sexta-feira, 30 de junho de 2023

O gelo do teu olhar

 Partiu em dois

Meu coração

 

Uma parte

Congelou-se no presente

Outra parte

Petrificou-se no passado

 

Hoje vivo

Totalmente

Solidificado

Na geleira

Da tua ausência

quinta-feira, 29 de junho de 2023

O gesto dos teus olhos

 Conduzem a vida

Que escorre lenta

Junto a mim

Traduzindo

Nos dedos do tempo

As carícias

Que depositas

Em mim

quarta-feira, 28 de junho de 2023

O livro.

 

Não tem dúvida que o que eu fiz é caracterizado como crime, disse enquanto olhava o céu azul da janela do seu pequeno apartamento. Sabia de antemão as conseqüências que tal ato provocaria, sabia sim. Tinha a real noção de cada movimento, de cada gesto, de cada pensamento animando-o a por em prática o que repentinamente ousou fazer. E ao se decidir: é agora, o peito se inflou acelerado aumentando o batimento cardíaco que pensou em voltar atrás. Não podia voltar, tomou coragem e partiu para o que desse e viesse. Controlou as veias inchadas de excitação, enxugou o suor com as costas da mão evitando que escorresse molhando os olhos. Olhou para os lados, observou o que faziam. Naquela hora havia poucas pessoas na livraria. Prestou atenção nos movimentos dos vendedores atendendo os fregueses. Calculou exatamente cada movimento que ele teria que fazer com os movimentos dos vendedores entretidos. Não tinha ninguém no caixa. É o momento, disse. Não notaram sua aproximação. Fazendo-se de desinteressado, como estivesse apenas a correr os olhos pelas capas, chegou perto do livro que desejava. Devagar, quase que amorosamente, pegou o volume de capa vermelha com letras douradas, folheando a entreter-se em determinados trechos. Na verdade, fingia ler, mas pelos cantos dos olhos, tanto à direita como a esquerda e por cima dos óculos, supervisionava a pequena movimentação das pessoas. Sentia-se invisível, não o notavam parado com o livro a mão. Foi num relance, depois ele estranhou até a sua rapidez, num relance enfiou o livro dentro da mochila e ao mesmo tempo pegando outro volume. Assustou-se com sua audácia, a mão tremia levemente. Suspirou fundo e tratou de se acalmar. Assim deixou se inundar por uma onde de alívio, se preocupando tão somente com a ansiedade em querer sair logo da loja. Obrigou-se a reter a ansiedade e dirigiu-se a um vendedor.

- Por favor, tossiu umas duas vezes, desculpe, por favor poderia me dizer quanto custa esse livro?

O vendedor pegou o volume, consultou o computador e respondeu:

- Setenta reais, devolvendo o romance. Vai levar?

- Não, obrigado, fica para outra vez.

Deu as costas ao vendedor com a leve impressão que ele poderia ter desconfiado de algo. Enquanto andava com passos firmes, sentia os olhos do rapaz queimando suas costas. Saiu da livraria, parou um pouco na porta demonstrando indecisão. A vontade era de correr, mas se conteve, andando devagar. Na esquina tomou o ônibus. Apertou a mochila com força contra o corpo sentindo o grosso volume machucando seu corpo. Só foi correr quando chegou a porta do edifício. Só sentiu-se seguro quando fechou a porta do apartamento girando a chave na fechadura. Excitado, arrancou o livro da mochila. Deu um grito de vitória e se jogou na poltrona. Leu o título: Orlando, Virginia Woolf e o mundo desapareceu...

terça-feira, 27 de junho de 2023

O medo.

 

Tenho medo do escuro e meus olhos passeiam pelo escuro da tua ausência vibrando no tempo.

Caminho no escuro de pedras pontiagudas espetando a carne podre.

Caminho no escuro das luzes que não mudam de foco alimentando as sombras que me perseguem.

Que me devoram.

Tenho medo do escuro ao ouvir o grito do vocalista.

Será que ele sabe o que é ter medo do escuro?

Do escuro suicida que arrasta almas ao profundo abismo?

Não sei.

No entanto o medo do escuro me envolve num manto que não está perto e também está ao meu lado.

Medo dos meus dedos presos na carne fraca onde os anseios afloram dos teus olhos escuros.

Tenho medo do escuro e quem não tem ao procurar a luz e não percebe o seu medo.

É terrível.

Você não percebe quem te olha, mas quem te olha percebe, disfarça e não diz nada por ter medo do escuro.

E você nota os passos estranhos no sótão escuro da carne.

Você acelera os passos, corre não caminha, sabe que dificilmente se livrará.

Cansado, dobra o corpo e se entrega...

segunda-feira, 26 de junho de 2023

o peito mostra a tristeza

 que há no meu olhar

 

o peito extravasa ressentimentos

que se alarga em pressentimentos

 

ninguém chega ao seu destino

sem deixar rastros pelo caminho

 

a amargura não impede o sonho

de chorar o próprio sonho

 

vivo guardando no peito a solidão

boa companheira dos meus uísques

 

fecho a janela

coloco o cd favorito

entrego-me à ausência

de não ter você

aqui comigo

domingo, 25 de junho de 2023

O som dos meus passos

 Trinca os passos da caterva

Chorando e gritando a fome

Nossa de cada dia

 

Revelo nas esquinas

As dores assassinas

Nos risos falsos

De cada vidente

 

Enxugo a lágrima

No lençol branco

A tua ausência

 

Na cozinha tomo

Um café quente

E pratico assassinato

 

Assistindo o fantástico

sábado, 24 de junho de 2023

O tempo é um louco

 Correr sem fim

Um ir e vir

Ocupando espaço

Nem sempre ocupado

 

Não tenho junto a mim

Teu corpo que me ame

 

Por caminhos

Longos e tortuosos

Meus pés já caminharam

 

Trago no peito

A fulgurante

Chama da paixão

Numa dor lacerante

 

Fechando-me no tempo

Num corre sem fim

Umedecendo a pele

 

Jogo o meu jogo

Livre e espontâneo

Simplesmente

Para viver

O jogo da vida

quinta-feira, 22 de junho de 2023

O tempo traz a nudez

  na areia escorrendo pelos dedos dos meus pés.

O poema traz o sentimento da água salgada lambendo minha pele nua.

É roupa de emoções num vai e vem de contornos e mistérios.

É caminho onde meus pés afundam deixando marcas no tempo inexato.

São palavras frias de consistência fracas e sem veracidade.

É minha nudez exposta no poema, cujo retrato, se desfaz no vai e vem das ondas do mar.

quarta-feira, 21 de junho de 2023

odeio você querida

 como odeio o vizinho

 

odeio o sol

como odeio o frio

 

odeio a chuva

como odeio a seca

 

odeio ônibus lotado

como odeio metrô vazio

 

odeio reclamações fúteis

como odeio gente pacata

 

odeio televisão ligada

como odeio a Globo.com.br

 

odeio o big bosta bestializado

como odeio o sexo comercializado

 

odeio a fome industrializada

como odeio as bocas esfomeadas

 

odeio o amor informático

como odeio o desamor priápico

 

odeio a cidade cinza abandonada

como odeio o campo invadido

 

odeio o sorriso fácil enganoso

como odeio a falta de humor

 

odeio porque sou humano

como odeio você deixou de me amar

terça-feira, 20 de junho de 2023

Os riscos

  percorrem em sulco a vida delineando sentimentos.

Os sulcos é a representação dos passos percorridos na rotina diária.

O corpo descansa na roda viva girando no espaço o infinito da matéria alma.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Passos incertos

 

 desencadeiam sonoros silêncios de morte nas calçadas varridas pelo vento da noite.

 

Em algum lugar incerto o silêncio é quebrado pelo acordeom revelando que há na cidade almas que ainda vivem se amando.

domingo, 18 de junho de 2023

Pequenas histórias 52

 

A luz do meio dia não traduz a opacidade que o ano novo – novo só na folhinha – impinge sua consistência na pele podre da humanidade. Cada ser humano a sente numa orgia desenfreada de cores e sensações que só mais tarde terá a consistência de senti-la totalmente. O que será meio tarde.

Pois o ser humano não tem, e nunca terá a competência de sentir toda a carga emotiva na hora, no momento. Até pode sentir, mas não será com a mesma intensidade quando daqui a alguns dias, ou mesmo daqui a alguns anos, ao rever o momento em fotos ou vídeos, será tolhido pela saudade.

Saudade de um tempo que não volta, não retrocede, mas que todos gostariam que houvesse a possibilidade de voltar.

sábado, 17 de junho de 2023

Pequenas histórias 53

 

Olhou as horas no relógio novo que ganhara no Natal. Sete horas e cinqüenta e oito minutos. Ainda não é o momento de ir ao banheiro. Só na hora do expediente, disse mentalmente. Sete horas e cinqüenta e nove minutos do terceiro dia do ano novo, ano de dois mil e oito que já parece velho, como disse uma poeta amiga numa crônica. Só que ele em muitas crônicas já escrevera: só mudamos o calendário na parede, pois o resto é tudo igual, não muda e, se muda é um mudar invisivelmente invisível que nem nossos sentimentos sentem. Não há mais aquela expectativa de novo, de refazer o refeito para se ter o velho numa embalagem atraente, que pelo menos dê a certeza abstrata que estamos caminhando num novo completamente novo. Os enfeites natalinos acumulam o pó das ilusões frustradas nos brilhos dos abraços mecânicos e enfadonhos. Aquela expectativa de realizarmos o irrealizável a cada começo de ano, não tem mais tanto significado, tanto empenho em acontecer. Talvez porque o ser humano não tem a paciência de conseguir as coisas em longo prazo. Quer tudo rapidamente, que o milagre seja feito de um dia para o outro. Quando o relógio mover o ponteiro no dia trinta e um de dezembro, no primeiro minuto do ano novo já quer que a mudança aconteça concretamente. Não sabe que para que isso possa acontecer, ele tem que ter no coração muito amor, paciência, deixar de ser individualista, ser mais comunitário, mais amigo, mesmo dos inimigos...

Bom, mas isso é bater na mesma tecla entra ano e sai ano.

sexta-feira, 16 de junho de 2023

Pequenas histórias 54

 

Desmontam a estrutura das festividades do passado reinando no presente o dia-a-dia corriqueiro. Soaram os sinos foguetórios de risos alegres despejando no velho as velhas esperanças abraçando o novo em esperanças novas. A noite se iluminou espocando brilhos em todas as direções. Gritos de vivas elevaram-se nos quatro cantos do país emborcando champanhes em saltos de ondas e comilança de lentilhas e outras previsões orando para que sejam concretizadas.

Desmontam a estrutura das festividades encravando na pele as rotinas burguesas onde os aflitos caem na realidade da terrível sobrevivência de carnês e dividas para vencer ou vencidas. Sempre o dia se abre em glorioso sorriso amarelado pelo sol que poucos observam. A sensibilidade não é para todos. A maioria são trabalhadores insensíveis aos devaneios da natureza. Não são poetas, pois poetas se alimentam do abstrato que os consomem em palavras nem sempre compreendidas.

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Pequenas histórias 55

 

Dagô entrou no elevador. Ro estava no fundo, encostada à parede.

- Bom dia, Dagô – cumprimentou mecanicamente.

- Bom dia, Roneide – mecanicamente respondeu.

Morena esbelta, pele de chocolate macia, na opinião dos homens, a gostosa do departamento, incluindo Dagoberto. Roneide sabia-se provocante, cabelos escuros lisos, olhos aquosos de um brilho estonteante, um busto de Mansfield, com seus vinte e oito anos, trazia na pele a fome de desejo expandindo o aroma sexual por onde passava.

Dagoberto, apelidado pelos companheiros de Dagô, não era uma excelência em beleza masculina. Os dentes saltavam para fora numa semelhança com Jerry Lewis em O Professor Aloprado, careca, com poucos cabelos finos onde não se definia a cor, apesar dos seus trinta anos ou menos até, tinha uma pequena barriga proeminente, um andar capenga que o fazia pender para o lado esquerdo. Corria o boato maldoso que tinha casado por correspondência, pois ninguém conhecia a esposa e muito menos o filho que dizia ter. Entre os solteirões, principalmente entre as mulheres, diziam:

“Se o Dagô casou porque eu não posso casar também?”

Dagô ao entrar, cumprimentou e, para não ficar com os olhos encravados na beleza plástica de Roneide, pois sabia que não conseguiria desviá-los, se postou no meio do elevador que, para sua estupefação subia lentamente.

Nisso ouviu a voz de Roneide  bafejando o hálito quente em sua nuca.

- Oi Dagô gostoso.

- Ronei... Eu gostoso?

- Me chame de Ro como todos me chamam, lindo.

- Lindo eu?

- Claro ou você não tem competência para transar com mulher?

- Tenho...

- Não vire a cabeça, não olhe para traz, assim está bom, aumenta o tesão.

Dagô não acreditava Roneide o abraçava por traz mordendo levemente a nuca, e acariciando o peito por cima da camisa esporte.

- Uhm que peito delicioso, disse Roneide deslizando a mão até o cós da calça.

- Ronei... Ro que isso, o que esta fazendo?

- Fique frio, fique frio, quero sentir essa força.... ua!!!! Menino, que delicia...!

E dizendo isso, enfiou a mão por dentro da calça de brim, a mão quente, suave, acariciou a barriga inundando os pelos de umidade, foi quando Dagoberto sentiu tocarem seu ombro.

 - Da licença Jerry Lewis. Sonhando de olhos abertos é? Vem, Ro, chegamos.

Era Ricardo que gostava de chamá-lo pejorativamente de Jerry Lewis.

- Dagô, da licença. – disse Roneide roçando o peito em seu braço.

Antes do elevador se fechar, Dagoberto viu o belo sorriso sumir entre as folhas da porta inundando-o de comiseração.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Pequenas histórias 56

 

O sol descruza os braços por entre os galhos da árvore balançando os rostos de bolas frágeis que, ao pequeno contato, se quebram espalhando preocupações e angústias pelo chão do medo e do terror. Fogos sanguinolentos marcaram de brilho o céu escuro onde o cuidado de não ser assassinado foi apregoado aos quatro cantos da cidade perdida em falsa felicidade.

Sorri o felizardo sem as meras preocupações carregando nos ombros a vulnerável burguesia a qual pertence feliz por viver incólume o ano todo

 O que era presente rapidamente é passado. Caminhamos no passado, não um passado longínquo, num passado recente, onde a todo instante bate a nossa porta pedindo licença para entrar. Sem ser percebido, se instala no melhor lugar do sofá e só será percebido, quando a luz dos olhos se torna opacas.

Só serei forte, quando não me preocupar mais com o tempo.

Quebrei todos os espelhos...

terça-feira, 13 de junho de 2023

Pequenas histórias 57

 

Foi um vestígio que marcou o instante no assoalho quando, percebeu a luz frágil da lua, invadindo o quarto dos sonhos, meramente esquecidos, ao acordar no meio da noite.

Levantou-se no escuro tendo a angústia roçando os lábios mornos do desespero por ficar muito tempo deitado na cama que o espetava.

Os caminhos percorridos durante o dia tropeçavam em seus olhos marcando os longes que impôs a si mesmo como algo que deveria ser feito sem medo e sem hesitação.

Seguia os caminhos não como destino, não acreditava em destino, mas somente para chegar aos longes da alma eliminando o negativismo de seus atos impensados.

Sabia que dormir não espantaria jamais o frio das palavras impressas nos cartazes grande das ruas e, muito menos, lhe daria noção do corpo como um todo.

Os resíduos, mero subterfúgio, agia como reveladora demonstração de sua vivência constante no mundo prosaico dos sentimentos.

E, coalhado de resíduos, percorreu as nódoas cuja marcas a chuva repentina, deixava no chão seco por onde passava.

Sorriu meio tristemente, se enfiou de novo debaixo das cobertas, não deixaria a depressão invadi-lo.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Pequenas histórias 58

 

O piano martela as teclas pretas e brancas transformando o sorriso que, antes festivo, em preocupações impingindo a rotina novamente.

O novo rapidamente torna-se velho e o espocar do champanhe borbulha no rio poluído.

Pustulentos nacos de dejetos humanos, surrupiados de suas vidas, brilham no dorso da fome que o povo se alimenta.

Chora a mãe a fome do filho mais novo, enquanto o mais velho, de olho adulto, pragueja estendendo a mão:

- Uma esmola, por favor,

- Desculpe, não tenho – responde o senhor empertigado no seu terno de quinhentos reais.

“Que merda! É hoje que apanho da minha mãe, novamente.” – pensa o garoto amargurado e triste.

domingo, 11 de junho de 2023

Pequenas histórias 59

 Começou mais uma vez o Big Bunda Bosta Bial com seu estrelismo a  garoto propaganda revestido de go go boy ultrapassado. Só falta um strip-teaser para ganhar o troféu pior do ano, pois beijo gay fica por conta dos ocupantes contratados a obedecer ao script.

Monta-se o cenário para os imbecis solitários se entreterem mais uma vez na masturbação televisiva em disputa com o Juvenal Antena. Ah! Que saudades da Nazaré...

É, começou o Big Bosta Bial Bunda para a glória de todos, enquanto isso, meninos fazem palhaçadas em frente aos carros, nos semáforos, para garantirem os trocados para o craque da fome que lentamente mata.

É isso mesmo fãs da imbecilidade, vamos ligar para o Big Bial Bosta Bunda e escolhermos o nosso ídolo e ao mesmo tempo assassinar um menino canceroso ou Aidético a espera de um milagre.

É preciso que se diga a esses meninos cancerosos e Aidéticos que não existe milagre, que eles têm que morrer logo para dar lugar aos que esperam um lugar ao sol.

É, começou o Big (P) Bederasta Bial Boiola, para alegrar os desocupados nas prisões que, coitados mandam e desmandam na criminalidade dentro e fora da cadeia.

E em cada esquina surge uma igreja universal para surrupiar o pouco de fé financeira dos pobres coitados sem eira e nem beira.

Começou mais um Big Bunda Bosta Bial para a alegria de todos e para o consumismo da mídia que se espera vender o dobro de conteúdo inútil.

Por isso, faço aqui uma campanha que sei será de pouco alcance, mas vamos desligar a televisão no momento do Bial Bosta Bunda Big?

O que acham? Bom, a minha fica desligada sempre...

sábado, 10 de junho de 2023

Pequenas histórias 60

 

A tarde estava macia quando sai do prédio. Apesar do sol forte, a macieza da tarde lambia os contrafortes dos prédios e os limites dos passos preocupados em chegar a algum lugar. Estava macia assim como o “Bolero” de Ravel, macio e agitado sem ser pulsante e desgastante.

Atravessei a Avenida Paulista, e entrei no Conjunto Nacional. Como estava impregnado pelo drama do filme “As horas”, tendo assistido umas quatro vezes, decidi comprar o livro, o qual o filme foi adaptado. Decidido e feito, entrei na Cultura.

A Livraria Cultura, a melhor de São Paulo e, talvez, a melhor do Brasil, agora em sua nova instalação, é digna de nota dez. Nunca me deixou uma única vez na mão, isto é, todos os livros que procurei, encontrei. Se não tem na hora, manda buscar na editora ou nas filiais esparramadas pelo Brasil. Uma vez, não tendo o livro que eu queria, mandou vir de Porto Alegre, no dia seguinte o livro estava em minha mão. Os vendedores são atenciosos, não deixam uma informação ou pergunta sem responder, se não sabem procuram se informar com outro vendedor parece que todos têm só um objetivo: atender bem quem gosta de livro. De duas uma: ou ganham bem ou os atendentes e vendedores amam livros e gostam do que fazem

E ao ultrapassar a porta da livraria, o sinal de segurança foi acionado.

“Pensei, isso não é para apitar quando se saí e não quando entra?” E também, não me preocupei se era comigo ou não. Dirigi-me a vendedora que estava mais perto.

- O senhor já foi atendido?

- Não. Por favor, tem esse livro? – estendi para ela o recorte que tinha tirado do site.

- Um momento.

- Pois não.

Depois de uma rápida verificada no computador, me disse:

- Tem sim. O Senhor espera aqui? Vou buscar o livro.

- Espero sim.

Enquanto esperava, fiquei olhando os livros expostos, quando senti tocarem o meu braço esquerdo. E, ao virar pra ver quem era, deparei com uma morena clara, talvez nissei ou sansei, bonita, atraente, vestida de um preto delicado e elegante.

- Desculpe senhor.

- Sim!

- Quando o senhor entrou acionou o sinal de alarme.

- Ouvi, mas não pensei que fosse comigo.

- Foi com o senhor sim. Mas se o senhor não quiser não precisa...

- O que?

- É que talvez o senhor tenha algo em sua bolsa ou bolso, que acionou o alarme. Até mesmo um livro que o senhor tenha comprado aqui.

- Bom tenho um livro.

E tirei da bolsa “Assassino na chuva”, de Raymund Chandler que, realmente tinha comprado alguns dias atrás.

- Por favor, dá licença, se o senhor não quiser, não é obrigado.

- Que isso...

- Posso? – e esticou a mão na intenção de pegar o grosso volume.

- Claro. – entreguei para a ela o livro.

Nisso chegou à vendedora com “As horas”.

- Aqui está.

- Obrigado.

Voltei a minha intenção para a bonita atendente nissei ou sansei.

- Por favor, o senhor pode me acompanhar?

- Claro.

- Em todos os livros tem uma etiqueta que precisa ser desativada e há algumas que não sabemos a razão, talvez em contato com algum objeto, ativa ela novamente, e acho que foi isso que aconteceu com o senhor.

- Ah! Que pena, pensei que fosse um prêmio, ou que o livro que estou comprando seria brinde...

- Seria bom, mas infelizmente não é. – disse sorrindo num alegre sorriso branco.

Chegando ao balcão dos presentes, pegou do aparelho de leitura ótica e passou pelo livro. Acendeu a luz vermelha e apitou duas vezes.

- Esta vendo, a etiqueta foi ativada. Vou colocar outra por cima para não acontecer isso novamente.

- Puxa! Devia ser brindado com um prêmio, não acha?

Ela riu.

- Infelizmente... Desculpe o incomodo, espero que o senhor não esteja chateado.

- Não estou chateado não.

Guardei Raymund Chandler, paguei As horas e saí da livraria. Não estava realmente chateado, e por que deveria, são coisas que acontecem até com as melhores famílias.

Ao descer a escada rolante do metrô Consolação, a tarde ainda estava com sua maciez beijando a face da avenida dando a impressão que a felicidade abraçava-a longamente.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Pequenas histórias 62

 Os dedos longos e finos com as unhas mal cortadas, deformando as pontas, lentamente pressionaram as teclas e escreveram:

- Ao atravessar a rua descobriu...

Depois da palavra “descobriu”, os dedos pararam suspensos no ar, a espera. O poeta olhou para os dedos imóveis. Tinha muita coisa para escrever. Só não conseguia fazer com que os dedos agissem ao seu comando. Já que não queriam lhe obedecer, foi até a cozinha e pegou o facão de cortar carne e decepou um dedo. Os outros com medo, resolveram obedecer às ordens do poeta. E por mais alguns tempos tudo correu normalmente. Até que um dia, repetiu-se a cena e mais um dedo foi decepado. Assim foi sucessivamente. Hoje, O Poeta de Dedos Decepados, como passou a ser chamado pela mídia inescrupulosa, vive trancafiado num quarto isolado no Sanatório Municipal, escrevendo com dedos abstratos palavras que só ele consegue ler.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Pequenas histórias 63

 

Aproximou-se sem ser percebido. Alongou os braços e envolveu num abraço aquele corpo cheio de cansaço. Não se importou com exclamações de espécie alguma, e, muito menos, com o que poderiam dizer ou pensar em dizer.

Abraçou aquele corpo que pedia assim como ele queria. Sentiu a tarde se expandir num glorioso raio de sol avermelhado queimando o horizonte. Ao mesmo tempo, recebeu um beijo na diagonal do prazer, enquanto sua mão deslizava na suavidade da penugem do pêssego arrepiando a pele. Deixou-se ficar na doçura do envolvimento, até que meio sádico, aparou em cada tecido a vibração das moléculas dirigidas a cada corpo. Assim, ficou, por longo, longo, longo tempo. E, no momento em que o sol dissipou toda a luz dando lugar as sombras da noite fecharam-se mais uma vez num abraço, e adormeceram no sono dos justos, colados na satisfação de terem conseguido desfrutar o prazer um do outro.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...