domingo, 31 de dezembro de 2023

O vento leva tudo, menos a dor

 

E o vento leva os pedaços de sombras formando tua imagem. A tua imagem refletida na consciência do eu querer pulverizado de amnésia alcoólica a me levar aos braços que me aceitam apenas por dinheiro. Reajo. Tento reagir, e me enfraqueço no desejo profano do prazer pelo prazer tão somente como verme que se alimenta da podridão. Entrego-me a consciência de que terei novamente você em meus braços saciando meu desejo. E quando vejo, estou em cama desconhecida, entre braços estranhos e, você cada vez mais distante. Juro. Reajo, tento reagir, no entanto distante estamos e você não me ouve, nunca me ouvira e, se ouviu alguma vez, achou que a dor seria meu alimento, afinal sou poeta e nada mais louvável que um poeta amargurando suas dores em palavras que nada lhe dizem, não é?

sábado, 30 de dezembro de 2023

 Olha em volta

 
Olha em volta, o frio está presente nos casacos e roupas que o pessoal usa. Sexta-feira, mais um dia que os comes e bebes fará com que o sorriso desponte nos rostos cansados da faina diária. Mais uma sexta que o perigo da rotina é meio quebrada na expectativa de integração social. Flash fotográfico registrará o momento natalício entoando parabéns desgastantes. A vida assim transcorre para a felicidade geral da companhia e de cada um trazendo a certeza de que estão fazendo a coisa certa.
Olha em volta, vê cada um em sua função, cada um com seus pensamentos, cada um realizando o seu ato para preencher o vazio da não existência que há sem que cada um se aperceba disso.
Olha em volta, não consegue dar continuidade ao que vinha escrevendo, por felicidade ou infelicidade, não sabe, apesar de ter chegado cedo, bem antes das oito horas, mesmo assim, os dedos ficam presos no abismo de se criar palavras ou simplesmente permanecerem imóveis em seu desgaste de carne em atrito com o ar envenenado.
Olha em volta, nada há de errado, apenas pensamentos passam por sua cabeça sem que consiga entender que isso é o fascínio que o prende a vida, a vida que ele pertence e que não pode, mesmo que quisesse fugir ou mudar, a vida que com seus textos procura encarar o seu destino.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Os olhos transitam

 Os olhos transitam na fome existência

Da boca salivas degustam o cheiro vida

As enegrecidas mãos cortam o alimento

Misterioso pão da penúria e sofrimento

 

A pequena luz do lampião a querosene

É a única chama quente que alimenta

O frio e faz com que estejam em volta

Da grande mesa todos na fome reunidos

 

Mudos repartem a pouca batata quente

Silenciando a fome que a todos atormenta

Concentrados no momento apenas

 

Não pensam no amanhã

Sabem que tudo será novamente

Repartido na esperança

 

De alimentarem a felicidade

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Ouço as paredes

  da memória ao estilhaçar dos pingos no vidro, refletindo na janela os olhos no mais fundo de tudo que já floresceu.

Ouço nas árvores o toque do vento ao apagar das lembranças em cada fruto que no chão apodreceu.

Ouço os olhos que dormem no estalar das madeiras queimando a espera de você que não vem jamais.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Ouço no tempo

 

Ouço no tempo a tua voz muda reluzindo saudade num olhar intenso que traduz o amargo da vida
Semblante preocupado traz na testa as rugas da alegria acumulada nos lábios que teimam em ficar fechado mesmo que no peito a chama do amor infla o peito
Solte-se, solte-se na vida intensa que te clama a compartilhar com ela todos os momentos que sua fibra consiga captar
Vibre com as emoções que pulsa na pele suave o teu sentimento e regozije-se com o prazer que lhe possam oferecer
Ame o tempo todo, ame até o desprezível para ganhar o amor maior de sentir-se amado

domingo, 24 de dezembro de 2023

Outono erótico

 Por Carlos Savasini

       Luciana do Vale

       Osvaldo Pastorelli

       Rosangela Aliberti

 

Abro o coração na sensibilidade da

Alma em busca do que perdi

Noites insones, sete pores-do-sol apagados

Cobertores e lençóis divididos,

Preconceitos engolidos, negociações desfeitas,

Amores incompreendidos ...

Luas nuas agora iluminam o caminho

Apagam os pores-do-sol de outrora

Formam-se vida e invadem a vagina

De uma mulher aluviada / aliviada

Encharcam o ventre de tesão e prazer

Preenchem a nova mulher

Envolvem lençóis e fantasias

Criam tentações – mitos – milagres

Fimbrias a escorrer o líquido – vida

Procriando vida úmida tão somente.

sábado, 23 de dezembro de 2023

Outro dia te encontrei

  no boteco bebendo o último copo antes do bar fechar.

E mais tarde te encontrei abraçada ao poste vomitando palavras azedas de amor, dizendo que eu era o único em tua vida, e eu acreditei.

E, dias mais tarde, te encontrei na cama nua e carente querendo sempre mais, onde revelou que sou fenomenal.

Mas, dois dias depois, te encontrei chorando abraçada ao travesseiro chamando o Juvenal.

E naquele mesmo dia, te encontrei pedindo perdão, dizendo-se arrependida lembrou que meu nome é João.

Assim foi que te encontrei...

Ah! Deixa pra lá. Não vale a pena contar o resto da história.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Palavras transcorrem

 

 na minha vida perdida no dia a dia.

Palavras, uma a uma, proferidas no trespassar do infinito do meu ser em busca de mim mesmo.

Caio na realidade infinita concreta onde o asfalto da avenida Paulista conduz meus passos.

A chuva fina umedece os desejos dos transeuntes famintos de solidariedade.

Entro no primeiro bar que encontro e tomo uma longa dose de pinga pura.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

O sangue

 das palavras escorre pelos nervos da cidade revelando o poema que, escrito no brilho dos teus olhos, se esparramará na palma da tua mão, anunciando o amanhã que será sempre nosso.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Para me conhecer

 

Para me conhecer além de me amar, é necessário que me ame como se ama o sol ou a lua, como se ama o infinito das fibras que envolvem o cósmico do ser unilateral sem preconceito e sem vacilo.
Para me conhecer além de me amar constantemente, é necessário se entregar aos desvarios da razão avançando sempre nos caminhos perigosos dos sentimentos que alimenta e comanda nossos passos.
Para me conhecer além de me amar, é necessário colher das estrelas o bálsamo brilho de suas consistências e guardá-las como o mais precioso dos tesouros que há guardado em sua alma.
Para me conhecer além de me amar, é necessário deitar nu na planície do corpo recebendo a brisa da manhã como beijo das deusas enrijecendo a carne de prazer benfazejo.
Para me conhecer além de me amar, se despoje de tudo o que já conhece, deixe a alma nua e nua caminhe no deserto da poesia lambendo letra por letra colhendo assim, toda a primazia de ser o primeiro a entender o significado do que é amar.
Para me conhecer além de me amar, se desvincule da paranóica vida se entregando à alma da música e se eleve acima dos mestres dos mestres e cultive a harmonia do ser uno em comunidade com a natureza.
Depois de tudo isso, se ainda não me conhece além de não me amar, recomendo que leia meus textos, meus diários, veja meus trabalhos e, se assim mesmo, ainda não me conhece, por favor, lhe peço, me esqueça, me ignore, faça de conta que para você eu não existo.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

No compasso

 Ele vinha no compasso das figuras que emolduravam o calçamento da vida arrastada pensando o que faria com o futuro que, em leque, abria a sua frente.

Projetos havia tantos, uns rascunhados, outros mais elaborados, poucos realizados.
Sem contar os que passaram de raspão como raio alterando lentamente a planície do rosto.
Na completude dos seus sonhos, pisava em bolhas azuis despreocupado se a razão suplantava a emoção, o que lhe importava era viver sob o comando do coração, essa é que era a verdade.
Pensativo não viu o dragão da maldade alçar seu corpo aos píncaros da vida etérea.
Mas, como todo poeta teimoso, acordou nos braços da ninfa adorada, celebrando em prosa e verso, a vida que foi sempre, por ela, agraciada.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

para os amigos

 

A guitarra rasga a nuvem em pedaços de amizades que se espalha no sentimento do mundo onde a toalha com desenhos trabalhados guarda a alma da poesia.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Passei a noite toda,

não em claro, numa sonolência entorpecida pelo sonho de não ter lhe dado 

beijos o suficiente que confirmasse o quanto te amo.

 
Rolando na cama com a dúvida de que você achasse que os beijos foram
insuficientes e nada acrescentaram ao nosso relacionamento, vi a claridade
se infiltrando por entre a persiana da janela.
 
Os olhos dormentes de sono demoraram a se acostumarem com a claridade da
manhã.
 
Liguei o som e debaixo do chuveiro deixei a água beijar meu corpo
entorpecido de sono.
 
Cinqüenta minutos depois estava na rua a espera da condução para que a
vida continuasse sem interrupção.
 
E numa cena surreal, a caterva se locomovia em passos lentos na mesma
direção, pouco importando que eu andasse no contra fluxo.
 
Nisso senti tocar o meu ombro esquerdo.
 
Era você que sorria docemente para mim.
 
Retribui o sorriso, mas a claridade da manhã me despertou completamente.

sábado, 16 de dezembro de 2023

patinadores

aventureiros

caçados

ou caçadores

fogem da sobrevivência

ou são perseguidos

pelo fantasma da fome

 

patinadores

aventureiros

caçados

ou caçadores

buscam

a paz passageira

ou não

nas letras

nos celulóides

nos amores

nos bares

na noite perdida

da cidade

 

patinadores

aventureiros

somos enquanto

a esperança

existir em nós

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 01

 

O sentimento tritura os átomos do corpo que, aos poucos, se desintegra no parapeito da janela caótica da vida. Corre perigo de ficar parado no meio do mundo esquecido dos passos que já foram pressionados na calçada da angústia e dos passos que ainda há para serem pressionados na calçada da dúvida.

Em seu semblante não há desespero, pois sabe que desespero não vai lhe adiantar nada, apenas será arrastado cada vez mais ao abismo que todo esse tempo vem fugindo, por isso em sua face está estampada a cor do mármore, branco e frio.

Raramente sorri, e quando sorri é escondido, afastado da alegria de simplesmente não se envolver em emoções que, exposta a vista de olhares estranhos, não lhe dizem respeito.

O dia ainda frio, apesar de ser primavera, não corresponde ao que deveria ser o que lhe vai ao peito. Mesmo assim, trôpego, conduz os passos em ritmo cadenciado para que a dor nas costas seja suportável.

Sabe que carrega o destino na ponta dos dedos ao escrever palavras que, muitos lhe perguntarão, o que ele quis dizer.

Não se importa com perguntas, o que importa é escrever, talvez, incidentalmente o que lhe veem a mente como se estivesse dialogando com o leitor e este estivesse lhe respondendo.

Assim, escreve o seu dia a dia infernal.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 2.

 Desceu do fretado

 
Desceu do fretado sem se preocupar com a hora. Atravessou a rua ao aproveitar o semáforo fechado. Ao pisar na outra margem da rua, abotoou a jaqueta por causa do vento frio que fustigava a manhã de um começo de primavera. Mesmo assim, a manhã trazia a beleza intrínseca que era toda dela, com seus movimentos sonoros empurrando a vida de um lado para o outro. Percebia os movimentos como sentia o pulsar dos objetos na mesma intensidade do pulsar do sangue em suas veias.
Tinha nos movimentos a lassidão do mundo envolvendo-o num preparo prolongado de fazer o que era preciso, como ferida pustulenta em que se precisa todo o dia pensá-la com produtos químicos a fim de sanar as dores. Corria o risco, estava sempre correndo o risco, de não ter o que o destino lhe prometia. Se soubesse o que lhe era prometido talvez, as dores já teriam sido sanadas. Como não sabia e, achava que não deveria saber, pois se soubesse a vida perderia os encantos, vivia no risco premente de não se sentir o único na parte que lhe cabia ser.
Vivia cada minuto intensamente, e gostava de viver os instantes promulgados em atos e ações às vezes impensados, gostava sim, por que não?
Isso lhe dava oportunidade de se corrigir dos erros conseqüentes por amar demasiada a vida.
Sim. Podia não parecer, amava mais que tudo a vida. Isso não queria dizer que não pudesse fazer o que bem entendesse. Podia, mas primeiramente tinha obrigação com a vida, nada mais. E dentro dessa obrigação agia ao balanço dos ritmos imposto ao viver nada mais que viver, simplesmente.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Peq histórias 003

Tinha esquecido

 

Tinha esquecido as palavras em cima dos nervos da dúvida quando, apaziguando a raiva numa calma de sossego, girou a atenção para outro ponto. Não foi preciso mudar de posição o corpo, apenas uma leve torção do pescoço para ver o que lhe interessava. E o que o viu não o surpreendeu, apenas veio confirmar o que há tempos suspeitava. Não se abalou. Voltou para a posição normal, pediu mais uma cerveja, e calmamente tomou como se fosse veneno.
E lentamente, bem lentamente desviou a atenção, desceu até o limite do sentimento, e, se postou dentro do ciúme corrosivo queimando-se pela chama da traição. Quietou-se no silencio que, apesar do alvoroço do palco com a banda tocando alto, das pessoas dançando freneticamente na pista, sentiu o silencio envolvendo-o. De onde estava, sem se virar, via os gracejos, os beijos, as caricias, as risadas, como se tivessem fazendo piada sobre ele.
 Sem se precipitar, aproximou-se da mesa onde eles estavam. Assustados não tiveram tempo de reagir. Cada um recebeu um tiro a queima roupa bem no peito, fulminando-os instantaneamente. E antes que pudessem entender o que estava acontecendo, virou a arma para a cabeça e disparou.
- Você tem sorte de estar vivo. Não sei como e nem porque a bala foi desviada, atingiu somente a região do olho causando cegueira. – dissera o médico, assim que acordou após ser operado.
Tem razão, tive sorte, estou vivo, vivo preso na escuridão do meu ciúme ignorante.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Peq histórias 4

Realmente é de

 
Realmente é de se admirar o panorama musical dos dias de hoje. Se uma música como “Vai tomar no cu”, ser premiada é algo descabido ou sei lá o que, pergunto: o que será daqui para frente? Vamos dar um ponto positivo para a artista que criou esse hit que circulou pela Internet fazendo dela um sucesso. Vamos dar um ponto pela criatividade musical, pela tonalidade da voz e, talvez não tenho certeza, ela fazia ou faz parte de um espetáculo teatral ou musical, não sei, pois hoje em dia é melhor ficar a margem dos acontecimentos. Por isso não posso criticar, teorizar, ou mesmo comentar tal obscurantismo musical que estamos passando. É uma pena.
Não que na época da ditadura, que eu acho que foram os anos áureos da música, onde surgiram várias obras-primas, não tinha uma ou outra musica de baixa qualidade. Tinha sim. E uma que lembro foi à música do Odair José, “Pare de tomar a pílula”. Não fez tanto sucesso como “Vai tomar no cu”, isto porque, naquela época tínhamos apenas o rádio e a televisão, Internet nem pensar. E “Pare de tomar a pílula” ficou conhecida, vamos dizer, do povão porque foi criado um escândalo promovido por Maria Bethânia, quando surgiu o espetáculo “Phono 73” que rendeu três discos (os vinis, os LPs, os bolachões) imperdíveis, muito bom, dando uma panorâmica da atualidade musical daquele tempo. O “Phono 73” tinha como característica criar duplas das mais estranhas e das mais dispares. “Pare de tomar a pílula”, Odair José faria parceria com Caetano Veloso, mas sua querida irmãzinha Bethânia fez um escândalo não deixando o irmão fazer essa atrocidade. Que me lembro Caetano não chegou mesmo a cantar com Odair. Tenho um desses três vinis, um que a Gal Costa canta com Os Demônios da Garoa, a obra prima de Adoniram Barbosa, “Trem das onze”, se não estou enganado. Preciso pesquisar para ver se lançaram esses discos em CDs. Será?
Coloco a letra da música do Odair José, para quem não conhece conhecer.
 
Pare De Tomar A Pílula
Odair José
 
Já nem sei há quanto tempo
nossa vida é uma vida só
e nada mais
 
Nossos dias vão passando
e você sempre deixando
tudo pra depois
 
Todo dia a gente ama
mais você não quer deixar nascer
o fruto desse amor
 
Não entende que é preciso
ter alguém em nossa vida
seja como for
 
Você diz que me adora
que tudo nessa vida sou eu
então eu quero ver você
esperando um filho meu
então eu quero ver você
esperando um filho meu
 
(REFRÃO)
Pare de tomar a pílula
Pare de tomar a pílula
Pare de tomar a pílula
Porque ela não deixa o nosso filho nascer (3x)
 
Você diz que me adora
Que tudo nessa vida sou eu
Então eu quero ver você
Esperando um filho meu
Então eu quero ver você
Esperando um filho meu
 
Pare de tomar a pílula
Pare de tomar a pílula
Pare de tomar a pílula
Porque ela não deixa o nosso filho nascer (3x)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 005

Descobri uma coisa

 
Descobri uma coisa desagradável que acontece comigo. Não sei como relatar aqui, incluir nestas pequenas histórias.
Acredito que muitas coisas desagradáveis acontecem com todos. O único problema, não sei se posso dizer que seja isso, porque não é, mas ninguém admite o que acontece consigo próprio. E o medo do vexame, da pilheria, da gozação, enfim, ser taxado disso ou daquilo, e assim, ver-se como o palhaço da família ou da turma do serviço ou da escola. Não sei, não vejo o porquê esconder o que se passa com a gente. É claro, não vamos fazer da nossa vida um livro aberto onde todos podem ler os segredos, os escondidos, mas algumas coisas poderiam saber para o próprio bem da pessoa. Tenho uma teoria: você falando daquilo que te incomoda, você sanará a dor, ficará livre do que lhe aterroriza, entende? Não que, o que descobri sobre mim, seja aterrorizante. Não, nada disso. Imagina. É que é ridículo mesmo, perversamente ridículo.
Já repararam como o ser humano é feio e bonito ao mesmo tempo? Fisicamente ele é bonito, sua aparência que é feia. As pessoas se descuidam com pensamentos errados, preconceitos, orgulho e outras coisas. A beleza do ser humano vem toda da mulher, pois sem ela não haveria uma harmonização estrutural. Pois ela recebe em seu interior um corpo totalmente estranho levando-a, ao mesmo tempo, ao prazer e a dor, onde é depositado o líquido da vida, fazendo com isso surgir um ser novo.
Já pensou como é maravilhoso se pudéssemos ver a evolução, minuto a minuto, do novo ser que aos poucos vai crescendo na mulher. Ver como ele, um importuno, vai empurrando delicadamente os órgãos e, quando atinge o tamanho necessário, se esperneia querendo sair. Para mim esse é o verdadeiro verbo da vida, o verdadeiro renascimento do homem. O único ser que está livre de ser feio e ridículo é a criança. Está é em sua fragrância bela e perfeita. Até os seis anos, tem sua personificação pura e sem mácula. Depois dos seis anos começa a perder tudo isso, quer dizer, os adultos, principalmente os pais, fazem com que ela perca a sua inocência e a introduz no mundo dos adultos. Até fazendo com que ela realiza os sonhos fracassados dos pais, o que acho errado.
Já repararam quando alguém, ele ou ela, está dormindo que coisa mais feia. Entregam-se aos braços de Morfeu como se estivessem mortas. Quantas vezes fiquei por várias noites vendo minha filha dormindo, prestando atenção no respirar verificando se não estava morta. Até hoje, de vez enquanto faço isso. Pois a pessoa dormindo está um passo da morte. Aliás, o ser humano dormindo é a coisa mais ridícula que possa existir. Principalmente na condução. Ora bate a cabeça no vidro, ora baba, ou bate a cabeça no encosto do banco, repare como é ridículo.
Pois bem, verifiquei que minha língua sempre tinha uma pequena afta do lado direito. Fiquei intrigado, de uma hora para outra aparecia sem saber como e por quê. Um dia, assistindo televisão, cai num cochilo, e quando num supetão acordo, percebo que estou com a cabeça pendida sobre o peito, de língua de fora, e os meus dentes pressionando-a. Resolvido a questão, isso é que provocava a afta na língua. Mesmo assim não queria acreditar nisso.
Mas hoje tive a confirmação. Cochilei no fretado, e quando percebo estava com a cabeça pendida sobre o peito, língua de fora com os dentes pressionando a língua, que coisa! Agora tenho que tomar dois cuidados. Não roncar e não deixar que isso aconteça. Vê se pode.

domingo, 10 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 006

Pequenas histórias

 
Pequenas histórias circulam entre transeuntes despreocupados com si mesmo.
Pequenas, algumas invisíveis, outras mais declaradas, compõem passos que transitam na calçada da fama sem que dela notem sua presença. Transitam como outros quaisquer. Transitam na fome de viver os minutos que lhe são preservados em horas de labuta e suor ingente deformando a pele nunca saciada.
Transitam de lá para cá e de cá para lá. Transitam numa insurgência ávida de se viver cada segundos da fibra que compõem o mundo de suas carnes flácidas e sexuais passadas em orgias dementes apenas para se sentirem presentes dentro de alguém.
E nos gostos cujos paladares variam, degustam o brilho das manhãs frias de primavera de um dia alcançarem o destino na ponta da lança da felicidade.
Procura instigante que causa feridas obscuras empalidecendo a alma nas vozes surdas de seus heróis mortos em vorazes overdoses.
Sinais lançados não conduzem os olhos para os destinos que se deseja. Cada um dos sinais conduz um ser derrotado a cair desfalecido na calçada da vida ingrata sepultado pela fútil multiplicidade cósmica de ser apenas um ser.
Assim recorre-se aos deuses enganadores como fuga em busca da salvação que não existe, se existe, ninguém sabe como é, e nem onde se encontra essa salvação.
Que talvez possa estar dentro de cada um.

sábado, 9 de dezembro de 2023

Sagitta

  

Onde você estava quando o clarão explodiu iluminando nossos olhos fechados? Onde estava? Não te encontrei em lugar nenhum. Nossos olhos não são mais os mesmos, eles abriram-se mesmo estando fechados. Abriram-se para a volátil luz espargindo fios de ouro em cada horizonte enchendo de enigmas a paz reclusa em cada ser. Caminhei ao lado e pude compor meu destino sem aflição que é determinada nessas ocasiões. Caminhei me perguntando a cada passo que cuidadosamente imprimia minhas marcas na areia fria da estrada, onde você estava? Você como eu, deveria preparar o caminho para desvendar os enigmas da pedra, os enigmas do ar, da água, do fogo e dos signos. No entanto você nem se preparou, pouco se incomodou, deu as costas sumindo na solidão do povo, talvez conformado com o desígnio de ser apenas um sobrevivente da angustia e da ansiedade. Ou teve medo de enfrentar o desconhecido. No entanto, é no desconhecido que há crescimento, principalmente o crescimento de si próprio, passando a entender o mundo que o rodeia. Tudo leva crer que a luz não iluminou suficientemente teus olhos fechados. Não deixou nem uma mínima chama de luz se infiltrar por entre as pálpebras. Medo? Será? Não sei, medo todos tem, se não enfrentarmos nossos medos, morremos desiludidos de nós mesmos. Morremos na ignorância de não termos nascidos nos corações das pessoas. Principalmente de quem amamos. Morri duas vezes para renascer outras duas vezes. Cultuei a Fênix até que me tornasse parte das suas fibras e de suas asas ligeiras como flecha.

 

Com a mão espalmada de dedos de certeza, contornei as linhas da flecha cravada no peito, até que a comoção tênue de luz desfibrasse a distância entre a certeza e a dúvida que roçava as pontas dos dedos. Fui tomado pela comoção, senti a profundidade da existência alojada em meu corpo. E surgiu a intenção do grito, no entanto o grito morreu no escondido da garganta. Sedento, alimentei-me de cogumelos e plantas rastejantes. Saciado e alimentado, reiniciei a caminhada pela estrada vazia e poeirenta. O suor dos meus passos marcava a areia no destino ignorado. Sentindo-me pequeno na grandeza humana, descortinei a paixão enroscada nas formas à margem da estrada. Para não me cansar, caminhei devagar, o mais lento possível, porém, o cansaço tolhia os movimentos. Não era cansaço físico, nem cansaço mental, era cansaço da enrijecida carne pelo temor de me sentir cansado. Precisava de repouso. Ao longe divisei um casebre, e para lá me dirigi. Assim pude repousar a carne ouvindo os espaços do pulsar no silêncio das fibras que me envolviam.

 

Quantas horas dormi? Não sei. Apenas Sagita me iluminava, e acompanhando sua sombra, resoluto, reiniciei minha caminhada novamente.

 

Ouvia. Ouvia sim, a música diluída na distância até ao ponto que meu ouvido conseguia alcançar. Era uma música conhecida, apesar de seu ritmo violento, rápido, precisava apurar os ouvidos para distinguir as palavras. E o que elas me diziam? Momentaneamente nada. E como poderia dizer alguma coisa se nem sabia o do porque estava naquela situação. O que estava fazendo naquele morro que ora me parecia um amplo espaço aberto, em outros momentos, dava a sensação de estar numa gruta onde a luz difusa mal iluminava o caminho. Tentava caminhar, tateava apalpando a parede úmida e gosmenta e fria. Minha respiração subia, tinha a nítida noção que estava passando por aquilo para salvar a vida. Se livrar da escravidão. Mas qual escravidão? Da vida? Da materialização da vida e seus vícios?

 

Quando me senti no morro onde meus olhos cerrados pela violenta luz, o medo me dominava, paralisavam os movimentos até que uma sensação estranha me lançou a um combate entre a paz e a dor. Nesses momentos consegui tocar na paz com as pontas dos dedos acreditando em vencer o que me afligia sem saber exatamente o que. E era nesses instantes que surgia o sinal no amplo céu iluminado pelo sol forte. Uma sombra cobria meu corpo suado e violentado pela luta, dando-lhe uma pequena força para continuar. A princípio pensei num sinal, depois distingui um pássaro, quando chegou mais perto foi que reconheci a águia que adquiria forma de flecha ou seta se materializando em seu interior. Captava essa materialização como chama queimando-me ao mesmo tempo em que a mente se abria guiando-me paralelamente as correntezas do rio da vida.

 

E o poder da carne tornava-me rígido, um pouco cansado, mas não frágil, pois sabia que meus inimigos se encontravam paralisados ignorando o rumo que deveriam tomar. Eu tinha um rumo, talvez até soubesse qual era, mas envolvido por uma névoa que não me deixava ver claramente, e nem podia, pois se soubesse não haveria significado nenhum em percorrer.

 

A todo o momento me perguntava:

 

- Conseguirei completar todo o meu caminho?

 

Era a pergunta mais frequente em que procurava acreditar e, Ingênuo, acreditava. Acreditava porque todo o dia abria os olhos e contemplava o azul escuro sem estrelas do teto do quarto. Não via nisso um milagre. Não acreditava em milagre. E porque deveria? Só porque estava no planeta Terra e o planeta Terra entre constelações e nebulosas? Só porque os mistérios existem e precisam ser revelados? Ou quem sabe, decifrados? Tudo isso e muito mais, disse reconhecendo o trabalho árduo que tinha à frente.

 

Tinha uma arma. O grito. O grito mudo saindo da garganta ganhando a vastidão do vazio seco como deserto. Usava o grito, nem sempre positivamente. Isto é, o grito apesar de amplo e vasto, se convertia de positivo a negativo. Quer dizer, era interpretado dessa maneira. Mesmo assim, não deixei de gritar toda vez que achava que deveria. Reconhecia. O grito saia às vezes, fraco, seco, sem eco, outras vezes, sonoro não alcançava o objetivo. Por isso, do meu canto fitava o vazio das pessoas estudando cada gesto, cada movimento, cada frase, para depois codificar em meu intimo o significado. Nem sempre justificável. Por isso, agia incrédulo diante da face egocêntrica povoando meu caminho. Desviava dessas faces como desviava da futilidade onde, no livre arbítrio, cada um achava seu canto mórfico e ali me aquietava.

 

Não podia me aquietar tinha uma missão a cumprir. Seguir a flecha lançada no espaço da existência em que pisava com cuidado. A flecha seguia seu curso predestinado, e seguindo-a corria perigo, durante o caminho me desvirtuar e cair no anonimato de um sentir fútil, levando-me a despencar no abismo de sentir eu mesmo queimando no fogo das palavras.  

 

Ah! Sorrio intimamente, conseguirei, sim, disse para si mesmo.

 

Sim conseguirei, disse a si mim mesmo, não me preocupo com o significado da palavra, sei que conseguirei, e, no entanto, surge, enovelando tudo com a fragrância do desprezo, a indolência dos mortos vivos, como sentimento de tristeza ao estampar a negatividade. Não sabia trabalhar os sentimentos, desconhecia o processo, não me ensinaram a burilar o negativismo, não me ensinaram nada, muito menos viver e, viver era difícil!

 

Lábios finos, devastador, sensual, nunca apresentou uma pequena fresta de alegria, meus lábios não se abriam para um largo e franco sorriso. Quando me perguntavam por que não sorria, a resposta era:

 

- Cristo nunca sorriu, porque devo sorrir.

 

As pessoas não me diziam nada, uma ou outra fazia menção, pois o gesto estacionava no ar das rugas. Eu percebia e me calava.

 

A chuva caia torrencialmente. Se não fosse a chuva já teria deixado o Solar dourado. Não poderia esperar muito. Depois da flecha lançada não tinha como voltar atrás. Obrigado estava a seguir o curso do destino. A seguir o rastro da flecha.

 

Tendo conhecimento de Sagitta. Sabendo da sua existência, não conhecia sua importância no universo sonoro e no sistema cósmico. Podia prever o que me representava. Havia uma pequena, talvez noção do que me representaria, ser não místico, que vivia apenas para preencher o dia-a-dia da minha existência.

 

Portanto, quando fui apresentado a Sagitta, previ um estremecimento interno de que em Sagitta estaria a luz que tanto vinha procurando. Tomei ao pé da letra tal apresentação, no entanto, dias depois, notei que precisaria percorrer um caminho sombrio, com pouca luz. Procurei conhecimentos maiores sobre o assunto, indaguei aqui e ali, consultei os caminhos informáticos, os caminhos das constelações, do universo, das estrelas, da lua, do cosmo e, não encontrei nada, quer dizer, o que encontrei nada me dizia da grandeza de Sagitta. As informações não levavam a lugar nenhum.

 

Assim sendo, me acomodei no canto da alma me aquecendo no conhecimento até então, adquirido.

 

E ao me acomodar no canto da alma, não só me aqueceu como o conhecimento adquirido, tomou outra consistência não prevista e, me senti pronto a enfrentar a raposa, mesmo não sendo lutador, senti a necessidade em enfrentar tal perigo. A águia num voo rasante arrancou-me do pescoço a corrente com o pingente em forma de S. Desesperado, sem pensar, retesei o arco e lancei a flecha atingindo em pleno voo a águia. Nisso, surge do nada a raposa faminta. Não demonstrou medo, sabia, a raposa tinha fome de carne animal e, não, de carne humana. Sabia, ela estava ali para afrontar-me num duelo, não um duelo de vida e morte, mas num duelo de rapidez, de agilidade.

 

Assim, ao notar a presença do animal, sem pensar, sai correndo, impondo velocidade aos pés. Lado a lado estava na trilha do destino. Algo me dizia ser vencedor antes mesmo de chegar ao local onde estava o corpo da águia. Confiante, conhecendo meu potencial assim como o potencial da raposa. Mesmo que ela estivesse alguns segundos a minha frente, vi que não havia necessidade de impor mais velocidade. Foi então que tive conhecimento de algo que já sabia e, que naquele momento, devido à preocupação em vencer a raposa, tornava-me obscurecido. A flecha por mim lançada situava-se entre as constelações de Hércules e Delfin, seguida da águia e raposa.

 

Compreendi nada me venceria, só não podia fazer corpo mole, tinha que demonstrar competência para lutar, competência de ser vencedor e, assim fiz, competi com a raposa. Até o último instante, sempre com a raposa a minha frente. Na volta final, imprimi aos pés a força da seta, recuperando com galhardia a corrente com pingente em forma de S. Suspirando com alegria, gritei venturoso:

 

- Sagitta você não morrerá nunca. A prova esta aqui na minha mão. Tua força emanará melodiosos acordes elevando-nos ao total conhecimento cósmico.

 

Ajoelhei no chão áspero e alcei o pensamento à constelação visível em meu peito. E adormeci sossegado.

 

Sossegado adormeci. E sonhei. Sonhei calmo, suave, terno, perigoso, angustiado. Flanava no meio da constelação, esbarrava nas estrelas, empurrava uma para lá, outra para cá. O silencio aterrador comandava meus gestos. Tinha conseguido. Quando menos esperava conseguira. Era sempre assim. Conseguira. Sim, estava fazendo minha primeira viagem astral. Ou não estava? E o que era aquilo? Sonho? Muito real. De onde estava via meu corpo estendido na cama do quarto. Não só o meu corpo como tudo o que queria ver. Poderia ver minha vida, desde ao nascer até agora. Ver todos os instantes da minha vida, meus erros, meus pecados, tudo. Sim, poderia. Mas, não era isso o que queria. Ainda não estava à beira da morte. E para que relembrar o que já foi? Queria apenas flanar por entre as tênues nuvens dos amigos, amantes, parentes, e se pudesse, dizer-lhes:

 

- Olhe! Sei que não fui o que vocês imaginavam, sei, muitas coisas erradas fiz, mas fiz com a intenção de conseguir a felicidade e, alcançando a felicidade conseguiria fazer vocês felizes. Se não consegui, me perdoem.

 

Era o que queria dizer. No entanto minha voz soava muda, não alcançava o destino, não propagava no espaço. Gritava:

 

- Amo todos vocês.

 

Ninguém ouvia meu grito. Se ouvissem não tinha como saber, portanto se angustiava. Nisso percebi algo esquisito. Percebi, não tinha como sentir, era apenas um tênue flamejar de vida. Ouvi no silêncio do ouvido um passar relâmpago incandescente. Olhei em volta e nada vi. Soou ao longe um tropel de passos em desabalada corrida. De repente estava rodeado de ciclopes que corriam apavorados. Por que corriam? Com medo do que? Não teve tempo em assimilar a resposta. Passou por mim uma enorme flecha em fogo que atingiu um ciclope perto dele. O coitado caiu inerte no chão.

 

Nesse momento percebi, eu era um ciclope, tinha que correr.  

 

Vi a flecha flamejante lançada por Apolo em minha direção. Imprimiu velocidade aos pés. Dava a impressão de estarem amarrados a uma bola de chumbo. Tinha dificuldade em erguer os pés. Com dificuldade, numa lentidão horrorosa fazia o máximo para fugir. Se ao menos alcançasse a esquina...

 

Nisso a flecha perfurou a carne. Uma queimação tomou conta de todo o corpo. Numa lentidão a carne foi estraçalhada atingindo os ossos. Parecia uma guitarra sendo solada num extremo infinito. Cai. Melhor. Aos pedaços meu corpo despencou em direção a mim que estava dormindo. Preocupou-me com o baque e como conseguiria juntar os pedaços dilacerados pela flecha. Meus olhos úmidos de terror pressentiam o momento exato do encontro de mim com mim mesmo. O momento...

 

Acordei sobressaltado. Empapado de suor, sentei na cama. Procurei no escuro distinguir onde estava. Acendi a luz. Respirei com folga. Sonhara. Fora um sonho tão real a ponto de sentir dores pelo corpo todo. Compreendi.

Minha busca chegava ao término. Compreendi claramente. Sagitta estava em mim assim como eu estava em Sagitta.

 

Isto é, meu destino era não poder nunca se livrar de Sagitta. Estava preso assim como estava preso ao destino infinito das sensações.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 7

A fila estava

 
A fila estava comprida. Já formava a quarta quando cheguei. Apesar dos meus passos acelerados não sei por que, pois não havia necessidade de pressa, talvez meu subconsciente já esperasse pelo tamanho da fila, foi então que comecei a formar a quinta, Isto é, tinha duas pessoas, uma mulher e um homem, eu fui à terceira.
Fila é bem interessante. Qualquer fila. Ouve-se e se vê de tudo. Prestem atenção. Preferencialmente a fila do ônibus. Prestem atenção calmamente, sem aquela pressa de ir embora, sem a angústia da fila ser grande, sem o medo do empurra ou do ônibus demorar ou, ainda, de encher. Preste atenção, você vai se divertir. Garanto. Abra os sentidos, aguce a audição, abra os olhos, sinta o cheiro, o cheiro então... Ah é o principal. Veja o vai e vem, os que chegam, os impacientes que saem da fila para pegar outro ônibus talvez, mais rápido. Os penetras que querem passar a frente dando uma de João sem braço, os velhos, as grávidas, as crianças, os jovens, você vai presenciar surrealidades que nenhuma arte conseguirá transmitir.
Há uma senhora japonesa, deve ser japonesa, não sei identificar quando é japonês ou chinês, são todos de olhos puxados, essa senhora é baixinha, deve ter seus setenta e qualquer coisa. Quando ela chega, não pede licença, entra na frente de quem for e não está nem aí. Uma tarde estava já quase com pé no degrau do ônibus quando ela apareceu. Toda serelepe passou na minha frente, me empurrando como se fosse gente importante. Resmunguei:
- Oh! Mal educada não pede licença pelo menos não é?
Não deu nem pelota. Passou a catraca e foi sentar no banco lá no fundo do ônibus.
A meu ver o governo deveria acabar com esse negocio de que “jovem” com mais de sessenta anos não pagam condução. Acabar com a carteirinha especial e outros benefícios. Pois o “jovem” não é disso que precisa, o que eles precisam é de respeito, de bom atendimento na saúde, e a atenção dos filhos, mulher e parentes. Dar uma condição para eles, mesmo sendo “jovem”, saberem que ainda tem uma pequena parcela para que se sintam úteis, e não inúteis, velhos, jogados no canto da vida a espera da morte.
Acho que isso só faz criar monstrinhos como essa senhora. Faz com que se sintam humilhados, arrogantes, orgulhosos, como se dissessem:
- Tenho direito e daí, o que você tem com isso?
Não sou estudioso sociológico ou filantrópico, mas acho que essa não é a melhor maneira de tratar os “jovens” aposentados do meu querido e sofrido e roubado Brasil. É o que eu penso.
Outra coisa. Talvez pior que a condição dos nossos “jovens” – eu inclusive que já faço parte dessa “juventude” acima dos sessenta (por favor, nada de gozação, aquele que fizer alguma gozação será queimado na fogueira dos infernos, estamos entendido? Isso é para o pessoal que trabalha comigo, pois eles são mestres no tirar sarro dos ouros.) – é o que presenciei outro dia no metrô.
Encaminhava-me para o ponto da plataforma onde pegaria o metrô, quando uma paraplégica passou por mim quase por cima do meu pé esquerdo. Se não fosse o pulo que dei terei amassado os meus queridos dedos sem unha encravada.
- Oh apressada, não vê por onde passa, não? – gritei, no que ela não deu atenção
Chegando ao ponto onde pegaria o metrô, lá estava ela, parada esperando o trem também. O pior que ela não pegou nem o primeiro e muitos menos o segundo ficou ali atrapalhando quem queria entrar. Atrás da cadeira, por sinal, motorizada, ultimo modelo, estava escrito em inglês:
- Não se estresse.
Como não se estressar com uma pessoa como você, pensei com meus botões.
Se existe reencarnação você voltará várias vezes para ver o que é bom. Tive ímpetos de jogar cadeira e dona na linha do trem. Tenho culpa se a vida foi ingrata para ela? Tenho? Claro que não. Sabe, não tenho pena dessas pessoas. Criança sim, pois são puras, inocentes, não sabem o que lhe acontecem. Como os “jovens”, os deficientes são arrogantes, prepotentes, se sentem donos do mundo, tudo porque se acham privilegiados, isto é, a situação deles é que fazem serem privilegiados. A sociedade deve tratá-los com igualdade, como trata qualquer um. Ficam com essa de privilegiados, com regalias aqui outra li, é isso que dá pequenos monstros que não estão nem aí com os outros. Sinceramente não tenho pena delas, fora os deficientes visuais, trato todas com a mesma igualdade. É claro que estou sendo rigoroso, dar condição para que elas possam se locomover, tudo bem, mas fazerem delas uns coitados acho errado.
Bom, todo esse preâmbulo, esse bla bla foi para que sentissem o clima de uma fila, pois o que vou lhes contar é um fato que ocorreu ontem no ponto do ônibus do Tatuapé. Nada de interessante, mas ridículo surrealmente falando.
O sujeito, magro, de cor ou preto ou negro credo! Esse negócio de preconceito não sei como dizer, bom, um sujeito magro, alcoolizado por duas vezes cutucou o ombro do cara que, também moreno, estava a minha frente. Não sei o que falaram, mas logo o sujeito magro foi despistado.
Ele andou de um lado para o outro, segurando um saco de lixo. Falou com um, falou com outro, ninguém lhe deu atenção. Por fim, se postou na primeira fila e lá ficou, até que o ônibus chegou. E no empurra e empurra, entrou. Na catraca dificultou o pessoal passar. Gesticulava, falava, o cobrador também, gesticulava, falava, vai se saber o que estaria acontecendo, o que estariam falando. Por fim, o ônibus fechou a porta e saiu levando-o. Suspiramos aliviados, pois vai que ele desce e fica nos azucrinando.
Logo em seguida, um funcionário do metrô conduz uma deficiente visual.
Coloca-a no começo da fila. Não quis entrar no ônibus que tinha naquele momento parado no ponto. Calmamente acende um cigarro e fica fumando. Saiu um ônibus, chega outro e, ela não quer entrar, quer fumar o seu cigarro.
Nada de mais. Pois bem, quando sai, depois do quinto ônibus, ela estava lá fumando seu cigarro pouco se lixando com o que se passava ao seu lado. Só que atrapalhava a entrada dos que queriam pegar o ônibus.
Vá entender o indivíduo encalacrado no seio da humanidade sem saber como
se portar como cidadão na sociedade.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 8

Sexta feira mais.

 
Sexta feira mais uma vez. Outra semana passada inteiramente com papéis sujos de letras e números. Outra semana de vozes jogadas a esmo no ar sufocado por pensamentos triviais e insolúveis. E tantos ou tantas outras vezes que se discorrem ao comando das artimanhas do coração ou, das artimanhas dos interesses. Coisas, fatos, acontecimentos vão se incorporando no script onde cada um representa o seu papel, onde cada um aprende sua fala e no determinado momento, por isso ou por aquilo, áspero ou manso, suave ou calmo, expressa num monologo ou num diálogo quase sempre surreal. Assim é a vida, assim caminha a humanidade.
Uns são jogados no rio morrendo em coma. Outros grafitam muros e paredes não sendo compreendidos. Outros tocam noites inteiras suas preferências musicais. Outros controlam e abusam do poder político ou policial num mando e desmando estarrecedor. Outros e outros e outros fazem e desfazem a bel prazer pouco importando que outros apenas querem viver numa decência encapelada pela felicidade que só descobrem quando já é tarde.
Há belezas infinitas que os olhos gananciosos do consumismo embotam, assim como há belezas que o coração de pedra ignora a estética. Em tudo em todos lugares existem belezas, sejam elas quais forem. Não só me refiro às belezas criadas por artistas, arquitetos, poetas, escritores, escultores, não, mas me refiro às belezas que cada um cria em seu mundo particular que, com sua parcela mínima sem saber que está criando uma beleza transcendental que é simplesmente: viver.
Essa beleza ninguém poderá tirar, nem macular ou matar. Beleza que deveria ser cada vez mais empenhada aparando as arestas até a perfeição absoluta de o próprio viver. Infelizmente é uma beleza desprezada, cultuada em academias supérfluas hedonistas e narcisistas apenas com interessa na caça em bares, avenidas, boates, saunas e outros antros de prazeres sexuais. Há também, infelizmente a beleza dos templos religiosos que deveriam servir para acalmar, para se encontrar a si próprio e com o divino que há nele e, não um antro de negociatas girando tudo em favor do dinheiro dos infiéis enganados. E a beleza que da mídia, principalmente a televisiva, disfarçada em cultura? Talvez essa seja a mais aterradora de todas, pois seu alcance é grande, abrangendo de norte a sul, de oeste a sudeste, até os confins da mata humana controlando mentes desavisadas e fracas.
Belezas, tantas infindáveis que só os olhos capacitados poderão enxergar, poderão refinar estéticas vanguardista, modernista ou futurista. Beleza dos gestos, do olhar, do corpo, do riso, da fala, do querer não querendo, do ser não existindo, do amor disfarçado em desamor, do grito, do semáforo, dos parques, enfim beleza em tudo e no nada. Da beleza de você que aqui não está da distância separando vidas e, ao mesmo tempo, encontrando vidas.
Assim, vamos de semana a semana cultuando, alguns, a sexta-feira, outros poucos se lixando que dia seja, mas sem saber dentro dessa caixa chamada beleza procriando belezas.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 9

 Segunda feira iluminada

 
Segunda feira iluminada no embalo do feriado de sexta-feira. Sorrisos se abrem na oportunidade de passar três dias sem fazer nada, isto é, sem ter que levantar-se cedo, pegar condução e se aprisionar na obrigação de sobreviver. Grande porcaria. Pensamento retrógrado deveria causar encefaléia. Viver em duplicidade, se é que posso chamar dessa maneira, é perigoso.
- Puta merda, estou atrasado. Tenho que entregar esse apontamento hoje para o chefe. Ah! Mas que vá a merda, sexta está aí, feriado, vou pegar uma praia com a mina e nem quero pensar em serviço. O chefe está me chamando.
E o funcionário exemplar, com presteza, vai atender as obrigações com a promessa sexual do feriadão entre as pernas presas pela cueca Calvin Klein. E no centésimo quinquagésimo segundo andar ouve o chefe discorrer sobre o trabalho, enquanto seus olhos famintos de liberdade descortinam por trás do chefe, o azul enfeitado pelo sol banhando os prédios, aumentando a ansiedade do feriadão.
- Ouviu o que eu disse? – pergunta o chefe vendo o olhar distanciado do funcionário.
- Ouvi, sim, chefe. Pode ficar sossegado, quinta antes do expediente estará na sua mesa, pode contar.
- Quero ver mesmo. Pois não quero trabalhar no feriado.
- No feriado, chefe! Trabalhar na sexta é ruim, hein chefe.
- Então trate de fazer logo o serviço.
Saí da sala do chefe com mais uma preocupação: corre o risco de trabalhar no feriado. Mas como bom funcionário vai desempenhar o papel com dignidade para entregar em tempo o serviço. Senta-se a sua mesa. Começa a sentir uma dor finíssima lá no fundo do estômago. Olha o calendário onde está preso o retrato da namorada. Ainda faltam três dias... Caramba! A dor aumenta. Deve ser fome, pensa comer uma bolacha e um chazinho. E assim, pela não sei quantas vezes, toma seu chazinho com bolacha para sanar a dor de estômago. Assim ele passa a segunda feira vivendo antecipadamente ao invés de se concentrar em um problema de cada vez.
E sem perceber, está cultivando uma úlcera como brinde por sua ansiedade.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 10

Vejo a máscara

 
Vejo a máscara refletida no espelho sujo do banheiro e, indago-me se não será o momento certo para terminar minha atuação no papel ignaro da vida e, antes do final do ato, me retirar discretamente e pousar minha carcaça nos trilhos urbanos que cruzaram comigo em cada abraço, em cada beijo, e em cada amor caçado nos meandros noturnos da cidade que nunca dorme, e, que me engole.
Minha poética é pouca para ser contada num pequeno drama de um ato. Por isso colo sentimentos que pairam além de mim e para mim. Busco nas linhas indefinidas o traço certo da palavra como o bêbado traça na calçada seus trôpegos passos.
E escrevo na luz da ilusão cujos brilhos refletidos por faróis opacos dos nervos ao cruzar estradas ansiosas e infinitas. Eu sou o que sou não sou o que gostaria de ser e, muito menos, o que gostariam que eu fosse. Eu sei dos meus limites todos os dias quando meus olhos se abrem para a felicidade branca das manhãs. Apesar da incapacidade de ser indivíduo ágil e de gestos largos e confiantes, sei onde piso e sei desviar das pedras escorregadias, mesmo que a tentação seja atraente, sei me controlar. Ainda não perdi a consciência dos fatos e nem dos atos. Não tenho noção precisa das conseqüências, talvez isso castro meus projetos.
A timidez, na mesma proporção em que ela cresce a cada projeto elaborado, ela diminui a cada projeto finalizado. É um equilíbrio que algumas vezes despercebido, pende para um prato mais que a para o outro. E para que fiquem na mesma linha de equilíbrio, há uma batalha onde saio lesado e frustrado. Possa não parecer, mas não deixo de lutar. Aquele que não luta é um morto-vivo rastejando na própria desgraça em sentir-se vivo.
A Besta apocalíptica comanda essa geração de loucos varridos que só buscam prazer instantâneo e fácil. Louvores são entoados ao consumismo fedido das drogas injetáveis, inaladas, degustadas e por outros meios menos convencionais.
Sou o que sou e isso me basta.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 11

 O telefone toca

 
O telefone toca sobressaltando-me. Quem será é a primeira coisa que pergunto mentalmente. Ninguém me liga, quem poderá ser? Talvez alguém pedindo doação para instituições cancerosas, aidéticas, ou banco vendendo o peixe que não quero comprar, ou jornal de noticias manjadas de políticos, assaltantes, assassinos que nunca são presos, oferecendo assinatura grátis, enfim, pensei uma pancada de coisas, mas nunca acerto quem possa ser. Esse maldito aparelho quase sempre traz desagradável noticias com sua campainha irritante. Como não tenho outro jeito, interrompo o barulho ensurdecedor.
- Sim!
- Quem fala?
- Osvaldo.
- Seu Osvaldo, aqui quem fala é o médico.
- Sim!
- O senhor poderia passar aqui no consultório pegar as guias para o check-up anual?
- Sim senhor.
- Obrigado.
- De nada.
Desliguei o telefone pensativo. Que merda? Fazer exames anuais é o saco. Fazer o que não é? Prevenção é prevenção e é sempre bom prevenir, é o que me dizem. Mesmo assim deixo passar vários dias, talvez uns quinze dias para pegar as guias.
- Bom dia, Doutor. – cumprimentei ao entrar no consultório.
- Bom dia, por favor, sente-se. Tudo bem com o senhor.
- Acho que sim, Doutor. Tirando a dor na perna por causa da coluna e essa barriga que não consigo diminuir acho que está tudo bem.
- Então é sempre bom fazer um check-up, não é?
- Se é o Senhor que diz o que posso fazer.
- Eu sei a maioria não gosta de fazer exame, mas prevenir é sempre bom.
- Tudo bem.
- Aqui estão as guias para os exames de sangue, fezes, urina, hemoglobina, próstata, esteira, é só apresentar as guias no laboratório com a carteira do convênio e um documento. Tudo bem?
- Tudo bem, Doutor. Tem uma data para entregar os exames?
- Não, pode até entregar no fim do ano, mas tem que fazer esse ano ainda.
- Ainda bem. Bom dia, Doutor.
- Passe bem, seu Osvaldo.
Sai do consultório com as guias pensando como faria os exames. Chegando a minha mesa, joguei as guias no fundo da gaveta esquecendo-se delas por mais uns quinze dias.
Passaram-se várias semanas. Nem pensava mais nas guias, quando numa segunda-feira ao abrir a gaveta, vejo os papéis lançando chispas em minha direção.
- Me pegue não me deixe mais aqui, pareciam me dizer.
Foi então que decidi. Vou terça-feira de manhã fazer os exames. Falei com a chefa que chegaria mais tarde, pois sairia de casa direto para o laboratório. Na terça de manhã enquanto esperávamos o fretado, comentei com a minha filha:
- Quer ver, hoje que posso entrar mais tarde no serviço, o fretado vai chegar antes das oito na Paulista.
Dito e feito. Não chegou demasiadamente cedo, mas com uns quinze minutos antes das oito eu estava descendo na calçada do Conjunto Nacional. Um segundo depois empurrava a porta de vidro do Delboni. Retirei a senha e sentei-me na única cadeira vaga. Olhei o placar para ver quantas vítimas já tinham sido atendidas: 510 vitimas. Olhei minha senha: 543 faltavam ainda 33 para serem atendidas. Idade de Cristo pensei.
Quando se espera o que se pode fazer? Nada, a não ser deixar os olhos divagarem pelo ambiente olhando aqui e ali, sem esquecer o pensamento que
voa imaginando coisas que não quer imaginar. Assim foi, quando despercebido vejo o numero da minha senha sendo aclamando no painel das vitimas. Fui até o clichê indicado.
- Bom dia.
- Bom dia.
- É preciso estar 72 horas sem ingerir bebida alcoólica.
- Ih, danou-se.
- Por quê?
- No almoço bebo um aperitivo.
- É, mas não pode.
- Tudo bem.
- Tem que ficar duas horas sem urinar e beber água.
- Bom já vi que não é hoje que será coletado...
- Este de esteira tem que ser feito em outro lugar e não aqui.
- Certo.
- Você vai até o fim do corredor e pede um frasco para coleta de fezes.
- Está bem.
Peguei o frasco para coleta de fezes e sai do Delboni rindo por dentro.
- O problema não é fazer os exames e, sim, ficar sem beber 72 horas e cagar nesse frasco pequeno. Se os piadistas de plantão souberem disso vão tirar um sarro. – pensei saindo do laboratório.
Nada souberam, mas depois que lerem essa pequena história acredito que alguém vai aproveitar a chance. Mas como diz o velho deitado: saiu na chuva é para se molhar.
E antes de terminar esse pequeno relato quero contar um fato inusitado que presenciei na estação Sé do metrô. Para mim de inusitado não tinha nada, já presenciara isso na Paulista, mas na estação Sé nunca.
Duas jovens meninas nos abraços e beijos em plena plataforma. Como dizer, sem ser preconceituoso, não sei, duas lésbicas, bem duas mulheres, não mulheres, eram jovens, abraçadas, pouco se importando com os olhares dos curiosos que se sentiam incomodados. Estavam as duas bem na minha frente. Fiquei pensando:
- Elas estão certas, ninguém tem nada com o gosto de cada um. Agora imagine se fossem dois homens abraçados, se beijando! Creio que haveria comentários maldosos, apupos, piadas indecentes, repudio, mas como eram duas mulheres bastavam só os olhares de espanto e curiosidade.
 

domingo, 3 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 12

Sei que preciso

 
Sei que preciso escrever. Mas o que? O que deverei nesta telinha branca de merda escrever? Vários aspectos de determinados temas ou assuntos que rolam pela minha mente sem um objetivo aparente. Não tenho criatividade a ponto de romper as estruturas das palavras criando ou formando outras num conjunto sonoro e atrativo chamado poema. Escrevo, tenho escrito, alguns textos agradam os leitores, mas não escrevo poemas, apenas alinho palavras mortas de conteúdos uma ao lado da outra. De vez em quando acerto no alinhavo do pensamento, mas raramente isso acontece.
Escrevo. E não deveria escrever? E por que não? Escrevendo estou dizendo algo que no escondido das paredes da carne rompe em significados e alça vôos rasantes ou, vôos altíssimos..
Busco no aglomerado de símbolos emergentes, no dicionário das leituras, a mais certa das certas palavras, separando uma das outras, às vezes reescrevendo, aparando arestas difíceis no constante elaborar beleza estética, a ponto de perder a beleza do conteúdo, num aprendizado aborrecido, e criar, pelo menos tentar, um poema agradável.
É isso aí ou não é isso aí?

sábado, 2 de dezembro de 2023

Pequenas histórias 13

  Fechou os olhos

 
Fechou os olhos. Não fez nada mais. Apenas fechou os olhos. Se quisesse não poderia fazer outra coisa. Como faria com os olhos fechados? Não sabia. Nunca fui cego, pensou ao sentir a escuridão invadindo a mente. Não, a mente era a única coisa que não estaria na escuridão. Mas tudo o que vemos não faz parte da visão? Isto é, se olhamos um objeto os olhos enviam ao cérebro as coordenadas desse objeto e a mente cria sua forma concreta. Portanto se vemos o escuro, suas coordenadas são enviadas ao cérebro onde passamos a ver o escuro, entende? Portanto a mente sente e está na escuridão.
Fechou os olhos. Por que... Não, não pergunte o porquê. Não há e nem haverá
resposta correta. Talvez estivesse sentindo cansaço ou, fosse fazer meditação ou, mesmo, um pouco de sossego, talvez coisas que no momento não adiantava lembrar e, muito menos, explicar. Quem sabe!... Cansado de ver. Será? Ver os sentimentos se esfacelando nos rostos desfibrados pelo tempo. Cansado dos objetos imóveis que nada representam a não ser para o que foram feitos. Cansado das luzes da paixão escondida nos cantos da pele ressequida por desejos na solitária masmorra da alma.
Fechou os olhos. Por que... Não, não há resposta para um porque disso ou daquilo, portanto não ousava formular a pergunta. Mesmo assim, uma vez ou outra, sem querer, a pergunta vinha à mente para depois, bater na parede da indiferença e se despedaçar no chão seco de lágrimas. Meu agir obedece ao comando caótico do dia, disse para si mesmo.
Sim, estava cansado. Cansado de sentir o vazio das palavras ricocheteando nos incongruentes lixos dos dedos. Cansado da casa embolada pela umidade do desrespeito onde nada se faz do que deveria ser feito. Cansado do suor azedo, amorfo das fronhas emboladas no desprezo de tê-las tão somente para o descanso noturno. Cansado das músicas inexpressivas que já não o inebria mais feito terapia que pudesse ser levado a sério. Cansado dos livros de palavras insignificantes amontoando-se na estante carcomida de poeira e cupim. Cansado dos filmes de ações fúteis encharcados de efeitos levando-o ao desespero mórbido.
Sim, estava cansado. Por isso fechou os olhos. Passaria o resto da vida de olhos vendados retaliando seus passos, seu pensar, suas ações, e o seu sentir em finíssimas fatias até o momento em que deixaria de existir.
Sim, estava cansado... Fechou os olhos, esticou-se no parapeito da morte esperando o momento certo para se despencar lá de cima.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...