domingo, 31 de outubro de 2021

Contos surrealistas – 05

                               "No te asustes de la noche

 Que en la noche vivo yo".

 

A noite escorre o sulco pelas bordas da paisagem de concreto onde as almas migram de esconderijo para esconderijo. Escrevo nas páginas escuras da pele, pois à noite não me assusta. Ando por intrincados meandros na descoberta do que não sei para sentir o eu pulsante. Balbucio os sons dos esqueletos dos prédios vazios com suas luzes fantasmas. Cheiro odores ao esquadrinhar bares de sangues alcoólicos na paz dos copos. Sinto no milímetro do aço a ação do tempo corroendo os braços. Escalo roteiros ao concretizar os passos de angústia pelas esquinas. Vivo cada grão luminoso em intensidade limite. Sou à noite no meu corpo se transfundindo com a noite da cidade.

Vivo simplesmente para concretizar a saudade ao meu viver.

sábado, 30 de outubro de 2021

Contos surrealistas – 06

                                 O cadeado

 

Da próxima vez tome cuidado, ele disse, pondo o cadeado sobre a mala. (O cadeado) Pequenas Criaturas, Rubem Fonseca

 

 

Alencar olhou o cadeado. Marca conhecida, não era difícil abrir. No entanto, o clipe de papel não obedecia ao comando. Com gestos leves e pequenos, girava de um lado para o outro o pedaço de metal sem ter progresso nenhum. Passou a mão pela testa. O suor começava a escorrer. Olhou para a moça sentada na poltrona a espera. Apesar de ter falado com ele numa voz desesperada, aflita, naquele momento via-se em seu semblante uma calma de que nada estava acontecendo.

Agachado, observava pelo canto do olho. Não parecia ser uma pessoa qualquer. Via-se que tinha classe. Sentada com o corpo ereto, aparência de ricaça. Às vezes, andava de um lado para o outro, demonstrando impaciência. Não dizia nada. Não o apressava. Disse a ele que precisava abrir a mala porque perdera a chave.     

Quando saia do elevador, trombou com ela que entrava. Quase caíram os dois. Nas desculpas que um dava para o outro, ao pegarem os objetos do chão, Alencar ficou sabendo que ela necessitava de um chaveiro. Chaveiro? Sim chaveiro, mas como é domingo só poderei chamar um na segunda, amanhã, disse numa voz angustiada, se não abrir a mala hoje estou ferrada. Foi então que se prontificou a ajudá-la.

E estava ali a mais de meia hora. Via-se frustrado pensando numa desculpa quando ouviu o clique. Sorriu. Consegui, pensou triunfante. No mesmo instante ouviu outro clique perto do ouvido. Olhou espantado para o cano do revolver encostado na cabeça.  

Se afaste da mala, disse a moça numa voz forte e decidida. Obedeceu. Deu dois passos para traz. Apontando o revolver para ele, agachou-se devagar e abriu a mala. O que viu o deixou de boca aberta estava cheia de dinheiro. Vários pacotes de nota de cem reais. Rapidamente fechou a mala e levantou-se segurando pela alça. Numa rapidez impressionante, sem que desse tempo de uma reação, ela desferiu um chute no meio das pernas dele obrigando-o rolar pelo chão.

Não lembra quanto tempo ficou rolando de um lado para outro. Quando se sentiu melhor, levantou-se, saiu do quarto, pegou o elevador, e ao chegar à calçada, em frente ao hotel, reparou que chovia. Que merda, esqueci o guarda-chuva, disse erguendo a gola do paletó.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Contos surrealista 07

                                 O almoço.

 

Fogo gritou. Ninguém ouviu. Quem ouviria? Quem? Ninguém. A Juliana na cozinha preparava a comida que só ela sabia fazer. O João espremia o limão para a gostosa caipirinha que só ele sabia fazer. A Dirce lavava a alface e descascava a cebola e cortava em quatro para a salada que só ela sabia fazer. Ricardo acendia o forno para aquele churrasco que só ele sabia fazer. As crianças, dois meninos e duas meninas, brincavam da maneira que só elas sabiam fazer, barulho e correria.

João Augusto berrou: Fogo. Saiu correndo seguido pelo Pedro, Marina e Vitória. Juliana ao se virar, quase foi derrubada pelos meninos. Olhando para Dirce, deixou escapar: Essas crianças são fogo! O que fez com que Dirce concordasse com a cabeça, pois mastigava uma folha de alface. Toda vez que olho para você ta com uma folha na boca. Desse jeito quando formos comer não haverá mais salada, disse João. A mulher fez um gesto com a mão dizendo: Não amole. Ricardo ao ouvir, disse: È vê se não come tudo, meu prato predileto é salada, viu Dirce?

João ofereceu a caipirinha para Ricardo, que estalou a língua: Cara! Boa só você mesmo para uma caipirinha. Obrigado, agradeceu e tirando duas latinhas de cerveja, abriu uma para ele e a outra para o João. Obrigado, disse ao amigo.  Nisso, Juliana com a travessa de arroz, anunciou: Vamos comer pessoal. Ricardo foi obrigado a retrucar: Ainda não assei a carne, tem lingüiça. Dirce, sem pestanejar, pediu: Mande umas para mim, com arroz e salada não tem igual. Ricardo tomou um gole de cerveja e sentando à mesa, passou a travessa com lingüiça para Dirce. Cuidado, cara! Já está embriagado é, falou João ao ver Ricardo tropeçar.

O pior não é tropeçar e cair, o pior é depois catar os estragos, a lingüiça, os cacos de travessa, contar assim como se conta letras para escrever um texto que exige a quantidade certa de palavras, falou a voz mansa de Juliana. Eu não entro nessa, não. A inspiração não tem quantidade de palavras certas, pestanejou João. Concordo, escrevo até onde acho que devo escrever. E às vezes preencho duas, três, quatro ou cinco páginas, disse Ricardo. É, mas não estamos num concurso de literatura, estamos aqui reunidos para saborearmos uma boa comida e uma boa conversa entre amigos, Juliana falou ao espetar uma lingüiça.

Nisso as crianças, correndo passaram por eles, berrando: Fogooo! Crianças vêem comer, rápido, chamou João. O que não adiantou nada. Não sei mais o que faço com elas, desabafou Dirce. De repente ouviram a campainha tocar. Um olhou para o outro e os quatro ao mesmo tempo disseram: Estão esperando alguém para o almoço? E ao mesmo tempo responderam: Não. Juliana foi encarregada de abrir a porta, e Joaquim que não tinha nada com a história e muito menos com o almoço, entrou e sentou à mesa sem ao menos ser convidado, e disse: falta uma palavra.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Contos surrealistas 08

 

1956

 

Um mil novecentos e cinqüenta e seis. Onde ele estava? Com nove anos provavelmente na querida e pequena cidade de Rio Claro, terra natal. Trabalhava? Logicamente, começou cedo ajudar no sustento da casa, já que o pai, fundidor, volta e meia, por seu temperamento esquentado, não parava muito tempo num só emprego. A mãe pedalava a máquina de costura atendendo a freguesia necessitada, às vezes um vestido, outras um casaco, um crochê ou tricô, além é claro, de cuidar da casa. Nunca faltaram na hora certa as refeições, um dia podia ser um ovo acebolado com arroz e feijão, ou feijão com arroz e um bife acebolado, aos domingos, fazia sol ou chuva, o delicioso macarrão com frango, exigência do marido. Nas ocasiões de vaca gorda, o cardápio da semana variava um pouco, nas quintas sopa, ou então um peixe assado.

Não lembrava muito bem, não na ordem certa onde trabalhou, não podia dizer que este foi o primeiro lugar, aquele foi o segundo e assim por diante. Lembra da fundição de fundo de quintal, parente da tia por lado da mãe, onde conseguiu a mancha no olho por lixar uma peça de ferro no esmerilho e uma lasca saltou em seu olho; a fábrica de peças de madeira, cinzeiro, estojo, paliteiro, vaso, colheres e outros objetos de uma família alemã esquisita, e que todos os dias no final do expediente levava para casa um saco de serragem para a mãe usar no fogão a lenha; a lavanderia dos japoneses que comiam arroz com água, onde passava o dia inteiro andando de casa em casa, ora entregando roupa ou perguntando por roupa para lavar; ou então a casa de calçados dirigida por uma senhora baixinha, viúva com dois filhos, um rapaz com pinta de playboy e uma filha estudante que volta e meia aparecia na loja datilografando seus trabalhos escolares; e por último, a loja onde se vendia de tudo desde louça até brinquedo e que um dia chegou correndo direto pro banheiro não dando tempo sujando as calças.

Provavelmente até o término do primário, de manhã tinha a escola municipal e a tarde trabalhava, deixando a lição para fazer a noite. E quando entrou no ginásio, tendo primeiramente feito o Exame de Admissão, passou a estudar a noite e trabalhar o dia inteiro.

E o lazer? O lazer aos sábados à noite, ir com os primos e amigos ao cinema com dois filmes sendo a maioria deles filmes B com predominância terror e seus monstros esdrúxulos. Aos domingos, ora saia andar de bicicleta ou, junto com o pessoal todo, família, parentes, tios, tias, primos irem para a fazenda do tio mais velho, irmão da mãe.

Talvez haja mais coisas que pudesse lembrar esse ano, um mil novecentos e cinquenta e seis, mas que, nesse momento em que o doutor extraia o tumor de suas costas, antes de fechar os olhos por causa da anestesia...

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Contos surrealistas 09

                                 O vale perdido

 

Ele se encontrava perdido. Disse várias vezes olhando os lábios no reflexo do espelho: perdido. Repetiu, agora com a voz grossa: perdido. Não importava entonação, elevar ou diminuir, com a boca torta, entre os dentes, fazendo careta ou com os olhos arregalados, realmente não faria diferença nenhuma, o perdido seria sempre perdido, não mudaria nunca.

Perdido num amalgama de sentimento sem cumprir o programado. Sabia meio solto num ambiente que não estava acostumado. Indolente nos gestos impulsionou os braços a serem ágeis. No entanto os dedos duros não obedeciam. Agiam na lentidão da atmosfera do ambiente, seco e lasso num desconforto doloso.

Sentia na mão a pele dos objetos duros, metálicos, frios queimando-o. A lâmina cortava asperamente os pêlos criando sulcos na espuma que cobria o rosto. Precisava tomar uma decisão, sair desse vale perdido de emoções. O que tinha a fazer era apenas decidir quando e o que tinha para ser feito. O primeiro passo já fora dado.

Tanto é que estava ali, na frente do espelho grande do banheiro aparando a barba. Dali a pouco ele chegaria e teria que lhe dar uma decisão. Prolongada por dois meses sua estada, tinha que escolher. Não podia ficar mais. E com ansiedade esperava ao correr da lâmina no rosto.

Propuseram um combinado. Ele viera para permanecer um mês. Ver se acostumava, depois é que decidiria ou não. No entanto de um mês passou para dois e, foi quando ele lembrou o combinado. E estipulou um prazo que marcado na folhinha tinha que ser hoje.

Olhou o relógio. Logo ele estaria chegando. Decidido não se controlava, com passadas largas percorria a sala de um lado ao outro. Nisso ouviu barulho do elevador. Parou de andar. O coração aos pulos, a espreita, ouviu o barulho da chave sendo introduzida na fechadura e, lentamente a porta foi aberta.

Ele entrou sem dizer nada. Esperou minutos infindos que lhe pareceu não acabar. Chegou-se perto dele, também sem dizer nada, o abraçou fortemente em seguida beijou-o nas duas faces.

Compreendeu assim como ele e nada disseram, sabiam o que um representava ao outro.

terça-feira, 26 de outubro de 2021

Contos surrealistas 10

                                 Deja vu.

 

Em menos de dez minutos ele foi concebido. Sua mãe suspirou dez vezes, e seu pai gozou dez vezes a cada suspiro da mulher. Dez meses depois nasceu meio que forçado, o médico disse que ele não queria sair antes que completasse dez meses. Precisou de dez palmadas para chorar dez minutos em que a enfermeira o preparou para ser apresentado pela primeira vez à mãe. Ao vê-lo, chorou longamente dez minutos sem conseguir definir se era menino ou menina, o que dez minutos depois, foi confirmado: era menino, para a felicidade do pai.

Antes de completar dês dias de vida, já andava alucinadamente para o desespero da mãe. O pai não agüentou o tranco, deixou-o entregue aos cuidados da mulher. E dez dias depois as primeiras palavras jorraram da sua boca. Das dez palavras proferidas, uma só foi dirigida carinhosamente à mãe, as outras nove foram palavrões de arrepiar cabelo de freira.

Ao completar os dez anos de idade, já tinha namorado todas as meninas. Prometera casamento para algumas, outras apenas passatempo. Entre dez amou uma só e, mesmo assim, não tanto como devia.    

Antes dos vinte anos, viúvo dez vezes, foi necessário trabalhar dez vezes mais para cuidar dos dez filhos de cada esposa. Dos dez filhos, apenas o caçula permaneceu ao seu lado, os outros cairão no mundo. Na casa dos trintas soube que era avô novecentas vezes. Só não chegou aos mil porque o caçula fez voto de castidade. Tudo indicava que seria padre para desgosto dos irmãos e do pai, mas descobriram-no num show de travesti.

Aos trintas anos olhou dez vezes o espelho e por dez vezes constatou que já tinha feito de tudo na vida e, como lhe parecesse um profético deja vu, no dia dez de outubro se suicidou jogando-se do décimo andar do Edifício Viva Vida Dez Vezes Vida.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Contos surrealistas 11

                             ALUMBRAMENTO

 

Por quatro anos a deixou tomar a forma que, com ele vinha desde o berço, em outra forma, a mais adequada, foi o que disse ela. A princípio não notou a transformação, maravilhado como estava, quando percebeu a mudança já tinha se processado. Não poderia voltar, alterar o passado modificar o presente. Isto porque, não era personagem de filme e muito menos de novela.   

Assim aprisionou o ódio na palma do tempo. Recolheu os movimentos para dentro, fortaleceu a angústia e revelou a melancolia em palavras de aço e veneno. A esperança de novos ventos ficou armazenada em projetos futuros.  

Quando deram por si, eram dois estranhos num viver sem nenhum alumbramento, e os olhos verdes intensos sorriram e os fios loiros do cabelo realçaram a beleza do rosto.

Não viu o escárnio nos lábios da morte.

domingo, 24 de outubro de 2021

Contos surrealistas 12

Último dia.

 

Segunda feira para muitos é o pior dos dias. Começo de semana, cinco dias de trabalho, o que para ele, Dinho, pouca diferença faz. Aposentado há pouco tempo, estando ainda num período, vamos dizer de adaptação a segunda feira como a terça ou a quarta ou mesmo a quinta não lhe diz nada. Deixou de se preocupar com os dias da semana.

Mas hoje, segunda feira, o dia frio, cinzento, um vento cortante, indica que o astro rei não aparecera. E tendo mais uma agravante, não para os outros, para ele. É o último dia de vacinação e desse dia não escapa, isto é, não deixarão que escape. Depois que a gripe suína matou cinco pessoas, é que o governo resolveu lançar a campanha em massa de vacinação. E hoje é o último dia. Na segunda feira. Que coisa! As campanhas sempre terminam no sábado ou domingo, mas essa termina na segunda. Por quê? Algum motivo deve ter. (Lembrei do livro O homem que odiava a segunda-feira, do Ignácio Loyola Brandão)

Nos seus setenta e dois anos ainda sofria de síndrome de agulha. Uma vez, ao doar sangue, desmaiou, assustando todos, demorou a voltar a si. É claro, foi motivo de chacota entre os amigos e parentes. Portanto vinha adiando tomar a vacina suína, não só por causa do seu temor, também por ter lido na Internet que foi a causa da morte de cinco pessoas. Bobagem, o senhor acredita em tudo que lê na Internet, disse a filha, levando-o ao posto de saúde.

Ressabiado entrou na sala que para o seu espanto não tinha ninguém, quer dizer, estavam apenas duas pessoas, um enfermeiro e uma enfermeira. Com a voz de falsete parecendo taquara rachada, o enfermeiro ordenou que ele abaixasse a calça. Como? Vou tomar na bunda? Perguntou com os olhos arregalados. Sim, agora é na bunda, disse a enfermeira com uma cara de cão raivoso. Nunca vi tomar vacina na bunda. Mas essa é para dar na bunda, disse o enfermeiro com a seringa apontado para o rosto dele. Dinho obedeceu, virou as costas e abaixou a calça e se preparou. O músculo do rosto tensionado sentiu a ponta da agulha furando a carne e o líquido se misturando com o sangue num rio só. Não gritou apenas o rosto se configurou num esgar dolorido. O músculo se contraiu numa câimbra quase insuportável.

Foi então que se viu erguido acima das cabeças das pessoas. A filha o olhava sem denotar espanto. Parecia que esperava o acontecimento. Será que morri, perguntou desconsolado. Morri e não me avisaram? Nisso, como bando de abelhas, várias seringas com suas agulhas longas e finíssimas vinha em sua direção. Estou sofrendo um ataque de agulhas e ninguém faz nada, parecem que sorriem, estão se divertindo com sofrimento alheio, disse sem ouvir a própria voz. Não adiantava o esforço, cada vez mais o enxame de seringas zumbido suas agulhas se aproximavam dele.

 Notou lá no fundo do peito que ainda havia esperança, com isso se acalmou ao ouvir, mesmo que ao longe que o chamavam. Prestou atenção.

- Pai vai.

- Dinho não escuta sua filha?

- Pai vamos tomar a vacina.

- Que? Já tomei, disse ele se levantando do sofá.

- Que tomou que nada, vamos...

sábado, 23 de outubro de 2021

Contos surrealistas 13

                                 Pirata.

 

Todo cuidado é pouco, sua mãe sempre lhe dizia. Mas pirata pelo que ele sabe, não tem mãe, pai, não tem ninguém, ora bolas! Então tinha que fazer um jeito ou uma maneira de apagar essas lembranças. E para ser pirata se todo cuidado é pouco, ele vinha tomando os mais diversos cuidados. O que não podia é deixar-se pegar pela soldadesca gananciosa em por as mãos em cima dele. Conseguira até o momento transitar livre pelo mar lutando, isso sim, com a tormenta levando-o para lugares distantes e estranhos ao que imaginara.

 Era parte do jogo da pilhagem desenfreada que ele e seus comparsas vinham praticando. Ainda bem que tinha um navio rápido, velas firmes amaradas em cordames fortes. Sentia orgulho de ser pirata, orgulho em ter essa malta de foragidos que nunca pestanejavam em pilhar, em matar, e, isso tinha a máxima certeza, eram fiéis a ele.

No entanto corria um boato. Não só entre os seus asseclas como em todo porto em que eram obrigados a parar. Quando um boato passava de porto em porto, de boca em boca de cada pirata, podia contar duas coisas: ou era verdadeiro ou a morte estava sendo anunciada. Não gostava, mas aquele boato estava com cheiro de ouro. Por isso, mudou o rumo e apontou a proa para o norte como indicava a bússola. Precisava arrumar outro graveto que aquele já estava gasto.

O famoso pirata Caolho de Morte sumira. Ninguém sabia o que lhe acontecera. Mas diziam que toda a pilhagem que ele fizera deixara enterrada na Ilha do Cabo Torto. Não era do seu feitio, ele, Pirata de Um Olho Só seguir boatos, não era. Ele tinha mais prazer eram na abordagem em alto mar, pilhar navios desprevenidos, principalmente os que transportavam valiosas cargas. Porém, para evitar um motim que, sabia seria derrotado e jogado ao mar, estava partindo para a Ilha do Cabo Torto. Consultou novamente a bússola de graveto torto.

Nisso, quando o navio subia levado por uma onda enorme, ouviu um grito ao longe. Droga! Era a mãe chamando-o para tomar banho e jantar. Como um bom menino obediente, deixou a bússola de graveto torto guardada no lugar de sempre, fechou a caixa de papelão perto a parede.

- Já estou indo mãe, gritou subindo as escadas do porão da casa.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.747(2021)

      

 

                        Vinte e uma hora o vô disse:

                        --- Meninas está na hora de ir para a cama.

                        --- Já vô!

                        --- Sim, senão amanhã cedo vocês não acordam.

                        --- Mas ainda não terminamos de jogar Batalha Naval.

                        --- Amanhã a gente joga mais.

                        --- Lê para nós, vô.

                        --- Leio.

                        A neta mais velha foi pegar um livro.

                        --- A volta ao mundo em oitenta dias não, é muito longo.

                        --- Então Hagar, o terrível.

                        --- Também não.

                        --- E Marcelo, martelo e marmelo?

                        --- Esse sim, vamos deitar.

                        Foram para o quarto, o vô cobriu as duas e se sentou no chão do quarto e abriu o livro de Ruth Rocha. Quando começou a ler:

                        --- Marcelo era um menino perguntador, vivia perguntando as...

                        Nisso ouviram um barulho vindo da sala. Os três olharam um para outro. Estavam só eles no apartamento. Aí o vô disse:

                        --- Manoela, vai lá ver o que o seu cachorro aprontou.

                        A neta respondeu:

                        --- Vô, o Costelinha – nome do Belga Italiano – está aqui deitado nos meus pés.

                        Novamente olharam um para o outro.

                        --- E quem está na sala?

                        --- Não sei vô, disse a Eduarda.

                        --- Eu também não sei, disse a Manoela.

                        --- Costelinha é seu espírito que está na sala, é?

                        Lógico que ele não respondeu. Outra vez olharam um para o outro e cada se enfiou debaixo das cobertas e dali a cinco minutos estavam dormindo.

                        É isso... ou, não é?

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Contos surrealistas 14

 

 

Encontre Quem Você Quer.

 

 Ele tirou a mão dela. Ela apertava a ponto de sentir alfinetada no membro. Tirou a mão dela. Saltou da cama, entrou no banheiro, tomou um banho completo.

Ao voltar para o quarto estava ela na mesma posição. O tempo dela já esgotara. Portanto, delicadamente a colocou no transporte. Fechou a porta.

- By by, meu anjo.

Apertou o botão verde. Ouviu o ruído suave fazendo com que ela desaparecesse. Em seguida apertou outro botão: procura. Novamente o ruído suave fez se ouvir e surgiu um homem a sua frente. Leu as especificações e as características. Agradaram-lhe. Esticou o dedo. Ficou indeciso entre o botão aceitar ou procurar. Por fim, decidiu pelo botão desligar.

Vinte minutos depois recebia no rosto o ar quente do Bar e Boate Encontre Quem Você Quer.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Contos surrealistas 15

                             Alucinação.

 

Tony apunhalou com raiva o batente da porta que os nervos da madeira rangeram ao sentir a ponta da faca. Deoclécio que estava próximo recebeu o calor do movimento da mão de Tony ao sentir o vento bafejando o rosto. Num susto precipitado, deu um pulo para trás ao mesmo tempo chamando-o de estúpido.

 Tony pouco se lixou, continuou sem ouvir o amigo. Queria extravasar a raiva e achou o batente da porta o melhor lugar. Em seguida, jogou a faca no chão e saiu como se estivesse fugindo de algo.

Deoclécio sem entender nada, olhou para o vulto esguio se embrenhando na tarde que começava a cair. Depois, pegou a faca do chão. Viu que estava suja de sangue. Olhou o batente da porta, vertia sangue. Estarrecido largou a faca que batendo no ladrilho pareceu gritar.

Estaria ele alucinado ou seria reflexo da ação de Tony? Afinal Tony, para ele, isto é, em sua concepção não tinha nada a perder. Demonstrava sua raiva e dor. Quem vai saber o que se passa na cabeça de um desnorteado! Seria por necessidade, por demonstrar que estava ali, a sua frente, que não era uma pessoa tão somente?

Talvez o sangue seja um corte que fizera na mão ao apunhalar o batente da porta. Talvez a porta estivesse realmente sentindo as facadas. Estaria louco de pensar dessa maneira. Onde já se viu porta verter sangue? Só em história de Stephen King. Chegou à conclusão. Não iria mais ler contos de terror, especialmente de Stephen King.

Fechou o livro. Jogou-o contra a parede.

Saiu, ganhou a rua e entrou no primeiro bar.

Precisava sentir as pessoas de carne e osso.

Chega de ler falou para o copo de cerveja.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.746(2021)


                        Sábado esquisito, frio, silencioso parece que o mundo ficou quieto, ninguém nas ruas, e já são mais de dez horas, enfim, não está aquele costumeiro movimento que se vê todos os dias, talvez seja o frio, vai se saber né.

                        Ontem por motivos precisos tive que pegar o metrô, eu e as netas. Nem bem sentamos apareceu um pedinte. Esses caras surgem do nada, quando menos se espera, ei-los esmolando, e ontem apareceu um sujeito gordo, escarrapacho numa mambembe cadeira de rodas. Com a costumeira lenga-lenga de sempre. E ao passar por mim, estava em pé, segurando a frasqueira rosa de bolinhas da minha neta, ele passa por traz e diz:

                        --- Me diz onde comprou essa bolsa para comprar uma para mim.

                        --- Pode deixar, passarei o endereço para você.

                        --- Elas são gêmeas?

                        Sempre confundem as duas achando que são gêmeas, não veem a enorme diferença entre as duas.

                        --- Não são.

                        --- Se parecem. Eu tinha duas filhas, uma de quatorze e a outra de seis, morreram num desmoronamento, elas, minha mulher e minha mãe. E estou nesta cadeira de rodas a mais de cinco anos. Eu era cobrador e o motorista reagiu a um assalto e o bandido começou a atirar em todo mundo e uma bala me acertou e me deixou paralitico.

                        --- Que coisa. Sinto muito.

                        --- É a vida, disse ele.

                        Pouco depois ele começou a falar.

                        --- Pessoal sei que as coisas estão difíceis, mas vocês sabem quem é culpado por essa pandemia?

                        Ninguém respondeu e então ele continuou:

                        --- O carnaval, minha gente, o carnaval. E agora o carnaval está liberado novamente e aguarde que vem carga pesada, agora a pandemia vai ser pior, escutem o que estou falando.

                        Como chegamos na estação que íamos descer, preocupado com mochilas e as netas não vi para onde o sujeito foi, vi ele descer, mas não o vi na plataforma, evidentemente ele entrou em outro vagão.

                        É isso... ou, não é?

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Contos surrealistas 16

A Tecla.

 

O sol esquenta os espaços frios do cimento rústico do quintal. A música em solo de guitarra frenética trepida os átomos que parece nada sentir. Envergado sobre o teclado, Tony formula questões que nem ele mesmo tem as respostas. É preciso que as formule, só dessa maneira poderei seguir em frente, escreve ele. Não faz esquema, não traça esboço, e muito menos estudo. Não tem também horário. Quando lhe dá na telha, digita o que lhe vêem a mente. Digita esparsas palavras que nem sempre caem no lugar certo. Nem sempre dá a frase o sentido correto do que pensa. Mas não se importa, vai escrevendo, melhor dizendo, digitando a esmo.

Não tinha pressa, aliás, nunca teve. Portanto, não havia desculpas para o ocorrido. Tanto é que ficou olhando com a cara de bobalhão ao ver a tecla pular e rodar pelo chão da sala e ganhar os espaços do quintal de cimento rústico, onde o sol batia forte. Não sabe como aconteceu. Digitava conforme surgiam às palavras quando o dedo escorregou meio que de revestrés por cima da tecla T. Ouviu um clique ao mesmo tempo em que o T pulou. Foi rápido, nem teve tempo de girar o corpo, estender a mão e a tecla rolava para o quintal.

Houve um quê de espanto no semblante do seu rosto. O silêncio irrompeu depois do clique e da tecla bater no assoalho e rodar até o quintal. Por que fora deixar a porta escancarada? Agora tinha que procurar a dita cuja. Pensou em continuar digitando, mas a ponta do dedo não aceitava ser espetado pelo o que poderia ser a mola que segurava à tecla. Esticou o dedo para o vazio sem conseguir o intento. Sentiu uma pequena câimbra obrigando-o a desistir.

Contra gosto, vendo que perderia a inspiração, saiu para o quintal à procura da tecla. Foi achá-la entre as patas dos dois felinos, Syde e July que a disputavam com miados e patadas. Vendo Tony se aproximar para tirar seu brinquedo, Syde com a tecla nos dentes, seguido pela July subiu no murro e desapareceu pelo quintal do vizinho.

Tony soltou uma praga jurando matar os dois gatos. Tirou um cigarro do bolso, acendeu e sentou na escada vendo o sol caminhar pelo cimento rústico do quintal.

domingo, 17 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.745(2021)

                         Não estava sozinho, não tinha nenhum copo a mão. Conversava com um grupo de jovens, alguns conhecidos outros nem tanto e alguns desconhecidos. Seus lábios se moviam articulando palavras que não eram ouvidas por mim, os olhos pretos passeavam de um rosto ao outro e pousavam em mim uma ora ou outra. O que me deixava excitado, fantasiando situações impossíveis de acontecer. Ele não desviava o olhar quando eu o olhava. Permaneciam fixos até que meio descontrolado e, para não provocar atitudes que viessem criar vexame, eu desviava os olhos para minutos depois, olhá-lo. Esse jogo começava a ficar cansativo e perigoso, principalmente se viesse ele conversar comigo. No entanto, não parecia ser motivo para preocupação da minha parte, seus gestos, os movimentos das mãos, da cabeça, e até mesmo do corpo, diziam-me que nada disso aconteceria, que me despreocupasse. O que pude comprovar em seguida. Ele tirou a camisa, vagarosamente se aproximou e pulou na água fria saindo do outro lado da piscina, subiu a escada e se dirigiu ao vestiário masculino sem olhar para mim. Evidentemente numa atitude que deduzi como: não se aproxime. Foi o que fiz, apesar que a razão estava quase sendo vencida pelo coração sufocando o excitamento. Instantes depois passou por mim e entrou na casa. Não me mexi, segui-o com o olhar para despois constatar que tinha ido embora.

            É isso... ou, não é?

sábado, 16 de outubro de 2021

Contos surrealistas 17

O dedo.

Tony se deliciava com a água banhando os pés. Descalço gozava o sabor da onda que arrebentava nas pernas. “É uma delicia a areia entre os dedos arrastada pelas ondas...”, pensava numa frase de efeito para um conto que começava a esboçar. Ao longe, onde o céu beijava o mar, navios dirigiam seus destinos para o desconhecido. Àquela hora poucos se arriscavam ao sabor do vento que a corrente marítima empurrava para o continente.

Tony sentado à sombra saboreava a cerveja gelada enquanto seus olhos percorriam as letras do livro indicado pela amiga e poeta Belvedere, Os Primeiros Contos de Aprendiz, de Pastorelli. Ele tinha sempre um pé atrás com escritores novos, principalmente desconhecidos e, com esse não deixava de ter razão. Além de pouca profundidade, apesar de bem escrito, o livro não trazia atrativo nenhum, o que prendia a atenção era a criatividade e a indicação da amiga, senão já teria posto de lado o enfadonho volume. “Um bom livro não se mantém com frases de efeito se não tiver um forte conteúdo”, escreveu no caderno de anotações.

Tony já estava andando há um bom tempo. Pensava em voltar quando algo lhe chamou a atenção. Um dedo enterrado na areia. Aliás, para dizer a verdade, tinha pisado em cima do dedo. Olhou bem para o fragmento humano. Como aquilo estava enterrado? Será que o mar jogou na praia? Será que foi cortado de propósito? Ou o tubarão comeu o resto e cuspiu o dedo por desaprovar o gosto? Estava com a unha pintada de azul, o que levou Tony deduzir que era de mulher. O que duvidava, pois hoje em dia até os homens pintam as unhas. De azul? Difícil. Então só poderia ser de travesti.  

Tony não sabia o que fazer. Não tinha mais ninguém na praia. Estava sozinho. Pensou em jogar ao mar. Desistiu, o mar devolveria. Até aí ele estaria longe e não passaria por ali pelo menos umas duas semanas. E se levasse para a polícia? E onde tem posto policial, perguntou olhando para os lados. Nunca viu um policial por aqui e muito menos no calçadão. E se levasse para casa e amanhã procurasse alguma autoridade? Credo! Passar a noite toda com o dedo de um desconhecido em casa? Depois teria que prestar depoimento, contar e recontar como achou o dedo e, provavelmente poderia ser até indiciado como culpado. Talvez até estivesse fazendo uma edição tupiniquim de Veludo Azul. Só que no filme o que foi encontrado era uma orelha.

   Tony com uma lasca de concha começou a cavoucar em volta do dedo. Devagar foi retirando a areia até uma profundidade razoável e, assim pode verificar que era realmente só um dedo. Quem sabe se acompanhando o dedo não estivesse o resto, a mão, o braço ou até o corpo todo. Sem que ele se apercebesse, estava rodeado por vários cachorros. Foram chegando aos poucos. Quem sabe atraídos pelo cheiro da carne meio pútrida. De repente sem que desse tempo, avançaram em cima do dedo. Em um instante destroçaram o apêndice humano. Até o osso sumiu entre os dentes caninos. Só restou a unha pintada de azul como se fosse pedaço de concha.

Tony, diante da fúria canina, se afastou observando a matança destruidora. Por instantes, ficou observando no silêncio das ondas, a pequena unha desprezada. Por fim, pegou a unha e a colocou entre as folhas do livro como quem guarda uma pétala de rosa. Sorriu, deu de ombros e continuou caminhando como se nada tivesse acontecido.

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.744(2021)

                        Pergunto o que aqueles olhos profundos, mesmo que por instantes de milésimos de segundos queriam me dizer alguma coisa? Não sei. Não tenho como saber, se tivéssemos iniciado um diálogo, mesmo que eu fosse apenas ouvinte, talvez poderia saber. Como tudo ocorreu num ínfimo de instantes nada pude discernir o motivo. Fiquei na cozinha fixando os olhos na porta aberta justamente onde estavam nossos copos. Um ao lado do outro. Queria isso dizer alguma coisa? Seria uma maneira de me mandar um sinal, um aviso? Sou péssimo em decifrar enigmas. Com um certo excitamento, peguei os copos e coloquei junto com o amontoado de louça em cima da pia. Fui atrás de cerveja. No quintal, a beira da piscina havia um pequeno bar onde me servi de uma garrafa. Ao me virar ficando de frente para a piscina lá estava ele me olhando.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Contos surrealistas 18

O apartamento.

              Para os amigos maionésicos da OE

              Para o Mau

                 E especialmente para Caroline e Michel


Elli estava no apartamento há mais de duas horas. Fizera o trajeto normal, sem maiores problemas. Disseram para ele:

- Olhe, você vai lá e fica esperando o estucador que ele vai quebrar esse canto da parede. Ta vendo, veja aqui na planta.

E Elli viu os riscos e anotações, o que deveria e o que não deveria ser feito.

Quando o indicaram, pensou:

- Caralho, vão me tirar do sossego.

Em outras palavras, mais uma vez a rotina estava sendo quebrada. Não gostava disso. E daí se Elli reclamava de estar sempre fazendo a mesma coisa, que nada lhe acontecia, e quando acontecia reclamava do mesmo jeito? É que ninguém o compreendia. Toda vez que precisava fazer algo novo, ele fica tolhido, como se estivesse amarado, a mente se agita em torvelinho entre o certo e o errado, o que fazer e o não fazer alimentando a insegurança que, por mais que procurava não demonstrar, ficava evidente.   

- Ta bem, eu vou lá, pode deixar.

E veio. Pegou o ônibus como lhe indicaram, subiu no décimo quinto andar, abriu a porta e recebeu o cheiro de novo, fresco, recente, cimento e poeira. O apartamento dava a impressão de aconchegante talvez com os móveis a impressão possa ser outra, evidentemente.

Não tendo onde se aboletar sentou no chão apoiando as costas na parede da sala. Abriu o livro Noves Histórias, de L. D. Salinger e se enfurnou na vida das duas amigas tenistas. Estava na sala com Ginnie e Franklin quando notou a mancha, quer dizer, tinha percebido ao entrar, uma pequena mancha, só que agora parecia maior. Continuou a leitura. Depois de duas linhas, achou-se impossibilitado em continuar. Sentia um cheiro forte de maionese. Vinha da mancha que agora parecia ter se espalhado por todo o chão da sala. Passou o dedo, aproximou do nariz, deu uma lambida. Gosto de maionese!

- Pena não ter pão, faria um bom sanduíche.

Nisso bateram à porta. Decepcionou-se, não era o estucador e, sim, Dona Zenaide, moradora do apartamento de baixo reclamando que a maionese estava pingando na sala. Dona Zenaide, tinha o cabelo pintado de verde com manchas brancas. Por momentos não conseguiu desviar a vista diante daquela excentricidade. Notou o olhar espantado quando tentou explicar que ele não era pastor, que Pastor era só no nome: Pastor Elli. Por fim, depois de várias explicações parece que Dona Zenaide acreditou. E quando falou que o apartamento estava vazio, que o genro estava mobiliando, ficou estarrecida, pois não sabia que ainda havia apartamento vazio, pensou que todos já estavam ocupados.

E mais estarrecida ficou, até incrédula quando Pastor Elli mostrou a mancha, agora enorme, tomando quase a sala toda. De boca aberta, o queixo batendo no peito, Dona Zenaide gaguejou um deus nos acuda, e com a voz alterada, disse que aquilo era o fim do mundo, estava parecendo o filme A Bolha assassina que comia todo mundo, e lembrou quase berrando, meus filhos estão lá embaixo e, desceu as escadas aos tropeços.

Pastor Elli parado entre a porta e o corredor indeciso não sabia o que fazer se descia para chamar alguém ou tentava limpar a poça, pois agora estava se tornando uma poça assassina. Poça assassina deu risada, quem diria! Nisso surgiu uma mosca e pousou perto da poça. O que aconteceu em seguida o deixou alguns segundo sem respirar. Dois braços pequenos saíram da maionese puxando a mosca para dentro do liquido branco. Engoliu seco. Fechou a porta e saiu.

Encontrou o zelador tratando de assuntos relacionados à sujeira da piscina. Depois de tanta explicação conseguiu com que Seu Zé subisse para comprovar o que ele lhe dizia. O zelador, um senhor baixinho, meio gordo, voz rouca, ao ver a mancha de maionese, deu meia volta deixando Elli que nem bobo a porta do apartamento. Instantes depois, surge Seu Zé com balde, pano, rodo e vassoura, gritando ríspido que aquilo não deveria acontecer, que ele era uma pessoa irresponsável, como fora acontecer, será que ele não sabia que o apartamento não tem estuque, que provavelmente estaria pingando no apartamento debaixo e et cetera e tal.

E enquanto falava, melhor dizendo, resmungava pegou o rodo e o que aconteceu logo em seguida, fez com que ele e o Pastor Elli dessem um passo atrás. Simplesmente o rodo foi tragado pela maionese. Só o cabo de madeira é que ficou nas mãos do zelador. O pano e a vassoura tiveram o mesmo fim. Então o que Dona Zenaide dissera era verdade. Tratava-se de uma maionese assassina. Ao dizer isso, Pastor Elli e Seu Zé desceram correndo as escadas e foram encontrar Dona Zenaide e os filhos em estado de choque. Assim que se refizeram, que puderam falar, contaram que a mancha assassina engolira o pequeno gato que se pusera a lamber a maionese.

Vamos, Elli, disse Seu Zé enquanto subiam as escadas, precisamos parar com aquela coisa. Mas como? Jogaram água, não adiantou nada. A mancha de maionese engoliu a água e estalou a língua como se estivesse tomando refrigerante. Por sorte seu avanço era lento, mais lento que o andar de tartaruga. Jogaram gasolina, atearam fogo, nada. Jogaram ácido, nada também. Álcool, também não resolveu. Não sabiam mais o que fazer.

Estava Seu Zé encostado a parede ao lado da porta, desanimado, e Elli em frente a ele com a cara de que nada estava acontecendo, quando do elevador saiu Dona Soberba sobrecarregada de embrulhos. Solicito, o zelador se prontificou a ajudá-la, no entanto, ao pegar o saco de sal que Dona Soberba passava para as mãos dele, caiu e o saco de plástico estourou esparramando sal para todos os lados.

Foi então que a salvação pulou aos olhos, primeiro do zelador e, depois de Elli. O sal, disseram quase ao mesmo tempo. É que um pouco do sal espirrou sobre a maionese fazendo com que ela se dissolvesse como se fosse uma lesma. Encheram o balde de água com um saco de sal e jogaram na maionese assassina. Um cheiro de queimado invadiu o apartamento junto com uma camada de fumaça. Foram necessários três baldes de água com sal, limparam a sala toda, verificaram todos os cantos. Não sobrou nenhum pingo de maionese para contar história.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.743(2021)

                         Porque me olhava com os olhos de quem não concorda ou de indagações sem saber o que acontecia. Seria o que sempre pensei que não fosse? Instantes de segundos que pareceram longos demais. Logo que percebeu que estava sendo notado, desviou o olhar colocando o copo no aparador encostado a parede ao lado do meu copo que ali eu deixara. Não o segui, de nada adiantaria segui-lo, e nem quis segui-lo, isto porque na retaguarda ele ficaria numa espécie de proteção sabe-se lá do que. e quanto a mim, não seria propicio por não saber o significado do olhar, talvez tenha olhado pela simples razão de olhar num gesto mecânico sem intenção deparando comigo na cozinha bebendo água. Poderia entabular uma conversa pelo fato de eu estar bebendo água e não cerveja. Ou por sermos apenas conhecidos que não passa além de “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite”, achou melhor não dizer nada. Pego de surpresa, como sempre me acontece, fiquei extático sem dizer nada também...

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Contos surrealistas 19

O molusco.

 

Ele não via o pequeno e colorido molusco levando a casa às costas que contornava o arbusto. Não via porque estava entretido nos pensamentos enquanto saboreava o uísque matinal. Dava a impressão que o insignificante animal estava querendo chamar a atenção dele. Como as voltas pelo tronco fino do arbusto não deram resultado, resolveu subir e com o peso o arbusto curvou e, assim ele pode passar para o ombro dele. Ao sentir a gelada massa gosmenta em seu ombro nu, ao invés de passar a mão, virou a cabeça e com cuidado, pegando pela casca do caramujo o colocou na palma da mão direita. Por relativo tempo que, nem foram dois minutos, ficou observando a variedade de cores e tonalidades na casca do animal. Já estava pronto para com os dedos dar um piparote quando mudou de idéia. Foi até a cozinha, procurou nos armários o vidro de maionese que estava quase vazio. Achou-o no fundo da geladeira. Lavou bem o vidro, fez uns pequenos furos na tampa, lavou também umas folhas de alface e, como se pegasse algo precioso com medo de quebrar, colocou o frágil molusco dentro do vidro junto com as folhas de alface e tampou. Pronto, você vai ser a minha mascote de hoje em diante, disse levando o vidro para o quarto, colocando-o em cima do criado mudo.

E o pequeno interessante molusco, mais conhecido como caramujo, de família ainda não catalogada, viveu seus dias felizes vendo o grande molusco se definhar até que a morte, companheira inseparável, pegou-o desprevenido.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.742(2021)

                         Tu sofres, disse a si próprio. Sim, tu sofres, repetiu e, pela terceira vez no silencio da voz cansada, retrucou: tu sofres. E é verdade! Sofres. Se assim for, sofre é porque na quinta cerveja e no terceiro drink que, sem perceber o garçom colocou em sua mão, foi que sentiu os efeitos do álcool e, portanto, decidiu que aquele seria o último. E resolveu tomar água gelada, mas ao entrar na cozinha o estomago se revoltou inundando a boca com uma tremenda azia juntamente com uma ânsia violenta obrigando-o a correr para o banheiro. Pouco depois, regressou a procura de um copo limpo e como não encontrou tomou a água diretamente da boca da garrafa. A água gelada queimou a garganta como fogo forçando-o a tossir salpicando o peito de saliva fria. Aliviado, suspirou, quando ao virar a cabeça para a esquerda foi que notou dois olhos pretos fitando-o como se estivesse a recriminá-lo.

            É isso... ou, não é?

domingo, 10 de outubro de 2021

Contos surrealistas 20

                                 Berenice

 

Depois de certa indecisão, Elli voltou a se preocupar com o livro sobre as pernas. Interrompera a leitura para com a barra da camisa passar com cuidado nas duas lentes até se certificar que estavam limpas. Após essa meticulosa operação, colocou os óculos e voltou sua atenção a leitura.

Assim ficou por mais de duas horas ausente ao que ocorria a sua volta. Havia pequenos intervalos ao qual se dedicava ao cigarro de sua preferência saboreando com uma longa tragada para em seguida, lançar no ambiente, grossas nuvens de fumaça.

Praticava esse hábito pelo menos uma vez por semana quando Berenice vinha por ordem ao apartamento. Apesar da altura em que estava décimo segundo andar e, estando à janela aberta, ouvia a movimentação da vida com suas buzinas, sirenes, freadas, serras, gritos metálicos e, uma vez ou outra, algumas vozes que se sobressaiam, o que não atrapalhava a leitura.

Elli precisava ouvir o pulsar desconhecido da rua, só assim se entregava por inteiro a leitura.

- Boa noite, Seu Elli.

- Boa noite, Berenice.

Logo que a empregada saiu da sala, fechou o livro, dirigiu-se ao barzinho no canto esquerdo do corredor, e preparou uma boa dose longa de uísque. Em seguida acendeu o cigarro e, bebericando e fumando contemplou a cidade aos seus pés.

Isso lhe dava um excitamento inimaginável só de pensar que toda aquela imensidão, até onde sua visão pudesse alcançar, estivesse realmente aos seus pés. Cronometricamente meia hora depois de saboreado o uísque e fumando o último cigarro da noite, entrou no quarto de Berenice, e nu, deitou ao lado da empregada.

sábado, 9 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.741(2021)

                         Conscientização.

             Sentado no banco azul da plataforma na Estação do Metrô Penha, lia o conto Dinheiro sujo de sangue que, compõem o livro do Circulo do livro, O Grande Golpe de Dashiell Hmmett, grande escritor, quando dois sujeitos sentaram ao meu lado tagarelando sobre banalidades que talvez para eles não sejam, então pensei, pronto acabou meu sossego, não conseguirei prestar atenção na história, e, dito e feito, logo depois se aproximaram duas garotas com dois meninos, um de dois anos e outro de uns três anos mais ou menos, aí que não prestei mesmo atenção na leitura, mas logo em seguida um dos rapazes disse:

            --- Vamos lá em cima tomar café que estou com fome.

            E sobre protestos das garotas resolveram tomar o café. Com isso continuei a leitura que estava super gostosa e interessante, já tinha lido duas páginas quando voltaram e um dos meninos, acho que o de três anos, pega uma bala que estava no chão e, eu bestalhão digo:

            ---- Não pega está suja...

            No entanto o pirralho não está nem aí e sai andando com a bala não mão quando os quatros sujeitos chegam e se sentam ao meu redor, quer dizer, dois ao meu lado e os outros as minhas costas, do outro lado. Como já estava na hora de ir embora me levanto e escuto uma voz feminina dizer:

            --- Ele vai comer a bala.

            Como estava de costas para eles, viro a cabeça e vejo a menina soprar na bala, talvez para tirar a sujeira e dá para o menino. Claro o pequeno adolescente de fraldas pega a bala e enfia na boca. Nessa atura os rapazes estão fumando despreocupadamente pouco se importando com o aviso na cara deles de que é proibido fumar. Olho para o cartaz pendurado e digo mentalmente, você não tem mais poder. Aí novamente a minha mente diz:

            --- Isso é falta de conscientização, é proibido não fuma, oras bolas.

            Creio que deveria ter uma penalidade para esse tipo de infratores, pego em flagrante um mês de prisão. E onde estão a segurança da estação? Não vejo nenhum... bem...

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Contos surrealistas 21

                             San27.

O tempo estava em seus olhos num castanho claro luzindo mais para um azul esbranquiçado quando entrou no transporte que o levaria para o planeta artificial.

Tinha um pequeno medo com qualquer tipo de condução que se elevasse, mesmo que fossem poucos centímetros do solo. Com cara e coragem, como dizia os antigos, pisou nos degraus da nave e procurou o lugar indicado no bilhete holográfico que a moça mecanicamente mostrou a ele. A mecanicidade se proliferava num absurdo demasiado. Não era afeito às modernidades fúteis, às novas tecnologias que logo eram colocadas de lado, tão logo passasse a moda. Sentou, fechou o cinto e não pensou mais, aliás, era costume, se preocupar com as coisas só naquele momento, logo em seguida a mente o puxava para outras ocupando o lugar da antiga.

Como agora. Pela primeira vez estava indo ao planeta artificial. Seu coração tremia no pulsar desnorteado. A adrenalina agitava as veias do corpo deixando-o excitado. O planeta artificial fora criado para se passar dias e dias sem fazer nada, como férias, além do que não existia mais lugar na Terra para o lazer. Todo o espaço existente fora ocupado pela longevidade. O ser humano não morria mais aos setenta, oitenta ou mesmo cem anos. A morte fora prolongada, o homem com sua maravilhosa máquina viviam até duzentos anos e com isso a população aumentou tanto que as cidades cresceram a ponto de se emendarem uma as outras. E o espaço tempo não existia mais, os transportes venciam as distâncias rapidamente sendo possível ir de um lugar a outro em menos de cinco minutos.

Corria um boato assustador. Quem ia para o planeta artificial não voltava mais, isto porque, não era mais necessitado na Terra. San27 nunca deu atenção a boatos, sabia que tinha dois dias, um final de semana, era seu tempo, tivera durante dois rápidos meses contato via imagem holográfica com Ana63, e estava indo pela primeira vez para conhecê-la. Ana63 fora designada para coordenar os robôs que trabalhavam na manutenção assim que o planeta foi criado. Fora na primeira leva de humanos, ela e mais alguns. Talvez ela fosse mais uma não necessária na Terra, quem poderia dizer? San27 não acreditava nisso, pois sabia que ela trabalhava e não era mais uma desocupada.

Ao atravessar a rampa que ligava a nave ao prédio grande e branco onde esperava que Ana63 o aguardava, levava na mochila em áudio holográfico a música que achara nos baús escondido na garagem da sua casa. Estava gravada naqueles disquinhos brancos que os antepassados chamavam de cd, na extinta língua inglesa. Paciencioso como sempre transpôs para a língua astorellica cujo título era: “Somewhere time”, a qual ouvia toda vez que holograficamente falava com Ana63. 

O coração acelerou o ritmo ao constatar como estava bonita, um pouco pálida e tremula, deveria ser a emoção do encontro, pensou. Não deu atenção, queria aproveitar o máximo os dois dias, nem tocou no assunto, ressabiado guardou para si as considerações. Assim curtiu que, como um cicerone, ela mostrou todos os lugares e as funções que os robôs executavam. À noite saíram a passeios interessantes e diferentes, coisa que na Terra não se fazia mais. Dois dias rápidos e curtos, mas bem aproveitáveis, disse para ela. Ana63 apenas sorriu de leve, não disse nada.

No dia seguinte percebeu que Ana63 não conseguia esconder a palidez e nem os tremores, como se tivesse algo para lhe contar e não tinha coragem. Já estava atrasado, quando ela disse:

- Não precisa correr.

- Por que, respondeu apreensivo.

- Seu tempo na Terra acabou.

- Quer dizer que é verdade?

- Sim, é verdade, você não é mais necessário na Terra.

Sem dizer nada, deixou-se cair no banco do jardim artificial enquanto ouvia a canção: Em algum lugar o tempo não é o mesmo que você conhece...

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.740(2021)

                                                                                     

 

            Depois de escolher o que precisava, dirigi-me ao caixa do supermercado e coloquei a mercadoria no balcão e fiquei a espera que a moça atendesse a senhora que estava a minha frente. Olhando para mim, a moça disse:

            --- O seu cabelo é bonito.

            --- Obrigado, respondi.

            Gosto do meu cabelo, onde vou as pessoas o elogiam. Não cuido como deveria, apenas lavo com sabonete e, de vez em quando passo um creme para poder penteá-lo melhor, apenas isso. A senhora na minha frente sem que perguntassem a ela, disse:

            --- O meu cabelo também era bonito, mas por causa da pandemia começou a cair, ficou feio, preciso tomar um fortificante para eliminar a queda dele.

            Pensei: “ih! O que tenho com isso. Está caindo por inveja.” E olhei para a moça do caixa que fez um arzinho de sorriso. Passei minhas mercadorias.

            --- Cinquenta e cinco reais.

            Paguei com o cartão, agradeci:

            --- Obrigado, bom serviço, e é isso aí, né.

            --- Certo, obrigado, respondeu-me.

            Saí do supermercado pensando:

            “Esse pessoal além de ser invejoso só fala negativamente.”

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Contos surrealistas 23

                                     Sem culpa.

                        - Faz tempo, disse ela batendo com violência gritante a porta do carro. Ajeitou-se numa tagarelice desembestada que não deu oportunidade para ele formular uma resposta adequada. Aquele faz tempo sou absurdo em seus ouvidos a ponto de tirar a atenção que, ao mudar a marcha do veículo, entrou errado e quase que derruba o telhado do vizinho. Não adiantava pedir para que calasse a boca, quando começava a tagarelice se transformava numa lamúria incessante. Precisava fazer alguma coisa. Virou o carro para a direita, cruzou a nuvem à frente, e seguiu até a planície que antes era verde e que agora, devido aos exercícios militar, era apenas uma planície deserta, árida mais dura que a rocha do grande cânion. Olhou pela última vez para a boca que não parava de falar, abriu a porta do carro e, deu um empurrão. A coitada voou, quer dizer, despencou. Ao bater no chão tórrido do verão, arrebentou-se toda em placas, fios, rodelas, parafusos e faíscas azuis e vermelhas. Ainda por instantes ouviu o falatório até que emudeceu. Sem culpa sem peso na consciência, dizendo para si mesmo, amanhã comprou outra e tudo bem, acelerou o carro, subiu mais um pouco, virou para a direita e seguiu para a Rua Fábrica de Andróides.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.739(2021)

                                                                                        

 

            Dezessete horas e vinte minutos. Sei que preciso dizer algo, mas não sei o que, talvez até saiba, no entanto algo me prende na garganta o sufoco das palavras não ditas e as lágrimas da fala escorrega pelos meus dedos e ditam estes caracteres na ansiedade de se concretizarem no aberto das paixões em ter o que não se pode conseguir e assim surge o inconcebível dos sentimentos tresloucados pelos sons da música de Philip Glass e se silencia a mente em pensamentos que voam longe daqui e se fecham no peito como flecha ao atingir o alvo...

            É isso... ou, não é?

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...