sábado, 29 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 05


No que estou pensando exatamente às 22:45 minutos, do dia 09 de abril de 2018 é o que não sei o que estou pensando, entende? Precisamente até sei, mas o que eu queria exatamente com esses “No que estou pensando” era criar textos poéticos, crônicas, poesia e outras infindáveis de ideais que essa mente de aprendiz cria a bel prazer, e, no final acabei escrevendo uns poemas chinfrim descartáveis. A noite silenciosa, apenas quebrado pelo som do aparelho pega pernilongo e um outro som que vem da rua, está até agradável. Estou bem a vontade, se é que possam imaginar, caçando palavras e nada mais. Com licença já volto.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 06


E foi, então que bateram palmas. E essas palmas me pareceram vir de longe, mas percebi que vinham do portão. Moro numa vila onde as casas estão dispostas uma ao lado da outra, devem ser umas quinze casas, e a minha é a primeira, isto é, mais perto do portão. Portanto devido a essa posição geográfica fui atender quem batia palmas.
- Pois não, disse ao abrir o portão e deixando a chave na fechadura.
- Por favor, o Cardoso está?
- Sou...
Nisso uma rajada de vento inesperado bateu o portão com violência fazendo a chave cair e rolar para longe. O portão sendo alto e tendo uma placa metálica embaixo para evitar intrusos e outras coisas indesejáveis, e o chão por ser um declive, a chave caiu longe, dificultando pegá-la.
- Que merda eu disse.
- Por favor, pode chamar o Cardoso.
- Mas eu sou...
Nisso um sujeito sai da minha casa.
- Estava procurando minha chave e ela estava aqui. Como foi que veio parar aqui.
Olhei para o cara assombrado ao mesmo tempo que ele olhou para mim, se assombrado ou não, não sei, não deu pelotas, virou as costas dirigindo-se a minha casa.
- Espera venha aqui. Quem é você?
- Oras sou o Cardoso.
- Pera aí, eu que sou o Cardoso, moro nessa casa já faz dois anos.
- Não te conheço cara e por coincidência moro aqui a dois anos.
- Venha aqui vamos conversar. Tem um cara que quer falar com você.
Mas não me ouviu. Entrou em casa. Virei o corpo para falar com o rapaz que queria falar comigo, isto é, com o Cardoso, tinha sumido. Será que estou sonhando? Espera, vou chamar meu sobrinho. Peguei o celular.
- Ale, tudo bem? Sim, tudo bem também. Será que pode vir até o portão? Legal, obrigado.
Instantes depois surge meu sobrinho sem camisa, com uma bermuda até o joelho. Assim que chegou ao portão, falei:
- Ale...
- Quem é você e como sabe o meu  nome?
- Sou seu tio Cardoso...
- É mesmo? Não te conheço.
- Como não me conhece, irmão da sua mãe...
- O meu tio, irmão da minha mãe mora naquela casa.
- Mas sou eu, Ale.
- E outra coisa, não sei como conseguiu o número do meu celular, se me ligar de novo chamo a polícia.
E foi embora. Como pode ser isso? Já sei, vou perguntar para a Alice. Atravessei a rua e apertei a campainha. Quando ela apareceu, perguntei:
- Você me conhece?
- Não, me respondeu.
- Como não! Sou o Cardoso, seu primo.
- Não te conheço, meu chapa.
Desolado, ainda na esperança de que me conhecesse, perguntei:
- Tem certeza?
- Sim.
Caramba, e agora, tem minha irmã, ela vai me reconhecer.
Fui até a casa dela e apertei a campainha. Ela apareceu na sacada.
- Pois não?
Nesse pois não, já me disse que não tinha me reconhecido, mesmo assim perguntei:
- Você me conhece?
- Não. Porque? Devia te conhecer?
- Não. Está bem, obrigado.
Cabisbaixo, intrigado comecei a descer a rua sem saber onde ir, o que fazer, o que decidir, quando esbarrei comigo que mora na minha casa.
- Desculpe, cara.
Olhei para ele que olhou para mim e vendo minha cara angustiada, me disse:
- Cara, sabe o que está acontecendo?
- O que?
- Acho que você é de outro nível, por algum motivo você caiu aqui.
- É pode ser. Ou será você que caiu de outro nível.
- Olha não sei, mas uma coisa eu sei, estou com sede, e você?
- Também estou com sede.
- Então vamos tomar uma cerveja.
- É melhor mesmo.
E assim eu com eu fomos até o bar tomar uma cerveja.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 07


E assim eu com eu fomos até o bar tomar uma cerveja. Aí foi quando o tempo fechou. Escureceu como breu. Trovoadas e relâmpagos infindáveis surgiu no céu escuro. Pensávamos que iria chover uma torrente de água. Mas como tudo aconteceu depressa, tudo depressa parou. A claridade voltou. E foi quando olhei para eu que estava do outro lado da mesa, eu tinha desaparecido, quer dizer sumi, assim como o copo de cerveja. Estranhei, o que teria acontecido comigo, foi o que perguntei para mim. Perguntei para as pessoas que estavam no bar quando entramos e, para minha surpresa, todos disseram que entrei sozinho. Fui até o dono que estava atrás do balcão e me disse a mesma coisa: entrei no bar sozinho. Mas foi pedido dois copos, falei para ele. Sim, foi pedido dois copos, acontece que você pegou um só, o outro está aqui, e mostrou o copo para mim. Meu Deus, o que estará acontecendo comigo, perguntei mentalmente. Saia do bar desorientado. Primeiro um cara dizendo ser eu toma meu lugar na minha casa. Meu sobrinho, minha prima, até minha irmã não me reconhecem, encontro comigo mesmo, vamos até o bar tomar uma cerveja e, no meio de relâmpagos, trovões eu sumo de mim. Será que eu voltei para o meu nível? E eu fiquei nesse nível? Como pode ser? Como passava em frente a casa da minha irmã toquei a campainha. Ela apareceu na sacada.
- Oi, mano, espera vou abrir o portão.
Oi, mano ela disse. Quer dizer que me reconheceu. E por que antes não tinha me reconhecido? Entrei, cumprimentei com dois beijos no rosto.
- O que foi?
- Porque?
- Está branco, viu algum fantasma?
- Mais ou menos isso, disse a ela.
Expliquei para ela desde o começo até o desaparecimento de mim no bar.
- Que besteira, mano. Você está louco, estressado, é isso, vai para casa, tome um banho e descanse. 
É. Louco, estressado, cansado, não acredita, e quem vai acreditar, não é? Estava abrindo o portão de casa quando minha prima saia da dela.
- Oi, primo, tudo bem?
- Agora me conhece, né?
- O que? Não entendi.
- Deixa pra lá, respondi.
- Espere, o que aconteceu?
- Não aconteceu nada, estou apenas cansado.
- Está bem, bom descanso então.
- Obrigado.
Quando abria a porta de casa ouço meu sobrinho dizendo:
- Oi, tiozão, o que aconteceu?
Também você está me conhecendo, né, pensei.
- Nada...
- Como nada. A mãe disse que o senhor...
- Não foi nada, não esquenta.
- Ok. Mas se precisar de mim, é só falar.
- Obrigado.
Entrei, fechei a porta, acendi a luz da sala, liguei o som, e fui ao quarto tirar a roupa para tomar um banho. Assim que pressionei o interruptor e a luz expulsou as sombras meu coração se acelerou e quase desmoronei de susto.
- Olá, você demorou?
Eu estava deitado na minha cama.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 08


Quase estourei um copo.

Nata de leite. Alguém conhece ou já ouviu falar? Já experimentou? É uma delícia, muito gostoso. Então faz tempo que não vejo, não ouço falar, e que não como com pão ou simplesmente no café com leite. O que me levou a falar sobre isso foi o seguinte:

Outro dia de manhã, não lembro se ontem, anteontem, segunda ou terça, sei lá não lembro, foi um dia de manhã em que fui tomar café. Enchi o copo de leite gelado e coloquei no micro-ondas para esquentar ou pelo menos quebrar um pouco do gelado e fui pegar o pão e a manteiga e o Nescau. E estava já comendo o segundo pão de forma com manteiga quando percebi o marcador do micro-ondas e estava faltando três minutos. Assustado corri cancelar o processo. E ao abrir a porta o leite tinha fervido e derramado no prato. Argh@#$%&* fiz mentalmente. Não consegui pegar o copo imediatamente, estava superquente, e aos poucos, com um guardanapo consegui colocar na mesa. Tirei o prato, limpei e coloquei no lugar de novo. Foi nesse instante ao dar atenção para o meu liquido desjejum é que notei a finíssima camada de nata que se formou em cima do leite.  E nostálgico lembrei dos meus tempos de infância. Não tínhamos micro-ondas e nem fogão a gás, era a lenha. Aliás não lembro quando o fogão a gás surgiu na minha vida. Era fogão a lenha e, também não lembro se tomávamos café em copo ou xícara, acho que era em caneca de alumínio ou aquelas canecas brancas que aos poucos iam se descascando as bordas e que se tornava a nossa caneca predileta, não lembro, mas sei que era uma angustia quando nossa avó ou nossa mãe colocava o leite para ferver, não era para esquentar, era para ferver mesmo. E tínhamos que ficar atentos para que o leite não derramasse, quando começava a borbulhar tirávamos do fogo, e aí que começava a gritaria:
- Não quero com nata.
- Quero com nata, vó.
- Não quero muito quente, mãe.
Eu as vezes com uma colher pegava a nata e passava no pão e saboreava lambendo os beiços.
Oh coisa gostoso...!

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 09


Eu estava deitado na minha cama.  
O que fazia eu deitado na minha cama? E como cheguei aqui se estava sem a chave... espere! Esse negócio está mal explicado. Sentei na beira da cama. Eu encostou-se mais perto da parede para me dar lugar. Com os cotovelos apoiados na minha perna e o rosto entre as duas mãos falei devagar.
- Esse negócio está esquisito de errado.
- O que está errado?
Perguntou eu.
- Siga meu raciocínio.
- Diga.
- Quando o portão bateu e a chave caiu e você veio e a pegou, eu fiquei preso pelo lado de fora do portão. Certo?
- Certo.
- Então, quando fui falar com minha prima e minha irmã, você entrou em casa.
- Certo.
- E quando estava voltando trombei com você e fomos tomar cerveja.
- Certo.
- E no bar depois da tempestade, quer dizer, ameaço de tempestade, você sumiu, e, como não sei.
- Certo.
- E chego aqui abro o portão e a porta da casa, e eu pergunto: com que chave? Se você a tinha pego quando o portão bateu?
- Ah! É isso que está achando esquisito de errado?
- Sim. A chave ficou com você e não comigo.
- Mas você esquece de uma coisa.
- O que?
- Se eu ou você for de outro nível, esqueceu que tudo o que acontece num acontece em outro?
- Não esqueci, isso quer dizer, se entendi as explicações que venho estudando.
- Então, se eu tinha a chave você também a tinha, era só enfiar a mão no bolso, coisa que você não fez naquele momento, foi fazer só agora porque tinha certeza que eu não estaria aqui.
- Mas, se nós dois tínhamos a chave, então porque você saiu de casa e veio pegar a chave quando ela caiu do portão.
- Não sei te explicar isso.
- Esquisito não acha?
- Acho.
- É. Esquisitice mesmo.
- O que?
- Esquisitice mesmo.
- Ah Tá.


domingo, 23 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 10


- Esquisitice mesmo.
- Ah Tá...
E ficamos um tempo quieto. Eu sentado na beira da cama, com o rosto apoiado nas mãos que por sinal estava com os cotovelos apoiados na perna. E eu encostado na parede fria do quarto. Eu estava de camisa listrada e bermuda e no pé um chinelo de dedo. Eu encostado na parede fria do quarto estava sem camisa e... como me conheço acho que ele estava sem roupa por baixo do cobertor, apesar de não estar fazendo frio.
- E então?
- Então o que?
- Como se explica isso tudo?
- Olha não sei. Para mim até que está bem, não me importo de viver comigo mesmo na mesma casa e, pelo que percebi, como você disse, não sou visto por ninguém, isto é, só você que me enxerga. Portanto, em público cuidado para que não percebam que você fala sozinho.
- Que merda! Até quanto tempo vamos viver essa... essa.. como que você disse mesmo?
- Esquisitice.
- Ah isso mesmo, esquisitice...
Caímos no silêncio novamente. Eu olhando os desenhos estranhos do ladrilho do quarto, e eu com os olhos fitos no teto branco. O que será que ele estará pensando? Ele deve estar pensando o que eu estou pensando, se somos dois e um só. Não vou perguntar por que acho que está pensando o mesmo que eu. Nisso, como se estivesse lendo meus pensamentos ele pergunta:
- O que está pensando?
- Se você está pensando o mesmo que eu.
- Também pensava se você pensava o mesmo que eu.
- Aonde vai? Perguntou ele ao ver que eu levantava da beirada da cama.
- Vou tomar banho.
- Vou também, disse esticando as pernas para fora do cobertor.
- Espere aí.
- O que?
- Como eu me conheço, você está pelado por baixo desse cobertor, portanto se vista que não quero me ver nu.
- Ora, para que tanta frescura, se eu sou você e você sou eu já sei fisicamente como sou, seria como se olhasse no espelho.
- É, mesmo assim será grotesco e estranho olhando para mim mesmo ao vivo e a cores.
- Esse bordão de redes sociais pega mal, cara.
- Que bordão?
- Ao vivo e a cores.
- Ah! Vai...
- Não, não vou não, vou é tomar um banho. Você não vem?
Surpreso fiquei sem ação. Sai do quarto. Na cozinha preparei algo para comer. Logo depois eu chego com o cabelo molhado e de cueca.
- Há outra coisa inexplicável.
- O que?
- Como você surgiu e como você desapareceu no bar e como voltou para a casa?
- Não sei. Quem está estudando esoterismo é você, quem deveria dar essas explicações.
- Estou cru ainda. Somente esse ano é que comecei a me interessar pelo assunto.
- Se você acha que não podemos viver dessa maneira...
- Como seria vivermos dessa maneira?

sábado, 22 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 11


- Se você acha que não podemos viver dessa maneira...
- E como seria vivermos dessa maneira?
- Bem... não sei... eu invisível... só você me vendo... sei lá.
- É. Boa resposta, sei lá.
- E o que gostaria que eu falasse?
- Talvez, uma solução disso tudo, que você caiu aqui para me ajudar, para abrir meus os olhos, para vivenciar algo desconhecido...
- Talvez...
- Talvez o que?
- Olha vamos concordar com uma coisa.
- Que coisa.
- Primeiro: não tenho culpa nenhuma de estarmos passando por isso.
- Eu também não.
- E segundo: pare de berrar como se a culpa fosse minha ou a sua. Vamos aceitar numa boa, pensar e quem sabe acharemos uma solução.
- Está bem. Desculpe.
Ficamos um bom tempo em silêncio. Olhando a parede do quarto me indagava no por que de tudo isso e no que daria tudo isso e, ao virar a cabeça para o lado dele, vejo que eu não estou mais no quarto. Será que eu voltei para o meu lugar e vou poder continuar minha vida de sempre? Caralho, o que está acontecendo? Estou enlouquecendo? Bom nada de entrar em pânico. Vou dormir que amanhã será outro dia. E foi o que aconteceu, dormi feito pedra, acho que foi o meu melhor sono da minha vida, no entanto no dia seguinte...
Acordo comigo abraçado ao meu corpo. Percebo que estou dormindo num sono gostoso e, para não me acordar, devagar, tiro meu braço do meu corpo e saio da cama. Em pé olho para mim e me vejo descoberto e nu. Fico um tempo me apreciando e me sobressalto ao me ver olhando para mim.
- O que foi? Nunca se viu nu?
- Sim... Não... Quer dizer já, mas através do espelho e não dessa maneira.
- Que maneira.
- Ah! Sei lá. Eu aqui e eu aí, você entende o que quero dizer.
- Sim, acho que entendo. Volta para a cama, ainda é cedo. Está frio.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 12


- Ah! Sei lá. Eu aqui e eu aí, você entende o que quero dizer.
- Sim, acho que entendo. Volta para a cama, ainda é cedo. Está frio.
Volto para a cama e me enrolo no edredom. Apesar do frio caio num sono que não vejo quando eu deitei ao meu lado. Se é que deitei ao meu lado, pois no dia seguinte quando acordei eu não estava na cama ao meu lado. Por instantes pensei na tremenda besteira que era tudo aquilo, já estava até achando que eu estivesse ido embora, quando a porta abre devagar e me vejo entrando com uma bandeja de café que trazia para mim. Pensei: caralho, nunca fui e nunca curtir essa droga de romantismo, porque agora tenho que dar uma de romântico. Não falei, apenas guardei o pensamento para mim.
- O que é isso?
- Achei que deveria gostar?
- Você deve saber que não sou dessas frescuras.
- Romantismo.
- Sim, e além do mais nem somos um casal.
- É, tem razão, não somos, mas achei que com esse gesto a coisa poderia ficar..., pensei em quebrar..., diminuir essa estranheza de eu estar comigo mesmo, entende.
- Essa estranheza de eu estar com eu.
- Esquisito, eu sei,
Esquisito ou não tomei café, quer dizer tomamos o café. Depois entrei no banheiro enquanto eu levei a bandeja e ao chegar na cozinha, notei que estava totalmente limpa, o que me deixou ressabiado, pois fazia dias que não limpava.
- Tomou banho, pergunto eu.
- Tomei.
- Não sei não gosto de tomar de manhã.
- Somos eu e eu, um só e ao mesmo tempo somos diferentes.
- Já sei.
- O que.
- Eu sou a parte que gosta de determinada coisa, e eu sou a parte de que não gosta de determinada coisa. Entende?
- Acho que compreendi, melhor explicando: eu sou a parte que gosta de certas coisas e você que sou eu, sou a parte que não gosta de certas coisas, melhorou?
- Acho que sim.   

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 13


- Acho que compreendi, melhor explicando: eu sou a parte que gosta de certas coisas e você que sou eu, sou a parte que não gosta de certas coisas, melhorou?
- Acho que sim.
- Não sei. Creio que deveríamos dar nomes para os bois.
- Como assim.
- Sei lá, eu1 e eu2.
- Como saberemos que eu sou o 1 e eu sou o 2?
- Mas eu estava aqui quando eu apareci.
- Penso que não, eu que estava aqui quando...
- Para. Chega.
- Qual o nosso nome?
- Ahn!
- É. Nosso nome?
- Você não sabe?
- Claro que sei.
- Então diga.
- José Antônio Luís Cardoso
- Então, podíamos chamar eu de Luís e eu de Cardoso.
- Ah! Entendi Cardoso.
- Isso quer dizer que você será Luís?
- Não José.
- Eu Cardoso.
- Eu José.
- Legal Eu José.
- OK eu Cardoso, e agora?
- Olha eu José sinceramente?
- Sim.
- Não sei.
- Legal eu José

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

No que estou pensando 14


- Não sei.
- Legal eu José
Eu Cardoso fiquei pasmado, isto é, não podia imaginar o que dali poderia acontecer, tudo ou nada. Resolvi sair. Peguei as chaves do carro.
- Onde você vai?
Perguntou eu José.
- Vou dar umas voltas.
- Posso ir com você?
- Olha, eu José, acho melhor não.
- Porque?
- Bem, tudo isso está estranho demais, não acha?
- Acho eu José. Já falamos sobre isso.
- Então, deixe colocar os pensamentos em ordem, tá.
- Está bem. No entanto tem uma coisa que você não atinou.
- O que?
- É que onde um vai o outro vai junto independente da nossa vontade.
- Caralho.
- Vamos fazer um teste.
- Que teste?
- Você me prende no quarto... aí posso fugir pela janela... no banheiro que não tem como eu sair.
- E depois?
- Você vai para onde quiser ir e vamos ver se apareço onde você está.
- Feito.
Prendi eu José no banheiro social e sai. Na garagem peguei o carro e dirigi um bom tempo sem um destino certo. Passava em frente a uma casa noturna e resolvi entrar. Até o momento nada de eu José. Suspirei aliviado. Estava no balcão tomando uma cerveja quando o vejo no outro lado do balcão. Fecho a cara num gesto de desgosto. Nesse momento ao seu lado vejo uma moça que sorri e balança a cabeça de um lado para o outro. Fico sem jeito. Ela sorri e aproxima-se.
- Não está gostando do ambiente ou de mim.
- Não... sim... quer dizer nenhum e outro.
- Então porque essa cara azeda.
- Nada é que...
- Não fala nada do que está acontecendo, disse eu José ao meu lado.
Olhei para ele.
- Cuidado que ela não está me vendo e nem me ouvindo.
Droga? É mesmo!
- É que não estou mais acostumado com isso.
Disse falando para ela.
- Vida noturna?
- Sim. Sou mais caseiro.
- E o que fez você sair de casa?
- Precisava pôr em ordem minha mente que está uma bagunça.
- Olha onde você está pisando, eu Cardoso.
Mecanicamente fechei o semblante.
- O que foi?
- Nada.
- Como nada. Então porque essa testa enrugada?
Caramba, ela percebeu.
- Olha posso lhe dizer que não é nada com você.
- Se não é nada comigo, porque não me diz a verdade.
- Que verdade?
- Ora, seja sincero.
- Desculpe, não nos conhecemos...
- Bom, você pode não me conhecer, mas conheço você.
- Me conhece?
- Sim.
- E como me conhece?
- Sim, você é eu Cardoso.
- O que?
- E ele ali é eu José.
  


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O corpo


Estava ali. Quieto. Petrificado. Frio, talvez enregelado. Não ousava tocar, aliás, ninguém ousava. Alguns passavam, paravam por segundos, continuavam andando. Outros, com um pouco de ousadia mínima, sacava o celular e tirava uma foto. Para que? Vai se saber, talvez postar em alguma rede de inúteis. A quanto tempo estava ali? Não se sabia. Se preocupavam com isso? Claro que não. Olhando-o notava-se algo de errado, quer dizer, se parasse um pouco prestando uma certa atenção interrogativa. Faltava-lhe os olhos. É! Os olhos. Apenas os olhos, não, isso não, não se percebia que tivessem sido arrancados, não havia vestígios de que o fossem. A cavidade ocular não apresentava vestígios algum de ferida, corte, sangue coagulado, nada. Intacta. Aproximando-se, olhando por cima, com clareza, dava para ver os nervos, as veias, as cartilagens pulsando numa pasmaceira normal, apenas não se via o olho e seus componentes a córnea, o nervo ótico, a íris, o cristalino, nada disso se via. Alguém passando disse:
- Olho invisível, cara.
Será? Pode ser, nessa vida de burlescos e maltrapilhos com crendices mil, tudo pode ser. Mas se realmente é isso, olho invisível para que? Com a finalidade de assustar não era. Pois se olhando para a cavidade ocular, não provocava medo, apenas curiosidade. Bom vai se saber, não é, com tanta esquisitice o impossível de ontem torna-se possível hoje.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O rapaz que cheirava livros.


Para Marcos Well.


Confessava. Tinha um vício. Só não sabia se era inofensivo ou não, mas tinha, e, também descobriu ser um fetiche, o que o deixou um tanto quanto preocupado, pois não tinha noção de ser um fetichista. Porém, essas questões não foram relevantes para ele, tinha um vício e pronto. Quem não alimenta seu vício não vive, era o seu lema. Gostava de cheirar livros. Principalmente os novos. A primeira coisa que fazia ao adquirir o livro era cheirar suas páginas, sentir as letras, as palavras, a tinta, o papel novo, imaginar quantas mãos passaram pelo livro até chegar a ele. Imaginava desde o momento em que o escritor começou a dar forma à narrativa, o escreve e reescreve, as folhas, o manuscrito, o final, os estudos para a capa, a gráfica, o empacotamento, a distribuição, até o momento em que a obra exposta para a venda, o excitava. O instante em que tinha o volume em mão o deixava extasiado, inebriado. Um dia o excitamento foi tanto a ponto de sentir uma pequena ereção que o fez fechar o livro rapidamente levando a pessoa ao lado a se assustar. Ao ter em mãos o livro fazia uma análise desde a capa a contracapa, a sinopse, as orelhas, o prefácio quem escreveu, quem ilustrou a capa, olhava folha por folha, numa minucia obsessiva.
Confessava, esse era o um vício. Depois é que saboreava a história. E de vez em quando, durante o processo de leitura, parava alguns momentos e levava o livro ao nariz, como fazia naquele momento. E ao baixar o livro notou dois olhos observando-o. Meio que envergonhado ao ser flagrado, sorriu sem graça, o dono dos dois olhos retribuiu o sorriso e, se levantou indo em sua direção.
- Posso?
- Claro, fique à vontade.
- Vi o seu gesto.
- Percebi.
- Não fique envergonhado ou acanhado com isso.
- Não estou, é que não previa que era observado.
- Além de cheirar livros esse é meu outro vício: observar as pessoas.
- Também as observo, mas não tanto como você.
- Então, posso saber que livro está lendo?
- Novelas nada delicadas, de Marcos Well.
- É bom?
- Excelente, gosto desse escritor.
- Vou procurar comprar.
- Será uma boa compra, não vai se arrepender.
- Espero que não tenha aquelas excessivas discrições sexuais enfadonhas.
- Não é não, aliás, tem, mas aqui é menos explicitas.
- Ainda bem.
- Vou te perguntar uma coisa.
- Pode perguntar.
- Você já fez leitura sexual?
- Que? Como é isso? Me explique.
- Mais ou menos assim, durante a transa, quer dizer, antes fazemos o sorteio de quem começa.
- uhm...
- Por exemplo, se for eu que começo, faço a leitura dum terminado trecho do livro enquanto você inicia as preliminares. Estipulamos a quantidade de página a ser lida.
- E depois?
- Vamos dizer que seja cinco páginas. Durante essas cinco páginas você deita e rola nas preliminares, entende.
- Entendo. Em seguida é minha vez de ler cinco páginas enquanto você me ataca nas preliminares.
- Isso.
- Topo.
- Precisamos apenas escolher o livro, ver a quantidade de páginas...
- Que tal esse?
- Novelas nada delicadas?
- Sim.
- Pode ser.
- E se não conseguirmos chegar ao fim do livro.
- Bom aí veremos.
- Podemos marcar outro dia.
- E, também vai depender se nossa alquimia bater.
- Certo.
- Vamos então.
- Sua ou minha casa?
- Sua.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

O vale das bonecas.


Apesar do seu lançamento em 1966 ter sido um estrondoso sucesso junto com a música tema, a história me parece um dejá vu, mas não lembro ter lido na época e, também a história das três personagens: Anne, Neely e Jennifer não me conquistar muito, e achar o romance descartável, gostei dessa definição que o Lyon diz para Anne:

“Estou falando em amar. E não em mendigar! O amor não tem que transformar alguém em mendigo. Eu não ia querer amar se tivesse que mendigar por esse amor, dar algo em troca ou classifica-lo. O amor é algo que deve ser dado... não pode ser comprado com palavras ou piedade, nem mesmo com razão. Jamais mendigarei por você, Anne. Eu te amo. Você precisa saber disso. Eu sempre a amarei...

Valley of the dolls, Jacqueline Susann

sábado, 15 de fevereiro de 2020

0s dedos.


Meu Deus, disse alguém ao passar pelo local. Mecanicamente, repetiu: Meu Deus mesmo sendo ateu como dizia, repetiu Meu Deus horrorizado. Ali ainda estava o corpo estirado no frio olhando o vazio com as orbitas ocas. Terrível frustração o dominou levando-o a desacreditar em si mesmo e nos outros, talvez mais nos outros do que em si mesmo. Desolado constatou que estava perdido, tanto ele como o mundo. Ele poderia ter salvação? Mas e o mundo, teria salvação? Ou seria ao contrário, ele não teria e, o mundo sim é que teria salvação? Observando o que o ocorria neste pequeno mundo de partículas ínfimas, desacreditava tanto dele como do mundo. No entanto não impediu que a chama fluísse de si para o fato exposto e, parece que surtiu efeito e, ao dirigir o olhar para as mãos notou algo inusitado: os dedos, faltavam os dedos. O que? É os dedos. Como nos olhos, não havia sinais de corte, de brutalidade, apenas ausência dos dedos. Olhando com mais atenção, não tinha sinais de cicatriz, o que provava que não foram cortados. Em seu lugar havia só pele lisa, como se nunca tivessem dedos. E outra coisa que notava: decomposição, não havia putrescência. Porque? Seria brincadeira ou, aquelas piadinhas de mau gosto que a mídia execrável gosta de impingir nos incautos burros? Poderia ser um boneco o que não era. As pessoas passavam, algumas até desviavam, outras chegavam a pular, e ninguém fazia nada, não tomavam providência. O que poderia ou, melhor, deveria fazer? Olhou para os lados, observou o vai e vem tumultuado da pressa, consultou o relógio e, achou melhor não fazer nada. Aquilo não era problema seu. Deu de ombros e seguiu seu caminho.     

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Os olhos.


Oito precisamente. Estavam esparramados numa docilidade impaciente de quem não quer nada e ao mesmo tempo deseja o nada que tem.  Os olhos são a janela da alma, disse alguém filosoficamente sem pensar no significado das palavras. Olhos que olham e guardam segredos. Langorosos na docilidade dos desejos passeiam no corpo farto ao penetrar na carne fraca. Precisamente oito olhos se estendiam esparramados no papel branco da alma. Ansiava em sentir as atrocidades, as maquinações, os segredos, os anseios, os devaneios e perversidades em seus líquidos falsos ou verdadeiros. Não conseguia evitar de olhá-los, pois sendo criações suas, via nos contornos, nos tracejados, nos pontos cada significado que, a sua revelia, colocado à mostra, pudesse ser revelado. Sabia que não precisaria alimentar o medo, apesar de captar cada nuança com precisão quase orgânica, seus segredos estavam escondidos. Será que estavam mesmo? Perguntou aos silenciosos olhares que, mudos, não lhe responderam. Num gesto impensado teve a ousadia satânica em destruir os oito olhos. No entanto a languidez, como ferro em brasa, o obrigou a não cometer tal ato, e, assim os olhos permaneceram fixos no oco da árvore humana.         

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Nada dura para sempre.


Augusto parou no meio fio da calçada. Enfiou a mão no bolso e retirou o maço de cigarro. Colocou um nos lábios e quando levou o isqueiro para acender, um carro parou bem a sua frente. Assustado, interrompeu o gesto. Quem seria? Sacudiu os ombros, evidentemente não era com ele, e ao se virar para se afastar a janela do passageiro foi abaixada e dentro do carro ouviu uma voz forte dizer:
- Quanto é?
Como? Quanto é o que? Inclinou o corpo na intenção de ver quem era, no entanto o rosto estava na sombra, não conseguiu distinguir direito e, ao mesmo tempo o cara perguntou de novo.
- Quanto é?
- Mil reais.
- Faz tudo?
Quando tentou responder, foi violentamente puxado para traz caindo sentado no meio da calçada. E logo em seguida um sujeito alto começou a chutá-lo desnorteadamente. Augusto com os braços protegeu o rosto, mas não pode evitar chutes no corpo, nas pernas, nas costas, não tinha como reagir. Nisso ouviu um grito:
- Gino, pare.
Foi o bastante para o agressor se distrair e Augusto ter a oportunidade de se levantar.
- Vou te matar, seu merda. Roubando meu ponto. Roubando meu cliente.
E avançou para cima de Augusto que procurou ficar o mais longe possível. Gino tentava se aproximar gritando palavrões, até que Gabriel se interpôs entre eles.
- Gino, pare, por favor.
- Não se meta, Gabriel. Esse filho da puta estava roubando meu ponto.
- Gino, pare. Olhe os policiais se aproximando.
Numa rapidez estupenda, Gino mudou de comportamento.
- O que está acontecendo aqui?
Perguntou um dos policiais.
- Nada não.
Respondeu Gino ao mesmo tempo em que passava o braço pela cintura de Augusto.
- Apenas briguinha de namorado, não é amor?
- Amor! Agora sou amor, né, malandro.
Disse Augusto agressivo. E ao sentir a quentura de Gino em seu corpo foi tomado por uma náusea e o hálito úmido fazendo cocega em seu pescoço o deixou enojado.
- Acho bom, mesmo. Vão andando, não quero ver ninguém aqui. Circulando rapaziada se não querem ir para a cadeia.
- Vamos sim, seu guarda. Vamos amor que em casa vou lhe dar um corretivo para acalmar essa sua ciumeira.
E puxou Augusto que não teve alternativa a não ser ceder. Assim que dobraram a esquina, que não estavam mais sendo observados, Gino deu um empurrão em Augusto que bateu as costas no muro.
- Suma daqui filho da puta, não quero te ver mais.
E atravessou a rua ganhando o anonimato da escuridão. Augusto sacudiu o corpo, passou a mão pela camisa e calça como se tirasse a impregnação do contato de Gino. Viu que os policiais tinham ido embora, voltou ao local. Andou de um lado para o outro. Retornou à esquina quando viu Gabriel entrando no prédio. O alcançou antes de fechar a porta.
- Espere. Quero falar com você.
Gabriel voltou o corpo e pegando o pelo braço, puxou Augusto para dentro e encostando-o a parede. Olhou bem em seus olhos e o beijou sofregamente. Tomado de surpresa, Augusto não soube agir, mas logo em seguida se entregou aos beijos. Sentiu a língua de Gabriel pedindo passagem, não ofereceu resistência, deixou que as línguas se encontrassem num frenesi louco. Nisso a porta do elevador se abriu. Se separaram, no entanto, não saiu ninguém. Gabriel puxando-o pela mão disse:
- Venha.
Entraram no elevador e continuaram se beijando.
- Gabriel...
- O que?
- A câmera...
- Que se foda...
E se beijando saíram do elevador e entraram no apartamento. A luz da lua pela janela sem cortina iluminava o sofá onde eles se jogaram. E na iluminação natural Augusto sentia o peso do corpo de Gabriel que com a maior destreza beijava devagar o peito liso de Augusto ao mesmo tempo em que, botão por botão, abria a camisa cinza claro. E cada botão aberto, era um beijo. Ao chegar no último, Gabriel puxou a camisa de dentro da calça e deparou com o umbigo redondo, bonito, meio salgado, um pouco úmido pelo suor e, ali, se demorou lambendo, chupando, beijando de leve, mordendo provocando em Augusto pequenos gemidos. Como gostava de umbigo, se entregava todo para lamber, beijar e, assim ficou até que o companheiro pegou seu rosto e o puxou para cima colando novamente seus lábios nos lábios de Gabriel. Este com olhar cinza prata, silencioso pedia ou, melhor dizia:
- Agora é a sua vez, Augusto.
Ao que Augusto obedeceu fazendo o mesmo, a cada botão aberto beijava a pele morena de Gabriel e, nesse instante parou ao notar a tatuagem logo abaixo do mamilo esquerdo.
- Você tem uma tatuagem?
- Sim. Mas agora não é hora de se falar em tatuagem.
- Está bem.
Gabriel tinha uma pele sedosa, suave, cheirosa, amorenada que se arrepiava aos beijos de Augusto. Movimentando-se devagar, Gabriel se sentou na beira do sofá e puxou Augusto que ficou em pé a sua frente. Augusto não era muito alto, talvez um metro e setenta, magro, uma barriga que já começava a ter uma pequena saliência, mas de uma beleza na qual Gabriel se embriagava. E naquele momento, deliberadamente se entregou ao baixar o zíper da calça de Augusto deixando à mostra o volume por debaixo da cueca vermelha. Ao passar a mão de leve, sentiu a pulsação quente das veias entumecendo a pele. Após lamber a cueca deixando-a úmida, Gabriel vagarosamente puxou o pênis que, sentindo-se livre, saltou para fora. Mordeu de leve o lábio inferior demonstrando satisfação ao ver o pênis do companheiro. Olhou com brilho nos olhos investigando cada milímetro ao mesmo tempo em que o tocava. Sentiu a quentura doce queimando a palma da mão. Saboreou cada instante, as veias, a pele suave, o vai e vem cobrindo e descobrindo a cabeça lisa e vermelha e, na aproximação do orgasmo, percebeu que, o que estava fazendo ia mudar sua vida, isso tinha certeza. Poderia confiar em Augusto? Perguntou mentalmente, no entanto uma parte do seu corpo dizia não, não deveria ter cedido ao desejo, estava sendo injusto, tanto com ele, como com Augusto.
- Não me leve a mal, mas acho melhor você ir embora, Augusto.
Disse numa voz baixa e melancólica afastando o parceiro.  
- Não é nada com você, apenas estamos fazendo a coisa errada.
- Você está enganado, Gabriel. É o que eu quero e sei que você também quer.
Augusto desapontado, tentou mudar a decisão de Gabriel, mas não foi vitorioso, quando Gabriel colocava uma decisão na mente, raramente voltava atrás.
- Você até pode estar com a razão, talvez, mas não agora, quem sabe outro dia, outra hora.
O que Augusto não sabia e, provavelmente nem viesse a saber, é que Gabriel estava numa desordem mental, não podia falar nada, o que tinha que fazer era tirá-lo da frente dele e não estragar tudo. Por isso, com muita insistência convenceu o amante a ir embora. Mas, ao acender a luz, Augusto viu Theus em cima da mesinha. Pegou o livro foleou e olhando para Gabriel disse:
- Você tem o mesmo nome do personagem...
- Sim.
- Tatuou o nome no peito também.
- Sim.
- Não vejo tanto significado para isso.
- O que? Está de brincadeira?
- Parafraseando o Leonardo: “Não gostei, mas tem citações legais no discurso dos amigos psicólogos”, aliás acho o ponto alto do livro.
Gabriel se vestindo, olhou para Augusto com cara de desaprovação.
- Você está realmente de brincadeira comigo, não pode ser.
- Não, estou falando a verdade, não gostei mesmo.
Disse Augusto meio que irônico.
- Uma história tocante, sofrida, me vi na pele do personagem, para mim é o melhor livro que já li.
- Tudo bem, é o mais vendido do autor, o que acho estranho é que não encontrei uma crítica que apontasse os erros e os acertos, só vi elogios e badalação a uma história simples, sem muita profundidade, uma história linear.
- Linear? O que você quer dizer com isso.
Gabriel começava a se enfezar com Augusto.
- O que eu quero dizer é uma história sem clímax, sem aquele sufoco que te deixa o peito arfando querendo saber o que vai acontecer na página seguinte.
- É um romance, um drama, não policial, de mistério. Olha acho melhor ir embora...
- Sim, mas é emoção fraca apenas para capturar o leitor, coisa que o autor faz bem. Talvez, aí que está o ponto forte do livro. Numa linguagem transparente ele nos mostra as várias facetas dos problemas que o herói tem que passar, desde a traição, passando pela não aceitação e filosofia de que nada dura para sempre. Vendo por essa perspectiva dou dez para o livro, mas no geral não me agradou.
- Augusto acho melhor ir embora, não quero brigar com você.
Gabriel desgostoso empurrava Augusto para fora do apartamento.
- Não acredito que vai brigar comigo só porque discordo de você!
- Vou sim. O livro é excepcional, com os códigos...
- Sabe que não dei importância a esses códigos, claro fiquei curioso, mas não procurei descodificar os códigos de cada página. É outro ponto forte do livro, o leitor fica curioso em saber o que é esses números.
- Tchau, Augusto.
E empurrou o amigo para dentro do elevador que fechou a porta e começou a descer. E ao entrar no apartamento pegou um envelope e abriu. Olhou a data e mentalmente disse:
- Tenho quinze dias para me preparar.
Nisso ao erguer os olhos e olhar pela janela viu Augusto no meio da rua indeciso, não sabia se ia embora ou se voltava, até que se decidiu voltar. Augusto ao sair do elevador encontrou a porta do apartamento aberta. Entrou e não viu Gabriel. Pegou um papel e uma caneta e deixou um bilhete:

Querido Gabriel

Seu bobo. Não percebeu que eu estava sendo irônico.
Claro que gostei do livro, tanto é que estou levando emprestado, vou reler.
Daqui a quatro meses eu devolvo.
Está bem?
Beijos

Augusto.

Gabriel leu e disse baixinho:
- Daqui a quatro meses não estarei mais aqui.

Meses depois...

A campainha num som leve encontro-o revisando o trabalho que teria de ser entregue no fim de semana. A contragosto abriu a porta e se surpreendeu ao ver quem o perturbava.
- Augusto!
- Olá. Tudo bem?
- Sim, mas o que faz aqui?
- Não me convida para entrar?
- Entre.
Disse demonstrando irritação. Augusto entrou e se virou para ele e o abraçou. Gabriel não correspondeu ao abraço.
- Puxa que frieza! Não está contente em me ver.
- Não... sim... não é isso... é que...
Gaguejando demonstrava desconforto ao ver o amigo.
- Ah! Aqui está Theus, prometi e estou devolvendo.
- Obrigado. Como me encontrou?
- Sabe que você tem amigo que é apaixonado por você.
- Marciel...
- Querendo se esconder, fugir do destino, do amor...
- Esconder... destino e amor não acredito...
- Você... nós podemos sermos felizes, acredite.
- Nós!
- Sim, nós, pois assim que te vi me apaixonei.
Augusto disse se aproximando de Gabriel que não disfarçou o embaraço à sua aproximação. Gaguejando respondeu:
- Eu também... me apaixonei por você, mas não podemos...
- O que não podemos? Nos amarmos, sermos felizes?
- Sim.
Gabriel se sentia desconfortável ao afirmar isso. Queria que Augusto esquecesse dele.
- Só por causa de uma simples operação?
- Simples operação? Para você é tudo simples, não é.
- Olha entendo o que você tem medo...
- E o que eu tenho medo.
Gabriel quase gritou se afastando do amigo.
- O medo de que ninguém mais possa te amar por não ter mais ereção.
- Bom... se fosse contrário eu pensaria muito...
- Bobo, te amo como você é com ereção ou sem ereção, há amor que não necessita de penetração.
- Talvez, tenha razão, mas vou sempre ficar encucado...
- Podemos tentar, o que acha?
- Sim.
E dois corpos se tornaram um só a partir daquele momento.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...