quarta-feira, 31 de março de 2021

Contos surrealistas 83

                              ... e o vento sopra

 

de qualquer jeito o vento sopra, disse jogando o corpo por cima do meu, imagina o que é isso? o vento sopra na encosta da pele e arrepia os sentimentos nas folhas da saudade e dobra os galhos da angústia numa trajetória perdendo-se em ilusões

 de qualquer jeito o vento sopra, disse jogando o corpo para fora da cama sem esperar pela resposta, vestiu-se e saiu batendo a porta pouco se importando com o resto largado no meio do quarto

de qualquer jeito o vento sopra, digo amanhã é outro dia, não passarei mais fome, haverá sempre alguém saciando min

terça-feira, 30 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.652(2021)

         

            Classificados.

 

O tapa não foi tão forte como pareceu, mas repercutiu que todos pararam o que estavam fazendo e olharam para eles. Os dois no meio da sala olhavam-se nos olhos onde chispas de ódio fulminavam-nos. Não disseram nada e nada tinham para dizerem. Ele levantou a mão para revidar, no entanto, acanhado abaixou e deslizou-a rente a perna fechando os dedos com tanta força que pequenas gotas de sangue surgiram entre as unhas. Ela, altiva virou o corpo e seguiu para a sua sala em passos firmes que ressoavam como alfinetadas no pessoal. Ninguém entendeu nada, um pouco antes os dois conversavam numa boa, dando risadas, alegres e de repente o tapa, como ficou denominado o dia, repercutiu pela sala. Todos queriam saber o do porquê, o que acontecera para que chegassem a esse ponto. Assim, como ninguém deu satisfação, voltaram aos seus afazeres com os olhos fixos aos movimentos dos dois. No entanto cada um entrou em suas respectivas salas e de lá saindo somente com o findar do expediente.

            Não acreditou como ela chegará a essa resolução drástica a ponto de esbofeteá-lo na frente da empresa toda, quer dizer, da seção. Não tinha o direito em humilhá-lo. Não, não tinha, repetia enquanto digitava a planilha que tinha que entregar. Os dedos longos, unhas bem tratadas, se movimentavam numa agilidade feroz como se fossem amassar as teclas. E a cada palavra, a cada letra que surgiam na planilha relembrava os momentos em que passaram juntos, desde o instante em que fora admitido na empresa. Passando de um bom dia todas as manhãs e de uma boa tarde ao findar do expediente, foram se aperfeiçoando no relacionamento. Até que, pelas qualidades profissionais, foram designados a trabalharem juntos o que ocasionou o surgimento do amor, era o que pensava até aquele dia.

            Terminou a planilha e enviou ao chefe. Ao se dirigir ao bebedouro sentiu os olhares sobre ele. Lentamente virou a cabeça em direção a sala dela. Pareia absorta no que fazia, não se interessava pelo que se passava fora de sua sala. Mal podia ele saber que ela o seguia com os cantos dos olhos. Nisso, numa das portas das salas surgiu um senhor e gritou o seu nome que estremeceu a seção, até ela olhou para ele.

            --- Senhor Adelbardo, o senhor viu a planilha que me mandou?

            Assim que ouviram a pergunta do chefe, todos olharam para a tela dos seus computadores e o aplaudiram. Atrapalhado, correu para a sua sala e abriu a planilha, e entre envergonhado e contente viu escrito ao final:

            --- Marta, te amo.

            Olhou em direção a sala dela e a viu olhando para ele. Não precisavam dizer mais nada. Afoitos correram um para o outro e no meio da seção se beijaram sofregamente. Dois dias depois, estavam os dois consultando os classificados dos jornais.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 29 de março de 2021

Contos surrealistas 84

                                     Velório.

 

Estava lá a um bom tempo quando alguém falou:

- Já está na hora.

Então, de repente, ouviu um baque e tudo ficou escuro, apertado e cheiro de terra úmida envolvendo-o por todos os lados.

domingo, 28 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.651(2021)

         

            Contraditório

 

            Na madrugada a insônia me obriga a escrever o que não quero e escrevo o relevante para não morrer. A insônia produz a angústia a me exigir a escrever o que penso em dizer. Escrevo o necessário no silencioso viver que abranda a fala muda no diz que me diz e nada fala para não revelar o que tenho para revelar. Enquanto isso o olhar olha o mistério e não vê ao descobrir apenas o que vê sem acreditar que vê a repentina insônia na manhã vespertina.

            É isso... ou, não é?

sábado, 27 de março de 2021

Contos surrealistas 85

                                     Estudantes.

 

Traçou uma linha grossa de uma ponta a outra do papel. Em seguido, em sentido contrário, outra fina. Largou o lápis. Ergueu a folha. As duas linhas formando um enorme X dividia o papel em quatro partes. O que isso queria lhe dizer? Ou o que ele queria dizer com isso? Nada. Talvez o vazio em quatro partes. O vazio da existência humana, o fútil vazio dele mesmo.

Nisso uma parte saltou do papel para o chão. Assustado ele retrocedeu. Encostado a parede observava o pequeno triângulo se aproximando. Aos poucos se agigantou, cresceu para cima e para os lados, envolvendo-o. O vazio tornou-se enorme oprimindo o peito. Com muito esforço conseguiu sair de dentro daquela coisa.

De repente, ao encostar-se à mesa, viu outra parte pular para o chão. Outro triângulo rebelde, disse mentalmente. Como aconteceu com o primeiro, agigantou-se crescendo para cima e para os lados. Aproximou-se ao outro e suas bordas se uniram. Acossado, começou a correr pela sala tentando fugir daquela coisa grotesca. Mas sabia que não conseguiria se safar tão fácil. O peito parecia inchado pronto a estourar.

Assustou-se ao pisar na terceira parte. Tinha pulado para o chão sem que tivesse percebido. E como as outras duas, agigantou-se crescendo para os lados e para cima, e como a segunda, se uniu as outras duas. Pensou ainda ter um pouco de esperança para sair dali. Correu até a porta, mas foi barrado pela quarta parte.

Como? Gritou o silêncio dentro dele. E como a terceira, assim que se se agigantou para os lados e para cima, se juntou as outras três formando uma pirâmide. Estava preso, engolido por quatro pedaços de figuras que teve a ousadia de criar no papel branco. Prisioneiro no vazio da vida, no branco dos seus passos. Tentou ainda com os braços romper uma das paredes de papel, mas foi inútil. Enrodilhou-se abraçando as pernas e quieto ficou no chão frio da pirâmide.

O professor virou-se para a turma que se postara atrás dele e disse:

- Vejam vocês, principalmente para os da psiquiatria, aqui está um bom exemplo, Não há nada dentro da cela, apenas o paciente e as quatro paredes, no entanto ele cria um elemento que só ele vê e teme. O maior medo que existe, é o que vem de dentro da gente. É o que vocês terão que enfrentar...

E o grupo passou para a outra cela.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.649(2021)

             Comprei um caderno. Um caderno onde escreverei ou descreverei tudo o que se passa comigo. As angústias, as ansiedades, as decepções, o dia a dia enfim tudo o que acho necessário, agora se vão ler ou não é outros quinhentos, é outra história. Foi assim quem em um mil novecentos e noventa comecei o meu diário, o primeiro caderno e este ano está completando o oitavo caderno, isto quer dizer, que ao todo são oito cadernos, oito anos escrevendo para mim mesmo e não tenho a pretensão em parar. Quando comecei pegava um ônibus que tinha um itinerário longo, atravessava quase a cidade toda, assim era possível registrar os acontecimentos durante o percurso. Atualmente pego um micro ônibus até a estação Penha do metrô e, em seguida, vou até a estação do Tatuapé e lá pego outro micro ônibus. Portanto são trajetos pequenos não dando tempo nem de escrever uma linha, porém, ah, porém, se sair um pouco mais cedo, sentando-se num dos bancos da estação Penha talvez conseguirei anotar algumas coisas, não é? Vamos ver...

Merda! Por causa da pandemia o shopping está fechado, só abrirá ao meio-dia, nem ir ao banheiro não pode.

E os ônibus lotados. E gente que vai para lá e gente que vem para cá.

É isso aí... ou, não é?

segunda-feira, 22 de março de 2021

Contos surrealistas 86

A verdade

 Depois de mais de vinte anos Emma descobriu que não amava Simon. Foi sábado a noite em que convidaram os amigos. No momento em que terminaram o lanche, alguém teve a idéia de começarem o Jogo da Verdade. Todos, inclusive Emma, tinham ingerido certa quantidade de bebidas, o que não poderiam levar em conta o que dissessem, no entanto quando foi à vez de Emma responder às perguntas, ela o fez com convicção que todos se sentiram embaraçados.

- Você não ama o Simon?

- Não, não o amo.

Sua voz firme, dura, vibrou ferina ricocheteando em cada elemento que, surpresos, não souberam se deveriam fazer ou dizer algo. Por fim, onde o silêncio manteve a situação em suspenso, balançando a cabeça como se ignorasse o que ouvi, ou talvez não acreditando, Camila pegou a bolsa, despediu-se de todos e saiu batendo a porta. Assim um por um dos amigos deixaram o apartamento. Quando o som da porta morreu pelo último amigo, Emma acendeu o cigarro. Simon levantou-se arrancou o cigarro da boca de Emma e a beijou com extrema força que seus lábios arderam.

- Desde quando você não me ama?

- Não sei. Acho que nunca te amei.

- Casou sem me amar?

- Sim, quer dizer, não sabia que não te amava. Só fui ter certeza hoje ao ouvir a pergunta da Camila. Desculpe o embaraço.

- É foi um embaraço, afinal não podemos viver na mentira a vida toda. Viver mascarado enganando a si próprio, não é?

- Concordo.

- Além do que a vida continua. Vamos tomar o nosso último drinque.

Foi o que fizeram. Emma com os movimentos lentos não repeliu as caricias de Simon sendo penetrada varias vezes. Chegou até a perder os sentidos, a alma embebida de álcool não tinha mais noção do que fazia.

No dia seguinte encontraram o corpo de Emma estatelado em cima do carro preto do Seu José Antonio. Quando a policia levou Simon preso, alguém perguntou:

- Por que você jogou sua esposa do décimo quinto andar?

Calmamente, virando o rosto respondeu:

- É que Emma estava cansada de viver mascarada, foi por isso.

domingo, 21 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.648(2021)

             Meu silêncio impera constrangido pelo próprio silêncio voraz das coisas que me rodeiam. Não sou capaz de ler os signos das fibras e muito menos os signos nos lábios murchos pelos choros dos que perderam. Mas sinto como se fosse eu a perdê-los, como se fosse eu a derrocada final da humanidade, como se fosse eu o culpado por não ter ido ainda. Sim, ainda estou aqui escrevendo e ainda vou continuar por muito tempo escrevendo o que me passa pela mente mesmo que seja apenas uma palavra ou apenas uma letra estarei aqui e aqui ficarei quem sabe pela eternidade das eternidades.

            É isso... ou, não é?

sábado, 20 de março de 2021

Contos surrealistas 87

 

Otávio e Otilia – uma história verdadeira.

 

Ouviram:

- Até que a morte os separe.

Em seguida o padre fez o sinal da cruz e disse:

- Pode beijar a noiva.

Depois de não sei quantos anos é que beijava pela primeira vez a mulher que amava. Quantos anos depois? Não lembrava. Estava com cinqüenta e dois anos, Otília com quarenta e três.

Conheceram-se na casa da prima de Otávio. Otilia sentada no canto do sofá demonstrava uma timidez apaixonante que atiçou Otávio. Após trocarem um olhar rápido com que fez Otilia abaixar a cabeça, gesto que encantou Otávio, pediu licença e sentou ao lado dela. Apesar do corpo franzino Otilia transbordava simpatia e encanto aos olhos de Otávio. A princípio a conversa foi monossilábica e ao se despedirem prometeram não deixar de se verem.

Assim, dois meses depois, oficializaram o namoro, passando Otávio a freqüentar a casa da namorada. Otilia na flor de idade com seus vinte anos, tímida e submissa, não tinha voz própria, por viver sob o comando do irmão mais velho, desde os nove anos, obedecia cegamente o irmão e a cunhada.      

Otávio apesar do defeito da perna obrigando-o a usar bengala era bonito e atraente. Como alfaiate trabalhava em casa, o qual proporcionava viver mais ou menos bem. Era o terceiro de cinco irmãos e por causa da deficiência não se sentia na obrigação em ajudar financeiramente os pais. Com isso podia usufruir do ganho como quisesse o que fez com que Otilia pensasse fosse rico.

Otávio, aos poucos, foi se revoltando com tanta submissão de Otilia. Tudo o que ocorria entre eles, contava em casa. Do mais corriqueiro gesto ao mais importante dos momentos. O pior é que contava para Otávio que fulano ou sicrano dizia que ela devia agir assim ou assado e o que devia ela dizer para ele.

Um dia, quatro meses depois, Otávio revoltou-se com Otilia rompendo o namoro, sumiu da vida dela. Conformista Otilia não sofreu, dizia:

- Aconteceu é porque tinha que acontecer.

Continuou com a vida submissa sem se preocupar se estava sofrendo ou não. Por sua vez, sem ter explicação para o caso, Otávio chegou à conclusão que realmente não a amava como julgava. Tudo não passou de mera ilusão.

Transcorreram, talvez, vinte anos sem saberem da vida um do outro.

Uma noite, Otilia sentada no canto do sofá na casa da prima viu Otávio e reataram a conversa que, como da primeira vez, foi monossilábica e um mês depois estavam se casando ouvindo o padre dizer:

- Até que a morte os separe.

Ao saírem da igreja, o carro dos noivos, sem saberem o motivo, desgovernou e entrou debaixo de um caminhão que estava parado. Otilia e Otávio foram hospitalizados com ferimentos graves. Otávio duas semanas depois veio a falecer por complicações sem que os médicos soubessem o motivo. Otilia ficou ainda um mês hospitalizada e, ao saber da morte do marido, passou a viver em estado depressivo até um dia em que morreu no silêncio do seu quarto.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.647(2021)

             Meu silêncio impera constrangido pelo próprio silêncio voraz das coisas que me rodeiam. Não sou capaz de ler os signos das fibras e muito menos os signos nos lábios murchos pelos choros dos que perderam. Mas sinto como se fosse eu a perdê-los, como se fosse eu a derrocada final da humanidade, como se fosse eu o culpado por não ter ido ainda. Sim, ainda estou aqui escrevendo e ainda vou continuar por muito tempo escrevendo o que me passa pela mente mesmo que seja apenas uma palavra ou apenas uma letra estarei aqui e aqui ficarei quem sabe pela eternidade das eternidades.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 18 de março de 2021

Contos surrealistas 88

                                         Prevenido vale por dois.

 

Na forquilha das ações, timidamente colocou todo o pensamento sem se preocupar com isso ou com aquilo. Teve a sorte de usar, como material, o galho da melhor árvore que encontrou no quintal. Por sorte não foi preciso subir muito, achou um galho que se bifurcava em dois, teve apenas o trabalho de cortar bem na base do tronco.

Ele tem noção do que fez, e tem também conhecimento de que será criticado por isso, mas foi preciso. Agora é só fazer o estilingue e, já que é difícil achar mamonas, optou por bolinhas de vidros. Sabe que o estilingue não é arma poderosa, mas com as bolinhas de vidros consegue fazer algum estrago, é só mirar com precisão e lá se vai um olho. É errado? É. No entanto tem que se armar, a qualquer hora pode surgir alguma briga, quem sabe? E depois tem a vantagem de não entrar diretamente no confronto, no corpo a corpo. Para isso tem que ter um estoque grande de bolinhas, no entanto se for preciso pode usar pedregulhos ou essas pedras que usam para fazer laje e que se encontra facilmente pela cidade em constante reforma. Assim, todo o dia sai prevenido. A mãe não dizia: “Prevenido vale por dois”, então, preciso me cuidar complementava.     

E foi assim que saiu naquele dia. Prevenido. Estilingue no bolso traseiro e pendurado no ombro uma espécie de embornal feito por ele com as bolinhas de vidro. Encontrou os amigos já reunidos na Praça da Boa Morte. Em cima do que era um coreto, o chefe da gangue discursava incentivando o pessoal a ter ânimo e não deixar roubarem o que pertencia a eles, isto é, a Praça da Boa Morte.

Conhecidos como O Bando do Buraco Quente, pois duas quadras dali existia a zona mais perigosa onde viviam a laia mais baixa da cidade com suas prostitutas, ladrões, assassinos, e tudo o que era fora da lei.

Assim que o chefe desceu do coreto, ele viu a pedra arremessada em sua direção. Só teve tempo em desviar, o que não foi o suficiente, pois um filete de sangue escorreu pela testa. Ao mesmo tempo armando o estilingue, lançou a bolinha de vidro que cortando o ar, acertou em cheio o inimigo que não teve tempo de fugir.

“Quem tem pensamento automático é o vencedor” – pensou correndo até onde o corpo do inimigo caiu. No instante em que se abaixava, sentiu a pancada na cabeça, sem dar tempo em revidar ou ver quem era, caiu desmaiado.

Ao abrir os olhos, a sua frente estava um coro de vozes masculinas cantando: Jesus, a alegria dos homens, e, acima, uma faixa com os dizeres: “Bem vindo ao centro de reabilitação Jesus, a alegria dos homens”.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.646(2021)

             Você acha que devo fazer o que? Olha não sei, desse jeito creio que não deveria ser. Por quê? Já viu alguém andar de mãos dadas quando as mãos estão separadas quase do corpo? Não aceitar isso para mim se revela de uma tremenda cafonice. Escuta, pode parecer, mas acontece que você se apega ao formalismo das palavras e não enxerga o que não quer ver. E o que eu não quero ver? Ao modernismo dos corpos cujo movimentos sexuais se sobressaiam desnudando a pessoa. Há o desnudamento apenas na mente cujo apelo sexual é forte. Entendo, no entanto isso é uma forma de se aparecer também que leva a excitamento e o excitamento pode causar pornografia publica, já pensou nessa possibilidade. Pensar não pensei, não percebo nisso perigo nenhum, além do que a pornografia sempre foi aceita nos dias hoje como algo inofensivo. Os psicanalistas não veem dessa maneira, para eles ocorre uma deformação mental, principalmente aos jovens. Você quando jovem também se serviu desse material e da masturbação e está aí belo e saudável. Verdade, eu trabalhei muito para me livrar de certos complexos, principalmente o sexual, de que ninguém me aceitaria sexualmente se soubessem da minha deformação abstrata e mental. Conheço a sua história, até entendo sua posição, e lhe dou os parabéns por vencer essa luta. Ok, está legal, não vamos mais falar dessas coisas, vamos tomar banho e sair de mãos dadas ou não. Você disse e eu assino em baixo, vamos querido.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 15 de março de 2021

Contos surrealistas 90

 

Desaparecidos.


A noite se infiltrando pela persiana banha os corpos na serenidade do sono. Ao longe a sirene de algum carro policial quebra a quietude do quarto acordando Leandro. Sonolento puxa as cobertas ao ver as horas no rádio relógio.

- Droga!

Arrastando os chinelos como se fosse chumbo, entra no banheiro, abre a torneira do chuveiro e deixa-se lamber pela água morna. Em vinte minutos toma banho, se veste, e ao passar pela cama, cobre o corpo nu do amigo. Em frente ao espelho, confere a roupa, o cabelo e sorri satisfeito.

Na lanchonete da esquina, pede café com pão na chapa, quando surge o carro da policia parando em frente ao prédio. Enquanto se dirige a mesa perto da janela, vê dois homens saindo do carro e entrarem no edifício. Instantes depois, os dois homens entram na lanchonete.

- Bom dia, posso? – pergunta o homem sem chapéu.

- Claro, estava esperando os senhores.

- Como assim?

- Meu nome é Leandro e os senhores encontraram o meu amigo Rafael morto no meu apartamento.

- Certo.

- Para não prolongar muito, eu matei o Rafael a pedido dele, isto é, do destino.

- Então temos que levá-lo preso.

- Espere deixe contar como tudo aconteceu.

- Estamos ouvindo.

- Estava jogando pôquer na casa de outro amigo quando Rafael chegou. Ficou observando até o final quando os perdedores, como o combinado, tiveram que jogar a Roleta Russa. Eu estava entre os perdedores. Colocaram uma bala no revolver, giraram o tambor e a arma foi passando de mão em mão. Aí que está o inusitado, a bala não disparou, ela simplesmente sumiu do tambor, tinha desaparecido. Ficamos assombrados, queriam jogar de novo, nos os perdedores não queríamos, por fim, depois de muito bate boca, sem chegarmos a uma conclusão, fomos embora. Rafael saiu comigo, e na rua me mostrou a bala. Foi então que fiquei sabendo do que ele era capaz. Não só fazer uma bala desaparecer como levitar, atravessar paredes, obrigar qualquer pessoa a fazer o que ele quisesse, em fim, o cara era poderoso, e tinha me escolhido para ser substituto dele. A partir daquele dia passaria a acompanhar e aprender todos os poderes dele. E assim, mais de cinqüenta anos fui aprendendo e hoje sou tão poderoso como ele foi. E assim será daqui a mais cem anos, vou encontrar alguém para me substituir e esse alguém vai me matar. É o destino, diz que não podem existir dois poderosos, entende?

- Não, sinceramente não entendi. – disse o delegado chefe para os dois homens a sua frente.

- Foi o que ele nos contou, chefe.

- E onde está ele?

- Sumiu.

- O que? – berrou o chefe – Sumiu como?

- Não sabemos, quando chegamos aqui só achamos a roupa dele no banco do carro. Ele tinha desaparecido.

- E vocês querem que eu acredite nessa história? Vou dizer uma coisa: sumam da minha frente, senão eu desapareço com vocês, só voltem quando tiverem uma boa história para publicar, compreendem?

domingo, 14 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.645(2021)

 

                        A Mecânica Quântica diz: tudo o que se pensa se cria. Então eu pergunto: fui roubado eu que criei essa situação, eu pensei em ser roubado? Não, claro que não, apenas como eu acho que todos tem o cuidado em não ser roubado, entende. Eu não pensei hoje vou ser roubado, então como entender isso? Além do mais não há certeza de que fui roubado, não gosto dessa palavra, infelizmente tudo indica que sim, mas prefiro dizer que perdi o celular ao invés de dizer que fui roubado. Então eu pensei: hoje vou perder o celular. E perdi. Há, mas você pode ter pensado há muito tempo e o fato se concretizou hoje. Não sei, difícil de entender, acredito que tudo que se pensa se cria, acho a mente uma fabulosa arma, nós é que não sabemos usá-la, no entanto, sei que tenho muito a aprender ainda.

                        É isso... ou, não é?

sábado, 13 de março de 2021

Contos surrealistas 89

                                 A porta de madeira trabalhada.

Teodoro bateu na porta duas vezes, três vezes, na quarta esmurrou até sentir dor. Então parou de bater. Escorregou encostado na madeira trabalhada por algum artista desconhecido, sem se importar que as protuberâncias o machucassem. Sentiu o frio do chão se infiltrar pelo tecido da calça e magoar a carne. Encolheu-se como se com isso fosse eliminar a feridade que o impulsionava. Rolou pelas lágrimas da decepção, bebeu o fel do sentimento e abraçou a fatalidade no intuito de se levantar. No entanto, continuou onde estava no frio chão de lajota preta com desenho branco encostado a porta de, talvez, carvalho quando, sem perceber, dormiu. E para seu desespero sonhou.

Onde estava e para onde estava indo não sabia. Caminhava por uma rua estreita deserta com casas antigas dando a impressão que ninguém vivia nelas. Sentia-se nu apesar da calça jeans. Foi então que notou, estava sem camisa o que o deixou constrangido, não tem costume de sair desse jeito. Percebeu que os pés moviam automáticos, impulsionados por alguma coisa que não definia o que era. Deixou-se levar, não se opôs, não adiantava lutar. O destino é que dava as ordens.

Nisso viu-se dentro do cemitério. Lia as lápides sem sair do lugar, elas passavam a sua frente feito slides. Lá estava à lápide da tia, do tio, dos primos, alguns conhecidos, o vizinho chato, a cunhada, foi lendo uma por uma, quando de repente, surgiu a sua. Por que lia seu nome, a data do nascimento, a data da morte, se estava vivo? É alguma piada? Como podia? Aos poucos foi envolvido por um turbilhão de palavras, perguntas, dúvidas, angustia medo arremessando-o longe.

Foi jogado de um lado para o outro, até que sentiu o chão aos seus pés. Olhou a escuridão que o envolvia. Aos poucos os olhos foram divisando os contornos das sombras. Sufocou o grito. Estava dentro da cripta. A cripta da família. Leu os nomes dos pais, do irmão que morreu atropelado, da avó, do avô, e lá em cima na última prateleira seu nome. Mas ela estava vazia, não tinha nada. Foi então que viu o caixão estraçalhado aos seus pés.

Correu para a porta de madeira trabalhada, bateu uma vez, duas vezes, três vezes, e na quarta esmurrou mesmo sabendo que de nada adiantava.

O raio do sol pela pequena janela no alto iluminou a cripta indo bater em cheio ao corpo em decomposição encostado a porta de madeira trabalhada.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.644(2021)


            Quando acontece alguma coisa com você que o tire dos eixos normais da rotina, o que você faz? Xinga, grita, se maldiz, o sangue ferver, fica com vontade de bater em meio mundo, não é? Por exemplo, um acidente com o carro, apenas amassa a lataria sem maiores consequências, você sai ileso, nem se fere, e como você age? A mesma coisa, xinga, grita, fale impropérios, tem vontade de matar o causador do estrago, arranca os cabelos, se lastima, não é verdade? E no caso de você perder o celular ou achar que o roubaram. Você desce do ônibus e ao atravessar a rua você nota que não está mais com ele, como você reagiria? Da mesma maneira descrita acima, não é mesmo? Então, essa semana aconteceu isso comigo. Terça feira desci do ônibus, atravessei a rua e ao colocar a mão no bolso... tan tan tan... cadê o celular? Sumiu, escafedeu, desapareceu, voltei na casa da minha filha, não tinha esquecido lá, andei pelos lugares que passei e nada, me conformei, perdi ou roubaram. O engraçado é que não me lembro se ao sair da casa da minha filha se tinha pego o celular ou não, lembro de tê-lo tirado do bolso para ver as horas, mas não lembro se foi no ponto do ônibus ou na casa da minha filha, entende, sabe quando você tem coma alcoólica, fica aquele vazio que você não lembra o que fez num determinado período, então isso o que senti, não lembro determinadas coisas entre o sair do apartamento até descer do ônibus. Não xinguei, não lastimei, nada disso, apenas disse eu e minha neta:

            --- São Sá Longuinho, São Sá Longuinho, ajude o meu vô recuperar o celular que eu dou os três pulinhos.

            E tenho certeza de que vou recuperá-lo.

            É isso aí... ou, não é? 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Contos surrealistas 91

                                 Você não está sozinho.

 

Rian nadava em movimentos precisos. Percorria a distância com calma sem exageros. Não usava aparelho para respiração. As quelras desenvolvidas filtravam o oxigênio dando-lhe mobilidade. Com isso aproveitava à corrente amenizando as forças. As braçadas tinham a beleza dos volteios dos golfinhos, os pés rasgavam o azul da água impulsionando o corpo, o tronco em conjunto com o quadril obedecia aos movimentos dos pés e dos braços.

Rian era o único que se adaptara, por isso, descia aos confins das águas profundas, como dizia. Acostumado com a navalha da maré, sorriu ao ver o peixe se aproximando. Retraiu os músculos desviando-se do crustáceo. Não precisava mais dele, fora útil no principio da adaptação, mesmo assim, acariciou as escamas fazendo-se agradecido. O peixe nadou a sua volta e depois sumiu nas águas do destino.

Rian mentalmente agradeceu sentindo-se protegido. Tinha que descer mais um pouco. Foi então que a visão começou a se turvar e a batida do coração descompassada obrigou-o a lentidão. Os braços e as pernas já não obedeciam, flutuavam ao movimento da água. Algo lhe dava a sensação de conforto, de que não estava só nos confins das profundezas.

Rian vinha se sentindo solitário, um peixe fora da água, singrava aquelas paragens sem ter com quem conversar. Depois do grande terremoto fora obrigado a viver no mar, o que a principio, teve que usar o aparelho para respiração. Ousado, como diziam, tirava um pouco por dia o aparelho e tentava respirar debaixo da água, assim, acredita, desenvolveu as quelras que, hoje facilita viver mais dentro da água do que fora.

Rian uma vez por semana era designado a colher alimento, pois a escassez na terra aumentava a proporções alarmantes. E nadando entre as rochas e escombros, indagava se não haveria outras pessoas iguais a ele, afinal se conseguira se adaptar por que outros também não conseguiriam? Mas quem seria esses outros? Não acreditava nessa hipótese.

 Rian sentiu algo tocando seus braços e pernas. Com esforço ergueu a cabeça. Não se mexa, ouviu em sua mente. Obedeceu e quando pode, reparou que estava cercado por pessoas iguais a ele. De onde vieram? Quem seria? Nisso ouviu na mente alguém dizer: Você não está sozinho. Sim, não estava mais sozinho, sorriu e ficou sabendo que havia muitos na mesma situação, vários que conseguiram se adaptar aos confins das águas profundas até que a superfície voltasse a ser habitável novamente.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.643(2021)

  

            E na paciência os três ficaram até que o terceiro falou entusiasmado:

            --- Acho que o quarto está se aproximando.

            De fato, em direção a eles vinha um cara alto, com um andar meio desengonçado, pisando firme e lentamente olhou nos olhos um por um, e ao chegar no último disse:

            --- Vamos subir.

            --- Espera, disse o primeiro.

            --- Esperar por quê?  Perguntou o segundo.

            --- Porque não é o certo.

            --- E o que é o certo? Perguntou o terceiro.

            --- Ele não tem que correr e nós não temos de persegui-lo?

            --- Nem sempre precisa ser como é, podemos e devemos mudar sempre, disse o quarto que já subia as escadas.

            O segundo e o terceiro subiam logo atrás dele.

            --- Você não vem? Perguntou o quarto para o segundo que ainda estava a porta.

            --- Vou sim.

            E de dois em dois degraus alcançou os amigos. Entraram. E assim passaram quatro dias fechados no apartamento e no quinto dia saíram e cada um foi cuidar das suas vidas e nunca mais se viram.

            É isso... ou, não é?

 

ps: e falta de inspiração....

segunda-feira, 8 de março de 2021

Contos surrealistas 92

Todos se enganam, não é!

 

        Para as minhas meninas; Caroline (filha

                          Eduarda (neta) 

A aposta entre os familiares corria solta. Uns diziam que seria dia dezoito, outros dia vinte, e alguns profetizaram para o dia oito de maio, o que na verdade era um exagero. Todos concordaram numa coisa: não passaria de abril.

Realmente, não passou de abril, porém antes, no dia dezoito, o avô estando na sala de espera não podia imaginar o que se dizia dentro do consultório. Ouvia as vozes rindo, falando, esparsas palavras rompendo o concreto da parede que chegava até ele. Apreensivo como todos até brincou quando o convidaram;

- Ok. Vou com vocês ao médico, vai que ele ache que deva ser internada.

E de fato, ela não foi internada, mas o conselho médico foi que deveria ficar atenta, pois não passaria daquela semana, e, como se sentia bem, serelepe foi a noite no aniversário do primo. Nem bem tinha cumprimentado todos, assim que pegou o copo de guaraná, anunciou ao marido.

- Vamos para o hospital. Acho que estourou a bolsa.

Em menos de uma hora ela deu entrada, foi consultada e foi internada. Sendo parto normal, como era desejo dela, demorou um pouco até que o médico achasse a dilatação necessária.

O homem no casamento como na procriação, é um ornamento, mas um ornamento positivo, pois tanto no casamento como no parto, os olhos estão voltados para a mulher. Alguns se destacam, deixam de ser mero ornamento. Enquanto outros passam despercebidos, às vezes nem são notados, no entanto, o pai desse conto, não se deixou envolver pelas sombras que podiam o encobrir.

Durante toda a gestação deu apoio, transmitiu confiança, acompanhou as consultas, os ultra sons, enfim, não foi à sombra, por outro lado, foi luz e escudo iluminando e protegendo.

E como todo pai corajoso quis assistir o parto. Firme, segurando a mão da mulher, ouviu o médico dizer:

- Olhe aqui está a tua filha. – disse colocando na barriga da esposa a recém nascida.

Nisso ouviu a enfermeira dizer meio apreensiva:

- Doutor, venha ver.

Um segundo depois ouviu novamente o médico anunciar:

- Olhe aqui está a tua segunda filha.

- Mas doutor, o senhor disse que não eram gêmeas?

- Sim é verdade, me enganei, não sei como essas coisas acontecem, não eram gêmeas, e sim, trigêmeas.

Ouviu alguém gritar segurem ele, mas não ouve tempo, o pai caiu desmaiado.

domingo, 7 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.642(2021)

  

            O procedimento foi o mesmo quando ele perseguiu o segundo sujeito. O prédio, a escada, o apartamento, o andar, a sala tudo idêntico a primeira vez. Lá estava o terceiro sujeito encostado a parede esperando-os. Antes de se aproximarem o sujeito falou:

            --- Vamos definir uma coisa.

            --- O que responderam os dois.

            --- Você será o primeiro, disse apontando para o sujeito da direita dele, e você será o segundo, disse apontando para o sujeito da esquerda dele, combinado?

            --- Sim combinado, disseram o primeiro e o segundo ao mesmo tempo.

            --- Por acaso surgirá o quarto? Perguntou o primeiro.

            --- Não sei, talvez, dessa vida pode-se esperar tudo, não é mesmo?

            --- É.

            --- Então venham aqui, você primeiro fique ao meu lado direito e você segundo fique ao meu lado esquerdo.

            Assim fizeram e assim tudo se repetiu como da vez anterior, só que agora eram três corpos num amalgama de desejos e paixões que durou um bom tempo. Quando parecia que a excitação ia se extinguindo um ou outro não deixava, inventava uma nova atração e assim o fogo se acendia queimando-os. E nessa de não deixar o ímpeto morrer foram até o amanhecer, quando os três ao mesmo tempo se vestiram e se postaram a janela. Ao terminarem de fumar os seus cigarros desceram e como da outra vez ficaram observando o movimento da rua com sua massa de humanos podres no seu vai e vem. Depois de quase uma hora o segundo disse:

            --- Nós vamos ficar aqui até quando?

            --- Até que o quarto sujeito apareça, disse o terceiro.

            --- E como vamos saber que será o quarto?

            --- Como vocês souberam de nós, disse o segundo.

            --- A paciência é a arma do sucesso, disse o primeiro.

            Os dois olharam para o primeiro e deram risada.

            É isso... ou, não é?

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

Contos surrealistas 93

                                     O jantar.

 

Os dentes correram entre as perolas rompendo o colar. As contas caíram dentro do decote, outras se esparramaram pelo chão e, algumas foram parar debaixo da cama. Em sua mão ficou o cordão que prendiam as contas. Soltou um longo suspiro de resignação e se abaixou a cata das perolas.

Na capacidade dos sentimentos foi juntando uma a uma na esperança de montar o colar. Mas então, para sua decepção faltava uma das contas. Pôs-se de quatro para olhar em baixo dos móveis na paciência mórbida alojada em si. Nos cantos escuros, nas frinchas das madeiras, despojando o medo, introduzia o dedo na esperança de encontrar o objeto precioso. O cansaço já a dominava quando sentiu o peso dele forçando-a a se debruçar no chão do quarto. Não houve tempo, não houve espaço e, mesmo que quisesse não conseguiria se desvencilhar das mãos pegajosas amassando suas roupas, e muito menos o ir e vir da carne com carne convulsionada pela excitação.

Entre as coxas sentiu a queimação do sexo com sexo que aumentava forçando a penetração, além de machucar, incentivava-a ir adiante, não parar. Assim como não desejava empurrando o corpo dele ao mesmo tempo puxava-o contra o seu. Lábios afoitos percorriam a nuca mordiscando de leve. A mão áspera subia e descia as reentrâncias alimentando seu desejo.

A língua umedecia a pele entre os fios do cabelo, se introduzia na orelha, como ponta de agulha arrepiando-a toda. Um frenesi úmido a envolveu toda ao sentir ele dentro dela. Quem seria? Impossibilitada não via o rosto de quem a dominava. Deveria ser o desterrado, o cão, o íncubo,

Deixou-se ficar imóvel, não tentava mais se desvencilhar do opressor. Começava até a gostar do vai e vem em cima dela. Já não sentia mais o chão áspero e frio, e, muito menos o desconforto da situação.

Foi então que se lembrou. Precisava achar a última conta para montar o colar. Num gesto sem insignificância ao virar a cabeça foi que viu a pérola presa aos pés da cama encostada à parede. Esticou o braço e pegou o objeto fechando-o na mão.

Levantou-se, colocou a pérola que faltava, deu um nó que não ficasse muito visível, enfiou o colar no pescoço, passou a mão pelo vestido olhando-se no espelho, e saiu do quarto.

Ao descer as escadas todos os olhares, a esperavam para o jantar, caíram em cima dela que sorriu graciosa e feliz por sentir-se amada.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.641(2021)

           

            A perseguição durou poucos minutos. O sujeito entrou num prédio sem antes verificar se seu perseguidor estava atrás dele. Ele entrou atrás e se deparou com uma escada e no topo o sujeito o esperava. Seguiu-o. no segundo andar o homem sumiu numa porta que ficou entreaberta. Ele aos poucos foi escancarando a porta e se viu num aposento sem definir se era sala, quarto ou o que fosse, pois tudo tinha um ar de abandono. O sujeito estava na janela de frente para ele. Alto, corpo largo, rosto moreno o esperava. Lentamente se a chegou e, com o corpo quase encostando no corpo do outro. Sentiu ou ouviu em sua mente algo como:

            --- Você me quer?

            Não respondeu, não ouve tempo, rapidamente foi beijado e jogado ao chão sujo de poeira. Não teve nenhuma reação, numa sofreguidão foi possuído pela excitação tanto dele como do outro. Se beijaram longamente, e sem se perceberem estavam nus, e o mundo sumiu ficando apenas os dois em pleno ar na troca de caricias e desejos que compartilhavam um com o outro. Num dado momento, tudo voltou a realidade. Estavam novamente deitados no chão sujo e empoeirado. Quietos, se vestiram e se postaram a janela com os braços apoiados no parapeito. Aceitou o cigarro que lhe foi oferecido. E sem dizerem nada desceram as escadas e se postaram a porta do prédio. Observavam o vai e vem das pessoas quando, rente a eles passou um sujeito e olhou no olho dos dois e fez um gesto com a cabeça de sigam-me. Se olharam e aceitaram o convite.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 3 de março de 2021

Contos surrealistas 94

                                 Resistência.

 

Eles estavam no quarto fechado. Ela deitada no berço sorrindo sonhos que talvez viessem a realizá-los. Ele em pé olhava-a se questionando pelos sonhos não realizados, e, se perguntando os dos porquês da vida. Dizem que há sempre uma segunda chance. Ele tinha essa segunda chance? Acreditava que não. E se tivesse onde estava essa segunda chance? Impossível! Não merecia viver, apesar da idade, a vida para ele se fora há muito tempo. Não tinha mais forças, se sentia esgotado, derrotado.

Estavam no quarto fechado a um bom tempo. Ela deitado no berço no aconchego do cobertor. Ele em pé no desassossego de estar dentro de questionamentos irrespondíveis. Andando de um lado para o outro não se descedia. A propulsão emotiva levava-o a fazer o que achava certo, e a razão levava-o a outra que o repugnava e o atraía. Importava se o sol com seu brilho anunciassem as manhãs? Não, não importava.

No quarto fechado a um bom tempo, deitada no berço ela usufruía de proteção. Em pé, sentado, ou de um lado para o outro marcando presença, indeciso se fechava em amargura e ódio. Afinal, não fora sua culpa se as coisas chegaram a esse ponto. Apenas tinha noção de que não poderia continuar como estavam. Tinha que pôr um fim nisso.

A um bom tempo deitada no berço ela dormia sem imaginar e, nem podia o que se passava ao redor. Ele também não podia e nem tinha condição de saber o que se passava na cabeça de sua filha de oito meses. Se soubesse não estaria agora nesse tormento, na dúvida, no questionamento de certo ou errado.

Ela já não dormia mais no berço. Estava agora na cama do casal. Ele debruçado sobre a filha riscava o fósforo para lançar no álcool em que embebedara toda a volta da cama, do guarda-roupa, do berço, da cortina... Não deixaria o fogo lamber a pele da sua filha, talvez num milagre ela fosse salva. Teria que ser forte aguentar o fogo e não sair de cima dela. E foi o que...

Trinta anos depois, dando a volta por cima, ele olhava embevecido para ela que dormia sorrindo agradecida a ele por ter resistido à depressão assassina.

 

Pastorelli

terça-feira, 2 de março de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.640(2021)

             Com os braços apoiados no parapeito da janela olhava a rua que transitava doentes pelas calçadas. Apesar de não estar muito alto não conseguia identificar os rostos apenas o contorno dos corpos onde, alguns pareciam como riscos e outros apenas massa de uma uniformidade horripilante. Não havia trânsito de carros, naquele trecho era proibido, somente transeuntes. Assim sendo, subia até ele vozes numa contextualidade de massa de sons sem que pudesse distinguir o que diziam. Para isso ele teria que descer e, foi o que fez. Desceu os dez andares e se postou à porta do prédio e ficou observando a caterva no seu ir e vir ensandecido. Uns apressados esbarravam uma vez outra nos que vinham em sentido contrário, outros apenas em passos lentos observava as vitrines, alguns com embrulhos entravam e saiam das lojas com mais embrulhos, aos pares ou sozinhos a selva humana deslocava o ar das despreocupações sem se importar com o que pudesse acontecer. Nisso, bem rente a ele passou um homem e olhou em seus olhos. Por instantes o brilho dos dois sem cruzaram. Se distanciando o homem não deixava de olhar para ele como se o convidasse a segui-lo. Sem pensar fechou a porta do prédio e seguiu o homem.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 1 de março de 2021

Contos surrealistas 95

Separação

 O vento batia nas folhas balançando-as ao sabor do sol aquecendo a manhã. Renato não conseguia tirar as palavras da mente. “Não vá embora” disse ao se despedirem. Enquanto o vento batia nas folhas da árvore, mentalizava todos os momentos da noite passada. Revia os instantes no quarto do motel com morbidez e satisfação. Tentava criar as fibras de cada letra assim como sentia as fibras das folhas arrastadas e presas aos galhos. Não vá embora ouviu deixando-o preso ao som da voz nasalada. No entanto não foi embora, ficou sozinho no quarto dentro da noite perdida de neons e sons arrastado pelo vento dos sentimentos. Onde estava o tom das letras? Não ouviu, o tom certo de quem deseja mesmo o que fala. Impossível, se não percebeu quando foram proferidas, agora por mais que pronunciasse mil vezes não iria sentir o tom certo.

Caminhou até a pequena árvore Segurou uma folha. Sentiu toda a complexidade das nervuras da planta. No entanto como era frágil diante do intricado sentimento arvorando o peito em dor e angústia. Mas nessa fragilidade estava à força da folha enfrentando as intempéries da natureza. Renato descobria-se forte contra a fragilidade da paixão. Estaria com pena de si mesmo? Talvez, apesar de não entender se era verdadeiro ou não. Tinha dúvidas.

Renato, no entanto, não acreditava nas pessoas. O que poderiam elas lhe proporcionar? Possuíam o que chamavam de amor sem saber no que implicava as dores, dúvidas, angústia, falta de sinceridade... Ao ouvir as palavras nasaladas deixou de acreditar nas pessoas, deixou de acreditar no amor, na vida, nele...

Debaixo do chuveiro, lentamente, a água quente despregou dos seus pelos a mistura de esperma incrustada na pele.

Ao sair do banho, o vento não agitava as folhas da pequena árvore, e as palavras não o infernizavam mais. A leveza da manhã invadia a alma trazendo ao peito a alegria de se estar vivo.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...