A chuva.
1
Não parava. Dias que o tempo estava ruim. Silvia Bruno
sorriu ao fechar a sombrinha. Entrou na loja. Dava-lhe satisfação ao ouvir a
campainha como nos filmes antigos. Era a única loja desse tipo. Às vezes entrava
só para ouvir a campainha. Só que hoje o
motivo era o aniversário de Nelsinho. Decidira comprar um presente para ele. A
gaveta estava cheia de camisa. E de cueca também. Isqueiro não servia mais,
Nelsinho tinha parado de fumar. Ainda bem. Calça ele próprio gostava de
comprar. Silvia Bruno tinha uma teoria: variar os presentes. Não como a maioria
que dava sempre as mesmas coisas. Não tinha preguiça de procurar, pesquisar,
ver o que a pessoa gostaria de receber. Nelsinho todos os anos ao abrir o pacote,
dizia:
- Você vive me surpreendendo.
E esse ano Silvia queria mais uma vez surpreender.
Por coincidência era um dia chuvoso, como hoje quando
descobriu a loja. Estava andando sem destino, virava a direita numa esquina
qualquer, caminhava dois ou três quarteirões, virava para a esquerda noutra
avenida... Numa dessas viradas que, ao fundo da rua, viu a pequena loja.
Encantada chegou a se emocionar com a vitrine. E mais surpresa ficou ao abrir a
porta. A campainha soou anunciando sua entrada. Foi como se o tempo voltasse,
em outra época, sentiu-se outra pessoa, vivendo outro lugar. Olhou em volta, o
silêncio imperava nos recantos de cada objeto.
- Pois não, o que deseja senhorita?
Silvia Bruno se sobressaltou ao ver ao seu lado um
senhor magro, alto, macilento, nariz aquilino, com óculos de lentes grossas e voz
anasalada.
- Bem, não sei...
- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque
sabe o que comprar.
- Está bem, quando souber eu volto.
- A senhorita é quem sabe.
Assim eram todas às vezes. O dialogo não variava. Dava
a impressão que o dono a esperava. Sabia o dia e hora. Ela entrava, ficava observando
um móvel, ou um relógio com figuras barrocas, outras uma escrivaninha com
madeira escura, imaginando por onde aqueles objetos tinham passado ou quem
poderia ser o dono, a história de cada um, como seria? Parecia que o dono
marcava o tempo em que ela poderia ficar na loja. Não passava, talvez, de cinco
minutos, sem que pudesse imaginar de onde, ele surgia ora a sua frente, ora
atrás dela assustando-a.
- Pois não, o que deseja senhorita?
- Não sei, passei...
- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque
sabe o que comprar.
- Está bem, quando souber eu volto.
- A senhorita é quem sabe.
Assim foi por muito tempo, mas hoje seria diferente,
disse ao fechar a sombrinha regozijando com o som da campainha.
- Pois não, o que deseja senhorita?
- Estou procurando algo para o meu namorado.
- Ah! Hoje a senhorita sabe o que quer.
- Sim, claro.
- E o que é? - disse lançando um olhar a volta.
- Bem, vejo que o senhor não...
- Se está esperando ver alguma cadeira de espaldar
alto* sinto dizer-lhe que aqui não vai encontrar.
- Leu meu pensamento?
- Não Senhorita. Conheço a história e hoje duas
pessoas destrambelhadas vieram perguntar por ela.
- Vejo que o senhor não gostou do livro.
- Não li Senhorita. Soube pelos jornais.
- Entendo.
- A Senhorita veio conversar ou comprar algo para o
seu namorado?
- Ah! Desculpe.
- Não gosto de perder tempo com conversas, Senhorita.
Silvia Bruno dirigiu-se ao fundo da loja. Pegou uma
caixa marrom tendo um orifício em cima e um botão ao lado.
- Vou levar essa máquina fotográfica.
- Câmara fotográfica, Senhorita.
- Isso mesmo...
- Vai prender a alma das pessoas, Senhorita?
- O senhor acredita?
- Tudo é possível, Senhorita. Esse precioso objeto tem
má fama, o último dono devolveu por achar que estava enlouquecendo, Senhorita.
- Como pode um inocente objeto enlouquecer alguém?
- Não sei apenas vendo a quem interessa possuir o que
não tem Senhorita.
- E o que eu não tenho?
- Talvez a verdade, Senhorita.
- Bobagem, meu Senhor.
- Assim espero que seja, Senhorita.
Silvia Bruno ao sair da loja, abriu a sombrinha e, ao
dobrar a esquina já não lembrava mais da conversa, nem do dono e nem da loja.
2
Silvia Bruno pelo o que podia lembrar, não tinha
certeza se a festa fora um sucesso ou não. Nelsinho ao abrir o presente mais
uma vez dissera:
- Você me surpreende mulher.
Só que aquele “me surpreende” não teve o mesmo impacto
dos outros anos. Deu a impressão que Nelsinho se cansava dos seus presentes
surpresa. Não disse, mas para ela a noção que tinha era que ele estava querendo
voltar aos presentes normais, os corriqueiros. Nelsinho não expressou em
palavras, mas seus olhos verdes manchados de castanhos, conforme os sentimentos
o afligiam, diziam muito mais. Silvia Bruno aquietou-se dentro dela. Continuou
agindo normalmente. Mesmo sabendo que a câmara fotográfica seria mais um
enfeite na estante da sala, Nelsinho colocou-a a frente do peito, satirizando como
se batia uma foto antigamente, apertou o botão ao lado. Por uns instantes a
cena congelou. Por milésimos de segundos o ambiente deu um close de cento e
oitenta graus revelando toda a verdade da sala e quem estava nela. E o que viu
deixou-a constrangida, talvez até magoada. Assim que o giro se completou, só
pensava ir para um lugar onde não pudesse ver aquelas pessoas.
Sentada no canto da sala, com o copo de uísque,
brincando numa atitude desafiadora com os cubos de gelo, notou toda a
hipocrisia em cada gota da bebida. Ouviu no silêncio dos nervos o rancor e
inveja de todas as mulheres dirigidas a ela sem o saber o porquê. Nelsinho agia
diferente, não era mais o mesmo, lançava em sua direção a arrogância narcisista
prevalecendo o seu lado machista de conquistador. Por que não percebeu antes?
Será que o vendedor tinha razão?
- Não sei apenas vendo a quem interessa possuir o que
não tem Senhorita.
E o que ela não tinha? A verdade, a verdade de todos
dançando no ritmo erótico dos corpos suados de uísque e cerveja. Um nojo
repulsivo invadiu seu corpo, pele e nervos. De quem era a culpa? Olhou para o
presente esquecido em cima da mesa. O vendedor tinha razão? A máquina
fotográfica...
- A câmera fotográfica, Senhorita.
A câmera fotográfica que seja, revelava a foto do
íntimo das pessoas, capturava num flash abstrato a verdade escondida por
mascaras das mais variadas formas. E se ela apontasse para alguém? Quem
escolheria? Não, as amigas não me interessam, disse pensativa pegando a câmara
de cima da mesa. Apontou para Nelsinho que dançava com uma das suas amigas. No
mesmo instante, a cena se congelou num giro de cento e oitenta graus. Assim que
o giro completou a trajetória, Silvia Bruno entendeu que ela não era a pessoa
que pensava ser e, por outro lado, viu que Nelsinho trazia dentro dele a
obscura perversa realidade revelada naquele momento aos seus olhos. E então
percebeu. Eram dois desconhecidos. Daquele dia em diante, passaram cada um a
viver o seu mundo fútil e egoísta.
3
Dois anos mais tarde, andando distraída, virou à
esquerda e dois quarteirões depois, virou a direita, topou com a pequena loja
no fundo da rua. Fechou a sobrinha e entrou ouvindo a campainha anunciar sua
presença. Sem saber de onde surgiu se sobressaltou com o vendedor:
- Pois não, o que deseja senhorita?
- Bem, não sei...
- Se não sabe por que entrou? Quem entra aqui é porque
sabe o que comprar.
- Está bem, quando souber eu volto.
- A senhorita é quem sabe.