Enquanto procuramos a cura um do
outro esquecemo-nos debaixo dos lençóis. E nas esquinas sujas de humanidade há
sempre o desejo de caminhar. Mas para onde? Não me reconheço sou um estranho
entre estranhos nesse amontoado de corpos vagando meramente. Entro no primeiro
bar que me aparece. Peço uma cerveja. Despejo o líquido amarelo num copo mais
amarelo ainda. Procuro devolver a cerveja, mas me vejo tomando mecanicamente um
longo trago. A bebida queima mais que pinga destilada. Arroto. Olhares
reprovadores cai em cima de mim. Sussurro um desculpe apagado e os olhares
voltam aos seus afazeres. Bebo até o último gole e recuso outra cerveja que o
garçom me oferece. Tenho que caminhar e para que, pergunto? Caminho porque é
necessário chegar em algum lugar. E realmente, para meu desagrado chego. Olho a
porta do apartamento indeciso que, tão logo abro a porta, sinto o cheiro de
mofo e azedo. Meio ano fora foi suficiente para causar esse pequeno estrago.
Espirro diversas vezes. Da sala vou direto ao banheiro e debaixo do chuveiro deixo
a água gelar meu corpo estéril enquanto cabelo, camisa, calça, cueca, sapato
ficam ensopados. Quero que a água limpa a impureza dele encrustado em mim, como
se eu fosse o puro. Depois tiro a roupa e me jogo na cama. Fito o teto enquanto
a mente entra no processo de esvaziamento. Levanto-me e na cozinha pego da
geladeira uma lata de cerveja. Você quando fala que não pertence ao mesmo lugar
que eu, está apenas afirmando um amor conquistado. Me diz olhando no fundo do
copo de cerveja. Não tem coragem de enfrentar os meus. Assim como eu, está nu
encostado a pia da cozinha. Talvez seja verdade. Acontece que essa é a verdade
dele e não a minha. Sim nosso amor foi algo conquistado. E, no entanto, não há
a necessidade em repudiar a todo momento. Não retruco. Saio da cozinha e de
repente vejo nossos corpos nos lençóis branco cinzento. Tenho pavor dos seus gemidos
e das obscenas palavras. Fazemos mecanicamente amor sem emoção e luxúria, pelo
menos da minha parte. Nossos olhares se encontram e o sangue começa escorrer
dos seus olhos. Aterrorizado acordo todo melecado. A noite cai sobre mim e me
cubro para proteger-me do frio.
terça-feira, 31 de março de 2020
segunda-feira, 30 de março de 2020
Rádio 3.
Fecha-se
a noite sobre mim arrepiando a pele. Devia fazer alguma coisa, meu caro.
Acontece que faço e não tem mais importância saber o que faço ou deixo de
fazer. Sua cavernosidade não me fascina mais. Pôr o lixo na rua não é agora da
minha competência e não adianta o seu blá blá blá, estará falando para as
paredes. Os vizinhos reclamam da música alta? É bom saber ou melhor, não quero
saber. Louco eu? Baboseira? Hora! Meu Deus, como é que pode ser baboseira? O
caso é que essa baboseira é rock, entende, rock. Recuso ouvir. Vou para
cozinha. Espremo limão com açúcar, adiciono cachaça e cubos de gelo. Bato na
coqueteleira e despejo no copo. Sento no banco do jardim. Estico as pernas na
jardineira. Os mosquitos e pernilongos fogem. A noite chega e não me surpreende.
Deveria sair em definitivo, digo às rosas. "As rosas não falam,
simplesmente exalam o perfume que roubam de ti" . Grande Cartola, entendia
do recado. O gato mia roçando minhas pernas. Pula no meu colo. Dizem que os
gatos sente o que se passa com seu dono. Será? Duvido, digo levantando-me. Não
sou seu dono. O coitado pula para o chão miando. Abaixo zíper. Rego as plantas.
Visualizo uma boca enorme. Grande. Descomunal. O prazer enrijece o membro.
Fecho o zíper. Com isso a boca desaparece. Merda não pertenço a esse lugar. E o
que eu faço aqui? Dois meses depois vou embora.
domingo, 29 de março de 2020
Diário 4.
Desenfreado
isso é o que eu sou. Escrevo desenfreado onde o nada me acontecera se não
conciliar as ações numa orgia de sentimentos insanos. O inverno congela as
direções do corpo pouco se importando se isso ou aquilo possa me suceder. O
fone preto permanece suspenso em minha mão. Indeciso descubro que não
tenho coragem para ouvir a voz de barítono no lamentoso chororô. O frio lança o
silêncio como faca cortando as postas de carne. Repouso os dedos no vidro da
mesa ao lado da esferográfica. Não preciso de muito para ser feliz. A manhã
ensolarada muda o ambiente. Whisky, é de Whisky que me sirvo em plena amanhã
bonita de luz. No armário da cozinha o vazio alimenta a fome, na geladeira o
frio congela os espaços sem se importar se estou faminto ou não. Preciso
eliminar a palavra preciso só assim conseguirei a precisão dos loucos momentos.
Sou feliz com pouco. Como a vida é uma espera disso ou daquilo, perco sempre o
instante em que posso agarrar o pulo do gato. Será que ter a companhia de um
felino me faria bem? Não sou titia solitária ou estou me tornando uma?!
sábado, 28 de março de 2020
Rádio 5
O
corpo estirado na cama do hotel barato me espera. A espera de novo. A maldita
espera sempre. O pensamento resvala nos contornos do corpo à procura de nos
atos purificar-se. Há a dificuldade em controlar os desejos e anseios
desenfreados dos atos. Ele não se importa de mais uma vez ficar à espera,
se se importasse, creio eu, já teria ido embora. Porra, não tem como
fazer as coisas certas, tem? Contorço- me, pelo menos numa tentativa fracassada
em fazer a coisa certa. Não tem como! Existe no pequeno ato de urinar uma
tristeza em ser o que apenas quero e não ter o poder de transformação.
Como a canção em rotação melosa em um romantismo às avessas, feito algo de
decepção que não consigo evitar. O que devo fazer? Talvez nada. Porque isso
tudo não depende de mim. Existe uma série de agravantes que se acumulam
no dia-a-dia que vem junto com pessoas que nos rodeiam e que nos amam e que
amamos. Um pingo de urina fica na borda da bacia. Acho graça. O que dirá
a pessoa que vier limpar ao ver o pingo de urina, os lençóis amarfanhados, camisinha
no lixo, toalhas molhadas... Talvez nada, sua necessidade financeira lhe toma o
tempo com pensamentos individualistas de sobrevivência. Ao abrir a porta do
banheiro, um sorriso, creio que indagador, deixa- me envergonhado e antes que
reformule a pergunta embaraçosa, jogo- me na cama ao seu lado e beijo seu
rosto. Num abraço afundamos um no outro ouvindo a voz do Chico Buarque ao
longe falando em palavras. Palavras! No momento onde o sons se misturam
num amálgama de vozes, fala, gemidos, portas batendo,
televisão, choro, não há necessidade de palavras. O corredor vazio deixa
o som mais nítido. Deixa meus nervos fracos na ansiedade em ser do que em
ter. Percorro o corredor e assustado vejo que estou nu. Volto para o quarto e o
encontro vazio.
sexta-feira, 27 de março de 2020
Rádio 6
Despertei
angustiado. Era realidade? O quarto vazio. Silêncio. Estantes de segundos
apavorei-me. Esperei ouvir algum som, algo que dissesse se era realidade
ou não. Tentei gritar sem sucesso. E então para meu alívio a porta do banheiro
abriu. Sorri e pensei em desistir, porém continuei com a farsa. Não era culpa
e, se houvesse seria sanada no decorrer do tempo. Feliz. Estava ao lado
dele e ele ao meu lado novamente. Avancei quando saímos da aquela espelunca.
Preciso salvar-me dele e ele de mim. E então o que não esperava
aconteceu. Por algum motivo, destino ou não, despreparado talvez, não percebi,
ficamos longe um do outro. Calmo suspirei. Salvei-me dele e ele de mim. Passei
a viver para mim e ele a viver para ele tão somente, despreocupado sem a
interferência um do outro. O que tornou-se agradável, tanto para mim quanto
para ele. Refazíamos o dia-a-dia da forma que deve ser, pronto para o que desse
e viesse. E nesse o que desse e viesse cai na rotina de apenas ser e mais nada.
Sem um significado que não fosse a não ser eu mesmo. Monotonia absoluta. Prazer
de respirar, viver um dia após o outro, viver o essencial milagrosamente, eis o
verbo: viver! Viver gritava meu eu. Viver gritava a minha pele. Viver gritava
minha alma. Viver pulsava o meu sexo. Viver intenso ou não viver. O não estar
aqui desfalecido mijando ininterruptamente o que não existisse mais o que
mijar. Agonia passou a ser o lema dos meus passos. Agonia conduziu meus espaços
entre fileiras de rostos, mãos, peitos, pernas, sexo e buracos sem prazer, sem
desejos. Bebi choro engoli lágrimas doces de insatisfação. Perdi o tesão.
Perdi o membro num orifício qualquer por desleixo, por não enrijecer mais. A
partir desse momento deixei de ser o que era para me tornar o que sou: pária de
mim mesmo. Zumbi descontrolado exposto...
quinta-feira, 26 de março de 2020
Rádio 7
Quatro
horas de conversa foi mais que suficiente para se falar sobre sexo, política,
cinema, televisão, filosofia, sociologia, umbanda, macumba, sondagem,
sadismo, masoquismo, pedofilia e derivados afins e, depois de consumidas doze
cervejas e várias caipirinhas, foi que ele disse autoritário, preciso ir,
estou atrasado e não sei mais o que, tudo bem, fazer o que, talvez seja
romântico tímido, tudo pode ser, porra, poderia ter sido mais específico,
dito isto por aquilo e aquilo por isto, não ter continuado a conversa,
alimentando esperanças ao dizer : preciso ir, estava era confirmando simplesmente
que não foi com a tua cara, não gostei, não estou afim, não é minha
expectativa, sei lá o que , apenas disse: preciso ir, sem mais nem menos,
na lata, de uma hora para outra, no meio da conversa, decepcionou, ele viu a
decepção no meu rosto, é para broxar qualquer um, porra e foi ele bamboleando o
corpo podre de frustrado com alguma coisa que não se sentiu bem e não quis
dizer, merda, fiquei com o meu corpo decepcionado com a falta de expectativa de
um ser que não tem o direito de agir assim, fiquei aqui com o tesão no
meio das pernas, tudo bem quem sabe na próxima vez sabendo que não haverá a
próxima porra nenhuma, nessa descrença, creio que não haverá próxima vez merda
nenhuma, podia pelo menos ter pago a metade da conta, os vinte litrão de
cerveja, caralho, digo ao garçom que não tem nada com isso e que sorri
lindamente com o sorriso hétero machista que bate na mulher como quem bate
punheta e não tem culpa pela minha falta de sorte, espera aí, sorte, por que
falta de sorte, creio que não, talvez uma estratégia mal sucedida, uma
abordagem não direcionada ao ponto nevrálgico da questão e também por fazer de
um encontro uma expectativa muito grande, isso não é falta de sorte, é uma
ilusão confiante em que daria certo e que a merda da procura se encerraria
nesse encontro e que viveria feliz para sempre, merda, merda, merda, merda...
quarta-feira, 25 de março de 2020
Rádio 8
Ao olhar o copo constatei que ele não me entendera ou, talvez, não queira
me entender ou se fizesse de desentendido, o que me deixou com raiva, no
entanto não disse nada, enchi o copo. Bebi devagar saboreando a cerveja
lentamente. Não posso deixar que a ansiedade me domine novamente, por isso,
levantei-me e passei a caminhar rente a parede do bar de um lado para o outro.
Ele me olhou constrangido e envergonhado, pois sabia que não tenho que lhe dar
explicações, o que deve fazer é voltar, disse a ele. Tudo bem que sua vinda foi
uma bela surpresa e que esses dias foram maravilhosos, mas não posso aguentar a
pressão dos dias que me faltam. Terei de suportar sozinho, não posso. Voltei a
sentar. Me olhou com o olhar perdido na desesperança de existir. Disse a ele
que não era essa a maneira, mas não me ouve, passa os dias concentrado no que
não deve. Deixei de me importar com o que devo ou não. Nisso um temporal ameaça
cair aos sons de trovões e raios sacudindo nervos à flor da pele. Também ele
bebe, não como eu, mas rápido na limitação do poder que envolve o que ele é. Numa
economia de gesto sua mão pousa sobre a minha que assim que sua pele toca a
minha, retiro a mão. Ele me olha agressivo, creio que não esperava minha reação,
talvez acreditasse que ainda somos um do outro, o que deve estar cansado de
saber que não sou dele e nem ele é dono de mim, nunca fomos. Mas estávamos um
aguentando o outro. Precisava quebrar aquela realidade insuportável para criar
uma outra que não estivesse ele. Teria de caminhar com cuidado, colhendo
pequenos instantes sem me preocupar com as consequências. Assim, paguei a conta
e saímos do bar. Na rodoviária demos um beijo rápido de despedida. Ele entrou
no ônibus e não esperei pela partida. Me dirigi a plataforma do metrô. Dessa
maneira finalizei mais uma etapa da minha vida. No momento que as portas se
fecharam, tive a certeza de que estava só novamente e assim ficarei até o meu
último suspiro.
terça-feira, 24 de março de 2020
A noite devorou...
Ao
poeta Cristiano Contreiras.
“A noite devorou o mundo”, ele disse ao clique
da máquina, e, audacioso caminhou com passos certos pelas ruas do mundo. Colheu
na palma da carne a noite iluminando sua alma carregada de esperança na vida,
na alegria, na paz e calma na certeza de noutro dia, caminhar mais uma vez na
noite devoradora. Sorriu, pois trazia no peito a luz das luzes alimentadora dos
poetas perdidos em devaneios poéticos.
“Não sou poeta”, ele respondeu ao vazio das
ruas, e o vazio das ruas respondeu: Aquele que tem na essência das palavras o
seu conteúdo, é poeta, assim como os poetas tem na alma a essência do mundo. E
mais uma vez feliz ele sorriu.
segunda-feira, 23 de março de 2020
Atrás do banheiro azul.
Olhou por cima do
ombro do namorado e disse:
- Esse azul.
- O que tem o azul?
- perguntou o namorado virando a cabeça.
- É o tom que você
gosta.
- Sim, mas está
sujo, desbotado, malcuidado.
- É verdade.
- Lembra quando nos
conhecemos?
- Sim, como posso
esquecer.
- Aquele azul
intenso parecia brilhar mais que o sol.
- E você registrou
aquele momento numa foto espetacular.
- Que agora está
pendurado no seu quarto. Sempre gostou do azul.
- Sim, desde pequeno.
- Cor do mar,
tranquilidade, paz...
- Até pensei em
fazer um estudo sobre essa cor...
- Na Índia se não me
engano representa luto.
- Em cada país
representa uma coisa.
- Que horas?
- Meio dia.
- Está na hora,
vamos, você prometeu.
- Não sou um
Lannister, mas pago minhas dívidas.
- Está assistindo
essa porcaria ainda?
- Game of thrones?
- Claro, o que mais
poderia ser.
- Sim, estou, sabe
que esse seriado é um dos melhores... falta uma temporada para terminar.
- Até que enfim.
Eles chegaram, eram
mais ou menos umas dez pessoas.
- É aqui?
- Sim porque?
- Atrás do banheiro
azul.
- Das outras vezes
ficamos aqui também, não tão perto do banheiro, mais perto daquelas árvores.
- Mas veja. O lugar
está ocupado pelo que parece ser uma família.
- O parque está
movimentado hoje.
- Nem parece que
estamos no inverno, olha o sol! Por isso que o parque está cheio.
- Vamos para outro
lugar?
- Não vamos ficar
aqui.
- Acho melhor irmos
para outro lugar.
- Porque?
- Olhe.
- Uma camisinha?
- E povo porco.
- Isso é vida.
- Sujeira?
- Também.
- Se formos para
outro lugar temos que avisar o pessoal que não chegaram.
- Não deixe de
avisar o Cronista.
- Ele vai ser o
primeiro, não quero ficar sem a crônica dele.
- Alô.
- Alô.
- Onde você está?
- Na Brigadeiro
ainda.
- Vai demorar a
chegar.
- Acho que sim,
houve um acidente com um carro e um ônibus... nâo, não com outro ônibus, o
carro e o ônibus estão atravessados na avenida, entende?
- Entendo. Olha
estamos mudando de local, certo? Porque? Depois te falo. Assim que chegar no
Parque me liga para te passar onde vamos ficar. Não, não vamos ficar mais atrás
do banheiro azul. Ok. Até mais.
- O que houve?
- Ele está preso num
acidente.
- Com ele?
- Não com outro
veículo. Que horas?
- Duas horas.
- Vamos?
- Sim, vamos.
O menino que estava
com a bola, bateu na parede azul e confirmou:
- Aqui está bom.
- Aqui também está
cheio.
- Não tanto como nos
outros lugares.
- Não temos espaço
para chutar.
- A bola batendo na
parede é gol, está bem?
- Ok.
- Eu fico no gol
primeiro.
- Está bem.
O menino colocou a
bola no chão, deu distância, se afastando de costas, pisou em falso numa pedra,
não deu tempo de evitar e acabou caindo em cima do bolo de aniversário da pobre
menina que começou a chorar.
Ele segurou a mão
dela levando-a a se encostar na parede azul do banheiro.
- Escuta...
E em seguida a
beijou intensamente.
- Você sabe como
está difícil, não é?
- Sei.
- Então precisa ter
mais paciência.
- Escuta branquela
do meu coração. Te amo. Ouça o que te digo: TE AMO.
- Também te amo,
negão.
- Não fale assim.
- Porque.
- Fico excitado e
sou capaz de jogar você no chão e te co...
- Cala a boca,
negão.
- Loirinha, eu sei o
que está se passando, mas escuta, você é de maior de idade pode fazer o que
quiser.
- Sim, eu sei. Gosto
muito da minha família e me casando com você eles vão se distanciar de mim, e
não vou vê-lo mais. Isso dói para caramba. Meu pai até me disse que não serei
mais filha dele.
- Não acredito que
ainda existe isso.
- Pois é.
- Ainda bem que não
tenho pais, sou sozinho.
- Acho bom só
casarmos no civil.
- Por mim, posso
casar onde você quiser, até no inf...
- Para negão, não fale
besteira.
- Está bem.
- Vamos embora.
- Será que ele está
seguindo a gente?
- Não sei.
- Vamos parar aqui.
- Encostemos naquela
parede azul.
- Atrás do banheiro?
- E daí?
- Lá vem ele.
- Não olhe.
- Passou.
- Vamos atrás dele.
- Opa!
- Você parou, não
esperávamos que parasse.
- Estava seguindo
vocês duas.
- Sabemos.
- Estão afim?
- Claro que estamos.
- Mas somos duas...
- Ah entendi, nada
de três...
- Sim, somos meninas
comportadas.
- Entendi. Estava
com um amigo, vamos procurar por ele.
- Legal. Vamos
então.
- Paremos aqui.
Andamos o dia todo.
- Então sentemos
perto da parede azul do banheiro.
- Certo.
- Quem estava em
dúvida com o que falei?
- Eu.
- Porque?
- Como podemos ser
ao mesmo tempo matéria e onda?
- A dupla fenda ela
que nos diz isso.
- Se o átomo passar
por uma fenda ele é matéria, se passar por duas fendas é onda, depende se
olharmos para o átomo.
- Espere, se olhamos
para um objeto ele é matéria, ele não vibra? Se não estivermos olhando-o está
vibrando.
- Mais ou menos
isso.
- Complicado?
- Parece.
- O átomo, se
olharmos dentro dele, veremos que os elétrons e os prótons estão vibrando.
Portanto quando há vibração há... onda. Certo?
- É acho que é.
- Nós somos o que
então?
- Carne e osso...
- Somos onda porque
somos feitos de átomos assim como todos os objetos, planta, parede azul...
- Quer dizer que
tudo é onda?
- Sim. Estamos
vibrando numa determinada onda de hertz.
- Pessoal, vamos
embora?
- Que horas?
- Vinte.
- Vamos. Já estou
cansado de andar e filosofar.
- Aqui?
- Sim aqui. Você
prometeu.
- Os Lannister
sempre pagam suas dívidas.
- Cala a boca, para
com essa bobagem. Abaixa as calças.
- E se chegar
alguém.
- Não vai chegar e o
combinado foi de transarmos nos lugares mais inusitados, não foi?
- Foi. E aquele dia
atrás da Biblioteca Municipal quase fomos presos.
- Vamos logo.
- Ei o que vocês
dois estão fazendo?
- ...
- Mijando seu
guarda.
- Atrás do banheiro
azul?
- Ele já está
fechado.
- Vamos, o parque
está fechando.
- Está bem, estamos
indo.
- Viu o que você
fez?
- Pela primeira vez
os Lannister não pagam sua dívida.
- Para de ser
imbecil.
Aos poucos a parede
azul do banheiro é engolida pela escuridão.
- Corta!
- Até que fim.
- O que foi, não
gostou?
- Sinceramente...
- Ei onde vocês vão
levar essa parede azul.
- Jogar fora.
- É foda cineasta
brasileiro e sem dinheiro, não tem nem lugar para guardar o cenário. O que
temos amanhã?
- Expansão da Luz.
- Não joguem a
parede azul vamos precisar dela amanhã.
- Não vamos.
- Porque?
- Eles acharam um
local.
- Onde?
- No Parque do
Ibirapuera, atrás de um banheiro azul.
- Esse Expansão da
Luz são aqueles doidos de mecânico não sei do que, onda, buraco profundo...
- Sim, eles mesmo, é
mecânica quântica e vácuo quântico.
- Buraco e vácuo é
tudo a mesma coisa.
- Não é não, buraco
tem fim, é finito e vácuo quântico é infinito.
- O que um cineasta
tem que passar para sobreviver.
- Escuta, posso dar
uma opinião?
- Pode claro, você é
meu assistente pra que?
- Esse filme que
acabamos hoje não gostei.
- Porque?
- Não sei, achei
fraco, principalmente na cena dos peripatéticos.
- Eu gostei.
- Então. Os caras da
Expansão da Luz não querem nada de extraordinário, apenas que registre o
encontro, simples. Então não precisamos levar toda a parafernália, levamos
apenas a câmara e o microfone, e você capricha nas tomadas, nos ângulos
inusitados, nas falas e ao invés de colocar Atrás do banheiro azul no festival,
coloca esse com os doidos da Expansão da Luz.
- Olha até que é uma
boa ideia. Hoje à noite farei um roteiro caprichado.
- É isso aí.
- Até amanhã,
estrupício.
- Até amanhã,
estrupício mor.
domingo, 22 de março de 2020
Bom dia 01.11.2018
É bom dia.
Onze de Novembro!
Já! Que coisa, um mês para o Natal.
Onze de Novembro,
dia de todos os santos o dia inteiro, é o que aparece no canto esquerdo, na
parte de baixo da tela do computador, o dia inteiro, lógico que é o dia
inteiro, queria que fosse só até o meio dia ou até as 17 horas...
Bom, o caso é o
seguinte, hoje dentro das evidências que movem as pessoas nesses momentos, não
sei se seria uma boa mandar os meus bons dias por WhatsApp, não seria de bom
tom, seria uma forma de impor sem saber se a pessoa queira receber essas mal
traçadas linhas. Antigamente o e-mail era mais usado, era e-mail para todo e
qualquer lado, hoje acho que é só usado em casos necessários ou para serviços.
Antes não, mandava meus bons dias por e-mail, e como o pessoal morria de medo
de serem infectados por vírus via e-mail! Nossa! Isto porque mandava-se tudo,
até a mãe se fosse possível, era foto, música, HTML que era e-mail com foto,
texto, sons e havia alguns que vinha com luzinhas piscando, imagens de vários e
de todos os tipos, então o terror de se receber um vírus, era terrível. Hoje só
recebo lixo, propagandas, spam, notificações do face ou do YouTube... Gozado
como as coisas surgem e desaparecem sem que percebamos. ICQ era o top, Orkut,
Skype, surgiram, tiveram seus momentos de glória e caíram no esquecimento. Até
quando o Facebook, o Messenger – pouco usado, mas está aí – vão permanecer...
Ou nós, até quando permaneceremos, não é?
Até
sábado, 21 de março de 2020
Se você acredita vai fundo, querido.
— Como se fala besteira em
festa de casamento você nem imagina! Aliás, não se fala, berra, é preciso berrar
para ser ouvido. E, no entanto, entre um som e outro, entre uma voz e outra,
entre uma palavra e outra, entre uma sílaba e outra, entre uma música e outra,
e até mesmo entre um gesto e outro, há o silêncio, o silêncio cortante que não
significa nada para ninguém, mas para você significa o peso todo da festa, do
povo que sem se importar, bebe, come, dança, se embriaga, gira, vai de um lugar
a outro e não está nem aí com o que está acontecendo com você. Esse silêncio
deprime, mata. É horrível.
Ricardo abriu o vidro e cuspiu
para fora toda a raiva mórbida que se apossava dele. Olhou para Carlos que
prestava atenção no que ele falava sem tirar os olhos do que acontecia a sua
frente.
— E como você conseguiu
trabalhar com isso? — perguntou Carlos depois de mudar a marcha do veículo
olhando-o rapidamente.
— Pois é, tive que trabalhar
com isso. E não foi algo que eu descobrisse instantaneamente, depois de um
certo tempo é que percebi, eu não estava naquela balbúrdia. Foi no momento da
valsa, ao dançar com a noiva é que notei o silêncio e, então descobri que podia
sair vitorioso dessa batalha: era só me embriagar.
— Estou vendo.
Carlos olhou para Ricardo que,
com muito custo, conseguia manter os olhos abertos. Numa carícia pousou a mão
direita na coxa esquerda do amigo. Ricardo não se importou, pegou a mão do
motorista e levou-a ao peito beijando-a. Em seguida fechou os olhos e tombou a
cabeça no ombro de Carlos que disse em seu ouvido:
— Cu de bêbado não tem dono.
Devagar, quase soletrando
Ricardo respondeu:
— Vá em frente, não se acanhe,
querido.
Carlos acariciou o rosto do
amigo e sorriu satisfeito.
Carlos lembrava quando se
conheceram. Era um sábado. Raramente trabalhava de madrugada, mas naquele dia,
saindo de um encontro com os amigos, resolveu trabalhar, com uma condição:
atenderia a chamada se fosse para os lados de sua casa. Assim que ligou o
celular, apareceu a chamada de Ricardo. Não era bem para os lados do seu
bairro, mas, como estava perto, atendeu. Ao chegar ao local, encontrou Ricardo
abraçado à árvore. Assim que parou o carro, surgiu uma pessoa e ajudou Ricardo
a entrar no carro. Carlos não prestou muita atenção na pessoa.
— Leve-o direto para a casa
dele, sim? — E enfiando a cabeça para dentro da janela, disse: — Ricardo,
cuidado: cu de bêbado não tem dono.
— Engraçadinha, cuida da tua
vida.
Respondeu, vexado, fechando o
vidro.
— Não ligue para o que ela
disse.
— Nem ouvi.
E logo em seguida caíram na
risada. Momentos depois ao virar para entrar numa rua, Carlos perguntou:
— E então, é verdade?
— Verdade o que?
— Que cu de bêbado não tem
dono?
— Se você acredita nisso vai
fundo, querido.
Carlos ficou sem jeito, não
esperava uma resposta direta. Mudou a marcha e acelerou o carro. Durante o
trajeto Ricardo com a voz pastosa desfilava a inquietude sobre casamento.
— Cara, você não sabe o que é
casamento. É um peso que se deve carregar, talvez para o resto da vida. É uma incongruência
insuportável.
— Mais um motivo para não me
casar.
— E há o silêncio como coisa
amorfa que carrega todos de um lado para o outro, um peso angustiante em que
você olha para as pessoas e não acredita que está numa festa de casamento, que
duas pessoas se uniram para, talvez, daqui um ano, dois anos ou dez anos depois
se separarem, e se estiverem financeiramente bem, então é o caos, é briga sem
fim, e sempre é um dos lados que leva a pior. Percebeu isso?
— Não, não tenho paciência
para essas coisas.
— Faz bem.
Dois minutos depois, com a
cabeça encostada ao vidro da janela, Ricardo dormia. Carlos, pelo retrovisor,
olhou Ricardo todo esparramado no banco. Ainda bem que Ricardo não morava muito
longe, chegaram logo.
— Ei, acorda, Ricardo. Chegamos.
Ricardo, como se estivesse
perdido, por um momento ficou sem saber o que fazer e, com muito custo, abriu a
porta do carro e deslizou para a calçada, ficando com uma perna dentro do
veículo.
— Você está ruim mesmo, hein,
cara? Deixa eu te ajudar.
Com muito custo, colocou
Ricardo em pé.
— Por favor, se não for te
pedir muito, me leve até o meu apartamento.
Com o braço direito de Ricardo
em volta do pescoço, praticamente arrastando-o, Carlos conseguiu chegar ao
elevador.
— Que andar?
— Ahn?
— Andar, que andar?
— Décimo oitavo.
— Caralho, o último.
— Acho que vou vomitar.
Sem dar tempo de se esquivar, Carlos
recebeu o jato de vomito em seu peito. A camisa e calça ficaram sujas pela
gosma fedida e quente molhando-o todo.
— Puta que pariu, cara.
Gritou empurrando Ricardo que
escorregou pelo chão do elevador como um boneco entregue à própria sorte.
Carlos, puto, quis bater, socar, chutar Ricardo, chegando ao ponto de larga-lo
dentro do elevador e ir embora. No entanto, engolindo a bronca com dificuldade,
arrastou-o para dentro do apartamento e a primeira coisa que fez foi levá-lo
para debaixo do chuveiro com roupa e tudo. Em seguida jogou-o na cama e, despindo-se,
desabou ao lado de Ricardo e caiu num sono profundo.
— Bom dia. Acorda molenga.
Ricardo entrou no quarto com a
bandeja de café que depositou no colo de Carlos.
— Bom dia — respondeu Carlos,
beijando-o.
— O que faremos hoje? — perguntou
Carlos, tomando o café. Ricardo, em pé, olhando pela janela, respondeu
suspirando:
— Nada.
— Como nada?
— É, nada.
Sentando-se na beirada da
cama, Ricardo olhou bem nos olhos do amante e com voz decidida disse:
— Sabe, Carlos, sou muito
grato em tê-lo conhecido, desde o primeiro casamento em que você foi me buscar.
Te amo demais, mas preciso acabar com tudo, festas, casamentos, formaturas, até
com o nosso relacionamento. Estou cansado de estar plantando no jardim dos
outros, tenho que plantar no meu jardim. Entende?
— Que você está cansado
entendi e estava pensando em falar com você sobre isso, mas, acabar com nosso
relacionamento, não entendi direito.
— É que tudo o que faço, eu
faço para os outros, nada para mim... até mesmo esse café que você está bebendo
é feito para você e não para mim.
— Não entendo por que acabar
com o nosso relacionamento.
— Eu disse em acabar com o
nosso relacionamento?
— Sim, disse.
Ricardo franziu a testa,
contrariado, não tinha certeza se dissera ou não.
— Tem certeza?
Carlos apontando para o peito
do amigo, disse:
— Claro que disse, rebobine a
fita...
— Rebobine a fita, essa é
velha hein?
Carlos balançou os ombros como
se dissesse:
— E daí?
— Bom, se eu disse isso, me desculpe,
não tive a intenção.
— O que você quis dizer é dar
um tempo, não é isso?
— Olha, não é bem isso.
Notando desconforto nos olhos
do amigo, sabia que vinha uma série de explicações, das quais não se chegaria a
um consenso real. Por isso, suspirando em demonstração de que tudo aquilo não
estava certo, perguntou:
— E o que é, então.
— Não sei como te explicar,
não tenho palavras certas, vou largar tudo, parar com esse negócio de promover
festas, aniversários, palestras, tudo o mais, viver um dia por vez da maneira
que eu quiser.
— Sei. E para isso precisa
romper nosso relacionamento?
— Talvez não...
— Vamos continuar pelo menos
morando juntos?
— Se estou lhe dizendo que não
quero mais plantar no jardim dos outros, como podemos continuar morando juntos?
Pois dessa maneira plantarei no seu jardim.
— E eu plantarei no seu.
— Não é bem assim.
— Como é então?
— Olha, me sinto preso ao
vazio entre as coisas, entre o sim e o não, entre isto e aquilo e isso está me
matando.
Carlos baixou os olhos já
sabendo o que veria depois.
— E o que pretende fazer?
— Pegar a estrada sem rumo, ir
aonde o meu instinto achar que devo ir.
— E eu como fico?
— Se há amor, você me
esperará, assim como, se há amor em mim eu voltarei.
Carlos raivoso, levantou-se,
derrubando bandeja, copo, pão, e, sem se importar, gritou, entrando no
banheiro.
— Se é assim que você quer,
tchau e boa viagem, mas, uma coisa lhe digo, não sei se até você voltar, se
voltar, o que acredito que não, o seu lugar poderá estar ocupado por outro.
Dois dias depois, Ricardo
partia para aquilo que nem ele sabia o que era. E no ano seguinte, Carlos
recebe pelo correio os pertences do amigo e um comunicado informando que
Ricardo faleceu em decorrência de um tiro no pé devido a uma briga num bar nas
Ilhas Canárias.
sexta-feira, 20 de março de 2020
Bom dia 04.11.2018
É bom dia.
O ônibus estava
demorando. Já estavam impacientes. As duas meninas não paravam, se queixavam de
fome, sede e calor. Uma empurrava a outra para ficar no colo do vô.
- Vai prá lá
Eduarda.
- Vai você.
- O colo do vô é
meu.
- É nada é meu.
- Calma tem colo
para as duas, disse o avô paciente. Cada uma senta numa perna.
- Não quero sentar
numa perna, respondeu a Manoela.
- Mas que tanto
querem o colo do vô. Caramba! Que gosto tem o colo do vô?
- Tem gosto de
morango, respondeu a Eduarda.
- Tá Eduarda, gosto
de morango. Lá vem o ônibus, vamos.
E assim os três
entraram no ônibus. E o dia continuou no seu correr do tempo.
Até...
quinta-feira, 19 de março de 2020
Bom dia 31.10.2018
É bom dia.
É o que estou
pensando em fazer novamente. Todos os dias de manhã escrever o que for, o que
me der na telha escrever como fazia quando trabalhava. Só que agora não tenho
aquele arco de acontecimentos que havia entre minha casa e o serviço, isto é,
não pego mais ônibus, metrô, avenida Paulista, a bela avenida, os horários de
almoço, quer dizer, não tenho o vasto material que me fazia, me instigava a
escrever, sei o que vão dizer, agora você tem outro tipo de material e, o que
me apavorava, tempo, você agora tem tempo, certo, tenho tempo e bastante, mas
acontece que esse tempo me leva a fazer muitas coisas que antes não fazia e não
vou entrar em detalhes aqui porque não é necessário e, por outro lado, se não
tinha bastante tempo, e no entanto o pouco que eu tinha empregava em escrever e
enviar ao pessoal como uma forma de um bom dia.
Bom, por hoje vamos
ficar só nisso, vamos ver o que acontecerá futuramente, apesar que futuro,
passado e presente é uma coisa só.
Até...
quarta-feira, 18 de março de 2020
Chinesa
Passava das trezes horas e quinze minutos.
O ônibus demorava.
O pessoal se impacientava.
Ele procurava acalmar as netas inquietas.
- Vô prende meu cabelo num coque. – pediu a
Manoela.
Paciente prendeu o cabelo da neta.
- O que está fazendo, Manoela.
- Pegando um lápis, vô.
- Para que?
- Vou ser chinesa.
- Chinesa?
- É vô.
E pegando o lápis enfiou no cabelo,
precisamente no coque.
- Pronto, vô. Sou uma chinesa.
- Tá certo, Manoela.
Virando para a Eduarda, ela disse:
- Eduarda, prende o cabelo, vira chinesa assim
você pode ir pra China.
- Não quero. – respondeu a irmã.
- Isso mesmo, vamos para China, até que fim
está vindo o ônibus.
E assim, embarcamos todos para a China.
terça-feira, 17 de março de 2020
Como é bom estar entre loucos!
- Encontro Quântico?
- Sim.
- O que é isso?
- São estudantes da Mecânica Quântica que se
reúnem para debater, se esclarecerem, se iluminarem.
- Eu hein! Mecânica Quântica?! Debater,
estudar, não sou louco.
- Vamos?
- E perder o jogo da Copa! Ocê pirou na
batatinha né não!
- Ok bom jogo para você então.
- Vai doido encontrar tua turma.
E assim, no domingo acordei antes das noves e,
pela decima vez consultei o Google Map e localizei o endereço. A sorte que
alguém um dia antes dissera no WhatsApp que ao chegar na Estação do Metrô
Mariana, deveria virar à direita e pegar a saída para a Rua Domingos de Morais.
O que não foi difícil. Até aí não houve dificuldade. A dificuldade foi calcular
o tempo que levaria da minha casa até o Espaço Niss, na Rua Capitão Cavalcante.
E a manhã toda fiquei pensando que horas sairia para não chegar muito cedo,
pois minha ansiedade me faz sempre ser o primeiro a chegar aos encontros, sejam
eles quais forem. Portanto calculei um horário e ao meio dia e quarenta e cinco
sai. Subi a Avenida Aliança, até a Avenida Cangaíba e peguei o ônibus Metrô
Penha. Nem vinte minutos depois descia na plataforma do metrô e depois de uma
baldeação na Sé, tomei o que ia para a Estação Mariana. No trajeto da Sé para
Mariana, entrou no trem um senhor guiando um cadeirante solicitando ajuda. Lamuriando
dizia que a pessoa não podia se mexer, precisava de ajuda para tudo, até para
ficar sentado era necessário amarrar o coitado, que sozinho, não tinha ninguém
que o ajudasse... Aí mentalmente pensei: e como você está ajudando, nesse caso
tem você. Passaram por mim e na estação seguinte desceram. Foi fácil achar a
Capitão Cavalcante, uma rua estreita, com diversas casas até que atraentes. O
cento e setenta e um ficava bem no termino da descida que não era muito grande.
A casa, pois era o que parecia, se não me engano, amarela, com dois portões, um
grande para carro e um pequeno. Tentei o grande estava fechado, o pequeno
também, mas tinha um interfone que ao pressionar foi destravado. Entrei e
perguntei para o senhor sentado atrás da mesa numa pequena sala.
- Encontro Quântico...
- Lá embaixo.
- Obrigado.
Desci uma pequena rampa e a primeira pessoa que
me cumprimentou foi a sorridente e bonita Ariadne:
- Olá, Osvaldo, você veio, que bom.
- Olá, tudo bom.
- Fique à vontade, estamos dando os últimos
preparos para o encontro.
- Cheguei cedo, não é?
- Não tem problema. Se quiser subir e esperar
lá em cima a vontade.
- Ok, vou esperar lá em cima então.
- Ah, vem cá. Coloque isso, seu nome.
E me deu um pedaço de papel adesivo com meu
nome que eu coloquei na camisa. Bem pensado isso, evita de perguntar:
- Oi como é seu nome? Sou Osvaldo, prazer.
Assim a pessoa já chega:
- Olá, Osvaldo tudo bem?
- Tudo bem, Gerusa.
Entrei no ambiente e estavam três pessoas dando
os ajustes das músicas que iriam apresentar. Me desculpe, mas não lembro o nome
do rapaz que estava na percussão, a Nina num violão e o João Cássio em outro
cantavam. Fiz um pequeno cumprimento para o João e fui me sentar nas últimas
fileiras, não gosto de ficar em evidência. Depois de uns cinco minutos troquei
de cadeira e sentei encostado na parede quase embaixo do ar condicionado. Assim
que acabou os ensaios João veio me cumprimentar:
- Olá, Osvaldo, tudo bem?
- Tudo bem, e você? Não sabia que estavam
ensaiando.
- Que isso. Senta-se mais na frente.
- Aqui está bom.
- Ah! Gosta do fundão.
Ri e ele pediu licença e saiu. As pessoas foram
chegando, se cumprimentando e se sentando. Notei que a presença feminina era
maior, homem não gosta dessas coisas de louco, não é. Dali a pouco, a Mariane
empunhando o microfone anunciou a primeira atração, uma meditação sob a batuta
do Mestre João Cássio deixando o ambiente e as pessoas conectadas com o que
seria apresentado ali. Depois, Mariane anunciou o estudo do livro Mentes in-informadas
– penso que seja isso, perdoe se estou errado -, apresentada pela Adriana que
com sua voz iluminada explicou vários itens como paradigma, auto sabotagem,
arquétipos e outros itens relevantes para expandir da luz.
Depois a Taróloga e Terapeuta Maat Menkeru numa
desenvoltura de fazer inveja ao tímido mais tímido, discorreu sobre seus
estudos e como ela se formou em taróloga, terapeuta e reprogramadora mental. Assim
que a Maat terminou seu depoimento, foi anunciado que embaixo das cadeiras
tinha algo que era para nós. De repente estavam todos eufóricos em achar o que
diziam ser para nós, e encontramos uma tira de papel com uma palavra. A minha
estava escrito CARIDADE, assim que li me veio à mente o cadeirante no metrô e,
era para trocarmos o papel com a pessoa ao lado e abraçarmos. Como o rapaz que
estava ao meu lado, trocou o seu com a pessoa a frente dele, eu troquei o meu e
abracei a Nina que sentara atrás de mim e, coincidência ou não, no papel dela
estava escrito AMIZADE, palavra que eu escolhi no piquenique quântico.
- Pensei que você fosse o dono do local ao ver
sentado aqui, disse Nina ao me abraçar.
- Não. É que cheguei cedo mesmo e desculpe se
atrapalhei o ensaio.
- Não atrapalhou nada.
Se não estou engando, em seguida foi o coffee
break. Porque usar termos inglês: coffee break, para mim é intervalo para o
café. E vou dizer uma coisa, estava perfeitamente caprichado, café, chá, suco,
sanduiches, e agradáveis conversas, uma pausa para nos conhecermos um ao outro.
E uma descoberta surpreendente: Adriana poeta. Pendurados por vários lugares
diversos poemas da Adriana com profundo conteúdo quântico, muito bons.
Terminado o intervalo para o café, subimos para ouvirmos a palestra final,
talvez a mais esperada até o momento, onde o casal simpático Marli Fabreti e
Ricardo Maraia falaram sobre Relacionamento e o amor quântico, esclarecendo e
informando as dúvidas e questões amorosas com argumentos sólidos e exemplos
vivenciados por eles. E por fim, a apresentação da bela Nina com suas
composições e canções levando o pessoal a dançar. Assim, passei mais um domingo
doido entre loucos e queridos. Após o que me despedi de todos e comecei meu
caminho inverso, isto é, subi a Capitão Cavalcanti, tomei o metrô e novamente
fui surpreendido por um pedinte. Um senhor de mais ou menos, quarenta anos, com
uma máscara no rosto, e um bolsa cirúrgica pendurada na cintura, mostrando um
pouco sua barriga pedindo ajuda, dizia estar com câncer e que não tinha como
viver. Olhei para ele com um pouco de indignação e lembrei da palavra que tinha
pegado embaixo da cadeira: CARIDADE. Fiquei matutando sobre isso, caridade,
tenho que fazer caridade era o que as circunstâncias estava me dizendo. Mas
como se ainda não me julgo, não caridoso, sou caridoso, mas não ao extremo,
digno de fazer caridade, pois já me aconteceram tantas coisas em relação a
pedintes que... acho que por isso me travo, como por exemplo: trabalhava no
Conjunto Nacional e um dia vendo a vitrine da Livraria Cultura uma senhora
segurando uma criança pela mão, cutucou meu ombro. Estavam até que bem
arrumados.
- Por favor, poderia ajudar, viemos de longe
para fazer um exame no meu filho e não tenho dinheiro para voltar, qualquer
coisa que puder dar, dinheiro, ticket restaurante, estamos o dia inteiro sem
comer.
Estava levando a mão na carteira, quando
desisti.
- Sinto muito, minha senhora, não tenho.
Ela agradeceu e foi embora. Dias depois, não
sei quantos dias, essa mesma senhora, com o mesmo menino, cutucou o meu ombro.
Me virei e quando a vi eu disse:
- Como! Ainda não conseguiu voltar para a sua
cidade?
Ela ficou vermelha me reconhecendo, virou as
costas e foi embora rapidamente. E talvez, também, por coisas que ouço:
- “Fulano vivia mendigando e descobriram que
ele tinha carro e mansão do outro lado da cidade”. “Você viu aquela velhinha
que vivia pedindo esmola na estação? Então quando ela morreu acharam um monte
de dinheiro embaixo do colchão dela”. E por aí a fora. Sei que um dia vou
romper esse travamento... Chegando na plataforma da Sé, na linha vermelha
presenciei um fato inusitado.
Não o fato em si, mas pelos dois rapazes, bem
se é que posso chamar de rapazes, não sei. Acho que não tinham nem doze anos ou
quatorze anos, eles batiam no meio do tórax, aos beijos e abraços numa boa, não
estavam nem aí.
Já vi duas lésbicas nessa mesma plataforma, já
vi gays, mas não aos beijos como estavam aqueles dois. A primeira coisa que
veio à mente foi se trombassem com algum homofóbico o que aconteceria. Bem, sentei-me
e cai numa modorra e quando vi já estava no meu destino.
E assim, passei um belo domingo entre loucos
queridos.
Assinar:
Comentários (Atom)
Vazia.
Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...
-
Bloquinho Amarelo Creio já ter escrito o suficiente. E ainda tenho...
-
chtgpt Criar o gesto, acompanhado da fala — oral ou escrita — é pulsar vibrações ao redor, orientando ou manipulando quem está por perto. A...
-
na sua infinita pequena grandeza a borboleta abre as asas e beija a natureza espalha o pólen da beleza fecundando o ci...