Auto-ajuda.
Uma das coisas irritante na Internet é receber anexos
de PPS.
Para quem
não sabe, PPS é a extensão de arquivo do programa Microsoft Power Point,
aquelas apresentações onde a imagem e o texto, um se sobrepondo ao outro, sem
que se clique ou tecle Enter, vão surgindo na tela do monitor.
Até gosto, mas na maluquice das pessoas não fico um
dia sem receber um ou dois ou até cinco por dia. Alguns são interessantes,
outros se sobressaiam pelo conteúdo, à maioria vai direto para a lixeira. Esses
dias recebi um que dizia:
PILATES PARA
O CÉREBRO
Leia até o
final, é muito interessante.
Adoro esse cara, o Pilates e, como sou seu fã e obediente
li até o fim.
ESTÁ
ESQUECIDO?
Como se chama
este filme no qual a artista que aparece é belíssima?... Sim, homem! Alta, de
cabelos negros a, que trabalhou algumas vezes com... Aquele ator maravilhoso
que se chama... Que trabalhou numa peça de teatro muito famosa. Já sabe de quem
falo, não?
E numa série de slides, o autor dá outros exemplos que
não vou escrever aqui para que não fique maçante e vire um romance, coisa que
ninguém lê nessa terra chamada Brasil.
Isto sucede
por uma simples razão: falta de uso, precisamos usar mais o cérebro. É muito
simples. Assim como se atrofia um
músculo sem uso, as dentritas também atrofiam se não se conectam com freqüência,
e a habilidade do cérebro para receber nova informação se reduz. É certo, o
exercício ajuda muito a alertar a mente; também há vitaminas e remédios que
aumentam e fortalecem a memória. Entretanto, nada como fazer com que nosso
cérebro fabrique seu próprio alimento: As neurotrofinas.
Essas senhoras desconhecidas produzem e secretam as
células nervosas e atuam como alimento para manterem-se saudáveis. Portanto, quanto
mais ativas estejam as células do cérebro, mais quantidades de neurotrofinas
produzem e isto gera mais conexões entre as distintas áreas do cérebro. E o que
podemos fazer? Exercício, Pilates, colocarmos
o cérebro pra funcionar, deixar o coitado mais ágil, flexível, aumentar sua
capacidade de memória.
Mas preguiçosos como somos pensamos:
Mas já faço uma porção de coisas: trabalho, pego
condução, vou para o serviço, fico preso oito horas por dia, faço isso faço
aquilo, lavo passo, cozinho, transo, cuido dos filhos, e eteceteras de outras
coisas.
Acontece que isso é rotina, todos os dias fazemos as
mesmas coisas, o cérebro não produz mais as senhoras neurotrofinas, porque as atividades rotineiras são
inconscientes. E para que o cérebro produza as neurotrofinas, é preciso
exercitá-lo. E o autor propõe uma série de exercícios:
tomar banho com os olhos
fechados, sentir a textura dos objetos, do sabonete, localizar a torneira;
utilizar a mão esquerda,
comer, escrever, abrir e fechar gavetas, tudo o que fizer com a direita fazer
com a esquerda;
ler em voz alta;
trocar as rotas, o caminho
da casa para o serviço, não almoçar no mesmo restaurante todos os dia;
fazer coisas diferentes,
sair, conhecer gente nova, ir a lugares desconhecidos, subir escada ao invés do
elevador;
e muitos outros exemplos de
exercício.
Ao término da apresentação,
esse distinto senhor, que acho de uma inteligência extrema, o senhor Pilates, me convenceu que pelo menos um
dos exercícios deveria fazer.
Há um tempo, fiz um, também muito
recomendado: andar pela casa de olhos fechados, fazer com que o cérebro “veja”
onde estão os móveis, as paredes, as cadeiras, as portas...
Chegando um dia, vindo do
serviço, resolvi por em prática tal idéia, nem acendi a luz e para reafirmar
mais, fechei bem os olhos. Tudo escuro, beleza. Já estava na sala, tudo nos
conformes, meu querido cérebro “via” onde estava às coisas, me indicava, vá
para a esquerda, isso, agora para a direita, cuidado... E um tremendo FILHA DA
PUTA soou pela casa toda, seguido de barulho de cadeira quebrando e eu
estatelado no chão. Ainda bem que o prejuízo foi só a cadeira...
Nesse ponto abro um
parêntesis: - o ser humano é um imbecil, não é mesmo? – fecho o parêntesis.
Para que o leitor possa
entender, preciso descrever duas coisas importantes a este texto: primeiro, a
gata e, segundo o confortável e belo banheiro da casa.
Julie, a gata, já está aqui
mais de três ou quatro anos, chegou era ainda pequena. Se ela está com fome ou
com sede, chega perto da gente miando baixo, um miado fraquinho, pedinte. Se a
gente não se mexe, fica miando até que notamos sua presença. E quando vamos ver
o que ela quer, se está com fome para perto do pires, ou se está com sede entra
no banheiro, sobe no vaso e fica esperando a gente abrir a torneira da pia para
beber água. Outra coisa, quando está trancada dentro de casa, ela sobe na pia e
abre o vitro e sai. Por isso deixo sempre o vitro do banheiro aberto, para
Julie entrar e sair. E por esses dias apareceu um gato preto esmiuçando o
quintal e, não é que o danado aprendeu a entrar pelo vitro do banheiro, comer a
ração da gata e sair pelo vitro! Já peguei diversas vezes na cozinha se
regalando com a comida da Julie.
Ah! O banheiro! O banheiro
de casa é confortável, espaçoso, estupendo, tanto é que levo quase duas horas
tomando banho, pois de baixo do chuveiro é possível esticar a mão e apertar a
descarga, é só esticar a mão para frente consigo abrir o vitro, é só esticar a
mão para a direita consigo abrir a torneira da pia, de tão grande que é o
banheiro, e, outro detalhe, não é nem preciso sair debaixo do chuveiro.
Então...
Mas voltemos ao PPS, ao
senhor Pilates, meu querido inteligente amigo Pilates.
Já passava mais das oito
horas, não estávamos no horário de verão, portanto já era noite. Antes mesmo de
entrar no banheiro fechei bem os olhos, apaguei a luz e entrei apalpando a
parede, a pia, tateie até achar a torneira do chuveiro, abri e a gostosa água
desabou sobre meu corpo. Estava me saindo bem, me regozijando com a
experiência, conhecendo a textura dos objetos, sabonete, xampu, a bucha... Mas,
sempre tem um mas, não é. O gato preto entra pelo vitro, não sei por que, pulou
em mim, talvez assustado, me assustou e quando percebi acordei numa cama de
hospital. O braço esquerdo e a perna direita engessado.
Minha filha e meu genro
arrombaram a porta sanfonada e me encontraram com a cara dentro do vaso, a mão
esquerda coçando minha nuca e o calcanhar direito cutucando minha bunda. Tanto
eles como eu não sabemos exatamente o que aconteceu. Sei que agora, toda vez
que olho para minha filha e meu genro fico envergonhado por terem me encontrado
pelado e numa posição valha meu Deus, ridícula demais, isso sem contar com as
chacotas, o vexame...
Ah! Se pego esse Pilates...