sexta-feira, 31 de março de 2023

Pequenas histórias 117

Silvio e Silvia 6


Nunca mais se apaixonaria, disse ao entrar no apartamento. Lembrou-se do que disseram: nada de se apaixonar ouviu a voz de Silvia repetindo. Sim, nada de se apaixonar. Silvia no seu dia-a-dia surpreendia-se ao pensar em Silvio. Dera todo apoio a ele para aceitar a bolsa de estudo. Incentivou, colaborou, comprou um dicionário, apresentou um amigo francês para orientar, explicar principalmente o básico para que não ficasse perdido. Tudo correra bem, até mais do que imaginava, pois um dos professores, sendo brasileiro, lhe deu todo o apoio chegando a se interessar por ele. Agora, ele voltava, sim voltava com mais perfeição, com mais confiança, com uma bagagem profissional necessária. O que ela gostava, é que ele não era convencido, percebia-se um pouco de narcisismo, o que era justificável, o ambiente fazia com que as pessoas adquirissem o narcisismo como proteção. Mas Silvio não era nada narcisista. Era até desprovido do conceito em sim, apesar de ser um pouco vaidoso sem ser exagerado.

Silvia gostava dele e, sabia que ele gostava dela. No entanto o leito em que o rio deslizava na suavidade da correnteza previa-se que logo, talvez na próxima curva, algo separaria esse rio, tornando-o dois. Dava a impressão que de um momento para o outro, surgiria uma corredeira levando-os de roldão e, nada poderia deter os acontecimentos.
Foi quando começou um distanciamento entre os dois crescendo sem que percebessem. Já não pensavam mais um no outro com tanta paixão. Silvia procurava o amigo em horas esparsas sem ter um dia certo. Também deixou de avisar e, quando ligava avisando recebia uma resposta negativa, sinto muito, hoje não dá, ou, hoje tenho compromisso vai ser impossível. Aos poucos foi espaçando os telefonemas, foi esmorecendo a vontade em ter a companhia do amigo, e, por outro lado, não se revoltava com isso, surgia um desinteresse entre os dois, que julgava normal. Sendo traída? Não estava pelo menos acreditava. Silvio também poderia pensar que estivesse sendo traído, o que não estava. Não tocavam no assunto, apenas seguiam sem se importar o que um ou outro tinha ideia do que estava sucedendo. Para Silvia a confirmação de que tudo estava terminado quando entrou no bar e encontrou Silvio acompanhado.

quinta-feira, 30 de março de 2023

Pequenas histórias 118

 Silvio e Silvia 7



O amigo estava sentado ao fundo do bar, no lugar mais escuro, um canto estratégico onde sabia que não seria importunado. Ao entrar, correu os olhos pelo ambiente, na verdade não estava procurando ninguém, muito menos ele, no entanto foi acusada de persegui-lo, de vigiar seus passos. Silvia não estava mais interessada em e no que e nem por onde Silvio poderia estar. Ao distinguir sua figura no meio das sombras perdidas, achou-se na obrigação em cumprimentá-lo, ainda eram amigos, ou não eram? Com a atitude de Silvio perante desconhecidos, pelo menos para ela Marcus até aquele momento era e continua sendo um desconhecido, só foi confirmar que a amizade entre eles já não era a mesma. Marcus estava sempre por ali, já o tinha visto perambulando a caça, como ouvira falar. Não era uma pessoa para se confiar e nem para se desconfiar, talvez um Zé Ninguém esperando estar no lugar certo e na hora certa. Quem sabe pensa que com o Silvio tenha achado o seu lugar certo e a hora certa? Quem vai saber, perguntou. O que a desgostava era ver o amigo entrar numa fria, pensava ela, e não poder fazer nada, ou melhor, não participar, ter sido posta para escanteio, da falta de confiança e, por que não, falta de amizade de Silvio. Certo, disseram: nada de se apaixonarem, mas implícito ficou se um dos dois se interessasse por alguém, pelo menos dissesse, comunicasse ao parceiro. Coisa que Silvio não fizera. Vinha se encontrando com Marcus há um tempo, até com certa intimidade, soubera. Não o cobrou, não era de cobrar e não gostava que cobrassem dela. Magoada não perdoaria o amigo nem hoje, nem amanhã. Saiu do bar, deu as costas para tudo aquilo como se nada ocorrera.
Sentiu uma tristeza pesada, uma tristeza que abrangia a noite, a cidade, o mundo, os acontecimentos. Por outro lado, foi envolvida por uma paz refletindo nos nervos relaxados, na apática morosidade da noite. Agora o que tinha que fazer era juntar os pedaços, um por um, reverificar com atenção os erros, aparar as arestas mais pontiagudas, limpar bem limpo, e depois publicar. Faria isso mesmo. Procurou na agenda do celular a palavra Silvio. Depois em Excluir, quando apareceu no visor a pergunta: Deseja excluir esse contato da sua lista? Sim, digitou. Pronto. Silvio já não lhe pertencia mais, já era, ficou nas sombras do passado.
Olhou a noite através da janela da sala. A vida continuava sua existência apesar de tudo. Deu de ombros. Amanhã publicarei no meu blog, quem sabe surja um olheiro e goste e queira editar, transformar em filme, curta, teatro ou minissérie, quem sabe? É talvez, tudo pode acontecer, não é? Pensando dessa maneira, fechou o Word, desligou o micro, apagou as luzes da sala e foi deitar pensando num novo projeto...

quarta-feira, 29 de março de 2023

Pequenas histórias 119

 

Realmente não sei. Queria muito dizer o que penso. Não posso deixar as coisas acontecerem porque devem acontecer, entende? Tudo bem, o que tem que acontecer, acontecerá ou, o que deve ser será, não é assim o ditado? Sim, é isso, mas se esperar as coisas acontecerem porque devem acontecer no momento exato em que elas devem acontecer, acho que ficarei nos atrasos, como posso dizer? Pararei no tempo e quando for me aperceber o que tinha para ser acontecido passou como flecha delineando os contornos de Sagitta e nada poderei retroceder e voltar ao inicio, ao começo das ilusões criando a esperança de realizá-las. Não, realmente não sei. O que dizer quando a chama da paixão invade os campos de trigos chamuscados pelo rigoroso inverno. A fome avança delimitando as forças já reduzidas pela saudade. Caralho! Onde vou parar se não refrear a ansiedade excitada pela chance de conhecer o desconhecido, de conhecer novas amizades? Onde vou parar nessa busca que não sei se haverá um término, um fim. Pensando bem, não quero que tenha um fim, quero que seja eternamente constante essa busca, pois só assim terei a certeza que viverei um dia após o outro. Você me entende? Penso que sim. Aliás, gostaria que me entendesse... E como gostaria! Acho que não me entende assim como eu às vezes não me entendo. Merda! As dificuldades existem para afinarmos nossa sensibilidade, para cristalizarmos nossas falas como a música cristaliza nossos sentimentos em acordes que só a pessoa amada possa entender. E você, me entende? Espero que sim. Bem, até a próxima... Saudades... Se você me telefonasse...

terça-feira, 28 de março de 2023

Pequenas histórias 120

 

A música romântica de Dolores Duran, como uma câmara cinematográfica percorre os recantos da sala na voz rouca e gostosa de Nana Caymmi. Num travelling ágil desnuda os cantos empoeirados dos pequenos enfeites da alma ali depositados. Desliza ao rés do chão mostrando o tapete vermelho gasto pelo tempo. Depois sobe pelas costas da poltrona até se fixar no rosto cansado de olhos fechados. Em seguida, como obedecendo a ordens, se afasta mostrando toda a cena em seus detalhes.
Sentado na poltrona, com a cabeça virada para o lado, parecendo dormir, esta um homem de seus trintas e poucos anos, tendo numa das mãos pendida para fora do braço da poltrona um copo pela metade de uísque e, na outra mão apoiada no outro braço da poltrona, umas folhas datilografadas, onde se pode ler no cabeçalho: SILVIO E SILVIA. Nisso ao ouvir o copo batendo no chão, o homem se sobressalta, acorda. Esfrega os olhos. Pega o copo e bebe o resto de uísque enchendo-o novamente. Com passos trôpegos chega perto da janela. Olha para baixo. Uma queda dessa altura crê que dá para morrer, pensa inclinando o corpo. Em seguida estica o braço e solta, uma por uma as folhas. Lá se vai à merda empobrecida do que fui capaz de escrever, fala mecanicamente. As folhas ao sabor do vento dançam rodopiando de um lado para o outro, na clara manhã. Uma voz gutural vem lá de baixo. Que porra é essa sujando meu quintal? Vê um homem gesticulando para ele. Grita enfurecido. Cala boca, veado. O homem lá embaixo se enfurece, gesticula, berra, mas ele não ouve, fecha a janela. Volta-se para dentro de si aconchegando-se no ambiente conhecido dos móveis solitários. Enche o copo de uísque. Senta na poltrona. Nota a transformação, vê que a voz rouca de Nana Caymmi fura seus sentimentos em poças de angústias. Desliga o aparelho de som. Recai o silêncio daquilo que não pode ou, talvez, como poderá saber daquilo que não quer fazer. Como poderei soletrar os instantes que me farão escorrer na lentidão de sentir-me capaz de alguma coisa. Entrega-se a opressão que o prende ao chão da sala. Deixa-se levar colhendo aqui e ali, todo o pulsar da música em acordes vibrando em sua carne. Deita-se no chão, pega o controle remoto, liga o som, procura uma rádio, acha uma pulsante como seu corpo deseja penetrar nos acordes loucos do rock. Assim, entre as duas caixas, cai num sono profundo não querendo mais acordar.

segunda-feira, 27 de março de 2023

Pequenas histórias 121

 

Ele liga o computador todos os dias. A sua frente brilha a telinha hipnótica branqueando a mente sem dizer nada, melhor sem conseguir escrever. A sua volta papéis e mais papéis em forma de documentos, processos, pastas, dicionários, livros, revistas e outros utensílios que são necessários no decorrer do dia. Canetas, clipes, elásticos, grampeador, tesoura, telefone, calendário indicando o tempo traiçoeiro, tudo consta no argumento provando a existência da sua vida.

Todos os dias liga o computador na intenção de escrever palavras que possam fornecer algo de interessante, de poesia, de humor principalmente, pois o mundo precisa de mais risadas do que tragédia precisa mais de amor do que desamor, de mais solidariedade do que individualidade, de mais música do que de lágrimas derramadas poeticamente dentro de esquemas e regras.
Brilha todos os dias a telinha branca como sua mente branca brilha opaca no cinzento inconsciente caçando palavras, caçando ideias, conhecimento, animo e outras tranqueiras abstratas para que abstratamente impinja no papel, quer dizer, impinja na telinha nojenta um pouco de literatura sem ser intelectual, pois intelectual é um saco para aturar, imagina intelectual convencido de que é realmente intelectual!

E os dedos ágeis pressionam as teclas pretas impingindo caracteres, cenas realísticas ou irreais, dentro da surrealidade a percorrer contornos inexatos de cada personagem.
Sou um personagem de uma história criada por uma mente sem criatividade, que não me deixa fazer o que me interessa. Estou preso a esse escritor medíocre. Preso enquanto o sol resplandece no meio dia da sua vida ainda por terminar. Lambem de luz os prédios humanos, corredores escondidos da alma que rebenta em dilemas nem sempre resolvidos. Se resolvidos fica variavelmente resíduos incrustados no segmento do futuro alterando um curso de sucesso.
E seu curso iconográfico foi várias vezes distorcidas em prejuízo da história que sua vida desenvolvia, por culpa própria. Não olha para o passado com sentimento nostálgico. Olha como uma maneira de descobrir um fato ou mesmo um processo de eliminar o feito e, assim, retroceder refazendo toda a história. Ah! Romantismo aventureiro! A época romântica não cabe na vida de hoje. O que impera é a realidade crua e nua da vida consumista e cruel onde os privilegiados, donos do poder subjugam a ralé crápula conformista, às vezes, ou por malandragem tirando com isso proveito próprio.
As palavras não têm o mesmo poder da música, ela é fraca para o que quer. Alcança somente a elite acostumada com seu prosear pomposo, ridículo e insano num tresloucar sem dizer coisa com coisa. A música não necessita de leitura, basta um bom par de ouvidos para ser, não entendida, mas sentida, pois a música é para se sentir e, não entendida.

Mas, isso é outra história...

domingo, 26 de março de 2023

Pequenas histórias 122

 

Ele parou. Parou na esquina dos acordes sonoros pulsando em fibras de carne retaliada nos passos cadenciados. Ele parou. Quantas vezes necessárias fossem pararia como agora parou. Olhou o céu. Azul, branco de nuvens conduzindo o sentimento aglomerado nas partículas do seu ser. Parou e olhou o céu. Viu o azul. Abarcou as nuvens num único ritmo contendo a vontade de expressar em gestos o que sentia.

Parou. Na avenida movimentada de dores divergindo-se aos quatros cantos da alma embalada pela música romântica. Seus dedos tremiam na ansiedade da carne distante. O corpo frenético dirigia-se a esmo pela calçada nova da avenida, esbarrando propositadamente no vai e vem nos desorientados.

Ouviu distante o som do violão tangendo cordas de uma melodia amorosa. Quem poderia dedilhar um violão naquele momento, naquele momento em que seu cérebro se comprimia para enxergar os detalhes? Não quis saber. Não lhe interessava saber quem tocava, o que lhe importava era o que tocavam a música em si, a música transpondo-o ao um mundo que não era seu.

Deixou-se entregar até o último acorde quebrar o silêncio jogando-o no torvelinho da frenética avenida. Sentou no meio fio da calçada. Uma voz gritou para que saísse senão poderia ser atropelado. Pouco se importava. Que fosse atropelado. Assim acabaria com o tormento de existir por existir. Se não houvesse você que me faz o que sou, deveria estar em outro lugar e não aqui gritando na carne o que há de mim para você.

Parou definitivamente. Parou. Como ninguém mexeu com ele, nem as autoridades, nem ninguém, decidiu que a partir daquele momento, parado ficaria até se tornar uma estatua ofertando seu ombro para os pombos defecarem.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Pequenas histórias 123


No fio da madrugada, pensativo, tendo o reflexo dos passos na calçada, embalado pela agitação cultural, ele andava num rumo incerto.
Equilibrava-se nos sentimentos fracos enregelando a espinha em pequenos fluir de emoções.
Enigmática a noite adentrava em seus poros lancetando a criatividade.
Olhou o brilho das luzes nas folhas das árvores.
Chegou à conclusão de que não tinha mais nada a dizer.
No entanto seus passos o conduziam a lugares desnorteados.
Seguia a única maneira em que via nisso a sua redenção poética.
Seguia, em frente, ouvindo o cadenciado dos pés na concreta calçada.
Seguia, cruzando com transeuntes descompromissadas sem o notar.
Seguia, agitando os nervos em direções inimagináveis como ponta de lança furando o ar.
Seguia, seguia, calmamente engendrando aventuras nunca realizadas.
No fio da madrugada seguia mesmo cansado da frivolidade egoísta deturpando o amor, ele seguia.
Precisava colher da madrugada cada complexo segmento da individualidade exalando desejos nunca correspondidos.
Captar na palma da mão a frenética substância existente em todas as coisas, em todas as pessoas, em todas as direções como alimento.
E depois repousar como se nada tivesse acontecido.

quarta-feira, 22 de março de 2023

Pequenas histórias 124


A manhã trouxe uma temperatura baixa e uma garoa infernal queimando a pele da insatisfação que, sabia, se prolongaria o dia inteiro.
Chato, mais um dia chato que se percebia no ar a incongruência fatídica, a qual, seria obrigado aguentar.

Sorriu levemente perguntando-se: porque sorrir quando não tinha nada para dizer?

Seria demonstração de incompetência literária injetando sofríveis palavras que possam, na aparência, dar uma sonoridade mais profunda?
Não, não era, sentia dificuldade em enfrentar o branco vazio da mente encarcerado no branco vazio da vida revelando a falta de vocabulário.
Necessário seguir o script que lhe foi destinado, não podia refazer reescrever o que os deuses, se é que existem, escreveram no papel da sua vida.

Visualizou no espaço das palavras a surrealidade que o deixou intrigado sem saber o que deveria ser realmente.
Foi então, ao virar a cabeça por causa de algo que lhe chamara a atenção, é que atinou com o fato de estar no lugar errado, que deveria era estar em outro lugar.

Mas, perguntou: como vou saber onde devo estar para que desse estar posso, de alguma maneira, tirar uma substância valida comprovando assim a necessidade de viver sem ser por viver?
Ouviu a resposta: é só simplesmente estar no lugar certo e na hora certa.
E como poderia saber quando é essa hora certa e o lugar certo?
Sua capacidade intelectual e, mesmo a capacidade fisicamente falando, não lhe dava a certeza correta do que seria a hora e o lugar certo!

Talvez, já tenha até passado e ele não tenha percebido.
Sua visão não alcançava além do limite que a vida havia lhe proposto.
Isto é, tinha limitações para visualizar o infinito além do que seu conhecimento lhe permitia.

Fechou os olhos pensando em dormir.

Porém, o raio do sol atravessou a janela emoldurando-o no quadrilátero de luz, símbolo de conhecimento e sabedoria.
Caberia a ele se livrar do tormento de viver só por viver.
Fechou o caderno, apagou a luz, se enrolou nos cobertores e, dormiu profundamente até o dia seguinte.

terça-feira, 21 de março de 2023

Pequenas histórias 125


Numa letra miúda e redonda, a qual, ocupava as últimas linhas da folha releu o que tinha escrito: dormiu profundamente até o dia seguinte. Folheou as folhas em branco, o vazio a ser preenchido. Havia material suficiente? Talvez sim, talvez não, tudo dependeria de como o vazio encalacrado nas linhas da vida o conduziria. Até aquele momento caminhava aos tropeços sem cair. Tropeços que em parte era ocasionado por uma estúpida timidez.
Lento, preocupado nem sempre, mas angustiado, em suspensão conduzia um pé após o outro no calçamento novo da avenida.
Escrevia na momentaneidade dos sentimentos alvoroçando o ir e vir. Colhia os quinhões de cada cena emoldurando o dia, à noite ou mesmo, as madrugadas na palma da mão levitando nas direções dos silenciosos sons que ouvia.
O que escrevia, ousou perguntar a si mesmo. O que escrevia? Retrocedeu umas páginas do caderno para avivar a memória. Afinal não poderia escrever as mesmas coisas, os mesmos dizeres, as mesmas palavras. Até poderia, mas teria de idealizar um tratamento diferente, mais inventivo, criativo. Achou a palavra correta: criativo. Vinha sendo criativo? Calculava que sim. Mesmo que não houvesse um feedback estava sendo sim.
Notou, assim de repente, que em seu repertório não havia lugar para o já fui. Percebeu essa falha ao conversar com um amigo que lhe dissera: já fui casado. Ele não podia usar essa expressão, pois tudo nele estava sendo, estava envolvendo-o no clima presente. O já fui isso ou aquilo não vinha a calhar, era uma coisa que nunca entendeu e que nunca conseguiria entender. Como por exemplo, o já fui casado. O que isso significava para ele. Nada. Continuava casado, mesmo que fosse um casamento pro forma, estava casado. Tentou se imaginar na situação de já fui casado. Se imaginar novamente solteiro, vivendo na solidão de estar tão somente sozinho, sem ter alguém azucrinando seus ouvidos com isso ou com aquilo. Entrando e saindo de casa a hora que quisesse, sem dar satisfações. Impossível, não foi feito para tal situação.
Sua inexperiência não lhe dava o reforço necessário para ser o já fui.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Pequenas histórias 126

 

Precisava de um tema qualquer. Nada lhe ocorria. Vislumbrava vários esquemas que acabavam no nada. Começava um, logo apagava tudo. Iniciava outro que não lhe dava a mesma satisfação quando mentalmente havia criado. Apagava palavras por palavras sem procedimento definido. Apelava para recursos ilícitos sem maiores consequências e, mesmo assim, não usufruía adequadamente. Surgia aos seus olhos um amontoado de símbolos gráficos sem consistência, um amalgama de ideias sem sentido, escorregando para o péssimo dos péssimos. Discorria aglomerando a emoção sucessivamente, uma após a outra, na tentativa de acertar ganhando, dessa maneira, o dia. Nem sempre alcançava sucesso.
Precisava de qualquer tema dentro do seu conhecimento intelectual. Não importaria com esquemas, regras, teorias, se preocuparia apenas com o conteúdo, com a mensagem transmitida ao leitor sagaz e compreensível. Teorias são apenas ferramentas que bloqueiam a criatividade. Regras são empecilhos que se precisam, pelo menos, ter uma noção e não cair no caos da ignorância literária. Esquemas são para aqueles que não sabem digerir o fluxo criador, às vezes, passando para o leitor essa sua dificuldade. É preciso não ficar preso a nada, se soltar na largueza dos ventos. Captar nas pontas dos dedos a consciente certeza de escrever, tão somente, por gostar da escrita falada. Regozijar-se quando se chega ao ápice da simplicidade. O que para ele era a maior dificuldade.

domingo, 19 de março de 2023

Pequenas histórias 127

 

Os dedos não se calam, mesmo sem assunto acarinham a pele da escrita que se esparrama pelo corpo como beijos sedosos deleitando-se com o olhar do leitor. Visualizam-se nas manhãs de outono as excentricidades dos compromissos profissionais, financeiros e consumistas deturpando o laser dos finais de semana.
Deixa-se cair no barroquismo das palavras em detrimento do conteúdo cultuando a beleza da frase esquecendo-se da simplicidade.
A criatividade é tomada por lugares comuns no cotidiano caótico e sofrível perdendo-se nos emaranhados de silogismos de difícil entendimento.
É necessário livrar-se do diletantismo urbano e voltar às raízes rurais para realmente ser compreendido pelo grande público e não somente a um grupo restrito de leitores. Necessário voltar. Renascer como a Fênix partindo do zero. Se possível despojar dos clássicos atrofiando a criatividade. Jogar no limbo regras, teorias absoletas que só deturpam o ritmo das falas. Principalmente quando a mente, grande censora, não assimila enfaticamente as lições, tanto da vida como da intelectualidade. Voltar. Sempre há uma volta ao inicio do aprendizado, ainda nos bancos escolares, carregado de imperfeições que deveriam durante o trajeto, ser aparado, desbastado. Voltar ao inicio, ao fragmento secundário do desconhecido colhendo dia após dia, as experiências que alicerçará o novo escritor. Colherá ele, a cada segundo, pedra por pedra, o seu castelo de ilusões de literato da internet. Os dedos não se calam, pois com assunto ou sem assunto, sua carícia deve ser sentida evoluindo a cada leitor, os sentimentos incrustados em cada letra.
 

sexta-feira, 17 de março de 2023

Pequenas histórias 128


Meus olhos se fecham na palma da mão
Sorrisos de lágrimas escorrem entre os dedos
Um pássaro alça voo pela janela do apartamento

quinta-feira, 16 de março de 2023

Pequenas histórias 129


O sorriso se amarela ao ver o "membro"  do perigo
Retrocede-se pois não quer escândalo consigo
A fama o protege financeiramente do inimigo

quarta-feira, 15 de março de 2023

Pequenas histórias 130


Os olhos se fecham na palma da mão
Lágrimas escorrem horrorizadas
O pássaro voo pela janela do quinto andar


terça-feira, 14 de março de 2023

Pequenas histórias 131


Treze de maio de dois mil e oito. Quantos treze de maio passei? O que ele estava fazendo dia treze de maio do ano passado? Como vou saber se não lembro nem o que jantei ontem! Que dia da semana caiu treze de maio do ano passado? Sei lá? Só verificando no calendário. Um momento.


Ah! Aqui está, caiu num domingo. Trezes de maio de dois mil e sete, domingo, porra, o que eu fiz nesse dia? Provavelmente tenha ficado em casa aturando encheção de saco familiar, levantado tarde, curtindo uma ressaca, tomado uma merda de café, feito uma coisa ou outra, passado a tarde toda no micro, talvez assistido um filme intragável, tomado banho, aguentado o Fantástico, caído na cama para na segunda recomeçar o sentido da vida na esperança das coisas mudarem. Acho que assim foi o meu treze de maio de dois e mil e sete.


Dia bunda, não acha? – escreveu no diário. Acha que foi assim mesmo? Pelo o que me conheço acredito que tenha sido sim. Tenha sido como saber se fora assim ou assado? Foi melhor que hoje? Acredito que sim, pois além de ter sido domingo... Quero dizer, psicologicamente. Difícil afirmar. Posso correr o risco de estar dizendo basbaquice, mas esse treze de maio é melhor que o do ano passado. Por quê? Bem, as aflições, os problemas daquele dia foram resolvidos, de uma maneira ou de outra, satisfatoriamente, e, além do mais é um ano que passei, um ano a mais na minha vida. Um ano que teve alto e baixo... Gostaria de saber se nesse dia escrevi alguma coisa. Cada pergunta difícil preciso fazer uma pesquisa nos meus arquivos.


O engraçado é que vinha martelando na minha cabeça a mesma frase: o que eu fiz no ano passado nesta mesma data? – e, hoje ao descer do fretado pensei: o que eu fiz no dia treze de maio do ano passado? E quando começou a escrever seus olhos se desviaram para o calendário de mesa. Maio! Esse mês tem uma data importante, alguma coisa com escravidão, lei Áurea, uma coisa assim. Foi então que ele parou de escrever. Pensou um momento. Conectou-se e abriu o Google, digitou: treze de maio. O programa puxou quase trezentos itens sobre treze de maio. Ele estava com razão: no dia treze de maio de 1888, uma senhora de 41 anos, portando uma caneta banhada a ouro, assinava um dos documentos mais importantes da História do Brasil: a Lei Áurea, dando liberdade a todos os escravos. Sabia disso? Não, não sabia. Acho que ninguém sabe ou se lembra dessa data. E para que lembrar? Lembrar cansa. Ter conhecimento não é saudável, não é mesmo? Cultura dá dor de barriga. Não pesquisei, mas acho que nem a mídia, nem as escolas lembram ou não querem lembrar essa data. Não é feriado, não é mesmo, então não quero nem saber. Não assim que pensam?


Penso que nem... Como posso dizer politicamente correto. Não quero responder processo por preconceito, mas acho que nem os descendentes sul africanos – é assim? – lembram essa data importante.

Cotegipe, ao cumprimentar a Princesa Isabel, disse: “Vossa Alteza libertou uma raça, mas perdeu o trono”.


Mas a vida é assim mesmo, não é? Perdemos algo para conseguirmos outro. A Princesa perdeu o trono, no entanto ganhou seu nome na história. Nem todos têm o caráter de perder algo em beneficio do povo. Poucos são os que perdem muitos só querem ganhar, que se lixem os menos favorecidos.


Viva dia treze de maio.

Viva a Princesa Isabel.

Viva os negros que glorificaram e glorificam nossas páginas históricas.
Viva os negros de hoje e de sempre.

Viva a história do Brasil.

Viva o Brasil.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Pequenas histórias 132

 

Bom dia catorze de maio de dois mil e oito. Faz um tempo que não começo os bons dias com um gostoso e sonoro bom dia, não é? E hoje dia catorze, não é data comemorativa pelo o que eu sei, mas é véspera do dia quinze, dia do adiantamento, do vale, de pagar contas.

Ontem, dia treze, além de ser Dia da Abolição da Escravatura, foi também, o Dia do Automóvel. É o que consta numa agenda de dois mil e sete que encontrei no fundo da gaveta. E no rodapé da página está escrito:


“Da soberba só provém à contenda, mas com os que se aconselham se acha a sabedoria.” – Provérbios, capitulo 13, versículo 10.


Quem foi o primeiro a dizer: hoje é dia disso ou daquilo? Se fosse possível descobrir, não o mataria, pois já está morto, mas acho que jogaria uma maldição no dito cujo, não é por nada não, é que com esse: hoje é dia de tal coisa, tornou-se uma praga. Quase todos os dias é dia de alguma coisa. Umas mais esdrúxulas que a outra. Há dia para tudo. Concordo marcar o dia para um fato importante, que aconteceu, para que não se perca na memória dos esquecidos que só lembram de futilidade do dia-a-dia com suas sacanagens industriais, morais e sexuais, é válido.


Dia do automóvel! Precisa de um dia para se comemorar essa praga que só polui o ar? Reparou que tudo que era um luxo no passado hoje é necessário? O automóvel deixou de ser um luxo para ser um lixo necessário, e o pior, caro. Sempre conduzido por um desastrado que, quando não atropela e mata, se enrosca em escadaria, e outras barbaridades incríveis. Não sou um apaixonado pelo automóvel. E nunca serei.


Catorze de maio de dois mil e sete foi segunda-feira. Logicamente estava trabalhando. O que teria eu escrito nesse dia? Qual seria o foco do meu bom dia? Como eu estava psicologicamente, animado depressivo ou animado antidepressivo? Não sei, quisera ter a mente brilhante e lembrar o que foi sem me preocupar com o que será. O que teria acontecido de importante nesse dia de catorze de maio de dois mil e sete? É preciso consultar os jornais, revistas para saber. Não tenho necessidade, mas seria curioso conhecer os acontecimentos, principalmente importantes.


Talvez eu estivesse perambulando nos intricados caminhos da descoberta que em você me encontrei. Quem sabe tenhamos cruzados nossos passos libertando a paixão aprisionada no labirinto do dia-a-dia. Acredito que tudo tenha sido assim, e assim, vamos caminhando registrando nossos corpos no astral lógico da existência sincera que há em nossos sorrisos.

domingo, 12 de março de 2023

Pequenas histórias 135


“O coração conhece a sua própria amargura, e o estranho não participa da sua alegria.” – Provérbios, capítulo 14, versículo 10.

Dia do Assistente Social e dia do Gerente de Banco e, também dia do adiantamento, dia de pagar contas e outras coisas corriqueiras que faz esse mundo girar. Então parabéns aos assistentes sociais e aos gerentes de banco. Que eles continuem na senda positiva de suas profissões alçando todos os mais altos píncaros da felicidade.

Quinta-feira, meio do mês, vozes quebram o silêncio na manhã onde o sol timidamente desponta depois de dias escondido.
Quinta para a felicidade de muitos, véspera de sexta e antevéspera do sábado.

Quinta de sorriso que se expande em rostos bonitos onde a expressão feliz ilumina a vida de cada um.

Quinta, aniversário da Elaine que esfuziante recebe os abraços dos amigos, parabéns menina boneca que seus sonhos de princesa nunca pereçam, receba meu abraço no silencia da tua felicidade.

Quinta, mais um dia que a minha curiosidade é aguçada em conhecer o cachorro que encantou a Erica, para tanto, terei que mudar um pouco o curso dos meus passos e subir a Augusta, entrar na estação do metrô Consolação pelo lado do Banco do Brasil e sair do outro lado do banco J. Safra e, contar com a felicidade de encontrar tão afamado animal e, se possível, colocar a máscara de cara de pau e tirar uma foto para comprovar essa beleza canina.

Quinta, mais um dia intragável cuja impaciência me dominou todo o trajeto do ônibus que, quase desci no meio do caminho.

Quinze de maio de dois mil e sete, terça-feira. O que teria eu feito nesse dia? Logicamente, o que faço hoje nesse momento. Trabalhando e escrevendo, mas estaria psicologicamente falando, animado, acabrunhado, o dia como estaria nublado, chuvoso, afinal o que de tão importante teria acontecido nesse dia de dois mil e sete? O que eu teria escrito? Preciso consultar meus arquivos, esqueço-me de fazer. Um dia ainda lembro.

Um abraço a todos, a aniversariante e aos assistentes sociais e gerentes de bancos.

sábado, 11 de março de 2023

Pequenas histórias 136

 

“Os homens do campo são ótimos trabalhadores, mas sofrem crises de desânimo quando não trabalham em sua própria terra.” – Cornélio Pires.

Dezesseis de maio, dia do Gari, dia da Margarida como são chamadas as mulheres que no dia-a-dia, às vezes sob um sol clemente, varrem as principais ruas da cidade, varrem as sujeiras dos porcos que não tem conscientização de limpeza nem de higiene.

Dezesseis, sexta-feira, mais uma sexta para a alegria dos apressados que vivem antecipadamente.

Dezesseis sexta-feira de impaciência crônica resvalando para o suicídio intelectual da palavra onde o silencio imobiliza os passos.

Dezesseis sexta-feira que de normal tem seus intricados meandros revelando, no ato de cada um, o mistério a quem possa interessar.

Dezesseis, sexta-feira de fome a correr o desejo perdido em infrutíferas procura pelos bares imundos de falas que se masturbam nos cantos da solidão.

Dezesseis, sexta-feira em que sua ausência se faz presente na minha agenda sem compromissos por cruzar outros caminhos não mais paralelos aos meus.

Dezesseis, sexta-feira, é sexta-feira o que me diz nesse esplendor luminoso do meio dia?

Dezesseis, sexta-feira não há nada para me dizer, eu é que tenho de captar sua fragrância cósmica e traduzir conforme os sentimentos que me conduzem.

Dezesseis, sexta-feira, minha sexta-feira caminharei entre os bares até o amanhecer do sábado para na segunda recomeçar toda a minha caminhada.

Dezesseis, sexta-feira única revitalizando meus sentimentos para construir o alicerce literário da minha obra.

Dezesseis, sexta-feira que venha sempre, nunca me falte com sua presença, minha adorada sexta-feira.

sexta-feira, 10 de março de 2023

Pequenas histórias 137


“O homem de integridade anda seguro, mas o que perverte os seus caminhos será descoberto.” – Provérbios, capítulo 10, versículo 9


Dezenove, segunda-feira de uma semana meio que curta, feriado na quinta, para muitos um fim de semana prolongado, para outros apenas um feriado que surgiu no meio do caminho interrompendo a labuta.


Dezenove, segunda-feira, não há referencia a esse dia, pois de onde tenho tirado as informações nada consta, mas deve ser dia de algum santo, o que não falta é santo e ladrão nesse BRASIL varonil.


Dezenove, segunda-feira, quando joguei a mochila em cima da mesa ao chegar, fui dominado por uma sensação de certo desconforto, não era raiva, cansaço, ou estresse, não era, nada disso, uma sensação de prisioneiro, de se sentir preso, de querer fazer, de criar e não ser possível, isso dá uma fraqueza a ponto de desinteressar por tudo, de ficar parado, imóvel vendo o tempo passar. Essa sensação não é por causa do trabalho, família, falta de dinheiro, isso ou aquilo, é mais culpa minha do que por outra coisa qualquer, o pior, sei que continuarei assim, não vejo mudança.


Dezenove, segunda-feira, ontem dia dezoito foi Dia Nacional do Combate ao Abuso e à Exposição Sexual das Crianças e dos Adolescentes. Nome pomposo. Pergunto: o que se tem feito para acabar com os abusos, tanto de crianças como em geral, abusos domésticos, financeiros, trabalhistas, econômicas, poder, o que se tem feito. Creio que nada, pois os nardonis da vida continuarão a manchar as calçadas com sangue de Isabelas, outras ficam adultas ainda jovens, nos seus sete anos ou doze anos já tendo filhos para criarem sem saber quem é o pai, perdem o que há de mais precioso: o brincar, levando para o futuro traumas que às vezes prejudicam, tanto ela, como os que a rodeiam. Morte aos assassinos e estupradores de crianças e adolescentes.


Dezenove, segunda-feira, está chegando o maior herói do cinema, o sessentão Indiana Jones, no meu parecer o único desbancando todos os outros, por dois motivos: quem gosta de gibi como eu, concordará que Spielberg conseguiu trazer para a tela todo o clima, o suspense que há nas HQs, criou uma história verossímil, um herói simples, comum, o homem como qualquer um, apenas arqueólogo; o outro motivo é um herói simples, que não precisa de artifícios e nem de capa para voar, nem de teia para ficar suspenso, nem de espada com raios laser, nem de cinto com apetrechos inusitados e, muito menos licença para matar, claro é pura diversão, mas uma diversão classe A, cinema não é só arte, de papo cabeça, drama, comédia, guerra, denuncia e outros quilates, é diversão também.


Dezenove, segunda-feira, não se quantos mortos na China, vulcão entra em erupção, tufão mata nas Filipinas, ataques xenófobos na África, o planeta Terra em ebulição reclama dos maus tratos, e nada se faz, apenas se tira enriquecendo os ricos e poderosos.


Dezenove, segunda-feira, corre o sangue do tempo nas veias dos espaços delimitando sentimentos que anseiam pela liberdade de se expressarem livremente.


Dezenove, segunda-feira, fecho essa crônica com um sorriso de esperança de que cada dia, hora, minutos, segundos que passam será para melhor.


Dezenove, segunda-feira, fecho esse texto acreditando ainda no amor.

quinta-feira, 9 de março de 2023

Pequenas histórias 138


Dia vinte de maio, engendrando os passos largos na canseira do sono, desci do fretado, e no abstracionismo da mente, comecei a elaborar palavras que num ligamento de frases dessem ideia ao que pensava. Foi então que lembrei: pretendia mudar a direção dos passos, mas a preguiça da manhã bonita de sol me fez desistir. Queria passar no local onde fica o cachorro da Érica, isto é, desculpe Érica, passar no local onde fica o cachorro que a encantou, mas resolvi não passar por pura preguiça. Assim sendo, cruzei a Padre João Manuel, atravessei a Paulista, e aqui estou no engraçamento dessas palavras que serão lidas quem por elas estiverem interessadas.

Dia vinte, terça-feira, talvez estejam no estranhamento do meu dizer. É que estou lendo: São Bernardo, de Graciliano Ramos, o qual recomendo. Não é uma leitura difícil, acho até fácil, história simples, o que encanta é a secura da escrita o modo de falar dos personagens, as palavras diferentes que não conhecemos, não há palavras complicadas, mas para quem não está acostumado, como diz o Sinval, é preciso ter um dicionário ao lado. Nada de acordo ortográfico, nada de globalização, viva as diferenças étnicas, sociais e culturais.

Dia vinte, terça-feira, um rio com milhares de corpos flutuam no delta do Rio Irrawaddy, em Mianmar, mas a junta militar do país não está protegendo os sobreviventes. É difícil superar o cinismo dos generais.

Dia vinte, terça-feira, ruas paradas já levam o caos ao céu de São Paulo e nada se faz, só discutem e tudo continua na mesma, que se ferre São Paulo mais o povo num afogamento de carros e buzinas infernais.

Dia vinte, terça-feira, o sono se fortalece com as cortinas semicerradas envolvendo o viciado ambiente em sonolência a qual o corpo não consegue vencer.

Dia vinte, terça-feira, dos teus beijos eu engulo a saliva das palavras transformando-as todas as noites em intensos orgasmos e durmo no cheiro dos nossos sexos o sono dos justos.

Dia vinte, terça-feira, onze horas e trinta e dois minutos, daqui a vinte e cinco minutos mais ou menos, estarei almoçando, portanto excelente almoço a todos e um bom final de terça-feira.

quarta-feira, 8 de março de 2023

Pequenas histórias 139

 

Queria escrever como os profissionais. Escrever sem parar, sem pensar muito no que deve ou deveria escrever. Ir colocando no papel da telinha branca, tudo o que a mente alucinógena fosse mandando os dedos escreverem. Mas um escrever leve e ao mesmo tempo profundo, que fizesse com que o leitor entrasse nas palavras e dela não saíssem mais. Que delas tirassem a essência dos passos na calçada podre da humanidade sem destino. Alguns pensam que há em seus passos, em seus caminhos um destino para se chegar. Qual o que? Estão totalmente iludidos em profetas fajutos que pensam somente no dinheiro que possam arrancar dos fieis. Iludidos não distinguem mais o positivo dos atos fabricados especialmente para iludi-los. Fracos, sem apoio caem na armadilha e se entregam totalmente perdendo, sem saberem, além das calças, a alma. Queria escrever sonoro como sonoro é a vida suave deslizando na calçada da compreensão, na calçada onde reina o amor retribuído, mesmo que seja um amor pequeno, um amor comprado, mas retribuído se torna esplendido. Como a fragrância de um sorriso ingênuo sem saber o que lhe passa, ou mesmo, um sorriso safado, mais gostoso, mais prazeroso levando-o ao extremo de sentir a si mesmo. Um sorriso franco, fiel, sincero na integridade de se doar ao mesmo tempo receber. Um sorriso que ilumina as sombras enchendo de luz o coração afetuoso.  Ele queria escrever ao mesmo não escrever pois, sente-se preso ao fatalismo de ser ele próprio encalacrado em seus sofismas e fantasmas tímidos que não lhe dão a liberdade necessária. Teimoso escreve e, continuara a escrever queira ou não queira, continuara sim, nas sombras das palavras é que esta toda a sua esperança de beijar a felicidade de ser ele mesmo. Ele viverá, sabe disso, viverá toda a eternidade que lhe é necessária viver, até que a ultima pedra seja colocada no edifício intelectual do seu saber. Ele viverá, sabe disso, viverá enquanto houver um sorriso a iluminar o mundo...

terça-feira, 7 de março de 2023

Pequenas histórias 140

 

“Eu aprendi que existem pessoas que amam afetuosamente e que há também as que não sabem demonstrar isso...”.

Dia vinte e um, quarta-feira, dia de feijoada, dia de palestra com Nuno Cobra que discorreu sobre a saúde por mais de uma hora sem parar, só no gogó, na voz, sem usar slide ou fotos.

Dia vinte e um, quarta-feira, depois do almoço, depois de uma feijoada a inspiração se evapora por entre afazeres molemente digeridos no almoço.

Dia vinte e um, quarta-feira, sempre digo: quando venho trabalhar, venho passear. Levanto mais cedo, sem pressa, apreciando os movimentos, sem me preocupar com o metrô cheio ou não, observando as pessoas com os ridículos de suas ações estampados nos rostos.

Dia vinte e um, quarta-feira, nunca me preocupei se ainda falta não sei quantos dias para chegar o fim de semana. Segunda para mim é uma segunda e vou curtir o dia como segunda que ela é, e não um empecilho pensando ansiosamente para que o fim de semana chegue logo. Se não curtirmos o momento presente não estaremos vivendo, estaremos vegetando num viver antecipado.

Dia vinte e um, quarta-feira, poderia dizer muitas coisas, mas que não consigo transformar o dizer em palavras que possa dar a ideia do que penso e sinto no momento. Portanto, paro o meu escrever neste ponto.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Pequenas histórias 141

 

Dia vinte e três de maio, sexta-feira, sol em pleno vapor na sua beleza iluminando prédios humanos e escuros entre mortos e vivos, ou melhor, entre zumbis e poucos vivos.

Sexta-feira, depois do feriado, trânsito livre, poucos veículos e as sete e quinze eu descia do fretado. Aproveitei para dar uma volta no quarteirão e não vi o cachorro que encantou a Érica e acho que não o verei mesmo.

Se o leitor for perspicaz notará uma transformação nesse escrever a partir de hoje. Terminei São Bernardo e comecei a ler Dóris Lessing, - O Sonho de Martha Quest -, ganhadora do prêmio Nobel desse ano, que com o Carnê Dourado, tornou-a conhecida, não sei se para o mundo, mas para mim sim, pois foi o primeiro livro dela que eu li, e que recomendo.

Morreu o pai do Romário, e daí, digo eu, ele, o pai do Romário já cumpriu seu papel nesse teatro imundo sem atos e muitos bugalhos.
Não há como dar crédito aos dizeres embalados em papel roxo da raiva. É preciso, com muito esforço, para não cair na depressão de sentir-se preterido. Esquivar-se das ásperas palavras que, como flecha incandescente, queima o peito da alma. O intelecto aos poucos míngua matando o ânimo que, fraco, se isola na solidão das palavras vazias. O suicídio lento impresso nos objetos inúteis é como fuga sem saída.

O sono esfola os olhos de areia, queima a menina que não desperta nas horas lentas enchendo de ansiedade o corpo cansado.
Tudo é digerido na rapidez da necessidade financeira desprezando os prazeres do momento, da hora, da comida, do café, da carne suculenta que escorre lágrimas banhando corpo dilacerado no prazer instantâneo.

Emerge no meio dia a fome esquálida esparramada na calçada que não é da fama, mas inflama a vergonha em saber-se covarde sem ter a centelha da batalha.

Fecha-se o casulo egocentricamente nos passos tímidos de cidadão de um mundo só dele, nada mais.

Assim, mais um dia que se arrebenta no mar de vidas a se jogar uma na outra como onda sem destino.

domingo, 5 de março de 2023

Pequenas histórias 142

 

Dia vinte e seis de maio, segunda-feira, aos aniversariantes os meus parabéns, que a sorte esteja sempre acompanhando os passos nessa caminhada de alegria, paz, saúde e muita felicidade, o meu abraço.

Depois de vários dias de tratamento devido a problemas nos rins, deixando por causa disso de se alimentar adequadamente, na madrugada de sábado para domingo, o folgado, o Johnny, o folgado, como eu denominei, morreu cercado de carinho. Numa cerimônia simples, foi enterrado no quintal de casa embaixo da pitangueira. Como animal é surpreendente! A traquina da July sentiu a ausência do gato. Quando foram enterrar o Johnny, a July estava perto e, passou a tarde toda quieta, rodando o lugar onde o companheiro fixou sua última residência. Passou o dia inteiro quieta, amuada, pelos cantos da casa, pelo quintal, só a noite foi que ela voltou a ser a July, a serelepe.

- Está uma amanhã com cara de que vai chover, disse o Alexandre enquanto esperávamos o fretado.

- Não caindo muito temperatura tudo bem, respondi.
Realmente, as nuvens carregadas tornando a claridade cinzenta, dava a impressão de chuva, de temperatura baixa. No entanto, nesse momento, olhando pela janela percebe-se um sol, meio tímido, mas um sol que promete esquentar. Assim espero.

Sou muito influenciado pelo o que me rodeia. Não consigo escapar disso, sair desse emaranhado de aflições e angustias. Há um fator que me prende, não sei o que é. Durante todos esses anos, mais de cinquenta anos, venho tentando achar, descobrir o que me atarraxa nesse esquema. Esse esquema louco de viver no prosaico mundo perigoso em definir letras cuja ansiedade me leva a quereres sem limite.


Contemplo a nem sempre ingenuidade dos adolescentes saindo da puberdade, às vezes perdidos sem saberem qual o caminho seguir, se suas necessidades são ou não justificadas diante dos seus atos. Se o que eles fazem é realmente aquilo que desejam que fosse. Se não tem o ambicionado pensamento de ser outrem, ter o conhecimento alheio. Ter aquilo que desejam ter e não tem por mesquinhez burguesa social castrando qualquer ato puro e saudável.

Todo ser humano tem o direito de ser e agir como quiser.

ps – depois de bambinamente ter passado um dia alegremente feliz, desejo-lhe bom regresso Carlão. Desculpe a brincadeira, bom retorno com alegria e paz na saúde nossa de todos os dias.

sexta-feira, 3 de março de 2023

Pequenas histórias 143

 

Pois é, mais um dia que avança com seus maléficos dons viciando-me a viver intensamente como se fosse o último dia da minha vida.
Mais um dia calcinando as ausências que bipartem o coração de saudade em cada filigrana do sol aquecendo o gelo em meu peito.
A cidade com seus sons múltiplos e confusos, com sua luminosidade cinza e opaca, com seus gritos de angustia e fome, com sua pequena grandeza efêmera, com seus campos e edifícios multiplicando beleza e feiura, não me compreende como tento compreendê-la sem racismo e preconceito.  
No celulóide cinematográfico, numa sequencia de vinte e quatro quadros por segundo, a cidade me consome marginalizando em cada esquina uma história sórdida. Assim minha filmografia aos poucos se atualiza nas prateleiras dos cinemas dos amigos, eternos coadjuvantes assim como sou coadjuvante na filmografia deles.
Não há obra prima, não há drama oscarizado, não há comédia pastelão, apesar de certo humor, não há suspense, apesar dos sustos ocasionais, não há intrigas sensacionais, não há aventuras espetaculares, não há animação de qualidade, não há musicais como os de antigamente, os gênios tomaram o trem azul.
E, jogado sem eira e sem beira, entre trancos e barrancos vou à margem do gosto de uma intelectualidade cultuada em desgastantes programas televisivos.  
Colho a argamassa mal feita, colho o rímel das prostitutas travestidas de desejos, colho os orgasmos transparentes da ansiedade latente em cada parede de hotel.
E, no silêncio da batuta do maestro, colho a sonoridade do meu corpo em um único movimento suicida de não mais sentir o gosto do teu corpo.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...