Começar mais um bom dia com: manhã tão bonita
manhã?
Não, claro que
não.
Então começar como?
Mudando a estética do texto, desse bom dia?
Estampando para os leitores a crise de falta de
inspiração, ou melhor, a falta de assunto?
Vejamos o que poderei falar, quer dizer, escrever.
Que a manhã está nublada, cinzenta, que a
temperatura caiu e que, finalmente, para mim desgraçadamente, o inverno se
aproxima?
Que fiquei
três minutos, parado no ponto do ônibus na dúvida se voltava e pegava uma blusa
ou não?
Que o micro ônibus estava vazio?
Que o metrô apesar de cheio não estava abarrotado?
Que tinha um cara a minha direita, gordo, barba por
fazer, de gorro azul, lendo uma biografia de uma iogue, e que, a minha esquerda
estava um magrelo, lendo um livro sobre Excel?
Que depois
desse magrelo tinha uma garota espinhenta, mas simpática?
Que desci na
Sé sem atropelo e sentei-me por uns quatro minutos até que a perna sossegasse
com a sua dor?
Que no Paraíso tinha um cara, esse sim, barbudo,
mas barbudo, não com a barba comprida, mas com a barba cheia de olho em dois
rapazes nisei esbanjando saúde?
Que ao meu lado parou uma gordona, jovem até, mas
gordona mesmo?
Que hoje é
sexta-feira, dia de várias probabilidades de acontecer o inesperado, e que
possa, perhaps, quem sabe o mundo acabe, assim, de repente, num vapt-vupt sem
que possamos dar conta do que está acontecendo?...
É, quem sabe, né!
Muita coisa pode acontecer e, no meio dessa
muita coisa que aconteça o que nem percebemos o que está acontecendo.