Partiu em dois
Meu coração
Uma parte
Congelou-se no presente
Outra parte
Petrificou-se no passado
Hoje vivo
Totalmente
Solidificado
Na geleira
Da tua ausência
Partiu em dois
Meu coração
Uma parte
Congelou-se no presente
Outra parte
Petrificou-se no passado
Hoje vivo
Totalmente
Solidificado
Na geleira
Da tua ausência
Conduzem a vida
Que escorre lenta
Junto a mim
Traduzindo
Nos dedos do tempo
As carícias
Que depositas
Em mim
Não tem dúvida que o que eu fiz é caracterizado como
crime, disse enquanto olhava o céu azul da janela do seu pequeno apartamento.
Sabia de antemão as conseqüências que tal ato provocaria, sabia sim. Tinha a
real noção de cada movimento, de cada gesto, de cada pensamento animando-o a
por em prática o que repentinamente ousou fazer. E ao se decidir: é agora, o
peito se inflou acelerado aumentando o batimento cardíaco que pensou em voltar
atrás. Não podia voltar, tomou coragem e partiu para o que desse e viesse.
Controlou as veias inchadas de excitação, enxugou o suor com as costas da mão
evitando que escorresse molhando os olhos. Olhou para os lados, observou o que
faziam. Naquela hora havia poucas pessoas na livraria. Prestou atenção nos
movimentos dos vendedores atendendo os fregueses. Calculou exatamente cada
movimento que ele teria que fazer com os movimentos dos vendedores entretidos.
Não tinha ninguém no caixa. É o momento, disse. Não notaram sua aproximação.
Fazendo-se de desinteressado, como estivesse apenas a correr os olhos pelas
capas, chegou perto do livro que desejava. Devagar, quase que amorosamente,
pegou o volume de capa vermelha com letras douradas, folheando a entreter-se em
determinados trechos. Na verdade, fingia ler, mas pelos cantos dos olhos, tanto
à direita como a esquerda e por cima dos óculos, supervisionava a pequena
movimentação das pessoas. Sentia-se invisível, não o notavam parado com o livro
a mão. Foi num relance, depois ele estranhou até a sua rapidez, num relance
enfiou o livro dentro da mochila e ao mesmo tempo pegando outro volume.
Assustou-se com sua audácia, a mão tremia levemente. Suspirou fundo e tratou de
se acalmar. Assim deixou se inundar por uma onde de alívio, se preocupando tão
somente com a ansiedade em querer sair logo da loja. Obrigou-se a reter a
ansiedade e dirigiu-se a um vendedor.
- Por favor, tossiu umas duas vezes, desculpe, por favor
poderia me dizer quanto custa esse livro?
O vendedor pegou o volume, consultou o computador e
respondeu:
- Setenta reais, devolvendo o romance. Vai levar?
- Não, obrigado, fica para outra vez.
Deu as costas ao vendedor com a leve impressão que ele
poderia ter desconfiado de algo. Enquanto andava com passos firmes, sentia os
olhos do rapaz queimando suas costas. Saiu da livraria, parou um pouco na porta
demonstrando indecisão. A vontade era de correr, mas se conteve, andando
devagar. Na esquina tomou o ônibus. Apertou a mochila com força contra o corpo
sentindo o grosso volume machucando seu corpo. Só foi correr quando chegou a
porta do edifício. Só sentiu-se seguro quando fechou a porta do apartamento
girando a chave na fechadura. Excitado, arrancou o livro da mochila. Deu um
grito de vitória e se jogou na poltrona. Leu o título: Orlando, Virginia Woolf
e o mundo desapareceu...
Tenho medo do escuro e meus olhos passeiam pelo escuro da
tua ausência vibrando no tempo.
Caminho no escuro de pedras pontiagudas espetando a carne
podre.
Caminho no escuro das luzes que não mudam de foco
alimentando as sombras que me perseguem.
Que me devoram.
Tenho medo do escuro ao ouvir o grito do vocalista.
Será que ele sabe o que é ter medo do escuro?
Do escuro suicida que arrasta almas ao profundo abismo?
Não sei.
No entanto o medo do escuro me envolve num manto que não
está perto e também está ao meu lado.
Medo dos meus dedos presos na carne fraca onde os anseios
afloram dos teus olhos escuros.
Tenho medo do escuro e quem não tem ao procurar a luz e não
percebe o seu medo.
É terrível.
Você não percebe quem te olha, mas quem te olha percebe,
disfarça e não diz nada por ter medo do escuro.
E você nota os passos estranhos no sótão escuro da carne.
Você acelera os passos, corre não caminha, sabe que
dificilmente se livrará.
Cansado, dobra o corpo e se entrega...
que há no meu olhar
o peito extravasa ressentimentos
que se alarga em pressentimentos
ninguém chega ao seu destino
sem deixar rastros pelo caminho
a amargura não impede o sonho
de chorar o próprio sonho
vivo guardando no peito a solidão
boa companheira dos meus uísques
fecho a janela
coloco o cd favorito
entrego-me à ausência
de não ter você
aqui comigo
Trinca os passos da caterva
Chorando e gritando a fome
Nossa de cada dia
Revelo nas esquinas
As dores assassinas
Nos risos falsos
De cada vidente
Enxugo a lágrima
No lençol branco
A tua ausência
Na cozinha tomo
Um café quente
E pratico assassinato
Assistindo o fantástico
Correr sem fim
Um ir e vir
Ocupando espaço
Nem sempre ocupado
Não tenho junto a mim
Teu corpo que me ame
Por caminhos
Longos e tortuosos
Meus pés já caminharam
Trago no peito
A fulgurante
Chama da paixão
Numa dor lacerante
Fechando-me no tempo
Num corre sem fim
Umedecendo a pele
Jogo o meu jogo
Livre e espontâneo
Simplesmente
Para viver
O jogo da vida
na areia escorrendo pelos dedos dos meus pés.
O
poema traz o sentimento da água salgada lambendo minha pele nua.
É
roupa de emoções num vai e vem de contornos e mistérios.
É
caminho onde meus pés afundam deixando marcas no tempo inexato.
São
palavras frias de consistência fracas e sem veracidade.
É
minha nudez exposta no poema, cujo retrato, se desfaz no vai e vem das ondas do
mar.
como odeio o vizinho
odeio o sol
como odeio o frio
odeio a chuva
como odeio a seca
odeio ônibus lotado
como odeio metrô vazio
odeio reclamações fúteis
como odeio gente pacata
odeio televisão ligada
como odeio a Globo.com.br
odeio o big bosta bestializado
como odeio o sexo comercializado
odeio a fome industrializada
como odeio as bocas esfomeadas
odeio o amor informático
como odeio o desamor priápico
odeio a cidade cinza abandonada
como odeio o campo invadido
odeio o sorriso fácil enganoso
como odeio a falta de humor
odeio porque sou humano
como odeio você deixou de me amar
percorrem em sulco a vida delineando sentimentos.
Os sulcos é a representação dos passos percorridos na rotina
diária.
O corpo descansa na roda viva girando no espaço o infinito
da matéria alma.
desencadeiam
sonoros silêncios de morte nas calçadas varridas pelo vento da noite.
Em algum lugar incerto o silêncio
é quebrado pelo acordeom revelando que há na cidade almas que ainda vivem se
amando.
A luz do meio dia não traduz a opacidade que o ano novo – novo só na
folhinha – impinge sua consistência na pele podre da humanidade. Cada ser
humano a sente numa orgia desenfreada de cores e sensações que só mais tarde
terá a consistência de senti-la totalmente. O que será meio tarde.
Pois o ser humano não tem, e nunca terá a competência de sentir toda a
carga emotiva na hora, no momento. Até pode sentir, mas não será com a mesma
intensidade quando daqui a alguns dias, ou mesmo daqui a alguns anos, ao rever
o momento em fotos ou vídeos, será tolhido pela saudade.
Saudade de um tempo que não volta, não retrocede, mas que todos
gostariam que houvesse a possibilidade de voltar.
Olhou as horas no relógio novo que ganhara no Natal. Sete horas e cinqüenta e oito minutos. Ainda não é o momento de ir ao banheiro. Só na hora do expediente, disse mentalmente. Sete horas e cinqüenta e nove minutos do terceiro dia do ano novo, ano de dois mil e oito que já parece velho, como disse uma poeta amiga numa crônica. Só que ele em muitas crônicas já escrevera: só mudamos o calendário na parede, pois o resto é tudo igual, não muda e, se muda é um mudar invisivelmente invisível que nem nossos sentimentos sentem. Não há mais aquela expectativa de novo, de refazer o refeito para se ter o velho numa embalagem atraente, que pelo menos dê a certeza abstrata que estamos caminhando num novo completamente novo. Os enfeites natalinos acumulam o pó das ilusões frustradas nos brilhos dos abraços mecânicos e enfadonhos. Aquela expectativa de realizarmos o irrealizável a cada começo de ano, não tem mais tanto significado, tanto empenho em acontecer. Talvez porque o ser humano não tem a paciência de conseguir as coisas em longo prazo. Quer tudo rapidamente, que o milagre seja feito de um dia para o outro. Quando o relógio mover o ponteiro no dia trinta e um de dezembro, no primeiro minuto do ano novo já quer que a mudança aconteça concretamente. Não sabe que para que isso possa acontecer, ele tem que ter no coração muito amor, paciência, deixar de ser individualista, ser mais comunitário, mais amigo, mesmo dos inimigos...
Bom, mas isso é bater na mesma tecla entra ano e sai ano.
Desmontam a estrutura das festividades do passado reinando no presente o
dia-a-dia corriqueiro. Soaram os sinos foguetórios de risos alegres despejando
no velho as velhas esperanças abraçando o novo em esperanças novas. A noite se
iluminou espocando brilhos em todas as direções. Gritos de vivas elevaram-se
nos quatro cantos do país emborcando champanhes em saltos de ondas e comilança
de lentilhas e outras previsões orando para que sejam concretizadas.
Desmontam a estrutura das festividades encravando na pele as rotinas
burguesas onde os aflitos caem na realidade da terrível sobrevivência de carnês
e dividas para vencer ou vencidas. Sempre o dia se abre em glorioso sorriso
amarelado pelo sol que poucos observam. A sensibilidade não é para todos. A
maioria são trabalhadores insensíveis aos devaneios da natureza. Não são
poetas, pois poetas se alimentam do abstrato que os consomem em palavras nem
sempre compreendidas.
Dagô entrou no elevador. Ro estava no fundo, encostada à parede.
- Bom dia, Dagô – cumprimentou mecanicamente.
- Bom dia, Roneide – mecanicamente respondeu.
Morena esbelta, pele de chocolate macia, na opinião dos homens, a
gostosa do departamento, incluindo Dagoberto. Roneide sabia-se provocante,
cabelos escuros lisos, olhos aquosos de um brilho estonteante, um busto de
Mansfield, com seus vinte e oito anos, trazia na pele a fome de desejo
expandindo o aroma sexual por onde passava.
Dagoberto, apelidado pelos companheiros de Dagô, não era uma excelência
em beleza masculina. Os dentes saltavam para fora numa semelhança com Jerry Lewis
em O Professor Aloprado, careca, com poucos cabelos finos onde não se definia a
cor, apesar dos seus trinta anos ou menos até, tinha uma pequena barriga
proeminente, um andar capenga que o fazia pender para o lado esquerdo. Corria o
boato maldoso que tinha casado por correspondência, pois ninguém conhecia a
esposa e muito menos o filho que dizia ter. Entre os solteirões, principalmente
entre as mulheres, diziam:
“Se o Dagô casou porque eu não posso casar também?”
Dagô ao entrar, cumprimentou e, para não ficar com os olhos encravados
na beleza plástica de Roneide, pois sabia que não conseguiria desviá-los, se
postou no meio do elevador que, para sua estupefação subia lentamente.
Nisso ouviu a voz de Roneide
bafejando o hálito quente em sua nuca.
- Oi Dagô gostoso.
- Ronei... Eu gostoso?
- Me chame de Ro como todos me chamam, lindo.
- Lindo eu?
- Claro ou você não tem competência para transar com mulher?
- Tenho...
- Não vire a cabeça, não olhe para traz, assim está bom, aumenta o
tesão.
Dagô não acreditava Roneide o abraçava por traz mordendo levemente a
nuca, e acariciando o peito por cima da camisa esporte.
- Uhm que peito delicioso, disse Roneide deslizando a mão até o cós da
calça.
- Ronei... Ro que isso, o que esta fazendo?
- Fique frio, fique frio, quero sentir essa força.... ua!!!! Menino, que
delicia...!
E dizendo isso, enfiou a mão por dentro da calça de brim, a mão quente,
suave, acariciou a barriga inundando os pelos de umidade, foi quando Dagoberto
sentiu tocarem seu ombro.
- Da licença Jerry Lewis.
Sonhando de olhos abertos é? Vem, Ro, chegamos.
Era Ricardo que gostava de chamá-lo pejorativamente de Jerry Lewis.
- Dagô, da licença. – disse Roneide roçando o peito em seu braço.
Antes do elevador se fechar, Dagoberto viu o belo sorriso sumir entre as
folhas da porta inundando-o de comiseração.
O sol descruza os braços por entre os galhos da árvore balançando os
rostos de bolas frágeis que, ao pequeno contato, se quebram espalhando
preocupações e angústias pelo chão do medo e do terror. Fogos sanguinolentos
marcaram de brilho o céu escuro onde o cuidado de não ser assassinado foi
apregoado aos quatro cantos da cidade perdida em falsa felicidade.
Sorri o felizardo sem as meras preocupações carregando nos ombros a
vulnerável burguesia a qual pertence feliz por viver incólume o ano todo
O que era presente rapidamente é
passado. Caminhamos no passado, não um passado longínquo, num passado recente,
onde a todo instante bate a nossa porta pedindo licença para entrar. Sem ser
percebido, se instala no melhor lugar do sofá e só será percebido, quando a luz
dos olhos se torna opacas.
Só serei forte, quando não me preocupar mais com o tempo.
Quebrei todos os espelhos...
Foi um vestígio que marcou o instante no assoalho quando, percebeu a luz
frágil da lua, invadindo o quarto dos sonhos, meramente esquecidos, ao acordar
no meio da noite.
Levantou-se no escuro tendo a angústia roçando os lábios mornos do
desespero por ficar muito tempo deitado na cama que o espetava.
Os caminhos percorridos durante o dia tropeçavam em seus olhos marcando
os longes que impôs a si mesmo como algo que deveria ser feito sem medo e sem
hesitação.
Seguia os caminhos não como destino, não acreditava em destino, mas
somente para chegar aos longes da alma eliminando o negativismo de seus atos
impensados.
Sabia que dormir não espantaria jamais o frio das palavras impressas nos
cartazes grande das ruas e, muito menos, lhe daria noção do corpo como um todo.
Os resíduos, mero subterfúgio, agia como reveladora demonstração de sua
vivência constante no mundo prosaico dos sentimentos.
E, coalhado de resíduos, percorreu as nódoas cuja marcas a chuva
repentina, deixava no chão seco por onde passava.
Sorriu meio tristemente, se enfiou de novo debaixo das cobertas, não
deixaria a depressão invadi-lo.
O piano martela as teclas pretas e brancas transformando o sorriso que,
antes festivo, em preocupações impingindo a rotina novamente.
O novo rapidamente torna-se velho e o espocar do champanhe borbulha no
rio poluído.
Pustulentos nacos de dejetos humanos, surrupiados de suas vidas, brilham
no dorso da fome que o povo se alimenta.
Chora a mãe a fome do filho mais novo, enquanto o mais velho, de olho
adulto, pragueja estendendo a mão:
- Uma esmola, por favor,
- Desculpe, não tenho – responde o senhor empertigado no seu terno de
quinhentos reais.
“Que merda! É hoje que apanho da minha mãe, novamente.” – pensa o garoto
amargurado e triste.
Começou mais uma vez o Big Bunda Bosta Bial com seu estrelismo a garoto propaganda revestido de go go boy ultrapassado. Só falta um strip-teaser para ganhar o troféu pior do ano, pois beijo gay fica por conta dos ocupantes contratados a obedecer ao script.
Monta-se o cenário para os imbecis solitários se entreterem mais uma vez
na masturbação televisiva em disputa com o Juvenal Antena. Ah! Que saudades da
Nazaré...
É, começou o Big Bosta Bial Bunda para a glória de todos, enquanto isso,
meninos fazem palhaçadas em frente aos carros, nos semáforos, para garantirem
os trocados para o craque da fome que lentamente mata.
É isso mesmo fãs da imbecilidade, vamos ligar para o Big Bial Bosta
Bunda e escolhermos o nosso ídolo e ao mesmo tempo assassinar um menino
canceroso ou Aidético a espera de um milagre.
É preciso que se diga a esses meninos cancerosos e Aidéticos que não
existe milagre, que eles têm que morrer logo para dar lugar aos que esperam um
lugar ao sol.
É, começou o Big (P) Bederasta Bial Boiola, para alegrar os desocupados
nas prisões que, coitados mandam e desmandam na criminalidade dentro e fora da
cadeia.
E em cada esquina surge uma igreja universal para surrupiar o pouco de
fé financeira dos pobres coitados sem eira e nem beira.
Começou mais um Big Bunda Bosta Bial para a alegria de todos e para o
consumismo da mídia que se espera vender o dobro de conteúdo inútil.
Por isso, faço aqui uma campanha que sei será de pouco alcance, mas
vamos desligar a televisão no momento do Bial Bosta Bunda Big?
O que acham? Bom, a minha fica desligada sempre...
A tarde estava macia quando sai do prédio. Apesar do sol forte, a macieza da tarde lambia os contrafortes dos prédios e os limites dos passos preocupados em chegar a algum lugar. Estava macia assim como o “Bolero” de Ravel, macio e agitado sem ser pulsante e desgastante.
Atravessei a Avenida Paulista, e entrei no Conjunto Nacional. Como
estava impregnado pelo drama do filme “As horas”, tendo assistido umas quatro
vezes, decidi comprar o livro, o qual o filme foi adaptado. Decidido e feito,
entrei na Cultura.
A Livraria Cultura, a melhor de São Paulo e, talvez, a melhor do Brasil,
agora em sua nova instalação, é digna de nota dez. Nunca me deixou uma única
vez na mão, isto é, todos os livros que procurei, encontrei. Se não tem na
hora, manda buscar na editora ou nas filiais esparramadas pelo Brasil. Uma vez,
não tendo o livro que eu queria, mandou vir de Porto Alegre, no dia seguinte o
livro estava em minha mão. Os vendedores são atenciosos, não deixam uma
informação ou pergunta sem responder, se não sabem procuram se informar com
outro vendedor parece que todos têm só um objetivo: atender bem quem gosta de
livro. De duas uma: ou ganham bem ou os atendentes e vendedores amam livros e
gostam do que fazem
E ao ultrapassar a porta da livraria, o sinal de segurança foi acionado.
“Pensei, isso não é para apitar quando se saí e não quando entra?” E
também, não me preocupei se era comigo ou não. Dirigi-me a vendedora que estava
mais perto.
- O senhor já foi atendido?
- Não. Por favor, tem esse livro? – estendi para ela o recorte que tinha
tirado do site.
- Um momento.
- Pois não.
Depois de uma rápida verificada no computador, me disse:
- Tem sim. O Senhor espera aqui? Vou buscar o livro.
- Espero sim.
Enquanto esperava, fiquei olhando os livros expostos, quando senti
tocarem o meu braço esquerdo. E, ao virar pra ver quem era, deparei com uma
morena clara, talvez nissei ou sansei, bonita, atraente, vestida de um preto
delicado e elegante.
- Desculpe senhor.
- Sim!
- Quando o senhor entrou acionou o sinal de alarme.
- Ouvi, mas não pensei que fosse comigo.
- Foi com o senhor sim. Mas se o senhor não quiser não precisa...
- O que?
- É que talvez o senhor tenha algo em sua bolsa ou bolso, que acionou o
alarme. Até mesmo um livro que o senhor tenha comprado aqui.
- Bom tenho um livro.
E tirei da bolsa “Assassino na chuva”, de Raymund Chandler que,
realmente tinha comprado alguns dias atrás.
- Por favor, dá licença, se o senhor não quiser, não é obrigado.
- Que isso...
- Posso? – e esticou a mão na intenção de pegar o grosso volume.
- Claro. – entreguei para a ela o livro.
Nisso chegou à vendedora com “As horas”.
- Aqui está.
- Obrigado.
Voltei a minha intenção para a bonita atendente nissei ou sansei.
- Por favor, o senhor pode me acompanhar?
- Claro.
- Em todos os livros tem uma etiqueta que precisa ser desativada e há
algumas que não sabemos a razão, talvez em contato com algum objeto, ativa ela
novamente, e acho que foi isso que aconteceu com o senhor.
- Ah! Que pena, pensei que fosse um prêmio, ou que o livro que estou
comprando seria brinde...
- Seria bom, mas infelizmente não é. – disse sorrindo num alegre sorriso
branco.
Chegando ao balcão dos presentes, pegou do aparelho de leitura ótica e
passou pelo livro. Acendeu a luz vermelha e apitou duas vezes.
- Esta vendo, a etiqueta foi ativada. Vou colocar outra por cima para
não acontecer isso novamente.
- Puxa! Devia ser brindado com um prêmio, não acha?
Ela riu.
- Infelizmente... Desculpe o incomodo, espero que o senhor não esteja
chateado.
- Não estou chateado não.
Guardei Raymund Chandler, paguei As horas e saí da livraria. Não estava
realmente chateado, e por que deveria, são coisas que acontecem até com as
melhores famílias.
Ao descer a escada rolante do metrô Consolação, a tarde ainda estava com
sua maciez beijando a face da avenida dando a impressão que a felicidade
abraçava-a longamente.
Os dedos longos e finos com as unhas mal cortadas, deformando as pontas, lentamente pressionaram as teclas e escreveram:
- Ao atravessar a rua descobriu...
Depois da palavra “descobriu”, os dedos pararam suspensos no ar, a
espera. O poeta olhou para os dedos imóveis. Tinha muita coisa para escrever.
Só não conseguia fazer com que os dedos agissem ao seu comando. Já que não queriam
lhe obedecer, foi até a cozinha e pegou o facão de cortar carne e decepou um
dedo. Os outros com medo, resolveram obedecer às ordens do poeta. E por mais
alguns tempos tudo correu normalmente. Até que um dia, repetiu-se a cena e mais
um dedo foi decepado. Assim foi sucessivamente. Hoje, O Poeta de Dedos
Decepados, como passou a ser chamado pela mídia inescrupulosa, vive trancafiado
num quarto isolado no Sanatório Municipal, escrevendo com dedos abstratos
palavras que só ele consegue ler.
Aproximou-se sem ser percebido. Alongou os braços e envolveu num abraço
aquele corpo cheio de cansaço. Não se importou com exclamações de espécie
alguma, e, muito menos, com o que poderiam dizer ou pensar em dizer.
Abraçou aquele corpo que pedia assim como ele queria. Sentiu a tarde se
expandir num glorioso raio de sol avermelhado queimando o horizonte. Ao mesmo
tempo, recebeu um beijo na diagonal do prazer, enquanto sua mão deslizava na
suavidade da penugem do pêssego arrepiando a pele. Deixou-se ficar na doçura do
envolvimento, até que meio sádico, aparou em cada tecido a vibração das
moléculas dirigidas a cada corpo. Assim, ficou, por longo, longo, longo tempo.
E, no momento em que o sol dissipou toda a luz dando lugar as sombras da noite
fecharam-se mais uma vez num abraço, e adormeceram no sono dos justos, colados
na satisfação de terem conseguido desfrutar o prazer um do outro.
Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...