terça-feira, 31 de março de 2020

Rádio 2


Enquanto procuramos a cura um do outro esquecemo-nos debaixo dos lençóis. E nas esquinas sujas de humanidade há sempre o desejo de caminhar. Mas para onde? Não me reconheço sou um estranho entre estranhos nesse amontoado de corpos vagando meramente. Entro no primeiro bar que me aparece. Peço uma cerveja. Despejo o líquido amarelo num copo mais amarelo ainda. Procuro devolver a cerveja, mas me vejo tomando mecanicamente um longo trago. A bebida queima mais que pinga destilada. Arroto. Olhares reprovadores cai em cima de mim. Sussurro um desculpe apagado e os olhares voltam aos seus afazeres. Bebo até o último gole e recuso outra cerveja que o garçom me oferece. Tenho que caminhar e para que, pergunto? Caminho porque é necessário chegar em algum lugar. E realmente, para meu desagrado chego. Olho a porta do apartamento indeciso que, tão logo abro a porta, sinto o cheiro de mofo e azedo. Meio ano fora foi suficiente para causar esse pequeno estrago. Espirro diversas vezes. Da sala vou direto ao banheiro e debaixo do chuveiro deixo a água gelar meu corpo estéril enquanto cabelo, camisa, calça, cueca, sapato ficam ensopados. Quero que a água limpa a impureza dele encrustado em mim, como se eu fosse o puro. Depois tiro a roupa e me jogo na cama. Fito o teto enquanto a mente entra no processo de esvaziamento. Levanto-me e na cozinha pego da geladeira uma lata de cerveja. Você quando fala que não pertence ao mesmo lugar que eu, está apenas afirmando um amor conquistado. Me diz olhando no fundo do copo de cerveja. Não tem coragem de enfrentar os meus. Assim como eu, está nu encostado a pia da cozinha. Talvez seja verdade. Acontece que essa é a verdade dele e não a minha. Sim nosso amor foi algo conquistado. E, no entanto, não há a necessidade em repudiar a todo momento. Não retruco. Saio da cozinha e de repente vejo nossos corpos nos lençóis branco cinzento. Tenho pavor dos seus gemidos e das obscenas palavras. Fazemos mecanicamente amor sem emoção e luxúria, pelo menos da minha parte. Nossos olhares se encontram e o sangue começa escorrer dos seus olhos. Aterrorizado acordo todo melecado. A noite cai sobre mim e me cubro para proteger-me do frio.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Rádio 3.


Fecha-se a noite sobre mim arrepiando a pele. Devia fazer alguma coisa, meu caro. Acontece que faço e não tem mais importância saber o que faço ou deixo de fazer. Sua cavernosidade não me fascina mais. Pôr o lixo na rua não é agora da minha competência e não adianta o seu blá blá blá, estará falando para as paredes. Os vizinhos reclamam da música alta? É bom saber ou melhor, não quero saber. Louco eu? Baboseira? Hora​! Meu Deus, como é que pode ser baboseira? O caso é que essa baboseira é rock, entende, rock. Recuso ouvir. Vou para cozinha. Espremo limão com açúcar, adiciono cachaça e cubos de gelo. Bato na coqueteleira e despejo no copo. Sento no banco do jardim. Estico as pernas na jardineira. Os mosquitos e pernilongos fogem. A noite chega e não me surpreende. Deveria sair em definitivo, digo às rosas. "As rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti" . Grande Cartola, entendia do recado. O gato mia roçando minhas pernas. Pula no meu colo. Dizem que os gatos sente o que se passa com seu dono. Será? Duvido, digo levantando-me. Não sou seu dono. O coitado pula para o chão miando. Abaixo zíper. Rego as plantas. Visualizo uma boca enorme. Grande. Descomunal. O prazer enrijece o membro. Fecho o zíper. Com isso a boca desaparece. Merda não pertenço a esse lugar. E o que eu faço aqui? Dois meses depois vou embora.

domingo, 29 de março de 2020

Diário 4.


Desenfreado isso é o que eu sou. Escrevo desenfreado onde o nada me acontecera se não conciliar as ações numa orgia de sentimentos insanos. O inverno congela as direções do corpo pouco se importando se isso ou aquilo possa me suceder. O fone preto permanece suspenso em minha mão.  Indeciso descubro que não tenho coragem para ouvir a voz de barítono no lamentoso chororô. O frio lança o silêncio como faca cortando as postas de carne. Repouso os dedos no vidro da mesa ao lado da esferográfica. Não preciso de muito para ser feliz. A manhã ensolarada muda o ambiente. Whisky, é de Whisky que me sirvo em plena amanhã bonita de luz. No armário da cozinha o vazio alimenta a fome, na geladeira o frio congela os espaços sem se importar se estou faminto ou não. Preciso eliminar a palavra preciso só assim conseguirei a precisão dos loucos momentos. Sou feliz com pouco. Como a vida é uma espera disso ou daquilo, perco sempre o instante em que posso agarrar o pulo do gato. Será que ter a companhia de um felino me faria bem? Não sou titia solitária ou estou me tornando uma?!

sábado, 28 de março de 2020

Rádio 5


O corpo estirado na cama do hotel barato me espera. A espera de novo. A maldita espera sempre. O pensamento resvala nos contornos do corpo à procura de nos atos purificar-se. Há a dificuldade em controlar os desejos e anseios desenfreados dos atos. Ele não se importa de mais uma vez ficar à espera,  se se importasse, creio eu, já teria ido embora​. Porra,  não tem como fazer as coisas certas, tem? Contorço- me, pelo menos numa tentativa fracassada em fazer a coisa certa. Não tem como!  Existe no pequeno ato de urinar uma tristeza em ser o que apenas quero e não ter o poder de transformação.  Como a canção em rotação melosa em um romantismo às avessas, feito algo de decepção que não consigo evitar. O que devo fazer? Talvez nada. Porque isso tudo não depende de mim.  Existe uma série de agravantes que se acumulam no dia-a-dia que vem junto com pessoas que nos rodeiam e que nos amam e que amamos.  Um pingo de urina fica na borda da bacia. Acho graça. O que dirá a pessoa que vier limpar ao ver o pingo de urina, os lençóis amarfanhados, camisinha no lixo, toalhas molhadas... Talvez nada, sua necessidade financeira lhe toma o tempo com pensamentos individualistas de sobrevivência. Ao abrir a porta do banheiro, um sorriso, creio que indagador, deixa- me envergonhado e antes que reformule a pergunta embaraçosa, jogo- me na cama ao seu lado e beijo seu rosto.  Num abraço afundamos um no outro ouvindo a voz do Chico Buarque ao longe falando em palavras. Palavras! No momento onde o sons se misturam num  amálgama de vozes, fala,  gemidos,  portas batendo, televisão, choro, não há necessidade de palavras.  O corredor vazio deixa o som mais nítido.  Deixa meus nervos fracos na ansiedade em ser do que em ter. Percorro o corredor e assustado vejo que estou nu. Volto para o quarto e o encontro vazio.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Rádio 6


Despertei angustiado. Era realidade? O quarto vazio. Silêncio. Estantes de segundos apavorei-me. Esperei ouvir algum som,  algo que dissesse se era realidade ou não. Tentei gritar sem sucesso. E então para meu alívio a porta do banheiro abriu. Sorri e pensei em desistir, porém continuei com a farsa. Não era culpa e,  se houvesse seria sanada no decorrer do tempo. Feliz. Estava ao lado dele e ele ao meu lado novamente. Avancei quando saímos da aquela espelunca. Preciso  salvar-me dele e ele de mim. E então o que não esperava aconteceu. Por algum motivo, destino ou não, despreparado talvez, não percebi, ficamos longe um do outro. Calmo suspirei. Salvei-me dele e ele de mim. Passei a viver para mim e ele a viver para ele tão somente, despreocupado sem a interferência um do outro. O que tornou-se agradável, tanto para mim quanto para ele. Refazíamos o dia-a-dia da forma que deve ser, pronto para o que desse e viesse. E nesse o que desse e viesse cai na rotina de apenas ser e mais nada. Sem um significado que não fosse a não ser eu mesmo. Monotonia absoluta. Prazer de respirar, viver um dia após o outro, viver o essencial milagrosamente, eis o verbo: viver! Viver gritava meu eu. Viver gritava a minha pele. Viver gritava minha alma. Viver pulsava o meu sexo. Viver intenso ou não viver. O não estar aqui desfalecido mijando ininterruptamente o que não existisse mais o que mijar. Agonia passou a ser o lema dos meus passos. Agonia conduziu meus espaços entre fileiras de rostos, mãos, peitos, pernas, sexo e buracos sem prazer, sem desejos. Bebi choro  engoli lágrimas doces de insatisfação. Perdi o tesão. Perdi o membro num orifício qualquer por desleixo, por não enrijecer mais. A partir desse momento deixei de ser o que era para me tornar o que sou: pária de mim mesmo. Zumbi descontrolado exposto...

quinta-feira, 26 de março de 2020

Rádio 7


Quatro horas de conversa foi mais que suficiente para se falar sobre sexo, política, cinema, televisão, filosofia, sociologia, umbanda, macumba, sondagem,  sadismo, masoquismo, pedofilia e derivados afins e, depois de consumidas doze cervejas e várias caipirinhas,  foi que ele disse autoritário, preciso ir, estou atrasado e não sei mais o que, tudo bem, fazer o que, talvez seja romântico tímido, tudo pode ser, porra, poderia ter sido mais específico,  dito isto por aquilo e aquilo por isto, não ter continuado a conversa, alimentando esperanças ao dizer : preciso ir, estava era confirmando simplesmente que não foi com a tua cara, não gostei, não estou afim, não é minha expectativa, sei lá o que ,  apenas disse: preciso ir, sem mais nem menos, na lata, de uma hora para outra, no meio da conversa, decepcionou, ele viu a decepção no meu rosto, é para broxar qualquer um, porra e foi ele bamboleando o corpo podre de frustrado com alguma coisa que não se sentiu bem e não quis dizer, merda, fiquei com o meu corpo decepcionado com a falta de expectativa de um ser que não tem o direito de agir assim, fiquei  aqui com o tesão no meio das pernas, tudo bem quem sabe na próxima vez sabendo que não haverá a próxima porra nenhuma, nessa descrença, creio que não haverá próxima vez merda nenhuma, podia pelo menos ter pago a metade da conta, os vinte litrão de cerveja, caralho, digo ao garçom que não tem nada com isso e que sorri lindamente com o sorriso hétero machista que bate na mulher como quem bate punheta e não tem culpa pela minha falta de sorte, espera aí, sorte, por que falta de sorte, creio que não, talvez uma estratégia mal sucedida, uma abordagem não direcionada ao ponto nevrálgico da questão e também por fazer de um encontro uma expectativa muito grande, isso não é falta de sorte, é uma ilusão  confiante em que daria certo e que a merda da procura se encerraria nesse encontro e que viveria feliz para sempre, merda, merda, merda, merda...

quarta-feira, 25 de março de 2020

Rádio 8


Ao olhar o copo constatei que ele não me entendera ou, talvez, não queira me entender ou se fizesse de desentendido, o que me deixou com raiva, no entanto não disse nada, enchi o copo. Bebi devagar saboreando a cerveja lentamente. Não posso deixar que a ansiedade me domine novamente, por isso, levantei-me e passei a caminhar rente a parede do bar de um lado para o outro. Ele me olhou constrangido e envergonhado, pois sabia que não tenho que lhe dar explicações, o que deve fazer é voltar, disse a ele. Tudo bem que sua vinda foi uma bela surpresa e que esses dias foram maravilhosos, mas não posso aguentar a pressão dos dias que me faltam. Terei de suportar sozinho, não posso. Voltei a sentar. Me olhou com o olhar perdido na desesperança de existir. Disse a ele que não era essa a maneira, mas não me ouve, passa os dias concentrado no que não deve. Deixei de me importar com o que devo ou não. Nisso um temporal ameaça cair aos sons de trovões e raios sacudindo nervos à flor da pele. Também ele bebe, não como eu, mas rápido na limitação do poder que envolve o que ele é. Numa economia de gesto sua mão pousa sobre a minha que assim que sua pele toca a minha, retiro a mão. Ele me olha agressivo, creio que não esperava minha reação, talvez acreditasse que ainda somos um do outro, o que deve estar cansado de saber que não sou dele e nem ele é dono de mim, nunca fomos. Mas estávamos um aguentando o outro. Precisava quebrar aquela realidade insuportável para criar uma outra que não estivesse ele. Teria de caminhar com cuidado, colhendo pequenos instantes sem me preocupar com as consequências. Assim, paguei a conta e saímos do bar. Na rodoviária demos um beijo rápido de despedida. Ele entrou no ônibus e não esperei pela partida. Me dirigi a plataforma do metrô. Dessa maneira finalizei mais uma etapa da minha vida. No momento que as portas se fecharam, tive a certeza de que estava só novamente e assim ficarei até o meu último suspiro.   

terça-feira, 24 de março de 2020

A noite devorou...


Ao poeta Cristiano Contreiras.


“A noite devorou o mundo”, ele disse ao clique da máquina, e, audacioso caminhou com passos certos pelas ruas do mundo. Colheu na palma da carne a noite iluminando sua alma carregada de esperança na vida, na alegria, na paz e calma na certeza de noutro dia, caminhar mais uma vez na noite devoradora. Sorriu, pois trazia no peito a luz das luzes alimentadora dos poetas perdidos em devaneios poéticos.
“Não sou poeta”, ele respondeu ao vazio das ruas, e o vazio das ruas respondeu: Aquele que tem na essência das palavras o seu conteúdo, é poeta, assim como os poetas tem na alma a essência do mundo. E mais uma vez feliz ele sorriu.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Atrás do banheiro azul.


Olhou por cima do ombro do namorado e disse:
- Esse azul.
- O que tem o azul? - perguntou o namorado virando a cabeça.
- É o tom que você gosta.
- Sim, mas está sujo, desbotado, malcuidado.
- É verdade.
- Lembra quando nos conhecemos?
- Sim, como posso esquecer.
- Aquele azul intenso parecia brilhar mais que o sol.
- E você registrou aquele momento numa foto espetacular.
- Que agora está pendurado no seu quarto. Sempre gostou do azul.
- Sim, desde pequeno.
- Cor do mar, tranquilidade, paz...
- Até pensei em fazer um estudo sobre essa cor...
- Na Índia se não me engano representa luto.
- Em cada país representa uma coisa.
- Que horas?
- Meio dia.
- Está na hora, vamos, você prometeu.
- Não sou um Lannister, mas pago minhas dívidas.
- Está assistindo essa porcaria ainda?
- Game of thrones?
- Claro, o que mais poderia ser.
- Sim, estou, sabe que esse seriado é um dos melhores... falta uma temporada para terminar.
- Até que enfim.


 
Eles chegaram, eram mais ou menos umas dez pessoas.
- É aqui?
- Sim porque?
- Atrás do banheiro azul.
- Das outras vezes ficamos aqui também, não tão perto do banheiro, mais perto daquelas árvores.
- Mas veja. O lugar está ocupado pelo que parece ser uma família.
- O parque está movimentado hoje.
- Nem parece que estamos no inverno, olha o sol! Por isso que o parque está cheio.
- Vamos para outro lugar?
- Não vamos ficar aqui.
- Acho melhor irmos para outro lugar.
- Porque?
- Olhe.
- Uma camisinha?
- E povo porco.
- Isso é vida.
- Sujeira?
- Também.
- Se formos para outro lugar temos que avisar o pessoal que não chegaram.
- Não deixe de avisar o Cronista.
- Ele vai ser o primeiro, não quero ficar sem a crônica dele.
- Alô.
- Alô.
- Onde você está?
- Na Brigadeiro ainda.
- Vai demorar a chegar.
- Acho que sim, houve um acidente com um carro e um ônibus... nâo, não com outro ônibus, o carro e o ônibus estão atravessados na avenida, entende?
- Entendo. Olha estamos mudando de local, certo? Porque? Depois te falo. Assim que chegar no Parque me liga para te passar onde vamos ficar. Não, não vamos ficar mais atrás do banheiro azul. Ok. Até mais.
- O que houve?
- Ele está preso num acidente.
- Com ele?
- Não com outro veículo. Que horas?
- Duas horas.
- Vamos?
- Sim, vamos.


O menino que estava com a bola, bateu na parede azul e confirmou:
- Aqui está bom.
- Aqui também está cheio.
- Não tanto como nos outros lugares.
- Não temos espaço para chutar.
- A bola batendo na parede é gol, está bem?
- Ok.
- Eu fico no gol primeiro.
- Está bem.
O menino colocou a bola no chão, deu distância, se afastando de costas, pisou em falso numa pedra, não deu tempo de evitar e acabou caindo em cima do bolo de aniversário da pobre menina que começou a chorar.


Ele segurou a mão dela levando-a a se encostar na parede azul do banheiro.
- Escuta...
E em seguida a beijou intensamente.
- Você sabe como está difícil, não é?
- Sei.
- Então precisa ter mais paciência.
- Escuta branquela do meu coração. Te amo. Ouça o que te digo: TE AMO.
- Também te amo, negão.
- Não fale assim.
- Porque.
- Fico excitado e sou capaz de jogar você no chão e te co...
- Cala a boca, negão.
- Loirinha, eu sei o que está se passando, mas escuta, você é de maior de idade pode fazer o que quiser.
- Sim, eu sei. Gosto muito da minha família e me casando com você eles vão se distanciar de mim, e não vou vê-lo mais. Isso dói para caramba. Meu pai até me disse que não serei mais filha dele.
- Não acredito que ainda existe isso.
- Pois é.
- Ainda bem que não tenho pais, sou sozinho.
- Acho bom só casarmos no civil.
- Por mim, posso casar onde você quiser, até no inf...
- Para negão, não fale besteira.
- Está bem.
- Vamos embora.


- Será que ele está seguindo a gente?
- Não sei.
- Vamos parar aqui.
- Encostemos naquela parede azul.
- Atrás do banheiro?
- E daí?
- Lá vem ele.
- Não olhe.
- Passou.
- Vamos atrás dele.
- Opa!
- Você parou, não esperávamos que parasse.
- Estava seguindo vocês duas.
- Sabemos.
- Estão afim?
- Claro que estamos.
- Mas somos duas...
- Ah entendi, nada de três...
- Sim, somos meninas comportadas.
- Entendi. Estava com um amigo, vamos procurar por ele.
- Legal. Vamos então.


- Paremos aqui. Andamos o dia todo.
- Então sentemos perto da parede azul do banheiro.
- Certo.
- Quem estava em dúvida com o que falei?
- Eu.
- Porque?
- Como podemos ser ao mesmo tempo matéria e onda?
- A dupla fenda ela que nos diz isso.
- Se o átomo passar por uma fenda ele é matéria, se passar por duas fendas é onda, depende se olharmos para o átomo.
- Espere, se olhamos para um objeto ele é matéria, ele não vibra? Se não estivermos olhando-o está vibrando.
- Mais ou menos isso.
- Complicado?
- Parece.
- O átomo, se olharmos dentro dele, veremos que os elétrons e os prótons estão vibrando. Portanto quando há vibração há... onda. Certo?
- É acho que é.
- Nós somos o que então?
- Carne e osso...
- Somos onda porque somos feitos de átomos assim como todos os objetos, planta, parede azul...
- Quer dizer que tudo é onda?
- Sim. Estamos vibrando numa determinada onda de hertz.
- Pessoal, vamos embora?
- Que horas?
- Vinte.
- Vamos. Já estou cansado de andar e filosofar.


- Aqui?
- Sim aqui. Você prometeu.
- Os Lannister sempre pagam suas dívidas.
- Cala a boca, para com essa bobagem. Abaixa as calças.
- E se chegar alguém.
- Não vai chegar e o combinado foi de transarmos nos lugares mais inusitados, não foi?
- Foi. E aquele dia atrás da Biblioteca Municipal quase fomos presos.
- Vamos logo.
- Ei o que vocês dois estão fazendo?
- ...
- Mijando seu guarda.
- Atrás do banheiro azul?
- Ele já está fechado.
- Vamos, o parque está fechando.
- Está bem, estamos indo.
- Viu o que você fez?
- Pela primeira vez os Lannister não pagam sua dívida.
- Para de ser imbecil.


Aos poucos a parede azul do banheiro é engolida pela escuridão.


- Corta!
- Até que fim.
- O que foi, não gostou?
- Sinceramente...
- Ei onde vocês vão levar essa parede azul.
- Jogar fora.
- É foda cineasta brasileiro e sem dinheiro, não tem nem lugar para guardar o cenário. O que temos amanhã?
- Expansão da Luz.
- Não joguem a parede azul vamos precisar dela amanhã.
- Não vamos.
- Porque?
- Eles acharam um local.
- Onde?
- No Parque do Ibirapuera, atrás de um banheiro azul.
- Esse Expansão da Luz são aqueles doidos de mecânico não sei do que, onda, buraco profundo...
- Sim, eles mesmo, é mecânica quântica e vácuo quântico.
- Buraco e vácuo é tudo a mesma coisa.
- Não é não, buraco tem fim, é finito e vácuo quântico é infinito.
- O que um cineasta tem que passar para sobreviver.
- Escuta, posso dar uma opinião?
- Pode claro, você é meu assistente pra que?
- Esse filme que acabamos hoje não gostei.
- Porque?
- Não sei, achei fraco, principalmente na cena dos peripatéticos.
- Eu gostei.
- Então. Os caras da Expansão da Luz não querem nada de extraordinário, apenas que registre o encontro, simples. Então não precisamos levar toda a parafernália, levamos apenas a câmara e o microfone, e você capricha nas tomadas, nos ângulos inusitados, nas falas e ao invés de colocar Atrás do banheiro azul no festival, coloca esse com os doidos da Expansão da Luz.
- Olha até que é uma boa ideia. Hoje à noite farei um roteiro caprichado.
- É isso aí.
- Até amanhã, estrupício.
- Até amanhã, estrupício mor.

domingo, 22 de março de 2020

Bom dia 01.11.2018


É bom dia.

Onze de Novembro! Já! Que coisa, um mês para o Natal.
Onze de Novembro, dia de todos os santos o dia inteiro, é o que aparece no canto esquerdo, na parte de baixo da tela do computador, o dia inteiro, lógico que é o dia inteiro, queria que fosse só até o meio dia ou até as 17 horas...

Bom, o caso é o seguinte, hoje dentro das evidências que movem as pessoas nesses momentos, não sei se seria uma boa mandar os meus bons dias por WhatsApp, não seria de bom tom, seria uma forma de impor sem saber se a pessoa queira receber essas mal traçadas linhas. Antigamente o e-mail era mais usado, era e-mail para todo e qualquer lado, hoje acho que é só usado em casos necessários ou para serviços. Antes não, mandava meus bons dias por e-mail, e como o pessoal morria de medo de serem infectados por vírus via e-mail! Nossa! Isto porque mandava-se tudo, até a mãe se fosse possível, era foto, música, HTML que era e-mail com foto, texto, sons e havia alguns que vinha com luzinhas piscando, imagens de vários e de todos os tipos, então o terror de se receber um vírus, era terrível. Hoje só recebo lixo, propagandas, spam, notificações do face ou do YouTube... Gozado como as coisas surgem e desaparecem sem que percebamos. ICQ era o top, Orkut, Skype, surgiram, tiveram seus momentos de glória e caíram no esquecimento. Até quando o Facebook, o Messenger – pouco usado, mas está aí – vão permanecer... Ou nós, até quando permaneceremos, não é?

Até

sábado, 21 de março de 2020

Se você acredita vai fundo, querido.


— Como se fala besteira em festa de casamento você nem imagina! Aliás, não se fala, berra, é preciso berrar para ser ouvido. E, no entanto, entre um som e outro, entre uma voz e outra, entre uma palavra e outra, entre uma sílaba e outra, entre uma música e outra, e até mesmo entre um gesto e outro, há o silêncio, o silêncio cortante que não significa nada para ninguém, mas para você significa o peso todo da festa, do povo que sem se importar, bebe, come, dança, se embriaga, gira, vai de um lugar a outro e não está nem aí com o que está acontecendo com você. Esse silêncio deprime, mata. É horrível.
Ricardo abriu o vidro e cuspiu para fora toda a raiva mórbida que se apossava dele. Olhou para Carlos que prestava atenção no que ele falava sem tirar os olhos do que acontecia a sua frente.
— E como você conseguiu trabalhar com isso? — perguntou Carlos depois de mudar a marcha do veículo olhando-o rapidamente.
— Pois é, tive que trabalhar com isso. E não foi algo que eu descobrisse instantaneamente, depois de um certo tempo é que percebi, eu não estava naquela balbúrdia. Foi no momento da valsa, ao dançar com a noiva é que notei o silêncio e, então descobri que podia sair vitorioso dessa batalha: era só me embriagar. 
— Estou vendo.
Carlos olhou para Ricardo que, com muito custo, conseguia manter os olhos abertos. Numa carícia pousou a mão direita na coxa esquerda do amigo. Ricardo não se importou, pegou a mão do motorista e levou-a ao peito beijando-a. Em seguida fechou os olhos e tombou a cabeça no ombro de Carlos que disse em seu ouvido:
— Cu de bêbado não tem dono.
Devagar, quase soletrando Ricardo respondeu:
— Vá em frente, não se acanhe, querido.
Carlos acariciou o rosto do amigo e sorriu satisfeito.

Carlos lembrava quando se conheceram. Era um sábado. Raramente trabalhava de madrugada, mas naquele dia, saindo de um encontro com os amigos, resolveu trabalhar, com uma condição: atenderia a chamada se fosse para os lados de sua casa. Assim que ligou o celular, apareceu a chamada de Ricardo. Não era bem para os lados do seu bairro, mas, como estava perto, atendeu. Ao chegar ao local, encontrou Ricardo abraçado à árvore. Assim que parou o carro, surgiu uma pessoa e ajudou Ricardo a entrar no carro. Carlos não prestou muita atenção na pessoa.
— Leve-o direto para a casa dele, sim? — E enfiando a cabeça para dentro da janela, disse: — Ricardo, cuidado: cu de bêbado não tem dono.
— Engraçadinha, cuida da tua vida.
Respondeu, vexado, fechando o vidro.
— Não ligue para o que ela disse.
— Nem ouvi.
E logo em seguida caíram na risada. Momentos depois ao virar para entrar numa rua, Carlos perguntou:
— E então, é verdade?
— Verdade o que?
— Que cu de bêbado não tem dono?
— Se você acredita nisso vai fundo, querido.
Carlos ficou sem jeito, não esperava uma resposta direta. Mudou a marcha e acelerou o carro. Durante o trajeto Ricardo com a voz pastosa desfilava a inquietude sobre casamento.
— Cara, você não sabe o que é casamento. É um peso que se deve carregar, talvez para o resto da vida. É uma incongruência insuportável.
— Mais um motivo para não me casar.
— E há o silêncio como coisa amorfa que carrega todos de um lado para o outro, um peso angustiante em que você olha para as pessoas e não acredita que está numa festa de casamento, que duas pessoas se uniram para, talvez, daqui um ano, dois anos ou dez anos depois se separarem, e se estiverem financeiramente bem, então é o caos, é briga sem fim, e sempre é um dos lados que leva a pior. Percebeu isso?
— Não, não tenho paciência para essas coisas.
— Faz bem.
Dois minutos depois, com a cabeça encostada ao vidro da janela, Ricardo dormia. Carlos, pelo retrovisor, olhou Ricardo todo esparramado no banco. Ainda bem que Ricardo não morava muito longe, chegaram logo.
— Ei, acorda, Ricardo. Chegamos.
Ricardo, como se estivesse perdido, por um momento ficou sem saber o que fazer e, com muito custo, abriu a porta do carro e deslizou para a calçada, ficando com uma perna dentro do veículo.  
— Você está ruim mesmo, hein, cara? Deixa eu te ajudar.
Com muito custo, colocou Ricardo em pé.
— Por favor, se não for te pedir muito, me leve até o meu apartamento.
Com o braço direito de Ricardo em volta do pescoço, praticamente arrastando-o, Carlos conseguiu chegar ao elevador.
— Que andar?
— Ahn?
— Andar, que andar?
— Décimo oitavo.
— Caralho, o último.
— Acho que vou vomitar.
Sem dar tempo de se esquivar, Carlos recebeu o jato de vomito em seu peito. A camisa e calça ficaram sujas pela gosma fedida e quente molhando-o todo.
— Puta que pariu, cara.
Gritou empurrando Ricardo que escorregou pelo chão do elevador como um boneco entregue à própria sorte. Carlos, puto, quis bater, socar, chutar Ricardo, chegando ao ponto de larga-lo dentro do elevador e ir embora. No entanto, engolindo a bronca com dificuldade, arrastou-o para dentro do apartamento e a primeira coisa que fez foi levá-lo para debaixo do chuveiro com roupa e tudo. Em seguida jogou-o na cama e, despindo-se, desabou ao lado de Ricardo e caiu num sono profundo.

— Bom dia. Acorda molenga.
Ricardo entrou no quarto com a bandeja de café que depositou no colo de Carlos.
— Bom dia — respondeu Carlos, beijando-o.
— O que faremos hoje? — perguntou Carlos, tomando o café. Ricardo, em pé, olhando pela janela, respondeu suspirando:
— Nada.
— Como nada?
— É, nada.
Sentando-se na beirada da cama, Ricardo olhou bem nos olhos do amante e com voz decidida disse:
— Sabe, Carlos, sou muito grato em tê-lo conhecido, desde o primeiro casamento em que você foi me buscar. Te amo demais, mas preciso acabar com tudo, festas, casamentos, formaturas, até com o nosso relacionamento. Estou cansado de estar plantando no jardim dos outros, tenho que plantar no meu jardim. Entende?
— Que você está cansado entendi e estava pensando em falar com você sobre isso, mas, acabar com nosso relacionamento, não entendi direito.
— É que tudo o que faço, eu faço para os outros, nada para mim... até mesmo esse café que você está bebendo é feito para você e não para mim.
— Não entendo por que acabar com o nosso relacionamento.
— Eu disse em acabar com o nosso relacionamento?
— Sim, disse.
Ricardo franziu a testa, contrariado, não tinha certeza se dissera ou não.
— Tem certeza?
Carlos apontando para o peito do amigo, disse:
— Claro que disse, rebobine a fita...
— Rebobine a fita, essa é velha hein?
Carlos balançou os ombros como se dissesse:
— E daí?
— Bom, se eu disse isso, me desculpe, não tive a intenção.
— O que você quis dizer é dar um tempo, não é isso?
— Olha, não é bem isso.
Notando desconforto nos olhos do amigo, sabia que vinha uma série de explicações, das quais não se chegaria a um consenso real. Por isso, suspirando em demonstração de que tudo aquilo não estava certo, perguntou:
— E o que é, então.
— Não sei como te explicar, não tenho palavras certas, vou largar tudo, parar com esse negócio de promover festas, aniversários, palestras, tudo o mais, viver um dia por vez da maneira que eu quiser.
— Sei. E para isso precisa romper nosso relacionamento?
— Talvez não...
— Vamos continuar pelo menos morando juntos?
— Se estou lhe dizendo que não quero mais plantar no jardim dos outros, como podemos continuar morando juntos? Pois dessa maneira plantarei no seu jardim.
— E eu plantarei no seu.
— Não é bem assim.
— Como é então?
— Olha, me sinto preso ao vazio entre as coisas, entre o sim e o não, entre isto e aquilo e isso está me matando.
Carlos baixou os olhos já sabendo o que veria depois.
— E o que pretende fazer?
— Pegar a estrada sem rumo, ir aonde o meu instinto achar que devo ir.
— E eu como fico?
— Se há amor, você me esperará, assim como, se há amor em mim eu voltarei.
Carlos raivoso, levantou-se, derrubando bandeja, copo, pão, e, sem se importar, gritou, entrando no banheiro.
— Se é assim que você quer, tchau e boa viagem, mas, uma coisa lhe digo, não sei se até você voltar, se voltar, o que acredito que não, o seu lugar poderá estar ocupado por outro.
Dois dias depois, Ricardo partia para aquilo que nem ele sabia o que era. E no ano seguinte, Carlos recebe pelo correio os pertences do amigo e um comunicado informando que Ricardo faleceu em decorrência de um tiro no pé devido a uma briga num bar nas Ilhas Canárias.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Bom dia 04.11.2018


É bom dia.

O ônibus estava demorando. Já estavam impacientes. As duas meninas não paravam, se queixavam de fome, sede e calor. Uma empurrava a outra para ficar no colo do vô.
- Vai prá lá Eduarda.
- Vai você.
- O colo do vô é meu.
- É nada é meu.
- Calma tem colo para as duas, disse o avô paciente. Cada uma senta numa perna.
- Não quero sentar numa perna, respondeu a Manoela.
- Mas que tanto querem o colo do vô. Caramba! Que gosto tem o colo do vô?
- Tem gosto de morango, respondeu a Eduarda.
- Tá Eduarda, gosto de morango. Lá vem o ônibus, vamos.
E assim os três entraram no ônibus. E o dia continuou no seu correr do tempo.

Até...

quinta-feira, 19 de março de 2020

Bom dia 31.10.2018


É bom dia.
É o que estou pensando em fazer novamente. Todos os dias de manhã escrever o que for, o que me der na telha escrever como fazia quando trabalhava. Só que agora não tenho aquele arco de acontecimentos que havia entre minha casa e o serviço, isto é, não pego mais ônibus, metrô, avenida Paulista, a bela avenida, os horários de almoço, quer dizer, não tenho o vasto material que me fazia, me instigava a escrever, sei o que vão dizer, agora você tem outro tipo de material e, o que me apavorava, tempo, você agora tem tempo, certo, tenho tempo e bastante, mas acontece que esse tempo me leva a fazer muitas coisas que antes não fazia e não vou entrar em detalhes aqui porque não é necessário e, por outro lado, se não tinha bastante tempo, e no entanto o pouco que eu tinha empregava em escrever e enviar ao pessoal como uma forma de um bom dia.
Bom, por hoje vamos ficar só nisso, vamos ver o que acontecerá futuramente, apesar que futuro, passado e presente é uma coisa só.
Até... 


quarta-feira, 18 de março de 2020

Chinesa


Passava das trezes horas e quinze minutos.
O ônibus demorava.
O pessoal se impacientava.
Ele procurava acalmar as netas inquietas.
- Vô prende meu cabelo num coque. – pediu a Manoela.
Paciente prendeu o cabelo da neta.
- O que está fazendo, Manoela.
- Pegando um lápis, vô.
- Para que?
- Vou ser chinesa.
- Chinesa?
- É vô.
E pegando o lápis enfiou no cabelo, precisamente no coque.
- Pronto, vô. Sou uma chinesa.
- Tá certo, Manoela.
Virando para a Eduarda, ela disse:
- Eduarda, prende o cabelo, vira chinesa assim você pode ir pra China.
- Não quero. – respondeu a irmã.
- Isso mesmo, vamos para China, até que fim está vindo o ônibus.
E assim, embarcamos todos para a China.

terça-feira, 17 de março de 2020

Como é bom estar entre loucos!


- Encontro Quântico?
- Sim.
- O que é isso?
- São estudantes da Mecânica Quântica que se reúnem para debater, se esclarecerem, se iluminarem.
- Eu hein! Mecânica Quântica?! Debater, estudar, não sou louco.
- Vamos?
- E perder o jogo da Copa! Ocê pirou na batatinha né não!
- Ok bom jogo para você então.
- Vai doido encontrar tua turma.
E assim, no domingo acordei antes das noves e, pela decima vez consultei o Google Map e localizei o endereço. A sorte que alguém um dia antes dissera no WhatsApp que ao chegar na Estação do Metrô Mariana, deveria virar à direita e pegar a saída para a Rua Domingos de Morais. O que não foi difícil. Até aí não houve dificuldade. A dificuldade foi calcular o tempo que levaria da minha casa até o Espaço Niss, na Rua Capitão Cavalcante. E a manhã toda fiquei pensando que horas sairia para não chegar muito cedo, pois minha ansiedade me faz sempre ser o primeiro a chegar aos encontros, sejam eles quais forem. Portanto calculei um horário e ao meio dia e quarenta e cinco sai. Subi a Avenida Aliança, até a Avenida Cangaíba e peguei o ônibus Metrô Penha. Nem vinte minutos depois descia na plataforma do metrô e depois de uma baldeação na Sé, tomei o que ia para a Estação Mariana. No trajeto da Sé para Mariana, entrou no trem um senhor guiando um cadeirante solicitando ajuda. Lamuriando dizia que a pessoa não podia se mexer, precisava de ajuda para tudo, até para ficar sentado era necessário amarrar o coitado, que sozinho, não tinha ninguém que o ajudasse... Aí mentalmente pensei: e como você está ajudando, nesse caso tem você. Passaram por mim e na estação seguinte desceram. Foi fácil achar a Capitão Cavalcante, uma rua estreita, com diversas casas até que atraentes. O cento e setenta e um ficava bem no termino da descida que não era muito grande. A casa, pois era o que parecia, se não me engano, amarela, com dois portões, um grande para carro e um pequeno. Tentei o grande estava fechado, o pequeno também, mas tinha um interfone que ao pressionar foi destravado. Entrei e perguntei para o senhor sentado atrás da mesa numa pequena sala.
- Encontro Quântico...
- Lá embaixo.
- Obrigado.
Desci uma pequena rampa e a primeira pessoa que me cumprimentou foi a sorridente e bonita Ariadne:
- Olá, Osvaldo, você veio, que bom.
- Olá, tudo bom.
- Fique à vontade, estamos dando os últimos preparos para o encontro.
- Cheguei cedo, não é?
- Não tem problema. Se quiser subir e esperar lá em cima a vontade.
- Ok, vou esperar lá em cima então.
- Ah, vem cá. Coloque isso, seu nome.
E me deu um pedaço de papel adesivo com meu nome que eu coloquei na camisa. Bem pensado isso, evita de perguntar:
- Oi como é seu nome? Sou Osvaldo, prazer.
Assim a pessoa já chega:
- Olá, Osvaldo tudo bem?
- Tudo bem, Gerusa.
Entrei no ambiente e estavam três pessoas dando os ajustes das músicas que iriam apresentar. Me desculpe, mas não lembro o nome do rapaz que estava na percussão, a Nina num violão e o João Cássio em outro cantavam. Fiz um pequeno cumprimento para o João e fui me sentar nas últimas fileiras, não gosto de ficar em evidência. Depois de uns cinco minutos troquei de cadeira e sentei encostado na parede quase embaixo do ar condicionado. Assim que acabou os ensaios João veio me cumprimentar:
- Olá, Osvaldo, tudo bem?
- Tudo bem, e você? Não sabia que estavam ensaiando.
- Que isso. Senta-se mais na frente.
- Aqui está bom.
- Ah! Gosta do fundão.
Ri e ele pediu licença e saiu. As pessoas foram chegando, se cumprimentando e se sentando. Notei que a presença feminina era maior, homem não gosta dessas coisas de louco, não é. Dali a pouco, a Mariane empunhando o microfone anunciou a primeira atração, uma meditação sob a batuta do Mestre João Cássio deixando o ambiente e as pessoas conectadas com o que seria apresentado ali. Depois, Mariane anunciou o estudo do livro Mentes in-informadas – penso que seja isso, perdoe se estou errado -, apresentada pela Adriana que com sua voz iluminada explicou vários itens como paradigma, auto sabotagem, arquétipos e outros itens relevantes para expandir da luz.
Depois a Taróloga e Terapeuta Maat Menkeru numa desenvoltura de fazer inveja ao tímido mais tímido, discorreu sobre seus estudos e como ela se formou em taróloga, terapeuta e reprogramadora mental. Assim que a Maat terminou seu depoimento, foi anunciado que embaixo das cadeiras tinha algo que era para nós. De repente estavam todos eufóricos em achar o que diziam ser para nós, e encontramos uma tira de papel com uma palavra. A minha estava escrito CARIDADE, assim que li me veio à mente o cadeirante no metrô e, era para trocarmos o papel com a pessoa ao lado e abraçarmos. Como o rapaz que estava ao meu lado, trocou o seu com a pessoa a frente dele, eu troquei o meu e abracei a Nina que sentara atrás de mim e, coincidência ou não, no papel dela estava escrito AMIZADE, palavra que eu escolhi no piquenique quântico.
- Pensei que você fosse o dono do local ao ver sentado aqui, disse Nina ao me abraçar.
- Não. É que cheguei cedo mesmo e desculpe se atrapalhei o ensaio.
- Não atrapalhou nada.
Se não estou engando, em seguida foi o coffee break. Porque usar termos inglês: coffee break, para mim é intervalo para o café. E vou dizer uma coisa, estava perfeitamente caprichado, café, chá, suco, sanduiches, e agradáveis conversas, uma pausa para nos conhecermos um ao outro. E uma descoberta surpreendente: Adriana poeta. Pendurados por vários lugares diversos poemas da Adriana com profundo conteúdo quântico, muito bons. Terminado o intervalo para o café, subimos para ouvirmos a palestra final, talvez a mais esperada até o momento, onde o casal simpático Marli Fabreti e Ricardo Maraia falaram sobre Relacionamento e o amor quântico, esclarecendo e informando as dúvidas e questões amorosas com argumentos sólidos e exemplos vivenciados por eles. E por fim, a apresentação da bela Nina com suas composições e canções levando o pessoal a dançar. Assim, passei mais um domingo doido entre loucos e queridos. Após o que me despedi de todos e comecei meu caminho inverso, isto é, subi a Capitão Cavalcanti, tomei o metrô e novamente fui surpreendido por um pedinte. Um senhor de mais ou menos, quarenta anos, com uma máscara no rosto, e um bolsa cirúrgica pendurada na cintura, mostrando um pouco sua barriga pedindo ajuda, dizia estar com câncer e que não tinha como viver. Olhei para ele com um pouco de indignação e lembrei da palavra que tinha pegado embaixo da cadeira: CARIDADE. Fiquei matutando sobre isso, caridade, tenho que fazer caridade era o que as circunstâncias estava me dizendo. Mas como se ainda não me julgo, não caridoso, sou caridoso, mas não ao extremo, digno de fazer caridade, pois já me aconteceram tantas coisas em relação a pedintes que... acho que por isso me travo, como por exemplo: trabalhava no Conjunto Nacional e um dia vendo a vitrine da Livraria Cultura uma senhora segurando uma criança pela mão, cutucou meu ombro. Estavam até que bem arrumados.
- Por favor, poderia ajudar, viemos de longe para fazer um exame no meu filho e não tenho dinheiro para voltar, qualquer coisa que puder dar, dinheiro, ticket restaurante, estamos o dia inteiro sem comer.
Estava levando a mão na carteira, quando desisti.
- Sinto muito, minha senhora, não tenho.
Ela agradeceu e foi embora. Dias depois, não sei quantos dias, essa mesma senhora, com o mesmo menino, cutucou o meu ombro. Me virei e quando a vi eu disse:
- Como! Ainda não conseguiu voltar para a sua cidade?
Ela ficou vermelha me reconhecendo, virou as costas e foi embora rapidamente. E talvez, também, por coisas que ouço:
- “Fulano vivia mendigando e descobriram que ele tinha carro e mansão do outro lado da cidade”. “Você viu aquela velhinha que vivia pedindo esmola na estação? Então quando ela morreu acharam um monte de dinheiro embaixo do colchão dela”. E por aí a fora. Sei que um dia vou romper esse travamento... Chegando na plataforma da Sé, na linha vermelha presenciei um fato inusitado.
Não o fato em si, mas pelos dois rapazes, bem se é que posso chamar de rapazes, não sei. Acho que não tinham nem doze anos ou quatorze anos, eles batiam no meio do tórax, aos beijos e abraços numa boa, não estavam nem aí.
Já vi duas lésbicas nessa mesma plataforma, já vi gays, mas não aos beijos como estavam aqueles dois. A primeira coisa que veio à mente foi se trombassem com algum homofóbico o que aconteceria. Bem, sentei-me e cai numa modorra e quando vi já estava no meu destino.
E assim, passei um belo domingo entre loucos queridos.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...