O último drink.
- Quem se importa com o que você pensa, disse-me ele
ao sairmos da boate.
Eram mais de três horas da madrugada, apesar do verão
um vento frio percorria os nervos da cidade. Aos poucos a pele se acostumou com
o vento deixando de senti-la arrepiada. Carlos acionou o controle para descobrir
o carro, pois toda vez ficava perdido por esquecer onde o deixara. Uma noite,
acompanhado de uma bela mulher, ficou quase uma hora procurando, pois tinha
esquecido o controle dentro do carro.
- Aonde vamos? – perguntou Carlos ligando o veiculo.
- Não sei, será que acharemos o último bar aberto?
- Conheço um que fica aberto até o último freguês.
- Vamos para lá então.
Assim que o corpo sentiu a almofada do banco, uma
sonolência invadiu-o caindo numa esquisita modorra. Não conseguia ficar de olho
aberto, deixou-se levar pelos solavancos do carro. Não percebeu como e muito
menos o momento, quando deu por si, Carlos tinha encostado o carro numa praça e
se debruçara no volante. Dormiu, disse ele. Procurou fazer o mesmo. Cruzou os
braços, afrouxou o cinto de segurança, virou a cabeça para o lado esquerdo e...
Nisso, do outro lado da praça viu uma luz piscando. Era um letreiro,
provavelmente o último bar aberto. Tomara, pensou, preciso aliviar a bexiga. E
o Carlos? Acordo ele? Não é melhor deixar dormindo, levo a chave, por
precaução.
Ao entrar notou a portinhola de vai e vem igual aos
filmes de faroeste. Deu uma olhada em geral. Achou estranho, estava onde? Por
que as pessoas estavam vestidas daquele jeito? Viu-se num espelho. Estava
vestido como um caubói, com arma, botas e esporas... O que é isso? Pensou em
sair, mas uma delicada mão feminina o segurou.
- Aonde vai? Nem bem chegou e já vai? Aqui todos se
importam com o que você pensa.
- Eu... Só queria...
- Tomar o último drink.
- Bem... É isso, o último drink.
- Então, vamos tomar o nosso último drink.
Gozado os caras passam o filme todo bebendo e nunca
vão ao banheiro. Será que nos saloons não tinham banheiros? Pensamento bobo,
disse mentalmente, também não estou mais com vontade de urinar. Engraçado.
- Dickie dois drinks, por favor.
- Margie cuidado, Wayne está na cidade.
- Está? Tudo bem, não tenho mais nada com ele.
- Você tem mais nada comigo, mas eu tenho com você,
Margie.
Todos olharam para a porta em direção da voz forte que
soou no saloon.
- Wayne, deixe te explicar...
- Não tem que
explicar nada, disse Wayne empurrando Margie que caiu sentada numa cadeira.
- Quem é você fedelho?
Disse dirigindo-se a ele.
- Bem, eu... Entrei aqui só para urinar...
- E eu com isso, não sabe que em saloon não tem
banheiro?
- Era o que eu me perguntava agora a pouco.
- E quem te autorizou a beber com minha garota.
- Desculpa, não sabia que era sua garota. Ela que me
convidou a tomar o último drink.
- Mentiroso, dando em cima da minha garota. Puxe a
arma que eu quero te matar.
Dois tiros soaram pelo saloon.
Ao abrir os olhos notou que estava na cama abraçado
com Carlos. O sol entrava pela janela aberta trazendo lá de fora o barulho da
manhã que nascia. Ao longe soou a sirene da policia.
Estarrecido, olhava para o amigo morto numa poça vermelha.
Em pé, segurava um revolver e, na parede escrito com sangue liam-se as
palavras: “Aqui todos se importam com o que você pensa.”