sábado, 31 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.708(2021)

           

            Ele desceu na estação do metrô. O relógio marcava onze horas e quinze minutos. Subiu a escada rolante. Passou pela catraca, virou à direita. O movimento era intenso. Ainda bem que a passarela estava livre dos vendedores ambulantes. “Fique em casa, se precisar sair use máscara.”             É o que diz vários avisos espalhados nas conduções, ônibus e metrô. Então vamos sair a máscara nos protege. A vacina está aí. Aos poucos, mas está aí. Muitos poucos já foram vacinados. Principalmente os idosos. Surgiram tantos que perguntavam: “De onde saíram tantos velhos?” assim as autoridades descobriram o mundo dos velhotes.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Vidas amargas

 

Ao Leste do Éden a vida marca sua trajetória na pele da cidade. Na fome de amor, rasga o peito cultuando a rejeição bíblica imposta na voz forte do patriarcado. Cinco vidas buscam o sol da compreensão desafiando a guerra que se desenrola enquanto o cultivo semeia ódio, raiva e o amor desprezado.

  

Baseado no romance de John Steinbeck e dirigido por Elia Kazan, Vidas Amargas é o primeiro dos três grandes filmes que criaram o legado de James Dean no cinema. O ídolo, então com apenas vinte e quatro anos de idade, interpreta Cal, um desajustado jovem do Vale de Salinas que clama pelo afeto de seu rigoroso pai (Raymundo Massey) ao lado de seu favorecido irmão (Richard Davalos). Ainda complementado pela surpreendente sensibilidade de Julie Harris, a performance de Dean lhe valeu mais uma das quatro indicações ao Oscar que ele teve ao longo de sua curta carreira. Em meio a tantas e estupendas interpretações, Jô Van Fleet ainda ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.

 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.707(2021)

           

            Martim levanta a cabeça. Olha para os lados. Uma pequena onda de frio congela o corpo levando-o a puxar o zíper da blusa até quase o pescoço. Como sempre divaga nas palavras cujas letras arredondadas se esparramam nas linhas do caderno em busca do que escrever. A falta de técnica, de coordenação, de ritmo, pontuação, concordância não o impede de em um amontoado de letras formarem palavras uma ao lado da oura. Ideias vão e vem, soluções absurdas, contos sem profundidade literária, crônica salpicado de devaneios o leva a inquirir se o que escreve é literatura. O dia nublado não o ajuda. Por outro lado, o ônibus demora para sair. Aos poucos vai lotando. Alguém reclama da demora. Outros, a maioria, perdem o pouco da vida que ainda tem entretidos no celular. Por fim, o veículo começa a se movimentar. Apressado o motorista pisa no acelerador. Em menos de cinco minutos chega ao destino. Em passos lentos sobe a avenida. O senhor que faz o jogo hoje não está no seu ponto habitual no bar da esquina.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 27 de julho de 2021

Vozes

  

As vozes deliberam o meio dia do almoço.

Vozes surdas de sentimento elevam a palavra ao limite da fome.

Sou a fome de ser apenas por ser na busca inevitável em deixar de ser.

Ser que transita conseqüências no conflito de suas paixões.

Ser que articula os membros movendo-se de um lado para o outro.

Ser que desfibra a fibra de moléculas em discernimento próprio sem grandeza nenhuma.

Ser que ostenta a indumentária hipócrita de homem, de ser somente ele, vivendo e morrendo para ele somente.

Sou a fome de ser eu...

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.706(2021)

          

            O silencio toma conta do ambiente frio da sala sem que... Sem que... O que? Empunhando a caneta, a mão para a pouca distância da folha do caderno. Não sei o que escrever. Queria saber... A caneta começa a falhar novamente e novamente esfrega a caneta no tampo de vidro da mesa e ela volta a soltar a tinta, isto é, a escrever. Isso acontece várias vezes. O que nada o fará parar de escrever... Precisa dormir. Sem sono, diz a si mesmo. Amanhã tem algo importante a fazer. Já deveria ter feito, mas covarde como era, teve a audácia de pedir a opinião a terceiros que o fez adiar o que deveria ter feito. Mas amanhã o fará sem falta. Está marcado e combinado. Vou dormir, pensa fechando o caderno.

domingo, 25 de julho de 2021

Auto-ajuda.

Uma das coisas irritante na Internet é receber anexos de PPS.

Para quem não sabe, PPS é a extensão de arquivo do programa Microsoft Power Point, aquelas apresentações onde a imagem e o texto, um se sobrepondo ao outro, sem que se clique ou tecle Enter, vão surgindo na tela do monitor.

Até gosto, mas na maluquice das pessoas não fico um dia sem receber um ou dois ou até cinco por dia. Alguns são interessantes, outros se sobressaiam pelo conteúdo, à maioria vai direto para a lixeira. Esses dias recebi um que dizia:

PILATES PARA O CÉREBRO

Leia até o final, é muito interessante.

Adoro esse cara, o Pilates e, como sou seu fã e obediente li até o fim.

ESTÁ ESQUECIDO?

Como se chama este filme no qual a artista que aparece é belíssima?... Sim, homem! Alta, de cabelos negros a, que trabalhou algumas vezes com... Aquele ator maravilhoso que se chama... Que trabalhou numa peça de teatro muito famosa. Já sabe de quem falo, não?

E numa série de slides, o autor dá outros exemplos que não vou escrever aqui para que não fique maçante e vire um romance, coisa que ninguém lê nessa terra chamada Brasil.

Isto sucede por uma simples razão: falta de uso, precisamos usar mais o cérebro. É muito simples.  Assim como se atrofia um músculo sem uso, as dentritas também atrofiam se não se conectam com freqüência, e a habilidade do cérebro para receber nova informação se reduz. É certo, o exercício ajuda muito a alertar a mente; também há vitaminas e remédios que aumentam e fortalecem a memória. Entretanto, nada como fazer com que nosso cérebro fabrique seu próprio alimento: As neurotrofinas.

Essas senhoras desconhecidas produzem e secretam as células nervosas e atuam como alimento para manterem-se saudáveis. Portanto, quanto mais ativas estejam as células do cérebro, mais quantidades de neurotrofinas produzem e isto gera mais conexões entre as distintas áreas do cérebro. E o que podemos fazer? Exercício, Pilates, colocarmos o cérebro pra funcionar, deixar o coitado mais ágil, flexível, aumentar sua capacidade de memória.

Mas preguiçosos como somos pensamos:

Mas já faço uma porção de coisas: trabalho, pego condução, vou para o serviço, fico preso oito horas por dia, faço isso faço aquilo, lavo passo, cozinho, transo, cuido dos filhos, e eteceteras de outras coisas.

Acontece que isso é rotina, todos os dias fazemos as mesmas coisas, o cérebro não produz mais as senhoras neurotrofinas, porque as atividades rotineiras são inconscientes. E para que o cérebro produza as neurotrofinas, é preciso exercitá-lo. E o autor propõe uma série de exercícios:

tomar banho com os olhos fechados, sentir a textura dos objetos, do sabonete, localizar a torneira;

utilizar a mão esquerda, comer, escrever, abrir e fechar gavetas, tudo o que fizer com a direita fazer com a esquerda;

ler em voz alta;

trocar as rotas, o caminho da casa para o serviço, não almoçar no mesmo restaurante todos os dia;

fazer coisas diferentes, sair, conhecer gente nova, ir a lugares desconhecidos, subir escada ao invés do elevador;

e muitos outros exemplos de exercício.

Ao término da apresentação, esse distinto senhor, que acho de uma inteligência extrema, o senhor Pilates, me convenceu que pelo menos um dos exercícios deveria fazer.

Há um tempo, fiz um, também muito recomendado: andar pela casa de olhos fechados, fazer com que o cérebro “veja” onde estão os móveis, as paredes, as cadeiras, as portas...

Chegando um dia, vindo do serviço, resolvi por em prática tal idéia, nem acendi a luz e para reafirmar mais, fechei bem os olhos. Tudo escuro, beleza. Já estava na sala, tudo nos conformes, meu querido cérebro “via” onde estava às coisas, me indicava, vá para a esquerda, isso, agora para a direita, cuidado... E um tremendo FILHA DA PUTA soou pela casa toda, seguido de barulho de cadeira quebrando e eu estatelado no chão. Ainda bem que o prejuízo foi só a cadeira...

Nesse ponto abro um parêntesis: - o ser humano é um imbecil, não é mesmo? – fecho o parêntesis.

Para que o leitor possa entender, preciso descrever duas coisas importantes a este texto: primeiro, a gata e, segundo o confortável e belo banheiro da casa.

Julie, a gata, já está aqui mais de três ou quatro anos, chegou era ainda pequena. Se ela está com fome ou com sede, chega perto da gente miando baixo, um miado fraquinho, pedinte. Se a gente não se mexe, fica miando até que notamos sua presença. E quando vamos ver o que ela quer, se está com fome para perto do pires, ou se está com sede entra no banheiro, sobe no vaso e fica esperando a gente abrir a torneira da pia para beber água. Outra coisa, quando está trancada dentro de casa, ela sobe na pia e abre o vitro e sai. Por isso deixo sempre o vitro do banheiro aberto, para Julie entrar e sair. E por esses dias apareceu um gato preto esmiuçando o quintal e, não é que o danado aprendeu a entrar pelo vitro do banheiro, comer a ração da gata e sair pelo vitro! Já peguei diversas vezes na cozinha se regalando com a comida da Julie.

Ah! O banheiro! O banheiro de casa é confortável, espaçoso, estupendo, tanto é que levo quase duas horas tomando banho, pois de baixo do chuveiro é possível esticar a mão e apertar a descarga, é só esticar a mão para frente consigo abrir o vitro, é só esticar a mão para a direita consigo abrir a torneira da pia, de tão grande que é o banheiro, e, outro detalhe, não é nem preciso sair debaixo do chuveiro. Então...

Mas voltemos ao PPS, ao senhor Pilates, meu querido inteligente amigo Pilates.

Já passava mais das oito horas, não estávamos no horário de verão, portanto já era noite. Antes mesmo de entrar no banheiro fechei bem os olhos, apaguei a luz e entrei apalpando a parede, a pia, tateie até achar a torneira do chuveiro, abri e a gostosa água desabou sobre meu corpo. Estava me saindo bem, me regozijando com a experiência, conhecendo a textura dos objetos, sabonete, xampu, a bucha... Mas, sempre tem um mas, não é. O gato preto entra pelo vitro, não sei por que, pulou em mim, talvez assustado, me assustou e quando percebi acordei numa cama de hospital. O braço esquerdo e a perna direita engessado.

Minha filha e meu genro arrombaram a porta sanfonada e me encontraram com a cara dentro do vaso, a mão esquerda coçando minha nuca e o calcanhar direito cutucando minha bunda. Tanto eles como eu não sabemos exatamente o que aconteceu. Sei que agora, toda vez que olho para minha filha e meu genro fico envergonhado por terem me encontrado pelado e numa posição valha meu Deus, ridícula demais, isso sem contar com as chacotas, o vexame...

Ah! Se pego esse Pilates...

sábado, 24 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.705(2021)

        

            O carro enfrentando o trânsito lento ao cruzar a avenida principal passava pelo viaduto. A manhã clara, apesar da temperatura baixa, dava-lhe a esperança de que o dia seria proveitoso. Olhando através do vidro da janela meia abaixada, o vento gelado nos cabelos grisalhos, via os contornos dos prédios envoltos pela camada fina do nevoeiro, a mente se impregnava nas maquinações de palavras uma após a outra surgindo sem critério que procurava se fixar no abstrato para mais tarde passar para o caderno. Sabia ser um estratagema difícil, pois, assim que colocava o caderno de anotações a sua frente, acomodado na cadeira preferida, com a caneta entre os dedos, as palavras fugiam, se desvaneciam e não conseguia lembrar de nenhuma delas. O vazio da inspiração o atormentava em devaneios surrealistas.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Contos surrealistas 31

                                 Pernas e boca.

 - Foi então que eu desenhei Pernas e Boca. Fiz o desenho rápido, sem dificuldade, esbocei, defini as linhas, corrigi, tirei as arestas, aparei e pintei. A intenção ao iniciar o desenho, era usar uma cor só, mas no momento em que a caneta tocou as fibras do papel é que decidi pelas duas cores. Descartei o vermelho por achar o pigmento muito intenso, muito forte. Por isso optei pelo azul. Enquanto assistia um pornô explicito pela teve a cabo, esbocei, desenhei e terminei o que chamei de minha obra prima. Ultimamente esse é o meu método de trabalho.

- Desde quando passou a usar esse esquema? – perguntou o repórter.

- Desde o dia em que conheci Rosiane. Nossa que mulher!

- E nesse dia vocês transaram?

- Sim, claro. Creio que não poderia ser de outra maneira. A alquimia, tanto da parte dela como da minha, foi estupendamente favorável. Que noite maravilhosa. Outra vai ser difícil acontecer.

- Por quê?

- Por que propus tudo a ela, casamento, troca de aliança, de anel, morar juntos, alugar apartamento no litoral, carro, estava decidido a tudo se ela dissesse apenas um sim, um pequeno e simples sim. Largaria tudo e ia morar com ela. Mas, ela não aceitou. Não entendo as mulheres. Interessam-se pela gente, se entregam, dizem mil coisas, prometem não esquecer, de telefonar, mandar e-mail... Para depois sumirem. Olha já estou cansado com esse tipo de pessoa, cansado... O engraçado é que com Rosiane parecia ser diferente. Tudo bem, me iludi, coloquei o burro na frente da carroça, talvez tenha ido com muita sede ao pote, sonhei alto, acho que foi isso. É uma pena, tinha tudo para dar certo, mas...

- E porque não deu certo?

- Não sei. Por causa de uma foto que mandei via torpedo. Foi o que me disse. Engraçado, se dizia cabeça aberta, atitude despudorada, expressando o que lhe vinha à mente. Sabe o que ela me disse?

- O que foi que ela te disse?

- Lembrei de uma personagem que fez muito sucesso entre os internautas, a Malu, de A Dama do Metrô.

- Lembro sim, houve até um boato que seria um seriado de televisão. Mas parece que foi só boato.

- Então, ela disse: quero beijar o espaço entre os teus testículos e o teu ânus. Não é bem típico da Malu?

- Realmente.

- Então pensei, ela vai gostar se eu mandar uma foto do meu pênis. E só mandei porque tive a impressão que estava me dando o fora, que não estava querendo mais se encontrar comigo. Veja bem. Tínhamos combinado de nos encontrarmos tal hora naquele dia. Eufórico, todo contente, tomei banho, me aprontei e, ansioso consultava a todo o momento o relógio. Pois, bem, uma hora antes ela me liga dizendo que não poderia ir por causa do serviço, tinha que entregar um projeto e que iria sair tarde. Sou paciente até demais, confesso, mas desconfiei. Disse a mim mesmo. Pronto, mais uma que ficará só no primeiro encontro. Essa foi a sua primeira desculpa para não me ver mais. Foi então que com raiva mandei a foto. Sei que errei, mas será que não pode relevar e reconsiderar o que houve, mesmo que pouco, entre a gente? Não, não pode não é? É uma pena, não posso fazer mais nada.

- Por causa disso é que mudou o método de trabalhar?

- Sim, com esse método parece que fico mais perto dela, não sei, mesmo não querendo me ver mais, é como um orgasmo entende? Não entende claro que não, acho que nem Freud entende.

- Quando vai ser o lançamento do novo livro?

- Talvez para o fim do ano.

- E a exposição?

- Será mês que vem, não sei por que, mas está sendo muito esperada essa exposição.

- Vai expor seus últimos trabalhos?

- Sim, principalmente esses que desenho assistindo filmes pornôs.

- Jorge João Jorge, obrigado pela entrevista e desejo que a exposição seja um sucesso.

- Eu que agradeço.

- Assim, caros ouvintes, O Entrevistado de Hoje apresentou o controvertido e badalado artista plástico Jorge João Jorge. Obrigado a todos e até o próximo programa.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.704(2021)

           

            Não estou aqui onde deveria estar. Estou num lugar ermo e me arrependo em estar onde deveria de estar. Que merda! Bebi uma garrafa de vodca da mais barata. Putz! Isso me deixa à mercê dos fatos que gostaria que fosse agora. Grito, pergunto sem ouvir respostas: onde esta que não te vejo.

            No fundo da garrafa vazia sentiu a solidão de se estar no agora aqui e se impôs a ficar mudo na quietude das palavras não ditas. E no silencio da vida se entregou embebido pela saudade de estar onde queria estar, mas não sabia se esse estar onde deveria estar, era ou seria de agrado de você que está onde quer estar. Merda! Tudo é um atropelo de sentimentos fatos embriagados pelo desejo da tua carne na minha se entregando numa volúpia de prazer e satisfação que não se pode definir como real. Merda! Morrerei ou quem sabe já estou morto e não sei. Morrerei quantas vezes necessário for para te encontrar sempre onde estivermos. Te amo, seu puto.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Contos surrealistas 32

                                 SÓ RESTA O LAMENTO

  

Sabe, agora só resta o lamento

E o silêncio das respostas quebra

As folhas cujas fibras dobram-se

Ao rigor do vento da incerteza

 

Sabe, agora só resta o lamento

Onde a música pulveriza os poros

Em gritos mudos de amor desejado

E perdidos na bruma da noite estrelada

 

É só resta o lamento do silêncio

Agora é fechar outra vez o coração

Que não sangra o vermelho paixão

 

Só resta o lamento da boca fechada

Sem os beijos proferidos no quarto

Do motel sujo fedendo a esperma

terça-feira, 20 de julho de 2021

Contos surrealistas 33

 

Desculpe-me

 

Os dias infindáveis de tédio

Furavam a pele descolorida

Levando-me às escondidas

Percorrer caminho sombrio

 

Não tinha luz, não tinha paz

E como não querendo nada

Tua presença foi-me revelada

E a alma sentiu-se apaziguada

 

Disse: agora tenho a felicidade

Não percorrei mais a cidade

Em busca de tolas companhias

 

Sou o cara mais feliz, dizia

Mas o que é bom logo acaba

Desculpe-me, se não estava

 

Em mim o que procurava

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.703(2021)

           

            Feliz Dia dos Namorados. Eu sabia que você sabia que eu não dava bola para essas datas festivas, principalmente Dia dos Namorados. Isto não quer dizer que não gostássemos um do outro, pelo contrário, mesmo sem essas frescuras existia a química entre nós, tanta é que não esqueço nenhum dos momentos em que passamos juntos. Eu sei foram poucos, mas esses poucos para mim foram intensos, para você não sei, mas gosto de pensar que sim. Lembra aquela noite em que saímos do restaurante, talvez pelo excesso da bebida ou porque estávamos mesmo alegre, perturbávamos tudo e todos. Até o segurança do metrô nos deu uma advertência por estarmos correndo na plataforma da estação, lembra? Cantávamos como louco e os passageiros nos olhavam com cara de quem comeu não gostou, e quando em pé, no meio do corredor nos beijamos. Putz! Aí foi a maior algazarra. Quase nos expulsaram do vagão. Ah! que saudades.

            É isso... ou, não é?

domingo, 18 de julho de 2021

Contos surrealistas 34

                                 O silêncio

 

 

Corrói-me o silêncio do teu corpo

O silêncio da tua pele

O silêncio das tuas caricias

O silêncio do teu perdão

 

Quebra-me em pedaços

A mudez dos dias

Como flecha o que foi feito

Não volta mais

A flecha acerta o alvo

E o ato no tempo

Desmancha-se no passado

 

Não esqueça o que eu fiz

Mas não se esqueça

Do que juntos podemos fazer

 

Quero novamente teu corpo

Novamente quero tua pele

Tuas carícias quero novamente

 

No silêncio do teu corpo

Costuro a pele em caricias

Rogando-te o meu perdão

terça-feira, 13 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.702(2021)

           

            Estava duas ou três horas, não sabia precisamente certo o quanto atrasado. Achava que o atraso não mudaria nada entre eles, claro se fosse persuasivo e a fizesse entender que não foi por sua culpa. Isto é, queria que ela entendesse que não foi culpa dele, mesmo sabendo ele que foi. No entanto, como era uma mulher ingênua, dava-lhe a oportunidade de testá-la toda as vezes que marcavam encontros. Dizia que o teste era para saber o quanto de paciência ela possuía. Até que num dos encontros ele que ficou esperando duas ou três hora no local de sempre, quando ouviu gemidos e ao averiguar de onde vinha, deu de cara com ela quase de quatro tendo um cara socando-a por traz vertiginosamente. Nunca mais a viu. Quando os amigos lhe perguntavam sobre o teste, ele dizia: Ela não tinha a paciência necessária que eu desejava.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Contos surrealistas 35

 

Tenho tanta coisa

 

Tenho tanta coisa pra te dizer

Mas o sol surge claro e bonito

As nuvens emolduram figuras

E a brisa resvala entre as folhas

A essência da vida que perdura

 

Tenho tanta coisa pra te falar

Que nada lhe digo a não ser

O nada que o dia inteiro perdido

Leva-me desvairado te escrever

 

Esse poema que como as nuvens

No céu claro e bonito desaparecerá

E a vida, queira ou não, continuará

domingo, 11 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.701(2021)

          

            Quando seus dedos finos e longos empunhava a esferográfica não tinha noção do que iria escrever. Sua mão leve e larga deslizava sobre as linhas do caderno de anotações fazendo com as palavras surgissem numa ordem vinda do cérebro cunhando quase que desordenadamente numa fricção de prazer alimentando dessa maneiro o ego.

            Havia momentos que ao olhar para a caneta com a carga azul pela metade, mesmo pressentindo que tinha que escrever, sem saber o que e muito menos como, as palavras surgiam quase como milagre e ao mesmo tempo percebia que elas nada lhe diziam. Nesses momentos, seus olhos se embruteciam numa névoa de tristeza e melancolia levando as pessoas a confundir os sentimentos angustiosos como indiferença ou mesmo timidez.          Precisa ser mais claro, dizia a sim mesmo. Concordava e não concordava criando uma confusão mental que tolhia o que deveria e o que não deveria registrar no caderno de anotações. Reconhecia o incansável lapidar que em certas vezes sabia não ser necessário, o qual, de certa maneira, se arrependia por não o fazer. Teria que abrir o coração num silencioso grito expondo entre linhas o sentir do poder da palavra: Te amo.

sábado, 10 de julho de 2021

Contos surrealistas 36

                                     Miau.

 

Na árvore o vento balançou as folhas e o gato num pulo certeiro abocanhou o pássaro que distraído comia o fruto. Em algum lugar o pio solitário dos filhotes, a espera de alimento, se perdeu no vento que balançou as folhas da árvore.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.700(2021)

 

            Bêbado se embrenhou na fantasia em ter a supremacia de ser o que se imaginava e a decepção em ser o que não era o levou ao desespero de se sentir impuro e maligno consigo mesmo, no entanto acolheu esse sentimento perigoso em estar no presente de si ao qual era grato e todos os dias elevava os pensamentos em gratidão a tudo e a todos ainda que os joelhos se machucassem nas pedras todas as manhãs agradecia por estar vivo... amém.

            É isso... ou, não é?            

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Contos surrealistas 37

                                 Conspiração

 

A trama apontava várias evidências onde os caminhos, curtos ou longos, eram interpretados cada um a sua maneira, além do que, seguia quem quisesse, não havia obrigação. Por isso, a ênfase foi dada na livre escolha. E por causa dessa livre escolha, era o que achava, caminhava agora por uma estrada poeirenta, cheia de buracos, que o obrigava desviar, sendo que às vezes saia da estrada.

- Que inferno!

O sol do meio dia batia na capota do carro incansavelmente. Não havia nada nem à direita, nem à esquerda e, também nem à frente, apenas a estrada poeirenta, reta, rumo ao infinito. Odorico desconfiava, desconfiava não, tinha certeza, fora envolvido na conspiração sutilmente, discutindo os prós e os contras, opinando sobre isto e aquilo, quando percebeu, estava envolvido. Como fora panaca! Agora era seguir as instruções e, talvez, se for inteligente, usando a astúcia, quem sabe conseguiria dar a volta por cima e pegar todos de surpresa. Encheu-se de otimismo. Sorriu e seu olhar se perdeu no infinito da esperança enquanto mudava a marcha do carro e, sem se importar, saiu mais uma vez da estrada para voltar logo em seguida.

Abriu a mochila térmica e pegou três comprimidos e engoliu. O sabor áspero adocicado das pílulas desceu arranhando a garganta. A provisão de água acabara há muito tempo. Era urgente chegar ao infinito logo. Não queria morrer sedento. Acelerou o carro. Ouviu o motor engasgar por uma ou duas vezes. O ponteiro marcava pouco combustível. Que merda! Foi de propósito, foi de propósito, colocaram pouco combustível de propósito piscou seus olhos que o olhavam no espelho retrovisor. De propósito...

Uma comichão persistente o incomodava. Uma coceira irritante no nariz. Queria mexer o braço e não conseguia. Apenas a respiração levantava uma tênue poeira. Tinha caminhando por um bom tempo quando as forças se esgotaram e, como caiu ficou, de cara na estrada. Não se ouvia nada, um silêncio oprimido queimava suas costas. Apenas a mente delirava:

- Foi de propósito...

Até que nem mais se ouvia o delírio da mente.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.699(2021)

             O sentir o invade num desalento pesando nos ombros ao ver pessoas no seu vai e vem desordenado sem prever as consequências dos passos incautos ao se arriscar em cada curva enfrentar o desconhecido da alma e não o físico.

            É isso... ou, não?

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Contos surrealistas 39

                                 Pão de mel.

 

Chegou à beirada do papel. Viu o abstrato chamando-o. Sorriu. O mar brilhava na planície do corpo como espelho refletindo seu semblante confuso. Deu dois passos para direita. Outro dois passos para esquerda. Nisso a porta foi aberta. Uma lufada de vendo rasgou seus pensamentos e caíram na cama suja de corpos desconhecidos. Olhou para cima. Um rosto feminino de olhos escuros sorria para ele.

 - Você não sabe como é doce, muito doce.

Ouviu a porta sendo fechada. Sorriu e se jogou no abstrato do papel escrevendo na parede: Vingança.

domingo, 4 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.698(2021)

 

            Ver, observar e criar no papel curvas, sombras, formas geométricas egocêntricas ou indefinidas que se sobressai em volume o que a mente imaginou. Ver, observar criativamente em palavras registrar sentimentos o mundo que nos envolve levando-nos de um lugar ao outro dentro das necessidades de cada indivíduo. Ver, observar a função de todo artista ao despovoar a mente dos fantasmas.

            É isso... ou, não é?

sábado, 3 de julho de 2021

Contos surrealistas 38

Consegui.

Esperava mais de uma hora. Olhou o relógio, faltavam mais ou menos uns quinze minutos. Logo teria de pronunciar o discurso. Olhou para traz, o salão estava cheio. A tensão comprimia o ombro direito que doía. Deu um puxão na gravata azul lilás. Será que o discurso vai agradar? Olhou mais uma vez para trás. O vazio encheu o peito de aflição. Estava sozinho. Pena o pai e a mãe não estarem ali.

Os olhos dele estavam inchados de tanto chorar. Ninguém o compreendia. Tudo bem ele errou, mas será que não podiam dar um pouco de atenção? Pelo menos deixar que se explicasse. Era algo incontrolável, sabia disso, só não sabia como fazer para que o entendessem. A mãe pediu para comprar carne para o jantar. Dera-lhe o dinheiro certo e ele ao invés da carne, trouxe cinco gibis. Apanhou é claro, além de devolver os gibis, o que o deixou magoado. Sofria de compulsão, não podia passar em frente de banca nenhuma.

O suor empapava a camisa por baixo do paletó. Tinha que discursar, quer dizer, ler o discurso que preparou. Como sempre o nervosismo fazia as veias pulsarem mais forte. Para piorar seria o primeiro a receber o prêmio. Que merda! Não podia ser o último? O presidente nesse momento falava da importância do evento, que se sentia honrado em premiar tão ilustres cabeças do universo. Todos os anos se escolhiam, em várias categorias, os melhores, os que mais se destacavam. Ele já não ouvia mais a voz fanhosa e áspera do presidente. Seus ouvidos aguçados esperavam seu nome ser pronunciado. Mais uma vez olhou para traz. Pena o pai e a mãe não estarem ali para ver que ele conseguira.

Dos gibis passou aos livros. Todos diziam que ficaria louco de tanto ler. Vá jogar bola com os teus primos, dizia o tio. Não queria saber de bola nenhuma. Isso é coisa de veado, sentenciava outro tio. O pai nada dizia, só queria saber se ele já tinha pelo no saco e se estava comendo as meninas do bairro. Cada vez mais recluso se enfiava nas histórias clássicas fantasiosas e modernas que aos poucos descobria.

 

Nisso em uníssono as palmas vibraram. Sentiu-se cutucado. Chegou o momento supremo, o esperado. Dirigiu ao pedestal. Colocou as folhas sobre a pequena tribuna e, com voz embargada começou a ler o discurso.

- Senhores e senhoras... Eu consegui... Pai, mãe consegui... Consegui... Eu o primeiro brasileiro a ganhar esse prêmio... Consegui...

- Da reportagem local. O escritor brasileiro PastorElli, ontem ao receber o prêmio máximo de literatura, sofreu um infarto sendo levado as pressas ao hospital. Conforme boletim médico pronunciado hoje de manhã aos jornalistas, o diagnóstico do escritor é favorável, apesar de sobreviver ao infarto, no entanto, devido à paralisação total do corpo, passará o resto de sua vida preso a uma cadeira de rodas.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.697(2021)

            Talvez, penso eu, não sairei de casa hoje a não ser ir ao supermercado, escreveu no caderno de anotações. Dizia, não só para ele e quase sempre a quem ouvisse, precisava ficar em casa, mesmo que sozinho sem ter o que fazer e criar colocando a imaginação para funcionar, escrever, ler, ouvir música ou mesmo ver filmes pornôs. Precisava sentir-se criativo como se fosse dono do próprio nariz, fazer sua estrada, caminhar por ela livre e despreocupado no querer ser ele mesmo, querer o infinito da vida se entregando freneticamente ao amor num ato surreal e profano.

            É isso... ou, não é? 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Contos surrealistas 40

                                     Dissoluto

 

Era sábado. Não sei quem foi o boateiro que propagou a festa em casa. Não sou de ficar lamentando o ocorrido, mas... A turma foi chegando devagar. Chegavam e se aboletavam pela sala, cozinha e outras dependências. Quando fui ver a casa ficou super agitada, havia muita gente, muita conversa muita bebida, muita comida... 

Não sei, eu não estava preparado para tudo aquilo, foi de uma hora para outra. O pessoal chegava uns sozinhos, outros aos pares, quando dei conta, a casa estava cheia. Dando atenção para cá e para lá, conversando com beltrano e sicrano, arrumando uma coisa, ajeitando outra, quando me dei conta estava embriagado.

Comecei a me enojar de tudo. O que colocava na boca revirava o estômago. Eram indícios de que eu devia parar. Sentia-me terrivelmente miserável no meio da balbúrdia desenfreada. Em cada quarto havia sempre um casal entrelaçados saciando seus instintos bestiais e desenfreados.

O maldito cheiro de esperma, de podridão humana, penetrava em meu nariz me nauseando. Como pude deixar acontecer tudo isso? De repente, sem que eu pudesse atinar como, estava do lado de fora da casa. Aos poucos perdi o controle das emoções e as lágrimas silenciosamente começaram a escorrer pelo meu rosto. Chorei, chorei por um longo tempo, um choro silencioso, sem dor.  Na calçada, os cacos do copo, estavam espalhados não sei como, e minha camisa manchada de vinho. Um gandaieiro revirava a lata de lixo, talvez feliz.  

Ah! Baco! Ah! Insaciável Baco! Veja no que me transformou. Procurei me acalmar. Voltei para dentro e encontrei um relativo silencio. Como me encontrava mergulhado na total escuridão, caí nas trevas da alucinação que impe­rava no meio da sala. Rolei de braço em braço, beijei, fui beijado, acariciei, fui acariciado, sem me importar quem me abraçava, quem era quem. Não sei por quanto tempo estive nessa loucura insana. Não sei também, quem me tirou dali. Apenas percebi que perdia a consciência e que estava sendo carregado. No outro dia ao levantar, tudo girou. Corri ao banheiro. Vomitei. Depois, tomei uma ducha que me relaxou. Nu e molhado caí na cama em profundo sono catatônico.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...