No que estou pensando exatamente às
22:45 minutos, do dia 09 de abril de 2018 é o que não sei o que estou pensando,
entende? Precisamente até sei, mas o que eu queria exatamente com esses “No que
estou pensando” era criar textos poéticos, crônicas, poesia e outras
infindáveis de ideais que essa mente de aprendiz cria a bel prazer, e, no final
acabei escrevendo uns poemas chinfrim descartáveis. A noite silenciosa, apenas
quebrado pelo som do aparelho pega pernilongo e um outro som que vem da rua,
está até agradável. Estou bem a vontade, se é que possam imaginar, caçando
palavras e nada mais. Com licença já volto.
sábado, 29 de fevereiro de 2020
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 06
E foi, então que bateram palmas. E
essas palmas me pareceram vir de longe, mas percebi que vinham do portão. Moro
numa vila onde as casas estão dispostas uma ao lado da outra, devem ser umas
quinze casas, e a minha é a primeira, isto é, mais perto do portão. Portanto
devido a essa posição geográfica fui atender quem batia palmas.
- Pois não, disse ao abrir o portão e
deixando a chave na fechadura.
- Por favor, o Cardoso está?
- Sou...
Nisso uma rajada de vento inesperado
bateu o portão com violência fazendo a chave cair e rolar para longe. O portão
sendo alto e tendo uma placa metálica embaixo para evitar intrusos e outras
coisas indesejáveis, e o chão por ser um declive, a chave caiu longe,
dificultando pegá-la.
- Que merda eu disse.
- Por favor, pode chamar o Cardoso.
- Mas eu sou...
Nisso um sujeito sai da minha casa.
- Estava procurando minha chave e ela
estava aqui. Como foi que veio parar aqui.
Olhei para o cara assombrado ao mesmo
tempo que ele olhou para mim, se assombrado ou não, não sei, não deu pelotas,
virou as costas dirigindo-se a minha casa.
- Espera venha aqui. Quem é você?
- Oras sou o Cardoso.
- Pera aí, eu que sou o Cardoso, moro
nessa casa já faz dois anos.
- Não te conheço cara e por
coincidência moro aqui a dois anos.
- Venha aqui vamos conversar. Tem um
cara que quer falar com você.
Mas não me ouviu. Entrou em casa.
Virei o corpo para falar com o rapaz que queria falar comigo, isto é, com o Cardoso,
tinha sumido. Será que estou sonhando? Espera, vou chamar meu sobrinho. Peguei
o celular.
- Ale, tudo bem? Sim, tudo bem
também. Será que pode vir até o portão? Legal, obrigado.
Instantes depois surge meu sobrinho
sem camisa, com uma bermuda até o joelho. Assim que chegou ao portão, falei:
- Ale...
- Quem é você e como sabe o meu nome?
- Sou seu tio Cardoso...
- É mesmo? Não te conheço.
- Como não me conhece, irmão da sua
mãe...
- O meu tio, irmão da minha mãe mora naquela
casa.
- Mas sou eu, Ale.
- E outra coisa, não sei como
conseguiu o número do meu celular, se me ligar de novo chamo a polícia.
E foi embora. Como pode ser isso? Já
sei, vou perguntar para a Alice. Atravessei a rua e apertei a campainha. Quando
ela apareceu, perguntei:
- Você me conhece?
- Não, me respondeu.
- Como não! Sou o Cardoso, seu primo.
- Não te conheço, meu chapa.
Desolado, ainda na esperança de que
me conhecesse, perguntei:
- Tem certeza?
- Sim.
Caramba, e agora, tem minha irmã, ela
vai me reconhecer.
Fui até a casa dela e apertei a
campainha. Ela apareceu na sacada.
- Pois não?
Nesse pois não, já me disse que não
tinha me reconhecido, mesmo assim perguntei:
- Você me conhece?
- Não. Porque? Devia te conhecer?
- Não. Está bem, obrigado.
Cabisbaixo, intrigado comecei a descer
a rua sem saber onde ir, o que fazer, o que decidir, quando esbarrei comigo que
mora na minha casa.
- Desculpe, cara.
Olhei para ele que olhou para mim e
vendo minha cara angustiada, me disse:
- Cara, sabe o que está acontecendo?
- O que?
- Acho que você é de outro nível, por
algum motivo você caiu aqui.
- É pode ser. Ou será você que caiu
de outro nível.
- Olha não sei, mas uma coisa eu sei,
estou com sede, e você?
- Também estou com sede.
- Então vamos tomar uma cerveja.
- É melhor mesmo.
E assim eu com eu fomos até o bar
tomar uma cerveja.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 07
E assim eu com eu fomos até o
bar tomar uma cerveja. Aí foi quando o tempo fechou. Escureceu como breu.
Trovoadas e relâmpagos infindáveis surgiu no céu escuro. Pensávamos que iria
chover uma torrente de água. Mas como tudo aconteceu depressa, tudo depressa
parou. A claridade voltou. E foi quando olhei para eu que estava do outro lado
da mesa, eu tinha desaparecido, quer dizer sumi, assim como o copo de cerveja.
Estranhei, o que teria acontecido comigo, foi o que perguntei para mim.
Perguntei para as pessoas que estavam no bar quando entramos e, para minha surpresa,
todos disseram que entrei sozinho. Fui até o dono que estava atrás do balcão e
me disse a mesma coisa: entrei no bar sozinho. Mas foi pedido dois copos, falei
para ele. Sim, foi pedido dois copos, acontece que você pegou um só, o outro
está aqui, e mostrou o copo para mim. Meu Deus, o que estará acontecendo
comigo, perguntei mentalmente. Saia do bar desorientado. Primeiro um cara
dizendo ser eu toma meu lugar na minha casa. Meu sobrinho, minha prima, até
minha irmã não me reconhecem, encontro comigo mesmo, vamos até o bar tomar uma
cerveja e, no meio de relâmpagos, trovões eu sumo de mim. Será que eu voltei
para o meu nível? E eu fiquei nesse nível? Como pode ser? Como passava em
frente a casa da minha irmã toquei a campainha. Ela apareceu na sacada.
- Oi, mano, espera vou abrir o portão.
Oi, mano ela disse. Quer dizer que me reconheceu. E por que antes não tinha me
reconhecido? Entrei, cumprimentei com dois beijos no rosto.
- O que foi?
- Porque?
- Está branco, viu algum fantasma?
- Mais ou menos isso, disse a ela.
Expliquei para ela desde o começo até o desaparecimento de mim no bar.
- Que besteira, mano. Você está louco, estressado, é isso, vai para casa, tome
um banho e descanse.
É. Louco, estressado, cansado, não acredita, e quem vai acreditar, não é?
Estava abrindo o portão de casa quando minha prima saia da dela.
- Oi, primo, tudo bem?
- Agora me conhece, né?
- O que? Não entendi.
- Deixa pra lá, respondi.
- Espere, o que aconteceu?
- Não aconteceu nada, estou apenas cansado.
- Está bem, bom descanso então.
- Obrigado.
Quando abria a porta de casa ouço meu sobrinho dizendo:
- Oi, tiozão, o que aconteceu?
Também você está me conhecendo, né, pensei.
- Nada...
- Como nada. A mãe disse que o senhor...
- Não foi nada, não esquenta.
- Ok. Mas se precisar de mim, é só falar.
- Obrigado.
Entrei, fechei a porta, acendi a luz da sala, liguei o som, e fui ao quarto
tirar a roupa para tomar um banho. Assim que pressionei o interruptor e a luz
expulsou as sombras meu coração se acelerou e quase desmoronei de susto.
- Olá, você demorou?
Eu estava deitado na minha cama.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 08
Quase estourei um
copo.
Nata de leite.
Alguém conhece ou já ouviu falar? Já experimentou? É uma delícia, muito
gostoso. Então faz tempo que não vejo, não ouço falar, e que não como com pão
ou simplesmente no café com leite. O que me levou a falar sobre isso foi o
seguinte:
Outro dia de manhã,
não lembro se ontem, anteontem, segunda ou terça, sei lá não lembro, foi um dia
de manhã em que fui tomar café. Enchi o copo de leite gelado e coloquei no
micro-ondas para esquentar ou pelo menos quebrar um pouco do gelado e fui pegar
o pão e a manteiga e o Nescau. E estava já comendo o segundo pão de forma com manteiga
quando percebi o marcador do micro-ondas e estava faltando três minutos.
Assustado corri cancelar o processo. E ao abrir a porta o leite tinha fervido e
derramado no prato. Argh@#$%&* fiz mentalmente. Não consegui pegar o copo
imediatamente, estava superquente, e aos poucos, com um guardanapo consegui
colocar na mesa. Tirei o prato, limpei e coloquei no lugar de novo. Foi nesse
instante ao dar atenção para o meu liquido desjejum é que notei a finíssima
camada de nata que se formou em cima do leite.
E nostálgico lembrei dos meus tempos de infância. Não tínhamos micro-ondas
e nem fogão a gás, era a lenha. Aliás não lembro quando o fogão a gás surgiu na
minha vida. Era fogão a lenha e, também não lembro se tomávamos café em copo ou
xícara, acho que era em caneca de alumínio ou aquelas canecas brancas que aos
poucos iam se descascando as bordas e que se tornava a nossa caneca predileta,
não lembro, mas sei que era uma angustia quando nossa avó ou nossa mãe colocava
o leite para ferver, não era para esquentar, era para ferver mesmo. E tínhamos
que ficar atentos para que o leite não derramasse, quando começava a borbulhar tirávamos
do fogo, e aí que começava a gritaria:
- Não quero com
nata.
- Quero com nata,
vó.
- Não quero muito
quente, mãe.
Eu as vezes com uma
colher pegava a nata e passava no pão e saboreava lambendo os beiços.
Oh coisa gostoso...!
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 09
Eu estava deitado na
minha cama.
O que fazia eu
deitado na minha cama? E como cheguei aqui se estava sem a chave... espere!
Esse negócio está mal explicado. Sentei na beira da cama. Eu encostou-se mais
perto da parede para me dar lugar. Com os cotovelos apoiados na minha perna e o
rosto entre as duas mãos falei devagar.
- Esse negócio está
esquisito de errado.
- O que está errado?
Perguntou eu.
- Siga meu
raciocínio.
- Diga.
- Quando o portão
bateu e a chave caiu e você veio e a pegou, eu fiquei preso pelo lado de fora
do portão. Certo?
- Certo.
- Então, quando fui
falar com minha prima e minha irmã, você entrou em casa.
- Certo.
- E quando estava
voltando trombei com você e fomos tomar cerveja.
- Certo.
- E no bar depois da
tempestade, quer dizer, ameaço de tempestade, você sumiu, e, como não sei.
- Certo.
- E chego aqui abro
o portão e a porta da casa, e eu pergunto: com que chave? Se você a tinha pego
quando o portão bateu?
- Ah! É isso que
está achando esquisito de errado?
- Sim. A chave ficou
com você e não comigo.
- Mas você esquece de
uma coisa.
- O que?
- Se eu ou você for
de outro nível, esqueceu que tudo o que acontece num acontece em outro?
- Não esqueci, isso
quer dizer, se entendi as explicações que venho estudando.
- Então, se eu tinha
a chave você também a tinha, era só enfiar a mão no bolso, coisa que você não
fez naquele momento, foi fazer só agora porque tinha certeza que eu não estaria
aqui.
- Mas, se nós dois tínhamos a chave, então porque
você saiu de casa e veio pegar a chave quando ela caiu do portão.
- Não sei te explicar isso.
- Esquisito não acha?
- Acho.
- É. Esquisitice mesmo.
- O que?
- Esquisitice mesmo.
- Ah Tá.
domingo, 23 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 10
- Esquisitice mesmo.
- Ah Tá...
E ficamos um tempo
quieto. Eu sentado na beira da cama, com o rosto apoiado nas mãos que por sinal
estava com os cotovelos apoiados na perna. E eu encostado na parede fria do
quarto. Eu estava de camisa listrada e bermuda e no pé um chinelo de dedo. Eu
encostado na parede fria do quarto estava sem camisa e... como me conheço acho
que ele estava sem roupa por baixo do cobertor, apesar de não estar fazendo
frio.
- E então?
- Então o que?
- Como se explica
isso tudo?
- Olha não sei. Para
mim até que está bem, não me importo de viver comigo mesmo na mesma casa e,
pelo que percebi, como você disse, não sou visto por ninguém, isto é, só você
que me enxerga. Portanto, em público cuidado para que não percebam que você
fala sozinho.
- Que merda! Até
quanto tempo vamos viver essa... essa.. como que você disse mesmo?
- Esquisitice.
- Ah isso mesmo,
esquisitice...
Caímos no silêncio
novamente. Eu olhando os desenhos estranhos do ladrilho do quarto, e eu com os
olhos fitos no teto branco. O que será que ele estará pensando? Ele deve estar
pensando o que eu estou pensando, se somos dois e um só. Não vou perguntar por que
acho que está pensando o mesmo que eu. Nisso, como se estivesse lendo meus
pensamentos ele pergunta:
- O que está pensando?
- Se você está
pensando o mesmo que eu.
- Também pensava se
você pensava o mesmo que eu.
- Aonde vai?
Perguntou ele ao ver que eu levantava da beirada da cama.
- Vou tomar banho.
- Vou também, disse
esticando as pernas para fora do cobertor.
- Espere aí.
- O que?
- Como eu me
conheço, você está pelado por baixo desse cobertor, portanto se vista que não
quero me ver nu.
- Ora, para que
tanta frescura, se eu sou você e você sou eu já sei fisicamente como sou, seria
como se olhasse no espelho.
- É, mesmo assim
será grotesco e estranho olhando para mim mesmo ao vivo e a cores.
- Esse bordão de
redes sociais pega mal, cara.
- Que bordão?
- Ao vivo e a cores.
- Ah! Vai...
- Não, não vou não,
vou é tomar um banho. Você não vem?
Surpreso fiquei sem
ação. Sai do quarto. Na cozinha preparei algo para comer. Logo depois eu chego
com o cabelo molhado e de cueca.
- Há outra coisa
inexplicável.
- O que?
- Como você surgiu e
como você desapareceu no bar e como voltou para a casa?
- Não sei. Quem está
estudando esoterismo é você, quem deveria dar essas explicações.
- Estou cru ainda.
Somente esse ano é que comecei a me interessar pelo assunto.
- Se você acha que
não podemos viver dessa maneira...
- Como seria
vivermos dessa maneira?
sábado, 22 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 11
- Se você acha que
não podemos viver dessa maneira...
- E como seria
vivermos dessa maneira?
- Bem... não sei...
eu invisível... só você me vendo... sei lá.
- É. Boa resposta,
sei lá.
- E o que gostaria
que eu falasse?
- Talvez, uma
solução disso tudo, que você caiu aqui para me ajudar, para abrir meus os
olhos, para vivenciar algo desconhecido...
- Talvez...
- Talvez o que?
- Olha vamos
concordar com uma coisa.
- Que coisa.
- Primeiro: não
tenho culpa nenhuma de estarmos passando por isso.
- Eu também não.
- E segundo: pare de
berrar como se a culpa fosse minha ou a sua. Vamos aceitar numa boa, pensar e
quem sabe acharemos uma solução.
- Está bem.
Desculpe.
Ficamos um bom tempo
em silêncio. Olhando a parede do quarto me indagava no por que de tudo isso e
no que daria tudo isso e, ao virar a cabeça para o lado dele, vejo que eu não
estou mais no quarto. Será que eu voltei para o meu lugar e vou poder continuar
minha vida de sempre? Caralho, o que está acontecendo? Estou enlouquecendo? Bom
nada de entrar em pânico. Vou dormir que amanhã será outro dia. E foi o que
aconteceu, dormi feito pedra, acho que foi o meu melhor sono da minha vida, no
entanto no dia seguinte...
Acordo comigo
abraçado ao meu corpo. Percebo que estou dormindo num sono gostoso e, para não
me acordar, devagar, tiro meu braço do meu corpo e saio da cama. Em pé olho
para mim e me vejo descoberto e nu. Fico um tempo me apreciando e me
sobressalto ao me ver olhando para mim.
- O que foi? Nunca
se viu nu?
- Sim... Não... Quer
dizer já, mas através do espelho e não dessa maneira.
- Que maneira.
- Ah! Sei lá. Eu
aqui e eu aí, você entende o que quero dizer.
- Sim, acho que
entendo. Volta para a cama, ainda é cedo. Está frio.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 12
- Ah! Sei lá. Eu
aqui e eu aí, você entende o que quero dizer.
- Sim, acho que
entendo. Volta para a cama, ainda é cedo. Está frio.
Volto para a cama e
me enrolo no edredom. Apesar do frio caio num sono que não vejo quando eu
deitei ao meu lado. Se é que deitei ao meu lado, pois no dia seguinte quando
acordei eu não estava na cama ao meu lado. Por instantes pensei na tremenda
besteira que era tudo aquilo, já estava até achando que eu estivesse ido
embora, quando a porta abre devagar e me vejo entrando com uma bandeja de café
que trazia para mim. Pensei: caralho, nunca fui e nunca curtir essa droga de
romantismo, porque agora tenho que dar uma de romântico. Não falei, apenas
guardei o pensamento para mim.
- O que é isso?
- Achei que deveria
gostar?
- Você deve saber
que não sou dessas frescuras.
- Romantismo.
- Sim, e além do
mais nem somos um casal.
- É, tem razão, não
somos, mas achei que com esse gesto a coisa poderia ficar..., pensei em
quebrar..., diminuir essa estranheza de eu estar comigo mesmo, entende.
- Essa estranheza de
eu estar com eu.
- Esquisito, eu sei,
Esquisito ou não
tomei café, quer dizer tomamos o café. Depois entrei no banheiro enquanto eu
levei a bandeja e ao chegar na cozinha, notei que estava totalmente limpa, o
que me deixou ressabiado, pois fazia dias que não limpava.
- Tomou banho,
pergunto eu.
- Tomei.
- Não sei não gosto
de tomar de manhã.
- Somos eu e eu, um
só e ao mesmo tempo somos diferentes.
- Já sei.
- O que.
- Eu sou a parte que
gosta de determinada coisa, e eu sou a parte de que não gosta de determinada
coisa. Entende?
- Acho que
compreendi, melhor explicando: eu sou a parte que gosta de certas coisas e você
que sou eu, sou a parte que não gosta de certas coisas, melhorou?
- Acho que sim.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 13
- Acho que
compreendi, melhor explicando: eu sou a parte que gosta de certas coisas e você
que sou eu, sou a parte que não gosta de certas coisas, melhorou?
- Acho que sim.
- Não sei. Creio que
deveríamos dar nomes para os bois.
- Como assim.
- Sei lá, eu1 e eu2.
- Como saberemos que
eu sou o 1 e eu sou o 2?
- Mas eu estava aqui
quando eu apareci.
- Penso que não, eu
que estava aqui quando...
- Para. Chega.
- Qual o nosso nome?
- Ahn!
- É. Nosso nome?
- Você não sabe?
- Claro que sei.
- Então diga.
- José Antônio Luís
Cardoso
- Então, podíamos
chamar eu de Luís e eu de Cardoso.
- Ah! Entendi
Cardoso.
- Isso quer dizer
que você será Luís?
- Não José.
- Eu Cardoso.
- Eu José.
- Legal Eu José.
- OK eu Cardoso, e
agora?
- Olha eu José
sinceramente?
- Sim.
- Não sei.
- Legal eu José
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
No que estou pensando 14
- Não sei.
- Legal eu José
Eu Cardoso fiquei
pasmado, isto é, não podia imaginar o que dali poderia acontecer, tudo ou nada.
Resolvi sair. Peguei as chaves do carro.
- Onde você vai?
Perguntou eu José.
- Vou dar umas
voltas.
- Posso ir com você?
- Olha, eu José,
acho melhor não.
- Porque?
- Bem, tudo isso
está estranho demais, não acha?
- Acho eu José. Já
falamos sobre isso.
- Então, deixe
colocar os pensamentos em ordem, tá.
- Está bem. No
entanto tem uma coisa que você não atinou.
- O que?
- É que onde um vai
o outro vai junto independente da nossa vontade.
- Caralho.
- Vamos fazer um
teste.
- Que teste?
- Você me prende no
quarto... aí posso fugir pela janela... no banheiro que não tem como eu sair.
- E depois?
- Você vai para onde
quiser ir e vamos ver se apareço onde você está.
- Feito.
Prendi eu José no
banheiro social e sai. Na garagem peguei o carro e dirigi um bom tempo sem um
destino certo. Passava em frente a uma casa noturna e resolvi entrar. Até o
momento nada de eu José. Suspirei aliviado. Estava no balcão tomando uma
cerveja quando o vejo no outro lado do balcão. Fecho a cara num gesto de
desgosto. Nesse momento ao seu lado vejo uma moça que sorri e balança a cabeça
de um lado para o outro. Fico sem jeito. Ela sorri e aproxima-se.
- Não está gostando
do ambiente ou de mim.
- Não... sim... quer
dizer nenhum e outro.
- Então porque essa
cara azeda.
- Nada é que...
- Não fala nada do
que está acontecendo, disse eu José ao meu lado.
Olhei para ele.
- Cuidado que ela
não está me vendo e nem me ouvindo.
Droga? É mesmo!
- É que não estou
mais acostumado com isso.
Disse falando para
ela.
- Vida noturna?
- Sim. Sou mais
caseiro.
- E o que fez você
sair de casa?
- Precisava pôr em
ordem minha mente que está uma bagunça.
- Olha onde você
está pisando, eu Cardoso.
Mecanicamente fechei
o semblante.
- O que foi?
- Nada.
- Como nada. Então
porque essa testa enrugada?
Caramba, ela
percebeu.
- Olha posso lhe
dizer que não é nada com você.
- Se não é nada
comigo, porque não me diz a verdade.
- Que verdade?
- Ora, seja sincero.
- Desculpe, não nos
conhecemos...
- Bom, você pode não
me conhecer, mas conheço você.
- Me conhece?
- Sim.
- E como me conhece?
- Sim, você é eu
Cardoso.
- O que?
- E ele ali é eu
José.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
O corpo
Estava ali. Quieto. Petrificado. Frio, talvez
enregelado. Não ousava tocar, aliás, ninguém ousava. Alguns passavam, paravam
por segundos, continuavam andando. Outros, com um pouco de ousadia mínima,
sacava o celular e tirava uma foto. Para que? Vai se saber, talvez postar em
alguma rede de inúteis. A quanto tempo estava ali? Não se sabia. Se preocupavam
com isso? Claro que não. Olhando-o notava-se algo de errado, quer dizer, se
parasse um pouco prestando uma certa atenção interrogativa. Faltava-lhe os
olhos. É! Os olhos. Apenas os olhos, não, isso não, não se percebia que
tivessem sido arrancados, não havia vestígios de que o fossem. A cavidade
ocular não apresentava vestígios algum de ferida, corte, sangue coagulado,
nada. Intacta. Aproximando-se, olhando por cima, com clareza, dava para ver os
nervos, as veias, as cartilagens pulsando numa pasmaceira normal, apenas não se
via o olho e seus componentes a córnea, o nervo ótico, a íris, o cristalino,
nada disso se via. Alguém passando disse:
- Olho invisível, cara.
Será? Pode ser, nessa vida de burlescos e
maltrapilhos com crendices mil, tudo pode ser. Mas se realmente é isso, olho
invisível para que? Com a finalidade de assustar não era. Pois se olhando para
a cavidade ocular, não provocava medo, apenas curiosidade. Bom vai se saber,
não é, com tanta esquisitice o impossível de ontem torna-se possível hoje.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
O rapaz que cheirava livros.
Para Marcos Well.
Confessava. Tinha um
vício. Só não sabia se era inofensivo ou não, mas tinha, e, também descobriu
ser um fetiche, o que o deixou um tanto quanto preocupado, pois não tinha noção
de ser um fetichista. Porém, essas questões não foram relevantes para ele,
tinha um vício e pronto. Quem não alimenta seu vício não vive, era o seu lema.
Gostava de cheirar livros. Principalmente os novos. A primeira coisa que fazia
ao adquirir o livro era cheirar suas páginas, sentir as letras, as palavras, a
tinta, o papel novo, imaginar quantas mãos passaram pelo livro até chegar a ele.
Imaginava desde o momento em que o escritor começou a dar forma à narrativa, o
escreve e reescreve, as folhas, o manuscrito, o final, os estudos para a capa,
a gráfica, o empacotamento, a distribuição, até o momento em que a obra exposta
para a venda, o excitava. O instante em que tinha o volume em mão o deixava
extasiado, inebriado. Um dia o excitamento foi tanto a ponto de sentir uma
pequena ereção que o fez fechar o livro rapidamente levando a pessoa ao lado a
se assustar. Ao ter em mãos o livro fazia uma análise desde a capa a
contracapa, a sinopse, as orelhas, o prefácio quem escreveu, quem ilustrou a
capa, olhava folha por folha, numa minucia obsessiva.
Confessava, esse era
o um vício. Depois é que saboreava a história. E de vez em quando, durante o
processo de leitura, parava alguns momentos e levava o livro ao nariz, como
fazia naquele momento. E ao baixar o livro notou dois olhos observando-o. Meio
que envergonhado ao ser flagrado, sorriu sem graça, o dono dos dois olhos
retribuiu o sorriso e, se levantou indo em sua direção.
- Posso?
- Claro, fique à
vontade.
- Vi o seu gesto.
- Percebi.
- Não fique
envergonhado ou acanhado com isso.
- Não estou, é que
não previa que era observado.
- Além de cheirar
livros esse é meu outro vício: observar as pessoas.
- Também as observo,
mas não tanto como você.
- Então, posso saber
que livro está lendo?
- Novelas nada
delicadas, de Marcos Well.
- É bom?
- Excelente, gosto
desse escritor.
- Vou procurar
comprar.
- Será uma boa
compra, não vai se arrepender.
- Espero que não
tenha aquelas excessivas discrições sexuais enfadonhas.
- Não é não, aliás,
tem, mas aqui é menos explicitas.
- Ainda bem.
- Vou te perguntar
uma coisa.
- Pode perguntar.
- Você já fez
leitura sexual?
- Que? Como é isso?
Me explique.
- Mais ou menos
assim, durante a transa, quer dizer, antes fazemos o sorteio de quem começa.
- uhm...
- Por exemplo, se
for eu que começo, faço a leitura dum terminado trecho do livro enquanto você
inicia as preliminares. Estipulamos a quantidade de página a ser lida.
- E depois?
- Vamos dizer que
seja cinco páginas. Durante essas cinco páginas você deita e rola nas
preliminares, entende.
- Entendo. Em
seguida é minha vez de ler cinco páginas enquanto você me ataca nas
preliminares.
- Isso.
- Topo.
- Precisamos apenas
escolher o livro, ver a quantidade de páginas...
- Que tal esse?
- Novelas nada
delicadas?
- Sim.
- Pode ser.
- E se não
conseguirmos chegar ao fim do livro.
- Bom aí veremos.
- Podemos marcar
outro dia.
- E, também vai
depender se nossa alquimia bater.
- Certo.
- Vamos então.
- Sua ou minha casa?
- Sua.
domingo, 16 de fevereiro de 2020
O vale das bonecas.
Apesar do seu
lançamento em 1966 ter sido um estrondoso sucesso junto com a música tema, a
história me parece um dejá vu, mas não lembro ter lido na época e, também a
história das três personagens: Anne, Neely e Jennifer não me conquistar muito,
e achar o romance descartável, gostei dessa definição que o Lyon diz para Anne:
“Estou falando em
amar. E não em mendigar! O amor não tem que transformar alguém em mendigo. Eu
não ia querer amar se tivesse que mendigar por esse amor, dar algo em troca ou
classifica-lo. O amor é algo que deve ser dado... não pode ser comprado com palavras
ou piedade, nem mesmo com razão. Jamais mendigarei por você, Anne. Eu te amo.
Você precisa saber disso. Eu sempre a
amarei...
Valley of the dolls,
Jacqueline Susann
sábado, 15 de fevereiro de 2020
0s dedos.
Meu Deus, disse
alguém ao passar pelo local. Mecanicamente, repetiu: Meu Deus mesmo sendo ateu
como dizia, repetiu Meu Deus horrorizado. Ali ainda estava o corpo estirado no
frio olhando o vazio com as orbitas ocas. Terrível frustração o dominou
levando-o a desacreditar em si mesmo e nos outros, talvez mais nos outros do
que em si mesmo. Desolado constatou que estava perdido, tanto ele como o mundo.
Ele poderia ter salvação? Mas e o mundo, teria salvação? Ou seria ao contrário,
ele não teria e, o mundo sim é que teria salvação? Observando o que o ocorria
neste pequeno mundo de partículas ínfimas, desacreditava tanto dele como do
mundo. No entanto não impediu que a chama fluísse de si para o fato exposto e,
parece que surtiu efeito e, ao dirigir o olhar para as mãos notou algo inusitado:
os dedos, faltavam os dedos. O que? É os dedos. Como nos olhos, não havia
sinais de corte, de brutalidade, apenas ausência dos dedos. Olhando com mais
atenção, não tinha sinais de cicatriz, o que provava que não foram cortados. Em
seu lugar havia só pele lisa, como se nunca tivessem dedos. E outra coisa que
notava: decomposição, não havia putrescência. Porque? Seria brincadeira ou,
aquelas piadinhas de mau gosto que a mídia execrável gosta de impingir nos
incautos burros? Poderia ser um boneco o que não era. As pessoas passavam,
algumas até desviavam, outras chegavam a pular, e ninguém fazia nada, não
tomavam providência. O que poderia ou, melhor, deveria fazer? Olhou para os
lados, observou o vai e vem tumultuado da pressa, consultou o relógio e, achou
melhor não fazer nada. Aquilo não era problema seu. Deu de ombros e seguiu seu
caminho.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020
Os olhos.
Oito precisamente. Estavam
esparramados numa docilidade impaciente de quem não quer nada e ao mesmo tempo
deseja o nada que tem. Os olhos são a
janela da alma, disse alguém filosoficamente sem pensar no significado das
palavras. Olhos que olham e guardam segredos. Langorosos na docilidade dos
desejos passeiam no corpo farto ao penetrar na carne fraca. Precisamente oito
olhos se estendiam esparramados no papel branco da alma. Ansiava em sentir as
atrocidades, as maquinações, os segredos, os anseios, os devaneios e
perversidades em seus líquidos falsos ou verdadeiros. Não conseguia evitar de
olhá-los, pois sendo criações suas, via nos contornos, nos tracejados, nos
pontos cada significado que, a sua revelia, colocado à mostra, pudesse ser
revelado. Sabia que não precisaria alimentar o medo, apesar de captar cada
nuança com precisão quase orgânica, seus segredos estavam escondidos. Será que
estavam mesmo? Perguntou aos silenciosos olhares que, mudos, não lhe
responderam. Num gesto impensado teve a ousadia satânica em destruir os oito
olhos. No entanto a languidez, como ferro em brasa, o obrigou a não cometer tal
ato, e, assim os olhos permaneceram fixos no oco da árvore humana.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Nada dura para sempre.
Augusto parou no meio fio da calçada. Enfiou a
mão no bolso e retirou o maço de cigarro. Colocou um nos lábios e quando levou
o isqueiro para acender, um carro parou bem a sua frente. Assustado,
interrompeu o gesto. Quem seria? Sacudiu os ombros, evidentemente não era com
ele, e ao se virar para se afastar a janela do passageiro foi abaixada e dentro
do carro ouviu uma voz forte dizer:
- Quanto é?
Como? Quanto é o que? Inclinou o corpo na
intenção de ver quem era, no entanto o rosto estava na sombra, não conseguiu distinguir
direito e, ao mesmo tempo o cara perguntou de novo.
- Quanto é?
- Mil reais.
- Faz tudo?
Quando tentou responder, foi violentamente
puxado para traz caindo sentado no meio da calçada. E logo em seguida um
sujeito alto começou a chutá-lo desnorteadamente. Augusto com os braços
protegeu o rosto, mas não pode evitar chutes no corpo, nas pernas, nas costas,
não tinha como reagir. Nisso ouviu um grito:
- Gino, pare.
Foi o bastante para o agressor se distrair e Augusto
ter a oportunidade de se levantar.
- Vou te matar, seu merda. Roubando meu ponto.
Roubando meu cliente.
E avançou para cima de Augusto que procurou
ficar o mais longe possível. Gino tentava se aproximar gritando palavrões, até
que Gabriel se interpôs entre eles.
- Gino, pare, por favor.
- Não se meta, Gabriel. Esse filho da puta
estava roubando meu ponto.
- Gino, pare. Olhe os policiais se aproximando.
Numa rapidez estupenda, Gino mudou de
comportamento.
- O que está acontecendo aqui?
Perguntou um dos policiais.
- Nada não.
Respondeu Gino ao mesmo tempo em que passava o
braço pela cintura de Augusto.
- Apenas briguinha de namorado, não é amor?
- Amor! Agora sou amor, né, malandro.
Disse Augusto agressivo. E ao sentir a quentura
de Gino em seu corpo foi tomado por uma náusea e o hálito úmido fazendo cocega
em seu pescoço o deixou enojado.
- Acho bom, mesmo. Vão andando, não quero ver
ninguém aqui. Circulando rapaziada se não querem ir para a cadeia.
- Vamos sim, seu guarda. Vamos amor que em casa
vou lhe dar um corretivo para acalmar essa sua ciumeira.
E puxou Augusto que não teve alternativa a não
ser ceder. Assim que dobraram a esquina, que não estavam mais sendo observados,
Gino deu um empurrão em Augusto que bateu as costas no muro.
- Suma daqui filho da puta, não quero te ver
mais.
E atravessou a rua ganhando o anonimato da
escuridão. Augusto sacudiu o corpo, passou a mão pela camisa e calça como se
tirasse a impregnação do contato de Gino. Viu que os policiais tinham ido
embora, voltou ao local. Andou de um lado para o outro. Retornou à esquina
quando viu Gabriel entrando no prédio. O alcançou antes de fechar a porta.
- Espere. Quero falar com você.
Gabriel voltou o corpo e pegando o pelo braço,
puxou Augusto para dentro e encostando-o a parede. Olhou bem em seus olhos e o
beijou sofregamente. Tomado de surpresa, Augusto não soube agir, mas logo em
seguida se entregou aos beijos. Sentiu a língua de Gabriel pedindo passagem,
não ofereceu resistência, deixou que as línguas se encontrassem num frenesi
louco. Nisso a porta do elevador se abriu. Se separaram, no entanto, não saiu
ninguém. Gabriel puxando-o pela mão disse:
- Venha.
Entraram no elevador e continuaram se beijando.
- Gabriel...
- O que?
- A câmera...
- Que se foda...
E se beijando saíram do elevador e entraram no
apartamento. A luz da lua pela janela sem cortina iluminava o sofá onde eles se
jogaram. E na iluminação natural Augusto sentia o peso do corpo de Gabriel que com
a maior destreza beijava devagar o peito liso de Augusto ao mesmo tempo em que,
botão por botão, abria a camisa cinza claro. E cada botão aberto, era um beijo.
Ao chegar no último, Gabriel puxou a camisa de dentro da calça e deparou com o
umbigo redondo, bonito, meio salgado, um pouco úmido pelo suor e, ali, se
demorou lambendo, chupando, beijando de leve, mordendo provocando em Augusto
pequenos gemidos. Como gostava de umbigo, se entregava todo para lamber, beijar
e, assim ficou até que o companheiro pegou seu rosto e o puxou para cima colando
novamente seus lábios nos lábios de Gabriel. Este com olhar cinza prata,
silencioso pedia ou, melhor dizia:
- Agora é a sua vez, Augusto.
Ao que Augusto obedeceu fazendo o mesmo, a cada
botão aberto beijava a pele morena de Gabriel e, nesse instante parou ao notar
a tatuagem logo abaixo do mamilo esquerdo.
- Você tem uma tatuagem?
- Sim. Mas agora não é hora de se falar em
tatuagem.
- Está bem.
Gabriel tinha uma pele sedosa, suave, cheirosa,
amorenada que se arrepiava aos beijos de Augusto. Movimentando-se devagar,
Gabriel se sentou na beira do sofá e puxou Augusto que ficou em pé a sua
frente. Augusto não era muito alto, talvez um metro e setenta, magro, uma
barriga que já começava a ter uma pequena saliência, mas de uma beleza na qual
Gabriel se embriagava. E naquele momento, deliberadamente se entregou ao baixar
o zíper da calça de Augusto deixando à mostra o volume por debaixo da cueca
vermelha. Ao passar a mão de leve, sentiu a pulsação quente das veias
entumecendo a pele. Após lamber a cueca deixando-a úmida, Gabriel vagarosamente
puxou o pênis que, sentindo-se livre, saltou para fora. Mordeu de leve o lábio
inferior demonstrando satisfação ao ver o pênis do companheiro. Olhou com
brilho nos olhos investigando cada milímetro ao mesmo tempo em que o tocava.
Sentiu a quentura doce queimando a palma da mão. Saboreou cada instante, as
veias, a pele suave, o vai e vem cobrindo e descobrindo a cabeça lisa e
vermelha e, na aproximação do orgasmo, percebeu que, o que estava fazendo ia mudar
sua vida, isso tinha certeza. Poderia confiar em Augusto? Perguntou
mentalmente, no entanto uma parte do seu corpo dizia não, não deveria ter
cedido ao desejo, estava sendo injusto, tanto com ele, como com Augusto.
- Não me leve a mal, mas acho melhor você ir
embora, Augusto.
Disse numa voz baixa e melancólica afastando o
parceiro.
- Não é nada com você, apenas estamos fazendo a
coisa errada.
- Você está enganado, Gabriel. É o que eu quero
e sei que você também quer.
Augusto desapontado, tentou mudar a decisão de
Gabriel, mas não foi vitorioso, quando Gabriel colocava uma decisão na mente,
raramente voltava atrás.
- Você até pode estar com a razão, talvez, mas
não agora, quem sabe outro dia, outra hora.
O que Augusto não sabia e, provavelmente nem
viesse a saber, é que Gabriel estava numa desordem mental, não podia falar
nada, o que tinha que fazer era tirá-lo da frente dele e não estragar tudo. Por
isso, com muita insistência convenceu o amante a ir embora. Mas, ao acender a
luz, Augusto viu Theus em cima da mesinha. Pegou o livro foleou e olhando para
Gabriel disse:
- Você tem o mesmo nome do personagem...
- Sim.
- Tatuou o nome no peito também.
- Sim.
- Não vejo tanto significado para isso.
- O que? Está de brincadeira?
- Parafraseando o Leonardo: “Não gostei, mas
tem citações legais no discurso dos amigos psicólogos”, aliás acho o ponto alto
do livro.
Gabriel se vestindo, olhou para Augusto com
cara de desaprovação.
- Você está realmente de brincadeira comigo,
não pode ser.
- Não, estou falando a verdade, não gostei mesmo.
Disse Augusto meio que irônico.
- Uma história tocante, sofrida, me vi na pele
do personagem, para mim é o melhor livro que já li.
- Tudo bem, é o mais vendido do autor, o que
acho estranho é que não encontrei uma crítica que apontasse os erros e os
acertos, só vi elogios e badalação a uma história simples, sem muita
profundidade, uma história linear.
- Linear? O que você quer dizer com isso.
Gabriel começava a se enfezar com Augusto.
- O que eu quero dizer é uma história sem clímax,
sem aquele sufoco que te deixa o peito arfando querendo saber o que vai
acontecer na página seguinte.
- É um romance, um drama, não policial, de
mistério. Olha acho melhor ir embora...
- Sim, mas é emoção fraca apenas para capturar
o leitor, coisa que o autor faz bem. Talvez, aí que está o ponto forte do
livro. Numa linguagem transparente ele nos mostra as várias facetas dos
problemas que o herói tem que passar, desde a traição, passando pela não
aceitação e filosofia de que nada dura para sempre. Vendo por essa perspectiva
dou dez para o livro, mas no geral não me agradou.
- Augusto acho melhor ir embora, não quero
brigar com você.
Gabriel desgostoso empurrava Augusto para fora
do apartamento.
- Não acredito que vai brigar comigo só porque
discordo de você!
- Vou sim. O livro é excepcional, com os
códigos...
- Sabe que não dei importância a esses códigos,
claro fiquei curioso, mas não procurei descodificar os códigos de cada página.
É outro ponto forte do livro, o leitor fica curioso em saber o que é esses
números.
- Tchau, Augusto.
E empurrou o amigo para dentro do elevador que
fechou a porta e começou a descer. E ao entrar no apartamento pegou um envelope
e abriu. Olhou a data e mentalmente disse:
- Tenho quinze dias para me preparar.
Nisso ao erguer os olhos e olhar pela janela
viu Augusto no meio da rua indeciso, não sabia se ia embora ou se voltava, até
que se decidiu voltar. Augusto ao sair do elevador encontrou a porta do
apartamento aberta. Entrou e não viu Gabriel. Pegou um papel e uma caneta e
deixou um bilhete:
Querido Gabriel
Seu bobo. Não percebeu que eu estava
sendo irônico.
Claro que gostei do livro, tanto é que
estou levando emprestado, vou reler.
Daqui a quatro meses eu devolvo.
Está bem?
Beijos
Augusto.
Gabriel leu e disse baixinho:
- Daqui a quatro meses não estarei mais aqui.
Meses depois...
A campainha num som leve encontro-o revisando o
trabalho que teria de ser entregue no fim de semana. A contragosto abriu a
porta e se surpreendeu ao ver quem o perturbava.
- Augusto!
- Olá. Tudo bem?
- Sim, mas o que faz aqui?
- Não me convida para entrar?
- Entre.
Disse demonstrando irritação. Augusto entrou e se
virou para ele e o abraçou. Gabriel não correspondeu ao abraço.
- Puxa que frieza! Não está contente em me ver.
- Não... sim... não é isso... é que...
Gaguejando demonstrava desconforto ao ver o
amigo.
- Ah! Aqui está Theus, prometi e estou
devolvendo.
- Obrigado. Como me encontrou?
- Sabe que você tem amigo que é apaixonado por
você.
- Marciel...
- Querendo se esconder, fugir do destino, do
amor...
- Esconder... destino e amor não acredito...
- Você... nós podemos sermos felizes, acredite.
- Nós!
- Sim, nós, pois assim que te vi me apaixonei.
Augusto disse se aproximando de Gabriel que não
disfarçou o embaraço à sua aproximação. Gaguejando respondeu:
- Eu também... me apaixonei por você, mas não
podemos...
- O que não podemos? Nos amarmos, sermos
felizes?
- Sim.
Gabriel se sentia desconfortável ao afirmar
isso. Queria que Augusto esquecesse dele.
- Só por causa de uma simples operação?
- Simples operação? Para você é tudo simples,
não é.
- Olha entendo o que você tem medo...
- E o que eu tenho medo.
Gabriel quase gritou se afastando do amigo.
- O medo de que ninguém mais possa te amar por não
ter mais ereção.
- Bom... se fosse contrário eu pensaria
muito...
- Bobo, te amo como você é com ereção ou sem
ereção, há amor que não necessita de penetração.
- Talvez, tenha razão, mas vou sempre ficar
encucado...
- Podemos tentar, o que acha?
- Sim.
E dois corpos se tornaram um só a partir
daquele momento.
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