domingo, 31 de maio de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.436(2020)


Paulinho da viola e seus sambas. O que escrever? Desenhar. Ler. Limpar a casa. Fazer comida. Geladeira quebrada. Cansaço de não ter canseira. Tirar outra selfie. Ligar para os amigos. Dançar no meio da sala. Tomar outro banho. Ver um filme. Comédia. Drama. Terror. Postar no Face. No Instagram. No story. No blog. Continuar o conto. Iniciar outro. Lavar roupa. Lixar os vasinhos. Pintar os que estão prontos. Estudar mecânica quântica. Ouvir os vídeos do Youtube. Ouvir o Professor Hélio Couto.  Bom vamos fazer com que essa carcaça reage e se envolva em alguma coisa para não ficar pensando em besteira. E fazer besteira sozinho não tem graça. Risos.

sábado, 30 de maio de 2020

dados


para o amigo Osvaldo Pastorelli

é suposto que voe
o que é alado.
é suposto ser poema
o que é rimado.

e cada um ao seu modo
constrói sua fantasia
erige a sua verdade
por dicotomias:

se não é noite... é dia
se não é alegre... é triste
se não é campo... cidade.

aqui da minha janela
aberto a qualquer melodia
decido-me pelos dados
que mesmo tendo seis lados
não tem nenhum errado
ou que se preste a teorias.

Fred Matos

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.435(2020)


                  O “Eu” está chateado. Lembram que ele propusera de sairmos e pegar o metrô para escrever? Então, agora como temos que ficar confinados nessa quarentena ele me cutuca para fazer algo semelhante, mas “preso” dentro da nossa própria casa não há muito o que fazer no sentindo de escrever como me propusera, entende. Até parece que quem está doente somos nós.  Né não?  

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A borboleta.


                                   O domingo amanhecera frio. Tinha aberto as portas e a janela da sala, mas resolveu fechá-las por causa do vento frio. Ligou o som e deixou se levar pela música. Em passadas curtas ia e vinha de uma parede a outra deixando a melodia invadir a alma, quando ao chegar perto da janela viu uma borboleta voando de uma flor a outra no jardim. Dali a pouco ela pousou no vidro fechado. Devagar abriu a janela e a borboleta invadiu a sala dando um giro de reconhecimento. Chegou perto dele, e pousou em seu ombro esquerdo. Por uns minutos ficou quieta. Ele prendeu a respiração, queria prolongar os instantes mágicos, mas como tudo não pode ser para sempre, a borboleta levantou voo e saiu pela janela aberta. Vendo-a desaparecer entre as flores, fechou a janela e se deitou na poltrona adormecendo logo em seguida.
                        Do aparelho de som a música suave completou a cena.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.446(2020)


                        As seis regras do O milagre da manhã.


                        Vamos lá, mais um dia de regras. Mais um dia de frio. Um frio maior que o de ontem? Não, talvez não. Ontem praticamente não fiz nada. Por ser domingo? Não, pois para mim, aposentado se o dia é domingo, segunda, terça ou o dia que seja, não tem fundamento nenhum, pouco me importa, principalmente neste confinamento. Se não houvesse o confinamento, talvez me importasse mais, isto porque, eu desejaria estar em casa, desejaria e lutaria para estar domingo e sábado em casa. Não ficaria muito tempo sem ouvir música, sem desenhar, se fazer coisas que para mim, pode não ser urgência, e não é, mas que me faz seguir adiante, um passo de cada vez, um instante após o outro me imprimindo na vida, no mundo, nas pessoas que a mim se sentem queridas. Nesses minutos marcados pelo relógio do celular é impossível conectar as ideias no sentimento de capturar e sentir as palavras. No entanto os dedos ao comando da mente, digitam palavras seguidamente como seguidamente é um dia atrás do outro. Mecanicamente, isso é o que os dedos fazem, agem mecanicamente. Não sei em que sentido isso me levará, em que proporção caminharei...
                        É isso aí.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Os amantes.


                     Saíram os dois do box. Cada um pegou a sua toalha e começaram a se enxugar um ao outro. Começaram carinhosamente pelos cabelos, lentamente passaram para a testa, os olhos suaves nos gestos, primeiro o direito e depois o esquerdo, em seguida o nariz, e ao chegarem aos lábios entrou uma borboleta pelo pequeno vitrô e pousou nas duas mãos que estavam juntas. O momento se congelou, ninguém se mexia, sorriam com os olhos, nisso um bando delas pousaram cobrindo os dois. E assim ficaram por instantes e instantes depois voaram todas juntas e as duas toalhas caíram ao chão vazias dos corpos. Uma retardatária num esforço que suas asas conseguiam saiu de uma das dobras da toalha e voando foi ao alcance das amigas.
                        Lá fora o sol surgiu timidamente nesse domingo que amanhecera frio.

domingo, 24 de maio de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.445(2020)


                        As seis regras do O milagre da manhã.


            A primeira vez que soube sobre esse livro, O milagre da manhã foi no canal O conselho, de John Felix e, ao me deparar com o audiolivro no YouTube passei a me considerar em praticá-lo. E aqui estou no último exercício que é o do escrever. Portanto vou tentar transmitir em letras os atos que me levaram a tal prática. O primeiro exercício que é o silencio foi-me um pouco, como posso dizer, maçante, não sei se é para ficar sem se mexer e, isto é, se ao meditar há a necessidade em ficar imóvel e, uns segundos depois, precisei me mexer, as pernas passaram a irritar, alonguei os braços, passei as mãos no rosto, bem fiquei os minutos seguintes me mexendo, mas creio que seja a falta de costume.
            As regras seguintes foram fáceis, talvez o que posso dizer que foi maçante, foram os exercícios, como não estou acostumado senti certa dificuldade que, contornado com movimentos lentos e sem muita flexibilidade, consegui realizá-los. Portanto, vamos encarar essas regras daqui para frente, esperando dar resultado satisfatório. E creio que já posso considerar como tal, isto porque, estou escrevendo como as palavras me vem à mente, sem me preocupar com o que estou escrevendo.
            É isso.

sábado, 23 de maio de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.444(2020)


                        O que fazer?

            Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto.
Três horas da madrugada. Vou ao banheiro.
Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto.
Quatro horas da madrugada. Bebo um gole de água.
Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto. Deito-me e me levanto.
Quatro e meia da madrugada. Levanto-me. Sento-me na cama. Os pés dentro chinelo. Olho o vazio do quarto. O guarda-roupa a minha frente. Levanto-me da cama. Na cozinha abro a geladeira. Fecho a geladeira. Bebo água. Encho o filtro. No banheiro dou uma mijada. Olho no espelho.
— Bonitão, digo ao eu que vejo e faço uma careta.
Penso em deitar-me, desisto, sei que ficarei rolando na cama. Desisto. Vou prá sala. Ligo o notebook lerdo que é preciso deixar carregador ligada constantemente, pois a bateria está cansada, preciso trocar. Enquanto o note abre, vou na cozinha pego um pacote de bolacha e, ao abrir, ao tentar puxar aquela tirinha vermelha o papel rasga e as bolachas se esparramam na mesa sujando de migalhas. Olho para aquilo enfastiado. Pego um punhado e volto a sala. O note ainda não abriu. Enquanto espero jogo um joguinho bobo no celular. Dali vários minutos o note abriu, até que hoje foi rápido. Abro o Word e estou aqui escrevendo essas palavras vazias de conteúdo, elas não traduzem realmente todo o sentimento deste que vos escreve.
Sabe o que ocorre? É preciso fazer tal coisa. Ah! Tenho bastante tempo, deixo para depois. Ou então, você começa a procurar coisas para fazer, pois você já desenhou hoje, já escreveu hoje, já ouviu música hoje, - aliás música ouço todos os dias, menos a parte da manhã para não acordar a vizinha , - aí você começa inventar coisas para fazer nesse tempo bastante que tenho. Olho as fotos das netas, os vídeos que fiz, invento novos vídeos, vejo vídeos pornôs, revejo filmes antigos, procuro os novos, mas devido o conteúdo pobre dos filmes de hoje desisto... bocejo... ahn! Bocejo? São seis horas e quinze. O dia está raiando.
Deito-me e só vou acordar... quando acordar venho aqui para lhes dizer, está bem. Até...

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Série desenho 71


Coração olhos



Coração olhos que tudo vê
Que se entrega e se integra
Ao paradoxo das imagens
Em movimento ou abstratas

Coração aflito chora silêncio
Diante da violência desenfreada
Da fome nas esquinas enraizada
No sorrir mudo da ressequida pele

Coração olhos pulsa o sangue
Empedrado nas veias da cidade
Cateter da sobrevivência exigida

Que no aconchego do sofrimento
Serve-se da fria bebida ansiedade
Nos braços do sombrio tormento

desenho: pastorelli

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Série desenho 74


D

De Denise
Aliás, duas Denise
A Denise do Junior
E a Denise do Kuka
Duas queridas amigas
Duas belas mulheres
Fortes, valentes, lutadoras
Sabem o que querem
Sabem o que desejam
Sabem o que amam
A vocês duas deixo
Com essas palavras
O meu obrigado
De coração
Por cruzarem
O meu caminho


desenho: pastorelli

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Série desenho 75


D amarrado


Amarrado
Destroçado
Amordaçado
Derrubado

Nunca
Vencido
Nunca
Perdido

Sempre
Lutando
Amando
Vivendo

Um dia
Poderei
Tê-la em
Meus braços
Quem sabe?



desenho: pastorelli

terça-feira, 19 de maio de 2020

Série desenho 76


De olho no esperma


Estava de olho. Não devia perder nada, nem um segundo, os olhos não possuíam os momentos precisos, fazia o possível, esperava que seu desempenho fosse, pelo menos, razoável. Já estava mais de vinte minutos no vai e vem. A pele do prepúcio começava a irritar. Diminuiu a intensidade dos movimentos. O suor escorria pelas costas, ensopava os pelos do corpo. Preocupado perguntava-se: “Será que broxei?” Não, gritou a mente, essas coisas acontecem com os outros não comigo. Recorreu às revistas, nada. Ligou o televisor, nada. “Sou macho, sou potente, caralho.” Nisso, sem ter muita certeza, sentiu o clímax se aproximando. O que precisava fazer era segurar um pouco, infelizmente não deu tempo. O jato saiu com força e grudou no azulejo branco. Numa agilidade impressionante conseguiu que o segundo jato se alojasse no fundo do copinho. Suspirou aliviado. Missão cumprida. Tampou o copinho, se limpou, entregou a ficha e a coleta no balcão que lhe fora indicado. Saiu do laboratório recebendo a alegria do sol achando-se o homem perfeito.

desenho: pastorelli

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Série desenho 77


De

Demais a mais
Dentre as coisas que eu quero
Dentre as coisas que não quero
Decifrarei o certo do errado
Demonstrando sabedoria
De poeta medíocre
De ínfima inspiração

Demais a mais
Dentre do que eu digo
Dentre do que eu não digo
De repente surgem palavras
Desmistificando o aprendiz
Destruindo o poema
De maneira que nada digo

Deu para sacar?



desenho: pastorelli

sábado, 16 de maio de 2020

Série desenho 78


De Ce

Dezesseis tinha quando casou
Dezessete quando nasceu a filha
Dezoito quando ficou viúva
Dezenove quando se juntou com
Decemais e felizes foram para sempre


desenho  pastorelli

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Série desenho 79


Dedo na chupeta


Todo o dia entre os dedos da filha estava a chupeta. Vício horrível diziam.  A mãe já fizera de tudo, mas não tinha jeito. O pai prometera brinquedos, doces, passeios e nada adiantou. Resignaram-se.
 Passados vinte anos, Dorotéia conheceu Joãozinho. Perdeu o vício da chupeta entre os dedos. E com isso viveram felizes para sempre.



desenho: pastorelli.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Série desenho 80


Dedos e bicos


Dedos arrepiam a pele adormecida
Bicos se elevam por baixo da camiseta
E sonhos libertam desejos
No dia a dia da vida


desenho: pastorelli.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Série desenho 81


Dedo no olho


Dedo no olho
Dedo na boca
Dedo na toca
Dedo no repolho

Dedo no nariz
Dedo no pé
Dedo no café
Dedo no juiz

Dedo pentelho
Dedo inquisidor
Dedo bedelho

Dedo provocador
Dedo carvalho
Dedo devastador



desenho: pastorelli

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Série desenho 82


Dedos


Dedos da mão
Dedos do pé
Dedos de chulé
Dedos e dedão

Dedo moleque
Dedo fura bolo
Dedo de tolo
Dedo serelepe

Dedo indicador
Dedo mindinho
Dedo provocador

Dedo de mansinho
Dedo aliciador
Propicia carinho



desenho: pastorelli

domingo, 10 de maio de 2020

Série desenho 83


Defunto

Um silêncio de ruídos abafados, vozes sussurradas ao pé do ouvido, passos leves no assoalho antigo, aroma de café requentado, reza a meia voz, reinava em volta do caixão colocado no centro da sala. Esposa, filhos, parentes, amigos, conhecidos e curiosos, numa referência à morte, permaneciam cabisbaixos em respeito ao defunto.
Apenas uma criança de seus oitos anos, sentada no colo da mãe, olhos arregalados sem entender o que se passava, por mais que explicassem, permanecia impassível a tudo aquilo. Tagarelava com a mãe, com as pessoas ao lado, impaciente queria descer, andar, não sabia o do porque que o prendiam ali, num lugar sombrio onde as pessoas choravam e falavam baixinho.
- Fique quieto, João Cláudio Jr, respeite o vovô que morreu.
Nisso, vindo do caixão, ouviu-se um som como se fosse flatulência sem que alguém pudesse explicar. Talvez, por estar horas deitado, os gases que davam a aparência de inchado ao defunto, naquele momento foi expelido. Ninguém ousou se pronunciar, todos ficaram quietos como se nada ouviram. João Cláudio Jr. safou-se do colo da mãe e, chegando bem perto do caixão, disse com uma dignidade autoritária:
- Oh! Vô não tem respeito não, peidar na frente de todo mundo.
E com toda a ingenuidade, para o espanto da mãe e dos presentes, voltou para o colo materno e ficou quieto o velório todo.



desenho: pastorelli

sábado, 9 de maio de 2020

Série desenho 84


Deitado


O domingo tinha amanhecido claro, poucas nuvens, com um sol tímido, mas que prometia. Lá pelo meio dia, manchas escuras começaram a se formar para, logo em seguida, cair pequenos e longos fios de água que aos poucos foram se engrossando num temporal ensurdecedor de vento e granizo. Janelas e portas rapidamente foram fechadas. Trovões e relâmpagos encheram o domingo de medo e terror.
Apenas dois olhinhos castanhos escuros permaneciam fixos no vidro da janela, observando a enxurrada levar tudo o que encontrava de roldão. Até um corpo deitado numa tábua engolido pelo bueiro. A dona dos olhinhos castanhos escuros brilhou contente ao mesmo tempo em que um relâmpago cruzou o céu escurecendo o dia.



desenho: pastorelli

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Série desenho 85


Devaneio surrealista


Deitado na cama me vejo no berço da humanidade, onde o individuo deixa de ser individuo para se tornar pó na multidão de desvalidos. Arregaço as mangas e jogo o caroço no lixo das memórias abortadas pelo egoísmo de ser somente ser e nada mais. Carrego a estrutura evitando a queda do alicerce da história e assim, fixar a minha história na história de alguém.



desenho: pastorelli.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Série desenho 87





Dois olhos

O esquerdo
E o direito
Entre eles
O feio nariz
Mais abaixo
A boca
E o queixo
E completando
As orelhas

Pronto: temos
Um rosto
Uma face
Uma máscara
Para uso
De todos
Os dias



desenho: pastorelli.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Série desenho 89



Duas irmãs


As duas irmãs conversam na esquina da Avenida São João com a Ipiranga. Distraídas não percebem o carro que passa por elas e, desgovernado, entra pela porta de vidro do banco. Um corre-corre, vidros estilhaçados, gritos, polícia, correria, tiros e o corpo das duas irmãs estiradas na calçada em meio a uma poça de sangue.


desenho: pastorelli

terça-feira, 5 de maio de 2020

Série desenho 90



E

E vamos que vamos
E cai não cai
E sobe e desce
E chora e ri

E que porcaria
É a vida
Uma hora alegre
Outra hora triste

E vamos que vamos
Num sobe e desce
Na corrida ou na preguiça
Caminhamos a ladeira
Cantando ou chorando

E cai não cai
O balão aqui
Na minha mão
E viva São João
Viva!



desenho: pastorelli.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Série desenho 91




Ele e Ela

Ele olhou para ela
Ela sorriu para ele
Ele deu uma bofetada nela
Ela sorriu para ele
Ele enfiou o dedo nos olhos dela
Ela sorriu para ele
Ele quebrou o nariz dela
Ela sorriu para ele
Ele puxou o cabelo dela
Ela sorriu para ele
Ele deu várias facadas nela
Ela sorriu para ele
Ele foi embora sem entender nada
Ela sorriu para ele
Ele cego não viu o amor dela


desenho: pastorelli.

domingo, 3 de maio de 2020

Série desenho 92


Ela e ele


Ela o traiu
Ele o suicídio
Ela não se importou
Ele se recuperou
Ela esquecera o que fez
Ele não a perdoou
Eles nasceram
Um para o outro


desenho: pastorelli

sábado, 2 de maio de 2020

Série desenho 93


Fratricídio


Fratricídio Feitosa da Fonseca ao chegar, depois de um dia estafante, em casa, estranhou o silêncio. Quer dizer, a casa sempre foi silenciosa, mesmo nos fins de semana, só que aquele dia parecia mais que nunca, um silêncio pesado, sufocante, como se estivesse ou já estivesse acontecendo algum fato que marcaria o dia inteiro e, talvez, a vida toda. Fratricídio depois que fechou a porta, jogou as chaves na mesinha, colocou a pasta no sofá, e na cozinha tomou um gole de água gelada.
Através de meia fresta da porta, inspecionou o pequeno quintal e viu que ali não tinha ninguém. Passou pela sala, subiu o pequeno lance de escadas e, ao chegar ao topo, foi que notou uma espécie de gemido, talvez dor, ou outro tipo de gemido que não conseguia definir. Pisando em ovos, abriu à porta do quarto de Frederik, vazio, o filho não estava. Em seguida abriu a porta do quarto da Frederika, vazio, à filha também não estava.
Angustiado e apreensivo se dirigiu à porta do seu quarto. Com a respiração suspensa, imóvel permaneceu na expectativa em confirmar se os gemidos vinham dali. Com a inquietude a flor da pele, não acreditou, ao abrir devagarzinho a porta, o que via. Primeiramente distinguiu dois corpos, depois reconheceu um dos corpos: Fatrícia, sua mulher, em seguida, segurando os nervos, reconheceu o outro corpo: era ele. O que mais o deixou desconcertado é que os dois olharam para ele como se não fosse ninguém, não se sobressaltaram, nem tentaram se esconder. Nus como estavam, ele por cima dela, continuaram no ato que, para ele presenciava, era indecente e escandaloso.
Fatricidio fechou a porta lentamente. Desceu as escadas, se serviu de uma boa dose de uísque e se sentou no sofá. Seis minutos depois, o copo escorregou de sua mão e rolou pelo tapete manchando de uísque. No dia seguinte, de manhã, a empregada o encontrou na mesma posição, com um pequeno sorriso que, concluíram, fosse de satisfação, mas o médico diagnosticou foi contração de dor. Sofrera um enfarto fulminante.


desenho: Pastorelli

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Série desenho 94





Cesárea e Laurindo


Laurindo não imaginava a reviravolta que a vida lhe daria. Desde que seus olhos depararam com os olhos de sua mulher nos idos anos de caos quando a ditadura impunha força, achou que a felicidade tinha chegado. Ledo engano.
Trinta anos depois, estava sem mulher e na cadeia.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...