segunda-feira, 31 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.682(2021)

           

            Frio...  Ou até amanhã poderia dizer, no entanto não diz nada porque acha que não deve dizer nada, porém, no intimo sabe que deve dizer qualquer merda para não ser considerado descortês, mas o que poderia dizer, é a pergunta que pela segunda faz a si mesmo se a mente vazia não colabora, pretende tomar uma iniciativa contra isso, talvez psiquiatra, psicólogo ou qualquer psi que possa ajudá-lo a destravar seu subconsciente tornando-o mais claro para ele mesmo, essa é a única coisa que o atrapalha, ser fluente nas palavras, ser coerente nas explicações, ser como se diz, foda e influenciar quem o escuta, ser confiante explanando sabedoria e humildade ajudando quem dele possa... frio... ou até amanhã... né...

            É isso... ou, não é?

domingo, 30 de maio de 2021

Contos surrealistas 56

 

Aquele inverno...

O inverno aquele ano estava intenso. Diziam ser o pior dos últimos anos. O vento cortava a carne navalhando a alma em tiras de frio. As manhãs apresentavam uma densa camada de neblina congelando até o que não se via. E Marta naquela terça-feira, ao abrir a porta, não via nada, apenas notava uma mancha escura balançando no fundo do quintal. Não pensou em nada e muito menos ficou curiosa em ver o que era. Continuou fazendo as obrigações costumeiras.

Passado o velório, o enterro e, mais calma, Marta conseguiu falar sobre o acontecimento.

- Sinceramente não sabia que era ele, se soubesse teria socorrido. Preocupada em fazer o café da manhã para as crianças irem à escola, pensando no sábado o que deveria fazer para o aniversário surpresa do Roberto, não tive nem curiosidade em ir ao fundo do quintal ver o que era. Não tem mais festa surpresa, Roberto.

- Marta, não se preocupe querida. Descanse só o que eu quero e você precisa.

- Como meu pai não levanta cedo, só depois das onze horas, não tava nem aí. Quando lavava a louça do café, ao erguer a cabeça, a neblina já tinha dissipado bastante é que vi...

- Tudo bem, Marta. Não pense mais, tome o calmante e vá dormir não se preocupe cuido de tudo.

Assim que Marta subiu as escadas, Roberto pegou o bilhete em cima da mesa e, pela quarta vez leu:

 

“Meus caros filhos.

                          Não culpo ninguém desse meu ato.

Faz dois meses que fui ao médico por causa das dores no estomago e o diagnóstico foi câncer em estado avançado. As dores vão aumentar e meu fim é no funda da cama, disse o médico.

Assim para não dar trabalho a vocês antecipo meu fim.

Adeus, beijos e sejam felizes.

 

Roberto jogou o bilhete em cima da mesinha. Sentou no sofá bebendo uma boa dose de uísque.

- Merda de velho, tinha que ser no quintal? Porra! Só espero que não fique assombrando a casa.

Fechou os olhos.

- Puta que pariu o pior é que vou ficar velho também. Se o bom velhinho lá em cima assim o permitir.

Esticou-se e procurou dormir um pouco.

sábado, 29 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.681(2021)

             Tela branca como branca é a vida. Vontade de pular nesse branco e tornar-me invisível. Tornar-me mais branco que o branco possa existir. Que merda de palavras! O melhor que tenho que fazer é desligar essa porra e desenhar.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Contos surrealistas 57

  

Mágoa

 

O menino estava chateado. O avô mentiu. Lady Godiva não estava nua, estava coberta de caca de pombo.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.680(2021)

          

            Margarida estava grávida. Começava a entrar no nono mês de gravidez.

            --- Se for menino será Juliano e se for menina será Juliana.

            E naquela noite de abril, chuvosa, parecia que a cidade desabaria debaixo de água, estavam numa festa de aniversário conversando alegremente, quando de uma hora para outra, Margarida deu um grito de:

--- Vai nascer.

João teve que correr com a esposa para o hospital. Mesmo com a iminência de acabar a energia, o médico fez o parto até com facilidade, diria ele mais tarde. O primeiro que nasceu foi uma menina e o segundo, um menino, Juliana e Juliano nasceram para a alegria dos pais, mas por complicações de saúde a mãe veio a falecer duas horas depois, deixando o João desolado e desesperado, pois se viu viúvo e com duas crianças recém-nascidas para cuidar. Quase entrou em colapso se não fosse a ajuda da babá que contratara, provavelmente teria se desmoronado.

É isso... ou, não é?

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Contos surrealistas 58

                                 O último drink.

 

- Quem se importa com o que você pensa, disse-me ele ao sairmos da boate.

Eram mais de três horas da madrugada, apesar do verão um vento frio percorria os nervos da cidade. Aos poucos a pele se acostumou com o vento deixando de senti-la arrepiada. Carlos acionou o controle para descobrir o carro, pois toda vez ficava perdido por esquecer onde o deixara. Uma noite, acompanhado de uma bela mulher, ficou quase uma hora procurando, pois tinha esquecido o controle dentro do carro.

- Aonde vamos? – perguntou Carlos ligando o veiculo.

- Não sei, será que acharemos o último bar aberto?

- Conheço um que fica aberto até o último freguês.

- Vamos para lá então.

Assim que o corpo sentiu a almofada do banco, uma sonolência invadiu-o caindo numa esquisita modorra. Não conseguia ficar de olho aberto, deixou-se levar pelos solavancos do carro. Não percebeu como e muito menos o momento, quando deu por si, Carlos tinha encostado o carro numa praça e se debruçara no volante. Dormiu, disse ele. Procurou fazer o mesmo. Cruzou os braços, afrouxou o cinto de segurança, virou a cabeça para o lado esquerdo e... Nisso, do outro lado da praça viu uma luz piscando. Era um letreiro, provavelmente o último bar aberto. Tomara, pensou, preciso aliviar a bexiga. E o Carlos? Acordo ele? Não é melhor deixar dormindo, levo a chave, por precaução.

Ao entrar notou a portinhola de vai e vem igual aos filmes de faroeste. Deu uma olhada em geral. Achou estranho, estava onde? Por que as pessoas estavam vestidas daquele jeito? Viu-se num espelho. Estava vestido como um caubói, com arma, botas e esporas... O que é isso? Pensou em sair, mas uma delicada mão feminina o segurou.

- Aonde vai? Nem bem chegou e já vai? Aqui todos se importam com o que você pensa.

- Eu... Só queria...

- Tomar o último drink.

- Bem... É isso, o último drink.

- Então, vamos tomar o nosso último drink.

Gozado os caras passam o filme todo bebendo e nunca vão ao banheiro. Será que nos saloons não tinham banheiros? Pensamento bobo, disse mentalmente, também não estou mais com vontade de urinar. Engraçado.

- Dickie dois drinks, por favor.

- Margie cuidado, Wayne está na cidade.

- Está? Tudo bem, não tenho mais nada com ele.

- Você tem mais nada comigo, mas eu tenho com você, Margie.

Todos olharam para a porta em direção da voz forte que soou no saloon.

- Wayne, deixe te explicar...

- Não tem que explicar nada, disse Wayne empurrando Margie que caiu sentada numa cadeira.

- Quem é você fedelho?

Disse dirigindo-se a ele.

- Bem, eu... Entrei aqui só para urinar...

- E eu com isso, não sabe que em saloon não tem banheiro?

- Era o que eu me perguntava agora a pouco.

- E quem te autorizou a beber com minha garota.

- Desculpa, não sabia que era sua garota. Ela que me convidou a tomar o último drink.

- Mentiroso, dando em cima da minha garota. Puxe a arma que eu quero te matar.

Dois tiros soaram pelo saloon.

Ao abrir os olhos notou que estava na cama abraçado com Carlos. O sol entrava pela janela aberta trazendo lá de fora o barulho da manhã que nascia. Ao longe soou a sirene da policia.

Estarrecido, olhava para o amigo morto numa poça vermelha. Em pé, segurava um revolver e, na parede escrito com sangue liam-se as palavras: “Aqui todos se importam com o que você pensa.”

terça-feira, 25 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.679(2021)

          

            Martim percebeu que realmente Juliano ficara chateado em ter o encontrado no bar e não no desembarque quando pela terceira vez dissera.

            --- Não foi o combinado.

            --- O que não foi combinado?

            --- Ter encontrado você aqui e não no desembarque.

            Dissera que ao ver que o amigo não estava o esperando, achou, de duas ou uma, que não viera ou teria ido embora com raiva de esperá-lo, afinal a culpa não era dele. Martim explicou o quanto cansado estava, já tinha tomado vários cafés e nada de apaziguar a ansiedade por isso decidiu tomar cerveja.

            --- Sei, entendo, disse Juliano ao ver as garrafas vazias.

            Queria ir embora logo, o último ônibus que os levaria até o metrô sairia dali a quinze minutos, o que Martim protestou.

            ---Tomemos mais uma e depois chamaremos um Uber.

            Juliano queria era a sua cama e se jogar nela e dormir o quanto fosse necessário.

            --- A viagem até que foi boa, respondeu à pergunta do amigo, apenas que estava sentado entre duas pessoas que conversavam sem se importar comigo. Me prontifiquei em trocar de lugar com uma delas, mas a moça não queria deixar a janela e o rapaz não queria deixar de beber seu uísque toda vez que a aeromoça passava empurrando o carrinho de bebidas. Não consegui ler nada e muito menos tirar um cochilo.

            --- Sei, sei, são coisas que nos acontece sem que previmos. Estou contente em finalmente em vê-lo.

            --- Também estou.

            Juliano queria deixar o aeroporto, Martim não.

            --- Amanhã, Juli, teremos o dia inteiro para descansar, vamos aproveitar, poxa.

            Detestava quando o amigo o chamava por Juli, fazia se lembrar da gata que a irmã tinha chamada de Juli. Não gostava do animal, não sabia por quê. E Martim o fazia só para vê-lo chateado. O amigo tagarelava interruptamente, quase não dando tempo de Juliano responder com monossílabos. No entanto reparou não se importar mais se deveria ou não ir embora, a conversa entre eles estava alegrando-o. O falatório do amigo o envolveu que se viu pedindo uma cerveja. Por fim, ficaram conversando e bebendo até que a funcionária pediu gentilmente que saíssem para ela limpar o bar. E se encaminharam para a saída do aeroporto.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Contos surrealistas 59

                             Alzheimer

Procura que procura não achava os ósculos. Onde está, perguntou pra filha. Mãe está na tua testa, respondeu a filha. Você viu o controle da televisão? Mãe o que esta ele fazendo dentro do micro ondas?

Naquele dia sentou no sofá e chorou por longo tempo.

domingo, 23 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.678(2021)

       

            O atraso não era muito, porém para ele estava à espera mais de três horas. E com isso sua angústia o fazia andar de um lado para o outro, subir e descer escada, sair e entrar no aeroporto várias vezes. Apesar da confiança que a voz dele lhe trouxera, criava uma expectativa incrédula que o deixava inseguro a ponto de pensar em ir embora. Se segurou nos cafés. Quantos? Não sabia quantos foram. “Preciso te ver e conversar contigo”, foi o que disse da última vez em que se falaram. O que? Ainda tinham o que conversar? O que seria, merda! Depois que se falaram mil vezes nas mensagens que mandaram um para o outro! Vou embora, disse novamente. Deixa-lo na mão e ao mesmo tempo achava que deveria ficar. Consultava o painel. Que merda esse avião que não chega. Se acontecesse algo e ele fosse obrigado a voltar para casa? Que o voo fosse cancelado, perdera o avião, que o carro quebrara, qualquer coisa, droga como demora! Consultava e constatava a todo momento novas mensagens que não chegavam. Apesar dos cafés estava apelando para a cerveja, quem sabe o álcool o deixaria mais calmo. Se dirigiu ao bar.

            É isso... ou, não é?

sábado, 22 de maio de 2021

Contos surrealistas 60

Trava.

 

Ao sair do banco a porta giratória travou. O segurança alto, encorpado, com cara de tamanduá amassado, falou alto:

- Se afaste, fique atrás da porta.

Afastou-se. Olhou abobalhado, ficar atrás da porta? Como ficar atrás da porta giratória. Tudo bem, se afastou e ficou de lado. O segurança falou de novo:

- Tire celular, chave, moedas, tudo o que for metal dos bolsos.

Tirou tudo, até o cinto, pois a fivela sendo de metal... Não adiantou, travou novamente.

- Não tem mais nada de metal?

- Não, não tenho mais nada.

- Tire o sapato.

- O que?

- É o sapato. Tem fivela de metal.

- Mas seu guarda...

- Não tem mais e nem menos.

Tirou os sapatos, ficou só de meia e, envergonhado procurava esconder o dedão do pé esquerdo furado.

- Passe a agora.

Não adiantou, travou novamente. O pessoal que queriam sair, fazia fila atrás dele e, os que queriam entrar resmungavam, se exaltavam. Alguns até gritavam:

- Chame o gerente.

Uma senhora de idade sentou nos degraus do banco. O segurança, outro cara encorpado, alto com cara também de tamanduá amassado, gritou com a senhora:

- Aí não é lugar pra sentar, minha senhora.

- Não sou sua senhora porra nenhuma, veja como fala comigo.

Respondeu levantando-se. Foi então que a gritaria passou a ser geral.

- Apedrejem o banco.

- O meu, resolve logo isso, saia logo.

O povo ameaçava quebrar o vidro e entrar. A policia foi chamada. O gerente, um sujeito miudinho, mais parecendo fuinha escondida, chegou se impondo:

- O que foi?

- A porta esta travando, e o rapaz aqui não pode sair.

- Vamos ver isso.

Foi para o fundo, saiu por uma porta, logo voltando com um sujeito de macacão.

- Veja o que pode fazer e logo.

Ele olhou para o segurança, depois para o rapaz descalço, em seguida para fora, sorriu, voltou para o segurança:

- Você é novo, não é?

- Sou, respondeu o segurança.

- E ninguém falou da trava de bobo?

- O que? Trava de bobo?

- É, essa trava que o pessoal aciona quando o expediente encerra. Alguém acionou a trava sem você perceber e o   fez de bobo, cara.

- Não to sabendo.

A trava sendo desabilitada, cinco minutos depois tudo voltava ao normal. O rapaz saiu do banco e quem esperava para entrar não teve dificuldade nenhuma.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.677(2021)

             Mais um dia corrido. Mais um dia preso as necessidades alheias. Algumas não tenho como fugir, mas outras... ônibus, metrô, ônibus, caminhada, Uber, agora descanso. Nesses tempos de máscaras me arrisco a tomar uma caipirinha, uma cerveja e depois, um banho, ver uns vídeos, um filme, desenhar... Assim é minha sexta-feira plantando no quintal dos outros, assim é o meu dia a dia. Assim caminho na humanidade nossa de cada dia. Caminho no perigo de existir não sendo o que me foi predestinado. Respiro a calma do sossego da tarde inalando incertezas morta sem ter fé em mim próprio. Absorvo a inquietude dos movimentos transfigurando-os em letra de sentimentos piegas e tudo é um criar histórias curtas mesmo que sejam autobiográficas. Quem vai acreditar? Quem vai ler? E não me importo se é isso ou aquilo, escrevo e pronto, escrevo. E continuarei escrevendo até os confins da humanidade... Merda!

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Contos surrealistas 61

                                 Peralta


Ninguém podia com ele. Não parava quieto. Puxava o cabelo das meninas, amarrava bombinha no rabo dos gatos, capturava passarinhos, matava rolinha, batia nos primos, a bola era sempre dele, quebrava vidraças...

Era um inferno, diziam os mais velhos, não tinha medo de nada.

No entanto, dormia com a cabeça coberta por causa do bicho papão que vivia no guarda-roupa.

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.676(2021)

             Sinopse:

 

            Dois rapazes trabalham na mesma empresa, em departamentos diferentes. Um tem vinte e oito anos e o outro tem trinta e cinco anos. Não tem intimidades, isto é, não são chegados, não são amigos, apenas se cumprimentam ao se cruzarem pelos corredores da firma.

O rapaz de vinte e oito anos está sempre sozinho, não se envolve com os amigos do departamento, tímido, super envergonhado, tem aspiração em ser escritor, não gosta de falar em público, trabalhador, vive sozinho, se veste bem, sempre se pode vê-lo as sextas feiras bebendo sua cerveja no bar restaurante que frequenta lendo algum livro ou escrevendo.

O de trinta e cinco anos é o oposto, extrovertido, brincalhão, tem fama de mulherengo, estudante de música, já fez teatro amador, mora com os pais, já foi casado, divorciado, sem filhos, as sextas feiras com os amigos curtem a noite, e se diz apaixonado pela vida e pela música.

Nunca se encontraram, nunca se conversaram, nunca saíram juntos para curtir a noite, apenas um bom dia ou olá pelos corredores da empresa. O rapaz de vinte e oito vive escrevendo e mostra aos amigos e um desses escritos, sem saber como, foi parar nas mãos do rapaz de trinta e oito, que ao ler gostou do texto e foi procurá-lo, queria escrever uma música baseado no que escrevera. Conversaram, se acertaram e o de trinta e oito prometeu escrever a canção. Passaram se anos, talvez dois ou três, tinham até esquecido um do outro, quando uma manhã o de trinta e oito lhe entregou um cd com a música que dissera. O rapaz de vinte e cinco agradeceu, ouviu, gostou imensamente, e escreveu um outro texto como agradecimento. E voltaram cada um para os seus afazeres e continuaram com apenas os comprimentos formais pelos corredores da firma.

Tempos depois, o de vinte e oito que nessa altura já não tem mais vinte e oito, mas deixemos para lá, se desliga da firma. E num dado momento, sem saber como aconteceu, começa a conversar com o de trinta e oito que, também nessa altura não tem mais trinta e oito, mas deixemos para lá esse item, e trocam mensagens via WhatsApp. E nessa de conversa aqui e conversa ali, o de trinta e oito que já não tem mais essa idade, em suas andanças pelo mundo a procura de encontrar a si mesmo, descobre que seu mundo, o se encontrar a si mesmo é o rapaz de vinte e oito anos, que mesmo sem saber o porquê ele é a paz que sempre procurou pelas andanças que fizera. E agora era descobrir o que o outro pensava sobre isso, se ele dissesse sim, maravilha, se ele dissesse não, maravilha também, fosse qual fosse o que o outro lhe diria, ele se sentiria feliz, pois descobrira o que sempre procurava.

É isso... ou, não é?

terça-feira, 18 de maio de 2021

Contos surrealistas 62

                                 Futebol.

 

Sem mais e nem menos levou um cascudo no pé da orelha. Não viu quem foi. Desconfiou do moreno de barbicha. Prometeu, se lhe dessem outro pularia no pescoço de quem estivesse mais perto.

Dali a pouco, pimba, outro cascudo. Não teu tempo de ver quem era. Estava sendo chutado no campo verde de batalha.

domingo, 16 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.675(2021)

  

            É necessário escrever. Interruptamente. Sem descanso. Sem parada se possível. Rolar a ponta da caneta no papel áspero e regurgitar insanidades mil. Vomitar sentimentos únicos, próprios e reais para sanar o que for no fundo do poço que é a alma humana. Retirar a essência dolorosa e transformá-la na mais pura forma de amor. E se jogar no mundo de aventura corporal e abstrata dos sonhos um dia realizáveis. E flanar prazeres nos desconhecidos e conhecidos braços obscenos de desejos desenfreados e arrebatadores. Flanar como pluma ao sabor do vento suave da tarde, onde o sol pranteia a vida com seus raios luminosos, e se recolher nos braços da noite. E numa embriagues patética cair na cama para morrer mais uma noite.

            É isso... ou, não é?

sábado, 15 de maio de 2021

Contos surrealistas 63

Confissões nada confiáveis.

25.08....

Faço aqui uma pergunta: “Qual é o prazer de matar?” Não o matar gratuito, mas aquele matar para eliminar, tirar do mapa quem está atrapalhando. Provar a vibração da carne, veia, sangue e músculo pulsando ao contato da mão. Apertar o pescoço aos poucos, bem devagar, sentir o fluir do sangue se paralisando no último suspiro.

Tiro, facada, paulada não tem graça, a morte instantânea é fria, não provoca prazer e, muito menos satisfação. Você não sente a vida escorrendo das suas mãos. Só os covardes usam desse ardil, não sabem o que é prazer, não sabem o que é o pulsar da emoção. Emoção não é só viver os instantes, os momentos de futilidade burguesa.

Empurrar a pessoa na linha do metrô, na frente do ônibus ou escada abaixo é ato caridoso. Não se pode nos dias de hoje ser caridoso, a caridade é só para os santos, para os que têm a vida regada no cotidiano imbecil. Deixa de captar o desespero se debatendo sob as mãos. Fica sem aquele olhar lentamente se fechando ao implorar vida. Não se ouve o ar fugindo pela garganta transformada num som horripilante e ao mesmo tempo fascinante. O que dá satisfação não é a morte em si, mas o debater dos braços e pernas, o olho na luta para se manter aberto, o som que sai rasgando a garganta e, por fim, o silencio dos movimentos, a paralisação total da vida.

Exausto e contente, você celebra o poder, quase orgástico, da sua força sobrepujando outra que se extingue ao mesmo tempo em que você, confiante sente que nada o impedirá de continuar o caminho.

Pense nisso, só assim o mundo se tornará melhor.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.674(2021)

             Todas as noites dormia embriagado. Tomava duas doses dupla de uísque e quatro cervejas acompanhadas de salgadinhos. Cambaleante desabava na cama de colchão imundo. E todas as manhãs se levantava com a cara amarrotada e fedendo. Tomava um rápido banho, vestia seu cuecão e perambulava pela casa ouvindo óperas num volume alto. Ninguém tinha noção de quanto tempo ele morava naquela casa meio barroca meio gótica caindo aos pedaços. Uns diziam que ele nasceu junto com a casa, outros que ele a recebera de herança de um amigo íntimo, e os que nada sabiam diziam que ele estava ali desde a revolução de sessenta e quatro. Na verdade, ninguém sabia de nada, nem ele sabia. E não se preocupava com isso, seu lema era viver como se deveria viver, bem consigo mesmo e com o universo. O que preocupava o pessoal era o cuecão como chamavam. Essa era sua única vestimenta. Passava o dia inteiro com ela, fosse na padaria, no supermercado, farmácia não importava o Cuecão estava lá. Aliás, ninguém sabia mais o seu nome, passara a ser apenas o Cuecão. E assim, ele vivia e assim foi por muitos anos e anos. Até que um dia ele saiu de casa, abriu o pequeno portão, passou pela farmácia, padaria, supermercado e virando à esquerda, de uma hora para outra, sumiu. Ficaram uma semana esperando a sua volta e nada dele voltar. Quando num sábado, o carro da polícia parou em frente a casa do Cuecão e entrou. Tinham ligado para a polícia relatando do desaparecimento do Cuecão. Encontraram seu corpo em decomposição caído no meio do quarto. Ataque cardíaco foi o diagnóstico. Um ano depois sua casa foi demolida e ergueram no lugar um sobrado que foi difícil vender.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Contos surrealistas 64

 

Até amanhã, amor.


- O dia todo esteve cinzento parecendo que ia chover, no entanto, agora à noite, a temperatura está gostosa, apesar do vento gelado. Sabe acho que hoje...

- Mãe, por favor, não comece.

- Mas, Igor não é justo...

- E o que é justo, mãe, me diga o que é justo?

- Ah!...

- Justo é fazer o que queremos fazer, essa é minha opinião.

- Não é justo todas as noites deixar você sozinho neste quarto frio, mórbido, sem música...

- O que a senhora quer, todo quarto de hospital é assim, e não preciso de música, tenho as lembranças.

- Por que não fazemos diferente? Só hoje, por favor!

- Nem hoje e nem amanhã. Daniel, por favor, a ajude-a.

- Claro, pode ficar sossegado. Dona Marta, temos que ir...

- Mãe, o que combinamos?

- Eu sei, mas não é o certo. Onde já se viu deixar você sozinho e se você mor...

- Morrer? E daí! Já expliquei, não quero choro, não quero saber de vocês chorando.

- Escuta, não vou chorar.

- Já está com lágrimas nos olhos, vamos mãe, seja forte como sempre, por favor.

- Boa noite, amor.

- Boa noite, meus amores.

Pronto, mais uma vez sozinho com seus pensamentos. Sentiu que não os veria mais. Bem antes de se despedirem tinha a certeza que essa era a última noite que dizia: Boa noite, amor. A doença com suas maquinações invisíveis aos poucos avançou comendo-o por dentro. Que merda! Uma leveza o dominou, tinha a impressão que flutuava. Um sossego na alma apaziguada agradeceu por todos os momentos bons que viveu. Uma lágrima deslizou e morreu no canto esquerdo da boca. Chamou a enfermeira.

- Pois não, o que o senhor deseja?

- Por favor, coloque esse cd.

Assim que a primeira nota de Panis Angelicus soou na voz de Milton Nascimento, fechou os olhos e se deixou levar.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.673(2021)

 

            O dia esparrama vitalidade nos movimentos desenfreados dos zumbis ensandecidos em comer os próprios cérebros. O fraco sol não aquece devidamente as moléculas da cidade. Prédios apontam para o céu suas incapacidades de sobrevivência protegendo os mortos vivos. Tudo é perdição involuntária de não ser sendo o que me leva a procura inútil do que não sei. Nos cantos escuros a caça torna-se perigosa, as vezes necessariamente mortal levando-me ao vazio da humanidade que há em mim. Não me importo da solidão, não sou depressivo da solidão, sou depressivo do amor não correspondido. E se há momentos que as lágrimas descontroladas rolam pela face é por que a fraqueza me domina e, para não deixar que ela me domine, luto e dou a volta levantando-me quantas vezes necessário for.

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 11 de maio de 2021

Contos surrealistas 65

                                 Arrelia.

 

- Como vai, como vai, como vai? Eu vou bem, muito bem... bem... bem.

- Era assim que vocês se cumprimentavam?

- Sim, era dessa maneira, e a gente ria, quer dizer a platéia ria feliz.

- Que coisa mais chata, pai – disse o menino apagando a imagem do alegre palhaço na televisão, substituindo por um palhaço de arma em punho matando quem aparecesse pela frente.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.672(2021)

 

            Silencio na madrugada. Silencio de vozes, de passos, de perdidos em suas sombras melancólicas. Silencio envolvido pelo ronco da geladeira, pelo lampejar das lâmpadas iluminando objetos mortos, dos longínquos carros em suas voltas no eixo de si mesmo. E eu nesse silencio despreocupado como zumbi ensandecido no querer comer o próprio cérebro em azeite superquente. Sou o ser que sou e nada sou não querendo ser o ser que sou. E esse ser que sou se endurece na própria pureza de ser enfadonho, mesquinho, egoísta, narcisista e outras merdas que se envergonha de expressar. Carrega nos ombros todo o problema individual de não ser correspondido. Essa atitude o deixa empobrecido de atos e palavras fracas de energia corroendo o seu íntimo, é melhor dormir no sossego de não ter você ainda comigo.

            É isso... ou, não é?

domingo, 9 de maio de 2021

Contos surrealistas 66

 

Viciada.

 

Bêbado te amo.

Sóbrio batia.

 

Um dia cansada arranjou um amante.

 

Sóbrio te amo.

Bêbado batia.

 

Encontrou a felicidade.

sábado, 8 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.671(2021)

             Entrou no velório e foi direto para o caixão no meio da sala.

            --- Filha da puta, mesmo morto continua bonito.

            Em seguida se inclinou e beijou a testa fria, depois tirando um embrulho da mochila colocou nas mãos do falecido.

            --- Ei, o que você está fazendo?

            Era o merda do irmão. Virando-se para ele respondeu:

            --- Não é da sua conta.     

            --- O que você colocou nas mãos do meu irmão?

            --- Não te interessa.

            Nisso uma senhora se aproximou ao mesmo tempo que o funcionário do cemitério.

            --- Já está na hora...

            --- Um momento, disse para o funcionário.

            Virando-se para ele:

            --- O que está acontecendo? Você não é o namorado do meu filho?

            --- Sou.

            --- E o que está fazendo aqui?

            --- Vim trazer um presente que há vinte e oito anos devia a ele.

            --- Você não acha que está atrasado?

            --- Nunca é tarde demais, não é o que dizem?

            --- Minha senhora, está na hora.

            --- Sei. Espere um pouco.

            O que estava nas mãos do seu filho era uma caixa de bombons que ela tentou tirar, mas parecia que o filho segurava, não queria largar.

            --- Solta, disse dando mais um puxão.

            Horrorizada, largou a caixa, teve a impressão de que o filho franzira a testa como sempre fazia quando estava zangado. E se dirigindo ao funcionário disse:

            --- Pode fechar o caixão.

            Dois dias depois começaram a aparecer papéis de bombons onde o filho fora enterrado. A princípio não ligaram, mas aí começaram a aparecer dois papéis, e isso foi durante anos. Ninguém sabia explicar. E quando foi preciso exumar o corpo para a retirada dos ossos se assombraram. A caixa de bombons estava intacta segurada por mãos que só se viam ossos, e, ao abrirem a caixa, constataram que estava vazia e no fundo estava desenhado um coração onde no meio estava escrito o nome do filho e do namorado.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Contos surrealistas 67

                                         Onde está ela?

 

       Para Caroline

 

Suspirou satisfeita. A comida estava saborosa. Encostou a cabeça na parede apoiando o queixo na mão direita. Gostaria de ficar assim a tarde toda. Pediu um café. Lembrou de uma coisa. Precisava convencer o chefe sobre a remessa das fichas contábeis enviadas para a filial. Tinham pontos de vista divergentes quanto ao arquivamento delas, apesar de que ficaria uma cópia nos arquivos da matriz. O rapaz responsável se prontificou em acompanhar o envio para a filial. O medo era que as fichas se extraviassem ou fossem mal arquivadas. É preciso verificar isso, disse mentalmente ao pagar a conta do almoço no caixa.

Chegando a sua sala, jogou as coisas rapidamente sobre a mesa e se dirigiu ao banheiro. Ao olhar-se no espelho ficou horrorizada. Estava sem cabeça. Passou a mão e sentiu apenas um buraco onde deveria estar à cabeça. O que aconteceu? Esqueceu a cabeça onde? Voltou ao restaurante.

- Por favor, perguntou ao garçom, você viu minha cabeça? Acho que a deixei aqui.

- Vi sim, ela estava grudada na parede.

- Na parede?

- É na parede. Fui lá dentro e quando voltei não a vi mais.

- Eu vi quando a moça pegou, falou outro garçom que passava por perto.

- Que moça?

- Uma loira, alta... Olhe ela lá. Ta com a tua cabeça.

Saiu correndo atrás da ladra de cabeça.

- Ei, você. É você com a minha cabeça.

- Sim, pois não, o que foi?

- Ora! O que foi você está com a minha cabeça.

- O que é achado não é roubado.

- Não disse que você roubou e, sim, que está com a minha cabeça.

- Ela estava ali dando sopa grudada à parede, pensei quem sabe se futuramente precise de uma, já que se perdem tudo hoje em dia, posso vir a perder a minha, aí terei uma sobressalente, não é?

- Mas acontece que a minha não serve ao se corpo.

- Ora, não damos um jeito para tudo, não damos? Então eu daria um jeito dela servir.

- Que monstruosidade!

- Olha moça...

- Sei que a esqueci grudada na parede do restaurante, mas ela é minha...

- Ei moça, que isso?

- Desculpe. Nossa estava sonhando?

- Acho que sim, respondeu o garçom. Eu hein, cada uma...

Levantou-se sem jeito, envergonhada por cochilar.  Pagou a conta e ao sair viu a loira com a cabeça atravessando a rua. Correu ao encalço da moça.

- Aonde você vai com essa cabeça, gritou puxando o braço da loira.

- Que cabeça, maluca. Não está vendo que é meu filho.

- Desculpe, me enganei.

- Cada uma que me aparece!

Ela ficou parada no meio da rua desorientada até que um carro buzinou assustando-a.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.670(2021)

 

            Ele sentado no parapeito da janela ameaçava. Assustados não se mexiam. Atemorizados não diziam nada. Se fizessem um pequeno movimento, seu corpo se inclinava para o espaço. Choravam, como não prestaram no que acontecia. É isso mesmo, só vamos ver o problema quando ele está a um palmo do nosso nariz. Alguém chegou à porta e gritou:

            --- Te amo.

            Uma lágrima escorreu dos olhos dele e logo em seguida despencou do vigésimo andar. Um uníssimo “não” saiu da boca de todos. E o silencio invadiu os corações e o mundo continuou sua rotina.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Contos surrealistas 68

                                 O show deve continuar.

 

Subiu a escada. Não tinha pressa. Para que se apressar se bloqueavam os seus passos. No topo da escada virou à direita. Levou um susto. Não esperava encontrar a Andrade.

- Oi! Você por aqui?

- Oi! Pra você vê. Também não esperava te encontrar por aqui.

- É. Pois é. Quando procuramos nos esconder é que somos encontrados.

Chata, pensou maldosamente. Aqui não é o seu ponto. Se manda pra outra freguesia rilhou entre os dentes. A Andrade sabendo-se indesejada, se afastou para a esquina. Estava na noite quase um mês e, ainda, não conseguira um lugar fixo. Para evitar brigas mudava sempre de local, uma noite em cada ponto da cidade. A que mais invocava com ela era a Cabiria. Por isso ficava sempre longe quando a casualidade colocava as duas na mesma cena.

No entanto, Cabiria não dava a mínima para a Andrade. Achava que ela tinha era ciúmes, isto porque, de todas Cabiria era a mais instruída, sabia ler, e nos bons tempos, frequentara muito cinema, tendo tirado o nome de um filme que, por uma estranha coincidência a personagem era prostituta.

- Puta merda, disse Suzette se aproximando.

- O que foi? Perguntou Cabiria.

- Preciso urgentemente arranjar grana.

- Algum problema?

- O maior de todos.

- Qual?

- Depilar essa porcaria entre as pernas, droga.

- Não está tomando hormônios?

- Estou, mas não adianta, preciso uma vez por mês depilar essa merda. Se tivesse dinheiro fazia a operação, isso sim.

Cabiria sentiu pena. Por sorte sua descendência nipônica era praticamente desprovida de pelos. Nisso o carro cinza prateado surgiu rente a calçada. Parou bem na sua frente. Cabiria se abaixou e, como era costume, apoiou os cotovelos na porta. No mesmo instante em que o rosto ficou na altura do vidro baixado, sem dar tempo de ver quem era, recebeu um tremendo murro que a jogou para traz caindo sentada na calçada. Antes que desmaiasse ouviu gritarem do carro:

- Travesti de merda, da próxima venho com um trinta e oito e te mato, filho da puta.

Quando acordou, estava com a cabeça no colo de Rosália que limpava o nariz sujo de sangue.

- Está bem?

- Estou Rosália, obrigada.

Cabiria levantou o corpo franzino do chão, apoiando-se no cartaz fixado no muro:

O Show Deve Continuar - filme musical - direção de Bob Fosse – estreia sábado.

Sorriu ao ler o cartaz.

- É o show não pode parar.

- O que você disse? Perguntou Rosália.

- Nada, estou pensando alto.

Jogou a blusa no ombro.

- Por hoje chega. Vou para casa, meninas.

- É cedo, Cabiria.

- Depois dessa, Suzette não tenho mais ânimo.

- Até amanhã então, Cabiria.

- Até amanhã.

Em passos lentos, rente ao murro, tomou o caminho para casa.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.669(2021)

            

            Estava no vazio das calçadas noturnas pisando obscuras saliências que me levaram a frente do cinema de pegação. Na falta do que fazer e no excitamento de alguma aventura, entrei. Meus olhos afoitos por conhecer analisavam cada elemento físico e abstrato do lugar. Despreocupado sentei-me no meio de uma fileira vazia. Procurei prestar atenção na delonga fútil e desprezível que se passava na tela na tentativa de eliminar o excitamento. A putaria do filme não me levou a lugar nenhum, assim sendo, cinco minutos depois procurava a saída. No entanto um pouco antes de cruzar a porta para o hall vejo dois homens se pegando, se beijando num amasso desenfreado. Volto para dentro e reparo a movimentação em um vai e vem tendo alguns rapazes encostado na parede em posição desleixada e provocante. Também, me encosto na parede e logo em seguida sou amassado contra ela, sendo beijado avidamente e tendo minha camisa aberta onde a mão desenfreada alisa meu peito. Sufocado, pego desprevenido, ouço em meu ouvido:

            --- Passivo ou ativo?

            Fico por momento sem o que responder e temeroso respondo:

            --- Ativo.

            O rapaz olha nos meus olhos que não consigo vê-los por causa do escuro, se afasta e diz:

            --- Também sou ativo.

            E se perde no vai e vem escuro do cinema. Me arrumo, abotoou a camisa, passo a mão nos cabelos e saiu daquele antro para nunca mais voltar.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Contos surrealistas 69

                                             Biruta.

 

Batem a porta. Mariazinha atendeu:

- Mãe vieram buscar o refrigerador.

- Ah! Por favor, entrem está na cozinha.

Ao abrir a porta do refrigerador o homem disse:

- Minha senhora...

- Joãozinho! Já disse para não brincar de esconde-esconde aí?

Voltando a atenção ao homem:

- Essas crianças, não entendo elas. Ta tudo mudado, não entendo o mundo, nem o senhor eu entendo e muito menos me entendo.

- O mundo é assim mesmo, respondeu o homen pegando a prancheta que a senhora assinara.

Seguindo os carregadores, pensou tristemente:

- Se a senhora não entende o mundo quem sou eu para duvidar.

E para os carregadores:

- Vamos logo que temos que visitar mais uma biruta.

domingo, 2 de maio de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.668(2021)

           

            Me encontrava na situação em que o corpo pairava no vazio que dentro da alma flanava como espécie de desprezo humano que afinal, pudesse ou viesse a sentir-se frustrado. Não me ocorria nada além de ficar sentado no tosco banquinho se encharcando de cerveja. Estava a fim de pôr longo tempo ficar ali vendo a plebe no frenesi das noites de sextas-feiras. Já consumira mais de cinco garrafas, meus olhos cansados vagueavam pelos corpos estranhos em vestimentas esquisitas. Cabeças com cabelos raspados, pretos, verdes ou cortes nada comum conduziam vozes ora se agitavam ardentemente e ora se suavizavam na calma das palavras menos ásperas. O burburinho enchia o ambiente numa luta contra a música da vitrola automática com suas letras bizarras.

            É isso... ou, não é?

sábado, 1 de maio de 2021

Contos surrealistas 70

Cada um tem a sua vez.

Rachel lavou a louça do jantar. Varreu a cozinha. Colocou o vaso de flores no meio da mesa. E subiu as escadas. Decidiu tomar banho. Tirou a roupa e nua entrou no banheiro. Abriu o chuveiro e deixou a água morna lamber a pele. Não pensava em nada, pelo menos naquele instante. Amanhã tinha uma porção de coisas para fazer, estará o dia inteiro ocupada, mas aquele momento era seu, nada iria atrapalhar o refrescante banho. Ensaboava as partes intimas imaginando-se massageadas por mãos fortes e carinhosas. Sentia os dedos picando os lábios eriçados famintos e desejosos. Os músculos se contraiam num apertar e afrouxar...

Nisso bateram na porta.

- Rachel, você está aí?

Era o Antonio. O que ele queria? Merda não se pode tomar banho sossegada!

- Já vou, gritou.

- Que demora! Sai logo, porra!

- Pode usar o banheiro.

Disse ao chegar à sala. Antonio estirado no sofá, com um copo de uísque, respondeu sem olhar para ela.

- Agora não precisa mais.

- O que?

- Já fiz o que queria.

- Onde?

- No vaso.

- Seu merda, urinou no vaso! Além de matar a planta a sala vai ficar cheirando urina, cretino.

- Quem mandou demorar.

Rachel foi até a cozinha, pegou uma caneca com água e despejou na planta. Tolerava demais Antonio. Estava vendo o dia que explodiria com ele. No entanto, parecia que sua índole feminina ainda tinha muito que agüentar, pois o amava, e o pior é que Antonio tinha noção disso e se aproveitava da tolerância de Rachel. Observando-o estirado no sofá, compreendeu o labirinto de sentimentos que enfrentaria caso continuasse ao lado dele. Era preciso cuidado, não pisar em falso, calcular os intricados fluxos que a levava a agir.

A noite estava bonita. Da sacada chegava até ela o movimento da cidade com barulhos ora difusos, ora claros, músicas, vozes, buzinas, freadas numa pulsação disforme. Nisso, viu um ponto que se aproximava, no principio, um ponto insignificante que aos poucos se transformou numa borboleta transparente. Para sua surpresa, pousou no seu ombro esquerdo. Uma onda de confiança encheu seu peito. Subiu no parapeito da sacada. Abriu os braços e pensou:

- Tudo bem, você consegue. Sempre quis ser uma borboleta.

Olhou para frente e enxergou um mundo novo, bateu os braços e se alçou no espaço.

Antonio ouviu o farfalhar de asas. Chegando à sacada ainda pode ver ao longe um ponto branco desaparecendo na noite. Sentou na cadeira com o copo de uísque na mão. Tinha esperanças que ela voltaria ou, talvez, quem sabe, a sua vez estaria chegando. Não se preocupou mais. Acabou de tomar o uísque e foi dormir.

 

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...