quarta-feira, 31 de julho de 2024

São Paulo

  

O olhar da cidade impera nos transeuntes como faca sem corte sangrando as feridas algumas vezes e outras um vazio que perdura na distância até onde o  olhar alcança fitando o além de si mesmo.

 

A cidade pouco se importa com os destinos que por ela transitam, talvez seja  arrogância advinda dos cafeicultores barões endinheirados, ainda entranhado em alguns pontos de sua alma de concreto e aço.

 

Não se importa se está ou não superada, o que pode ser discutível, pois apenas quer, assim como todos, o seu espaço para acolher quem dela se achar necessitado.

 

Dizem que ela se revolta arrastando frágeis destinos em inundações catastróficas, mas se esquecem que, como toda mulher, tem seus dias e, portanto, nada mais normal às chuvas de verão.

 

Boemia inveterada se homenageia nas vozes dos seus cantores compositores que pedem apenas que os ouçam entre um copo ou outro de chope ou de cerveja.

 

Tem no meigo olhar o acolhedor aconchego dos desvalidos vivendo a margem da sociedade faminta pouco se importando de serem os esquecidos.

 

Em cada canto, em cada região o seu olhar se mostra diferente conforme lhe é pedida à atenção, mas no geral o seu olhar é um só como é um olhar de mãe a cuidar dos seus filhos.

terça-feira, 30 de julho de 2024

São Paulo

 

pelo seu brilho fui conquistado e em minhas veias seu pulsar foi infiltrado

 

São Paulo

da agitação dos inconformados

da Praça Clóvis Bevilacqua engolida pelo progresso formando com a Sé uma só praça

da Paulista centro das atenções mundiais

da agitação cultural

dos bancários

dos camelôs famintos da vida

 

São Paulo

que se transforma

luta

resiste

não se rende

ama

odeia

acolhe

protege

as vezes se revolta inundando tudo

 

São Paulo dos Andrades

dos poetas

dos políticos safados

de vários povos

da zona lesta

da zona sul

da zona oeste

da zona norte

que se estende além da sua morte

 

São Paulo da Liberdade

Penha   Tatuapé

Marginais infernais

Morumbi   Aclimação

25 de março   Praça da Republica

Ipiranga   Lapa

Mooca   Pátio do Colégio

Vila Madalena   Pinheiros

Jardins   Bela Vista

 

São Paulo

cantada por seus poetas compositores e atores sempre continuará em minha alma

 

São Paulo por todos odiada ou não sempre será a minha cidade amada

segunda-feira, 29 de julho de 2024

se meu mundo cair

  

meu mundo gira

em torno dos teus passos

em torno dos teus desejos

dos mais escondidos

aos mais visíveis

 

meus passos te seguem

por ruas e esquinas

entre sombras e árvores

entre praças e parques

 

meu mundo um dia vai cair

eu sei

mas nesse dia preparado estarei

 

pois saberei levitar

e saberei me levantar

domingo, 28 de julho de 2024

Segunda-feira.

  

Para alguns o dia mais ferrado da semana. Para outros, talvez nem tanto, e, para terceiros não estão nem aí se é segunda ou não.

 

Para alguns vêem diante de si uma semana cheia de problemas, sentindo-se prisioneiros com a coleira no pescoço tendo a obrigação de acatar ordens às vezes esdrúxulas.

 

Para outros, onde eu me enquadro, vêem a segunda como o início de que se tem a possibilidade de se construir algo de positivo, mesmo estando preso à coleira sabe que algo de bom existe até nos momentos ruins da vida, pois estamos sempre aprendendo.

 

E para os terceiros que não estão nem aí com isso ou com aquilo, não sabem e nem conseguem sentir os porquês do mundo que os rodeiam, vivem apenas por viverem, ao sabor da onda

 

Assim o mundo vai girando seu ciclo no eixo da vida...

sábado, 27 de julho de 2024

Segundo ato

 

O vento agita a cortina empurrando-a para arejar o ambiente.

Silencioso percorre os cantos vazios, afastando o lúgubre calor amotinado de suores humanos.

Uma folha ou outra de papel balança ao seu sabor, enquanto ao longe, soa a sirene da polícia ou de alguma ambulância.

Risca a lâmina da claridade orgulhosos prédios impondo, contra a gravidade, a arrogância genial do arquiteto.

Aos poucos o silêncio se rompe pela chegada da turba que, rápida, foi almoçar.
Soam vozes aqui e ali, se misturam e se amalgamam umas as outras para, assim, compor a quadratura da tarde.

Retardatários displicentes, num ato mecânico, se põem em seus lugares, complementando o cenário do segundo ato.

Abrem-se as cortinas.

Os dados são lançados.

Um por todos e cada um que se foda.

sexta-feira, 26 de julho de 2024

Sei que talvez não sou

 Sei que talvez não sou o que sou sem você

 

Sei que sou máquina humana no meio da névoa cortando a carne em pequenas fatias de sangue

 

Sei que sou caminhante a traçar meu caminho que outros nunca verão

 

Sei que sou ninguém sem o teu amor que crescia no seio do peito como perfume de rosa a florir o jardim da nossa vida

 

Sei que sou a busca incessante de conhecimento percorrendo as fibras da tua pele marcada pelo vento da adversidade

 

Sei que sou talvez porque sou o que somos o amor eterno de sermos um só, apenas um e nada mais

quinta-feira, 25 de julho de 2024

sem destino

 livre ou não

por caminhos

estreitos ou curtos

por ruas esburacadas

ou vielas mal afamadas

esboço o roteiro

da liberdade

que só saberei

se é certo ou errado

quando chegar

ao fim da minha vida

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Sentir a vida

  

Há uma serie de vai e vem do pensamento que me induz escrever apenas porque devo colocar algo nesta telinha hipnótica e que mais uma vez o meu gosto ou minha aptidão em escrever confirma assim o meu dom de escritor.

Mas será que sou mesmo um escritor ou apenas um farsante que sabe digitar símbolos gráficos que se transformam em palavras onde o leitor poderá saber um pouco mais de mim ou das minhas ideias ou quem sabe possa essas ideias e palavras bater com o que ele, o leitor, esteja sentindo no momento da leitura?

Às vezes há uma concordância e o feedback é instantâneo e outras o feedback não existe ou se existe o leitor guarda egoisticamente as ideias e palavras frustrando-me no prazer de mais uma vez ter a confirmação de que estou no caminho acertado.

Porém, não se deve levar ao pé da letra, quer dizer, devo saber trabalhar com isso, com esse vai e vem, tanto do pensamento como o feedback e acreditar no meu potencial, se ele realmente for verdadeiro.

Já tive mostras positivas e gratificantes de leitores confessando abertamente sua paixão pela minha escrita, leitores que se reconheceram ao lerem o Diário De Um Sentir e, principalmente pelas minhas prosas poéticas.

A esses leitores fico-lhes eternamente grato por acreditar no que tenho a dizer e ao mesmo tempo, por me incentivarem a escrever sempre e nunca parar.

Enquanto meus dedos não se mobilizarem por reumatismo ou por outra coisa qualquer, e enquanto minha mente for ativa, prometo, mesmo sendo porcaria ou algo agradável, vou sempre escrever, vou sempre transmitir em prosa poética, ou em crônica, ou em poesia, ou mesmo em desabafo as minhas ideias, o meu sentir a vida e o mundo que me rodeia.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Sete horas e vinte minutos

  

O ônibus não estava cheio. Ainda bem. Tinha um banco desocupado. Melhor ainda. Eram dez para sete quando cheguei na plataforma do Tatuapé. Que droga! Antigamente nesse horário já estava na Sé. No terceiro trem, com muito custo, num empurra aqui, empurra ali, entrei. As pessoas se acham donas do lugar. “Esse lugar é meu e daqui não saio”, parecem dizer com o corpo rígido sem que se consiga movê-lo. Meus pés ficam numa posição desequilibrada. O direito entre as pernas da moça a minha frente, o esquerdo entre as pernas do rapaz que lê um livro, virado de frente para mim. Um joelho acaricia uma coxa macia gostosa, o outro uma coxa dura nada agradável. Preciso mudar de posição, senão daqui a pouco estarei acariciando a bunda da moça e o pênis do rapaz. Credo! Que pensamento torpe. Mas não há necessidade, pois o rapaz se vira, dando-me as costas. Agora são duas bundas que meus joelhos acariciam. O metrô chega no Braz. Sou empurrado espremendo rapaz e a moça. Preciso erguer a cabeça para que o cabelo preto da moça não roce meu nariz. Viro a cabeça e deparo com a nuca peluda do rapaz. Ainda bem que são só duas estações. Na Sé, a caterva desembestada desce as escadas como se o mundo fosse acabar. Espero pouco tempo. Não me acanho mais em sentar nos bancos cinza. Na estação Paraíso o trem vem vazio e, como sempre, há um banco cinza desocupado. Uma moça ia sentando, como me viu, cedeu o lugar, claro que agradeci. Quando saia da estação Consolação, ganhando a avenida que começava ficar ensolarada, era mais ou menos sete horas e 20 minutos.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

seu garçom

 seu garçom

está vendo aquela

morena naquela mesa

 

traga para ela

o melhor prato

que não seja

requentado

 

para mim

traga uma cerveja

bem gelada

com cuidado

para não

congelar

 

peça ao seu patrão

papel e caneta

quero escrever

um poema

de amor e paixão

e saudade

 

seu garçom

convide aquela

morena naquela

mesa para que venha

compartilhar comigo

essa dolorosa solidão

domingo, 21 de julho de 2024

Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006.

  

Os pingos irregulares caem no asfalto de uma maneira diferente ao caírem na capota do carro cinza metálico.

O som que os pingos fazem ao bater no asfalto é um som seco, talvez até áspero que meus ouvidos não conseguem captar, mas que tenta decifrá-los como se fossem pontas de alfinetes espetando a carne terra.

Os pingos na capota cinza do carro caem, é de metal niquelado se esparramando entre sons difusos fechando a tarde e abrindo a noite.

Veículos preocupados em transitar suas vivenciam não se preocupam nem um pingo com a chuva.

A caterva medrosa procura abrigos dos guardas-chuva para não se enferrujarem melancolicamente em preocupações fúteis e corriqueiras.

É a vida diluindo o tempo único cujo prazer é vivenciada por corações que batem involuntariamente.

A chuva não vai parar tão já, tem-se a impressão que virará a noite umedecendo sexualmente o mundo de cada um.

Sorrisos conquistadores volteiam espiralando a libido fantasiosa do macho copulando a fêmea enquanto a cerveja e o cigarro são sorvidos mutuamente.

O vai e vem de olhares deslizam na espuma molhando o balcão.

A sexta-feira vai assim cumprindo seu papel: compondo a cena do ato final da semana que se encerra em bebidas, sexo e baladas orgiásticas...

sábado, 20 de julho de 2024

Shopping Tatuapé

 

Vozes brilham nos luminosos dos restaurantes na praça de alimentação.

 Olhares ofuscam atividades corriqueiras na ansiedade de aplacar a fome dos prazeres.

 Busca-se nos olhares o vazio rodeando a multidão aflita

 Pés que não se procuram, vagueiam a esmo na imensidão dos passos

 Brilham luzes no chope gelado alimentando o amor que um dia tive por você

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Smile my darling smile

  

Neste meio dia bonito de chuva o povaréu sai em debandada correria para não se molhar. Correria atropelando poças de angústias agastadas em rostos onde a saudade de algo, quem sabe melhor e menos estressante, possa aliviar a dor de estômago que reclama comida. Uns vão para lá outros para cá e outros para o além das possibilidades de sobrevivência catando migalhas entre passantes despreocupados de suas existências.

 

O mundo giro normalmente ressentido e, a mãe natureza, em muda rebeldia reclama os direitos de viver sem interferência. Gira o mundo e giramos nos passos egocêntricos de uma hipócrita individualidade de Big Brothers, Kelly Ky, Faustão, Gugu, Banda Calipso, Bruno e Marrone, se deixando acomodar no estrangeirismo por ser chique o modismo.

 

E hoje, ao subir no elevador, no monitor que disparas notícias “flash”, bom acho melhor dizer: notícias rápidas que o Ministério Público vai proibir palavras estrangeiras no comércio.

 

O que eu acho um absurdo. O povo, principalmente a juventude, deveria se conscientizar da beleza da nossa língua, se orgulhar de termos a mais bonita língua do mundo e não permitir o abuso de palavras, principalmente inglesa no nosso dia a dia. Assim como acho absurdo, e não sei se ainda existe essa lei, em que os cinemas eram obrigados a passar filmes brasileiros, assim como as rádios tocar músicas brasileiras.

 

O que o povo quer é sexo, cerveja e rock´ and roll na veia, ah! estava esquecendo o futebol, e que se dane quem passa fome, se há desabrigados, se há políticos ladrões, se há ignorância, se há felicidades, e o que é pior, que possa existir essa tal da felicidade.

 

Smile my darling smile o carnaval vem aí, vamos passar os quatro dias na maior orgia oficializada e permitida sambando e bebendo e transando com deus e com todos, vamos meu bem sorria que a vida é uma só, para que nos preocuparmos com o que pode ou poderá nos acontecer?

 

Os falsos propagadores da “auto-ajuda” não ensinam que o importante é o hoje, o instante, o momento? Então vamos nos preocuparmos com o agora... Com o já... O instante que mesmo sendo instante já é passado.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Sol

 

Sol traga calor para esse corpo cansado

Despeje os raios em meu peito que chora a ausência de não tê-la mais ao meu lado

Afugenta as sombras que umedecem meus ossos

Reanima meus sentimentos para continuar na luta diária

E me impeça de me jogar nos trilhos do vício e da adversidade

quarta-feira, 17 de julho de 2024

sombras revelam

 sombras revelam

vidas que vivem

renovações que ora

se desnudam

ora vibram

em vôo cinzento

sobre a cidade

de contradições

 

sombras revelam

vidas confiantes

que adormecem

nas folhas

da primavera

onde sentíamos

o amor na palma

das nossas mãos

terça-feira, 16 de julho de 2024

somos retirantes nesta vida

  

somos retirantes nessa vida

cavando um pouco por dia

nossa parca sobrevivência

a cova que não é dividida

 

vivemos nesta terra cinzenta

sob sol chuva e grossa poeira

suando nossa camisa derradeira

bebendo do rio água barrenta

 

assim dia a dia levamos

na mão a esperança perdida

e no rosto as marcas sofridas

 

assim dia a dia trabalhamos

para o sustento da vida medida

tendo a morte vida garantida

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Sou covarde.

 

Sou covarde, sabia? Ah! Não sabia! Deixei transparecer nas entrelinhas e você não percebeu? Não, não percebeu, eu sei. Quem diria! Pensei que fosse mais perspicaz com as coisas ditas e escritas. Vejo que me enganei. Mas sabe o abismo sempre me fascinou. Tenho até uma atração mórbida por ele. Exerce sobre mim uma pressão que às vezes penso me entregar a ele. Sofro de uma vontade louca em conhecê-lo, ver, sentir o que há nele, porém, e a coragem! É não tenho coragem de me atirar nele e não conseguir voltar mais. Por isso não topei o convite que eu tinha feito. Vi nessa atitude o abismo, não, não, por favor, não era você o empecilho, mas, o ato que estava pronto a realizar. Quando sugeri, quando fiz a proposta, estava a fim de me atirar de cabeça, ver no que daria toda aquela loucura. Você sem relutar, o que achei normal, se encontrava num desespero e eu, creio lhe parecia ser a tabua de salvação, sem pestanejar aceitou a proposta, o que me deixou assustado. Naquele momento achei, desculpe não quero ofendê-lo, que você estava se vendendo. Tudo bem, você estava com a corda no pescoço, mas mesmo assim achei que você não aceitaria. Isso me assustou. Entende? 

Sim me assustou. Por quê? Ora porque ali naquele momento em que você disse: sim, aceito e estipulou suas condições, vi diante dos meus olhos o abismo. Não vi em você o perigo, mas no ato que eu estava fazendo levando você junto comigo, e, aí pensei: o abismo, o ir além do que eu sou, do que eu quero e que me fascina, será que conseguiria cair nesse abismo e voltar à superfície? A tentação era enorme, conhecer a pele, o cheiro, a caricia, os afagos, a parede do desejo, as sensações em que estaríamos envolvidos me aterrorizou. Pois sabe muito bem que preso ao meu karma de lúgubre burguês e, covarde como sou, não daria mesmo certo.

Um dia sei que não resistirei. E quando esse dia acontecer saiba que no fundo do poço estará alguém que sempre relutou contra a covardia e, que por fraqueza se entregou.

domingo, 14 de julho de 2024

Ta bravo?

  

Toda vez que cruzava comigo, perguntava:

- E aí, ta bravo?

Ou quando passava por ele, ou se por casualidade nos encontrássemos na máquina de café, lá vinha a pergunta:

- E aí, ta bravo?

E hoje me vendo de longe, não deixou por menos:

- E ai, ta bravo?

Não dei pelota, não respondi, continue na minha. Não contente chegou até a mesa:

- E aí, ta bravo?

Não respondi. Insistiu:

- Não vai me responder? Ta bravo?

Então respondi:

- O que você tem com isso? É da sua conta se estou ou não bravo? Cuide do seu serviço e não me enche o saco.

- Ta bom, malcriado, ta bom, respondeu dirigindo à sua mesa.

Depois disso ele não mais se dirigiu a mim, durante o dia todo. A principio fiquei com remorso por ter falado dessa maneira com ele, apesar de tudo é uma boa pessoa, é que percebi que eu estava errado, e por saber que ele me fazendo constantemente a pergunta estava me irritando, e eu cai na dele, me irritei. Por outro lado, não estava realmente bravo, apenas pensativo, meio que chateado com o que não sabia, quer dizer, posso até saber, mas não quero aceitar ou não tenho coragem em dizer o que é, e de mais a mias, as pessoas confundem o silencio da fisionomia com a carranca de bravo. Tenho o direito a ficar bravo com uma única pessoa somente: comigo mesmo, pois foram meus gestos, ações, idéias que me trouxeram onde estou me trouxeram aqui para cumprir meu Karma. E como sempre digo: não me arrependo do que fiz me arrependo daquilo que não fiz ainda.

sábado, 13 de julho de 2024

Talvez estivesse ali.

  

Contrariado sem saber o porque, abriu a ensebada e velha agenda e freneticamente começou a escrever. Não pensava no que escrevia, e achou que nem deveria pensar, se pensasse não escreveria, foi essa sua opinião, depois de tomar um bom gole de água.

 Ao lado do teclado estava o livro de contos de Virginia Woolf, era a sua leitura ultimamente. Precisava ler Virginia para entender Clarice, lhe dissera o amigo. O que para ele não tinha uma exclusividade gostava de Clarice e por causa dela descobriu Woolf, a qual também passara a gostar. E as duas lado a lado estavam na prateleira refletindo os acasos da vida.

 Segurando a caneta com uma certa pressão, sentia as idéias fluíram pelas linhas pequenas da velha e ensebada agenda. O silêncio imperava em seu interior apesar da geladeira roncar pelo uso de tempo, o que lhe dava uma sensação de tempo ocorrido sem perceber.

 Constatou com uma certa amargura, que tudo é uma mera questão de futilidade onde todos os gestos são criados por um milhão de pessoas sem saberem da qualidade e da importância deles. Que diante das grandes coisas que lhe aconteciam era porque deveria acontecer, mesmo que a vida seja uma mera compilação  de atos sendo logos esquecidos.

 Estava ali, melhor dizendo, escrevendo, e o saco de bugigangas para serem doadas ainda permanecia no canto da sala. Ta certo, ocupava um canto quase desapercebido, mas que de uma certa maneira atrapalhava o olhar. E por que ele ainda estava ali? Porque ele não foi ainda doado? Porque deixar essa merda de saco enfeando a sala? Porque? Eram tantos porquês que ele jurou que eliminaria essa palavra do dicionário.

 Ele estava só. Era realmente só? Duvidava, mas suas escolhas foram minadas por aquele saco. Foram uma a uma. O trabalho realizado até o presente momento, se perdeu dentro do saco demonstrando o vazio sem méritos ou, mesmo a costumeira caneta com que vinha escrevendo se perdia em meio ao vazio de si.

 Sim, vivera vários amores, desprezara outros, relembrava os que não tivera. Assim como vê as paixões os amores se perdem na poeira do esquecimento. Para que o vazio não se instalasse definitivamente nele, lia Virginia vorazmente. Ela era uma das poucas que realmente o entenderia. Talvez, se tivesse lido “O Ovo e a Galinha”, cuja complexidade nem mesmo a autora entendera direito, no entanto a vida é para ser sentida. Sabia que mesmo por essa sua falta não deixaria de gostar de Clarice. Olhou para as duas enfileiradas na estante.

 A vida demora a passar quando se tem horas perdidas em papéis branco e mal rascunhados.

 Continuaria escrevendo, palavras soltas que poderão ter um nexo em seu sentido onde ainda não encontrou a explicação correta.

 Assim voltou o corpo e se entregou ao vazio reconfortante das histórias de Virginia...

 Talvez, estivesse ali a sua vida...

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Tartaruga atropelada

 

Cuspido. Fui cuspido ao descer na Consolação. Olhei o relógio: sete horas e doze minutos. Peguei a direita, subi a escada rolante, sai da estação, atravessei a Rua Augusta, entrei no Conjunto Nacional e me dirigi aos caixas eletrônicos em frente ao Grill Hall. Paguei as contas que tinha que pagar, sai pela Padre João e atravessei a Avenida Paulista, precisamente as sete horas e vinte e oito minutos. As sete e trinta e cinco liguei o micro. E, as sete e cinqüenta minutos, é que consegui abrir o Word para escrever o bom dia. Droga, para não falar palavrão, droga, o que poderei escrever nesses poucos minutos? Nada que preste. A minha vontade é jogar o micro pela janela e voltar aos tempos da caneta. Mas fazer o que, enquanto não trocarem, vou ter que continuar com essa lerdeza. Acho que perde até para uma tartaruga atravessando a Paulista, e, olhe que já vi muita tartaruga sendo atropelada.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Terça feira.

  

O sol depois de uns dias de frio e garoa invade a cidade alimentando-a de calor.

A claridade se esparrama entre as quinas das ruas aflorando nos passos de transeuntes acelerados pela fome do meio-dia.

Uns se dirigem para a esquerda, outros em frente, enquanto que alguns pela direita olham sem preocupação nenhuma o relógio do tempo indicando onde devem ou não ir.

O som característico de buzinas, roncos de motores, passos abafados no cimento das calçadas, risos escondidos que muitos não percebem vozes ditas no pé do ouvido, gritos silenciosos e outros não percebidos, não chegam até aqui por causa das camadas de cimento e dos vidros fechados reverberando o som ambiente sempre de mau gosto.

Som repetitivo, ultrapassado, sem mudança ou alternância ferindo o gosto de alguns e o mau gosto de outros, mas poucos a favor, pois preocupado com a carreira profissional, a maioria não presta atenção nem em seu íntimo de ser humano quanto mais no que ocorre a sua volta.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

Teatro minimalista.

As letras roçam as formas delineando objetos numa consistência concreta e sólida.


As letras criam palavras dando aos objetos seus respectivos nomes que eternamente serão reconhecidos.

Os sons dessas palavras furam o dia sonoramente musical levando ao nirvana a essência humana que se preza as experiências da vida.

O dia, recebendo a sonoridade ampla e restrita, se enche de alegria e claridade, propondo assim que todos terão seu ato excepcional.

Alegria que bate nos edifícios ricocheteando sorrisos individuais em busca de afagos e carinhos nos copos solitários alcoólicos perdidos pelos bares da noite.

Num filme surrealista, passos desconhecidos, perambulam angustias nos celulóides das calçadas incertas sonhando com os holofotes da fama.

Para alguns a cortina se fecha antes do termino da cena, para outros, permanecerão eternamente no palco da vida...

terça-feira, 9 de julho de 2024

Terça-feira

 

Garganta inflamada, nariz escorrendo, tosse, resfriado, pergunto: combina com água super gelada, ar condicionado na temperatura máxima, janelas fechadas, cortinas descerradas impedindo a claridade? Não combina. Mas sei o que vou fazer. Vou ao médico e pedirei o resto da semana de licença. O que não vai mudar nada, isto é, vou sarar do resfriado, da garganta inflamada, do nariz escorrendo, da tosse, mas o resto continuará no mesmo de sempre como sempre foi.

Portanto vamos em frente pisando em pedras, em facas, confiante no nosso destino, confiante de estarmos seguindo o que nos foi designado, preparado ou não para enfrentarmos os desígnios assim como enfrentamos a alegria, a felicidade, os bons momentos da nossa vida.

Um bom dia a todos nesta terça cinzenta meio fria.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

tinha uma frase

 

... tinha uma frase no brilho do sol que estampava o amor da vida no quintal, quando o gato, num miado de fome, estraçalhou as fibras da frase que se bipartiu em vários segmentos de pensamentos, sem consistência, dissolvendo assim a inspiração que se recolheu à sombra da saudade, que me conduz sempre a caminhar na esperança de um dia não precisar de mais nenhuma frase e muito menos da saudade ...

domingo, 7 de julho de 2024

Toda vez que abro o Word

 Toda vez que abro o Word ou a minha agenda velha e ensebada, em que vejo a brancura da telinha e as linhas da ensebada e velha agenda, penso no que vou escrever. 

Às vezes esse querer escrever surge de uma palavra pensada, outras de algo presenciado por mim, e outras, as mais inusitadas, que eu tive participação.
Mas todas saem ao comando dessa mente que transforma em energia ou sei lá o que, dando ordens às pontas dos meus dedos que pressionam essas míseras e mecânicas teclas e com isso faz surgir os símbolos gráficos correspondentes unindo letras por letras, até formarem as palavras, as quais serão as que procuro transmitir minhas idéias ou meus atos corriqueiros de poeta medíocre encavacado no meio das futilidades do dia a dia.
Qual a função do poeta? Fazer poesia será a resposta de muitos que me lêem.
Certo, fazer poesia. Mas você que me lê nesse ato simples de me ler estas palavras fazendo poesia; você com esse olhar de leitor ao descobrir a poesia que há nessas palavras, verá que nesse simples gesto, há uma carga imensa de poesia.
Pois a poesia está em tudo, desde ao mais simples grão de areia até a mais alta construção feita pelo mesquinho homem há, em suas diversas grandezas, poesia.
A poesia não existe só porque os poetas existem.
A poesia existe desde que o mundo é mundo.
O homem apenas se sensibilizou diante da grandeza do mundo e teve a coragem em colocar essa sua sensibilidade no papel, ora rimada, ora tecnicamente ou livre, despreocupada com formas e rimas.
Todos têm em si o dom da poesia, apenas é preciso saber olhar, e trazer para dentro de sim a sensibilidade das palavras e das emoções, captando a essência da vida.

Não posso teorizar sobre a poesia, posso apenas senti-la e, sentindo a poesia, posso fazer com que o mundo se torne mais aprazível, mais gostoso de viver ou mesmo de sentir o seu coração pulsando com mais energia e amor, adorando assim o viver a vida intensamente.

sábado, 6 de julho de 2024

Torno-me outro

  

Ouço o pulsar invisível das sombras nas manhãs que torturante me envolve pacificamente.

Reajo dentro da normalidade ao construir arquitetonicamente meus atos não revelados cujo testemunho é a prova da minha existência.

Integrante do nada participo, não muito ferrenhamente, catando nos escombros migalhas de amores e amizades.

Tropeço nos entulhos amontoados nas esquinas sem me importar com o destino...

 

Torno-me outro sem cair na modorra sórdida de me sentir herói dos meus próprios atos e dilemas.

Torno-me outro sem que preciso me reciclar continuamente para viver ao teu lado.

Torno-me outro quando meus olhos depositam na saudade em tudo que me rodeia, nossos beijos enganosos.

 

E esse outro que me tornei, inescrupulosamente conduz meus instintos irracionais alardeando o vazio que me acomete no silêncio do meu corpo suado pelos prazeres comprados.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Transfigurando

  

... transfigurando na face o desejo de bebida, pediu mais uma caipirinha.
Já estava na quarta. Precisava parar, esperava apenas que o Salú fizesse a porção de salame que pedira. E depois? Sim, e depois? Perguntou novamente num fluxo nada criativo. Onde seus pés o levariam? Pouco importava onde, contando que não fosse muito longe. Era quarta-feira... Não era nas quartas-feiras que acontecia às coisas? Onde ouviu isso? Não se preocupou em saber.  Escorregou a caipirinha para dentro da boca sabendo ser urgente direcionar o gosto de se aventurar e, fazer com que acontecesse o que deveria acontecer. Deslizou o dedo na folha da memória ainda quente de lembranças. Foi o suficiente ao virar a folha, para que a saudade surgisse como aquecimento. Em borbotões de sucessivas imagens, o peito comprimiu a dor entre o querer alimentar a saudade ou, matá-la de uma vez. Fechou a ensebada agenda. Continuaria outro dia.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

um olhar desliza cobiçoso

 um olhar desliza cobiçoso

pelo corpo da mulher que passa

segue-a no balanço das formas

de forma genial e deliciosa

embevecendo escondidos desejos

ela sabe provocar

assim como se esquivar

só não a sigo porque sou casado

tenho lascivos desejos

pela moça que passa

morena de coxas grossas

bem torneada...

... e que bunda!...

num sobe e desce me deixa mudo

mas falar pra que?

pra quem?

quem acreditará nesse meu poetar?

poeta mente mas quem ler até a verá

nessas linhas o seu encanto a transparecer

pobre poeta de paixão vai morrer

e mais um poema deixará

a mulher que passa

no seu balanço genial...

... e que bunda!...

 

Bittar / Pastorelli

quarta-feira, 3 de julho de 2024

um piano, uma manhã, reflexões poéticas apenas...

  

...um piano sonoriza a manhã aumentando a distância nos dedos de Arthur Moreira Lima alimentando a saudade recheadas de canções  românticas ultrapassadas...

 

...tudo é um tempo só, um tempo quando o sol, nessa manhã, lentamente surge lembrando que o tempo passa desgraçadamente sem que eu possa notar sua passagem de uma ida somente, cujo destino conheço, mas que o escondo numa única palavra dita no recôndito aconchegante do meu interior: estou só, eu e a minha saudade somos uma coisa só, mesmo que no instante seguinte, desminto-me refazendo o texto, dando-lhe um enfoque mais viril, porque sei que assim deve ser e não como quero que seja....

 

... dessa maneira, meus gestos deveriam ser comedidos num respeito moral burguês cristão que, no entanto, ouso jogar no lixo da incompreensão toda a parafernália moral de vivência por apenas viver, porque há em meu peito um órgão pulsante obrigando a respirar cada passada onde poderei tanto destruir como construir...

 

... dolorosamente compreendo as insignificantes coisas que um simples trouxa não vê e, nessas coisas insignificantes está a sensibilidade poética desse mundo de errante covarde, no qual, viajo ora lutando bravamente, ora lutando covardemente deixando-me levar entre detritos da individualidade social primata e consumista que não entende o presente vivendo na angustia do futuro...

segunda-feira, 1 de julho de 2024

uma pequena descrição para um pequeno personagem

 

os raios de sol pairava no ambiente da lanchonete e entre nossos corpos estavam os copos e os olhos dele meios que saltados agiam em movimentos um tanto quanto rápidos sem se fixar num ponto, talvez por causa da luz da tarde que invadia a lanchonete, ou talvez porque olhava distraído enquanto lentamente bebia a coca-cola em goles pequenos saboreando cada partícula da bebida como se fosse a última, ele sendo franzino e no entanto podia notar o corpo saudável por baixo da calça jeans larga e da camisa verde escura também larga, o que aguçava a curiosidade em saber como seria as formas que preenchia aquela roupa, a imaginação de quem olhasse para ele voava em sua direção contemplando as partes amostra, as partes em que a roupa não cobria sua pele amorenada, principalmente o rosto pequeno, quase redondo mas não cheio acomodando uma leve penugem de barba que teimava em crescer, os lábios finos por baixo de um nariz delicado completavam a seqüência de formas dando o atributo, não de beleza, mas de algo que atrai quem para ele olhasse, porém, de repente, sem que ninguém notasse, ele criou uma seqüência de movimentos tendo primeiramente se levantado, depois caminhando até a caixa, pagou a conta e saiu sem que nada o perturbasse, sem se preocupar com o que se passava a sua volta...

 

ele continuou quieto ouvindo o rádio num volume alto, as vozes na outra ponta do balcão, sentiu o silêncio que o outro deixara, parecia que uma eternidade se instalara ao ver o banquinho desocupado, sentiu o vazio, esse companheiro que o seguia para todo e qualquer lugar, e, para quebrar esse silêncio ou preencher esse vazio, quem sabe, pensou em seguir o rapaz de olhos amendoados e meio saltados, pensou mas, desistiu, desistiu porque desejou que acontecesse umas daquelas cenas cinematográficas e, o rapaz voltasse mudando assim um pouco sua vida, quebrasse o vazio de silêncio que enchia sua alma ou mesmo voltasse por voltar simplesmente, quem sabe o que poderia acontecer nos pequenos segundos que antecedia nossas vidas, ou talvez, indo um pouco mais além na imaginação, ficasse intrigado com ele que o observava e viesse pedir explicações, perguntasse o porque dele estar olhando-o, o que pensaria, mas tudo não é cinematograficamente falando, o rapaz não voltou, portanto só tinha que se contentar com sua imaginação, e tomando um longo gole de cerveja, perguntou: que trajeto será que ele faria, já que cruzou a rua, passaria pela galeria e entraria na estação para pegar o metrô, esse era o caminho que ele faria, no entanto não era o rapaz e nem sabia se ele tomaria uma condução, talvez nem fosse para casa, pensa que todo mundo é como ele, não era não, sendo um rapaz provavelmente encontraria com um amigo ou com a namorada e curtiriam a noite num barzinho, apesar de ser segunda-feira, tudo se tornava especulações que  criava mentalmente os passos do rapaz, e qual seria o nome dele, precisava colocar um nome, pois como identificá-lo se não tinha nome, pensou um pouco e escreveu:  ELE


então Ele nesse momento estaria atravessando a catraca e, com seu passo meio que marchando dentro de uma cadencia sofrida, pois o tempo no quartel fez com que adquirisse a andar de marcha, o que fazia gastar o calcanhar dos sapatos, tendo já os quatros pares, dois marrons e dois pretos, precisando de consertos, mas essa preocupação não era tão importante que o fizesse se desviar do seu intento, seguir os comandos do destino que o obrigava a introduzir o bilhete na fenda liberando a catraca para passar, desceu a escada rolante de dois em dois os degraus, chegando ofegante na plataforma que, naquela hora estava quase vazia, procurou endireitar o corpo, ficar numa posição o mais ereto possível para que não fosse perturbado pelas dores nas costas, e, matutava no porque dos procedimentos das pessoas em agirem de uma forma distraidamente inconseqüente, não que as desaprovasse, procurar entender a audácia leviana, o comportamento descabido, como aquele senhor, enquanto tomava cerveja, lia e comia amendoim, dirigia seu olhar de peixe morto para ele, as vezes se sentia lisonjeado, o que não queria dizer que precisava retribuir o olhar, mesmo sabendo que o outro pudesse desejar a retribuição, já fora de várias maneiras e por todo e qualquer tipo de pessoa cantado, e não é um mero olhar que o faria mudar, constrangido não ficará, aliás nada mais o constrangia, sabia-se desejado, não corria o risco de que fosse entabular uma conversa com ele, sua certeza era que aquele senhor só estava tomando sua cerveja e nada mais...


Ele fechou a agenda e ao fechá-la percebeu a cor da capa, a mesma cor da capa do livro, a mesma cor do caderno em que Sid vem escrevendo seu conto, azul, os três objetos com a mesma cor, coincidência, não saberia dizer, tanto é que a agenda ele usava apenas para rascunhar palavras que poderiam ser usadas para um poema ou apenas um pensamento, portanto nem sempre andava com agenda do ano, aquela deveria ser de quatro anos atrás, o livro Noite do Oráculo adquirira a semana passada, e ao se inteirar da história é que ficou sabendo da capa do caderno do Sid, só tinha que ser mesmo coincidência, toda vez que escrevia Ele notava a agilidade da caneta correndo solta e leve sobre o papel áspero da agenda, causava uma sensação de prisioneiro, de estar sendo preso pelas palavras e pela trama bem desenvolvida que Paul empregava para contar uma história, e por sua vez, cada palavra escrita na agenda sentia-se amarrado por uma corda obrigando-o desesperadamente a escrever cada vez mais, alinhavar as idéias umas nas outras e jogar palavra por palavra nas linhas rude da agenda de capa azul, Sid sendo escritor de longa dada, tendo livros já publicados até em Portugal, depois de muitos exercícios conseguira uma ligeireza na escrita incrível, tarimbado criava com a maior facilidade um personagem: Nick que por uma infelicidade da caneta de Sid ou do próprio Sid deixara-o preso num quarto a prova de algum cataclimas provocado pelo homem sem chance de sair dali, Ele sem saber porque ou do porque dessa premência em escrever, tentava a sua maneira criar um personagem também, mas por em quanto não sabia o que fazer com seu personagem, como desenvolver a trama que formigava em sua mente, precisava colocar movimentos, não podia deixar o coitado parado na plataforma a espera do metrô que demorava a chegar, Ele não sabia o que fazer com ele, outra coisa, será que o que ele está fazendo não seria um plágio, não, acha que não é plágio, apenas está usando a maneira como Paul Auster escreveu Noite do Oráculo, criando uma história dentro da história, no caso dele: Ele e o seu personagem, o que pode parecer plágio é que Ele se identificou com autor, tem os dois a mesma idade, viveram a mesma época, os mesmo conflitos das décadas de 60 e 70 e, por que não 80, passaram pelos mesmos conflitos de gerações políticas sociais e mundiais, e agora se encontravam, isto é, Ele encontrava Paul, sabe da sua existência enquanto que Paul continuará não sabendo quem é Ele, só o identificará como leitor, se é que Paul um dia terá acesso ao que Ele escreve, e provavelmente Paul nunca virá saber dele...

 

mas será que ao começar a ler outro autor não será Ele influenciado também, pensou ao abrir a agenda de capa azul, por exemplo H. P. Lovecraft, autor que conhecia de a muito tempo, e que tem uma escrita quase barroca, acreditava que não, pois gostava apenas de Lovecraft, não se identificava com ele, é um estilo bem diferente de Paul Auster, e coincidência, Paul nasceu dez anos após a morte de Lovecraft, a escrita do autor de Noite do Oráculo apesar de certos pontos mostrar uma intricada trama de dificuldades de compreensão, a sua escrita corre solta, quase livre, Lovecraft é mais rebuscada, descritiva, sombria, fazendo com que o leitor senta a opressão de mistério da história, gostava de Lovecraft, veio a conhecê-lo através do livro O Despertar dos Deuses, porém o seu preferido era ainda no momento Paul Auster que com suas tramas e viravoltas nova-iorquinas o prendia mais que Lovecraft, não deixava também de ter uma trama sombria, meio pesada, mas isso era ocasionado pelos personagens e não pela descrição da história, se sentia a opressão de cada personagem, já em Lovecraft a opressão vinha da história, conseguiria desenvolver a história que sua mente criou, dar consistência aos personagens, não sabia, só dando continuidade ao que vinha escrevendo, mas onde deixará ele o seu personagem, não conseguia lembrar, precisou voltar umas páginas da agenda de capa azul para lembrar onde estava o coitado, ah! lá estava ele parado na plataforma do metrô...

 

Ele olhou o sentimento oprimir o peito, se jogou em cima da cama, tirou a camisa esquadrinhando o teto sem se preocupar,  os olhos saltaram de um ponto ao outro contornando as manchas escuras formadas no teto durante todos esses anos, o que faz uma pessoa agir, por que uma pessoa tem de agir sob uma determinada situação, costurava os pensamentos como alucinado faz um gesto atrás do outro sem atinar com o que esta fazendo, costurava, colocava numa ordem de refinamento orgânico pautado pelas manchas do teto, costurava, mas sua costura era fraca, demorava pouco tempo umas as outras, usava linha de quarta qualidade e não se dava conta da fragilidade da costura, por isso todas as vezes que ali deitado, de barriga para cima, sem camisa, desprotegido do pensamento preparava a costura para o seu desconforto, para sua desilusão, sua angústia diante da imensa capacidade que o mundo tinha sobre ele, o problema maior é que não se apercebia disso, que precisava apenas agir, continuar agindo, sairia dessa situação angustiante, tinha noção do que fizera, sempre tivera noção do que fazia, nunca negou isso, aliás, costuma dizer: “não me arrependo de nada, apenas me arrependo do que não fiz”, no entanto uma fagulha pequena do raio que agitou o temporal se insinuou por entre essa máxima que costumava sempre alardear, que sempre que podia a empregava, essa fagulha mexeu com seu íntimo pondo as convicções em dúvidas, em constante questionamento, retumbando na mesma pergunta: por que, por que fizera isso, por que motivo. o que o levou a agir como agira, pequenas alfinetadas longuíssimas perfurando a capa protetora da mente o qual ele pensava ser resistente, mas nesse momento constatou que não era, pois deixava que nela penetrassem corriqueiros pensamentos nada usufruindo, virou o corpo dando aos olhos a oportunidade de focar a parede a sua esquerda, nada havia apenas outras manchas que a tinta por longos anos fora acumulando crostas de sujeira, parecia que a dona não tinha cuidados, isto é, sua mãe, o que dava a ela o direito de limpar ou não a parede do quarto, sozinha tomava conta da casa e mais ninguém, além de cuidar das suas roupas e cozinhar para ele, o que as vezes vinha atazanar seu consciente de preguiçoso, de acomodado, aproveitador nada fazendo para que a mãe tivesse um pouco mais de paz, até propusera à ela contratar uma empregada para a faxina mais pesada, o que fora rechaçado, não precisa, disse ela, eu cuido bem da casa e não gosto que estranhos mete a mão no que é meu, diante disso ele não mais falou em arrumar uma empregada, 


a caneta esferográfica corria leve sobre o papel dando a Ele a oportunidade em dizer tudo o  que lhe vinha à mente, a ponta da caneta sulcava a textura do papel numa ranhura invisível, silenciosa que o fazia sentir-se satisfeito e até agradecido por gostarem do que  escrevia, dos poemas que postava nas listas, e principalmente da prosa, já lhe falaram que era bem melhor na prosa do que na poesia, tinha suas dúvidas, não se sentia assim forte para se denominar uma fera, na palavra falada sabia de antemão que não era mesmo, titubeava cada vez que tinha de demonstrar tais qualidades, gaguejava, ficava vermelho, na escrita a coisa era diferente, era Ele e o papel branco mais tarde a telinha do computador, nada mais, há tempos Ele vinha querendo desenvolver uma história, uma história de personagens, uma história de inicio, começo e fim, devido a pouca experiência, que agora percebia isso, nunca conseguiria colocar no branco do papel algo que tivesse consistência, que tivesse agilidade própria como muitos livros que lera onde nas primeiras linhas o personagem já saltava aos olhos adquirindo uma consistência como se tivesse vida, nunca conseguiria, via nisso a fraqueza da sua escrita, sempre tinha algo sob os olhos, um livro, um jornal, uma revista, tinha conhecimentos vários, leia muito, só agora conseguia o intento de criar um pequeno personagem, mesmo assim via nesse personagem a fraqueza da influência dos dois livros que lera, isto é, um que já lera: Noite do Oráculo e o que estava lendo: Lavoura Arcaica, tudo bem, que tivesse uma certa influência, mas o maior medo dele era ser confundido, adquirir a pecha de plagiador, portanto era preciso muita labuta, muito escrever e reescrever para tirar esse ranço de plágio que envolvia seu texto, vinha adquirindo firmeza, nos gestos, no pensamento, era lento sem dúvida, pois essa firmeza ele já deveria ter adquirindo há muito tempo, deveria tê-la desde os tempos dos bancos escolares e não agora, mas como dizem: antes tarde do que nunca... 


já não sentia a ausência paterna tão intensa como no princípio, involuntariamente o pai partira ao tombar o carro na marginal estraçalhando tanto a vida do pai como a vida dele, a vida do pai não fora possível salvar depois de um prolongado tempo no hospital, a vida dele conseguira sobreviver à perda, mesmo com muito custo aceitou aquele vazio roendo as entranhas, apesar da pouca idade, o pai fazia falta, o que pelo menos a mãe tentou anular essa falta redobrando-o com carinho e dedicando-lhe todos os gostos que estava ao seu alcance, meio aos trancos e barrancos, uma ora sentindo-se só ou outra sozinho em seus passos, Ele conseguiu chegar a idade adulta sem as angústias e dúvidas e os grilos dos que sofrem a perda de um ente querido, sofrera sim, e muito, o que compensou ou o que equilibrou mantendo-o numa balança estável foi a sua fome por leitura, sua ânsia por leitura, coisa que seu pai o incentivara, coisa que o livrou de cair numa depressão irreversível, devido a isso como já vinha desde os doze anos trabalhando passou a trabalhar com mais empenho sendo obrigado a estudar à noite, dessa maneira podia ajudar a mãe no sustento financeiramente da casa, também foram obrigados a mudarem de casa, por uma menor e de aluguel razoável que não sofressem muito no bolso, suas brejeirice de criança pós adolescente fora anulada, foi um pulo de criança para adulto aos quinze anos de idade, transferido de uma escola particular para um municipal encontrou uma pequena dificuldade em se adaptar, mas a adaptação fora em parte compensada com a amizade de um rapaz dois anos mais velhos que ele, estudioso, o amigo  também vinha de uma família desfeita, e encontrou nele o apoio que lhe faltava, sem saber, inconscientemente os dois se compensaram da falta, - Ele do pai que falecera, e o amigo da mãe que abandonara marido e filho

 

tendo o silêncio engendrado na consistência maligna da esferográfica, Ele extático olhando fixo num ponto qualquer da parede redescobriu a dificuldade em continuar com a narrativa, precisamente não era uma dificuldade tão medonha, talvez fosse uma dificuldade menos que medonha mas paralisava a mão bloqueando a mente em criar cenas convincentes trazendo força concreta ao personagem que, tornava-se uma marionete sem saber o que fazer, como agir, tinha noção de que fosse ele próprio a criar as ações levando-o onde bem quisesse, devagar acumulando blocos sobre blocos de argamassa histórica, Ele construía um mundo irreal, construía porque também sabia ser uma marionete do destino, mas que não podia deixar soubessem disso, isto porque, poderia tomar de assalto numa coragem voraz e arrebentaria os cordões e passaria a agir por conta própria, o que seria um desastre para Ele que escrevia a história que agia sobre as ordens de um destino, se Ele tomasse as rédeas das palavras, Ele sabia que o enredo do conto tomaria rumos diferentes, transverteria por outros caminhos, outras esquinas, outras ruas, porém como não podia tomar as rédeas das mãos do seu criador o que tinha que fazer era apenas esperar pelo comando da esferográfica que deslizava no pensamento colhido no momento em que a tarde descambava para a noite, sons proliferavam ao redor como moscas varejeiras, o sol batia seu reflexo na vitrine de doce acumulando sabores que se dispersavam em bocas famintas, nas paz alcoólica Ele corria levemente o contorno pela descrição para um pequeno personagem, tinha somente esses momentos na lanchonete, espremido no balcão, entre vozes partidas, empurrões sonolentos de cerveja para continuar traçando seu pequeno personagem, em casa se enroscava nos afazeres que exigiam sua presença, Ele recolheu a inspiração na tinta da esferográfica e fechou a agenda...

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...