando perto das grades, chamou o guarda.
- Por favor, pode despachar esse envelope para editora? Obrigado.
Assim que o guarda saiu, Deric deitou no catre e fechou os olhos.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Perco-me

 

 e me encontro ao sorrir do sol estampando o mundo dentro do brilho em meu quarto.

Encontro-me e me perco ao sentir no vento o beijo de lábios ausentes rasgando a saudade em pequenos pedaços de nostalgia.

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

PIC

 

Por Carlos Savasini
       Gabriela Cuzzuol
       Luciana do Valle
       Osvaldo Pastoreli
       Safira Conovalov
 
Meu paladar engrandece
Minha alma agradece
Companhia de amigos sob as árvores
Acalento para meu ser
Tormento para o meu vaso sanitário
Otária é como não sou agora.
 
Sinto-me música
Entre as árvores quietas
Que observam a poesia
Do corpo - alimento vivo.
 
O tempo parou
O corpo se alimentou
A natureza nos observou
E a alma silenciou.
 
A vista brilha enternecida
Baixa estrela do céu à mesa
Encanta-nos sob a luz do sol
Gira como luz ininteligível.
 
Sinto-me justificada
Bem assim, compreensível
Mesa, amigos, arte amada.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

PONTO P

Por Carlos Savasini

       Gabriela Cuzzuol
       Luciana do Valle
       Osvaldo Pastoreli
 
 
Alma macho
Espírito fêmea
Entendimento macho - fêmea
Discípare átomo
Alma macho
Desejo de mudança
Coração plácido
No dançar das cadeiras
A mulher cadeirada
Faz perder a razão, floresce o tesão
E faz do homem
Alguém sem razão.
 
Busca macho - fêmea
Viver entre amor e paixão
E o desejo em sobreviver
Uma eterna paixão.
 
Orgasmo multi - étnico
Prazer bi - sexual
Vida multi - plural
Alma bígama
Macho - fêmea
Vinho - comida - arte - agressiva
Encontro de missão obsessiva
Fantasia etino - virtual
Arte heterossexual
Pão que semeia
Farinha que põe o pó no ponto G
Germina a poesia
E a poesia no ponto P de
Perversa.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Poupa Tempo.

 Descendo na estação do metrô Itaquera, final da linha, notou que cada estação tinha a sua característica arquitetônica diferente uma da outra. Não havia um padrão de beleza, de estética que pudesse ser notado. Claro que onde as estações foram construídas, talvez não pudesse ser levado em conta um padrão, mas ele achava que deveria, principalmente na Paulista, onde cada saída do metrô era diferente uma da outra. Ali pelo menos deveria ter uma padronização pelo menos na arquitetura das saídas do metrô.

Abrangeu os olhos pela longa plataforma procurando a saída. Seguindo o fluxo foi sair no terminal de ônibus emaranhado num vai e vem de pessoas, de bancas de camelôs, ônibus e micro ônibus chegando e saindo como um formigueiro aparentemente desnorteado, parecendo que ninguém sabia para onde ir. Não deu muita importância, olhou a placa indicativa: Poupa Tempo e se dirigiu para lá.

Uma coisa que ele dava relevante importância foi à criação do Poupa Tempo. Foi criado vários postos em determinados pontos da cidade onde se podia tirar os documentos rapidamente, o máximo que se poderia esperar às vezes era de um dia e, não como antigamente que levava mais de um mês para se tirar um documente através do despachante. Isto é, se pagava para o despachante levar os papéis necessários à delegacia emitir os documentos. Hoje não, indo no Poupa Tempo você poupa tempo mesmo, claro que às vezes se perde um dia inteiro, mas você saia com os documentos prontos.

Perguntou no balcão de informações onde poderia tirar o documento que precisava. Foi lhe indicado uma fila.

- Pois não?

- Preciso tirar a segunda via do RG.

- Trouxe a certidão de casamento, uma copia da certidão e foto três por quatro.

- Estão aqui.

- Porque quer tirar a segunda via?

- Perdi minha carteira com todos os documentos.

- Sabe o número do seu RG?

- Não.

 -Não sabe de cor?

- Não.

- Vou precisar saber senão não tem como consultar no sistema e emitir a segunda via.

- E agora como faço.

- Não tem algum documento que possa ter o número do RG?

- Não.

- Então vai à mesa 54, fale com a moça.

- Esta bem.

Quase no final da comprida seqüência de mesas achou a 54.

- Pois não senhor?

- Preciso tirar a segunda via do RG e não lembro o número.

- Quando foi imitido.

- Ah! Foi em 68.

- Nossa! Faz tempo. Preciso saber o número, pois sendo antigo ele não consta no sistema. Preciso saber para que não seja emitido RG com números iguais.

- De qualquer jeito tenho que lembrar o número do meu RG?

- Sim. Em algum documento seu deve ter o número, em alguma transação de compra de carro, de móveis.

- Está bem, vou ver e já volto.

Sentou no banco de madeira. Ligou para casa.

- Alô? Isabel?

- Sim

- Por favor, veja em algum documento meu se você acha o número do meu RG que não sei de cor. Assim que você achar me liga.

Esperou pelo menos uns trinta minutos.

- Olha achei aqui num documento do PIS onde tem o CIC também.

- Diga

Ele anotou e foi falar com a mulher da mesa 54.

- Pronto. Aqui está.

- Um minuto que já volto.

Esperou mais uns dez minutos.

- É esse mesmo.

- Obrigado.

- De nada.

Voltou lá com o rapaz.

- Pronto aqui está o número.

- Você tem condição de pagar a taxa?

- Tenho.

- Então com esse papel pague a taxa na Caixa no outro lado.

Ficou na fila da Caixa mais uns quinze minutos. Pagou e voltou.

- Agora com essa senha você vai para aquele lado onde começa a seqüência de mesas e espere para ser chamado.

- Está bem.

Olhou a senha: 1184. E na placa luminosa ainda estava sendo chamado o número 1120.

- Caramba! Vai demorar, tudo bem, vou esperar, aliás, tenho que esperar.

Sentou num dos últimos bancos. Durante mais de uma hora ficou observando as pessoas indo e vindo. Como tinha gente para tirar segunda via de documento! E como tinha gente atrapalhada. Não há como errar, as placas indicativas estão ali para que as pessoas não fiquem perdidas, mesmo assim, havia muitas que não sabiam o que fazer. Por fim, sua vez chegou. Entregou os papéis, deu o seu nome, o endereço, assinou onde deveria assinar.

- Agora você espera para o rapaz ali pegar suas impressões digitais.

Esperou mais uns dez minutos. O rapaz sujou seus dedos, imprimiu um a um no documento e, entregou o protocolo para a retirada do documento.

- Amanhã depois das quatorze horas pode vir retirar, está bem?

- Está bem, obrigado.

Depois de quase três horas é que estava saindo do Poupa Tempo e pegando o metrô de volta.

domingo, 22 de outubro de 2023

Pressionadas as teclas

  
Pressionadas as teclas, o piano lança sonoridades vazias de você que não ouve a música arrebentando os poros da razão.
Cada som ou, cada nota, concretiza o sorriso que não é para mim talvez, por não saber que a folha úmida dá mais prazer do que a chuva que molha intensamente.
Sonoridades espalhadas ao longo do dia que, ora rejubila nosso animo ora cria-se uma névoa de incompreensão que, talvez nunca seja dissipada.
Mesmo assim, o dia segue seu curso onde, a nossa história se faz presente cada vez que cruzamos a linha do imaginável, acreditando no real.
Assim vamos, cada um no seu destino, pisando as pedras do calçamento da paixão na esperança de cruzarmos a próxima esquina da nossa vida.

sábado, 21 de outubro de 2023

PROCELAS

 

Por Carlos Savasini
       Osvaldo Pastorelli
 
 
Escolhido o tema
Não me venha com novenas
Nem sequer com novelas
Venha-me com diálogos
Sem churumelas
E que sejam para ela
 
Não me venha com chuleta
Com chupetas, churros, mamadeiras
Se não te mando pras procelas
Onde afogarei nas águas salgadas
A saudade dela

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Procuro no vazio das ruas

 onde, a palavra saudade, me faz sangrar gota a gota o mistério da vida sem me revelar à essência precisa e necessária para continuar pela estrada esburacada enquanto, o hoje, me fere suavemente embriagado de insensatez e imbecilidade.


quarta-feira, 18 de outubro de 2023

Quando o brilho da tarde

 Esconde-se no infinito

Há um tempo onde

As brincadeiras tinham quintal

Havia um tempo de dúvidas

E angústias ao pensar no futuro

Um tempo de retratos procurando

Faces conhecidas

Rostos amigos

E falas que não ouvimos mais

É um tempo

Que não se consegue

Reproduzir com pequenas palavras

Apenas sentir

O tempo que se foi

Ao cair de uma lágrima

Pequena na rosa vermelha

Da saudade

terça-feira, 17 de outubro de 2023

queria lhe dizer

 dos seus olhos profundos que brilham mais que o sol que me aquece e no entanto, eles não são dirigidos a mim

queria lhe dizer dos teus lábios carnudos e vermelhos que formam tua boca sensual e provocante e no entanto, nunca me disse nada além de um bom dia
queria lhe dizer do teu sorriso que, espontâneo, beija a face da vida como a onda beija a areia da praia e no entanto, teu sorriso nunca saciou minha sede 
queria lhe dizer das tuas mãos que devem afagar carinhosamente como a lua afaga a pele da terra e no entanto, vejo-as se degradando pela sobrevivência
queria lhe dizer dos teus cabelos morenos, revoltos ao sabor do vento afagando-os delicadamente e no entanto, vejo-os cada vez mais distante das minhas mãos
queria lhe dizer tudo o que há no mundo que nos rodeia e no entanto, fico mudo diante da beleza do mundo que há em você

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Quero minha casa

 No silêncio da vida

Onde as cicatrizes

É o dolorido quadro

Dos que foram

E não voltam mais

 

Quero minha casa

Na certeza de ser ela

A paz do tamanho

Do coração dos amigos

 

Quero minha casa

No silêncio musical

Onde minha mão

Escorre carinho

Ao filho que transcende

O próprio futuro almejado

 

Quero minha casa

Cheia de livros e discos

Onde possa receber os amigos

Para uma cervejada

E nada mais

domingo, 15 de outubro de 2023

quero por quero

 a vida que eu quero

não é a vida que eu quero

a vida no querer a vida

que eu quero nunca será

a vida que eu quero

no entanto vivo a vida

que eu tenho no querer

a vida que eu quero

sábado, 14 de outubro de 2023

recordo nossas conversas

 

no trajeto do metrô

 

labirinto de falas

sobrevoando cabeças

braços corpos

 

sinto ainda

o farfalhar contínuo

de nós dois

 

no teu ouvido

ouço minha voz

sussurrando frases

de desejos

ousados e tímidos

 

queria mudez

das palavras

impressas em tua

pele nua

 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

São Paulo é...

 

São Paulo é ruas, avenidas, viadutos,

carros, praças, e marginais

 

São Paulo vibra meros transeuntes

humores cerebrais

e crateras descomunais

 

São Paulo antigo, novo, ancestrais

roda de samba, samba da vela

belezas arquitetônicas atuais

convivem com poesia

arte e carnavais

 

São Paulo poético de becos, favelas

fome nos semáforos

malabarismos da vida

espremida, sofrida

assassinada sexualmente

no dia a dia

 

São Paulo de prostitutas

com seus carinhos baratos

nos escuros dos motéis

nos quartos imundos da alma

 

São Paulo de igrejas mil

católicas, ortodoxo, terreiro

budista, renascer, anjos de Deus

e seitas financeiras

 

São Paulo sou eu

é você, somos nós

edifícios humanos

emoldurados no cinza

concreto frio e tremendamente

belo

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

se há um poeta em mim

 a primavera nunca me disse

 

pelo orvalho dos campos

corri minha meninice

 

cheio de anseios pela vida afora

corando quem pra mim sorrisse

 

num florir da juventude

enternecido pela mocidade

 

cresci no tédio de só ter tédio

depois que me conheci

 

assim o quadro da minha vida

ficou prisioneiro na moldura

 

do flash criando

a inércia do meu perfil

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

sentiu a brisa

 das nuvens num cálido aroma adocicado

envolveu-se protegendo a alma da friagem escura da tempestade que se 
anunciava
adormeceu abraçado ao corpo como feto esperando a hora do nascimento
sorriu
sabia do seu destino e preparado estava para enfrentá-lo
mesmo assim se resguardou dos imprevistos
resguardou-se como o guerreiro sabedor do que encontraria
armou-se condignamente sentindo as fibras pulsantes conduzindo seus atos
de lance em lance recolhia uma parte como ensinamento para que pudesse 
enfrentar o desconhecido
para que tivesse forças o suficiente a enfrentar o perigo
porém
ao estar cara a cara com o desconhecido perigo
suas pernas tremeram
seu coração gelou
suas mãos vacilaram
sua boca gaguejou desconexas palavras
o suor escorria da testa como cascata 
temeu o perigo pronto a abocanhá-lo
ouviu o rugido do tigre a espreita
e
reconheceu 
ainda não estava pronto
para o verdadeiro amor

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Silenciosos passos

  abafam vozes entrecortadas entre os prédios da Rua Augusta.

 

Sorrisos líquidos sorvem-se nos corpos sensuais contando bravatas pela simples constatação de sua existência.

 

A sirene do carro de bombeiro trinca o asfalto da pele em ondas de preocupações.

 

Sorvo a beleza da saudade revendo em bocas alheias o sorriso dos teus beijos.

 

Bebo a última gota do sentimento sabendo-me querido.

 

Pago a conta e saio enfrentando a multidão de solitários.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Somos a sagração dos corpos

  na criação da vida.

Somos a sagração da vida no caos da cidade.

Somos a sagração individual onde cada um cria seu mundo.

Somos a sagração da arte em sua expressão maior.

Somos a sagração das letras trazendo poesia a este mundo conturbado.

Somos a sagração da fome alimentando os famintos.

Somos a sagração da morte o fim para alguns o início para os outros.

Somos a sagração do nirvana que há em cada chama, em cada karma a glorificar o amor.

Somos a sagração do tudo onde o tudo há em cada um de nós.

domingo, 8 de outubro de 2023

Somos a sagração

  nos acordes da música do nosso primeiro encontro.

Somos a fuga e tocata a glorificar o que há de melhor em nos dois: o amor.

sábado, 7 de outubro de 2023

Sorvencia

Gotículas de sentimento escorrem pelas fibras escuras.

Molham ferros e cimentos da humanidade a procura da felicidade sem saber se ela existe ou não.

Frios rostos perdidos se escondem entre garrafas e copos, tendo na face carcomida, a existência vazia ao se encontrarem consigo mesmo.

Fracos solitários caçam companhia pendurados em podres balcões de mármores sorvendo suas agonias geladas nos bares.

Zumbis sonolentos sobem e descem ruas e avenidas, entram e saem dos promocenteres, lojas e shoppings num afã consumista, como tentativa de recuperarem o que perderam em vidas passadas.

Tardios místicos ultrapassados elaboram viagens num intricado itinerário com a finalidade em apaziguar os deuses mortos.

Sorvo da grandeza, pequenos existires desapercebido por afoitos sentires desnorteados.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

sou livre na cidade

 

preso a procura da liberdade

 

preso melancólico pelas ruas cinzentas

enjoado pelo nojo das palavras falsas

 

preso no olhar do relógio da vida

emperrada pela justiça

no tempo ilusório da espera

 

cuja felicidade não alcançada

carrega-me como o rio

corre em cascatas

 

prisioneiro surdo

de olhos fechados

olho estrelas interiores

a renovar a palavra

do próprio vomito

a escorrer no lamaçal fedido

do mundo perdido

 

preso sou ao que sou

preso sou ao que eu queria seria

 

prisioneiro sou paradigma

fundindo o que eu queria ser

com o que sou numa mesma

vida de tédio nojo e ódio

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Sou um homem de dez mil reais.

 É. Sou um homem de mais ou menos dez mil reais. Vejamos: a operação no joelho onde foi colocada uma porca – olha o milagre da medicina: uma porca no meu joelho! - e o parafuso custou uns mil reais. Agora com o aparelho auditivo são cinco mil e oitocentos reais, juntando como os mil do joelho são: seis mil reais. Se eu encarar a operação da coluna vertebral e, talvez se for preciso colocar alguma placa ou algo semelhante, poderá ser mais ou menos mais três ou quatro reais. Juntando tudo, serão quase dez mil reais. É verdade, para chegar aos cinco milhões de dólares que valia o Ciborg, estou longe. Mas posso dizer que sou um homem de dez mil reais.

Há uma diferença bárbara de antes do aparelho auditivo e com o aparelho auditivo. Também posso dizer que sou um homem antes do aparelho e depois do aparelho. Uma Dou razão ao médico, estava escutando bem baixo mesmo. Antes não ouvia o barulho das teclas sendo pressionadas pelos meus dedos agíeis, agora ouço com nitidez. O som, por exemplo, ouvia um som grave, compacto, não distinguia direito os instrumentos, cheguei até pensar que era defeito do aparelho, mexia nas configurações para que o som saísse mais limpo, claro, mas não era o som e, muito menos o aparelho de som, era o meu ouvido. Antes para ouvir nitidamente, colocava o volume no número 40, tanto é que o pessoal vivia reclamando, agora, colocando no número 18 está alto para mim. Posso até dizer que antes não ouvia o farfalhar das asas do pernilongo, agora, não só ouço o farfalhar das asas do pernilongo como ouço até a picada e o sangue sendo sugado. Exagero? Não, não é exagero, é apura realidade poética da necessidade de se ouvir.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

suicidei-me

 

no cordão umbilical

da fome

 

estampei

a angústia

em arte fotográfica

 

criei

o momento extático

da fome que dobra a vida

 

tolhi

os movimentos

do corpo que se entrega

à violência rapina

 

assim

o instante foi registrado

 

fome e vida

alimento e morte

vida que luta

pela sobrevivência

de vida perdida

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

domingo, 1 de outubro de 2023

Teus olhos

 como a sinfonia de Mahler, me trespassam ao som do violino num acorde agudo e vibrátil, ao mesmo tempo, suave e calmo.

 
O brilho do teu olhar me conduz ao compasso da vida, o que reconforta ao saber-te junto a mim. 
 
Confiantes os dedos, tangem as cordas do instrumento harmonizando nossas carnes.
 
A musica me sustenta, me eleva, centralizando-me dentro do teu espaço onde, me renovo a cada pulsação do teu coração ao sentir-me junto a ti.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...