quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.737(2021)

             Dia de aula de música e lá estava o avô com as netas no centro cultural, devidamente mascarado. Os professores se esforçavam para ministrar a aula devido as máscaras e a distância entre os alunos. Crianças e adultos numa roda imensa como convém as orientações da pandemia. Uma hora depois ele e as netas desciam a rua para o ponto ônibus. E como só passava ônibus superlotado, resolveu chamar um Uber. Se dirigiu para um lugar menos movimentado e com um olho no celular e dois nas netas que brincavam, chamou o Uber.

            --- Meninas fiquem perto do vô.

            --- Vô, to com fome, disse uma.

            --- Vô, to cansada, disse a outra.

            --- Vê se não demora que as meninas têm provas ainda, mensagem no WhatsApp da vó.

             Nisso o Uber acha um motorista. Quatorze minutos o tempo para ele chegar ao destino de partida. O vô esperou mais de trinta minutos e nada do motorista, e de repente o fulano cancela o chamado.

            --- Que merda!

            --- Que foi, vô.

            --- O motorista cancelou a chamada.

            --- Vamos pegar o ônibus.

            --- Vamos, to vendo que está passado ônibus vazio.

            E voltaram para o ponto de ônibus, por sorte chegou um bem vazio. Pegaram, elas sentaram e o vô em pé procurava cancelar a chamada do Uber, até que conseguiu e teve que pagar uma taxa pelo cancelamento. Engraçado, quando é eles que cancelam a chamada não pagam taxa nenhuma, mas quando é a gente temos que pagar uma taxa, pensou o vô, pena que não lembro o nome do motorista que cancelou a chamada para reclamar.

            --- Que merda!

            --- O que foi vô.

            --- Nada.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Contos surrealistas 26

O cartaz.

 

Para quem saí do Conjunto Nacional ou mesmo da Estação do Metrô Consolação, descendo a Rua Augusta, sentido centro da cidade, do lado direito, esquina com a Rua Luiz Coelho, há o Bar e Restaurante Monarca. É uma construção simples com um enorme balcão em forma de ferradura, um pouco apertado, diga-se de passagem, tendo à esquerda diversas mesas que se prolonga até o reservado onde, logo em seguida, pode-se ver a cozinha. Apesar de que, como todos os estabelecimentos da região, ser um pouco caro, talvez por ser perto ou pela comida boa ou, ainda, pelo bom atendimento, Figueroa assim como outros amigos do escritório, almoça todos os dias no Bar e Restaurante Monarca.

Quem entra pela porta que dá para a Rua Luiz Coelho, virando à esquerda, vê um pequeno cartaz fixado a parede acima do longo espelho horizontal. As proporções desse cartaz são pequenas, mas o que lhe garante o impacto é a figura masculina que toma conta de todo o espaço. Num fundo de cor verde oliva, puxando para o preto, em primeiro plano, em traje elegante, há a figura de um rapaz que impressiona notadamente pela impecável roupa que lhe cai realçando as linhas do corpo. Nem o dono, nem a mulher da caixa, nem os garçons tem a idéia e, muito menos nem a noção de quando tempo esta ali essa propaganda ridícula, que não combina com o ambiente do restaurante. E por incrível que possa parecer o dono não faz questão nenhuma em tirá-lo da parede. Tem-se a impressão que o cartaz é parte, não só da parede como do estabelecimento todo, tirando-o ficará no lugar um buraco mais terrível e grotesco.  

Samuel Figueroa, rapaz de seus vinte ou talvez trinta anos com cara de dezessete, contabilista, estudante de propaganda, sempre faz o mesmo trajeto de casa para o serviço do serviço para casa. Raramente muda. Tem o costume de todas as manhãs passar no Monarca e tomar um café bem quente com pão na chapa. Quando, por um motivo qualquer e, quase sempre inesperado, é obrigado a mudar o percurso, o dia torna-se terrivelmente monótono, tudo dá errado, chove, sobrecarrega-se de serviço, tropeça, esbarra nas pessoas, leva bronca do chefe, enfim, é um desastre.

Quando Figueroa entrou no restaurante pela primeira vez, deparou com a propaganda, pois é impossível não vê-la, porém não deu importância. Lembra que era uma quarta-feira, dia de feijoada, o restaurante cheio, foi preciso esperar uma mesa, sendo que, por fim, sentou em frente ao espelho que refletia a figura masculina. Hoje estando numa posição desagradável, numa imobilidade involuntária, pode-se até dizer, prisioneiro, sempre que levantava a cabeça, ora para tomar um gole de cerveja, ora para devanear os olhos enquanto mastigava, estava a todo o momento notando o ridículo cartaz.

Não sabia dizer o porquê de a sua atenção ficar presa àquela figura. Não era uma figura importante e, nem assim, bela, mas havia um que de mistério que o levava a admirá-la. As palavras grotescas do anúncio feriam os olhos de tão mal posicionadas, jogadas numa deformidade cujas sílabas separadas, não condiziam com a gramática. Não havia um capricho ético de beleza e nem de conteúdo simétrico. Todos os dias, no entanto, prestava atenção obsessiva ao cartaz.

Um dia, de um momento para o outro, começou a sorrir devagar, do sorriso passou a risada, e quando se deu conta, estava gargalhando. Com muito esforço, com lágrimas nos olhos se conteve comprimindo os lábios com toda a força, todos o olhavam sem entender o que se passava. Samuel cortando um pedaço de frango, não tinha como se fazer entender, era uma situação difícil, mesmo que quisesse não o entenderiam. Isto porque, venho-lhe a mente a cena de um filme antigo, onde o personagem era seguido pela moça gigante do outdoor que ficava em frente à janela do quarto. Professor de meia idade, moralista ao extremo, sentia-se aviltado com o retrato da imensa mulher com os seios descomunal quase a mostra. No final do filme o coitado é levado ao hospício sendo seguido pela mulherona.

Os dias um apos o outro deslizava o cotidiano de todos e todos de uma maneira ou de outra, seguia o curso da vida. Figueroa dentro da sua história, personagem principal da sua peça, ao entrar no Monarca, era tomado de uma excitação fora do comum, mas contida, não podia se dar ao vexame do ridículo. Procurava sentar numa posição em que pudesse, durante a refeição, admirar o grotesco cartaz. Em principio mecanicamente, sem se dar conta, estava com os olhos fixos na figura que, para ele nos primeiros instantes o irritava, e que agora, passou a agradá-lo. Não tinha controle, a mente comandava os gestos, os olhos... Começou a se sentir mal, desprezível, como deixar-se preso a algo que, para ele, era ridículo, absurdo. Fazia o maior esforço para se livrar dessa enigmática força levando-o a demorar, cada vez mais, a permanência a mesa. Concluiu que estava doente. O pior que ninguém acreditaria nele, nem o psiquiatra, talvez o levassem para o hospício seguido pela figura do cartaz. Ainda bem que ela não era grande como a moça do filme, pensou ironicamente.

Esse namoro platônico pela figura do cartaz, ou talvez pelo cartaz todo, absurdamente já se desenrolava por um bom tempo. Certa vez, era um dia frio, garoava, o Monarca não estava muito cheio, assim que chegou se dirigiu para a mesa predileta, fez o pedido e, enquanto esperava, contemplou a figura. Sentiu um tremor correr pela espinha obrigando-o a fechar a jaqueta jeans. Figueroa compreendeu. Ele queria ser aquela figura presa ao papel verde oliva parecendo preto, talvez, todo ensebado de gordura e pó. Queria estar ali preso olhando para quem olhava para ele. Absurdo! Ridículo! Gritou a voz do pensamento dentro do peito. Ser aquele rapaz, viver a vida dele, saber como se sentia preso a parede. Como seria? Se eu fosse você...

Deprimido com a idéia, chamou o garçom, pediu a conta, tomou a última cerveja, pagou e ao ficar em pé, a vista escureceu, não deu tempo de se segurar, caiu por cima da mesa.

Samuel Figueroa, rapaz de seus vinte ou talvez trinta anos com cara de dezessete, contabilista, estudante de propaganda, que sempre fazia o mesmo trajeto de casa para o serviço do serviço para casa, sentia-se preso. Não conseguia mexer os braços e nem as pernas. Abriu os olhos. Não pode ser! Como aconteceu? Berrava a mente na expectativa de que conseguisse mover os lábios, mas nada, permaneciam entreabertos num sorriso frio e sarcásticos. Não, quero sair daqui, gritou no silêncio do terror. Mas não era isso que você queria, respondeu a voz do pensamento. Pois então, aqui está você, preso nesse cartaz horrível no lugar do rapaz. Veja, ele está saindo do restaurante todo feliz, veja, olhou para traz sorrindo e está lhe dando adeus, trouxa!

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.736(2021)

             A timidez se projetava em aliança com o acanhamento numa projeção de atos deixando-o envergonhado. Em algumas situações a face ficava vermelha a ponto de senti-la queimando. Nessas horas queria sumir, se aprofundar num buraco e ficar por muito tempo. Infelizmente isso não acontecia e ele precisava enfrentar as gozações, as piadas maldosas. Os músculos ficavam rígidos, a mente vazia, não surgiam palavras nenhuma para revidar e, assim, estático permanecia até que o esquecessem. Muito tempo depois, ainda sentia no estomago a frieza do ocorrido, até que uma nuvem encobria tudo a ponto de não lembrar mais os fatos. E a vida continuava, tinha que continuar queira ele ou não. Se concentrava para que de novo não caísse na mesma esparrela, mas acabava se desconcentrando e quando percebia estava novamente envolvido pela timidez.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Contos surrealistas 27

                                         A chuva.

 

1

 

Não parava. Dias que o tempo estava ruim. Silvia Bruno sorriu ao fechar a sombrinha. Entrou na loja. Dava-lhe satisfação ao ouvir a campainha como nos filmes antigos. Era a única loja desse tipo. Às vezes entrava só para ouvir a campainha.  Só que hoje o motivo era o aniversário de Nelsinho. Decidira comprar um presente para ele. A gaveta estava cheia de camisa. E de cueca também. Isqueiro não servia mais, Nelsinho tinha parado de fumar. Ainda bem. Calça ele próprio gostava de comprar. Silvia Bruno tinha uma teoria: variar os presentes. Não como a maioria que dava sempre as mesmas coisas. Não tinha preguiça de procurar, pesquisar, ver o que a pessoa gostaria de receber. Nelsinho todos os anos ao abrir o pacote, dizia:

- Você vive me surpreendendo.

E esse ano Silvia queria mais uma vez surpreender.

Por coincidência era um dia chuvoso, como hoje quando descobriu a loja. Estava andando sem destino, virava a direita numa esquina qualquer, caminhava dois ou três quarteirões, virava para a esquerda noutra avenida... Numa dessas viradas que, ao fundo da rua, viu a pequena loja. Encantada chegou a se emocionar com a vitrine. E mais surpresa ficou ao abrir a porta. A campainha soou anunciando sua entrada. Foi como se o tempo voltasse, em outra época, sentiu-se outra pessoa, vivendo outro lugar. Olhou em volta, o silêncio imperava nos recantos de cada objeto.

- Pois não, o que deseja senhorita?

Silvia Bruno se sobressaltou ao ver ao seu lado um senhor magro, alto, macilento, nariz aquilino, com óculos de lentes grossas e voz anasalada.

- Bem, não sei...

- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque sabe o que comprar.

- Está bem, quando souber eu volto.

- A senhorita é quem sabe.

Assim eram todas às vezes. O dialogo não variava. Dava a impressão que o dono a esperava. Sabia o dia e hora. Ela entrava, ficava observando um móvel, ou um relógio com figuras barrocas, outras uma escrivaninha com madeira escura, imaginando por onde aqueles objetos tinham passado ou quem poderia ser o dono, a história de cada um, como seria? Parecia que o dono marcava o tempo em que ela poderia ficar na loja. Não passava, talvez, de cinco minutos, sem que pudesse imaginar de onde, ele surgia ora a sua frente, ora atrás dela assustando-a.

- Pois não, o que deseja senhorita?

- Não sei, passei...

- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque sabe o que comprar.

- Está bem, quando souber eu volto.

- A senhorita é quem sabe.

Assim foi por muito tempo, mas hoje seria diferente, disse ao fechar a sombrinha regozijando com o som da campainha.

- Pois não, o que deseja senhorita?

- Estou procurando algo para o meu namorado.

- Ah! Hoje a senhorita sabe o que quer.

- Sim, claro.

- E o que é? - disse lançando um olhar a volta.

- Bem, vejo que o senhor não...

- Se está esperando ver alguma cadeira de espaldar alto* sinto dizer-lhe que aqui não vai encontrar.

- Leu meu pensamento?

- Não Senhorita. Conheço a história e hoje duas pessoas destrambelhadas vieram perguntar por ela.

- Vejo que o senhor não gostou do livro.

- Não li Senhorita. Soube pelos jornais.

- Entendo.

- A Senhorita veio conversar ou comprar algo para o seu namorado?

- Ah! Desculpe.

- Não gosto de perder tempo com conversas, Senhorita.

Silvia Bruno dirigiu-se ao fundo da loja. Pegou uma caixa marrom tendo um orifício em cima e um botão ao lado.

- Vou levar essa máquina fotográfica.

- Câmara fotográfica, Senhorita.

- Isso mesmo...

- Vai prender a alma das pessoas, Senhorita?

- O senhor acredita?

- Tudo é possível, Senhorita. Esse precioso objeto tem má fama, o último dono devolveu por achar que estava enlouquecendo, Senhorita.

- Como pode um inocente objeto enlouquecer alguém?

- Não sei apenas vendo a quem interessa possuir o que não tem Senhorita.

- E o que eu não tenho?

- Talvez a verdade, Senhorita.

- Bobagem, meu Senhor.

- Assim espero que seja, Senhorita.

Silvia Bruno ao sair da loja, abriu a sombrinha e, ao dobrar a esquina já não lembrava mais da conversa, nem do dono e nem da loja.  

 

2

 

Silvia Bruno pelo o que podia lembrar, não tinha certeza se a festa fora um sucesso ou não. Nelsinho ao abrir o presente mais uma vez dissera:

- Você me surpreende mulher.

Só que aquele “me surpreende” não teve o mesmo impacto dos outros anos. Deu a impressão que Nelsinho se cansava dos seus presentes surpresa. Não disse, mas para ela a noção que tinha era que ele estava querendo voltar aos presentes normais, os corriqueiros. Nelsinho não expressou em palavras, mas seus olhos verdes manchados de castanhos, conforme os sentimentos o afligiam, diziam muito mais. Silvia Bruno aquietou-se dentro dela. Continuou agindo normalmente. Mesmo sabendo que a câmara fotográfica seria mais um enfeite na estante da sala, Nelsinho colocou-a a frente do peito, satirizando como se batia uma foto antigamente, apertou o botão ao lado. Por uns instantes a cena congelou. Por milésimos de segundos o ambiente deu um close de cento e oitenta graus revelando toda a verdade da sala e quem estava nela. E o que viu deixou-a constrangida, talvez até magoada. Assim que o giro se completou, só pensava ir para um lugar onde não pudesse ver aquelas pessoas.

Sentada no canto da sala, com o copo de uísque, brincando numa atitude desafiadora com os cubos de gelo, notou toda a hipocrisia em cada gota da bebida. Ouviu no silêncio dos nervos o rancor e inveja de todas as mulheres dirigidas a ela sem o saber o porquê. Nelsinho agia diferente, não era mais o mesmo, lançava em sua direção a arrogância narcisista prevalecendo o seu lado machista de conquistador. Por que não percebeu antes? Será que o vendedor tinha razão?

- Não sei apenas vendo a quem interessa possuir o que não tem Senhorita.

E o que ela não tinha? A verdade, a verdade de todos dançando no ritmo erótico dos corpos suados de uísque e cerveja. Um nojo repulsivo invadiu seu corpo, pele e nervos. De quem era a culpa? Olhou para o presente esquecido em cima da mesa. O vendedor tinha razão? A máquina fotográfica...

- A câmera fotográfica, Senhorita.

A câmera fotográfica que seja, revelava a foto do íntimo das pessoas, capturava num flash abstrato a verdade escondida por mascaras das mais variadas formas. E se ela apontasse para alguém? Quem escolheria? Não, as amigas não me interessam, disse pensativa pegando a câmara de cima da mesa. Apontou para Nelsinho que dançava com uma das suas amigas. No mesmo instante, a cena se congelou num giro de cento e oitenta graus. Assim que o giro completou a trajetória, Silvia Bruno entendeu que ela não era a pessoa que pensava ser e, por outro lado, viu que Nelsinho trazia dentro dele a obscura perversa realidade revelada naquele momento aos seus olhos. E então percebeu. Eram dois desconhecidos. Daquele dia em diante, passaram cada um a viver o seu mundo fútil e egoísta.

 

3

 

Dois anos mais tarde, andando distraída, virou à esquerda e dois quarteirões depois, virou a direita, topou com a pequena loja no fundo da rua. Fechou a sobrinha e entrou ouvindo a campainha anunciar sua presença. Sem saber de onde surgiu se sobressaltou com o vendedor:

- Pois não, o que deseja senhorita?

- Bem, não sei...

- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque sabe o que comprar.

- Está bem, quando souber eu volto.

- A senhorita é quem sabe.

domingo, 26 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.735(2021)

        

            A insônia começava dominar o seu corpo. Roberto pegou o caderno, a esferográfica e sentado com as costas apoiada na guarda da cama começou a escrever. Não pensou no que deveria escrever, apenas deixou a mão deslizar as palavras pelas linhas do caderno. Tinha deixado no passado a inquietude. Soubera com esforço que quase o aniquilara, lutar contra o mal a puni-lo. Estava confortável na pequena casa de madeira, a qual denominara de choupana. E sentado na cama de madeira com um colchão gasto, amarelado, não desejava mais nada além do que já tinha. A satisfação era um simples desejo que proporcionava o que lhe era suficiente. E ele era grato a isso. aos poucos a luta que se impusera e iniciada terminava, em sua vida não havia mais nada da vida que levara no passado. Aquela vida desgarrada de qualquer sentimento puro, e até um pouco ousada, perniciosa, cheia de vícios que a modernidade o obrigava a levar estava se findando. Compreendia a impureza da sociedade a aprisionar sua alma ao desenfreado consumo dos prazeres materiais e sexuais. Também, compreendera que vivendo com Patrícia nada mais foi que uma simulação de uma felicidade de atraso mesquinha. Ao descobrir sua traição, ao encontrar ela e seu melhor amigo transando em sua cama, fomentou um ódio e desprezo pelos dois a ponto de criar um sentimento de aversão ao mundo, especificamente aos humanos. E ele que acreditava e pensava em se casar e, toda vez ao pensar nisso, se enchia de nojo dos dois. Uma dor forte como o impacto de um murro abriu em seu peito um buraco imenso. Colheu o vazio que se instalou levando-o a decepção. Não disse nada, não esbravejou, nem mal disse o acontecido, apenas uma leve revolta toldou os olhos castanhos trazendo calma a alma. A única reação violenta que Patrícia presenciou, foi ao sair de casa, fechou a porta com força que o vidro que a enfeitava se estilhaçou. Por semanas não souberam do seu paradeiro, nem amigos, nem os pais e muito menos a empresa. Quando um belo dia, Roberto aparece para pegar suas roupas tão somente, deixando tudo o mais, livros, objetos pessoais, até o violão que vinha tomando aulas, tudo ficou om Patrícia. Desconcertada Patrícia viu o mal que fizera, mas não tinha como voltar atras, não tinha forças para enfrentar a calma passiva de Roberto. Tentou, procurou falar-lhe, no entanto foi inútil, ele virou as costas e nunca mais a viu. Um ano depois, sua mãe recebeu um cartão vindo do outro lado do mundo.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Contos surrealistas 28

                             Liniara.

 

Esquecida num canto do sótão, empoeirada foi onde a encontrou. O cabelo de loiro estava embranquecido e embolorado. O vestido comido pelas traças teria que ser trocado. As pernas era só passar um pano úmido com uma solução para lustrar a madeira. Um dos braços estava solto, o que não havia problema nenhum. A articulação da boca meio emperrada com um óleo próprio solucionaria o defeito. O olho de vidro pintado, tanto o esquerdo como o direito, não sofrera nada, parecia que tinham sido feitos ontem. Uma sensação esquisita perpassou a espinha num arrepio. Desviou os olhos dos olhos da boneca. Dois dias depois a boneca consertada estava sentada na cômoda encostada à parede.

Durante o jantar em que o assunto era sobre os costumes antigos que estavam de volta, como a ventriloquia, o que achavam de mau gosto, o avô materno aproveitou a deixa e disse que um dos seus tios fizera sucesso com isso e, achava, não tinha muita certeza, que no sótão talvez tivesse uma ou duas bonecas usadas por ele. Liniara formada em Estudos Extra-sensoriais Programada Sobre Vidas Antigas mostrou-se interessada. O avô alimentou sua curiosidade, não só contando como seu parente se tornou ventríloquo, como também, citou filmes antigos sobre o assunto.

Liniara na Biblioteca Central, depois de assinar a autorização responsabilizando-se se algo lhe acontecesse, pegou as caixas de fitas e se dirigiu para o departamento de áudio visual. Atentamente leu o manual dos aparelhos antigos que só existiam na Biblioteca. Levou um tempo para entender os botões de liga e desliga de volume, sintonia, contraste, brilho e outras configurações que não existem mais. Hoje, com a eliminação dessas caixas grandes que, conhecidas como televisão, home theater, computador, laptop tudo passou a ser projetado, via ondas magnéticas, na parede da sala, onde com um simples toque no painel personalizado, tinha-se tudo a mão. Liniara não conhecia ainda, mas já ouvira falar da mais recente novidade: o painel acionado pela mente. O que facilitaria muito, com ele a projeção das imagens seria em qualquer parede, não precisaria de uma parede especifica.

Com as costas doloridas, os olhos ardendo, Liniara saiu do imponente edifício recebendo no rosto o sol escaldante da tarde que morria. Depois de mais de quatros horas vendo filmes, documentários, entrevistas de uma época que não viveu, é que pode ter uma idéia do porque do fascínio do ventriloquismo estar novamente em evidência. Os gregos chamavam de gastromancia e era associado às práticas divinatórias da necromancia, dando a entender que o espírito do morto estava presente para dar informações do além-túmulo, o que depois, na Idade Média, foi associada à feitiçaria. Somente no século XVI é que, se desligando das doutrinas espiritualistas e das mágicas e fugas maravilhosas, foram se tornando artes voltadas aos espetáculos teatrais e circenses, sem conotações místicas.

E agora, a boneca estava ali, a sua frente em cima da cômoda encostada à parede. Não sabia explicar, aqueles dois olhos seguiam seus movimentos. Foi apenas curiosidade que a levou vasculhar o sótão. E como desculpa, fez a pesquisa como complemento aos estudos que elaborava para o fim de ano. O que a deixou mais intrigada, foram os filmes onde os bonecos criam vida e passam a ser o alter ego do próprio manipulador. Não podia deixar que boneca a dominasse. Por isso, jogou no fundo do baú e fechou a chave.

No dia seguinte levantou cedo sem que ninguém notasse. Tinha uma palestra a apresentar no auditório da Academia de Ciências. Tomava notas ao longo do texto quando o professor chegou:

- Está pronta, Liniara?

- Sim.

- Então pode entrar no auditório e começar a palestra.

- Obrigada.

Liniara subiu ao estrado e todos puderam perceber seus olhos estáticos, de vidro e a articulação da boca movendo-se com dificuldade. Esquecera de colocar óleo...

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.734(2021)

         

                                    Excalibur

 

            Roberto pegou o rifle e atirou para o alto. Eram mais ou menos treze horas. O estrondo que a arma fez, ricocheteou na água do pequeno lago e nas árvores afugentando os pássaros numa revoada ensurdecedora. Em seguida, jogou a arma no meio do lago e, lhe pareceu que uma mão feminina, saindo das profundezas do lago, pegasse a arma igual a espada Excalibur, mas nada disso aconteceu, a arma afundou rapidamente nas águas do lago. Enfiando as mãos nos bolsos, cabeça baixa, se afastou como se nada tivesse acontecido. Momentos depois, refestelado na cama, olhando o teto do quarto, sentiu que algo o incomodava, não sabia o que era, o peito inquieto subia e descia acelerando a respiração. Chegou à conclusão que o estar ali deitado a olhar o teto do quarto não o incomodava, o que o incomodava era algo maior e que se soubesse o que era o seu dia poderia ter maior proveito do que já tinha.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Contos surrealistas 29

Uísque.

 

Três pedras de gelo boiavam no liquido amarelo. Empurradas de um lado para o outro, batiam na parede do copo produzindo um som estridente e seco. O dedo comprido e fino obrigava os cubos girarem em volta deles mesmo. Outras vezes, o balançar do copo fazia com que o gelo dançasse num ritmo próprio. O copo preso entre os dedos finos com unhas bem tratadas, era apenas instrumento para que a bebida fosse ingerida. A noite estava propicia. A conversa agia ao comando do álcool. As vozes se alteravam impondo-se umas sobre as outras, mas nada que pudesse ser levada a sério.

Depois do quinto copo Renan subiu a escada em direção ao toalete. Nas paredes viam-se pequenos cartazes com textos sobre uísque, história, destilação, os populares, os melhores, como identificar o falso do verdadeiro, como reconhecer o sabor, o aroma, até um ritual para beber condignamente estava detalhado em vários cartazes ao longo do corredor.

Renan Francis de Oliveira tinha chegado ao fim do corredor, onde havia doze portas, seis de cada lado e uma no meio, portanto, treze. Azar ou sorte, disse ao virar o trinco de metal provocando um ruído seco. Empurrou a porta e entrou tudo lhe era estranho, lugar, gente, lugar, ambiente, até parece que estou numa terra estranha, disse a si mesmo.

Uma forte luz o cegou por momento para logo em seguida cair numa escuridão profunda. Atordoado não ousava se mexer. Sentia o silêncio envolvendo-o. Aos poucos começou ouvir vozes. Distantes, disformes, não claras, pequenos pedaços de palavras chegavam até ele. Não distinguia onde estava ou o que tinha acontecido. Mas o que tinha lhe acontecido. Nada, apenas estava a procura do toalete e nada mais.

Nisso pequenos feixes de luzes atingiam os seus olhos. Surgiam à direita, à esquerda aleatoriamente. Aturdido, era-lhe impossível acompanhar o bombardeamento. Durante quase cinco minutos, o que mentalmente contara, ou que achava que fosse cinco minutos, abriu os olhos.

- Bom dia. Como está?

Os lábios se mexiam e não dizia palavra nenhuma.

 - Calma, não se desespere. Você passou quase cinco dias em coma alcoólica, agora precisa descansar.

O que? Coma alcoólica? Cinco dias? Fechou os olhos novamente e pode ouvi a voz que desaparecia ao longe...

- Enfermeira... Ajude-me... Aqui...

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.733(2021)

          

             Penso que se quero contar uma história terei que fazer uma sinopse detalhada, não é mesmo? Sim, deve ser dessa maneira, respondo. E como começarei? A história envolve dois rapazes, um moreno e outro branquelo. Não haverá um personagem central, pois, alternando falarei de um depois do outro separadamente, sem que um saiba do outro, trabalham na mesma empresa, em departamentos diferentes, raramente se cruzam pelos corredores. Um tem quase trinta anos e o outro quase quarenta. O mais novo é moreno, um metro e oitenta, magro com um corpo definido, cabelo cortado bem curto, roqueiro tendo participado de vários shows, olhos vibrantes, inquietos, castanhos claros, nariz meio torto o que não tira a beleza facial, lábios finos. Admirado pelos amigos, rodeado pelas mulheres, quem o conhece sente-se atraído desejando ser seu amigo. Por um descuido como ele mesmo diz, quase se casa, só não se casou por ser a namorada infiel e infidelidade não admite. E a partir desse fato passa a estudar filosofia e espiritualidade chegando a se tornar médico terapeuta sem clinicar. Conclama sempre que está na Matrix, mas, não pertence a Matrix, e com essa perspectiva passa a viajar pelo mundo numa tentativa de se encontrar além, de algo que não sabe o que seja, e esse algo que não sabe o que é descobre ao conversar com o mais velho pelo WhatsApp.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

De repente

 estampado no vidro branco surge o susto.

Apavorou-se, não esperava pelo susto, nem imaginava que havia um susto.

O silêncio comandava a orquestração da manhã infalível quebrada apenas pelo barulho das ondas.

Forte, sonora, a marola trazia a vida marítima para dentro da pequena sala.

Estava ali, como ali estava não só o tique e taque do relógio como o marulhar das ondas beijando a areia da praia.

Assim surgiu o estampado no vidro branco da pequena sala o susto ao saber-se vivo dentro do quadro que a natureza naquele momento pintava.

domingo, 19 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.732(2021)

          

             Para escrever é preciso amar a escrita. E você ama a escrita, pergunto para mim mesmo. Sim, amo, se não amasse não teria tanto textos escrito, não é mesmo? Sim, entendo. Será que entendo mesmo! Penso que sim. No entanto tenho dificuldade em colocar no papel as ideias que pululam na mente  em pequenas letras que apenas eu entendo, não é? bem, Steinbeck e Capote escreviam a lápis, já imaginou! Se eles tivessem computador escreveriam mais ou melhor? Creio que não seja a ferramenta que você tenha, o que importa é à vontade, a inspiração, o gosto para escrever. E eu tenho?

            É isso... ou, não é?

sábado, 18 de setembro de 2021

Esse não sei...

Tenho nas mãos, principalmente nas palmas das mãos, todo o vazio da saudade provocado pela ausência de alguma coisa que não sei.

Esse não sei cresce na proporção da saudade incrustando na carne da palma da mão o prego da cruz.

O prego sangra confirmando o vazio de se ter e não ter o que não sei se tenho ou não, se tenho não vejo e, muito menos não sinto o não ter.

Se fecho a mão aprisionando tudo isso num gesto monótono e monocórdio, faz-me crer na vida como um prêmio que ainda não ganhei.

Por isso luto, não desesperadamente, pois não sou de luta, sou da paz, na tentativa de preencher o vazio e, conseqüentemente, arrancar esse prego livrando-me da saudade.

Mas enquanto isso não acontecer fico a espera do botão de rosa se abrir e ofertar ao primeiro amor que surgir.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.731(2021)

           

            Tenho minhas dúvidas em relação ao que me acontece.

            Como transpor para o papel a história que me vem a mente sem que ela seja ou tenha alguma similaridade com a realidade? Pois quase tudo que escrevo ou que já escrevi vem da realidade da vida, portanto devo achar uma maneira para que desvincule essa linha entre o real e a fantasia e, outra coisa, será que terei capacidade tamanha para escrevê-la e, me vem a mente que posso escrever duas histórias numa só. Quem sabe!

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Feliz ano velho.

 

No silêncio do champanhe, gritos espocam alegria no ontem de hoje criando todos os tempos existentes e não existentes.

Fogos brilham no céu de chuva manhosa frustrando sonhos de presságios ao pular da onda fria e mansa.

Carros blindados de farrapos humanos formam cortejos de angustia em longa e perniciosa fila nos postos de gasolina.

Seis números arriscam fanáticos sonhando com futuro de glória e sossego financeiramente.

Uma voz rouca embalada pelo álcool grita do fundo da rua:

- Feliz Ano Velho.

Mais um ato se completa ao findar a peça sem fim e sem enredo.

Aplausos surdos ficam soterrados cegos pela ganância sem consciência do perigo.

Fecha-se a cortina do espetáculo e silenciosos retiram-se os astros, as estrelas e os coadjuvantes a espera do final do ano.

Obrigado.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.730(2021)

        

                        A prova.

 

            Beto se conhecia muito bem, tinha a nítida noção do que era e do que não era possível fazer. As vezes se surpreendia com certas coisas, mas no fundo surgia uma revolta involuntária por deixar se levar por algo que achava grandioso e ao final percebia que não era nada daquilo que imaginara. Pressentia o sentimento que lhe dava uma proteção contra algo que não atinava o que poderia ser. Ao fazer alguma coisa que fosse no passado não o faria, se enchia de orgulho, se congratulava pela ousadia. Quando conheceu João, se alimentou pelo sentimento forte a ponto de achar que enfrentaria qualquer perigo que fosse. No entanto ao ser confrontado ao desafio que lhe fora proposto, a fraqueza escondida se aflorou causando-lhe medo. Sentiu-se pequeno, frágil, tímido, envergonhado a ponto de imaginar que algo acontecesse e o desafio fosse cancelado. Porém nada aconteceu, tudo continuou normalmente. No seu pragmatismo absurdo, relutava em perdoar João por não ter avisado. Ele foi desleal em omitir o que sabia, retrucava. João, cansado em se justificar, estava quase pedindo perdão, mas como não era homem de pedir nada, não o fazia, com isso a dor da frustração queimava o peito. E ficaram os dois meios que distanciado um do outro. Até que um dia, Pedro, irmão de João, jogou em seu colo uma sacola com limão, um pacote de açúcar e uma garrafa de cachaça, dizendo:

            --- Aí está a tua prova. Vamos ver se é capaz de fazer uma gostosa caipirinha. Se aprovarmos você pode ser considerado da família.

            Beto não podia acreditar, então a maldita prova era fazer uma merda de caipirinha! Começou a rir se maldizendo. Pedro e João olhavam para ele espantados. Foi então que compreendeu. Não vou fazer porra nenhuma, não era amado e muito menos amava, por isso, levantou-se sem se preocupar com limão, açúcar e cachaça que caíram no assoalho limpo da sala e saiu batendo a porta. João entendeu e nunca mais se viram.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 14 de setembro de 2021

JABULANI

  

Por Carlos Savasini

       Osvaldo Pastorelli

 

Rola, que rola a bola

que toca, enrola e sufoca

fosca, de sola e pernada

na velocidade do tempo

os noventa minutos decidem

vidas e sortes milionárias

: do balcão desce redonda

a cerveja gelada

a festança da vitória

de noventa goles gulosos

noventa gomos de couro

noventa chutes a gol

vinte e duas cuecas de couro

vinte e dois marmanjos barbados

uma bola, um palhaço e dois bedéis

alimentando a mídia

de dólares e dólares e muitos reais.

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.729(2021)

             Eu sei que era você, mesmo com a imagem difusa sabia que era você, me dizia algo que não compreendia, sua voz chegava até a mim embaralhas, sussurradas, disforme, eu apreensivo te respondia, mas creio que minha voz não era suficientemente alta e não chegava até você, de repente me vi numa baía urinando e tinha um cavalo comigo, claro que o animal ao ver seu ambiente invadido por um outro animal tentou reagir, no entanto ao se virar para aplicar um formidável coice segurei sua pata no momento em que a ergueu e perdendo o equilíbrio caiu, nesse instante você falou alguma coisa, e me vi olhando o interior de uma casa pela janela e pensei vou ter que entrar por aqui e você estava sentado numa sala pequena, mas de cosas para  mim, e novamente você falou, chamou alguém, e assim precisei correr para o banheiro urinar caindo no sono novamente.

            É isso... ou, não é?

domingo, 12 de setembro de 2021

Pequenas histórias 246

 Pavão misterioso



Chove. Pronunciava a palavra pausadamente olhando pela janela. Chove. Não ousava sair. E porque deveria sair? Não queria passar vexame. Não conseguiu desenvolver o protetor. Todos tinham o seu. Ele não. Tinha que usar guarda-chuva, capa e galocha. E quando isso acontecia sentia-se envergonhado, observado pelas pessoas como um parasita. Era um marginalizado por causa disso. Desde que se conhecia como gente, nunca houve um dia sem chuva. Diziam os antepassados que houve épocas de sol, de verão onde as pessoas podiam quase andar nus. Se não fosse pelo protetor que foi desenvolvido a partir de uma combinação genética e a natureza, descoberta por um cientista, o que possibilitou todos se movimentar livremente, menos ele e, talvez, se não houvesse o protetor o planeta estaria hoje desabitado.

Do quarto andar, a massa humana locomovendo-se de um lado para o outro era insignificante, não pertencia àquela caterva ignorante, sem um propósito, a não ser, viver seus dias infindáveis. Enquanto eles viviam a eternidade absoluta, ele vivia o tempo passando na carne, nas veias intumescidas, nos movimentos envelhecidos. Sentia asco, horror, ódio por todos eles. Zumbis do progresso mesquinho e infinito.

Ninguém mais nascia. Não havia mais nascimento. Não havia mais grávidas. O protetor, por uma razão mal explicada, deixou as mulheres estéreis e os homens impotentes, por outro lado, deu a eles a fonte da juventude, não envelheciam, não morriam. O que ele via pela janela do quarto andar é o que seria daqui a mil anos. Não sabia se isso era bom para ele que, lentamente envelhecia, ou era ruim. Eles ainda não atinaram com o que acontecia. Ainda embebidos pela alegria do viver sempre na eternidade, não vislumbravam o futuro de monotonia absoluta. Se não há renovação não há enriquecimento de espécie alguma.

Logicamente que ele, observando a caterva lá embaixo na rua constantemente molhada pela água meio ácida, - já fora mais ácida, matava os despreparados – desejava ser igual. A anormalidade traz prejuízo moral e intelectual aprisionando-o a margem da vida. Estava cansado de ser escorraçado. Não podia nem sair para almoçar. Fizeram um sistema de entrega no qual não precisava ir ao restaurante, ou mesmo, a lanchonete. Tinha que ficar a mercê deles. Merda! Queria ser normal. Queria ser igual a eles.
Porque a combinação médica prescrita não dera resultado nele? Fizera tudo, segundo a recomendação médica e, nada resultara, a não ser, a penugem que nascia em suas costas.
Abriu a porta do guarda-roupa onde tinha um espelho grande. Ficou nu. Reparou que não era só nas costas que lhe nasciam penas. Elas nasciam pelo corpo todo. Mexeu os ombros. A asa toda branca mexeu movendo o ar do quarto. Estou virando um pássaro? Chegou ao parapeito da janela. Ficou de cócoras. Olhou para baixo. Tudo continuava na mesmice de sempre. Bateu as asas. Sentiu o corpo se elevar. Tomou coragem. Jogou-se no vazio. Começou a cair. Sacudiu os ombros. A asa num sobe desce o impulsionou para cima. Estava voando. Gritou:

- Sou um pássaro. Sou um pássaro.

E sem que ninguém percebesse o que estava acontecendo, ele sumiu no cinza pálida do céu. Atravessou uma grossa nuvem e deparou com um sol radiante. Gritou novamente:
- Sou um pássaro feliz.

sábado, 11 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.728(2021)

 

            Tá foda, meu. Não sabe como. Mas tudo bem, vamos que vamos. Vou te contar uma coisa, um sonho, sonhei com vocês, é com vocês. Não sei como começou, apenas sei que estava tirando foto de uma moça que estava trabalhando, sabe aquelas fotos onde o reflexo de uma outra cena se reflete no vidro por cima da imagem original, então era uma dessas fotos. Não sei se a moça tinha percebido ou não. Sei que no outro lado da rua as duas moças que se refletiam no vidro perceberam e começaram a rir. Eu preocupado, pois sabia que vocês estavam no restaurante me esperando, restaurante que também ficava no outro lado da rua. E ao chegar vocês não estavam na mesa, pensei, saíram para fumar, e reparei num bilhete que deixaram preso por um dos pratos, mas não consegui ler nada, estava escrito numa letra miúda, as palavras muito juntas uma dá outro, impossível de ler, foi então que reparei que não era um restaurante, parecia mais um supermercado do que restaurante, daí para frente não lembro mais nada, nem sei se acordei...

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Mais uma vez

                             

                            Mais uma vez o dia surge, mais uma vez.

Mais uma vez expõem seus mistérios.

E mais uma vez caminhamos aqui e acolá em preocupações sem fim.

É preciso ou não se preocupar em desvendar os mistérios?

A meu ver não é preciso tanta preocupação.

Tudo o que tem que chegar até nos chegará de uma maneira ou de outra, apenas não devemos antecipar os fatos.

A vida foi feita para se viver numa boa desfrutando tudo o que ela nos dá.

Só os loucos poetas paranoicos e esquizofrênicos é que tem a preocupação em desvendar os mistérios da vida.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.727(2021)

                       

            Domingo. O segundo domingo de agosto. Dia dos Pais. Domingo quieto. Um sol fraco, que aos poucos vai se infiltrando nas partículas da vida esquentando-a. Chuva de postagens expressando o que não conseguiram expressar em vida. Ninguém precisa saber o que você sente sobre alguém. O melhor presente é expressar o amor agora, no presente que no mesmo momento em que escrevo essas palavras já é passado. Sim, eu sei, a morte não existe, portanto se a morte não existe, isto quer dizer que os mortos não morreram, estão num plano superior vivendo suas vidas a espera de se reencarnarem, e, portanto, o que você expressar aqui eles saberão, nem sempre, pois podem ter se reencarnado e vivendo novas vidas e a cada vida que se vive é um passo a iluminação, portanto deixemos os “mortos” quietos vivendo suas reencarnações e suas “vidas”.

             É isso... ou, não é?

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

O grito.

 

Todos escutaram o grito. Repercutiu muito além do que se possa imaginar. Uma coisa que garantiram, é que não se ouviu uma palavra sequer. Nem uma letra. Não foi um grito qualquer, que se ouve nas ruas ou mesmo nas conduções, e muito menos, no metrô. Não nada disso. Ecoou por todos os lados da existência humana. Abalou a estrutura óssea, ao mesmo tempo, trincou os nervos num suspense de angústia e terror. A vida por milímetros de segundos ficou estagnada na fluidez do tempo. Olhos a procura de onde viera o grito, percorria cantos e recantos da vida aconchegada na futilidade de viver.

Uma coisa todos concordavam, e foi quase uma unanimidade. No grito houve pequenos surtos de letras, o que para alguns, definiram como palavras. Mas foram poucos. E também não sabiam direito que letras foram ou que palavras as letras formaram. O que não podiam negar é terem ouvido o grito, o que todos concordaram. A mulher, talvez privada de algo que a deixava com a face oculta pela solidão, ariscou um palpite, o grito não fora de terror, o que todos aprovaram. Vendo que podia dar palpite, o homem ao lado, eles não eram casados, nem namorados, estavam ali por coincidência, ouviram e pararam como muitos também pararam, acha que o grito foi de quem tinha ganhado na sena, mega sena ou sei lá. O menino entre os dois, disse que poderia ser uma criança que por algo que fizera e que os pais o repreendera. A menina parecida com ele concordava e disse: acho que a criança estava satisfeita com a vida e essa foi a maneira de se manifestar.

Enfim, por mais que se perguntasse nada sabiam. Quem é que sabe da vida dos outros se não sabemos nem a nossa, falou o senhor que lentamente se afastou. Assim, um a um foram se afastando do local. Quando não havia mais ninguém, o silêncio voltou a reinar e novamente a engrenagem voltou ao normal, tanto é que segundos depois, ninguém mais se lembrava do grito.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.726(2021)

                      

            A casa é uma geladeira. Ontem estava com a camisa do pijama e mais três blusas de lã, meias, calça de moletom e tremia mais que bandido em meio ao tiroteio da polícia, apesar que hoje é a polícia que tem medo de bandido, não é? Então, portanto o frio era, que dizer era não, é tanto que meus dedos ficam roxos dormentes na parte da manhã. E se mexo com água então, nem vou te contar, congelam. Quando vou sair não sei se saio com uma ou duas blusas, pois a temperatura dentro de casa é pior doque fora, então penso que está tremendamente frio e não está, entende? Caralho, como tenho bronca de frio e devemos agradecer a tudo que nos acontece, não é. Então vamos agradecer: sou grato pelo frio, gratidão por estar sentindo frio... e por falar nisso, quem está sofrendo com essa merda de frio são minhas plantas coitadas, por causa do frio não tenho regado, estão sem ver água a mais de vinte dias. Com esse frio nada de aguá-las. É, mas você lava louça, não lava? Sim, lavo e tenho que lavar, o que acontece que lavar louça só molho as mãos e regar as plantas molho os pés, mãos é uma aguaceira que você nem imagina. Tá certo...

            É isso... ou, não é?

domingo, 5 de setembro de 2021

O piano

Lentamente o piano avança nos acordes envolvendo os cantos com a sonoridade de piano e, essa melodiosa sonoridade interrompe o vazio silencioso, preenchendo-o por todos os lados. Os martelos martelam as cordas revelando o tema principal que, percorre toda a solidão da casa trazendo aos móveis o trepidar da música. Em cada enfeite, bibelô, caneta, boneca e outros cacarecos, o tema principal se desenvolve por todos os lados, como se carregasse a fluidez no medo e, no entanto, todos permanecem no lugar em que foram depositados esquecendo-se seu estado de imobilidade.

Não tenho piano, a casa é pequena, o que não é motivo para não gostar de piano, por isso, assim que a orquestra inicia seu andamento aceitando o convite do piano, juntos se elevam e flutuam ganhando o espaço do quintal úmido e frio por causa da chuva.

 Ajeito as características como era antigamente e, parece que o resultado está sendo positivo. Meio que lento, meio que sonolento, mas esta saindo e, creio que não mais aos tropeços e trambolhões onde uma letra puxa outra, onde a palavra era pescada no fundo de não sei onde e vinha toda enregelada de angústia sem saber se seria usada ou não. Agora, assim que a palavra é pescada, ela já sabe que será usada e não jogada no lixo informático.

Rasgo as linhas que formam as palavras e destrinchou-as no cardápio da leitura onde cada um refaz tirando suas conclusões.

sábado, 4 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.725(2021)

                       

            Esboço.

 

            ...não havia maneira de impedir o barco. E a correnteza o levaria corredeira abaixo. Beto no seu conformismo relutava em perdoar João. Fora desleal em omitir a prova. João retrucava, tentava se justificar seu procedimento, não era Beto que estava sendo posto a prova, era ele, João que era intimado a demonstrar se tinha amor ao não a família. Beto não conseguia entender, o que irritava João, afinal dois orgulhosos não se afinam.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

O que escrever

 

 enquanto a manhã avança com suas garras de chumbo prendendo meu pé a este solo. O que escrever se o escrever é a própria vontade em escrever e, que por um mistério, limita meus dedos a essas poucas palavras que não dizem nada. E o nada atola tudo ao mesmo tempo em que vivencia objetos largados aqui e acolá. O que escrever nesse primeiro dia do resto da minha vida em que pisarei outro caminho. O que escrever quando penso que a estas horas estaria em outro lugar e não aqui procurando palavras para escrever. O que escrever quando sou interrompido pelo miado da gata faminta e sedenta de água. Será que o animal tem suas preocupações ou apenas vive a vida por viver obedecendo a seus instintos. Talvez me tornando um felino, seja ele qual for, terei vida melhor? Não sei e nem quero saber, pois o mistério da vida é não saber o que é sabido nas entrelinhas dos meus passos.

Assim escrevo palavras mudas carregadas de sons orquestradas pela natureza de ser vivo entre tantos outros vivos seres.


quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.724(2021

                      

            Esboço.

 

            Beto se conhecia a ponto de saber o que era e o que não era capaz de fazer. Criava uma revolta involuntária por deixar-se levar por qualquer coisa. Por outro lado, persistia o sentimento que lhe dava uma espécie de proteção contra algo que não sabia o que poderia ser. As vezes ao fazer alguma coisa que se fosse no passado não teria a coragem de fazer. Nessas ocasiões estufava o peito orgulhosamente. Se congratulava pela ousadia. Quando conheceu João, se alimentou com o sentimento de força, uma força de que poderia enfrentar qualquer perigo. E ao ser confrontado ao desafio que lhe propuseram, verificou a fraqueza escondida, e foi que se viu pequeno a ponto de imaginar situações que o impedisse, que anulasse o que lhe fora proposto. Milagres não existem, sabia disse, portanto nada aconteceria, tudo continuaria como sempre foi, não havia maneira de impedir o barco.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Outros dizeres - 01.

 

Relutei no gosto suave doce de sal do teu corpo que viciado não quero mais largar.

Recebi o vicio como uma benção profana.

E como benção em doses paliativas sorvo com gosto a paixão que me domina.

Paixão que me devora na lentidão das horas feito ritual religioso.

Ritual que, logo iniciado, perde a religiosidade nos descaminhos dos gestos.

Gestos que na superficialidade pode se confundir com a erotização do amor pelo amor.

Em sua textura o amor verdadeiro nunca se erotiza eleva-se ao pulsar erótico que ele enfatiza.

E nesse enfatizar constrói o alicerce da saudade na distância onde trago o gosto do sal do teu corpo.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...