Cabe ao
escritor à obrigação de levantar o lençol da Realidade e olhar mais a fundo. Ir
além. Então, esse 'querer ver além' é que é interpretado como fantástico. – J.
J. Veiga.
No princípio aparecia uma aqui outra ali, depois é que
foram surgindo mais e, quando perceberam, o quintal estava tomado. As lesmas se
amontoavam uma por cima das outras. Era preciso ficar alerta para que não
entrassem em casa. A todo instante, alguém abria a porta para verificar se não
estavam subindo pela madeira toda trabalhada. Apesar de sua lentidão elas se
arrastavam com rapidez, quando se percebia, olham elas dentro de casa. Era um
tal de varrer, catar e jogar fora. Não sabiam mais o que fazer. Dormir era
impossível, tinha sempre alguém de guarda verificando as frestas da porta ou da
janela. Parecia que a cada temporal elas aumentavam de quantidade.
Cecília vivia jogando sal, o que, no primeiro momento
foi uma solução até viável, porém com o passar dos dias, tornou-se
insuportável, principalmente o cheiro. Cecília tinha horror de lesma, não podia
ver uma que corria pegar o sal e despejar na coitada. Foi necessário brigar com
Cecília que não queria parar de matar as invasoras. Funcionava porque abria um
caminho sem que precisasse pisar nos corpos gosmentos. Mas, com o passar dos
dias, tal a quantidade de lesmas que ficou impraticável transitarem. O chão
inundou-se de manchas pretas e escorregadio e, com isso, não se podia mais sair
de casa. Já estavam cansados de lutar, Cecília já não jogava mais sal nas
lesmas, ninguém mais tinha paciência de ficar de guarda, entregaram-se ao
destino, se eram para morrer engolidos por elas, então que seja, disse Agenor,
pai de Cecília.
Um dia, Bel, a mãe, ao chegar à cozinha,
assustou-se com várias lesmas subindo pelos móveis, fogão, pia e horrorizada
numa última tentativa, já estava com a vassoura pronta para o ataque, quando
percebeu algo diferente. Elas não avançavam mais, a impressão que tinha, é que as
lesmas davam ré. Chamou a filha e o marido, que juntos observaram o retrocesso dos
gosmentos bichos até sumirem. E ao abrir a porta, Agenor deparou, estavam todas
mortas, enroladas, retorcidas, secas tendo algumas esfareladas, esturricadas
sob o sol. E o cheiro? Forte, cheiro de carne podre, um bodum intragável, que
entrava pelo nariz revirando o estômago.
Agenor não teve
dúvidas, naquele dia mesmo, pegou da mangueira que, ainda não tinha sido
estreada, de uns vinte metros mais ou menos e começou a lavar o quintal. Com
certa dificuldade, pois era imensa a quantidade de gosmentos mortos, iniciou do
portão em direção ao fundo do quintal, onde havia uma parte só de terra. Depois
de uma hora talvez, ouviu um estrondo no meio de uma voz que berrava através do
alto falante.
- Você aí embaixo, pare de lavar o quintal.
Ao mesmo tempo, desceram vários homens de uniformes
metálicos prendendo o pobre do assustado Agenor.
- O senhor está preso. Não sabe que é proibido lavar o
quintal? Que estamos terrivelmente economizando água?
Agenor não sabia, e nem tinha como saber, preocupado
com as malditas lesmas não sabia de nada.
- O senhor não lê, não vê o noticiário, não?
Não, não via, teve vontade de gritar que não tivera
tempo de nada, devido à chuva que todas as tardes caiam na cidade, o quintal sendo
invadido por lesmas e que vinha tentando livrar-se delas, e que de um momento
para o outro, houve uma hecatombe misteriosa matando todas as lesmas. Ele quis gritar,
dizer isso, mas os soldados não deram tempo para que pronunciasse uma palavra.
A esposa e a filha, estáticas não puderam fazer nada, estarrecidas viram levar
o pai e esposo para nunca mais o verem.
Agenor tinha ido. Agora, era apenas ela e Cecília.
Cecília trazia a marca da família. O que deixava Bel em desvantagem, pelo menos
assim pensava, o que não era verdade, no entanto Bel não aceitava ser a
desvantagem, podia parecer conformada, mas não, é que lutava fracamente. Assim,
todos os dias, com a ida do Agenor, passou a fazer também o trabalho dele.
Afinal a casa não desmoronaria pela falta de um elemento. Não era de chorar a
perda.
Dois dias depois, recebeu o folheto de como reduzir a
água para não sofrer consequências. Agora eles não batiam na porta, desciam do
céu a qualquer momento e em qualquer lugar. Por sorte ela estava no quintal
quando, no silêncio dos movimentos, a sua frente, apareceu o soldado. Assim do
nada, pouco se lixando se a assustava ou não, entregou o folheto e na mudez das
palavras, sumiu. Quando notou, o soldado desaparecera nas nuvens. Como sumir
assim? Talvez, houvesse uma aeronave, que puxou o desgraçado. Entrou em casa
preocupada. Colocou os óculos, abriu o envelope e leu:
- Fica
decretado que a partir de hoje, os senhores têm apenas duas horas por dia, para
usar água. Mais que isso é impossível, por isso o governo fará uma abertura das
torneiras municipais duas horas por dia. Os senhores terão apenas essas duas
horas para fazerem tudo, beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa e outras
coisas. Saibam como usar a água para não terem dor de cabeça.
Desgraçado, xingou mentalmente. Daqui a pouco vão
controlar até o pensamento da gente. Teremos que pensar como eles querem. Como
vou fazer com duas horas de água? Correu até a cozinha. Abriu a torneira. Eles
estavam certo, nada de água. Mas com toda essa chuvarada? Leu mais atentamente
o folheto.
- Com esses
dias de temporais os senhores devem se perguntar o do porquê do racionamento
tão drástico de água. Acontecem que se os senhores não perceberam essa água de
chuva não é boa para o consumo. Ela tem trazido muita desgraça para a cidade,
desmoronamento, ruas que desabam em buracos, estradas arrastadas por terras e
outras calamidades. E pior ainda, as estações de tratamento de água estão todas
destruídas pela quantidade de chuva que tem caído, portanto até que tudo se
regularize aceitem as medidas de racionamento. Quem cuida tem sempre, não é
mesmo?
Isso é manobra desses políticos, aposto que eles não
estão dentro desse esquema, disse raivosa.
Amassou o comunicado e jogou no lixo mais próximo. Merda! Tenho que
estruturar novamente meu viver. Pegou da caneta e anotou no caderno:
- Quem sempre
nadou na merda, na merda morrerá.
Fechou o caderno e foi cuidar do que tinha para fazer.
Cecília dizia-se sem vontade. Na verdade, morria de
medo. Do que não sabia. Ao matar com sal as lesmas, estava confirmando o
medo. Não das lesmas, e sim, da sua iniquidade
diante dos fatos que, não podia alterar apenas aceitar. Claro, além de nojenta,
a lesma com seu rastro gosmento, é um fato que a manteve entretida por um
tempo. Ao confirmar sua força sobre o verme, não estava sendo nada
justificável. A lesma não tem arma nenhuma contra a fúria de Cecília. Tem
apenas seu rastro gosmento marcando sua passagem.
Cecília não tinha noção do medo. Bel passou a perceber
os modos da filha depois que Agenor fora levado. Talvez, Cecília tivesse
descoberto alguma coisa que ela não sabia. Por outro lado, não queria
perguntar. O que ela não sabia é que o medo se tornou crônico há muito tempo. É
algo antigo que só agora é que percebia. Genético, carregava os genes dos
antepassados. Coisa que nem ela e nem Agenor atinaram.
Cecília estava
só esperando o momento para entrar no Programa de Fecundação Anual, depois
seria transferida para outro lugar, cidade ou mesmo, outro planeta. Se
perguntassem o que ela sentia pela mãe, responderia nada. Não sentia nem pena.
Por que deveria ter pena de uma pessoa que não se preocupava com ela? Por ser
adotada, coisa que soubera de maneira enviesada, começou a entender as coisas
que até então desconhecia. Primeiramente que ela fora adotada por pressão, por
necessidade se não Bel e Angenor seriam considerados desligados, isto é,
mortos, pois vida quem não tem utilidade só lhe resta à morte. E para fugirem
disso, por meios ilícitos, adotaram Cecília. Não havia afetividade entre eles,
por isso quando Agenor fora levado, não chorou e nem sentiu piedade nenhuma. Só
esperava que o Programa de Fecundação desse positivo. Ouve casos, diziam, que
não dera certo, e quando isso sucedia a futura mãe passava a ser empregada para
o resto da vida como funcionária do Programa de Fecundação.
Cecília recebera o folheto explicativo. Leu que dali a
quinze dias deveria se apresentar ao comitê do programa que a levaria até o
laboratório. Lá faria uma saraivada de exames para ver quem a fecundaria. Fecundada ficaria confinada até a criança
nascer. Nascendo sem defeito físico ou mental, ela e o rapaz que a fecundou,
iriam viver a vida de casado em outro planeta onde deveram ter outros filhos. Caso
a criança nascesse com algum defeito, tanto físico como mental, deveria ser
colocada no Armazém de Congelamento para estudos futuros, e os pais da criança
seriam funcionários do Programa de Fecundação.
E quinze dias depois, preparada psicologicamente,
Cecília atravessava os portões do Programa de Fecundação.