terça-feira, 30 de novembro de 2021

Sou a avenida que me abraça

 

Sou a avenida que me abraça

Sou o asfalto em que me deito

Sou a máscara de todos os pecados

Sou todos os passos alucinados

 

Sou a fome que me envenena

Sou o riso triste e disfarçado

Sou a miséria que reinvento

Sou eu você o tudo e o nada

 

Bebo as gotas do verão ácido

Como alimento estragado

Mato a sede na água sórdida

 

Vivo fugindo do perigo

Sou covarde do meu destino

Morro em cada beijo repulsivo

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

domingo, 28 de novembro de 2021

Vi nos olhos tétricos do mundo

 

Vi nos olhos tétricos do mundo

A trágica morte da estrela do amor

 

Vi no sorriso egoísta e consumista

A morte da estrela da alegria

 

Vi na face trágica da saudade

A triste estrela solitária

 

Vi nos grandes gestos

A pequena fatídica estrela suicida

 

Vi na sombra da terrível morte

A estrela sem brilho

Chorando a morte

Da nossa longa vida

sábado, 27 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.754(2021)

                 

             Mais um dia que vou a luta sem querer lutar, vou como o condenado resignado vai para a forca.

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A casa

                 Para o Felipe Guilherme

Estou sempre em casa. Não saio. Raramente e se saio é por uma urgência necessária. Não que eu seja um recluso fanático, é que estando sempre aqui, entre essas paredes frias, brancas com poder de uma mudez incrível me fascina. A imaginação corre solta na textura das paredes. Cada parede traz uma característica diferente uma da outra. Note que cada uma tem uma história. E percebo que cada vez mais essa história vai se incorporando a outras a ponto de ouvir vozes, gemidos e gritos. Não, não gritos, vozes e gemidos de terror, não nada disso. Ao contrário, são de prazeres, sons de satisfação, de algo positivo, muito bom, digo até que essa positividade vai além da própria parede. Há vibrações energéticas inexplicáveis nos cômodos.

Quando pela primeira vez entrei nessa casa, percebi algo forte, positivo, que abalou o alicerce da minha carne fazendo-a vibrar intensamente. Não me pus em guarda, nada disso. Não poderia, pois já sabia o que estava destinado. Não precisei nem colocar o pé porta dentro, já tinha noção desses acontecimentos. Parece que ela se ofereceu a mim, entende? Foi algo como um prêmio que estava ganhando. Por isso não houve na minha estrutura óssea e, muitos menos, na estrutura nervosa indecisão. E como tudo mundo sabe da minha incapacidade perceptiva, da dificuldade em raciocinar na rapidez dos sentidos, não poderia estar sentindo essas sensações. Mas como há o mistério para ser desvendando, ali se encontrava mais um que era urgentemente necessário o seu desvendamento.

Portanto assim que tomei conhecimento disso tudo, que o fluir nirvânico trespassou meus sentidos, destaquei-me a receber toda a capacidade fluídica da casa. Foi um troço inexplicável, sensacional, posso até dizer, sem peja nenhuma, que foi deslumbrante. Captei o pulsar de suas fibras depositando cada pulsação na pulsação do cerne do meu coração. Se o medo existia, não deu manifestação nenhuma, não atrapalharia em nada o histórico que, a partir daquele momento, estaria ponto no papel abstrato todo o seu desenrolar fascinante. Todo o seu potencial fantástico.

A primeira coisa que tinha a fazer, e se não o fizesse não estaria agora revelando toda a história, era-me por a nu. Desenraizar o preconceito, esse verme retrógado da sociedade, para que na frieza da pele houvesse a penetração de todo o conhecimento da casa. Quando introduzi a pequena chave na fenda da fechadura, foi um principio orgástico que depois se estendeu por longo tempo. Ao ouvir o gemido do clique da fechadura, a casa se abriu toda aos meus olhos. Lentamente empurrei a porta e... Contive a voz para que não saísse num prolongado e delicioso grito de prazer.

Acompanhando o lendo movimento da porta, meu olhar foi divisando a sala totalmente. Pequena sala, diga-se de passagem, mas aconchegante, quente, gostosa onde os moveis completavam todo o conforto de se estar prazerosamente dentro dela. E nesse exato momento a alma da casa me dominou para sempre. Não foi preciso percorrer os outros cômodos, dali do meio da sala visualizei a cozinha, a outra sala, o quarto e o quintal, foi um elevo que prometi a mim mesmo que jamais sairia daqui e, por todos esses anos, talvez uns trinta ou quarentas que pertenço a casa assim como a casa me pertence. Pode-se dizer que estamos um enraizado no outro infinitamente. Sei que ao morrer, ela morrerá também.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.753(2021)

 

              Sabe o que tem que fazer todos os dias e ele faz sem reclamar. E com tal pensamento começa a escrever, melhor dizendo, anotar em caracteres miúdos o que sabe e o que deve fazer. Saber é o que faz ir adiante, nunca regredir, retroceder, o que o faz entrar em ebulição a alma congestionada provocando-o a se movimentar. Cada pequeno movimento torna-se doloroso, congestiona todo o sentir numa atitude arrogante, fatigante. Sabe disso levando-o ao extremo de si numa ascendência irreal de sentimentos sucessivos as vezes preocupantes, absurdas ou inúteis em que, como figurinhas, cola na memória da alma. É um processo pouco criativo, mas lhe dá prazer egoísta selecionando-os economicamente a fim de se fortalecer.

            É isso... ou, não é?

domingo, 21 de novembro de 2021

A face oculta

 A face enrugada descortina na poeira o tormento do vento em varrer preocupações na base do mais forte desprezando a amizade. A cobiça e a lei da vingança imperam acima do homem levando-o a desatinos inconseqüentes.

  

Sinopse:

 

Após fugir de um roubo em um banco do México um dos assaltantes, Dad Longworth (Karl Malden), vê a chance de ficar com o ouro roubado e deixar Rio (Marlon Brando), seu cúmplice, para ser capturado. Após alguns anos Rio escapa da prisão e começa a caçar seu ex-amigo, para se vingar. Neste período Dad se tornou um respeitável xerife na Califórnia, que teme o retorno de Rio.

 

sábado, 20 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.752(2021)

                 

            Ele sabe o que precisa para colocar em prática. No silencio o tudo que o rodeia está a imobilidade concreta das coisas. Distraído passeia com a caneta entre os dedos, reflete nas palavras escrita em letras miúdas. Sabe o que precisa realizar e onde encontrar o pouco de prazer que lhe resta. A mente foge dos dedos imóveis acima das linhas do caderno. Deve registrar sentimentos possíveis e impossíveis. Por que impossíveis e possíveis? Há dualidade nos sentimentos? E o que é possível? É o que podemos sentir na carne a deflagração da consciência inativa colocando-a ativa em função do que se precisa. Talvez, processo dificultoso que não se pode deixar de realizá-lo. E o impossível? É a subversão normal e despreconceituosa ao destruir o medo de ser o que é. A luta será renhida pela aceitação do que não se aceita.

            É isso... ou, não é?

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Aquieto-me

 

Aquieto-me na solidão da palavra não escrita.

Entre uma sílaba e outra carrego o vazio de cada uma

Como carrego o vazio da manhã que surge.

É uma orquestração inigualável como é o beijo que recebo de cada letra.

E na batuta do maestro, arrepia-se a vida carregada de melodia.

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.751(2021)

    

 

                        Tirou de dentro da mochila uns sete ou oito livros e colocou em cima do balcão. A senhora que o atendeu ao pegar um por um dos livros disse:

                        --- Vamos ver.

                        E numa rápida consulta olhando para ele sentenciou:

                        --- Vou ficar com esses dois, o restante já tenho, são bons livros sem dúvida, mas não vou fazer estoque se já os tenho. Por exemplo, Carandiru tenho sete volumes, José Lins do Rego, Fogo Morto, tenho sete volumes, entende...

                        --- Sim entendo, disse meio que desanimado, pensei que conseguiria uns quarenta reais.

                        --- Sinto muito.

                        --- Tudo bem, é que te falei que viria esse sábado...

                        --- Eu sei, não posso comprar o que não vendo, não é?

                        --- Está bem, e pegou os doze reais, guardou o restante dos livros e saiu pensando.

                        “Sábado passado ela foi tão esfuziante, conversou bastante, trocamos ideias que pensei: vou vender mais livros, no entanto hoje foi fria, como se quisesse me despachar logo. Por que será? Por causa do homem que estava sentado num banquinho seria o seu patrão ou, por causa dos rapazes que animados como se tivessem encontrado um tesouro estavam sentados no chão olhando as revistas e livros sobre HQ. Vai se lá saber.”

                        Andou uns cinquenta passos e entrou no outro sebo. Foi a mesma lenga-lenga, já tenho muitos desse e daquele, mas fico com esses dois por dez reais, ok, tudo bem, legal, até mais, e saiu meio que preocupado, pois sua intenção era e ainda é, vender os livros e ver se conseguiria complementar a quantia para pagar a fatura que já estava dez dias atrasada. Mas tudo bem, vamos em frente que atrás vem gente, vou conseguir é só mudar a estratégia, qual não sei, vamos ver, pensou ao entrar no banco. Tirou um envelope, colocou os vinte e dois reais, pressionou os comandos e depositou o dinheiro. Em casa ao registrar o deposito no controle que mantinha verificou que registrou trinta e dois reais e não vinte e dois. E agora? E veio em sua mente o que a mãe diria: “caga na mão e joga fora.” Riu. Bem, vamos esperar algum comunicado do banco... Tudo se resolve, e amanhã é um novo dia, e decidiu tomar uma estupidamente gelada ouvindo A Patética, de Tchaikovsky.

                        É isso...ou, não é?

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

As horas

Transcorrem as horas dentro do limite espaço tempo. Infiltrado na membrana da pele como sensível punhal, os segundos escorrem nas veias a pluralidade vida. E os minutos sobrepõem-se aos passos recolhendo em seu bojo, as infinitesimais paixões de cada mulher. Assim as horas se transfiguram numa essência quase única de paixões e frustrações dramáticas seladas em beijos de amor.

 

Três épocas, três mulheres (Meryl Streep – Julianne Moore – Nicole Kidman “Oscar de melhor atriz”) em três histórias se mesclam e se transformam pela influência de uma grande obra literária. A primeira é Virginia Woolf, que vive num subúrbio londrino nos anos 20, lutando contra a insanidade enquanto começa a escrever seu primeiro grande romance, A senhora Dalloway. As outras mulheres, a dona de casa Laura Brown, de Los Angeles, nos anos 40 e a editora Clarissa Vaughan, nos dias de hoje, em Nova York, enfrentam situações diferentes entrelaçadas pelo livro que Virginia escreveu, fundindo-se num final surpreendente.

 

Diretor: Stephen Daldry

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Aventura de um avoado na Bienal do Livro em tarde de autógrafo.

 Como a Bienal do Livro estava sendo no Anhembi não precisei sair com antecedência para ir à tarde de autógrafos de Rosa Pena que estava lançando o livro Tarja Branca.

Pois bem, na minha folga preguiçosa de sempre, sai de casa as quatorze horas, o lançamento, pelo comunicado da Rosa que bombardeou a lista a semana toda, iria começar as quinze horas, portanto tinha tempo de sobra. Era só pegar o ônibus, pegar o metrô na Estação Penha fazer baldeação na Sé, e pegar o metrô da linha azul. Dito e feito.

Para sorte minha não precisei pegar o ônibus, o genro e a filha, gentilmente me deram carona até a Estação Penha. O metrô por milagre estava vazio, pude sentar sossegadamente, abrir o livro Inútil Regresso, de Maria da Conceição Pazzola e desfrutar da agradável leitura até a Sé.

Chegando na Sé o alvoroço era grande, e como sempre distraído desci a escada rolante quando percebo estava indo em sentido errado, ao invés de pegar o metrô para Tucuruvi estava pegando o que ia para Jabaquara, esse era o sentido que pegava quando ia para o trabalho. Por sorte que no findar da escada rolante, caiu à ficha, tive que voltar pela escada normal.

Na plataforma certa, reparei que o movimento era maior, mas não me preocupei. Entrei no trem, olhei em volta, vi um banco azul, e corri sentar. Abri de novo o livro Regresso Inútil, mas como estava meio ansioso, coisa que tenho bronca, mas não consigo me controlar, logo em seguida fechei o livro.

No Tietê onde desci a primeira coisa que meus olhos fizeram foi procurar alguma coisa indicativa, placa, ou sei lá o que, indicando onde deveria pegar a condução grátis para a Bienal. Por sorte, depois que passei a catraca vi afixado na parede: Condução grátis para a Bienal do Livro, e embaixo uma baita duma seta. Aí foi fácil, achei outros avisos, mas ao chegar no ponto da condução grátis, quase que desisti. A filha estava quilométrica, dava tantas voltas que mais parecia outra coisa do propriamente fila. Por sorte que ela andava, mesmo assim teve uns retardados que pagaram cinco reais a lotação, e os carros não eram nem taxis, os motoristas paravam o carro perto da fila anunciavam, enchiam e iam embora. Tinha duas moças e uma menina atrás que, volta e meia, distraídas, conversando esbarravam em mim, além do que, a menina de seus seis anos ou sete anos queria a todo o momento mexer nos penduricalhos da minha bolsa a tiracolo. E as duas moças, não sei que parentesco era da menina, encorajavam a coitada que não sabia o que a esperava: calma, você vai ver, lá tem livros para criança, legal para caramba, você vai gostar.  Se a menina gostou não sei, espero que sim. Bom, trinta minutos depois, às quinze horas em ponto descia em frente ao Anhembi.

Enquanto me encaminhava para a entrada, pensava: o que devo fazer? Vou direto à bilheteria apresento a carteira de identidade e eles me dão o ingresso ou, vou direto à catraca e mostro a identidade. Mas logo vi uma moça de uniforme e perguntei a ela que me indicou que havia uma catraca especial para os velhinhos de mais de sessenta anos, e nem foi preciso apresentar a identidade.

Ufa! Pronto! Já estou na Bienal. Vamos procurar o estand da editora... Qual era mesmo a editora? Al Bred, Al... Isso mesmo Al qualquer coisa. Para! Primeiro deixo ver onde é o banheiro, pois assim não vai dar. Achado o banheiro, aliviado o joelho, me pus a procurar a tal da Editora que começava com Al e qualquer coisa.

Aparvalhado, disse para mim mesmo, porque não guardou o e-mail da Rosa? Não se preocupe logo eu acho. Eram dezesseis horas e trinta minutos e ainda não tinha achado. Pô, falava comigo mesmo, é só olhar onde estiver livro com o título Tarja Preta que é lá. Rodei, rodei, rodei, passei três mil vezes em frente à Editora Globo, mais trezentas vezes em frente ao banheiro, outras quatrocentas vezes em frente à praça de alimentação, parei umas dez vezes nas placas de informações onde tem o nome das editoras e as ruas, e não vi a dita Editora que começava com Al qualquer coisa. Trombei trilhões de vezes com crianças puxadas pelos pais e pais que eram puxadas por crianças, virei à esquerda, depois à direita, é melhor seguir direto até o fim esse corredor, sai num espaço livre onde não tinha nada, voltei, virei à direita fui dar na entrada, aí, cansado, pronto para desistir, não via nada de livro cujo título fosse Tarja Preta, pensei que estaria numa prateleira bem amostra, caramba! Lançamento à editora deveria colocar o livro bem a vista, pensei, resolvi não mais procurar pela Editora que começava com Al e qualquer coisa. Quer saber vou procurar a L&PM e ver se tem o livro Matadouro cinco, se eu achar, compro o livro e vou embora. E eu conseguia ver alguma coisa no stand da L&PM? Nada, não se conseguia ver nada, e perguntar para algum vendedor fora de questão. Quer saber, vou embora, sei que a Rosa vai ficar brava comigo, mas não acho essa tal Editora que começa com Al e qualquer coisa.

E de repente, não mais que de repente, assim derepentemente, topo com uma cabeça loira abaixada, autografando tendo a sua frente o livro Tarja Branca, - ué! Não era Tarja Preta? -  ao lado sentado o Ydeo que momentaneamente não o reconheci, e do outro lado da loira, a Maria da Graça e lá estava a tal da Editora que começava com Al e qualquer coisa, a tal da Editora All Print... Retificando, não é Editora All e qualquer coisa, é All qualquer coisa Editora: All Print Editora. Parei bem em frente da mesa esperando que a Rosa terminasse de autografar. Quando ela ergueu a cabeça e me viu, foi uma festa, me abraçou, beijou, tirou foto, como diria aquele personagem do Chico: foi uma loucura. Logo em seguida chegou o Cula, Delfino, Ciça, Arlete, Amanda, filha da Ciça, Lilian Maial que quando me viu não deixou que me apresentasse, queria lembrar o meu nome o que dali dois segundos ela gritou: Pastorelli me abraçando, Dalva, Antonio de Menezes, Eliane, e me desculpem em não citar todos é que a minha memória não é fotográfica.

A partir daí foi uma festa só, fotografia daqui, fotografia dali, tira uma aqui com Delfino, tira outra aqui com a Rosa, agora é a Rosa e os homens, junta todo mundo, Ciça tira nossa foto aqui, pegue aquelas três máquinas, agora é as mulheres com a Rosa, tinha momento que o Delfino estava com três ou quatro máquinas e assim foi até às dezenove horas mais ou menos.

Aí alguém falou: pessoal, vamos tomar um chopinho e comer alguma coisa? E a Rosa puxou o cordão e fomos lá procurar a praça de alimentação. Conversando, conversando, conversando, conversando, espere aí, aqui não é a praça de alimentação, voltamos todo o caminho até que achamos a praça, juntamos três mesas e nos aboletamos para um chopinho, pizza e conversa animada. Saímos de lá com a promessa de pelo menos uma vez por ano realizarmos um almoço ou um jantar com todo o pessoal.

Eu só posso dizer: obrigado a todos, foi uma satisfação rever os conhecidos e conhecer novos amigos: Rosa, Cula, Ydeo, Eliane, Maria da Graça, Antonio Carlos Menezes... Prazer em conhecê-los e obrigado pelo carinho. Sucesso Rosa.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Continuando o que dizer.

Na sua luta contínua no que dizer, tomou o livro iniciado e abriu na página marcada. Leu por infindável segundos de momento palavras que o escritor achou no fundo do ser. Uma por uma das palavras seus olhos passearam na certeza de compreendê-las integralmente. No entanto, e sem perceber o livro escorregou de suas mãos para o chão frio de piso seco e duro. E o pequeno volume de capa leve e suave permaneceu contemplando-o enquanto caia numa pequena e profunda sonolência. E de dentro dessa sonolência profunda e pequena, viu-se caminhando a esmo, sem destino, livre e espontâneo.

Na sua luta continua no que dizer, apanhou o livro do chão, meio que assustado por ter caído na sonolência pequena e profunda. Esfregou os olhos, esticou os braços num espreguiçar alongado e sorriu para a manhã que, clara, inundava a sala quente e quieta. Precisava agir para ter o que dizer. Precisava criar momentos para justificar-se vivo, de possuir integridade acima de qualquer suspeita. Precisava sair. Foi o que fez.

domingo, 14 de novembro de 2021

Continuando o que dizer - 1.

A vizinha hoje não abriu a janela com estardalhaço. Talvez por causa da pequena chuva – pequena chuva! -, vamos dizer: fina garoa que cai sobre a cabeça da cidade farta de água, inundação e deslizamento. Estardalhaço... A primeira vez que ouvi pensei que algo estava acontecendo no quintal. Logo de manhã, ali pelas sete horas ou oito horas, ela abre a janela e as folhas batem com estrondo na parede, talvez do quarto. Tem dias que ela se esquece de prender as folhas naqueles, não sei o nome, ganchos que tem uma cabeça sei lá o que, não sei, ou as folhas se soltam e conforme o vento fica batendo por um longo tempo, até que ela lembra e prende de novo. Portanto, hoje a janela está fechada. Esperando que o sol revele a beleza do seu brilho e espante a umidade que já apresenta uma crosta verde pelo quintal todo.

A chuva tem um quê de tristeza, um quê de algo que não sei dizer. Há uma distância que me separa e prende. Separa do mistério que há no caminho por onde passei e, prende-me no mistério do caminho que ainda há para ser palmilhado. Separa porque pensei serem eternos os passos na companhia da vida que tínhamos a frente. Louco ao pensar na barbaridade de acreditar nos sentimentos que nunca são eternos. Preso no caminho sem sentir os passos que outrora me acompanhava. E nesse separe e prende há a nostalgia dos diálogos de olhares onde as mãos agiam conforme as palavras eram pronunciadas no sussurro do quarto.

A vizinha hoje não abriu a janela com estardalhaço, quem sabe amanhã ela abre a janela e, saberei que terei muito ainda o que dizer.

sábado, 13 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 02.


Tudo era ela presente no dia de sol.

Ele ouvia apenas.

- Já estou cheia disso e daquilo, cheia daqui, do pai do meu filho, vou voltar, vou embora.

Ela não via que o sol iluminava os passos.

Ela não via ou não queria ver.

Ele viu e ouviu o que ela disse.

- To cheia daqui. O pai do meu filho é um saco.

Ele ficou pensando como seria o pai do filho dela.

O que ele teria para criar tanto problema?

Se é que ele criava o que para ele, talvez não fosse problema, talvez o problema poderia ser ela, um nada para ela era um nada elevado ao nada ao quadrado.

Que coisa! Como as pessoas gostam de problemas, não esta nunca satisfeita.

Ele sorriu. Sentiu pena dela que não via o sol brilhando o dia.

Ao descer do ônibus, ele se esqueceu de olhar para ver quem era ela.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 03.

Ouviu vozes transcendendo o silêncio de si mesmo.          

Repercutiu nos pilares da alma solidificando a estrutura de si, como edifício onde é lançada a pedra fundamental.

Nesse alicerce cósmico, a simetria do seu destino foi criada.

E pedra por pedra, ergueu a vida nômade no dia-a-dia supranatural como sempre fora.

Não se iludia dessa vez, não, já estava cansado de se iludir, cansado de cair para depois, alquebrado, se levantar como nada houvesse acontecido.

Na crosta, à pele da ferida, nada sugeria, mas logo após a pele, a agitação sonora dos nervos se fazia notar.

Foi então, que percebeu a necessidade de fazer acontecer para novamente ser o que tão somente vem sendo a sua principal ocupação: SER

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.750(2021)

                         Ao ouvir sua voz dizer lentamente agoniada: sofro, resolveu não dizer nada porque nada lhe iria adiantar qualquer questionamento naquele momento, isto porque, logo em seguida foi envolvido pelo fio da razão canalizando o irreal do que fez ao lançar no ar mental a simples palavra no silêncio da vida.

                        Sofro, e numa conscientização mórbida nada concreta, se espantou ao repeti-la vezes seguidas como mantra.

                        A sólida consciência chegou a ele ao entender que o que tinha feito só era para ser feito daquela maneira e não outra.

                        E mesmo que a repetição fosse interrompida, o que aconteceu é que a palavra se solidificou no espaço real deformando o que dela ele acreditava e onde fixada demonstrou que não havia uma saída razoável.

                        Assim, criou a sua própria armadilha e nela prisioneiro permanece para o todo sempre, amém.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 04 05 06

Cabe ao escritor à obrigação de levantar o lençol da Realidade e olhar mais a fundo. Ir além. Então, esse 'querer ver além' é que é interpretado como fantástico. – J. J. Veiga.

 

 

No princípio aparecia uma aqui outra ali, depois é que foram surgindo mais e, quando perceberam, o quintal estava tomado. As lesmas se amontoavam uma por cima das outras. Era preciso ficar alerta para que não entrassem em casa. A todo instante, alguém abria a porta para verificar se não estavam subindo pela madeira toda trabalhada. Apesar de sua lentidão elas se arrastavam com rapidez, quando se percebia, olham elas dentro de casa. Era um tal de varrer, catar e jogar fora. Não sabiam mais o que fazer. Dormir era impossível, tinha sempre alguém de guarda verificando as frestas da porta ou da janela. Parecia que a cada temporal elas aumentavam de quantidade.

Cecília vivia jogando sal, o que, no primeiro momento foi uma solução até viável, porém com o passar dos dias, tornou-se insuportável, principalmente o cheiro. Cecília tinha horror de lesma, não podia ver uma que corria pegar o sal e despejar na coitada. Foi necessário brigar com Cecília que não queria parar de matar as invasoras. Funcionava porque abria um caminho sem que precisasse pisar nos corpos gosmentos. Mas, com o passar dos dias, tal a quantidade de lesmas que ficou impraticável transitarem. O chão inundou-se de manchas pretas e escorregadio e, com isso, não se podia mais sair de casa. Já estavam cansados de lutar, Cecília já não jogava mais sal nas lesmas, ninguém mais tinha paciência de ficar de guarda, entregaram-se ao destino, se eram para morrer engolidos por elas, então que seja, disse Agenor, pai de Cecília.

    Um dia, Bel, a mãe, ao chegar à cozinha, assustou-se com várias lesmas subindo pelos móveis, fogão, pia e horrorizada numa última tentativa, já estava com a vassoura pronta para o ataque, quando percebeu algo diferente. Elas não avançavam mais, a impressão que tinha, é que as lesmas davam ré. Chamou a filha e o marido, que juntos observaram o retrocesso dos gosmentos bichos até sumirem. E ao abrir a porta, Agenor deparou, estavam todas mortas, enroladas, retorcidas, secas tendo algumas esfareladas, esturricadas sob o sol. E o cheiro? Forte, cheiro de carne podre, um bodum intragável, que entrava pelo nariz revirando o estômago.

 Agenor não teve dúvidas, naquele dia mesmo, pegou da mangueira que, ainda não tinha sido estreada, de uns vinte metros mais ou menos e começou a lavar o quintal. Com certa dificuldade, pois era imensa a quantidade de gosmentos mortos, iniciou do portão em direção ao fundo do quintal, onde havia uma parte só de terra. Depois de uma hora talvez, ouviu um estrondo no meio de uma voz que berrava através do alto falante.

- Você aí embaixo, pare de lavar o quintal.

Ao mesmo tempo, desceram vários homens de uniformes metálicos prendendo o pobre do assustado Agenor.

- O senhor está preso. Não sabe que é proibido lavar o quintal? Que estamos terrivelmente economizando água?

Agenor não sabia, e nem tinha como saber, preocupado com as malditas lesmas não sabia de nada.

- O senhor não lê, não vê o noticiário, não?

Não, não via, teve vontade de gritar que não tivera tempo de nada, devido à chuva que todas as tardes caiam na cidade, o quintal sendo invadido por lesmas e que vinha tentando livrar-se delas, e que de um momento para o outro, houve uma hecatombe misteriosa matando todas as lesmas. Ele quis gritar, dizer isso, mas os soldados não deram tempo para que pronunciasse uma palavra. A esposa e a filha, estáticas não puderam fazer nada, estarrecidas viram levar o pai e esposo para nunca mais o verem.

 

Agenor tinha ido. Agora, era apenas ela e Cecília. Cecília trazia a marca da família. O que deixava Bel em desvantagem, pelo menos assim pensava, o que não era verdade, no entanto Bel não aceitava ser a desvantagem, podia parecer conformada, mas não, é que lutava fracamente. Assim, todos os dias, com a ida do Agenor, passou a fazer também o trabalho dele. Afinal a casa não desmoronaria pela falta de um elemento. Não era de chorar a perda.

Dois dias depois, recebeu o folheto de como reduzir a água para não sofrer consequências. Agora eles não batiam na porta, desciam do céu a qualquer momento e em qualquer lugar. Por sorte ela estava no quintal quando, no silêncio dos movimentos, a sua frente, apareceu o soldado. Assim do nada, pouco se lixando se a assustava ou não, entregou o folheto e na mudez das palavras, sumiu. Quando notou, o soldado desaparecera nas nuvens. Como sumir assim? Talvez, houvesse uma aeronave, que puxou o desgraçado. Entrou em casa preocupada. Colocou os óculos, abriu o envelope e leu:

- Fica decretado que a partir de hoje, os senhores têm apenas duas horas por dia, para usar água. Mais que isso é impossível, por isso o governo fará uma abertura das torneiras municipais duas horas por dia. Os senhores terão apenas essas duas horas para fazerem tudo, beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa e outras coisas. Saibam como usar a água para não terem dor de cabeça.

Desgraçado, xingou mentalmente. Daqui a pouco vão controlar até o pensamento da gente. Teremos que pensar como eles querem. Como vou fazer com duas horas de água? Correu até a cozinha. Abriu a torneira. Eles estavam certo, nada de água. Mas com toda essa chuvarada? Leu mais atentamente o folheto.

- Com esses dias de temporais os senhores devem se perguntar o do porquê do racionamento tão drástico de água. Acontecem que se os senhores não perceberam essa água de chuva não é boa para o consumo. Ela tem trazido muita desgraça para a cidade, desmoronamento, ruas que desabam em buracos, estradas arrastadas por terras e outras calamidades. E pior ainda, as estações de tratamento de água estão todas destruídas pela quantidade de chuva que tem caído, portanto até que tudo se regularize aceitem as medidas de racionamento. Quem cuida tem sempre, não é mesmo?

Isso é manobra desses políticos, aposto que eles não estão dentro desse esquema, disse raivosa.  Amassou o comunicado e jogou no lixo mais próximo. Merda! Tenho que estruturar novamente meu viver. Pegou da caneta e anotou no caderno:     

- Quem sempre nadou na merda, na merda morrerá.

Fechou o caderno e foi cuidar do que tinha para fazer.

 

Cecília dizia-se sem vontade. Na verdade, morria de medo. Do que não sabia. Ao matar com sal as lesmas, estava confirmando o medo.  Não das lesmas, e sim, da sua iniquidade diante dos fatos que, não podia alterar apenas aceitar. Claro, além de nojenta, a lesma com seu rastro gosmento, é um fato que a manteve entretida por um tempo. Ao confirmar sua força sobre o verme, não estava sendo nada justificável. A lesma não tem arma nenhuma contra a fúria de Cecília. Tem apenas seu rastro gosmento marcando sua passagem.

Cecília não tinha noção do medo. Bel passou a perceber os modos da filha depois que Agenor fora levado. Talvez, Cecília tivesse descoberto alguma coisa que ela não sabia. Por outro lado, não queria perguntar. O que ela não sabia é que o medo se tornou crônico há muito tempo. É algo antigo que só agora é que percebia. Genético, carregava os genes dos antepassados. Coisa que nem ela e nem Agenor atinaram.

 Cecília estava só esperando o momento para entrar no Programa de Fecundação Anual, depois seria transferida para outro lugar, cidade ou mesmo, outro planeta. Se perguntassem o que ela sentia pela mãe, responderia nada. Não sentia nem pena. Por que deveria ter pena de uma pessoa que não se preocupava com ela? Por ser adotada, coisa que soubera de maneira enviesada, começou a entender as coisas que até então desconhecia. Primeiramente que ela fora adotada por pressão, por necessidade se não Bel e Angenor seriam considerados desligados, isto é, mortos, pois vida quem não tem utilidade só lhe resta à morte. E para fugirem disso, por meios ilícitos, adotaram Cecília. Não havia afetividade entre eles, por isso quando Agenor fora levado, não chorou e nem sentiu piedade nenhuma. Só esperava que o Programa de Fecundação desse positivo. Ouve casos, diziam, que não dera certo, e quando isso sucedia a futura mãe passava a ser empregada para o resto da vida como funcionária do Programa de Fecundação.

Cecília recebera o folheto explicativo. Leu que dali a quinze dias deveria se apresentar ao comitê do programa que a levaria até o laboratório. Lá faria uma saraivada de exames para ver quem a fecundaria.  Fecundada ficaria confinada até a criança nascer. Nascendo sem defeito físico ou mental, ela e o rapaz que a fecundou, iriam viver a vida de casado em outro planeta onde deveram ter outros filhos. Caso a criança nascesse com algum defeito, tanto físico como mental, deveria ser colocada no Armazém de Congelamento para estudos futuros, e os pais da criança seriam funcionários do Programa de Fecundação.

E quinze dias depois, preparada psicologicamente, Cecília atravessava os portões do Programa de Fecundação.

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 07 e 08

Rodinei enxugou o rosto. O dia estava quente. Gostava do aroma de suor escorrendo pelo rosto. Intensificou mais as pedaladas forçando os músculos a se esticarem o máximo que podiam. Todos os dias, Rod como era chamado pelos amigos, pegava a bike e saia a pedalar pela cidade. O lado sul, com suas árvores ladeando as ruas, era o preferido. Não entendia porque sentia atração por essa parte da cidade. No seu aspecto estrutural arquitetônico não havia muita diferença entre a zona sul com a zona leste e nem a zona oeste com a zona norte. O único aspecto contrastante eram pequenas casas e prédios ainda resistentes ao tempo. Mostravam ainda a força do passado ao lado de construções modernas que pareciam desmoronar a um pequeno sopro da natureza.

 Ele, e como todos os jovens de sua idade, estavam designados para ingressar no Programa de Fecundação Anual, coisa que não entendia como seus amigos aceitavam resignados apenas para preservarem uma tradição milenar. Dizia que só quebrando regras é que uma pessoa conseguia progredir. Ao passar todos os dias em frente ao imponente prédio do Programa de Fecundação, jurava solenemente que não entraria ali de maneira alguma. Sabia que sua vida, assim como de todos, desde os primeiros passos, era condicionado para tal finalidade. Tanto ele como Juliana, lutariam contra o ingresso ao programa, pelo menos acreditava que Juliana cumpriria o trato.

Oito horas, disse mentalmente depois de verificar as horas no relógio de pulso. Ao baixar a mão em que seus dedos rijos deram volta ao guidão direito, foi que reparou num detalhe na cena em que seus olhos, todos os dias, admiravam.   

Estava no cruzamento denominado de Cruzamento da Divisão. A sua frente seguia a Rua do Cruzamento e a direita e a esquerda, a Rua da Divisão. Parava sempre ali, pois era praticamente a metade do itinerário que fazia. Por cinco minutos admirava a paisagem que se descortinava a direita. A partir da Rua do Cruzamento, a Rua da Divisão tornava-se um declive tendo casas comuns dos dois lados da rua. Mas o que o intrigava era que não havia movimento algum, ninguém saia ou entrava das casas, os carros, as pessoas não viravam, passavam direto, enquanto do lado oposto, isto é, o lado esquerdo o movimento era intenso, podia-se dizer normal até. Tomou uma decisão, virou à direita. Não deu nem duas pedaladas quando bateu em algo que o derrubou. Como? Não via nada a sua frente, apenas a rua que se prolongava até perder de vista. Desconcertado, confuso, levantou-se e passou a mão pelo meio da rua, descobriu algum tipo de vidro pintado como se fosse o prolongamento da rua. Andou de um lado para o outro e, assombrado viu-se andando por cima das casas. Aquilo era uma pintura? Era uma enganação? Nisso viu uma falha como se alguém tivesse raspado deixando amostra um buraco. Curioso, encostou o olho direito no buraco. O que viu deixou intrigado! Viu gente do outro lado, era o que parecia a ele. Estava de um lado e aquelas pessoas estavam de outro lado. Olhou de novo, não se pareciam com humanos, vestiam um grosso capote ou pelo menos era o que parecia. De repente, um deles virou a cabeça. Seus olhos se cruzaram. Rod levou um susto contendo o grito. O que viu não era gente, pessoa, não era humano. O que era então? Nisso, ouviu-se uma sirene acompanhado de uma voz alertando:

- Intruso no Cruzamento da Divisão. Intruso no Cruzamento da Divisão. Intruso no Cruzamento da Divisão.

Rodinei montou na bike e saiu dali pedalando rapidamente.

 

Rodinei não queria acreditar. Como Cris era tão insensata assim? Como podia mudar de ideia rapidamente. Não adiantou protestar, discutir, mostrar os prós e os contras, nem detalhar os pormenores da situação. Por fim desistiu. Convenceu-se, Cris não mudaria mesmo. Era aquilo e aquilo mesmo seria. Tinha convicção que com a ajuda da namorada descobrisse os segredos do Programa de Fecundação.

Cris não queria nem ouvir que a cidade estava dentro de uma redoma de vidro. Como poderia ser isso? Tem cabimento uma coisa dessas? Rod estava louco, imaginar tal barbaridade! E além do mais, queria a ajuda dela para desbaratar o Programa de Fecundação. Ora essa! Ele quer que eu seja presa, não vá para o Programa de Fecundação e acabe nas masmorras do edifício, isso é o que ele quer. Ora bolas! Depois diz que me ama!

Rodinei tinha esperança de convencê-la e mostrar o que descobrira no Cruzamento da Divisão. Depois daquele dia passou a prestar mais atenção e constatou a sua teoria. A Rua do Cruzamento não era reta, era uma descomunal circunferência, a qual não podia sair. Passou um por um dos cruzamentos da Rua, com cuidado para não ser pego, descobriu a mesma característica uma com a outra. Todas eram pintadas, tanto as casas como as ruas e, outra coisa, ninguém transitava por ali, como se soubessem da rua falsa ou, o que era pior, denotavam um ar de quem soubesse da falsidade. Tirou essa conclusão depois de interpelar algumas pessoas sobre o que ele achava de errado. E todas demonstraram nada conhecerem, algumas nem respondiam, traziam os olhos fixos no vazio.

Cris por fim resolveu acompanhar o namorado a tal rua falsa que ele dizia. Talvez concordando parasse com essa insistência de que a cidade era uma redoma de vidro, isto é, estava dentro de uma redoma. Psicologicamente preparada, pois vinha pensando que Rod estava louco, se assustou quando tocou na parede da rua. Realmente aquilo era uma pintura, olhou para o pequeno buraco e, amedrontada retrocedeu ao ver uma criatura que nada tinha de semelhança com o ser humano. Sem esperar pelo namorado saiu correndo deixando-o para traz. Foi um choque, disse mais tarde quando Rod a alcançou. Sua estrutura mental estava abalada. Tremia tanto que não conseguia formular a pergunta: Por quê? Tudo o que vinha acreditando até agora era falso? Era uma coisa que não era? No que pensar? Por fim abraçou Rodinei dizendo baixinho em seu ouvido:

- Concordo com você.

Rodinei beijou-a com toda a força do seu amor.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 09.

  

Deixo-me no vazio dos corpos

Cujo alimento saboreio voraz

 

Nem tudo está perdido

Nem tudo é o que é

 

Vagueio na distância eletrônica

Ao sabor da saudade inexistente

 

A coca-cola desenfeita a vida

O chope endurece o olhar

A cerveja atrofia o sexo

O uísque adormece os passos

 

Morrerei serenamente

Ao findar o download

Cujo arquivo é a vida

domingo, 7 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 10 a 12

Bem que lhe disseram. Não quis acreditar, isto é, não deu importância. Agora estava ali todo encapotado, de óculos, luvas, parecendo um aborígine de algum lugar exótico. O vento interrupto corta as ruas como afiada faca numa velocidade constante sem alteração. Com dificuldade fechou a porta. Assim mesmo uma lufada varreu o chão da sala sujando de poeira e derrubando os enfeites da estante. Cansado se jogou na poltrona. Inconsciente ouviu um longo suspiro sair do peito arquejante. Tirou a bota que pesava uma tonalidade, tarefa que levou uns dez minutos. A bota de cadarço resistente e sola grossa para manter seu corpo preso ao chão bateu no assoalho num barulho duro. O capacete pesado foi deixado na mesa de centro já atulhado de cacarecos. O grosso capote dependurou no cabide no canto da sala. Só depois, quando a ultima peça do desconfortável protetor foi retirado do corpo, é que se deixou realmente cair o corpo na poltrona. Por uns minutos de silêncio prendeu a respiração como forma de exercício de relaxamento. Passado os minutos necessários, levantou-se da poltrona e na cozinha tomou um bom gole de suco.

Nisso olhou para o cartão, precisava buscar sua cota de alimentação, mas não agora, disse para sim mesmo. Agora vou descansar assistindo algo na televisão. Assim fez e assim feito caiu num profundo vagar de pensamentos sem prestar atenção ao aparelho berrando comerciais que não lhe interessava. Lá estava seu ex-chefe vociferando ao comunicar-lhe a transferência. Na mão direita um pacote esquisito de sabão em pó, gritando palavras que lhe feriam os ouvidos. Não eram palavras duras e nem obscenas, mas calavam fundo nele, pois dizia que não podia mais permanecer naquele comercial, teria que procurar outro.

Acordou da sonolência ao som da campainha do telefone. Enquanto atendia olhou para a televisão. Um sujeito todo desengonçado fazia a apologia do sabão num comercial todo kitsch. Sorriu enquanto ouvia a explicação do Edifício de Alimentação. Teria que pegar a sua cota nesse instante. Portanto, vestiu novamente a parafernália protetora e saiu no vento cortante.

Era com dificuldade precisa que movimentava um pé após o outro lentamente. O vento forte queria levantar seu corpo que, preso pela bota resistente prendia-o ao chão. Avançava devagar não tinha outra maneira. Que merda de lugar, gritou alvoroçado sabendo que ninguém o ouviria mesmo. Contra a sua vontade estava nesse lugar horrível. Sua função era proteger a grande abóboda que envolvia a cidade da areia e do vento. Por duas horas percorria um grande trecho que para ele, parecia muro infinito, sumia entre as nuvens. Sua obrigação era ficar de olho aberto verificando trincas, furos e objetos que ficava preso ao muro. Isso durante intermináveis duas horas por dia ou noite. Caso surgisse uma trinca ou um furo por pequeno que fosse, teria que avisar no setor de comunicações que ficava ao lado do Edifício de Alimentação.

- Orloc quiche dezenove.

- Por favor, introduza seu cartão.

A portinhola do quiche abriu. Pegou o pacote.

- Por favor, retire seu cartão.

Orloc retirou o cartão, a portinhola desceu fechando o quiche.

Vamos enfrentar outra vez o caminho, disse em voz alta sem esperar que alguém respondesse ao descer os longos degraus do edifício.

 

Orloc andava de um lado para outro. De hora em hora, com o potente canhão vasculhava, iluminando de cima em baixo, a grande parede. Apesar da parafernália protetora, havia algo insuspeito que o deixava inquieto. Não queria sucumbir aos pensamentos, mas jurava que atrás da parede tinha vida. Desde que passou a exercer essa função, notou... Bom pareceu a ele que existia gente. Não lhe deram explicação nenhuma do porque e nem do que e, muito menos dele estar ali numa função que, para ele, era insuportável. A ordem era notificar irregularidades, principalmente na parte que lhe coubera ficar de guarda. Olhos bem abertos, dissera seu superior. E assim Orloc, pensava, faço o melhor que posso. O que lhe deixava tão preocupado, a ponto de perder o sono, foi o fato ocorrido semanas atrás.

Ao chegar ao limite em que deveria voltar, ao dar dois passos à frente, lançando o pé direito e depois forçando consequentemente o pé esquerdo para que o corpo, numa torção, completasse o giro, foi que notou algo brilhoso na parede. Um ponto, a princípio não dera importância, mas prestando mais atenção reparou que não era um ponto qualquer. Era um círculo meio que irregular como se rapassem o escuro da parede, ou talvez, uma pedra de raspão batera e lascou a... Tinta? A grande parede era pintada? Não ousou responder e, muito menos, averiguar mais nitidamente se era ou não pintada. Apenas aproximou o olho esquerdo e, o que viu o deixou estarrecido.

Dois jovens parecendo atordoados como se escondesse ou temesse algo. De repente um olho se sobressaiu assustando-o. A mesma coisa deve ter acontecido com os jovens, pois um deles saiu correndo seguido pelo outro. Chegando ao que parecia cruzamento de rua, o que seguia o primeiro, parou por uns instantes olhando para ele. Orloc ficou vários minutos ainda olhando e, via somente o que lhe parecia ser uma rua mais ninguém. Por fim desistiu, pegou um pouco de areia e jogou na falha.

 Deveria notificar as autoridades, mas não o fez. Talvez, quisesse e até pensava em ver ainda os dois jovens e, então, constataria a vida do outro lado. Nos outros dias, sempre que passava pelo local, limpava um pouco e espiava. Tinha noção, até a certeza de que no futuro iria encontrar os dois jovens.

Em frente ao espelho, fazendo a barba, vinha à mente o susto dos jovens. Notou que era uma garota e um rapaz. O que faziam daquele lado? O que teria atrás da grande parede? Por que estava, todos os dias, enfrentando uma ininterrupta tempestade? Nisso, ouviu um som como se fosse choro de criança. E o som vinha do pacote de comida que pegara na Casa de Alimentação.

 

Orloc odiava repetir. Evitava repetições de gestos, de pensamento, de palavras, o que fazia hoje evitava fazer amanhã. Era trabalhoso, difícil, esquisito, paranoico vamos dizer, no entanto sua característica era essa. Pensando bem, fora transferido talvez por isso. O serviço não sendo muito pesado e solitário, não dependia de outros, como o anterior, podia extravasar sua excentricidade à vontade sem irritar ninguém. Tinha certeza que o motivo fora esse. Não se sentia magoado, sabia-se excêntrico, o psicanalista provara para ele e dissera até, que poderia ter alguma complicação profissional com isso. E tivera. A prova estava na transferência.   

Corria o boato que a comida era feto, bebês prematuros que não vingaram ou, nasceram com defeito físico. Recebia da Casa da Alimentação pedaços de carne sem osso, às vezes posta suculenta que fervida na mais alta temperatura, temperada ao gosto, ficava saborosa. Não tinha como saber se era ou não feto, pois sempre comeu aquele carne, com isso, a pele ficou misturada com cinza e branco e, devido à utilização da roupa protetora, pesada, o corpo se adaptou a situação, seus dedos, mãos, braços e pernas, ganhou uma musculatura óssea um pouco deformada, o tronco se alargou e a cabeça, devido ao capacete, se atrofiou achatando nariz, orelha numa uniformização inteligente. Reconhecia ao se olhar no espelho, como ele era assustador, porém acostumado à transformação lenta não houve chance de perceber no que se tornara. Um monstro, dissera à imagem que via no espelho do banheiro.

 Agora ouvia choro vindo do pacote que trouxera de manhã. O que será? Não atinava o que poderia ser. Virou o pacote de um lado para o outro. Continuava agora mais alto. O que deveria fazer? Devolver? Não, fariam um interrogatório infindável, até quem sabe, outra transferência? Não queria isso. Jogar o pacote em qualquer lugar, o que também era impossível, tinha o número com o qual era reconhecido na Casa de Alimentação. Para saber só abrindo, disse ao pegar a faca. Primeiro cortou o barbante dos lados. Depois na lentidão do momento, num gesto só, quase absoluto, cortou o outro. Retirou a folha que envolvia deixando a mostra o logotipo da Casa de Alimentação. Em seguida, puxou as presilhas soltando os lados da caixa de papelão. E o que viu..., apenas dois olhos o envolveram numa luz azul de suave brilho...

sábado, 6 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.749(2021)

                         Uma assinatura ou melhor dizendo um garrancho e uma data: 05/03/77 é o que está no livro Infância de Graciliano Ramos. Eu tinha uma mania, cada livro que comprava assinava ou escrevia um pensamento, cada um mais terrível que o outro, e colocava a data, é o que está no livro que atualmente estou lendo, não posso dizer relendo, mas seria relendo se me lembrasse do livro, isto é, em 77, creio que estaria lá pelos meus tinta anos e portanto não lembro em ter lido Infância, nem me lembrava que o livro existia, e por esses dias por motivos de espaço, mudança, essas coisas, fui obrigado a mexer nos livros, e acabei encontrando e, me pergunto, o que eu fazia em 77? Difícil né, bom para começo de conversa tinha comprado esse livro que por sinal é uma edição do Clube do Livro que na época era excelente. Outra pergunta, comprei o livro e logo em seguida li? Provavelmente que sim, mas como não lembro nada do livro? Se me perguntassem por ele não saberia dizer nada, como se explica isso? Não vamos entrar nos meandros misteriosos...

                        É isso ou... não, é?

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Contos surrealistas - 01

 

A música tocava de fundo. Mas ninguém prestava atenção. Como era costume apenas fazia papel decorativo, invadia todos os ambientes, começando pela sala, ante-sala, cozinha, banheiros, quartos até lá fora no alpendre e quintal. Parte integrante da casa era mais um elemento compartilhando o dia-a-dia de todos. Por isso, ninguém prestava atenção, acostumados com ela dia e noite e noite dia sem interrupção. E aquele dia não era diferente.

Todos reunidos, uns conversando aqui, outros na sala discorrendo de assuntos diversos, as crianças brincando no quintal, de vez em quando alguém passava oferecendo salgadinhos, lanches ou refrigerante, coca-cola, cerveja, tudo típico de uma reunião alegre em que todos conhecem todos ou todos parente um dos os outros.

Foi quando Ricardo anunciou que precisava sair. Tinha que comprar cigarro. Ele não fumava e aquela não era hora! Nada disseram, olharam o relógio, e continuaram conversando. Marta mal conseguia cortar os pães de forma para o lanche. A faca escorregara de sua mão várias vezes. Da porta, segurando o copo de uísque, Andrea observava o nervosismo de Marta. Por duas vezes, iniciou um movimento para se aproximar, mas por duas vezes reteve a vontade de abraçá-la. Virou de uma vez só o uísque, colocou o copo em cima da mesa atulhada de coisas, e saiu da cozinha.

Pelo canto do olho, Marta viu a sombra de Ricardo subir as escadas. No momento em que surgiu a oportunidade, não se fez de rogada, seguiu os passos dele. Foi encontrá-lo no banheiro, sentado no vaso como se estivesse a esperá-la. Abraçaram-se longamente e ali mesmo, no chão do banheiro fizeram amor como da primeira vez. De fundo a música embalava os movimentos dos dois ao ritmo da música barroca.

Eliana estava enfarada de tanto sexo e violência. Desligou a televisão, subiu as escadas, se enfiou debaixo das cobertas e dormiu abraçada ao silencioso vazio da casa.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.748(2021)

 

 

                        O que estava na sua mão era uma maçaroca de difícil desenrolar. Não conseguia distinguir a gola da manga, a manga da barra, a barra do corpo, quando ele pegava pela barra, não era a barra era a manga, quando pegava na manga não era a manga, era gola. Caralho, como foi acontecer isso, perguntou sem pronunciar nenhuma palavra. Não... espere... tenho que puxar essa ponta para cá e aquela para lá e, nada feito, a maçaroca continuava. Já estava decidido pegar a camisa e jogar longe. Puta que pariu, olha o que a máquina fez com a camisa, a única camisa bonita que tinha entre as vintes. A que ele mais gostava. Suspirou. Vou tentar mais uma vez se não conseguir... E cinco minutos depois, com calma conseguiu desembaraçar a maçaroca que a máquina de lavar tinha feito com a camisa.

                        É isso... ou, não é?

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Contos surrealistas – 02

  

                             Para Analdina

 

Cinco anos foi o que ouviu. Isso mesmo, cinco! E durante esses cinco anos terá que ficar ligado, atento, com o maior cuidado. Lógico que nada na sua vida mudaria. Bem que ele previra ao levantar. Hoje o dia não está me parecendo dos melhores, disse ao se mirar no pequeno espelho do banheiro. Sentiu nos raios do sol que uma mudança aconteceria. Só não sabia o que era. Até parecia a mãe. Quando acordava com os seus pressentimentos era batata. Se ela dissesse: “Hoje to com um pressentimento...”, podia ficar esperto, fosse o que fosse, acontecia. Mas ele não era a mãe. Por isso não deu pelota nenhuma ao seu pressentimento.

A única coisa que percebeu foi que acordou muito tarde. Não gostava. Achava perda de tempo, parecia que as coisas, o tempo, os gestos ficavam rápidos demais. Quando menos se esperava, pronto a noite estava engolindo o dia. Gostava de acordar cedo. Aproveitar mais o dia, fazer com que rendesse tudo dentro do presumível. E aquele dia, por cargas d’água fora acordar depois das dez ou era onze, não lembrava. Foi preciso economizar os gestos, a audácia que imprimia no fazer das coisas. Com isso tinha duas preocupações. Não estender demais as ações e ter os movimentos precisos, não se perder em lucubrações desnecessárias.

Cinco anos! E já previa todos os anos se locomovendo até o hospital. Se submetendo aos exames, aos prognósticos, aos remédios, se postar frente ao médico e deixar-se ser examinado. Não há necessidade de tratamento pesado, disse o doutor, será apenas uma pequena cirurgia, mandar para a biopsia onde se constatará se é tumor maligno ou benigno, mas é curável, se não fosse não estaria falando na sua frente, pode ficar sossegado. A única coisa é que precisará fazer exames durante cinco anos. Nesses cinco anos nada aparecendo, o senhor estará livre, completamente curado. A causa? Sol que o senhor tomou dez ou quinze anos atrás.

Bom, fazendo as contas, estava com trinta e seis, daqui a cinco anos estará com quarenta e um, ah! Ainda serei jovem, disse ao sair do hospital. Podia não apresentar mudança nenhuma, mas sabia, mesmo que não queria, estava pensando de maneira diferente, que algo dentro do eu dele era outro eu. Parado na esquina a espera do farol abrir, seu olhar tinha mudado. Talvez mais límpido mais perscrutador nos detalhes, como querendo guardar tudo no cofre da retina. Afinal em seu corpo havia algo se movendo no silencio das células. Ergueu a cabeça, isso passa como muita coisa já passou em sua vida. Benigno ou maligno não há motivo para esmorecer, a vida é um manto de aventuras e prazeres que não deixarei merda nenhuma me atrapalhar.

E entrou no metrô passando o bilhete na catraca como se estivesse iniciando a sua vida naquele momento.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Contos surrealistas – 03

 

Eram oito horas em ponto, tinha certeza, foi no momento do grito, quer dizer, o grito foi às oito horas em ponto. E depois? Depois o que? O que aconteceu ou o que você fez. Afinal quem ouve um grito corre para saber se alguém se acidentou ou sei lá o que poderia ter acontecer, não é? Ah! Fiquei estarrecido, parado com o coração aos pulos, se eu falar que o sangue gelou nas veias é muito clichê, mas foi isso mesmo, gelou o sangue junto com as veias a ponto de doerem. Instante de terror passou pela minha mente imaginando mil coisas sem sentido. Aos poucos as fibras paralisadas começaram a se mover. Vi-as uma a uma desfilarem a minha frente. Algumas chegaram a tocar meu rosto. Geladas e ásperas tinham gosto de faca afiada. Depois caiu um silêncio estarrecedor. Nem mosca zunia por ali. Apenas minha respiração meio que cansada, soprava quente embaçando o vidro da janela. O mundo paralisou-se como se um raio atingisse todos. Também fiquei paralisado, não me mexia, tentava, mas não conseguia. O suor gélido corria pelo meu rosto de pedra. De pedra sim, pois se alguém o tocasse sentiria a dureza das minhas feições que apresentava um esgar medonho. O vidro da janela devolvia essa imagem sobrenatural.

Quem me perguntou o que acontecera, tentei claro que tentei explicar da melhor maneira possível, mas parece que ninguém entendeu. Os amigos balançaram a cabeça como se dissessem: o cara pirou. Os parentes nem deram confiança. Os mestres apontaram a falta de estudos, outros o excesso deles. A sociedade me jogou à margem da vida. Por último, os médicos, após estudos e mais estudos, dos quais nunca ouvi falar quando mais passar por eles, constataram falta de lucidez, portanto aqui estou falando no vazio de mim mesmo.

E olhe vou dizer uma coisa: sabe que nem eu estou acreditando nesse tal grito! Será que ouvi mesmo às oito horas em ponto? Relatei a tantas pessoas que eu próprio não estou acreditando em mim. Acho isso terrível. Paranóico das ideias. Foi o diagnóstico que apresentaram. Outra coisa: não estou preocupado, pois estou aqui comendo e bebendo de graça. Apenas tem algumas coisas que me obrigam a beber. São uns comprimidos que me jogam goela abaixo. Mas do resto está tudo ótimo.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Contos surrealistas – 04

Morreu abraçado ao travesseiro. O dia estava quieto e o sol lançava os raios nas paredes manchadas pelo tempo, notou alguém quando soube. Ninguém ouviu, apenas notaram sua ausência nos afazeres corriqueiros. Também não perguntaram onde ele estava. Apenas notaram sua ausência e nada mais. E ele não era uma pessoa que se pudesse dizer carismática, que todos o apreciavam em larga escala, que fosse imprescindível sua presença. Gostavam dele sem alardear o fato, o que achavam não ser necessário. Era uma pessoa cumpridora dos afazeres. Traçava o seu caminho conhecendo os desvios e as ribanceiras. O que ele tinha que fazer, fazia sem perguntas e sem delongas. Não havia a desenvoltura sólida em decidir problemas, de compreender além da vida. Não, ele não era assim.

Morreu abraçado ao travesseiro no silêncio da manhã. Questionaram o do porque abraçado ao travesseiro. E quem poderia responder? Ninguém, nem os mais próximos a ele tinham resposta a essa pergunta. Talvez, estivesse carente ou pensava em alguma pessoa em especial. Quem sabe estava com frio e achou que o travesseiro o aquecesse. Duvidavam de todas as teorias que era apresentada. Nunca lhes passara pela cabeça que ele fosse uma pessoa que se encaixasse em tudo o que diziam. Impossível, exclamaram os amigos. Tudo nesta vida é provável, retrucavam as mulheres. Os maldosos afirmavam que foi a bebida. Os invejosos levantaram questões de que era viciado. Mas ninguém conseguia confirmar viciado em quê.   

Morreu abraçado ao travesseiro na poltrona perto da porta. Perguntaram se ele deixou bilhete. Como bilhete, não se suicidou, apenas morreu. E quem morre assim não deixa bilhete. A questão de suicídio foi levantada. Como uma pessoa normal ao extremo, chegando ao ponto de ser banal até os limites, poderia se suicidar? Durante toda a permanência dele na pele da vida, nunca apresentou indicio de paranóia, muito menos depressão, remoendo pelos cantos as dores inexistentes. Até o consideravam alegre, conversador quando chamado para as reuniões alcoólicas das sextas-feiras. Gostava de um bom filme, bom livro, esportes o único que apreciava, se é que pode ser considerado como esporte, era o xadrez. Não fugia de desafios e raramente perdia uma partida.

Morreu abraçado ao travesseiro era de conhecimento de todos. Porém nem todos sabiam da sua vida sexual, isto é, se namorava se tinha amante, se era casado, ou gay. Dissecados todos os porquês passaram a questionar a privacidade do rapaz. Raramente o viram acompanhado seja de mulher ou de homem. O diagnóstico, já que morava com a mãe, ele era gay. No entanto o que prevaleceu foi solidão. Nesse ponto ouve uma concordância geral: realmente a solidão acaba com qualquer pessoa, diziam um para o outro. E com o passar do tempo, as teorias foram se esmorecendo até cair no esquecimento total. E a única probabilidade que não contavam é que ele morreu por que tinha que morrer, como diz os mais velhos: era a sua hora e dela ninguém escapa.

Morreu assim, abraçado ao travesseiro, não por que quis e, sim, por que foi sua hora.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...