Atenção: O
ministério da Educação e Literatura Banais e Outras Futilidades que possa
desvirtuar a mente dos jovens brasileiros advertem: texto rigorosamente
proibido para quem não quer ter conhecimento e que tenha preguiça em ler. No
caso de persistência, por favor, procurem um consultório de psiquiatria porque
o cara deve não estar bom da bola.
*****************************************************
Esses obscuros objetos do tédio.
Olhou para as probabilidades.
De um lado do
monitor, dois recipientes, um de lata e outro de louça; o de lata para os
elásticos, e o de louça, para os clipes. Ao lado os lacres para as caixas, do
outro lado os papéis com os quais passa às oito horas de prisão brincando com
eles.
Do outro lado do
monitor, as pastas de cartolina fina azuis, a espera que a mão estique o braço
e apanhe uma conforme delas for precisando; logo atrás, o velho e grande
dicionário Aurélio; depois o branquinho, o grande ajudante das secretárias
prestativas com seus belos trabalhos; em seguida, a grande tesoura que tudo
corta até a alma ou, será água! Não sei,
dddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd
Dddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd,
isso que vocês estão vendo, essa porção de “D”, é o sono que venceu o coitado e
o dedo dele ficou pressionando a tecla. Bom onde ele estava mesmo? Ah! Lembrou,
passando a tesoura há os machos e fêmeas também a espera de serem usados.
Colada está outra caixa contendo lápis, esferográfica, marcadores de texto
(como se ele usasse) extrator de grampo e, outros trecos; seguindo o caminho
está o grampeador, que grampeia até a alma e, finalmente, o preto telefone que
mudo ocupa apenas espaço, pois ninguém liga para ele, o que não o deixa
chateado não. E por fim, a linha divisória que separa a baia dele com a baia da
querida, linda, encantadora e simpática Helena –
“Talvez um dia /
Por descuido ou fantasia / Helena, Helena, Helena / Nos meus braços debruçou /
Foi por encanto, ou desencanto / Ou até mesmo por meu canto”, Taiguara, Helena,
Helena, Helena.
Talvez o que está escrito aí em cima, reconhece, não seja literatura ou um bom
texto, mas pergunta ele:
- Para que escrever
um texto que ninguém lê? Por exemplo: quem leu Avalorava*, de Osman Lins? Nunca
ouviu alguém dizer que o tenha lido. Um livro super bolado, onde há um roteiro
para melhor tirar proveito dele, mas que você pode criar o teu próprio roteiro
ou ler de fio a pavio; quem leu Zero, de Ignácio Loyola Brandão**? Romance
esplendidamente criativo, um pouco massante, diga-se de passagem, onde há um
visual, uma estrutura que deve se juntar ao texto como parte da história. E
outro como Fogo Pálido, de Nabokov e, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.
Bem é isso, acho que
o negócio é partir para textos anárquicos trasladando o mofo da erudição a
nauseabundeando os narizes dos leitores, é isso? Pois é...
05.08.2009
Pastorelli
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* Osman Lins - Avalovara - resumo
Vitória de Santo Antão, PE, 5 de julho de 1924.† São Paulo, SP, 8 de julho de
1978. Romancista, contista e dramaturgo. Entre 1941 e 1946, cursou economia na Faculdade
de Ciências Econômicas da Universidade do Recife. Em 1960, concluiu o curso de
dramaturgia na Escola de Belas-Artes, da Universidade do Recife. Em 1962,
mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como funcionário do Banco do Brasil.
Escreveu a telenovela Paixão de outono, traduzida do original argentino (tevê
Paulista, 1965), e casos especiais para a Rede Globo de Televisão, nos anos 70.
Obteve o grau de doutor em letras, em 1973. Lecionou literatura brasileira na
Faculdade de Letras de Marília. Ao morrer, estava concluindo o romance A cabeça
levada em triunfo. Em sua obra, utiliza-se do jogo, de artifícios gráficos e
representações geométricas como elementos estruturadores das narrativas.
Principais Obras:
Lisbela e o prisioneiro (teatro), 1964, reed.1994, Scipione, São Paulo;
Nove, novena (narrativa), 1996, reed. 1994, Companhia das Letras, São Paulo;
Avalovara (romance),
1973, reed. 1995, Companhia das Letras, São Paulo;
Guerra sem testemunhas (ensaio), 1969, reed. 1974, Ática, São Paulo;
Santa, automóvel e soldado (teatro), 1975, Duas Cidades, São Paulo;
Lima Barreto e o ensaio romanesco (ensaio) 1976, Ática, São Paulo;
A rainha dos cárceres da Grécia (romance), 1976, melhoramentos,São Paulo;
Casos especiais de
Osman Lins (teleteatro), 1978, Summus, São Paulo;
Evangelho na taba (ensaio), 1979, Summus, São Paulo;
Retábulo de Santa Joana Carolina (teatro), 1991, Giordano, São Paulo.
Avalovara: longamente congeminado, meticulosamente composto, resultava à
risca, como um alquimista em seu laboratório secreto. Aqui, o requinte formal,
e com ele a matéria romanesca, aprimora-se, supera-se. Partindo de um velho
palíndromo - SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, que o narrador traduz por “O
lavrador sustém cuidadosamente a charrua nos sulcos” ou “O Lavrador sustém
cuidadosamente o mundo em sua órbita”, assim insinuando dois dos sentidos
simbólicos da figura, - Osman escreve um estranho e belo romance de amor, dos
mais belos quantos já apareceram na Língua Portuguesa. Três mulheres,
identificadas com cidades, cruzam a vida de Abel, o herói (ou o anti-herói?).
Um exótico pássaro feito de pássaros - o que dá título à narrativa -, um
relógio, um tapete de míticas imagens presenciam os encontros amorosos,
inscritos no quadrado palindrômico atravessado por uma espiral interminável,
símbolos do Homem e da Mulher. Ou do Tempo e do Espaço, inseridos numa figura
geométrica hieroglífica, de esotérica significação. Sob as vistas do nouveau
roman, mas fugindo de suas mortais fragilidades, provenientes do radicalismo de
sua proposta fundamental, e repudiando o estereótipo folclórico que marcava a
ficção brasileira, Osman concebe um romance ecumênico, universal; as cidades
onde contracenam os amantes e por meio das quais as heroínas se deixam
reconhecer, podem ser quaisquer, assim como as personagens que representam. O
lugar e cronologia do enredo desobedecem à convenção: tudo se passa numa esfera
e num tempo míticos, da mesma forma que pertencem ao mundo dos mitos o pássaro
imaginário que nomeia a história, o relógio a pingar horas vagas, o tapete e
tudo o mais. História de um mito, se a redundância é permitida; ou o romance
como narração de um mito. Ou o Amor como Mito.
Avalovara pretende
reproduzir, na estrutura em palíndromo, configurado num quadrado e numa
espiral, a ordem cósmica. É sabido que esta se rege pela entropia, de onde o
(aparente) caráter multifacetado, anárquico, do romance, tendo em vista
detectar as n dimensões temporais e espaciais. É um romance ucrônico, ubíquo,
de utópicas cintilações. De geométrica ideação, traçado milímetro a milímetro,
ancora-se na ideia do romance como construção mental, domesticada que é a
fogosa fantasia pela rédeas do pensamento. Meta-romance, não sói porque o
narrador porfia em desvendar-nos (?) o sentido do palíndromo e os passos de sua
laboriosa fabulação, mas ainda por pensar o romance como arcabouço no qual a
multifome realidade se reflete e por meio da qual o autor e o leitor fruem a
sensação de abranger a totalidade do mundo num só painel fabultivo.
(adapt. De Massaud Moisés, Hist. Da Lit. Brás.: O Modernismo, ed.
Cultrix, 1989, p.510-511)
O que desde logo prende em Avalovara é a poderosa coexistência das deliberação
e da fantasia, do calculado e do imprevisto, tanto no plano quanto na execução
de cada parte, Falando do relógio de Julius Heckertorn (uma das linhas da
narrativa), o Autor diz que obedecia a “um esquema rigoroso”. E “sobre este
rigor assenta a ideia de uma ordem do mundo”. Mas “como introduzir, então, na
obra, o princípio de imprevisto e aleatório, inerente à vida?” A execução do
livro é a resposta, fascinante para o leitor, à medida que este vai
experimentando a precisão geométrica do arcabouço, a minúcia da descrição e a
poesia livre que rompe a cada instante.
SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS é uma frase inventada por um escravo frígio de
Pompéia, feita de cinco palavras, cada um com cinco letras, que se pode ler
igualmente nos dois sentidos, e em cuja composição entram apenas oito letras,
que, distribuídas pelos quadrados menores, constituem as linhas narrativas. Nos
vinte e cinco quadrados formam o quadrado grande, onde se contém a espiral, as
palavras se sobrepõem horizontalmente, mas também se estendem em colunas
verticais, pois a frase pod ser lida indiferentemente da esquerda para a
direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima, em
diversos rumos.
Assim, na narrativa, o amor é visto do homem para a mulher, da mulher para o
homem, do presente para o passado, do passado para o presente, daqui para ali,
numa reversibilidade vertiginosa que traz à baila a evocação da herma de Jano e
chega a uma mulher que é também homem, para um homem que pode veria
eventualmente ser também mulher.
As reversibilidades
prosseguem ainda noutro plano, quando o Narrador se transforma periodicamente
em Autor e a narrativa quebra a imagem do real, para apresentá-lo como fantasia
composta. Nesta romance, uma das linhas é precisamente a da consciência crítica
entrando a cada instante pela série ficcional, denunciando o seu caráter fictício
de empresa deliberada, igualmente reversível entre a representação do real e o
caráter ilusionista da representação. Daí um livro que não tem medo de se
apresentar como livro, como maquinismo montado, como não-realidade - mas do
qual jorram o fascínio de uma vida que palpita, o traçado do mundo exterior e a
surda potência das emoções.
(Adapt. De “A Espiral e o Quadrado” apresentação de Avalovara, Cia. Da
Letras, 1995)
Significado das Letras do Palíndromo:
R: [ ] e Abel: encontros, percursos e revelações
S: A espiral e o
quadrado
O: História de [ ],
nascida e nascida.
A: Anneliese Roos e
as cidades
T: Cecília entre os
leões.
P: o relógio de
Julius Heckertorn.
E: [ ] e Abel: ante
o Paraíso
N: [ ] e Abel: o
Paraíso.
Trecho do estudo: A Caçada ao Tempo Perdido - Por Martim Vasques da Cunha
Mas, afinal de contas, do que se trata "Avalovara"? Fazer uma sinopse
normal é quase impossível: Seria a história de Abel, aprendiz de escritor, que
busca uma Cidade misteriosa que, na verdade, não existe em lugar nenhum? Seria
a história de Abel com Cecília nos tempos de um Recife que existe somente na
memória? Ou a história de Abel com Anielise Roos, uma mulher européia que
contém cidades em seu corpo? Ou a história de Abel com uma mulher misteriosa,
que não possui nome e é designada por um símbolo alquímico - o de um círculo
com um ponto no centro e duas hastes apontando para cima - e que contém dois
seres dentro de seu corpo composto de palavras encarnadas? Mas também pode ser
a história da criação do maior palíndromo já inventado, a frase SATOR AREPO
TENET OPERA ROTAS, que coordena os movimentos dos personagens de
"Avalovara" numa simetria implacável, dentro dos limites de um
quadrado (que representa o mundo) e que gira conforme o ritmo de uma espiral
(que representa o Tempo). Também pode ser a história de Julius Heckethorn, que
deseja construir um relógio que possa refletir a ordem e, simultaneamente, a
desordem da existência; também pode ser a história de como a Inominável (a
mulher misteriosa de Abel, como passaremos a chamá-la neste ensaio) nasceu e
morreu duas vezes, recebendo em suas mãos um pássaro composto de pássaros, o
Avalovara do título; e é também provável que seja a história do próprio Osman
Lins tentando fazer uma nova literatura num país em que qualquer espécie de
novidade seria oprimida sem misericórdia.
Sim, "Avalovara" é tudo isso e, por isso mesmo, improvável de ser
resumido. É um romance cosmológico que se baseia em regras únicas. Como já
dissemos, ele é estruturado a partir de um palíndromo: SATOR AREPO TENET OPERA
ROTAS. Existem dois sentidos para esta frase: "O lavrador mantém
cuidadosamente a charrua nos sulcos" ou "O Lavrador sustém
cuidadosamente o mundo em sua órbita". Ambos fazem alusões ao modo de como
o Criador organiza o mundo em que vivemos; na verdade, é uma sentença sobre a
certeza de uma ordem que, talvez, poucos percebem. O palíndromo SATOR AREPO
TENET OPERA ROTAS pode ser ler de frente para trás e de trás para frente que
terá o mesmo sentido e a mesma ordem. A simetria é exata. Distribuído num
quadrado com vinte e cinco pequenos quadrados emoldurando cada letra da frase,
Osman Lins - inspirado num manuscrito sobre o palíndromo, que teria sido
encontrado pelo personagem Abel na Biblioteca Verona em Veneza - sobrepõe uma
espiral, que nasce fora do quadrado e dirige-se para o centro da figura, mais
exatamente na letra N da palavra TENET.
Este plano parece
mostrar os fundamentos de "Avalovara", mas é apenas o início. O
quadrado é o mundo - e o romance se deslocará de Ubatuba para São Paulo, do
Recife para Paris, de Paris para Amsterdam; mas a espiral é o tempo, seja
exterior como interior, e assim iremos da Roma Antiga para a Europa da Segunda
Guerra Mundial, do Recife dos anos 50 para a São Paulo da década de 60. Ainda
assim, Osman Lins mantém um rigor absoluto sobre o modo de contar cada
história: no começo de cada uma, dez linhas para dar as primeiras diretrizes;
depois, aumenta-se para vinte, trinta, quarenta linhas, conforme o tempo se
dilata, mas também se aproxima do centro do quadrado, que é a letra N.
Entretanto, temos de tomar cuidado na nossa análise. Se ficarmos só na relação
entre o quadrado e a espiral com o palíndromo, cairemos no erro do
estruturalismo. Osman Lins já nos mostrou as bases de seu romance; agora é hora
de olharmos o que ele fala a todos nós, como seres humanos. E o que temos é uma
bela história de amor, mesmo que ela tenha seus momentos estranhos, mas que
possuem um significado próprio dentro da linguagem simbólica do romance.
"Avalovara" começa com dois amantes dentro de um quarto, amando-se na
penumbra de um final de tarde em São Paulo: são Abel e a Inominável. Será neste
quarto que toda a história de um mundo colidirá com a trajetória de cada um
destes personagens, sempre em busca de uma eternidade que foge a cada instante
no efêmero que nos persegue. Abel e a Inominável se encontraram num dia de
eclipse do sol e se tornaram amantes logo depois; ela é casada com Olavo
Hayano, homem misterioso que possui duas faces, como o deus Jano. A Inominável
é também um ser dúplice; nasceu e morreu duas vezes: a primeira ao cair de um
elevador (teria sido uma tentativa de suicídio?) e a segunda ao dar um tiro no
peito logo depois da primeira noite de núpcias com Olavo Hayano. A Inominável é
composta de palavras e tudo o que toca se transforma em ser vivo; no quarto
onde faz amor com Abel, o tapete onde se deitam saltam leões, serpentes,
melodias de "Carmina Burana", de Carl Orff, enchem a sala - tudo é de
um excesso planejado, como se o destino da humanidade dependesse dos beijos e
dos abraços daquele casal (é interessante notar que Osman Lins parafraseia
trechos inteiros do "Cântico dos Cânticos" nos momentos de orgasmo,
relacionando os aspectos divino e profano do ato sexual).
Mas, na verdade, a
história entre a Inominável e Abel começa muito antes. Sem dúvida, o personagem
principal de "Avalovara" é Abel. A escolha do nome é singular e
podemos advinhar o seu destino: ele será sacrificado. As constantes visões de
um cordeiro que o persegue em sua temporada européia e que aparece, anos
depois, na mesma sala onde está com a Inominável, confirmam esta triste sina.
Quem será o seu carrasco? E por quê o sacríficio? Tudo tem seu início no
Recife, quando Abel, olhando para a água numa cisterna perto de sua casa, vê a
imagem de uma Cidade. A epifania o marca profundamente e, durante os anos
seguintes, ele procurará o lugar desta Cidade, assumindo sua condição de
peregrino, seja na sua terra natal em Recife, na Europa ou em São Paulo. Três
mulheres serão os símbolos máximos de cada etapa da busca: Cecília, Anielise
Roos e a Inominável. A primeira, apesar das observações de Regina Dalcastagnè
em seu ensaio "A Garganta das Coisas", de colocá-la depois do
episódio de Abel com Roos durante a temporada européia, se passa, a meu ver,
como a fase de inocência e passagem que Abel terá de enfrentar no Recife.
Cecília é vislumbrada com seis anos de antecedência, no mesmo instante em que
Abel vê a imagem da Cidade na cisterna; os dois se conhecem na casa das gêmeas
Hermelinda e Hermenilda, mulheres solitárias que esperam somente a morte para
se libertarem da vida. É uma época de transformações para Abel: sua mãe, a
Gorda, prostituta aposentada, está entrevada; seu pai se suicida; seus irmãos e
suas irmãs se espalham pelo mundo; e, finalmente, ele descobre a sua vocação
como escritor ao terminar seu primeiro conto. O relacionamento com Cecília tem
lances de mistério e de perigo: os irmãos não gostam de Abel porque ele seria
um homem casado (sua esposa se suicida com um tiro no ouvido). Uma noite, os
irmãos batem em Abel e em Cecília; ao se limparem do sangue e da sujeira numa
praia, Abel descobre que Cecília é uma hermafrodita.
Um dos motivos que
me leva a discordar da afirmação de Dalcastagnè que Cecília seria a segunda
mulher na vida de Abel, depois de Anielise Roos, são dois detalhes do romance:
o primeiro é que Osman Lins mistura os tempos dos acontecimentos para criar uma
simultaneidade e assim dando a impressão que não vemos apenas um único Abel,
mas três Abéis diferentes ainda que sejam o mesmo; o segundo é o fato de
Cecília ser uma hermafrodita - ou seja, os aspectos feminino e masculino da
personalidade de Abel ainda estão fundidos, já que a sua consciência ainda não
os discriminou. É necessário que Abel passe pela experiência dilacerante da
perda e da morte de sua parte feminina, como o que acontece com Cecília quando
ela cai de um cabriolé numa praia e quebra o pescoço, para ele procurar a
integração de sua alma na Europa, na companhia de Roos.
Anielise Roos é a
mulher que será a concretização carnal da Cidade que Abel busca - mas ele não a
encontrará nela. Roos se esquiva o tempo todo, viaja para inúmeras cidades
européias e Abel, amparado por uma bolsa de estudos, a segue até que possa
consumir o seu amor. Juntos vão à catedral de Chartres, onde Abel se depara com
a visão do cordeiro que também estará com ele no quarto da Inominável em São
Paulo. Ali, Abel conhece um cosmo em miniatura que mostra uma ordem divina
relacionada com a ordem humana. Roos afirma que tem de ir embora porque é
obrigada a cuidar do amante moribundo; Abel aceita a perda e vê ela ir embora,
sufocado por uma dolorosa solidão.
Na sua volta ao Brasil, ao presenciar um dia de eclipse solar, Abel conhece a
Inominável, esposa de Olavo Hayano. Rapidamente tornam-se amantes. A Inominável
é a carne no Verbo; sua vida é repleta de fatos enigmáticos: seu nascimento e
renascimento, seu pai composto por próteses, seu avô jurista que desconhece as
verdadeiras leis e, em especial, seu relacionamento com Inácio Gabriel, moço
puro e fraco que, ao ser diagnosticado com tuberculose, espera calmamente a
morte, sem antes dar de presente à amada, um pássaro feito de vários pássaros
que se chama "Avalovara". O nome deste estranho pássaro (que se
parece com uma iluminura medieval) é uma síncope de "Avalokitesvara",
divindade budista da compaixão infinita que, ao alcançar a consciência suprema,
optou por não entrar no nirvana, permanecendo no umbral para poder socorrer os
aflitos. O presente de Inácio Gabriel - que fica encravado na alma da
Inominável - se petrifica quando Olavo Hayano deflora sua esposa e só recupera
a sua beleza ao encontrar-se com Abel.
A Inominável é uma
fantástica criação de Osman Lins para mostrar a totalidade da personalidade. É
a anima em seu estado puro, pois é quem guiará Abel na escuridão do mundo para
que ele possa, finalmente, encontrar a Cidade que tanto procura. Abel percebe,
durante os sucessivos atos de amor que acontecem no apartamento em São Paulo,
que tanto Cecília como Roos eram antecipações da Inominável, que tudo convergia
para aquele momento em que os amantes celebram um amor adúltero, mas também
puro e capaz de transcender as prisões do Tempo. Contudo, a própria Inominável
é a prova de que o Tempo pode ser alterado. Sua natureza é dúplice: seu rosto,
olhos e boca mostram uma outra mulher por trás do seu atual corpo. Como seu
marido Olavo Hayano, sua alma bipartida assusta seus amantes. Só Abel
compreende aquilo. Assim, os dois se amam como se fosse a última noite de suas
vidas, prestes a entrar na Cidade que Abel tanto deseja, Cidade que se revela
como sendo o Paraíso e que só será alcançado com a morte.
"Avalovara"
é uma profunda meditação de como a arte pode ser um meio de impedir a chegada
da morte em nossas vidas. A verdadeira opressão do mundo não é apenas no seu
aspecto político; é também a morte de cada espírito que se afoga na tensão
entre o efêmero e o eterno. Talvez a arte seja o único meio que pode salvar o
ser humano desta tensão - mas ela também pode levá-lo a uma ordem petrificada,
se não aceitar a desordem inerente à nossa condição. Aqui entra uma das
histórias do livro, a de Julius Heckethorn e seu relógio que reflete a ordem do
cosmo. Relojoeiro alemão, vivendo às vésperas do Nazismo, Julius é um amante de
Mozart e Scriabin que pretende que sua obra máxima seja a reprodução exata da
tensão que há no mundo, como nas nossas almas. Seu relógio é engenhoso: cada
hora emite o som de um trecho de uma sonata de Scriabin, mas não de forma
linear. A distribuição é aleatória e os sons nunca reproduzem o trecho da
sonata na sua totalidade porque Heckethorn fez questão de esconder o
décimo-terceiro fragmento - que surgirá no dia em as conjunções astrológicas
indicarem o aparecimento de um eclipse solar. A obra de Heckethorn será a única
prova da genialidade de seu criador: ele será assassinado na Segunda Guerra
Mundial pelos nazistas por causa de sua ascendência inglesa, seus papéis serão
queimados e seu relógio será vendido ao embaixador brasileiro na Suíça que,
anos depois, venderá para um empresário de São Paulo, que transferirá ao seu
filho - justamente Olavo Hayano, que deixará o relógio no seu quarto, o mesmo
quarto onde Abel e a Inominável estão juntos e que, surpreendentemente, escutam
a sonata de Scriabin por inteiro no exato momento que a Cidade aparece a ambos
e que Olavo Hayano aparece com um revólver, pronto para matá-los.
A estrutura de
"Avalovara" abarca todo este mundo de tensões, mas nada se compara à
tensão da linguagem que Osman Lins provocou para seguir os movimentos do
espírito de cada um dos personagens. E é aqui que chegamos ao xis da questão.
Em "Avalovara" a linguagem não é um mero instrumento de descrição;
ela é o Verbo que transforma a realidade. Contudo, ela não transforma para
criar um mundo de fantasia; Osman Lins capta com exatidão o poder
transfigurador da palavra. "Avalovara" não é um romance sobre a
realidade tal como é; é um romance sobre uma realidade em permanente declínio e
que precisa, antes de tudo, de um novo Começo. Entramos aqui numa área
perigosa, que é o da especulação gnóstica. Quando o artista cria todo um
espelho de cosmogonia para ser uma substituição de um cosmo que, a seu ver,
está em permanente desordem ou que abandonou a verdadeira ordem, e se utiliza
do dom do Verbo para modificá-la não somente em seu aspecto exterior, mas
principalmente em seu aspecto interior, imaginando como poderia ser a
existência se pudéssemos recomeçar - então não estamos mais no terreno da mera
literatura e sim de algo que está em jogo há muito tempo: a integridade do ser.
(Apostila 37 de Lit. brasileira Contemporânea)
______________________________________________________
**Ignácio de Loyola Brandão um escritor urbano
Ana Lúcia
Vasconcelos
Conheci o Loyola nas redações da Editora Abril em São Paulo - ele trabalhou na Claudia,
Realidade, Setenta e depois nos revíamos em outras editoras - foi editor da
revista Planeta, e na Editora Três das sofisticadas Vogue,
Homem Vogue e Lui. Mas a gente se encontrava muito no Shopping da Avenida
Paulista chamado Center Três que fica defronte do Conjunto Nacional onde está a
famosa Livraria Cultura, e na própria livraria, que é um dos points
prediletos de jornalistas, escritores, intelectuais em geral, e diversas vezes,
nos metrôs. Ele pelo que me consta, não dirigia - sempre preferiu andar a pé,
de ônibus, táxi ou metrô para curtir a cidade. Fiz esta entrevista em 1987
quando ele escrevia livros e colaborava com crônicas para um jornal que só
circula na cidade de São Paulo e que é ótimo: Shopping News.
ALV
Paulista de Araraquara, onde já atuava como critico de cinema desde os 16 anos,
Loyola foi para São Paulo, cidade por quem era apaixonado-pelo menos era (até a
data desta entrevista ) em 1957 onde começou trabalhando no jornal Ultima
Hora como repórter. Seu primeiro livro foi Depois do Sol-contos,
lançado em 1965, o segundo foi Bebel que a Cidade Comeu, que saiu em
1968. Em 1974, foi lançado na Itália o romance Zero, sua obra mais
conhecida. O livro saiu no Brasil em 1975, mas foi proibido em 1976 pelo
Ministério da Justiça do governo Geisel. Em 1977 publica Dentes ao Sol
(romance), Cadeiras Proibidas (contos) e o infanto juvenil Cães Danados. Em
julho de 1976 Zero recebe o prêmio de Melhor Ficção, concedido pela
Fundação Cultural do Distrito Federal. Em novembro o livro é censurado pelo
Ministério da Justiça e sua venda é proibida.
Em 1978 viaja a Cuba
e escreve o livro-reportagem Cuba de Fidel - viagem à ilha proibida,
após participar, em 1978, do júri do Prêmio Casa de Las Américas. Em 1979 Zero
é liberado no Brasil e neste mesmo ano Loyola deixa o jornalismo para se
dedicar exclusivamente à literatura. Em 1980 ele viaja por várias cidades dos
Estados Unidos fazendo conferencias em universidades de Nova York, Flórida,
Georgetown, Albuquerque, Tucson, San Diego a convite da Fundação Fullbright,
dos EUA.
Na seqüência
continua viajando e escrevendo: em 1981 sai Não verás país algum, uma
visão surreal da realidade brasileira e considerado por um critico do New York
Times como uma das quatro distopias mais importantes da literatura mundial
juntamente com Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de
George Orwell, e Nós do russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin. É Gol sai em
1982 e em março deste ano, viaja, a convite da Fundação Alemã de Intercâmbio
Cultural para Berlim, onde fica por dezesseis meses. Lá, publica Oh-ja-ja-já,
uma seleta de seu diário berlinense, ainda inédito em português.
Em 1983 Voltando ao
Brasil, publica Cabeças de segunda-feira (contos). Em 1984, lança O
verde violentou o muro, onde narra sua experiência alemã. O senador
italiano Amintore Fanfani lhe entrega o Prêmio IILA, do Instituto
Ítalo-Latino-Americano, pelo romance Não verás país nenhum, publicado na
Itália no ano anterior. Assume a vice-presidência da União Brasileira de
Escritores, onde permanecerá até 1986.
Em 1986, volta a
Berlim, como convidado especial, para participar dos festejos dos 750 anos da
cidade. Participa de Encontro sobre Literatura Brasileira promovido pela
Universidade de Colônia, na Alemanha, ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Haroldo
de Campos. Escreve em 1987 O ganhador (romance) e O homem do furo na
boca (contos) que obtém o Premio Pedro Nava da Academia Brasileira de
Letras e de Melhor Romance da APCA. Participa das Jornadas Literárias na cidade
de Passo Fundo (RS), em 1985. Desde então, lá comparece a cada dois anos para
participar do evento. Lança o romance O beijo não vem da boca.
Em 1987 Não verás país nenhum é encenado no Teatro José de Alencar, em
Fortaleza, sob a direção de Júlio Maciel. Em 1988 publica A Rua de Nomes no
ar - Manifesto Verde que havia sido publicado em 1985, como brinde da
editora Circulo do Livro e lança o livro infanto juvenil O homem que
espalhou o deserto. Em 1990 voltou ao jornalismo assumindo a direção da
revista Vogue e passa a escrever crônicas para o jornal Folha da Tarde.
Zero, um espetáculo de dança realizado pelo Balé da Cidade, inspirado em
seu romance homônimo, é apresentado no Teatro Municipal de São Paulo no ano de
1992. Vai à Zurique, na Suíça, onde participa de leituras de sua obra.
Em 1993, começa a
escrever crônicas no Caderno Cidades de O Estado de São Paulo que, a
partir de 2000, seria transferida para o Caderno 2, onde está até hoje.
No ano de 1995
realiza três lançamentos: O anjo do adeus (romance), Strip-tease de
Gilda (crônicas) e O menino que não teve medo do medo
(infanto-juvenil). Em 15 de abril inaugura, no Instituto Moreira Salles de São
Paulo, a série O escritor por ele mesmo. Em 1996, viu a morte de perto,
segundo conta, quando foi surpreendido por um aneurisma cerebral e teve que
passar por uma cirurgia que durou onze longas horas. Mas como tudo é tema para
jornalistas e escritores o evento virou um livro: A Veia Bailarina
publicada em 1997.
Em 2000, recebeu o
prêmio Jabuti por O homem que odiava a Segunda-feira. Atualmente publica
crônicas no Caderno 2 de O Estado de São Paulo e faz parte do Conselho
Editorial da Revista Vogue sendo que sua obra soma vinte e três livros:
sete romances, seis livros de contos, dois relatos autobiográficos, dois
infanto juvenis, dois livros de viagem e três de crônicas, três
biografias.Algumas dessas obras estão traduzidas para o alemão, húngaro,
coreano, espanhol, inglês, italiano além de terem sido adaptadas para o cinema
e teatro.
Nesta entrevista ele
fala da sua trajetória entre o jornalismo e a literatura, seu processo
criativo, como constrói seus livros a partir sempre de uma imagem que trai sua
antiga paixão: o cinema.
ALV- Você
veio de Araraquara para São Paulo com vinte anos? Porque São Paulo?
Ignácio de
Loyola Brandão - Porque São Paulo era o grande sonho da gente.
São Paulo era onde estavam os jornais, as editoras, era onde estava
principalmente o cinema.
ALV -De que você gostava...
Loyola - Adoro cinema. Na verdade meu primeiro sonho era ser diretor de cinema
e também fazer roteiros.
ALV-Em Araraquara já tinha feito alguma coisa?
Loyola - Lá o grupo do qual eu participava tinha feito teatro, tinha um teatro
de Arena muito bom.
ALV - Você era ator ou diretor?
Loyola - Não nunca fui ator, eu trabalhava na assistência de direção, na
assessoria de imprensa, na produção, na mecânica por trás.
ALV - Nos bastidores...
Loyola-Nos bastidores... E este grupo de teatro se uniu a uma turma de Foto
Cine Clube que tinha duas câmaras de 16 mm e fizemos um filme quer era uma
mistura de ficção e documentário: A Aurora de Uma cidade sobre a
fundação de Araraquara.
ALV- Mas já escrevia na época?
Loyola-Eu escrevia para jornal. Vim para São Paulo e comecei a trabalhar na
Ultima Hora onde fiquei de 1957 a 1965. Depois fui para a Editora Abril onde
fiz Claudia, Realidade, Setenta. Depois fui para a Editora Três onde fiz
Vogue e Homem Vogue.
ALV - Você fez a adaptação brasileira da Planète não é?
Loyola - É eu fiz a Planeta.
ALV- Quando deixou o jornalismo e partiu para a literatura?
Loyola - Na Editora Três fazendo Lui. Acontece que os franceses não
gostaram da edição que a gente fez. Enquanto seguíamos a fórmula francesa a
revista foi um fracasso. Ela começou a melhorar quando fizemos uma fórmula
nossa, brasileira, mas antes eles romperam o contrato alegando não ser esse o
espirito da Lui. E a Editora Três não sabia o que fazer comigo e me demitiu.
Foi uma coisa muito engraçada-a primeira e única demissão da minha vida.
ALV- Qual foi a sensação?
Loyola - Muita insegurança, mas ai eu pensei-é agora a chance de eu tentar a
carreira de escritor e ver o que dá, ou ser funcionário de editora até o fim da
vida.
ALV - A esta altura você já tinha publicado vários livros?
Loyola - Meu primeiro livro foi Dentes ao Sol, contos em 1965. Deste
livro saíram dois filmes o Anuska, Manequim e Mulher de Francisco Ramalho
baseado num conto do livro e o outro foi um episódio que está dentro do filme
Memórias do medo baseado no conto que se chama Um Retrato de um Jovem Brigador.
O segundo livro foi Bebel que a Cidade Comeu. Enquanto eu fazia o livro o
Maurice Capovilla leu o original e fez um primeiro roteiro. Quando o livro
saiu, eu e o Mário Chamie trabalhamos neste roteiro e o filme saiu quase junto
com a primeira edição que foi dentro de uma antologia organizada pela Bloch
Editora e atualmente (em 1987) está na 15º. Edição e depois É Gol que é um
livro objeto, um grande conto ilustrado. Ai veio Cabeças de Segunda Feira em
1983, O Verde que Violentou o Muro em 1984 que está na 13º. edição e O Beijo
não Vem da Boca em 1985. E em agosto de 1987 O Perdedor.
ALV - Mas você já sonhava ficar só na literatura?
Loyola - Sim eu já sonhava com isso, acontece que não tinha esquema, não
vendia o suficiente. Mas ai de repente em 1979 o Cuba estava vendendo muito
bem. Então eu me agarrei nisso. Fora isso eu fazia free lances e descobri que
podia ganhar por palestra que eu e o Antonio Torres e João Antonio fazíamos
desde 1975. A gente descobriu uma coisa interessante nas cidades onde íamos
falar, os livros aumentavam as vendas ou passavam a vender. A gente fazia isso
profissionalmente, íamos a editoras conferir mesmo. Vimos então que este era um
caminho para formar um publico e começamos a receber cartas de professores, um
recomendava o outro e a coisa ia crescendo.
ALV- Um rastilho...
Loyola- Um rastilho mesmo, a ponto de a gente ter que recusar porque àquela
altura tínhamos emprego e só podíamos fazer palestras aos sábados e domingos.
Quando me libertei do emprego passei a fazer palestras quase que diariamente
dependendo dos convites e ai não importava se era quarta ou segunda-feira.
ALV- Ficou livre...
Loyola- A primeira conquista que eu fiz foi a completa indiferença sobre o dia
da semana. As pessoas diziam: ah terça é feriado, vamos fazer ponte. Faço ponte
o ano inteiro. Esta foi a grande conquista. As pessoas perguntavam se eu estava
ganhando dinheiro. Estava para sobreviver, mas a liberdade, a disponibilidade
de andar nas ruas, ir ao cinema, ou ficar em casa escrevendo, isso era
maravilhoso.
ALV - Além do Shopping News você escreve crônicas para outros jornais?
Loyola - Fico só no Shopping News, mas eventualmente faço coisas para
determinadas fascículos, certos house organs.
ALV - O Shopping News e o City News e o Jornal da Semana, enfim este um
conglomerado, enfim vende 500 mil exemplares que significa que você é lido por
milhões de pessoas em São Paulo.Como é isso?Você sente a repercussão?
Loyola - Sim é um publico muito engraçado: o porteiro le, o zelador, a
empregada, o advogado, o engenheiro, o dono da casa, domingo o jornal à mão. É
um publico super eclético.
ALV - Bom, a gente sempre se encontra na Livraria Cultura, no Conjunto
Nacional, em plena Avenida Paulista. Primeiro você vive na Cultura? E depois,
deve gostar muito da Paulista, não?
Loyola - Vivo la, a Cultura é meu quartel general, as pessoas deixam bilhetes,
recados. Eu gosto da Paulista, eu vejo a Paulista daqui (mostra a paisagem la
fora.De onde estamos sentados fazendo a entrevista, defronte da janela do seu
apartamento, vê-se lá embaixo a avenida Paulista). Eu moro a uma quadra da
Paulista. Eu fico vendo a fonte do Banespa em dias de calor, fico vendo a água
jorrando.
ALV - Voce gosta de São Paulo? Por que afinal você é um típico escritor da
cidade, urbano, fala sobre o homem massacrado, massificado, um numero perdido
na multidão. Apesar de tudo diria que a cidade tem seus encantos?
Loyola - Eu gosto de São Paulo. Estou um pouco espantado com o mal que fizeram
à cidade. A cidade não em culpa. Ela agora está respondendo na mesma medida, ou
seja, está agredindo o homem. Cortaram as árvores, cortaram tudo e agora ela
está respondendo.
ALV - Pois é, virou a famosa selva de pedra. Olha a paisagem que você tem
daqui - só prédios.
Loyola - Por sorte
se a gente for ver la do terraço, do outro lado, a paisagem já é diferente,
porque eu vejo o Parque Trianon. Mas veja é muito pouco verde para a quantidade
de prédios que há na região. Mas de qualquer forma eu tenho uma grande paixão
por esta cidade. Você vê, eu vim para cá São Paulo era um mito. Quando
adolescente em Araraquara e era fascinado por cinema: aqui estava a Vera Cruz,
que foram os anos 51,52, 53,54 anos importantes para minha cabeça. Então eu
queria fazer cinema na Vera Cruz. E as outras razões: porque a gente tinha que
vir estudar porque no interior não havia faculdades
ALV- E você fez o que?Quero dizer escola?
Loyola- Não fiz nada, fui direto para o jornalismo. Eu já fazia critica de
cinema, reportagem. Quando cheguei aqui, dez dias depois estava trabalhando na
Ultima Hora. Pensei que seria por pouco tempo, mas de repente vi que o jornal
era uma maravilha. E através do jornal comecei a descobrir a cidade porque eu
tinha que andar muito, a Ultima Hora na época era um jornal incrível.Eu ia para
tudo que é bairro, ninguém queria ir fazer determinada matéria, eu queria e
andando eu conhecia a cidade.E fui me apaixonando, peguei esta paixão que te
leva a gostar da cidade independente dos defeitos dela. E na reportagem eu fiz
muito isso, andando de ônibus, a pé, porque é assim que você conhece uma
cidade. Aí foi nascendo um relacionamento com a cidade e eu me interessei muito
pelas pessoas que vinham como eu e não tinham estrutura e que acabavam
destruídas.
ALV- Vencidos pela cidade...
Loyola- Vencidos pela cidade... Bebel que a cidade comeu. No fundo este livro
representa todos. A cidade é personagem. Eu sou super urbano, super paulista.
ALV- Voltando ao nosso encontro na Cultura, andando ali pelo Conjunto
Nacional você foi assediado por três senhores que falavam de uma crônica sua.
Isso é comum, quer dizer você ser reconhecido na rua?
Loyola- As pessoas me reconheciam na rua através de um desenho que saia no
Shopping News onde só tinha uns traços. Isso acontece muito. E as velhinhas
param... Umas bonequinhas. Mas isso é uma coisa que acontece agora com o
Shopping porque já escrevi em outros jornais-Folha de São Paulo, Jornal da
Tarde, Caderno Dois do Estadão e isso não acontecia.
ALV- Por que era outro publico?
Loyola- Outro publico e por preconceito. E também porque acho que sou um
cronista muito engraçado-lógico que isso vai desaparecer-mas eu falo do
cotidiano, falo da prateleira do super mercado... Eu não sou cronista do tipo
do Sabino, não conto estórias, lógico às vezes eu conto estórias.
ALV- Você usa na sua literatura uma linguagem cinematográfica: foca num
ponto, depois abre e faz um zoom, depois um travelling. Fala das minúcias e do
geral.
Loyola- Você definiu bem. As colunas do shopping inclusive foram a base para o
Verde que violentou o Muro.
ALV- Então me conta um pouco sobre o teu processo. Cada louco com sua
mania, qual é a tua? A Clarice Lispector escrevia em pequenos papéis e depois
juntava tudo, a Lygia Fagundes Telles anda quilômetros pensando e toma notas no
caderninho. E você?
Loyola- Eu escrevo nos caderninhos, cadernões. Eu leio um jornal,
recorto colo, falo desenhos, esboços, rabiscos. Anoto o tempo inteiro coisas
que eu ouço, que me impressionam, olhando a janela, isso tudo vai para o
caderninho, até que uma imagem qualquer- e isso é uma constante-me impressiona
mais. Depois veja, eu passei anos indo ao cinema desde a infância, então tudo é
imagem para mim.
ALV-A linguagem está incorporada em você, a linguagem do cinema?
Loyola- Esta incorporada a imagem... Então de repente é o olhar de uma
pessoa que eu conheço no qual começo a pensar em cima, tento construir um
personagem com aquele olhar e ai a viagem começa. O Zero nasceu de um olhar.
Bebel nasceu de um suicídio - uma mulher que se atirou de um prédio, eu não vi,
mas ficava imaginando.
ALV- Ela caindo...
Loyola- Ela caindo, batida de sol. Dentes ao Sol é um livro que nasceu de uma
pessoa que se escondia atrás de uma arvore e eu ficava olhando aquele movimento
de cabeça e comecei a trabalhar em cima. Isso se passava em Araraquara, porque
Dentes ao Sol se passa em Araraquara e é meu favorito.
ALV- Você já falou isso. Por quê?
Loyola- Não sei por quê. Talvez porque é a estória-base real- de um amigo meu
que era o mais talentoso da turma e que se acabou se entregou, não teve
coragem, não tentou fazer as coisas, não tentou fazer o sonho. Esta coisa das
pessoas não tentarem realizar o sonho me impressiona muito. Não Verás País
Nenhum nasceu de uma imagem de um ipê que enchia o chão de flor e este ipê foi
morto justamente por que, entre aspas, sujava o chão. Uma mulher assassinou,
jogou veneno, etc. Ai eu fiquei pensando na falta de consciência das pessoas em
relação à natureza, à beleza e ai comecei a pensar que não eram só as pessoas,
mas a sociedade, o governo.E começou a aparecer na minha cabeça a hipótese: e
se não apenas aquela mas se todas as arvores daquela rua forem mortas, se as
arvores daquela cidade,ou daquele pais.Então é sempre uma imagem e ai começo a
ter o livro. A partir desta imagem eu trabalho vou a todas as anotações em
laudas e vou consultando e retirando coisas que podem ser encaixadas. E
evidente que na medida em que vou tendo a idéia, que eu chamo de situação e vou
desenvolvendo esta situação, de que maneira ela vai entrar no livro, desde o
elevador, frases soltas, a rua, tudo...
ALV- Ai você já está no clima, tomado pela idéia do livro...
Loyola- Ai já estou dentro do trem e o trem sai a toda a velocidade. Nem
sempre a idéia inicial que a imagem me leva é a idéia final. Muitas vezes você
desvia a termina noutro ponto. Isso é muito relativo.
ALV- E como surgiu a idéia de ir para a Alemanha?Você escolheu ou foi
escolhido?
Loyola- Fui escolhido. O Zero foi publicado na Alemanha com grande sucesso de
critica, não foi sucesso de vendas. A minha agente literária- ela é apaixonada
por literatura latina americana, ela dirige as coleções latinas americanas na
Zurkamp que é a principal editora alemã, ela fala português, me mandou uma
carta dizendo se que queria passar seis meses em Berlim - nunca tinha passado
pela minha cabeça ir para a Alemanha, mas também se me convidam de Cotia a Hong
Kong eu estou sempre pronto (risos). Eu vou depois eu vejo.
ALV- Aliás, você escreveu seguindo até o conselho que o Cohn Bendit deu ao
jornalista amigo dele do New York times que ia escrever sobre a Alemanha: que
ele fizesse uma colagem, escrevendo só o que percebesse o que sabia de verdade.
Você mesmo cita isso no livro. Você fez uma colagem?
Loyola - Não sei se é uma colagem. É um painel de onde tirei as coisas que
achei mais importantes. Teve muita gente que criticou o Verde dizendo: ah não é
um estudo das duas Alemanhas, está faltando o livro político. Mas não fui fazer
isso, não sou cientista político. O que me interessa é o homem dentro do
sistema e isso está lá. Agora hoje a Alemanha é um pais que eu gosto, que eu
via com muito preconceito e que hoje não tenho. Muitos dos meus melhores amigos
são alemães e quando eles são amigos são para valer.
ALV- Você fala uma coisa interessante no Verde que é justamente a
identificação que de repente encontrou em Berlim e Araraquara- a luminosidade,
alguma coisa que te remetia a um passado, ao teu pátio interno. Fale sobre
isso.
Loyola- Não me peça para explicar isso. De repente uma luz que só tem em
Araraquara e em Berlim tinha isso e eu perguntava por que em Berlim?Sabe mesmo
um dos episódios que acionaram a feitura do Verde - são vários, mas foi
especialmente a sandália vermelha que está lá relatado que é o seguinte. Uma
tarde eu fui ao cinema em Berlim, à cinemateca-fim de tarde, tudo muito
tranqüilo, muito quieto. Berlim é muito provinciana quando quer ser e estou
olhando os cartazes e vem uma alemãzinha morena com uma sandália de tirar
vermelhas. Ai pronto, eu fui lá longe e bateu numa época que eu tinha 16 anos,
em 1952 e eu estava vendo uns cartazes, num fim de tarde em Araraquara e eu
gostava de uma menina e ela chegou usando uma sandália de tiras vermelhas. E
este episódio acionou toda a feitura do livro. Ai escrevi para esta moça que
hoje é minha amiga e em cima de quem escrevi a personagem Ana que considero um
dos bons personagens meus, que é uma mulher de 40 anos que resolve jogar tudo
para cima e sair em busca do amor dela.Enfim eu tenho uma relação muito
estranha com Berlim.
ALV- Você acredita no acaso?
Loyola- Não acho que haja qualquer coisa gratuita. Às vezes há acasos
provocados. Mas acho que tudo neste planeta está meio amarrado. Pensando em
minha carreira, mesmo em palestras quando me perguntam se eu sempre quis ser
escritor - acho que não, cai por acaso. Eu fazia jornal, me divertia muito e
esqueci aquela estória de ser diretor de cinema e no final foi o jornalismo que
me deu a base para a escritura - toda aquela vivencia com a cidade, com o país,
com as pessoas, fui tendo um conhecimento da realidade que não teria se fosse
um bancário. Então às vezes penso porque me transformei num escritor.
ALV-Esse estilo rápido, sintético, com intertitulos dividindo os textos, as
vezes curtos, as vezes mais longos, sem critério de espaço causa um efeito
fulminante.A sensação é como se fosse uma bomba explodindo dentro de você e se
espalhando em mil estilhaços. O teu texto é real e surreal ao mesmo tempo. Você
diria que isso vem um pouco do jornalismo?
Loyola - Isso só ocorre no Verde e no Zero. E vem um pouco do meu aprendizado
gráfico, do jornalismo, mas o Zero é uma reconstituição do caos que era o
Brasil na década do horror e eu via mesmo o Brasil explodir. Agora o Verde, a
minha intenção foi outra: é como se você pegasse um trem numa estação qualquer
e passasse a atravessar o país e descesse onde bem entendesse. Já o Zero é
mesmo estilhaços porque era o quadro que a gente tinha. Agora lógico que esta
coisa sintética vem do jornalismo, porque a gente chegava da rua e o editor
dizia: dez linhas. Você argumentava: dez? Mas eu tenho uma matéria incrível! E
ele: é dez se quiser que saia... e ai você escrevia dez, aquele esforço de
síntese.Claro que eu trabalhei isso literariamente.Agora é muito interessante
que o Zero é um livro lido até hoje.Muita gente diz: é porque foi proibido esta
coisa toda.Acho que não, porque dos livros proibidos o Zero é o único livro que
ainda tem presença em livrarias e já se passaram oito anos.E é muito lido por
jovens de 15, 16 anos.
ALV- Jovens que não viveram aquela época...
Loyola - E que não estão acostumados com aquele tipo de literatura. E os
garotos me dizem: puxa este livro é incrível. Eu digo: mas o livro é difícil e
tal. Um dia, um garoto em Porto Alegre me disse: não é difícil. O livro parece
um videoclipe. Eu achei a melhor definição para o Zero.
ALV- Você introduziu o vídeo clipe na literatura brasileira?
Loyola-(rindo) Introduzi o vídeo clipe... Porque o vídeo clipe tem uma
musica no fundo e uma série de imagens. Aqui no livro é uma idéia como pano de
fundo e uma série de imagens.
ALV- Fale um pouco sobre o teu romance O Ganhador (à época o ultimo dele).
Qual seria a novidade dele em relação aos outros. Você continua falando da vida
urbana, da falta de perspectivas do homem, agora não mais nas grandes cidades,
mas numa pequena cidade.
Loyola- Acho que ele tem alguma novidade na linguagem, é um pouco um livro de
suspense, pretende mostrar um Brasil paralelo. Meus personagens estão sempre à
margem, só que exatamente agora neste numa pequena cidade do interior. Então
você vê aquele pequeno mundo, aquela mitologia interiorana, as loucuras, o
misticismo, a maioria das personagens é inusitada, todos meio loucos. Tem uma
mulher que vira chefe de igreja depois que vê cair cubos de gelo cheios de
peixe dentro.
ALV-Voce mistura o real e o surreal. Interessante os críticos não apontarem
isso, quer dizer, este parentesco com George Orwell de 1984, a escritura de
Cortazar e outro latino- americanos conhecidos lá fora.
Loyola-Mas o Brasil é tudo isso. Agora os críticos não relacionarem isso já é
preconceito que existe. Eles citaram todos os autores nesta linha e nunca
citaram Não Verás País Nenhum. Já um crítico do New York Times quando fez uma
resenha do livro disse que havia quatro livros fundamentais sobre o que ele
chamava de distopia (que é o oposto da utopia). O primeiro seria: Nós do russo
Yevgeny Ivanovich Zamyatin, depois vinha Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley,
1984 do Orwell e o meu Não Verás País Nenhum. Então a critica estrangeira fala
e a nacional não. Acho que é preconceito mesmo, porque você acha que vão julgar
um autor nacional com a mesma estatura desta gente?
ALV- Os seus personagens, me parece, não vislumbram uma luz no fim do
túnel. Você vislumbra?
Loyola- Não acho que não. (lembrar que estávamos em 1987). Eu mesmo não vejo. Eu
vivo uma desesperança ainda mais com essas pessoas que estão agora no governo.
ALV- qual é a sensação que você tem lendo jornal hoje?Política nacional?
Loyola- Apocalipse. É aquilo que o Paulo Francis falou: o Brasil passou
da pré-história para a história sem ter atingido a civilização. E não vai
atingir porque- ai você diz- mas não é culpa é do povo, é culpa do governo .É
culpa do povo sim, e é culpa do governo.Nós somos culpados pelo fracasso das
coisas que acontecem aqui.
ALV- Você viveria fora do Brasil de novo?
Loyola- Se continuar essa coisa que está viveria até para sempre porque eu não
agüento mais. Você fala: é acabou a ditadura, começou a democracia, mas não é
nada disso. São as mesmas pessoas, mentira em cima de mentira, os homens não
tem mais responsabilidade. Não sei se estou ficando moralista, mas estou
começando a exigir meus direitos mínimos. Não tenho mais paciência para
atravessar a rua e o cara vir em cima de mim e estou atravessando na faixa.
Chegamos a um ponto em que não existe mais lei, nem ordem, mais nada. Quer
dizer as pessoas entraram nessa paranóia.
ALV- Qual seria a sociedade ideal para você?
Loyola- Bom para começar sem essas pessoas que estão no poder. Mas enfim,
aquela sociedade onde eu tivesse certa paz, certa tranqüilidade, onde as
pessoas pudessem comer e beber tivessem trabalho.
Obras do autor
Contos
Depois do sol,
Brasiliense, 1965
Pega ele, Silêncio,
Símbolo, 1976
Cadeiras proibidas,
Símbolo, 1976
Cabeças de
segunda-feira, Codecri, 1983
O homem do furo na
mão, Ática, 1987
O homem que odiava
segunda-feira, Global, 1999
Romances
Bebel que a cidade
comeu, Brasiliense, 1968
Zero, Brasília/Rio,
1975
Dentes ao sol,
Brasília/Rio, 1976
Não verás país
nenhum, Codecri, 1981
O beijo não vem da
boca, Global, 1985
O ganhador, Global,
1987
O anjo do adeus,
Global, 1995
Infanto-juvenis
Cães danados, Belo
Horizonte Comunicações, 1977. Reescrito e publicado com o título "O menino
que não teve medo do medo", Global, 1995.
O homem que espalhou
o deserto, Ground, 1989
Viagens
Cuba de Fidel:
viagem à ilha proibida, Livraria Cultura, 1978
O verde violentou o muro, Global, 1984
Relatos autobiográficos
Oh-ja-ja-ja (Diário
de Berlim, inédito em português). Tradução de Henry Thoreau. LCB, 1982
Veia bailarina,
Global, 1997
Cartilha
Manifesto verde,
Círculo do Livro, 1985 e Ground, 1989
Crônicas
A rua de nomes no
ar, Círculo do Livro, 1988
Strip-tease de
Gilda, Fundação Memorial da América Latina, 1995
Sonhando com o demônio, Mercado Aberto, 1998
Teatro
A última viagem de
Borges (2005)
Biografias
Fleming, descobridor
da penicilina, Ed. Três, 1973
Edison, o inventor
da lâmpada, Ed. Três 1973•Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus,
Ed. Três 1974
Antologia
Os melhores contos
de Ignácio de Loyola Brandão, organização de Deonísio da Silva, Global, 1994
Traduções
Para o alemão
Null (Zero),
Suhrkamp, 1979
Kein land wie dieses
(Não verás país nenhum), Suhrkamp, 1984
Para o coreano
Zero, Seto, 1990
Para o espanhol
Cero (Zero), Galba,
1976
El hombre que
espandió el desierto (O homem que espalhou o deserto), Global - México, 2000
Para o húngaro
(Zero), JAK, 1990
Para o inglês
Zero, Avon Books, 1983
And still the earth (Não verás país nenhum), Avon
Books, 1984
Para o italiano
Zero, Feltrinelli,
1974
Non vedrai paese
alcuno (Não verás país nenhum), Mondadori, 1983
Vietat le sedie (Cadeiras proibidas), Marietti, 1983
Adaptações
Para o teatro
Não verás país
nenhum. Direção de Júlio Maciel, Fortaleza, Teatro José de Alencar, 1987,
baseado no romance homônimo
Para o cinema
Bebel, a
garota-propaganda. Direção de Maurice Capovilla, 1986 -baseado no romance Bebel
que a cidade comeu
Anuska, manequim e
mulher. Direção de Francisco Ramalho, 1969 -baseado no conto Ascensão ao
mundo de Annuska