os raios de sol pairava no ambiente da
lanchonete e entre nossos corpos estavam os copos e os olhos dele meios que
saltados agiam em movimentos um tanto quanto rápidos sem se fixar num ponto,
talvez por causa da luz da tarde que invadia a lanchonete, ou talvez porque
olhava distraído enquanto lentamente bebia a coca-cola em goles pequenos
saboreando cada partícula da bebida como se fosse a última, ele sendo franzino
e no entanto podia notar o corpo saudável por baixo da calça jeans larga e da
camisa verde escura também larga, o que aguçava a curiosidade em saber como
seria as formas que preenchia aquela roupa, a imaginação de quem olhasse para
ele voava em sua direção contemplando as partes amostra, as partes em que a
roupa não cobria sua pele amorenada, principalmente o rosto pequeno, quase
redondo mas não cheio acomodando uma leve penugem de barba que teimava em
crescer, os lábios finos por baixo de um nariz delicado completavam a seqüência
de formas dando o atributo, não de beleza, mas de algo que atrai quem para ele
olhasse, porém, de repente, sem que ninguém notasse, ele criou uma seqüência de
movimentos tendo primeiramente se levantado, depois caminhando até a caixa,
pagou a conta e saiu sem que nada o perturbasse, sem se preocupar com o que se
passava a sua volta...
ele continuou quieto ouvindo o rádio num
volume alto, as vozes na outra ponta do balcão, sentiu o silêncio que o outro
deixara, parecia que uma eternidade se instalara ao ver o banquinho desocupado,
sentiu o vazio, esse companheiro que o seguia para todo e qualquer lugar, e, para
quebrar esse silêncio ou preencher esse vazio, quem sabe, pensou em seguir o
rapaz de olhos amendoados e meio saltados, pensou mas, desistiu, desistiu
porque desejou que acontecesse umas daquelas cenas cinematográficas e, o rapaz
voltasse mudando assim um pouco sua vida, quebrasse o vazio de silêncio que
enchia sua alma ou mesmo voltasse por voltar simplesmente, quem sabe o que
poderia acontecer nos pequenos segundos que antecedia nossas vidas, ou talvez,
indo um pouco mais além na imaginação, ficasse intrigado com ele que o
observava e viesse pedir explicações, perguntasse o porque dele estar
olhando-o, o que pensaria, mas tudo não é cinematograficamente falando, o rapaz
não voltou, portanto só tinha que se contentar com sua imaginação, e tomando um
longo gole de cerveja, perguntou: que trajeto será que ele faria, já que cruzou
a rua, passaria pela galeria e entraria na estação para pegar o metrô, esse era
o caminho que ele faria, no entanto não era o rapaz e nem sabia se ele tomaria
uma condução, talvez nem fosse para casa, pensa que todo mundo é como ele, não
era não, sendo um rapaz provavelmente encontraria com um amigo ou com a
namorada e curtiriam a noite num barzinho, apesar de ser segunda-feira, tudo se
tornava especulações que criava
mentalmente os passos do rapaz, e qual seria o nome dele, precisava colocar um
nome, pois como identificá-lo se não tinha nome, pensou um pouco e
escreveu: ELE
então Ele nesse momento estaria atravessando a catraca e, com seu passo meio
que marchando dentro de uma cadencia sofrida, pois o tempo no quartel fez com
que adquirisse a andar de marcha, o que fazia gastar o calcanhar dos sapatos,
tendo já os quatros pares, dois marrons e dois pretos, precisando de consertos,
mas essa preocupação não era tão importante que o fizesse se desviar do seu
intento, seguir os comandos do destino que o obrigava a introduzir o bilhete na
fenda liberando a catraca para passar, desceu a escada rolante de dois em dois
os degraus, chegando ofegante na plataforma que, naquela hora estava quase
vazia, procurou endireitar o corpo, ficar numa posição o mais ereto possível
para que não fosse perturbado pelas dores nas costas, e, matutava no porque dos
procedimentos das pessoas em agirem de uma forma distraidamente inconseqüente,
não que as desaprovasse, procurar entender a audácia leviana, o comportamento
descabido, como aquele senhor, enquanto tomava cerveja, lia e comia amendoim,
dirigia seu olhar de peixe morto para ele, as vezes se sentia lisonjeado, o que
não queria dizer que precisava retribuir o olhar, mesmo sabendo que o outro
pudesse desejar a retribuição, já fora de várias maneiras e por todo e qualquer
tipo de pessoa cantado, e não é um mero olhar que o faria mudar, constrangido
não ficará, aliás nada mais o constrangia, sabia-se desejado, não corria o
risco de que fosse entabular uma conversa com ele, sua certeza era que aquele
senhor só estava tomando sua cerveja e nada mais...
Ele fechou a agenda e ao fechá-la percebeu a cor da capa, a mesma cor da capa
do livro, a mesma cor do caderno em que Sid vem escrevendo seu conto, azul, os
três objetos com a mesma cor, coincidência, não saberia dizer, tanto é que a
agenda ele usava apenas para rascunhar palavras que poderiam ser usadas para um
poema ou apenas um pensamento, portanto nem sempre andava com agenda do ano,
aquela deveria ser de quatro anos atrás, o livro Noite do Oráculo adquirira a
semana passada, e ao se inteirar da história é que ficou sabendo da capa do
caderno do Sid, só tinha que ser mesmo coincidência, toda vez que escrevia Ele
notava a agilidade da caneta correndo solta e leve sobre o papel áspero da
agenda, causava uma sensação de prisioneiro, de estar sendo preso pelas
palavras e pela trama bem desenvolvida que Paul empregava para contar uma
história, e por sua vez, cada palavra escrita na agenda sentia-se amarrado por
uma corda obrigando-o desesperadamente a escrever cada vez mais, alinhavar as
idéias umas nas outras e jogar palavra por palavra nas linhas rude da agenda de
capa azul, Sid sendo escritor de longa dada, tendo livros já publicados até em
Portugal, depois de muitos exercícios conseguira uma ligeireza na escrita
incrível, tarimbado criava com a maior facilidade um personagem: Nick que por
uma infelicidade da caneta de Sid ou do próprio Sid deixara-o preso num quarto
a prova de algum cataclimas provocado pelo homem sem chance de sair dali, Ele
sem saber porque ou do porque dessa premência em escrever, tentava a sua
maneira criar um personagem também, mas por em quanto não sabia o que fazer com
seu personagem, como desenvolver a trama que formigava em sua mente, precisava
colocar movimentos, não podia deixar o coitado parado na plataforma a espera do
metrô que demorava a chegar, Ele não sabia o que fazer com ele, outra coisa,
será que o que ele está fazendo não seria um plágio, não, acha que não é
plágio, apenas está usando a maneira como Paul Auster escreveu Noite do
Oráculo, criando uma história dentro da história, no caso dele: Ele e o seu
personagem, o que pode parecer plágio é que Ele se identificou com autor, tem
os dois a mesma idade, viveram a mesma época, os mesmo conflitos das décadas de
60 e 70 e, por que não 80, passaram pelos mesmos conflitos de gerações
políticas sociais e mundiais, e agora se encontravam, isto é, Ele encontrava
Paul, sabe da sua existência enquanto que Paul continuará não sabendo quem é Ele,
só o identificará como leitor, se é que Paul um dia terá acesso ao que Ele
escreve, e provavelmente Paul nunca virá saber dele...
mas será que ao começar a ler outro autor não
será Ele influenciado também, pensou ao abrir a agenda de capa azul, por
exemplo H. P. Lovecraft, autor que conhecia de a muito tempo, e que tem uma
escrita quase barroca, acreditava que não, pois gostava apenas de Lovecraft,
não se identificava com ele, é um estilo bem diferente de Paul Auster, e
coincidência, Paul nasceu dez anos após a morte de Lovecraft, a escrita do
autor de Noite do Oráculo apesar de certos pontos mostrar uma intricada trama
de dificuldades de compreensão, a sua escrita corre solta, quase livre,
Lovecraft é mais rebuscada, descritiva, sombria, fazendo com que o leitor senta
a opressão de mistério da história, gostava de Lovecraft, veio a conhecê-lo
através do livro O Despertar dos Deuses, porém o seu preferido era ainda no
momento Paul Auster que com suas tramas e viravoltas nova-iorquinas o prendia
mais que Lovecraft, não deixava também de ter uma trama sombria, meio pesada,
mas isso era ocasionado pelos personagens e não pela descrição da história, se
sentia a opressão de cada personagem, já em Lovecraft a opressão vinha da
história, conseguiria desenvolver a história que sua mente criou, dar
consistência aos personagens, não sabia, só dando continuidade ao que vinha
escrevendo, mas onde deixará ele o seu personagem, não conseguia lembrar,
precisou voltar umas páginas da agenda de capa azul para lembrar onde estava o
coitado, ah! lá estava ele parado na plataforma do metrô...
Ele olhou o sentimento oprimir o peito, se
jogou em cima da cama, tirou a camisa esquadrinhando o teto sem se
preocupar, os olhos saltaram de um ponto
ao outro contornando as manchas escuras formadas no teto durante todos esses
anos, o que faz uma pessoa agir, por que uma pessoa tem de agir sob uma
determinada situação, costurava os pensamentos como alucinado faz um gesto
atrás do outro sem atinar com o que esta fazendo, costurava, colocava numa
ordem de refinamento orgânico pautado pelas manchas do teto, costurava, mas sua
costura era fraca, demorava pouco tempo umas as outras, usava linha de quarta
qualidade e não se dava conta da fragilidade da costura, por isso todas as
vezes que ali deitado, de barriga para cima, sem camisa, desprotegido do
pensamento preparava a costura para o seu desconforto, para sua desilusão, sua
angústia diante da imensa capacidade que o mundo tinha sobre ele, o problema
maior é que não se apercebia disso, que precisava apenas agir, continuar agindo,
sairia dessa situação angustiante, tinha noção do que fizera, sempre tivera
noção do que fazia, nunca negou isso, aliás, costuma dizer: “não me arrependo
de nada, apenas me arrependo do que não fiz”, no entanto uma fagulha pequena do
raio que agitou o temporal se insinuou por entre essa máxima que costumava
sempre alardear, que sempre que podia a empregava, essa fagulha mexeu com seu
íntimo pondo as convicções em dúvidas, em constante questionamento, retumbando
na mesma pergunta: por que, por que fizera isso, por que motivo. o que o levou
a agir como agira, pequenas alfinetadas longuíssimas perfurando a capa
protetora da mente o qual ele pensava ser resistente, mas nesse momento
constatou que não era, pois deixava que nela penetrassem corriqueiros
pensamentos nada usufruindo, virou o corpo dando aos olhos a oportunidade de
focar a parede a sua esquerda, nada havia apenas outras manchas que a tinta por
longos anos fora acumulando crostas de sujeira, parecia que a dona não tinha
cuidados, isto é, sua mãe, o que dava a ela o direito de limpar ou não a parede
do quarto, sozinha tomava conta da casa e mais ninguém, além de cuidar das suas
roupas e cozinhar para ele, o que as vezes vinha atazanar seu consciente de
preguiçoso, de acomodado, aproveitador nada fazendo para que a mãe tivesse um
pouco mais de paz, até propusera à ela contratar uma empregada para a faxina
mais pesada, o que fora rechaçado, não precisa, disse ela, eu cuido bem da casa
e não gosto que estranhos mete a mão no que é meu, diante disso ele não mais
falou em arrumar uma empregada,
a caneta esferográfica corria leve sobre o papel dando a Ele a oportunidade em
dizer tudo o que lhe vinha à mente, a ponta da caneta sulcava a textura
do papel numa ranhura invisível, silenciosa que o fazia sentir-se satisfeito e
até agradecido por gostarem do que escrevia, dos poemas que postava nas
listas, e principalmente da prosa, já lhe falaram que era bem melhor na prosa
do que na poesia, tinha suas dúvidas, não se sentia assim forte para se
denominar uma fera, na palavra falada sabia de antemão que não era mesmo,
titubeava cada vez que tinha de demonstrar tais qualidades, gaguejava, ficava
vermelho, na escrita a coisa era diferente, era Ele e o papel branco mais tarde
a telinha do computador, nada mais, há tempos Ele vinha querendo desenvolver
uma história, uma história de personagens, uma história de inicio, começo e
fim, devido a pouca experiência, que agora percebia isso, nunca conseguiria
colocar no branco do papel algo que tivesse consistência, que tivesse agilidade
própria como muitos livros que lera onde nas primeiras linhas o personagem já
saltava aos olhos adquirindo uma consistência como se tivesse vida, nunca
conseguiria, via nisso a fraqueza da sua escrita, sempre tinha algo sob os
olhos, um livro, um jornal, uma revista, tinha conhecimentos vários, leia
muito, só agora conseguia o intento de criar um pequeno personagem, mesmo assim
via nesse personagem a fraqueza da influência dos dois livros que lera, isto é,
um que já lera: Noite do Oráculo e o que estava lendo: Lavoura Arcaica, tudo
bem, que tivesse uma certa influência, mas o maior medo dele era ser
confundido, adquirir a pecha de plagiador, portanto era preciso muita labuta,
muito escrever e reescrever para tirar esse ranço de plágio que envolvia seu
texto, vinha adquirindo firmeza, nos gestos, no pensamento, era lento sem
dúvida, pois essa firmeza ele já deveria ter adquirindo há muito tempo, deveria
tê-la desde os tempos dos bancos escolares e não agora, mas como dizem: antes
tarde do que nunca...
já não sentia a ausência paterna tão intensa como no princípio,
involuntariamente o pai partira ao tombar o carro na marginal estraçalhando
tanto a vida do pai como a vida dele, a vida do pai não fora possível salvar
depois de um prolongado tempo no hospital, a vida dele conseguira sobreviver à
perda, mesmo com muito custo aceitou aquele vazio roendo as entranhas, apesar
da pouca idade, o pai fazia falta, o que pelo menos a mãe tentou anular essa
falta redobrando-o com carinho e dedicando-lhe todos os gostos que estava ao
seu alcance, meio aos trancos e barrancos, uma ora sentindo-se só ou outra
sozinho em seus passos, Ele conseguiu chegar a idade adulta sem as angústias e
dúvidas e os grilos dos que sofrem a perda de um ente querido, sofrera sim, e
muito, o que compensou ou o que equilibrou mantendo-o numa balança estável foi
a sua fome por leitura, sua ânsia por leitura, coisa que seu pai o incentivara,
coisa que o livrou de cair numa depressão irreversível, devido a isso como já
vinha desde os doze anos trabalhando passou a trabalhar com mais empenho sendo
obrigado a estudar à noite, dessa maneira podia ajudar a mãe no sustento
financeiramente da casa, também foram obrigados a mudarem de casa, por uma
menor e de aluguel razoável que não sofressem muito no bolso, suas brejeirice
de criança pós adolescente fora anulada, foi um pulo de criança para adulto aos
quinze anos de idade, transferido de uma escola particular para um municipal
encontrou uma pequena dificuldade em se adaptar, mas a adaptação fora em parte
compensada com a amizade de um rapaz dois anos mais velhos que ele, estudioso, o
amigo também vinha de uma família
desfeita, e encontrou nele o apoio que lhe faltava, sem saber,
inconscientemente os dois se compensaram da falta, - Ele do pai que falecera, e
o amigo da mãe que abandonara marido e filho
tendo o silêncio engendrado na consistência
maligna da esferográfica, Ele extático olhando fixo num ponto qualquer da
parede redescobriu a dificuldade em continuar com a narrativa, precisamente não
era uma dificuldade tão medonha, talvez fosse uma dificuldade menos que medonha
mas paralisava a mão bloqueando a mente em criar cenas convincentes trazendo
força concreta ao personagem que, tornava-se uma marionete sem saber o que fazer,
como agir, tinha noção de que fosse ele próprio a criar as ações levando-o onde
bem quisesse, devagar acumulando blocos sobre blocos de argamassa histórica, Ele
construía um mundo irreal, construía porque também sabia ser uma marionete do
destino, mas que não podia deixar soubessem disso, isto porque, poderia tomar
de assalto numa coragem voraz e arrebentaria os cordões e passaria a agir por
conta própria, o que seria um desastre para Ele que escrevia a história que
agia sobre as ordens de um destino, se Ele tomasse as rédeas das palavras, Ele
sabia que o enredo do conto tomaria rumos diferentes, transverteria por outros
caminhos, outras esquinas, outras ruas, porém como não podia tomar as rédeas
das mãos do seu criador o que tinha que fazer era apenas esperar pelo comando
da esferográfica que deslizava no pensamento colhido no momento em que a tarde
descambava para a noite, sons proliferavam ao redor como moscas varejeiras, o
sol batia seu reflexo na vitrine de doce acumulando sabores que se dispersavam
em bocas famintas, nas paz alcoólica Ele corria levemente o contorno pela
descrição para um pequeno personagem, tinha somente esses momentos na
lanchonete, espremido no balcão, entre vozes partidas, empurrões sonolentos de
cerveja para continuar traçando seu pequeno personagem, em casa se enroscava
nos afazeres que exigiam sua presença, Ele recolheu a inspiração na tinta da
esferográfica e fechou a agenda...