terça-feira, 30 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.452(2020)


A vó e os netos.

A criançada correndo, entram na cozinha em alvoroço.
— Vó, Vó.
— O que foi?
— Engoli um carroço de laranja.
— Ih agora vai nascer um pé de laranja na sua barriga.
Os primos começam a caçoar dele numa só voz.
— Vai nascer um pé de laranja na barriga dele.
— Vai nada, diz ele com raiva.
Virando-se para a Avó diz numa voz chorosa:
— Vó eles estão caçoando de mim.
— Revide, ora bolas, não deixe.
Eles saem da cozinha na maior gritaria fugindo do primo que quer pegar eles. Como sendo o mais fraco de todos, não conseguindo o seu intento, toma de uma pedra e arremessa em direção a eles sem apontar em um especificamente. A pedra vence a distância que os separa e a esmo acerta a testa de um que entra na cozinha chorando.
— Vó, ele atirou a pedra em mim e me acertou.
— Bem feito, quem mandou caçoar dele.
— Está sangrando, vó?
— Está nada, quando casa sara.
Virando-se para o infrator lança sua voz de bronca feroz:
— Bobo.
— Bobo é ...
— Que isso menino, nada de xingar um ao outro. Venham aqui, os dois.
Os briguentos se aproximam da vó.
— Vamos, pedem desculpas um ao outro, vamos.
— Mas, vó foi ele que começou.
— Não fui eu nada, foi ele.
— Parem, berra a vó alterando a voz. Não me interessa quem começou com a briga. Pedem desculpas um ao outro.
Cabeça meio baixa sem olhar um para outro, dizem:
— Desculpe, dizem.
— Muito bem, agora se abracem.
— Mas vó...
— Nada de vó, vamos se abracem, que isso, onde já se viu primos brigarem.
E a contra gosto, os dois meninos se abraçam meios desajeitados. E o que levou a pedrada diz no ouvido do primo infrator:
— Bobo.
O infrator aproveitando a proximidade dá uma tremenda mordida na orelha do primo e sai correndo.
— Vó ele me mordeu, grita e sai correndo atrás do primo.
Depois de muita correria, ele alcança o primo e o joga no chão rolando os dois tentando com golpes fazer com que um ou outro fique preso e com isso, peça arrego.
— Pede água.
— Não peço.
E a luta continua, um tentando deixar o outro preso no chão até pedir água. E por fim, cansados, um se entrega, e os dois rolam um ao lado do outro.
— Bobo.
— Idiota.
Dali a pouco ouvem uma voz gritar:
— Vamos brincar de queimada.
Um olha para o outro e dizem ao mesmo tempo.
— Vamos.
Se levantam correndo em direção do primo que os chamou.
Esse trecho da minha infância surgiu na minha cabeça ao chupar a laranja e o caroço escorregar para a pia e ir direto para o ralo.
— Ih agora vai nascer um pé de laranja na barriga da pia.
Ao que ela me diz com cara zangada.
— Besta, pia não tem barriga.
— Falando sozinho, diz meu eu.
— Não com a pia.
— Pirou de vez.
— Você não a viu falando comigo.
— Escuta, acaba com isso logo e vamos desenhar que hoje não desenhamos ainda.
— Ok, já vamos, está bem.
E assim, acabo de chupar a laranja, lavo as mãos, jogo um beijo para a pia que me sorri.
— Bobo, ouço ela me dizer.
E vou para a sala desenhar um pouco.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Contos surrealistas 137


Eu hein!

Everaldo era um senhor de seus cinquenta ou sessenta anos que, apesar de casado, pai de duas filhas, tinha trejeitos afeminados que deixavam dúvidas na cabeça dos maldosos. Gerente do departamento vivia de papo com as meninas trocando receitas, contando causos e, sempre que chegava do almoço, distribuía bala para o pessoal.
Nessa época eu trabalhava no arquivo que, apesar de toda a tecnologia, ainda tinha papel que não acabava mais. Teodoro era um rapaz baixo, com o corpo meio sarado, com o olhar profundo e irritado, por qualquer coisa se irritava, homófico, tinha raiva de gay. Vindo da expedição almejando cargo e salário melhor, eu o ajudava no arquivo.
Nossa mesa ficava logo na entrada da seção, portanto, quando Everaldo vinha do almoço éramos o primeiro a quem ele dava a bala. Era infalível, raramente essa rotina mudava. E um dia falei:
- Reparou uma coisa, Teo.
- O que?
- Nessas balas que todos os dias o Everaldo traz pra gente.
- O que têm elas?
- Viu onde elas ficam?
- Sim. No bolso da calça.
- Então...
- Então o que?
- Ficam batendo na coxa quase perto do saco dele, já imaginou?
A partir desse dia Teodoro não pegou mais bala nenhuma de Everaldo.
Eu hein!

domingo, 28 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.451(2020)


Bom dia. Mais um dia que agradeço por estar aqui pincelando estas palavras na iminência de serem lidas no futuro, se assim o forem.
Domingo, final de mês, sol a pino esquentando as dobras da vida, alardeando o vai e vem de vozes e andanças dos vivos. Mais um dia de confinamento em que as coisas no lento decorrer, algumas, são deixadas para mais tarde, ou para amanhã, ou para outro dia e quando vemos, procrastinamos os atos necessários sem ter noção no atulharmos de saudades. Noventa dias ou mais até, entre paredes pulsantes nos seus concretismos em que a vista cansada não sabe onde pousar o olhar. Se faz de tudo para enredar o tempo, para que não fiquemos a sua mercê na palidez de conviver consigo mesmo.
Domingo, final de mês, entrando nas festas juninas que esse ano não serão realizadas e se forem, será cada um na sua casa nos folguedos de São João saboreando pés de moleque, pipoca, quentão, vinho quente e outros comestíveis preparados para ocasião. Somos marionetes dos desejos e vontades a nos comandar sem ao menos questionarmos se os desejamos ou não. Com isso a felicidade se enrodilha nas vírgulas da paixão admoestando a carne refreada em sua moralidade disfarçada de risos.
Domingo, assim se corre ao seu final cumprindo mais um dia de esperança em acabar o confinamento para que todos voltem a normalidade sem correr perigo.
É isso...

sábado, 27 de junho de 2020

Contos surrealistas 138


Pequenos ricos.

O disco rodava na vitrola. Vozes percorriam os copos e os corpos deliciavam-se na música exótica onde cada um se postava a sua maneira. Rodolfo com o copo na mão interrogava o corpo de Marta entretida com o falar de Marcio que, por sua vez, dirigia a palavra para Tânia e, esta observava Roberto dublando a voz de Elis Regina.
Foi então que João disse olhando para Maria:
- Pessoal que tal fazermos um joguinho?
Roberto parou de cantar bem na hora que dizia: “é pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto...”, e interessado se aproximou de João. Tânia deixou Marcio falando sozinho que, por sua vez, desenxabido acompanhou a amiga. Marta não querendo ficar de lado postou-se ao lado dos dois. Rodolfo ao ouvir a proposta de um joguinho bebeu rapidamente o uísque para não perder as explicações que João naquele momento começava a explanar.
- Não vamos jogar valendo dinheiro e, sim, valendo nossas roupas, isto é, com fichas. Cada ficha corresponde a uma peça de roupa, entende. Ficha um: camisa. Ficha dois: calça. Ficha três: cueca/calcinha. Ficha cinco: sapato. Ficha seis: meias. Ficha sete: sutiã. Aquele que ficar com o maior número de fichas será o perdedor. Entendido? Por exemplo, se as fichas forem calça, cueca e camisa, ele terá que tirar essas peças de roupa. Entendido? O ganhador será o que tiver menor número de fichas ou não tiver nenhuma. Certo?
Tudo combinado distribuíram as cartas. Rodolfo sentou ao lado de Marta e Marta ao lado de Marcio, depois Tânia, seguido de Roberto e por fim, João. Na primeira rodada, Rodolfo descartou três fichas, Marta duas, Marcio nenhuma, Tânia quatro, Roberto todas e João uma só. Na segunda rodada Marta ficou só de calcinha, Marcio de cueca e camisa, Tânia de sutiã e blusa, Roberto só de cueca e João ainda não tinha tirada nenhuma peça de roupa.
Nisso ouviu-se uma voz falando alto da porta:
- Mas o que é isso!
Foi um reboliço. Os mais rápidos, pegaram as roupas e se trancaram no banheiro. Os mais lentos tentavam se vestir meios atrapalhados. João tentou explicar:
- Espera mãe, eu explico.
- Não tem nada o que explicar.
Pegou o filho pela orelha, deu umas palmadas e arrastou para dentro.
- Venham ver o que essas crianças aprontaram.
- O que é isso, Marta? Não tem vergonha.
- Mãe, estávamos brincando de cassino.
- É! Imaginávamos que éramos ricos... – gaguejou Marcio.
- Que rico, que nada, seus pilantras. – retrucou a mãe de Marcio.
Assim, a pequena reunião de jovens ricos passando as férias num cassino qualquer, foi desfeita por mães furiosas e envergonhadas.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.450(2020)


            Bom dia. Mais uma vez agradeço por estar aqui teclando estas palavras as quais ontem, não sei porque, ao pressionar duas teclas que não me lembro quais, o programa fechou e as perdi, portanto hoje tomei umas precauções que no caso disso acontecer de novo não perco todo o conteúdo desta e muito menos as ideias que me fazem escrever.
            Assim sendo, continuemos com o desencadear das ideias imprimindo-as em palavras para que alguém venha a ler, o que espero, e o que me parece não acontece com a frequência desejada, mas vamos que vamos, não é.
            O sábado, se hoje for sábado, pois aposentado todos os dias para ele é sábado ou feriado, ele perde a noção do tempo precisando assim, olhar o calendário, no caso o celular. E hoje, sábado, o dia amanheceu claro com um frio ameno, isso dentro de casa, lá fora a temperatura está quente, o sol esparramando seus raios nas dobraduras da vida e nos tijolos dos sentimentos.
Manhã de algazarra infantil na alegria em descobrir a vida, suas andanças de crianças sem se importar com o amanhã. Assim com fé e alegria sejam elas glorificadas pela chama da felicidade eterna ou apenas na criancice que há nelas. Amém.
            O som da vida se propaga no ruído de vozes, no grito do vendedor de ovos, no ronco do motor de carro, na música de algum rádio, que aos poucos vão se soltando desse confinamento que parece meio que absurdo no entanto necessário se quisermos viver mais alguns anos.
            Em tudo há a estranheza no cuidado dos saudáveis e dos idosos em não ficar doentes e, parece que são eles que estão doentes e, assim confinados, para que não passem a doença adiante.
            É isso...

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Contos surrealistas 139


Espelho meu


- Espelho, espelho meu, vá pra puta que pariu. Hoje vou botar pra quebrar.
- Vossa majestade não vai olhar o que tem atrás do espelho?
- Pra que? Só tem poeira e nada mais.
- Concordo Majestade.
- Então vou me esbaldar...
- Permite um conselho?
- Claro, meu serviçal.
- Tome cuidado com os sete anões.
- Pode deixar, vou cuidar bem deles.
E assim ela foi sem se preocupar com o destino.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.449(2020)


                        As seis regras do O milagre da manhã.


            Bom dia, mais um dia de agradecimento por estar aqui escrevendo essas palavras. Frio, manhã fria devido o sol que foge dessa casa e como resposta ao sol ela se torna mais fria ainda padecendo quem nela vive. Nesse caso eu. Porém, ah! Porém, vamos no encalço de algo que sempre procuramos nos enrodilhados dos sentimentos dando vazão aos atos. O dia parece movimentado, vozes se proliferam no corredor da vila, ao longe um rádio toca alguma música qualquer e eu no silêncio ferrenho de não ligar o som. A imaginação voa sem precisar buscar no recôncavo da mente palavras para serem ditas ou, serem escritas, nesta branca tela onde o cursor pisca à espera de pressionar as teclas caracteres que alguém futuramente irá ler. Assim espero e, assim esperando surgem dúvidas, ansiedades, preocupações mesquinhas de quem não tem nada com que se preocupar, o que é difícil, a maldita mente não obedece aos comandos do inconsciente. É preciso ter cuidados ao pensar para não pensar negativamente e atrair negativos que atrapalharam todo desenvolvimento que se queira. Não deixar o ego falar mais alto, te dominar, comandar seus desejos mesquinhos, traiçoeiros e por aí afora. Pensar positivamente em coisas que lhe trarão paz, conforto, equilíbrio sem ter foco nas recompensas que essa atitude possa lhe trazer. Viver dia após dia um após o outro no acolhimento da paz e proporcionar paz a quem dela necessitar.
            É isso...

terça-feira, 23 de junho de 2020

Contos surrealistas 140


O Outro ou Eu Outro?

Nunca imaginei que um dia estaria em frente a uma agência imobiliária lendo anúncios de casas para alugar. Isso é culpa do Outro que, sem que eu percebesse, se instalou em casa. Maldito Outro, não maldito não, maldito eu que o deixei, que não percebi suas tramoias e artimanhas. Agora estou aqui lendo essas indecências de anúncios um mais ridículo que outro. Como isso é maçante! Como isso é possível!
Tudo começou quando ele se apresentou dizendo ser amigo da família, que trabalhava com minha esposa e et cetera e tal. A princípio, meio que timidamente, conversou por uns quinze minutos e foi embora. Quinze dias depois, apareceu com um papo enviesado dizendo-se envolvido com drogas, que precisava de ajuda e outros blás blás. Não sei se Adélia emotivamente foi envolvida pela falácia conquistadora ou acreditou mesmo. Eu não estava nem aí se ele tinha se envolvido com drogas ou não, sabe como é, acabei cedendo e, sugestionado por algo que até hoje não descobri o que foi, acatei a opinião de Adélia. E assim, o dito cujo, foi se instalando de uma maneira que não percebi. Quando me dei conta, olha eu aqui em frente à imobiliária lendo anúncios de casa para alugar.
A história toda virou um novelo onde não se encontrava mais a ponta para desenrolar. Uma vez por semana estava ele choramingando suas dores e azares. Seus problemas passaram a serem nossos problemas. Até que um dia Adélia sugeriu que passasse a morar com a gente. Com certa relutância fingida num protesto fraco ele aceitou e, mesmo sendo veemente contra fui voto vencido. Dessa maneira, passou a ocupar o sofá e dali para a cama foi um pulo. Na altura do campeonato a integridade, a moral, ou mesmo o respeito estava sendo jogado para debaixo da cama, pois o que valia o que mandava era o desejo saciado todas as noites. Não estávamos nem aí, pouco nos importava a sociedade e a moral e os bons costumes, até porque não é crime saciar nossos desejos, é? Acho que não...
Estava tudo correndo bem, era o que eu pensava, até que um dia, ou foi uma noite, não sei, só sei que literalmente cai da cama. Sentado no ladrilho frio do quarto, enregelando a carne nua cruzamos os olhares e, então compreendi, eu não tinha mais lugar naquela cama. A partir daquele dia, ou foi noite, passei a dormir no sofá e, do sofá para a rua, foi um pulo.
E aqui estou lendo essas merdas de anúncios mal redigidos. Como é maçante tudo isso! Foi então, que virando a cabeça para ver o que estava acontecendo ao ouvir uma freada, estarrecido percebi a metamorfose e me perguntei: afinal eu sou Eu ou Eu sou o Outro? Quem está lá com Adélia é o Outro Eu ou é Eu Outro? De repente nada mais fez sentido, estar aqui como estar lá, procurar ou não procurar, não sei mais quem sou...

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.448(2020)


                        As seis regras do O milagre da manhã.


            Bom dia. Mais uma manhã embarcando no O milagre da manhã. E essa manhã foi bem manhã mesmo, pois as quatro e trinta estava eu rolando na cama sem conseguir dormir. Vira para cá, vira para lá até que resolvi levantar e fiz rapidamente, não tão rápido como possam imaginar, e sim, com uma decisão consciente que não deveria mais permanecer na cama. E dito e feito, me vesti mudando um pouco a ordem das coisa, pois, nos outros dias tinha o costume me levantar e ir direto ao banheiro, dar uma mijada, escovar os dentes, lavar o rosto, tomar um copo de água e, aí assim me trocar, e como hoje está a manhã mais fria de todas as manhãs vesti a camisa, duas blusas de lã e um jaqueta, depois a calça jeans e as meias para depois ir ao banheiro para a mijada matinal e escovar os dentes e lavar o rosto.
            E assim, logo após esses movimentos resolvi tomar um café gostoso com torradas. E aqui estou nos exercícios de O milagre da manhã, e, posso afirmar que, o que  antes não fazia de manhã passei a fazer agora, isto é, meditação, exercícios físicos, pequenos claro, mas não deixa de serem exercícios, ler, e o que é mais surpreendente é o escrever. Como antes o meu “eu” interior brigava comigo para escrever, dar continuidade ao diário do sentir e eu protelava, e tendo proposto a ideia de pegar o metrô e ir de ponta a ponta para escrever como fazia quando trabalhava e escrevia no ônibus, estou fazendo agora, escrevendo sem precisar pegar o metrô, como podem ver por este texto. É isso que devo fazer com o conto parado um determinado ponto, escrever alucinadamente sem me preocupar com o que vou dizer para depois reler consertando o que deve ser consertado e o que deve ser tirado e deixado.   
            É isso...

         

domingo, 21 de junho de 2020

Contos surrealistas 141


Finados

Abriu o livro.
Leu umas duas
Ou três linhas
Virou umas
Quatro páginas
Fechou o livro
Andou pela casa
Da cozinha
Para sala
Da sala para o quarto
Deitou na cama
Fechou os olhos
E suavemente morreu

Na porta estava escrito:
Aqui jaz um bom poema

sábado, 20 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.447(2020)


                        As seis regras do O milagre da manhã.


                        Bom dia. Mais uma manhã de O milagre da manhã. Hoje o silencio que é a primeira regra, porque assim eu desejo, foi até que bom, permaneci mais imóvel, senti me mais leve, isto é, fui me soltando, deixando a carne pesar nos ossos e penetrei nos sons da manhã que me vinham de longe. Talvez com isso consiga meditar como se deve.
                        Ontem o frio estava intenso e, como não reguei as plantas no domingo como sempre estou acostumado a fazer, devido ao frio, deixei para a segunda que, também não estava muito quente, mas suportável. E ao regar as plantas a área fica totalmente molhada e então aproveito para dar uma enxaguada, com isso tiro a poeira que o vento trás para dentro dela. Frio, água fria, de chinelo, adivinha o que aconteceu. Fiquei com frio além da conta, e com isso os dedos da mão, principalmente a da direita por segurar a mangueira congelou de tal maneira que não sentia mais os dedos. Ficaram amarelos e tive a infelicidade de postar uma foto no Facebook e no Instagram então, imagina a preocupação do pessoal. Foi mensagens atrás de mensagens querendo saber o do porquê de o dedo ter ficado dessa maneira, e várias recomendações para consultar o médico. Cansei de responder contando o do porquê e para que sossegassem não era nada demais.
                        É isso, mais uma manhã cumprida o que agradeço ao universo e a todos que se preocupam comigo. A vida é boa, a gente que não tem certa evolução física e mental para lidar com ela.
                        É isso...

                

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Contos surrealistas 142


Um conto apenas.

Branca fechou a porta. Com a atenção voltada ao que fazia, mexia a clara para fazer a neve do bolo, não percebeu que o relógio dava as badaladas das sete horas. Enxugou as mãos no avental.
- Mais uma vez estão atrasados. Aposto que pararam na taverna.
 Quando o príncipe e os sete anões chegaram à mesa estava ricamente arrumada.
- Meu querido príncipe e meus queridos anões, comam a vontade, preparei um bolo estupendo de sobremesa.
Assim que terminaram, Branca trouxe o bolo coberto de neve e deu um pedaço para cada um. Cinco minutos depois, o príncipe e os sete anões dormiam profundamente.
- Então, deu certo? – perguntou a Madrasta descendo as escadas.
- Diabolicamente certo. – respondeu Branca.
- Então vamos para a taverna que ninguém é de ferro.
E saíram as duas de braços dados, alegres e felizes.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.443(2020)


                                                               Intimação.

                                    Fui intimado. Chegou hoje de manhã. Eram mais ou menos umas oito horas e quarenta minutos. Bateram no portão.
                                    — Pois não? — perguntei apreensivo.
                                    — Por favor, seu nome.
                                    — Osvaldo, por quê?
                                    — O senhor está intimado a morrer.
                                    — O que?
                                    — É isso mesmo, a morrer.
                                    — Mas por quê?
                                    — O senhor tem que parar de ouvir música pelo menos na parte da manhã.
                                    — Aí você está querendo que eu morra mesmo.
                                    — Infelizmente é isso, trabalho de noite e as vezes de manhã e preciso dormir. Até que o som não é alto, mas como a parede da sua sala faz divisa com o meu quarto...
                                    — Entendo. Pode deixar. Ouvirei depois do meio dia.
                                    — Obrigada.
                                    Entrei em casa pensando:
                                    — Bom, então não poderei ouvir música na parte da manhã, portanto, aproveito para ler, escrever e... morrer, não terei meu alimento na parte da manhã. Que fazer, né.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Contos surrealistas 143


Onde está você...?

Com o micro ligado, olhando para a telinha, os dedos em cima do teclado preto, matutava.
Matutava... Matutava... Matutava...
Em busca de inspiração iniciou o jogo da FORCA e, de repente, não mais que de repente, estava enforcado no emaranhado de palavras.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.442(2020)


                                                               Coisas da quarentena.

                                    Liguei para o mercadinho do bairro.
                                    — Alô.
                                    — De onde fala?
                                    — Do mercadinho.
                                    — Vocês fazem entrega?
                                    — Sim.
                                    — Legal.
                                    — Mas só entregamos para pessoas que estão no grupo de risco.
                                    — Sei, estou no grupo de risco.
                                    — Com essa voz?
                                    — Sim. O que tem a minha voz?
                                    — Voz de jovem, parece voz de quem tem 25 anos.
                                    — Quisera ter os meus 25 anos. Tenho 73 anos.
                                    — Não acredito.
                                    — Então vai me atender?
                                    — Até posso te atender, mas se estiver me enganando...
                                    — Vamos fazer o seguinte: se eu estiver te enganando, pago em dobro, se eu não estiver te enganando não te pago nada. O que acha?
                                    — Deixa prá lá. Vou entregar, fique sossegado, mas sua voz...
                                    É coisas da quarentena, né.

domingo, 14 de junho de 2020

Contos surrealistas 144


Rodézio

Rodézio encostado numa pedra, com um chapéu de aba larga para se proteger do sol, lia em voz alta:
- O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.
Um pouco mais adiante, um grupo de ovelhas pastava no sossego da manhã onde o sol acariciava o dia numa premonição de paz e calmaria.
Nisso, Rodézio ouviu uma voz chamando-o:
- Rodézio... Rodézio...
Assustado o pobre rapaz levantou-se e olhando para os lados, perguntou:
- Quem me chama?
- Aqui, Rodézio, o teu Senhor que te chama.
Rodézio olhou para cima e viu uma luz saindo de dentro de uma nuvem com o formato de um rosto.
- Rodézio... Que raios de nome feio, meu rapaz.
Ajoelhado Rodézio respondeu humildemente:
- Desculpe Senhor...
- Rodézio se você ama o seu Senhor deve viver a vida e não ficar enfurnado nesse vilarejo mofando o teu viver.
- Sim, meu Senhor.
- Portanto, ordeno que largue tudo e vá viver a vida, pois quem me ama vive.
A partir daquele dia, Rodézio caiu no mundo e ninguém mais soube do se paradeiro.

sábado, 13 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.441(2020)


Em 1990, Caderno 1.24, escrevi que o escrever no ônibus era um método que estava me fa­zendo bem terapeuticamente e me impedia de babar enquanto cochilo, e hoje? É um método terapêutico? Apesar de não pegar ônibus até poderia ser, mas não tenho mais escrito, e, o que me impelia a escrever naquela época já foi resolvido, hoje não passo mais pelo o que passa em um mil novecentos e noventa, hoje meus, vamos dizer, dilemas são outros, hoje o que me preocupa são três coisas apenas, resolvidas essas três coisas posso me dizer que estarei no paraíso e elas são: zumbido no ouvido, dores nas costas e esse amor engasgado na garganta que me sufoca, me oprime, um amor mal resolvido, creio que da minha parte somente. É isso.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Contos surrealistas 145


Jacqueline

Jacqueline morreu. Estava linda no vestido curto de cor vermelha. Nos lábios tinha o sorriso das estrelas iluminando a quadra de ensaio. Nos olhos o brilho da vida espargia a doçura de Jacqueline. Todos a admiravam, sua gentileza transbordava pelos poros sempre dando a atenção sem pedir nada. Sua bondade trazia a marca do amor no peito.
 Mas, Otacílio invejoso nos seus noventa quilos de rudeza, e um metro e oitenta de negritude, não gostava de ver Jacqueline dançando nos ensaios da escola. Picando o ciúme na ponta da faca, Otacílio deixou-se encarquilhar pelo ódio. Imprimiu força redobrada a faca que penetrou duas vezes em Jacqueline que, sorrindo caiu no chão da quadra.
 Nunca mais apareceu outra como Jacqueline.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.440(2020)



            Quarentena.

            O que faço nessa quarentena. Acho que vou escrever algo como “Uma aventura dentro da minha casa”. Bem, o que faço é o normal, levanto, escovo os dentes, tomo café, ligo o som, sem música não fico é o meu alimento. Sento-me em frente ao micro, posto, leio, escrevo, respondo as mensagens no WhatsApp... Vejo pessoas indo e vindo sem máscara, sem proteção, que imagino que tudo isso é de uma surrealidade fora de série. Ontem o técnico veio para consertar a geladeira, sem máscara, numa boa como se nada estivesse acontecendo. Perguntei:
            — Está sem máscara, não tem medo não?
            Ele respondeu confiante:
            — Estou com Deus, Ele me protege.
            Está bom, pensei, Deus te olhe. Poderia dizer a ele:
            — Deus é você, pois, você e ele é um só. A sua Centelha Divina é Deus, se você está deixando-a vibrar nada lhe acontecerá. Se você pensa e sente que nada lhe acontecerá, nada irá lhe acontecer, isto porque, tudo o que você, pense e fala acontece, portanto seja uma pessoa positiva, traga dentro de você todo pensamento, sentimento positivo, descarte todo ódio, raiva, vingança, mágoa, vibre amor, apenas amor...
            Creio que ele me olharia com aquele olhar incrédulo e pensaria:
            “Esse cara é louco”.
            É isso.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Contos surrealistas 146


Ninguém é de ferro.

Ana Helena ergueu bem no alto a criança. Olhou para o rosto rechonchudo da filha. Estava com fome. Colocou a menina no berço novamente. Na cozinha preparou um suculento sanduiche com café e leite gelado e olhando, pela sacada, o movimento da vida entre avenidas, viadutos e linhas de trem e metrô. Onde estaria ela se não tivesse a Ana Heloisa? Perguntou ao mastigar o pão recheado de presunto e mussarela. Onde? Não sabia responder, é claro. Se a vida fosse de perguntas com respostas prontas não teria graça nenhuma. Realmente estava com fome. Preparou outro sanduiche. Fez menção de tomar leite, mas desistiu. Foi até armário no fundo da sala e colocou uma boa dose de uísque no copo. O relógio marcava sete horas da manhã.
Quando da apresentação do processo de divórcio, a juíza motivada pela queixa do advogado do ex-marido, a reprovou não muito categoricamente, pois Ana Helena entendeu que a Sua Excelência lhe deu razão ao argumento que ela apresentou. Isto porque, antes do nascimento de Ana Heloisa ela não bebia nada alcoólico e, como a situação se agravou, ficando só ela e a filha, o uísque a ajudava a aguentar os trancos da vida. Com ênfase meio dramática acreditou que tinha convencido a autoridade. Portanto estava apenas tomando sua dose diária de uísque.
Da porta do quarto olhou para a pequena deitada no berço. Do peito evaporou-se um suspiro de resignação. Estava começando mais uma batalha. Pegou os doze quilos no colo, a sacola, fechou a porta do apartamento, chamou o elevador e, meia hora depois, estava com a filha dentro da piscina em mais uma hidroginástica. Uma hora mais tarde, nos aparelhos exercitava as pernas de Ana Heloisa. Em seguida foi à vez dos braços como se estivesse remando um barco abstrato. E por último, a menina estava com vários fios conectados à outra máquina que lhe dava pequenos choques elétricos com a finalidade em estimular os nervos do corpo.
Ao meio dia e trinta e quatro, com mais uma dose de uísque, olhava para o seu “monstrinho” como carinhosamente chamava a filha, a sua criação. Estava difícil, mas sabia que com persistência, amor e coragem e, muita paciência venceria a batalha. Deu beijo nas bochechas de Ana Heloisa, fechou a porta, sentou em frente à televisão pra assistir o seu programa favorito, isto porque, ninguém é de ferro, era o que sempre dizia.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.439(2020)


            Macarrão alho e óleo.

            Sou grato e feliz por acordar alegre, com disposição e ter passado um dia, mais um dia entre essas paredes amigas e confidentes, olha lá nada de fofocar, hein! E, também sou grato e feliz porque mais uma vez fiz macarronada alho e óleo. Mas acho que coloquei muito óleo, é óleo mesmo, não tenho azeite, e alho, não sei, no entanto, ficou gostoso. Enquanto o macarrão cozinhava na água fervente, numa panela coloquei cinco colheres de sopa de óleo, não tenho azeite, na receita pedia azeite, cinco cabeças de alho, ralei meia cenoura, não tenho cebolinha e nem salsa, uma batata e uma cebola. Joguei tudo dentro da panela. Pensei:
            — Você vai fazer macarrão alho e óleo ou cebola alho e óleo.
            Coloquei uma colher de sal. E fui mexendo até ficar amarelado a cebola. Macarrão ficou pronto, escorri, e virei a panela de alho e óleo em cima do macarrão. Não ficou aquela iguaria de se lamber os beiços, mas ficou gostoso. A gororoba que faço, eu gosto, e essa ficou uma delícia. Agora é que a porca torce o rabo, isto é, os radicais, os mestres vão me criticar. É que ao invés de usar o espaguete usei o parafuso.
            — Cara, você vai colocar esse macarrão, não é outro, o comprido? — disse para mim ao despejar o macarrão na água fervendo.
            Aí eu respondi para mim mesmo:
            — Não, não vou, vou usar esse, não sou obrigado a usar o que todo mundo usa. Vou fazer diferente.
            O meu eu ficou quieto e agora está lambendo os beiços. ´
            É isso.

domingo, 7 de junho de 2020

Contos surrealistas 147


Pensando, apenas.


Estava aqui matutando. Poderia fazer no Face doido o que fazia ao chegar ao serviço. Entrava às oito horas, saia de casa lá pelas seis horas e qualquer coisa e, chegava à Paulista, as sete e qualquer coisa, subia para o escritório, ligava o computador e deixava a mente correr os dedos no teclado preto. A princípio escrevia mensagens de otimismo que, via e-mail, mandava para o pessoal. Começava sempre com um Bom Dia, era um bom dia isso, bom dia aquilo, até que aos poucos passei a escrever o que acontecia ao meu redor. Como o meu serviço era de suma importância, isto é, não tinha que apresentar ao chefe e muito menos ao subchefe, que mais tarde passou a ser chamado de gestor, quer dizer, não tinha prazo, não precisava todo o mês apresentar relatórios, fechamento disto ou daquilo. Eu era o arquivista, passava o dia todo colocando em ordem papéis e mais papéis em pasta e as pastas em caixas que eram mandadas para o arquivo morto em Paulínia. Portanto não precisava correr com o serviço, entende. Por isso ou por causa disso, às vezes os meus bons dias que começaram com pequenas mensagens, passaram a contos, crônicas, ou relatos do que acontecia no próprio escritório. Dessa maneira consegui escrever A Dama do Metrô e a Cadeira de Espaldar Alto. Então, poderia fazer a mesma coisa aqui, não é?
Mas acontece o seguinte. Quando trabalhava eu tinha um horário a cumprir, bem ou mal, eu cumpria e, aqui em casa, aposentado não tenho um horário, isto é, não acordo todos os dias no mesmo horário, um dia acordo as sete, outro dia as oitos e, outros ainda, ao meio dia ou até a uma da tarde. Não tenho uma rotina que me obrigue a escrever, preciso criar essa rotina, me forçar a isso, acordar todos os dias a sete horas, sentar no computador, quer dizer, em frente ao computador e colocar os dedos a trabalharem imprimindo esses caracteres que a mente transmite a eles. Além do que o caçar as palavras no marasmo da memória estão cada vez mais difíceis, o meu dicionário perdeu folhas, está magrinho o coitado, com a idade o vocabulário tornou-se  repetitivo sem contar com o sono que a todo o momento me interrompe...zzzzzzzzzzzzzz... Desculpem, vou dormir... zzz

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.438(2020)


Reflexão.
           
Eu disse:
                        — Nunca gostei de você, nunca mesmo, eu sempre te amei e sempre vou te amar. Talvez você estranhe dizer isso, no entanto é a pura verdade, te amo. O que acontece é que meu amor não é possessivo, não é aquele amor de: onde você vai eu vou, onde você está eu estarei, só vou se você for, entende, não meu amor não é assim. Te amo e isso para mim é o bastante. Esteja você comigo ou não, é claro que se você estiver aqui ou, se eu estiver aí com você é ótimo, se isso é impossível não faz mal, estarei sempre aqui te amando, entende. Mesmo que você não me ame, mesmo que você não me queira perto de você, não importa, continuarei a te amar. Lógico se eu amo e for amado será esplendido, mas se não sou amado, será esplendido do mesmo jeito. Portanto é pensar positivo, sem colocar muito o foco, entende. É deixar fluir o sentimento que ele chegará até você, e, você o sentirá, receberá dentro do teu coração e irá fluir de volta para mim que receberei em meu coração e assim estaremos conectados pelo sentimento do amor.
                        É isso.



quinta-feira, 4 de junho de 2020

Contos surrealistas 148


Maria Clarice

Maria Clarice nascia livre. Ao primeiro toque do bip do rádio relógio, Maria Clarice se expressava livre. Uma onda revigorante tomava o peito, acariciava a alma. Sem exagero ou aflição, freava a ansiedade, se aprontava, tomava café e saia. Mais um dia em que posso ser livre era o que dizia ao pisar a calçada. Mais um dia em que posso expor minha liberdade sem medo do perigo. Assim era Maria Clarice.
Um dia, na sua alegria infantil de adulto que sabe o que faz e quer, foi surpreendida a porta de casa. Os funcionários do correio não puderam fazer nada, estavam do outro lado da rua. Ao lado, a escola de dança, também não ouviram nada. O ponto de ônibus estava vazio.
Os projetos na ponta do desejo para a finalização, os sonhos elaborados com acuidade se livrando das decepções ou, até mesmo, das ilusões. No dedo só a marca do anel do noivado, e ao seu lado, com os olhos abertos, os lábios sorrindo, a poça de sangue escorria para o meio fio da calçada.
Maria Clarice nascia todos os dias livre sem saber que a vida é a base de toda tragédia.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.437(2020)

Conversando com o meu “eu”. Não conseguia dormir, rolando na cama por mais de duas horas resolvo levantar-me.
— Preocupado? —, pergunta ele.
— Não, não estou não. —, respondo
Realmente não estou preocupado, estou bastante calmo, não cheguei ao estado zen, mas acho que estou próximo.
— Estava pensando. Pensou você dorme na sua cama e acorda numa cama que não é a sua, por exemplo, acorda na cama da amada.
— É por isso que não dorme, ficou com medo de acordar na cama dela, é?
— Não é isso, não sei por que não estou conseguindo dormir.
— É eu sei.
— O que é que você sabe que eu não sei, deveria saber já que somos um só.
— É a quarentena.
— Não é só isso.
— É o que mais?
— Casa para limpar, geladeira quebrada e os eteceteras que ficam encucando na nossa mente.
— Ei, onde você vai?
— Onde eu vou não, onde nós vamos.
— Ok, onde vamos?
— Dormir.
— Ah tá.

 5:13 da madruga.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Contos surrealistas 149


Hotel Cidade Conforto.

Estava rodando a mais de três horas quando chegou à pequena localidade numa noite de frio e ventania. A cada quilometro consultava o mapa. Como não reparou na localização da cidade? Foi então que percebeu uma coisa. A estrada dava a impressão que terminava na cidade, não tinha pegado nenhum atalho, nem visto placa indicativa, nada, a cidade apareceu repentinamente a sua frente. Cansado, não queria pensar nisso. Seguiu a orientação que o cara do posto lhe dera. Passando o cemitério, na primeira esquina virar à esquerda.  Foi o que fez e, assim que dobrou a esquerda viu o hotel.
Hotel Cidade Conforto, logo abaixo em letras menores, O conforto para a sua estadia eterna. Meio modernoso para o meu gosto, disse dirigindo-se ao balcão onde um homem alto, magro, com os olhos nas orbitas profundas, com a voz estrangulada, lhe perguntou:
- Pois não, bem vindo ao hotel onde a estadia é eterna.
Olhando para cima, pois parecia que o sujeito tinha mais de dois metros de altura.
- Tem quarto? Preciso de um bom banho e um bom descanso.
- Qual que o senhor prefere? O quarto da primeira esquina ou da segunda esquina?
- Como assim, primeira ou segunda...
- É que aqui denominamos os quartos por esquinas, entende.
Não, não entendia e nem queria entender, o que estava querendo era descansar.
- O da primeira esquina.
- Ok. O senhor pediu, não aceitamos reclamações posteriores. Por favor, assine aqui.
Assinou onde o dedo fino e comprido indicava e ao mesmo tempo ouviu a campainha tocar e, um sujeito idêntico ao recepcionista aparecer ao seu lado.
- Adenário, por favor, acompanhe esse senhor ao quarto primeiro da primeira esquina.
- Por aqui, senhor, por favor.
Subiu as escadas atrás do sujeito.
- Por favor, senhor, à esquerda, - disse Adenário abrindo a porta do quarto primeiro da primeira esquina - Aqui está, senhor, o seu quarto. E ali o banheiro, onde o senhor poderá tomar o seu banho sossegado.
- Obrigado. – respondeu empurrando o sujeito para fora do quarto.
Jogou-se na cama. Não são cinco estrelas, mas dava para descansar, disse mentalmente. Abriu a mala, pegou o que necessitava e entrou no banheiro.
Adenário ficou um tempo parado em frente à porta. Dali a instantes ouviu um silvo longo e depois total silencio. Abriu a porta, viu a mala aberta em cima da cama e, entrou no banheiro. Estava vazio, não tinha ninguém.
- Pronto mais um.
Chegando a recepção Adenildo perguntou:
- Ele já foi? Já se teletransportou?
- Sim. Não completamos a lista ainda?
- Não, faltam uns oitocentos. Precisamos sair daqui para não levantar suspeita.
- E para onde vamos?
- Não sei, tenho que pesquisar.
- Espero completarmos logo a lista, estou com saudades de casa.
- Rápido, arrume tudo está chegando um casal. Colocarei no quarto décimo onde tem banheiro duplo.
E todo atencioso, falou para o casal que se aproximava:
- Pois não, bem vindos ao hotel onde a estadia é eterna.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...