sexta-feira, 30 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.667(2021)

          

            Então, temperatura baixa, um frio chato com um vento desagradável nessa terça porreta. Voltarei a ler... bem pelos tentarei e o primeiro livro que estou lendo nessa minha volta a leitura é nada mais nada menos que: On the Road, de Jack Kerouc elevado ao estrelado beat coisa que nunca foi. No entanto esse livro fez a cabeça de muita gente pelo mundo todo a pegar a mochila e sem destino sair pelas estradas da vida. Talvez, tenha feito essas andanças em que escreve no livro, uma andança sem destino, conhecendo pessoas estranhas e desconhecendo o seu próprio destino, onde faz amizade e perde amizade como se perde um objeto qualquer. Ganhei esse exemplar em 1984, portanto a trinta e sete atrás e vou guardá-lo como lembrança dos amigos da Liquigás que me deram no aniversário, uma época estupenda, saudosa que deixou coisas boas. As assinaturas: Rose, Albina, Lourdes, José Claudio, Rosana, Coimbra, Álvaro, Castilho, Carlão e Sergio, obrigado pessoal por cruzarem meu caminho, grato a todos.

            E pensei: Porque não fazer a minha andança, sim minha andança, mas dentro da cidade, pegar um ônibus aleatoriamente e ir até o seu final, dar umas passeadas pelo local, talvez tomar uma cerveja num boteco e voltar, e escrever essa experiência. Vou matutar nesse projeto, claro que agora é preciso cuidado por causa dessa merda da pandemia, mas vamos pensar.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Contos surrealistas 71

                                 Amantes

A sala fria e escura trazia a melancolia na poeira dos móveis. Com ímpeto, puxou as grossas cortinas deixando a claridade limpa e bonita da manhã inundar as sombras que se esconderam pelos cantos do ambiente.

Melinda foi até o grande e preto piano, no canto da sala. Abriu a tampa e passou os dedos aleatoriamente pelas teclas produzindo um som afinado que entrou na suavidade do dia. Talvez fosse muito cedo. A casa ainda ressonava embalando seus habitantes. Melinda não se importou. Sentou na banqueta, pousou os dedos longos e finos nas teclas e extraiu delas a Sonata em si menor, de Bach. Assim que as primeiras notas ganharam o espaço saindo pela janela do amplo jardim, Ricardo acordou do sono silencioso debaixo da frondosa árvore.

Com passos lentos, como se estivesse pisando em teclas pretas e brancas de flores, aproximou-se da janela. Sentou numa pedra próxima embevecido pela melodia. Uma profunda beleza invadiu o peito, deixando-o tristonho. Amava demais a música, sentia inveja de Melinda. Pacato cidadão do mundo, semi analfabeto, nasceu jardineiro e, será sempre jardineiro, sabia disso, não tinha condição de aprender a tocar instrumento nenhum.

 Melinda notou a presença de Ricardo. Nem bem começou a tocar, ele surgiu integrando-se ao mesmo espaço. Houve uma interação mútua, partindo tanto dela como da parte dele.

Ricardo da pedra passou ao parapeito da janela e, quando deu por si, estava ao lado de Melinda.

Os dois desligaram-se de tal maneira que nada mais os interessavam. Rodopiaram em notas espiraladas num equilíbrio abstrato e perfeitas. Suas peles não se tocaram, no entanto absorviam a quentura dos corpos respirando a mesma excitação. E quando as últimas notas pararam de vibrar as fibras da sala, exaustos, cada um a sua maneira, transpôs o limite entre o devaneio e a realidade.

Ricardo voltou ao seu sono debaixo da frondosa árvore e Melinda a sua vida pacata de menina burguesa.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.666(2021)

           

            Que lastima, meu querido. O que? Ficou sabendo como te encontraram? Não, como? Deitado no meio da rua, encolhido na forma fetal e gritando: “Pare o carro, pare o caminhão”. Mas, é verdade. E o que você contou para a polícia, para os médicos, então! O que eu contei? Não lembra, que fulano ao dar ré no carro ou caminhão, pois uma hora você dizia carro e numa outra hora dizia caminhão, ao dar ré atropelou o ciclista. Foi isso mesmo. E o atropelado saiu debaixo do caminhão tirou o motorista e começaram a brigar, atropelado, todo machucado, ensanguentado brigar com o motorista, como? Não sei como, mas foi assim mesmo. Depois apareceu um senhor berrando que tinham quebrado a vitrine da loja dele. Estava bravo, berrava como um louco, aí surge um doido com um taco de sinuca batendo para todos os lados e, você pensa: “Agora que estava tudo bem, na paz, acontece isso”. Verdade. E de onde você tirou que estava urinando atrás da casa e que iria levar bronca por causa disso. Olha eu queria ter feito alguma coisa para salvar o ciclista ou mesmo o motorista, mas fiquei pregado no meio da rua puto porque ninguém chamava a polícia ou a ambulância. E só gritava “para o carro ou para o caminhão”. É isso mesmo. Sabe depois o que ocorreu, não é? Fale logo que eles estão vindo. Eles quem, a polícia não encontrou nada, nem carro, nem caminhão, nem atropelado, nem vitrine quebrada, nada. Eles chegaram, não me deixe. Eles quem? Pronto, foram embora, agora vou ficar com sono e dormir. Não vai não, merda, não gosto quando você faz isso, me deixa sozinho, acorde, que saco, porra...

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 27 de abril de 2021

Contos surrealistas 72

Trajetória de um assassino.


A pedra saiu da sua mão numa trajetória quase perfeita. Mirou o alvo e lançou. Sem encontrar obstáculos, bateu na testa e caiu ao lado do menino. Uma pequena mancha de sangue se incrustou num dos lados em comparação com o grosso filete que escorreu pelo rosto cobrindo o olho direito. O menino caiu e inerte ficou de comprido no campinho de terra batido. Apavorado, não soube o que fazer. Estavam os dois sozinhos. Pensou em correr e, foi o que fez. Chegou em casa ofegante. Subiu as escadas e trancou-se no quarto. O coração descompassado batia fazendo o peito doer. Jogou-se na cama. Será que matei, pensou. Não tinha a intenção de jogar a pedra, mas instintivamente se agachou e pegou a primeira que encontrou. Do ato concretizou-se o gesto. Agora o menino estava morto. O que deveria fazer? Entregar-se a policia? Mas ele tinha apenas doze anos! Será que o prenderiam? Não, o mais certo é levarem para o reformatório.

Era uma pedra e seguiu pedra, porque não se transformou em outra coisa assim que saiu da sua mão? Não, saiu como pedra e seguiu como pedra. Agora... Talvez fosse melhor voltar ao campo e verificar mesmo se o matara. O sol cobria todo o campo de terra batido transformando-o num pequeno deserto. Ao transpor a cerca viva, constatou horrorizado que o corpo do menino não estava mais onde o deixara. Será que foi para a casa dele? Alguém chamou a policia ou a ambulância e o levaram? Sem o corpo não poderia ser acusado.

Sem perceber acelerou o passo de volta. Mas ao virar a esquina, viu o carro da polícia parado em frente a casa. Não pensou duas vezes. Saiu correndo em sentido contrário e nunca mais o viram.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.665(2021)

         

            Uma pergunta se fez clara no pensamento como flecha, como uma pedrada e firme aceitou a pergunta:

            --- Se eu tivesse ido naquele sábado a tua festa de aniversário como estaríamos hoje? Morando juntos? Ou...

            Foi o que perguntou ao universo. Não gostava da palavra “Se”, assim como a palavra “Por que”, tinha a eliminado também, do seu dicionário. E ao ver um filme lhe veio a pergunta e sabia que teria que expressá-la em palavras para que saísse da sua mente. É, como estaríamos hoje, juntos, morando juntos, namorando, ou nos vendo ocasionalmente, como estaríamos. Depois de tanto pensar chegou conclusão que foi o melhor não ter ido... não estou errado pensando assim, disse a si mesmo, eu deveria ter ido, fosse qual fosse a consequência hoje deveria ter ido. Merda! Se pudesse voltar aquele sábado... Bem, me desculpe meu querido, apagou a luz, puxou a coberta, virou-se para o canto da parede imaginando como seria se voltasse àquele sábado.

            É isso... ou, não é?

domingo, 25 de abril de 2021

Contos surrealistas 73

                                     A vida se fez

 

O dia espirrou esplendor na cidade que, radiante, em orgia com o vento, o ar, e a água lambuzou a terra de prazer e, assim, a felicidade nasceu sem preconceito estampando no rosto das esquinas, praças e vielas o nascer de cada manhã.

sábado, 24 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.664(2021)

        

            Desprevenido o sol pega-o na soleira da porta que dá para a área/garagem dando-lhe a sensação de já ter passado por isso. Apenas, talvez, portanto, quem sabe, não sei, mas seja o que for o sol aquece suas partes expostas e tenta penetrar... penetrar... nas partes não expostas queimando a pele do tecido do seu short jeans. Sorri, é o que pode fazer no momento sorrir, então sorri flanando na suave sonoridade do seu sorriso e calidamente deixa-se pousar na planta que o recebe agradecida. Se achega nela e se envolve nas suas tramas fecundando-a numa bela e deslumbrante flor. Agradecida suas pétalas se esticam na claridade do sol, e lança ao ar o perfume depositando-o na soleira da porta onde desprevenido estava sentindo-se forte e seguro.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Contos surrealistas 74

                                 Obrigada, querido.

 

Ela olhou para o espelho. Refletido no desbotado vidro na parede, acima da pia do banheiro, estava o seu destino. Mas será que era o seu destino mesmo? Não acreditava. Aquela pele enrugada com mancha escura por baixo dos olhos não estava ali ontem! O que aconteceu? Não há resposta para os mistérios quando não são respondidas no momento certo. Deixou passar e agora apenas o vazio de algo que não sabe o que é que lhe responde: “Não sei.”

E como dói ouvir sua própria mente dizer: “Não sei”! Talvez dentro desse “não sei” esteja o tempo perdido, esteja o ponto, o momento certo em que devia mudar o curso do seu destino, embrenhando-se por outro caminho, outra rua, outro braço, outro corpo e não esse caminho, essa rua, esse braço, esse corpo que por todos esses anos vem acompanhando-a.

- Querida! Está pronta? Vamos chegar atrasados.

Está pronta! Chegar atrasados... Nunca esteve pronta e sempre estava atrasada, disse o seu eu em seu ouvido. Quem sabe ainda exista uma chance? Abrir a porta e gritar:

- Querido, vá à merda...

No entanto mecanicamente, abriu a porta e respondeu:

- Um minuto, estou terminando de me maquiar, querido.

É o que vem fazendo todos esses anos: maquiando o tempo, tapando o destino com ruge, batom, lápis de sobrancelhas e jóias sem valor. O marido a esperava quando desceu a escada.

- Nossa! Como você está bonita, querida.

- Obrigada.

E ao entrar no carro, sentada ao lado do marido, sentiu-se satisfeita, descobriu gostar de estar ali, naquele momento, naquele exato instante e, ao mirar-se no pequeno espelho de mão, percebeu que amava responder “obrigada” todos esses anos e que responderia sempre “obrigada” pouco se importando com o seu destino.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.663(2021)

         

            Fecho os olhos. Vejo sons na concreta manhã. Latidos, carros, avião, máquina de lavar roupa, sol, portão que bate, e o silencio da mente que tenta entrar em estado meditativo e sonha sonhos num amalgama de imagens sem decifrá-las corretamente. Prossigo na tentativa em escrever minha história e fico apenas nos esboços, nos aparar arestas sem definir com veracidade as imagens na minha mente. Talvez, esses pequenos trechos escritos nesse dia a dia sejam a minha história. Ainda tenho internalizado o medo de expor sentimentos fortes, o medo das consequências... Porra, o que será preciso para tirar esse pequeno problema? Falo em merdas diversas e não vivo as merdas que digo. Só falo e é sobre mim mesmo, só eu que vivo, só eu que tenho problemas, só eu que... bem...

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Contos surrealistas 75

Marabá. 

Para os amigos:

Savasini, Leonice, Katia e Bob.

Leonice num gole só bebeu o café requentado. Ao lado do copo, datilografado em papel A4 estava o Manifesto Vanguardista que tinha de ler. De onde estava, mesmo com a porta fechada, ouvia os apupos e vaias encobrindo a Orquestra Filarmônica do Estado de São Paulo, regida por Bob Villa-Lobos. Faltavam cinco minutos para ela entrar em cena, cinco minutos para enfrentar a platéia enlouquecida. Num misto de enfado e angustia, jogou as três folhas do texto em cima do toucador derrubando os frascos de perfume. Como vieram parar ali? O que teria acontecido para estarem participando da Semana de Arte Moderna de Vinte e Dois? Não sabia. Culpa do Eduardo por querer divulgar o Grupo? Tudo bem entendia e até incentivava o Grupo de Poetas Itinerantes da Paulista que, com um trabalho excelente, tinha que ser reconhecido. Em sua mente uma pequena lembrança da noite anterior surgia como névoa escura que teimava em não se dissipar. O grupo, em nome de Eduardo, tinha aceitado o convite para participar do sarau poético na fazenda do poeta anarquista Horácio, O Grego, no interior de São Paulo. Como nuvem escura que aos poucos vai se dissipando até aparecer o céu azul e límpido, a névoa que encobria a lembrança aos poucos clareava a mente. Tinham chegado à noite anterior, mais ou menos a meia-noite na fazenda e, o anfitrião ofereceu um pequeno lanche pedindo aos participantes a promessa em se empenharem para que o sarau fosse um tremendo sucesso. Em seguida, brandindo as taças, beberam o champanhe prometendo cumprir a promessa. No dia seguinte, no café da manhã, foram distribuídos os papéis. Leonice ficou encarregada de representar Anita Mafald; Eduardo seria Mário de Andrade; Katia personificaria Tarsila do Amaral; Bob representaria o maestro Villa-Lobos e, PastorElli, seria o poeta antropofágico Oswald de Andrade. Enquanto esperava para entrar em cena, Leonice se deu conta do que estava acontecendo. O engraçado é que o pessoal se personificou realmente em seus papéis. Falavam e agiam como se fossem os próprios integrantes da Semana de Vinte e Dois. Bob que sempre detestou música erudita se portava como se fosse o próprio Villa-Lobos. O que estava acontecendo? Será que colocaram alucinógeno no champanhe? Como Leonice não gostava de champanhe, mal encostou os lábios na taça fingindo que tomava. Talvez, por isso não fora totalmente hipnotizada, se é que foram mesmo! Leonice notara outra coisa aterradora. Pareciam que estavam dentro de um filme buelniano. Não conseguiam sair dali. Teve confirmação quando por duas vezes sentiu necessidade de sair e, ao se dirigir a porta, fora chamada. E, também ao ver Eduardo parado em frente à porta indeciso sem saber o que fazer, até que ela perguntou o que acontecera e, ele dissera que tivera a intenção de sair, mas algo o impedia. Se fosse algum feitiço era preciso quebrar, pois seu instinto feminino lhe dizia que alguma coisa desagradável estava para acontecer. Amanhã ou depois de... Assustou-se. Não sabia dizer quanto tempo estava nessa grotesca e surrealista fantasia. Um dois ou três dias...

Incrédulos olharam um para o outro ao ouvirem o relato de Leonice. Parecia que as palavras de Leonice ricocheteavam num vazio ecoando entre eles sem atingir o alvo. Kátia retrucou que pelo menos a criatividade é que estava prevalecendo, isso dava um valor imenso a todas as apresentações. Por sua vez, Bob rebateu dizendo que nada valeria a criatividade sem a beleza espontânea e sincera de cada um. PastorElli que pouco era de falar, argumentou que a beleza sem fundamento de conhecimento se perdia dentro da obra. E enquanto os letreiros subiam e as luzes acendiam, Eduardo achava que o prometido tinha sido cumprido. Leonice enfiando o braço no braço de Eduardo perguntou quando e onde o Grupo de Poetas Itinerantes da Paulista se reuniria outra vez. No momento em que pisaram a calçada, as luzes do cinema foram apagadas e todos concordaram que o Marabá estava bonito novamente. E seguindo em direção a Praça da República, elogiando a reabilitação do centro, foram à procura de algum restaurante, pois todos estavam com fome...

terça-feira, 20 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.662(2021)

         

            Não poderia dizer se era profundo ou não. Uma força o empurrava para baixo impedindo de levantar a cabeça. E não sabia se estava num tanque, piscina, lago ou mesmo mar. Mar não era, tinha certeza, a água de cor verde não possuía movimentos. Era uma água parada. Distinguia pontos pretos como se fossem gravetos. Mesmo com a reação que fazia no intuito de subir à tona, a água continuava parada. Por outro lado, não existia a pressão da água sobre ele, apenas a sentia e a desconhecida força empurrando-o a permanecer debaixo da água. Sufocava-se, abria a boca na intenção de encher os pulmões de ar, mas nada acontecia, nem ar e muito menos água, somente sufocação oprimindo o peito. Como último recurso, fez pressão contrária e percebeu a resistência se enfraquecendo. Aumentou a força. Estava conseguindo, notava que a cabeça se enguia em direção à tona. Começava a ter esperança, já sentia a cabeça na superfície respirando o ar, mas aconteceu de abrir os olhos e o peito arfou violentamente e respirou o ar do quarto. O batimento cardíaco se normalizou, soltou um suspiro aliviado, puxou a coberta para o peito e se virou para o canto da parede voltando a dormir.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Contos surrealistas 76

                                 Amanhã é outro dia.

Meia noite e treze minutos. Sete de dezembro... Percorro labirintos de fios invisíveis prendendo-me em nós de sobrevivência. O batom perfura a pele dos lábios renegando desejos suicidas. Permito-me aos últimos retoques com a cara enfiada no espelho. O filho da puta, cadê a tua ambição, ela grita do outro lado do espelho. Sorrio heroicamente e respondo, está assexuada entre as pernas sua infeliz. Respiramos conformadas.

Meia noite e quarenta e cinco minutos. Sete de dezembro... A madrugada está agradável. Que venham os filhas das putas com seus caralhos de dinheiro. Que venham os desgraçados com seus buracos famintos de desejos. Rasguem os sonhos entre lençóis esquecidos de suas ambições juvenis. Caço o sorriso entristecidos pela alegria esperançosa.

Seis e cinqüenta e cinco minutos. Sete de dezembro... A claridade da manhã empurra os sombrios desígnios de cada um para os seus esconderijos. Conto o suor, a respiração, e o gozo em cada nota amassada. Sobrou pouca coisa para o enfadonho lazer. Amanhã é outro dia. Em seguida desabo em cima da cama o corpo estilhaçado.

domingo, 18 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.661(2021)

          

            Não sei o que escrever sobre o que eu quero escrever. Talvez, por existir o silencio vazio quebrado por alguns segundos nessa madrugada. Realmente não sei o que escrever, se devo escrever e no entanto quero e acho que devo contar a minha história. História essa que não é só minha, história que muitos não acreditarão, outros dirão ser maluquice, outros ainda me taxarão de louco varrido e outros dirão coisas terríveis. Não sei. Por muito que eu diga não ter medo, que expulsei esse sentimento, sinto que a tenho ainda um pouco, ainda especulo se é válido, se tem algum significado mesmo que seja só para mim. E sei que deverei ser integro nas palavras, não me esconder em subterfúgios malabaristas. Tenho que ser sincero não só comigo, mas com todos e principalmente com ele, mesmo que não concorde creio que deverei enviá-lo conforme vou escrevendo para que saiba e contar com sua compreensão dê pitacos e conselhos e assim juntos possamos escrever a nossa história. Bem ficarei no aguardo...

            É isso... ou, não é?

sábado, 17 de abril de 2021

Contos surrealistas 77

                                     Inesperado vôo.

 

A cápsula, em cima da pia ao lado do copo com água me provoca náusea. Antecipadamente sinto a aspereza da droga, como lixa ferindo a parede da garganta, seguido de um regurgitamento obrigando-me a engolir a dor antes de senti-la. Forço a mente a se preocupar com outras coisas, com a limpeza do apartamento, com obrigações a serem cumpridas, recolho a correspondência deixada no aparador perto da porta verifico uma por uma com um cuidado demasiado. Há de tudo, propaganda, panfletos de vereadores, cartões de natal e ano novo, contas a serem pagas, avisos bancários, até uma nota fiscal feita virtualmente num dos sites de vendas. Guardo as contas e jogo o resto no lixo. Dou comida e água para o gato que se enrosca nas minhas pernas.

A cápsula continua em cima da pia ao lado do copo, então faço algo inesperado, sem pensar. Jogo a cápsula dentro do copo, quem sabe a água amolece essa camada de plástico ou sei lá o que seja. Meio dia e cinqüenta. Preciso fazer o almoço. Antes vou até o banco pagar as contas, passar no supermercado comprar algo, pois comer arroz e feijão sem mistura é pobreza. Como esse bairro é medíocre, tem o aspecto de cidade do interior, apesar de certos estabelecimentos apresentarem uma fachada até que agradável, a maioria demonstram relapso dando impressão de decadência.

A primeira coisa que faço ao abrir a porta do apartamento é ver a cápsula dentro do copo. Continua inteira, apenas um pouco inchada, estufada, como se a água estivesse entrado nela. Deixo as compras em cima da mesa, guardo cada uma no seu lugar, acendo o fogão, descasco a cebola, o alho, tempero e jogo dentro da panela para fazer o refogado de carne. Daqui a cinco ou quinze minutos estará pronto. Não dou atenção ao gato com seu miado irritante. Pego uma cerveja e vou para a sacada. Olhando a cidade do vigésimo quinto andar, parece uma grande maquete onde um menino gigante brinca com ela. Daqui a alguns anos não terei mais essa visão ampla, se o crescimento populacional continuar desenfreado, isto aqui estará cheio de edifícios.

Um cheiro de queimado invade a sacada. Nossa! Corro até a cozinha, apago o fogo. Consigo salvar o refogado de carne. Demorasse mais um pouquinho adeus refogado. Ao colocar a panela em cima da pia, deparo com o copo de água e a cápsula. Que merda! Ainda bem que esse é o último, preciso tomar para o tratamento ter efeito. Viro o copo de uma vez, com água e cápsula goela abaixo. A maldita se enrosca, sinto como se mãozinhas pequenas agarram o músculo da garganta. Bebo mais uns dois copos de água. A lixa desce rasgando a carne e cai no estomago como pedra ao bater na água do lago. Ao mesmo tempo uma queimação sobe pelo esôfago com gosto podre de ferrugem. Corro para o banheiro e me ajoelho em frente ao vaso sanitário.

Instante depois, aliviado, sinto-me estranho, as mãos ficam pesadas, as pernas engrossam, o rosto incha feito bola. Não toco mais o chão com os pés, flutuo me tornei um balão humano ricocheteando pelas paredes. Tenho que me segurar, pois estou indo para a sacada, não consigo evitar. Num último desespero agarro o varal o que se mostra inútil, ele arrebenta e lá vou eu flutuando ao sabor do vento.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.660(2021)

                                     A cueca.

 

                        Olha o relógio no canto direito em baixo no monitor do notebook e decide que é hora de tomar banho. No banheiro tira a cueca e joga no cesto de lavar roupa e dá descarga. Se dirige para a pia, abre o armário, pega a escova de dente e a pasta e... espera aí, joguei a cueca no cesto e dei descarga!? Alguma coisa estava errada. Ergue a tampa do vaso e assombrado vê a água subindo até a borda e, de repente escuta um blog glub blub e vê a cueca junto com a água suja ser lançada para o alto como se fosse um gêiser e grudar no teto. Por instantes, olha para aquele fenômeno assustador e, sem ter tempo de reagir, a cueca se desgruda do teto e cai bem na cara dele. Ele faz argh descomunal e com as ponta dos dedos retira o objeto nojento do rosto e joga... no vaso de novo... não, abre a porta do quintal e a arremessa longe. Amanhã dou jeito nisso. Volta para o banheiro e horrorizado depara com chão, parede, teto enlameado de água amarelada com pequenos pedaços de merda. Abre o chuveiro e se enfia em baixo. Em seguida limpa a sujeira e ao mesmo tempo pensa com raiva: “Puta que pariu. Tenho que ir ao médico, não posso deixar isso acontecer de novo.”

                        É isso... ou, não é?

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Contos surrealistas 78

                             Ainda não morri 1

 

Aquela noite não foi ainda a minha noite.

Continuo vivo.

Se os acontecimentos da minha vida não são relevantes talvez, teria realizado outras coisas e não o que está prescrito na lei misteriosa do livre arbítrio.

Por outro lado o calor que penetra pelas janelas escancaradas é sufocante.

A luz da lua e das estrelas esparramadas no chão da sala cria os mais estranhos desenhos. O mais interessante, e por causa disso, estando no trigésimo andar, na maior cidade da America do sul, consigo ver a lua, as estrelas e suas sonoridades quase palpáveis em todas as filigranas dos enfeites provocando um surrealismo de sombras e desenhos no chão e parede da sala.

 Lion, o inquieto gato, tenta brincar com a profusão de formas como se aquelas bolas balançando de um lado para outro agisse nele feito droga deixando-o agitado. Foi preciso acender a luz da sala expulsando a lua e as estrelas para que o pequeno felino sossegasse.

Afinal, estamos no Natal...

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.659(2021)

                         Hoje é o dia de ficar invisível. Ter o poder de sumir e ninguém me achar. Usar a capa fedorenta do Harry ou Henry Poter da invisibilidade. O pior dia do ano esse dois de abril. Mas fazer o que, quem não tem poder se contenta em apenas ser. E nesse apenas ser vou sendo o que sou e foda-se o mundo o meu nome não é Raimundo, não é mesmo?

                        É isso... ou, não?

terça-feira, 13 de abril de 2021

Mais uma volta ao parafuso.

                         A mulher estava na beira do lago sorrindo. Olhei para ela e, depois para os meninos do outro lado. Sorriam também. Estarrecido julguei os dois hipnotizados pela mulher que avançava como se estivesse planando sob a água. Corri na esperança de chegar antes dela, só que eu contornava o lago enquanto a mulher planava em linha reta. Mesmo assim, não sei como, cheguei uns minutos antes.

Uma sensação de umidade fria passou por mim e pelos meninos no momento em que agarrei os dois. Nisso ouvi uma voz soar tetricamente na tarde cinza de outono.

- As fadas não morrem.

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.658(2021)

                       Rastreio com o cursor no imaginário das palavras tema para que eu possa escrever algo agradável nessa merda de dia que ficou marcado como o “Dia da Mentira.” O pequeno ponto piscante obedece ao comando que lhe dou e obediente vai de um lado ao outro da tela sem se importar de passar em cima de letras, figuras, imagens as vezes agressivas, nojentas, pessoas, objetos, estradas, campos, matas, rios e outras putarias que assolam a navegação pelo rio de estrume que é a internet. E amanhã é o pior dia do ano, meu aniversário, o dia em que gostaria de me esconder de tudo e de todos. Né não?

                        É isso... ou, não é?

domingo, 11 de abril de 2021

História sem fim

                                

                                     Para minha mãe, Ruli 

 

 

                     Ruli pedalava das oito até as dezoito horas. Parava algumas vezes para as necessidades do corpo e porque precisava preparar o almoço. Fora isso, costurava sem parar. Quem passava, pois sua janela dava para a rua, sendo que o batente era baixo, podia ouvir e ver o tec tec do pedal. Às vezes, uma ou outra pessoa parava e se debruçava com a cabeça para dentro e conversava com ela. Ruli respondia sem levantar a cabeça da costura, ou quando algo lhe interessava, dava a atenção para a ouvinte, erguendo a cabeça, mas sem parar de pedalar. Todos ficavam assombrados com tal agilidade e competência ao ver que ela costurava e conversava ao mesmo tempo.

Ju como era tratada pelos amigos e íntimos, não sabia o que fazer com a máquina. Para a sua tataravô foi de uma serventia muito grande, até se poderia dizer, que dali saia todo o sustento da casa, já que o tataravô não parava em emprego nenhum. As roupas de agora não duram tanto como naqueles tempos, hoje se usa uma ou duas vezes e, logo são substituídas por outras, numa reciclagem continua. As linhas, zíperes, botões, alfinetes, colchetes e tudo o que é relacionado à costura, foram abolidas. Com a máquina reciclável as coisas se tornaram bem mais fácil. É só jogar a roupa no compartimento de reciclagem, entrar no provedor, apertar os botões e, ao gosto de cada um, escolher o modelo, esperar uns dez minutos, pronto, a pessoa sai com uma roupa nova.

- Você brincava de máquina do tempo com ela. – disse a mãe.

- É, mas a época inocente acabou. O nada está invadindo tudo, ninguém tem mais tempo para histórias. Acabou a imaginação, as crianças tornarem-se robôs autômatos apertadores de botões.

- Tem razão, Ju. – respondeu a mãe apertando um botão que a transportou para o andar de cima. Cinco minutos depois, dormia embalada pelo balançar da cama suspensa.

sábado, 10 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.657(2021)

                         Odiava as sextas feiras! Todos tinham aonde ir, enquanto ele, perambulava pelas ruas a procura de algo que nem ele mesmo saberia dizer. Por que não acompanhar os amigos numa cervejada? Não tinha nada contra eles, somente não se sentia bem, ficava perdido, não conseguia entrar na conversa, uma vez ou outra, constrangido respondia com monossílabos, não sabia como agir, esta era a verdade. Preferia ficar sozinho. Serei gay? Perguntou-se lembrando do que lhe dissera Sam. Talvez, estivesse mais para assexuado do que para gay, foi o que respondeu ao amigo. Como saber se era isso ou aquilo? Tem necessidade em saber se é aquilo ou isso? E para que? Desprezava rótulos. Sou apenas um ser humano a procura de algo, quem sabe de si mesmo. Sim, procurava a si mesmo. E nessa procura não viu que o banco ao lado fora ocupado. Aquela noite a agitação lhe parecia maior do que os outros dias. Num local privilegiado conseguia ver toda a agitação do bar minúsculo e, no entanto, aconchegante onde se podia se movimentar, apesar da aglomeração, a vontade, desde que tivesse paciência. Nisso, sentiu um toque no braço direito. Era o rapaz que se sentara ao lado e que nem percebera. Pedia que aguardasse o local dele para ir ao banheiro. Disse um sim desatencioso. Caramba tem sempre alguém para interromper os pensamentos, disse para si mesmo. E minutos depois o rapaz voltara e nem prestou a atenção ao obrigado que ele lhe dissera. Foi então que ouviu, meu nome é Roberto, prazer e uma mão estendida para ele. Olhou o rapaz estendendo a mão e respondeu, Martim, prazer.

                        É isso... ou, não é?

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Contos surrealistas 79

                                     Novamente Julie.

 Ela estava no parapeito da sacada numa pose graciosa. A amanhã surgia entre nuvens escuras e um sol tímido se infiltrava impondo sua vontade. Lá embaixo o movimento dos carros preconizava um dia normal como outro qualquer.

Com os olhos fitos no horizonte, dava a impressão que nada lhe interessava. Às vezes mudava de posição, outras fechava os olhos por segundos para depois abrir como se estivesse vendo aquela paisagem pela primeira vez. Aquele canto do parapeito era o seu lugar favorito. Por longos vinte minutos, todas as manhãs permanecia ali, quieta, observando, pensando sabe-se lá o que.

E nessa manhã, não se sabe o porquê, assim que o sol a alcançou se esticou toda, abriu as pastas expondo as longas unhas afiadas, eriçou os pelos, soltou um longo miado, e como morcego voador, se lançou no espaço. Com as pernas dianteiras e traseiras abertas flanou suavemente feito pluma ao sabor do vento.

Dentro do apartamento ouviu-se um grito e uma menina loira, de uns dez anos mais ou menos, correu até a sacada debruçando-se no parapeito chorando desesperada ao ver sua gata pousar graciosamente em cima do ônibus que passava.

Dias depois, chegando do serviço, o pai lhe deu um pacote que, afoitamente ela abriu e sorriu um sorriso longo e gostoso. Dentro do pacote estava um filhote de gata.

- Que nome você vai dar para ela? – perguntou o pai.

- Julie – respondeu a menina.

- Novamente Julie?

- Sim, novamente Julie – disse a menina abraçando o filhote de gata.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.656(2021)

                    

            Então como uma batida pulsante de melodia dos anos setenta a palavra surgiu a sua frente ameaçadora. Se assustou, evidentemente, não pela ameaça, e sim, por estar distraído e, dessa maneira luminosa apareceu no meio da tela:

                                    THE END

 

Compreendeu que não era uma coisa temerosa, e não poderia chegar a uma conclusão certa, além do que, nunca tinha certeza alguma, ficava sempre indeciso. E nesse momento não era diferente. Tinha que decidir, ou melhor, precisava ser decidido, não cair na tentação da fuga. Apesar da fraqueza que achava lhe travar, algumas vezes as decisões, tomou folego, fechou o word, desligou o notebook e se dirigiu ao quarto, sem antes passar na cozinha e tomar um bom gole de água. Roberto dormia profundamente, sem fazer movimentos rápido, se despiu e deitou-se ao seu lado. Minutos depois dormia profundamente.

            Ao acordar no dia seguinte num longo e gostoso espreguiçar, entrou no banheiro, tomou um delicioso banho e desceu as escadas. Sua mãe tinha preparado um bom café, ao qual, tomou saboreando-o enquanto o sol da manhã penetrava pela porta da cozinha e vinha lamber a ponta do seu sapato. Vinte minutos depois, despediu-se da mãe e saiu para mais um dia de beleza e magia, como dizia sempre.

 

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Contos surrealistas 80

                                     O sorriso de Dolores

 

Joaquim sentado no canto do sofá, perto da janela em atitude imponente, dava a impressão que estava meditando na vida. Com cento e oitenta anos, era ainda fisicamente um homem forte, ombros largos, olhar seguro, bochechas salientes apesar dos seus setenta quilos, mãos largas, e um sorriso não querendo sorrir, lábios finos abriam-se levemente deixando ver os dentes brancos.

Era um sorriso cansado e satisfeito. Se prestasse atenção, o sorriso de Joaquim era o mesmo sorriso da estátua de Dolores em cima da cômoda perto dele. Estátua essa que o acompanhava por longos e longos anos, ninguém se lembrava como ela apareceu e como chegou às mãos de Joaquim. Mas conheciam, quer dizer, supunham que conheciam a lenda da estátua.

Corria por entre os parentes a história de que Dolores fora uma morena escrava disputada por dois irmãos, pai e tio de Joaquim. As irmãs, mãe e tia de Joaquim ao saberem da paixão dos maridos pela negra, surram a pobre coitada, além de outras mutilações com a ajuda do capataz. Dolores ao se restabelecer da surra, foi a um terreiro de macumba, mandou esculpir a estátua e num trabalho extenso que varou a noite adentro, passou sua alma para a estátua e aquele que a possuísse estaria ganhando um ano de vida pelo tempo que ficasse com ela. Se por acaso fosse mulher, estaria perdendo um ano de vida pelo tempo que ficasse com ela. Terminado o trabalho, cinco dias depois Dolores falecia sem que os irmãos soubessem.

Um dia ao abrir a porta da casa grande, a mãe de Joaquim encontrou junto um bilhete explicando o significado e do por que da estátua. Sendo uma mulher prática, sem escrúpulos, não acreditando em magia e muito menos em religião, tomou a estátua para sim a colocando em cima da lareira da sala. Três dias depois, a mãe de Joaquim falecia sem que soubessem o motivo. A partir desse dia a lenda de Dolores se propagou entre os homens causando entre eles discórdia e desavença.

Joaquim conhecia bem a lenda, não dizia nada, não concordava com nada, apenas sorria um sorriso de Dolores. Cansado de viver, sentindo a vida pesar, num último gesto, com a bengala, derrubou a estátua que caiu em mil pedaços. Ao mesmo tempo um grito se fez ouvir deixando Joaquim desfalecido no canto do sofá perto da janela onde o sol invadia o ambiente iluminando os cantos escuros da alma.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.655(2021)

                   

            A mensagem foi:

            “Se tivéssemos um encontro casual, onde gostaria que fosse?”

            Teve resposta? Não. Agora você tem a prova, não é? não sei se posso considerar como prova. E por que não? Talvez você tenha razão. Ele leu a mensagem, não foi? Bom, tudo comprova que sim. Então desencana, esquece e bola para frente. Certo, mas ainda vou fazer mais uma tentativa. Qual é? Vou ligar cumprimentando por seu aniversário. Você não desiste, não é, bom o problema é seu. Claro que é meu. Não vou dizer mais nada, ficarei quieto. Como não vai dizer nada, tem que dizer, me aconselhar, afinal você está aí, para isso, senão para que ter um subconsciente que não ajuda o consciente, hein me diga... está ouvindo... seu puto... estou falando com você... merda!

            É isso... ou, não é?

domingo, 4 de abril de 2021

Contos surrealistas 81

cadê a inspiração

ambiente quente... sem concentração... a mão desgovernada empurra o mouse... os olhos se fecham... a cabeça pende... pessoas falam... outras olham... não faz nada... não consegue... escuta responder a alguém que lhe pergunta algo, não entende... o gato pula no colo... se assusta... levanta... merda! esse gato não é o da Alice e muito menos o cd da Gal Costa... ouve o grito... e no muro em letras garrafais lê... HOJE É DIA DE MORTE, BEBÊ... quer correr... as pernas se agitam mas não sai do lugar... a sensação de derrota o domina... o fracasso embota a mente... tem de sair dali... ir para outro lugar... não consegue... nisso passa um avião puxando uma faixa escrito: HOJE É DIA DE MORTE, BEBÊ... intrigado, mesmo assim abre o guarda-sol e na falta de cadeira, senta na areia... quando passar um vendedor ambulante, compro uma... merda... esqueceu também a caixa de isopor com cerveja em cima da mesa... que merda... não adianta ligar, não trouxe o celular... a única esperança é que o filho traga a cerveja... filho!... pra que filho?... “filhos, vai entendê-los, o melhor é não tê-los”... ouve novamente o grito... o helicóptero sobrevoa a praia... afogamento... sirenes... carros de policia freando bruscamente param em frente ao quiosque, pela praia chegam mais três policias motoqueiros... com a mão no coldre correm para o quiosque... briga... bêbados... o que será?... o quiosque é ponto de drogas dizem... merda, não há sossego em nenhum lugar... alguém grita... o que é aquilo?... todos olhos para o céu... é um avião?... é um pássaro?... é um foguete?... é o super-homem?... não, sou eu voando os céus da alma empobrecida... o vento bate no rosto... olha para baixo... vê todo mundo pequeno... estou voando, grita silenciosamente... distraído bate numa faixa onde está escrito: HOJE É DIA DE MORTE, BEBÊ... é isso, lembrou... coloca um ponto final... salva o texto... anexa no e-mail e manda para o concurso... ainda bem, não é meia-noite ainda... agora é só esperar o resultado... desliga o computador e vai dormir...

sábado, 3 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.654(2021)

                       

            Não estou com vontade de escrever, quer dizer, não tenho o que dizer, o que escrever, vou é mais desenhar, isso sim.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Contos surrealistas 82

                                 A vida é absurda.

 

Olhava a chuva cair desesperadamente formando enxurrada. Com os olhos azuis, sentindo a respiração embaçar o vidro da janela, imaginava ser o comandante, melhor, o pirata do barquinho de papel enfrentando as ondas do pequeno rio. Quando a chuva diminuía, rasgava folhas e folhas de caderno, colocava o barquinho na água e o acompanhava até virar a esquina onde um bueiro engolia a brincadeira. Para onde iam os barquinhos? A mãe dizia que para o rio e que o rio ia para o mar. Então no mar o barquinho enfrentava o perigo que sua imaginação criava.

Sentiu um tranco. Um carro branco todo amassado passou por ele arrastando-o. Reparou que não tinha ninguém. Não podia fazer nada e nada adiantava girar a direção ou brecar e, muito menos, acelerar, não conseguiria sair dali mesmo. Por outro lado, descobriu que não queria ser resgatado. Já que o destino o trouxe onde estava que fosse levado para onde deveria ser. Soltou a direção, relaxou deixando os braços caírem ao lado do corpo. A sua frente um mar de água suja o arrastava lentamente. Sentia-se vencido. Lutou tudo o que podia, o barco estava a mercê das águas, adernando ao prazer das ondas.

Choveu o dia inteiro. Ao sair do imponente prédio foi que surgiu a idéia, a princípio achou maluca, que não teria coragem, por outro lado a chuva estava a favor, não pensariam... Talvez, fosse um absurdo, mas a vida em si não é um absurdo? Perguntou ao apoiar a testa em cima do braço que envolvia a direção. Desde a infância onde nos dias de chuva colocava barquinhos de papel em enxurradas, passando pela adolescência, até os dias de hoje, sua vida não tem sido apenas absurdo? Então mais um não faria diferença e, além do mais, não precisaria deixar bilhete enigmático. Era só jogar o carro no meio da água e deixar-se arrastar. Apenas com uma diferença, não cairia no bueiro, cairia no rio e depois... no mar.

E no dia seguinte, era apenas um número nos trezentos desaparecidos entre mulheres, homens e crianças.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.653(2021)

                                     A menina que usava meias.

 

                                               Para Manoela

                       

                        Ela calçou as meias como fazia todas as manhãs e saiu correndo em direção a sala como se estivesse patinando, deslizou pelo assoalho liso e não viu e nem ouviu o grito que mãe dera de cuidado e, foi de encontro a parede atravessando-a e, quando se viu no espaço, aterrorizada escutou a irmã mais velha gritar para abrir os braços e foi o que fez, e para sua surpresa e todos estava voando.

                        É isso... ou, não é?

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...