quinta-feira, 30 de junho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.791(2022)

    

         No fim da noite começo da madrugada sentado a mesa com a caneta entre os dedos me enfio a procurar palavras numa voraz insanidade mental conturbado de várias ideias maluca onde caço uma que vale a pena transformá-la em história plausível de se ler.

         Difícil empreitada nesse frio desnaturado enrijecendo os dedos onze graus e se comentam que vai esfriar mais ainda e tem os putos imbecis que viajam para lugares aonde a temperatura chegue abaixo de zero só para sentirem mais frio e vestem blusas blusas cachecol casacão casacão e tomam vinho quente é um porre o frio.

         Plataforma do metrô o vento frio bate no corpo suado ergo a cabeça pensativo no que vou escrever enquanto o trem encosta sua carcaça na plataforma e saia gente e entra gente e consulto o horário no celular e vejo que ainda é cedo e verifico que não consigo cronometrar o tempo chego cedo e sento no banco e leio um pouco até que começo a bocejar e lágrimas escorrem dos meu olhos e procuro escrever um pouco no caderno de capa dura vermelha e sem perceber o caderno escorrega da minha mão caindo no chão e assustado acordo e pego o caderno e rapidamente me levanto e fico andando de uma lado para o outro a espera do próximo metrô...

         É isso... ou, não é?

quarta-feira, 29 de junho de 2022

El Malak


Procurei por toda parte
Procurei no quintal de cada casa
Nas ruas de cada bairro
Nas esquinas de cada praça

Procurei nas largas avenidas
Procurei nos estreitos córregos
Nos cinzentos elevados
Nos viadutos aglomerados

Andei pelas ruas do centro
Andei pela Paulista República
Na Praça Ramos Dom José Gaspar
No Largo do Arouche Interlagos

No Morumbi Jaçanã Jabaquara
No Ipiranga Sacomã Tatuapé
Em Itaquera São Miguel Poá
Em Belém Brás Concórdia

Lapa Penha Vila Maria Esperança
Brooklin Jardins Ibirapuera Butantã
Saúde Vila dos Remédios Perdizes
Higienópolis Mooca Vila Prudente

Campo Limpo A. E. Carvalho Cangaiba
Pinheiros Pico do Jaraguá Carrão
Jardim Danfer Jardim do Castelo
Imigrantes Vila Madalena Bixiga

Pela cidade toda de manhã à noite
De segunda a segunda interrupto
Debaixo de sol chuva garoa e vento
De carro ônibus metrô táxis ou caminhão

Só fui encontrar na Alameda Santos
No El Malak mais precisamente
Entre doce e querida companhia
A autêntica e verdadeira poesia

terça-feira, 28 de junho de 2022

Acidente.

   

Abriu o guarda chuva
Todos viram
Todos admiraram
O seu rebolado

E

Todos riram
Quando ao descer a rampa
Descuidada ela escorregou
E caiu em meus braços

E

Rolamos em lençóis brancos
Seus seios e lábios me abocanharam
Nove meses depois de felicidades

Na justiça pela guarda
Do filho brigávamos

Fim.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Filme em preto e branco.

Quando se encontravam a discussão rolava solta. Era mais um diálogo acalorado quase sempre sem paixão, apenas discutiam por discutir. E aquele dia não foi diferente dos outros dias. Começaram falando do filme que estreara a pouco tempo e que fazia sucesso. Criticaram o diretor, os atores, a trilha sonora, a fotografia, o tema, muitos não gostaram por ser drama, tinha os que não gostavam de comédias, de terror, ficção cientifica, Hitchcock nem pensar, infantil, animação e muitos outros. De repente perguntaram a ele:

         - E você, qual o tipo de filme que prefere?

         Olhou para o pessoal que olhavam para ele, respondeu:

         - Qualquer filme, desde que seja bom.

         Um silêncio reinou entre eles, mas logo em seguida esquecendo-o começaram a discussão novamente. Deu de ombros. Dali a instantes, levantando-se disse:

         - Bem pessoal, vou indo.

         Ninguém lhe deu atenção. Jogou uma nota de cem em cima da mesa e saiu. Pegou o ônibus e quarenta minutos depois estava em casa. Ao enfiar a chave na fechadura e abrir a porta, previu que alguma coisa estava errada. Ouviu falatório, não entendia o que diziam. Devagar dirigiu-se ao som das vozes. Chegando à escada que descia ao porão, reparou que alguém assistia filme na televisão. E lá estava ele vendo um filme do Hitchcock em preto e branco e todo o ambiente estava em preto e branco também. E ele todo estirado na cama, com o corpo jogado meio para traz, deixando o dorso a mostra, numa posição passiva parecia dormir. Desceu o último degrau. Reparou que ele não ficou em preto e branco, continuava colorido, sua camiseta azul continuava azul, a calça jeans continuava azul jeans desbotada, seu cabelo preto continuava preto. Olhou as mãos continuava com a cor de pele de sempre. No entanto, ele na cama e todo o ambiente, cama, lençol, o pijama, a televisão, janelas, paredes, tudo era em preto e branco. Lentamente, aproximou-se, sentou-se na beirada da cama. Temeroso estendeu a mão, quase tocava o seu peito, quando ele abriu os olhos e uma luz ensurdecedora iluminou o quarto fazendo com que se unissem num só.

domingo, 26 de junho de 2022

Percorro

Percorro

       
Percorro na linha da vida
Em passos incertos mal sucedidos
Não me escondo dos perigos

sábado, 25 de junho de 2022

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Teu aprendizado

          

                                            Para Isaura  



Vamos sem o teu silencioso passo
Sem o som do teu frágil esguio corpo
Sem o visual do teu bondoso rosto
Deixou o nosso ritmo sem compasso

A roda normal da vida foi alterada
Desequilibrou o edifício da alma
Desvirtuou a rotina programada
Abalou o mar de intensa calma

Vamos seguir em frente, temos
Que seguir em frente, levando
No peito a dor e o dever de sermos

Do teu corpo a força que nos alimenta
Da tua voz a luz que nos sustenta
Do teu amor o caminho que vamos

Aos netos o teu aprendizado distribuindo

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Momentos que não sei.


Há momentos que surge uma capacidade instantânea e, me obriga a chafurdar na alegria. É desafio que desliza levando-me a reconhecer a cidade transtornando meus passos e decisões sem possibilidade de retorno. O pior é que pressinto e não me esquivo. Vou ao encontro do muro, procuro com os meus próprios recursos escalar, transpor, mesmo que no topo chegue todo estropiado, sangrando abstratos filetes vermelhos, mas satisfeito, não só por ter conseguido, mas pelo menos ter ousado.

Há momentos que sei, devo me recolher e procurar o calor deixado por teu corpo entre os lençóis encardidos de tua ausência.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Há sempre alguém para ler.

 Que merda! A palavra escorrega entre os dedos da sensibilidade sem se fixar no papel dessa telinha hipnótica. Ela vem e vai ao seu bel prazer. Não passa toda a magia para as pontas dos dedos para que, estes, imprimam as teclas e com isso, façam surgirem seus caracteres.

Ela vem com força, com conteúdo, se aloja no canto preferido, se acomoda, pede até uma água para beber, isso quando não uma cerveja estupidamente gelada, mas quando os dedos procuram com carinho as teclas, a palavra está lá, a espera, mas ao ser impressa, perde a força, torna-se insignificante, sem brilho, sem conteúdo e, assim, ela se aloja num amontoado de dizeres banais e fúteis. É ou não é aterrorizante? Então se cria a pergunta:

“O que é ser escritor?”

É o escrever leve sem compromisso com a estética, com a forma, com as regras e, partir para o conteúdo, isto é, dar mais importância ao conteúdo? Até pode ser, mas se unir o conteúdo com a forma, com as regras, o texto ficará sublime, ficará ou tornara-se obra prima, até, ousando um pouco mais, como se acredito o que esses dedos dizem, criar um estilo, uma nova escola, até pode ser, não é?

Vou dizer mais uma vez: é uma merda! E como! Porque não pode ser como todos os bons escritores... Bom! Será que eles não passam por esses mesmos motivos? Sei que cada um tem sua maneira ou, sua técnica para escrever, o importante não é apenas escrever, mas o importante é que tenha sempre alguém para ler.
Amém.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Esses obscuros objetos do tédio.

 

Atenção: O ministério da Educação e Literatura Banais e Outras Futilidades que possa desvirtuar a mente dos jovens brasileiros advertem: texto rigorosamente proibido para quem não quer ter conhecimento e que tenha preguiça em ler. No caso de persistência, por favor, procurem um consultório de psiquiatria porque o cara deve não estar bom da bola.


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Esses obscuros objetos do tédio.


Olhou para as probabilidades.

De um lado do monitor, dois recipientes, um de lata e outro de louça; o de lata para os elásticos, e o de louça, para os clipes. Ao lado os lacres para as caixas, do outro lado os papéis com os quais passa às oito horas de prisão brincando com eles.

Do outro lado do monitor, as pastas de cartolina fina azuis, a espera que a mão estique o braço e apanhe uma conforme delas for precisando; logo atrás, o velho e grande dicionário Aurélio; depois o branquinho, o grande ajudante das secretárias prestativas com seus belos trabalhos; em seguida, a grande tesoura que tudo corta até a alma ou, será água! Não sei,

dddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd
Dddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddddd, isso que vocês estão vendo, essa porção de “D”, é o sono que venceu o coitado e o dedo dele ficou pressionando a tecla. Bom onde ele estava mesmo? Ah! Lembrou, passando a tesoura há os machos e fêmeas também a espera de serem usados. Colada está outra caixa contendo lápis, esferográfica, marcadores de texto (como se ele usasse) extrator de grampo e, outros trecos; seguindo o caminho está o grampeador, que grampeia até a alma e, finalmente, o preto telefone que mudo ocupa apenas espaço, pois ninguém liga para ele, o que não o deixa chateado não. E por fim, a linha divisória que separa a baia dele com a baia da querida, linda, encantadora e simpática Helena –

Talvez um dia / Por descuido ou fantasia / Helena, Helena, Helena / Nos meus braços debruçou / Foi por encanto, ou desencanto / Ou até mesmo por meu canto”, Taiguara, Helena, Helena, Helena.
Talvez o que está escrito aí em cima, reconhece, não seja literatura ou um bom texto, mas pergunta ele:

- Para que escrever um texto que ninguém lê? Por exemplo: quem leu Avalorava*, de Osman Lins? Nunca ouviu alguém dizer que o tenha lido. Um livro super bolado, onde há um roteiro para melhor tirar proveito dele, mas que você pode criar o teu próprio roteiro ou ler de fio a pavio; quem leu Zero, de Ignácio Loyola Brandão**? Romance esplendidamente criativo, um pouco massante, diga-se de passagem, onde há um visual, uma estrutura que deve se juntar ao texto como parte da história. E outro como Fogo Pálido, de Nabokov e, Laranja Mecânica, de Anthony Burgess.

Bem é isso, acho que o negócio é partir para textos anárquicos trasladando o mofo da erudição a nauseabundeando os narizes dos leitores, é isso? Pois é...


05.08.2009
Pastorelli
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*  Osman Lins - Avalovara - resumo
Vitória de Santo Antão, PE, 5 de julho de 1924.† São Paulo, SP, 8 de julho de 1978. Romancista, contista e dramaturgo. Entre 1941 e 1946, cursou economia na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife. Em 1960, concluiu o curso de dramaturgia na Escola de Belas-Artes, da Universidade do Recife. Em 1962, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como funcionário do Banco do Brasil. Escreveu a telenovela Paixão de outono, traduzida do original argentino (tevê Paulista, 1965), e casos especiais para a Rede Globo de Televisão, nos anos 70. Obteve o grau de doutor em letras, em 1973. Lecionou literatura brasileira na Faculdade de Letras de Marília. Ao morrer, estava concluindo o romance A cabeça levada em triunfo. Em sua obra, utiliza-se do jogo, de artifícios gráficos e representações geométricas como elementos estruturadores das narrativas.


Principais Obras:
Lisbela e o prisioneiro (teatro), 1964, reed.1994, Scipione, São Paulo;
Nove, novena (narrativa), 1996, reed. 1994, Companhia das Letras, São Paulo;

Avalovara (romance), 1973, reed. 1995, Companhia das Letras, São Paulo;
Guerra sem testemunhas (ensaio), 1969, reed. 1974, Ática, São Paulo;
Santa, automóvel e soldado (teatro), 1975, Duas Cidades, São Paulo;
Lima Barreto e o ensaio romanesco (ensaio) 1976, Ática, São Paulo;
A rainha dos cárceres da Grécia (romance), 1976, melhoramentos,São Paulo;

Casos especiais de Osman Lins (teleteatro), 1978, Summus, São Paulo;
Evangelho na taba (ensaio), 1979, Summus, São Paulo;
Retábulo de Santa Joana Carolina (teatro), 1991, Giordano, São Paulo.
 
Avalovara: longamente congeminado, meticulosamente composto, resultava à risca, como um alquimista em seu laboratório secreto. Aqui, o requinte formal, e com ele a matéria romanesca, aprimora-se, supera-se. Partindo de um velho palíndromo - SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, que o narrador traduz por “O lavrador sustém cuidadosamente a charrua nos sulcos” ou “O Lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita”, assim insinuando dois dos sentidos simbólicos da figura, - Osman escreve um estranho e belo romance de amor, dos mais belos quantos já apareceram na Língua Portuguesa. Três mulheres, identificadas com cidades, cruzam a vida de Abel, o herói (ou o anti-herói?). Um exótico pássaro feito de pássaros - o que dá título à narrativa -, um relógio, um tapete de míticas imagens presenciam os encontros amorosos, inscritos no quadrado palindrômico atravessado por uma espiral interminável, símbolos do Homem e da Mulher. Ou do Tempo e do Espaço, inseridos numa figura geométrica hieroglífica, de esotérica significação. Sob as vistas do nouveau roman, mas fugindo de suas mortais fragilidades, provenientes do radicalismo de sua proposta fundamental, e repudiando o estereótipo folclórico que marcava a ficção brasileira, Osman concebe um romance ecumênico, universal; as cidades onde contracenam os amantes e por meio das quais as heroínas se deixam reconhecer, podem ser quaisquer, assim como as personagens que representam. O lugar e cronologia do enredo desobedecem à convenção: tudo se passa numa esfera e num tempo míticos, da mesma forma que pertencem ao mundo dos mitos o pássaro imaginário que nomeia a história, o relógio a pingar horas vagas, o tapete e tudo o mais. História de um mito, se a redundância é permitida; ou o romance como narração de um mito. Ou o Amor como Mito.

Avalovara pretende reproduzir, na estrutura em palíndromo, configurado num quadrado e numa espiral, a ordem cósmica. É sabido que esta se rege pela entropia, de onde o (aparente) caráter multifacetado, anárquico, do romance, tendo em vista detectar as n dimensões temporais e espaciais. É um romance ucrônico, ubíquo, de utópicas cintilações. De geométrica ideação, traçado milímetro a milímetro, ancora-se na ideia do romance como construção mental, domesticada que é a fogosa fantasia pela rédeas do pensamento. Meta-romance, não sói porque o narrador porfia em desvendar-nos (?) o sentido do palíndromo e os passos de sua laboriosa fabulação, mas ainda por pensar o romance como arcabouço no qual a multifome realidade se reflete e por meio da qual o autor e o leitor fruem a sensação de abranger a totalidade do mundo num só painel fabultivo.
(adapt. De Massaud Moisés, Hist. Da Lit. Brás.: O Modernismo, ed. Cultrix, 1989, p.510-511)

 
O que desde logo prende em Avalovara é a poderosa coexistência das deliberação e da fantasia, do calculado e do imprevisto, tanto no plano quanto na execução de cada parte, Falando do relógio de Julius Heckertorn (uma das linhas da narrativa), o Autor diz que obedecia a “um esquema rigoroso”. E “sobre este rigor assenta a ideia de uma ordem do mundo”. Mas “como introduzir, então, na obra, o princípio de imprevisto e aleatório, inerente à vida?” A execução do livro é a resposta, fascinante para o leitor, à medida que este vai experimentando a precisão geométrica do arcabouço, a minúcia da descrição e a poesia livre que rompe a cada instante.
SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS é uma frase inventada por um escravo frígio de Pompéia, feita de cinco palavras, cada um com cinco letras, que se pode ler igualmente nos dois sentidos, e em cuja composição entram apenas oito letras, que, distribuídas pelos quadrados menores, constituem as linhas narrativas. Nos vinte e cinco quadrados formam o quadrado grande, onde se contém a espiral, as palavras se sobrepõem horizontalmente, mas também se estendem em colunas verticais, pois a frase pod ser lida indiferentemente da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima, em diversos rumos.
Assim, na narrativa, o amor é visto do homem para a mulher, da mulher para o homem, do presente para o passado, do passado para o presente, daqui para ali, numa reversibilidade vertiginosa que traz à baila a evocação da herma de Jano e chega a uma mulher que é também homem, para um homem que pode veria eventualmente ser também mulher.

As reversibilidades prosseguem ainda noutro plano, quando o Narrador se transforma periodicamente em Autor e a narrativa quebra a imagem do real, para apresentá-lo como fantasia composta. Nesta romance, uma das linhas é precisamente a da consciência crítica entrando a cada instante pela série ficcional, denunciando o seu caráter fictício de empresa deliberada, igualmente reversível entre a representação do real e o caráter ilusionista da representação. Daí um livro que não tem medo de se apresentar como livro, como maquinismo montado, como não-realidade - mas do qual jorram o fascínio de uma vida que palpita, o traçado do mundo exterior e a surda potência das emoções.
(Adapt. De “A Espiral e o Quadrado” apresentação de Avalovara, Cia. Da Letras, 1995)

 
Significado das Letras do Palíndromo:
R: [ ] e Abel: encontros, percursos e revelações

S: A espiral e o quadrado

O: História de [ ], nascida e nascida.

A: Anneliese Roos e as cidades

T: Cecília entre os leões.

P: o relógio de Julius Heckertorn.

E: [ ] e Abel: ante o Paraíso

N: [ ] e Abel: o Paraíso.

 
Trecho do estudo: A Caçada ao Tempo Perdido - Por Martim Vasques da Cunha

 
Mas, afinal de contas, do que se trata "Avalovara"? Fazer uma sinopse normal é quase impossível: Seria a história de Abel, aprendiz de escritor, que busca uma Cidade misteriosa que, na verdade, não existe em lugar nenhum? Seria a história de Abel com Cecília nos tempos de um Recife que existe somente na memória? Ou a história de Abel com Anielise Roos, uma mulher européia que contém cidades em seu corpo? Ou a história de Abel com uma mulher misteriosa, que não possui nome e é designada por um símbolo alquímico - o de um círculo com um ponto no centro e duas hastes apontando para cima - e que contém dois seres dentro de seu corpo composto de palavras encarnadas? Mas também pode ser a história da criação do maior palíndromo já inventado, a frase SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS, que coordena os movimentos dos personagens de "Avalovara" numa simetria implacável, dentro dos limites de um quadrado (que representa o mundo) e que gira conforme o ritmo de uma espiral (que representa o Tempo). Também pode ser a história de Julius Heckethorn, que deseja construir um relógio que possa refletir a ordem e, simultaneamente, a desordem da existência; também pode ser a história de como a Inominável (a mulher misteriosa de Abel, como passaremos a chamá-la neste ensaio) nasceu e morreu duas vezes, recebendo em suas mãos um pássaro composto de pássaros, o Avalovara do título; e é também provável que seja a história do próprio Osman Lins tentando fazer uma nova literatura num país em que qualquer espécie de novidade seria oprimida sem misericórdia.
Sim, "Avalovara" é tudo isso e, por isso mesmo, improvável de ser resumido. É um romance cosmológico que se baseia em regras únicas. Como já dissemos, ele é estruturado a partir de um palíndromo: SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS. Existem dois sentidos para esta frase: "O lavrador mantém cuidadosamente a charrua nos sulcos" ou "O Lavrador sustém cuidadosamente o mundo em sua órbita". Ambos fazem alusões ao modo de como o Criador organiza o mundo em que vivemos; na verdade, é uma sentença sobre a certeza de uma ordem que, talvez, poucos percebem. O palíndromo SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS pode ser ler de frente para trás e de trás para frente que terá o mesmo sentido e a mesma ordem. A simetria é exata. Distribuído num quadrado com vinte e cinco pequenos quadrados emoldurando cada letra da frase, Osman Lins - inspirado num manuscrito sobre o palíndromo, que teria sido encontrado pelo personagem Abel na Biblioteca Verona em Veneza - sobrepõe uma espiral, que nasce fora do quadrado e dirige-se para o centro da figura, mais exatamente na letra N da palavra TENET.

Este plano parece mostrar os fundamentos de "Avalovara", mas é apenas o início. O quadrado é o mundo - e o romance se deslocará de Ubatuba para São Paulo, do Recife para Paris, de Paris para Amsterdam; mas a espiral é o tempo, seja exterior como interior, e assim iremos da Roma Antiga para a Europa da Segunda Guerra Mundial, do Recife dos anos 50 para a São Paulo da década de 60. Ainda assim, Osman Lins mantém um rigor absoluto sobre o modo de contar cada história: no começo de cada uma, dez linhas para dar as primeiras diretrizes; depois, aumenta-se para vinte, trinta, quarenta linhas, conforme o tempo se dilata, mas também se aproxima do centro do quadrado, que é a letra N.
Entretanto, temos de tomar cuidado na nossa análise. Se ficarmos só na relação entre o quadrado e a espiral com o palíndromo, cairemos no erro do estruturalismo. Osman Lins já nos mostrou as bases de seu romance; agora é hora de olharmos o que ele fala a todos nós, como seres humanos. E o que temos é uma bela história de amor, mesmo que ela tenha seus momentos estranhos, mas que possuem um significado próprio dentro da linguagem simbólica do romance. "Avalovara" começa com dois amantes dentro de um quarto, amando-se na penumbra de um final de tarde em São Paulo: são Abel e a Inominável. Será neste quarto que toda a história de um mundo colidirá com a trajetória de cada um destes personagens, sempre em busca de uma eternidade que foge a cada instante no efêmero que nos persegue. Abel e a Inominável se encontraram num dia de eclipse do sol e se tornaram amantes logo depois; ela é casada com Olavo Hayano, homem misterioso que possui duas faces, como o deus Jano. A Inominável é também um ser dúplice; nasceu e morreu duas vezes: a primeira ao cair de um elevador (teria sido uma tentativa de suicídio?) e a segunda ao dar um tiro no peito logo depois da primeira noite de núpcias com Olavo Hayano. A Inominável é composta de palavras e tudo o que toca se transforma em ser vivo; no quarto onde faz amor com Abel, o tapete onde se deitam saltam leões, serpentes, melodias de "Carmina Burana", de Carl Orff, enchem a sala - tudo é de um excesso planejado, como se o destino da humanidade dependesse dos beijos e dos abraços daquele casal (é interessante notar que Osman Lins parafraseia trechos inteiros do "Cântico dos Cânticos" nos momentos de orgasmo, relacionando os aspectos divino e profano do ato sexual).

Mas, na verdade, a história entre a Inominável e Abel começa muito antes. Sem dúvida, o personagem principal de "Avalovara" é Abel. A escolha do nome é singular e podemos advinhar o seu destino: ele será sacrificado. As constantes visões de um cordeiro que o persegue em sua temporada européia e que aparece, anos depois, na mesma sala onde está com a Inominável, confirmam esta triste sina. Quem será o seu carrasco? E por quê o sacríficio? Tudo tem seu início no Recife, quando Abel, olhando para a água numa cisterna perto de sua casa, vê a imagem de uma Cidade. A epifania o marca profundamente e, durante os anos seguintes, ele procurará o lugar desta Cidade, assumindo sua condição de peregrino, seja na sua terra natal em Recife, na Europa ou em São Paulo. Três mulheres serão os símbolos máximos de cada etapa da busca: Cecília, Anielise Roos e a Inominável. A primeira, apesar das observações de Regina Dalcastagnè em seu ensaio "A Garganta das Coisas", de colocá-la depois do episódio de Abel com Roos durante a temporada européia, se passa, a meu ver, como a fase de inocência e passagem que Abel terá de enfrentar no Recife. Cecília é vislumbrada com seis anos de antecedência, no mesmo instante em que Abel vê a imagem da Cidade na cisterna; os dois se conhecem na casa das gêmeas Hermelinda e Hermenilda, mulheres solitárias que esperam somente a morte para se libertarem da vida. É uma época de transformações para Abel: sua mãe, a Gorda, prostituta aposentada, está entrevada; seu pai se suicida; seus irmãos e suas irmãs se espalham pelo mundo; e, finalmente, ele descobre a sua vocação como escritor ao terminar seu primeiro conto. O relacionamento com Cecília tem lances de mistério e de perigo: os irmãos não gostam de Abel porque ele seria um homem casado (sua esposa se suicida com um tiro no ouvido). Uma noite, os irmãos batem em Abel e em Cecília; ao se limparem do sangue e da sujeira numa praia, Abel descobre que Cecília é uma hermafrodita.

Um dos motivos que me leva a discordar da afirmação de Dalcastagnè que Cecília seria a segunda mulher na vida de Abel, depois de Anielise Roos, são dois detalhes do romance: o primeiro é que Osman Lins mistura os tempos dos acontecimentos para criar uma simultaneidade e assim dando a impressão que não vemos apenas um único Abel, mas três Abéis diferentes ainda que sejam o mesmo; o segundo é o fato de Cecília ser uma hermafrodita - ou seja, os aspectos feminino e masculino da personalidade de Abel ainda estão fundidos, já que a sua consciência ainda não os discriminou. É necessário que Abel passe pela experiência dilacerante da perda e da morte de sua parte feminina, como o que acontece com Cecília quando ela cai de um cabriolé numa praia e quebra o pescoço, para ele procurar a integração de sua alma na Europa, na companhia de Roos.

Anielise Roos é a mulher que será a concretização carnal da Cidade que Abel busca - mas ele não a encontrará nela. Roos se esquiva o tempo todo, viaja para inúmeras cidades européias e Abel, amparado por uma bolsa de estudos, a segue até que possa consumir o seu amor. Juntos vão à catedral de Chartres, onde Abel se depara com a visão do cordeiro que também estará com ele no quarto da Inominável em São Paulo. Ali, Abel conhece um cosmo em miniatura que mostra uma ordem divina relacionada com a ordem humana. Roos afirma que tem de ir embora porque é obrigada a cuidar do amante moribundo; Abel aceita a perda e vê ela ir embora, sufocado por uma dolorosa solidão.
Na sua volta ao Brasil, ao presenciar um dia de eclipse solar, Abel conhece a Inominável, esposa de Olavo Hayano. Rapidamente tornam-se amantes. A Inominável é a carne no Verbo; sua vida é repleta de fatos enigmáticos: seu nascimento e renascimento, seu pai composto por próteses, seu avô jurista que desconhece as verdadeiras leis e, em especial, seu relacionamento com Inácio Gabriel, moço puro e fraco que, ao ser diagnosticado com tuberculose, espera calmamente a morte, sem antes dar de presente à amada, um pássaro feito de vários pássaros que se chama "Avalovara". O nome deste estranho pássaro (que se parece com uma iluminura medieval) é uma síncope de "Avalokitesvara", divindade budista da compaixão infinita que, ao alcançar a consciência suprema, optou por não entrar no nirvana, permanecendo no umbral para poder socorrer os aflitos. O presente de Inácio Gabriel - que fica encravado na alma da Inominável - se petrifica quando Olavo Hayano deflora sua esposa e só recupera a sua beleza ao encontrar-se com Abel.

A Inominável é uma fantástica criação de Osman Lins para mostrar a totalidade da personalidade. É a anima em seu estado puro, pois é quem guiará Abel na escuridão do mundo para que ele possa, finalmente, encontrar a Cidade que tanto procura. Abel percebe, durante os sucessivos atos de amor que acontecem no apartamento em São Paulo, que tanto Cecília como Roos eram antecipações da Inominável, que tudo convergia para aquele momento em que os amantes celebram um amor adúltero, mas também puro e capaz de transcender as prisões do Tempo. Contudo, a própria Inominável é a prova de que o Tempo pode ser alterado. Sua natureza é dúplice: seu rosto, olhos e boca mostram uma outra mulher por trás do seu atual corpo. Como seu marido Olavo Hayano, sua alma bipartida assusta seus amantes. Só Abel compreende aquilo. Assim, os dois se amam como se fosse a última noite de suas vidas, prestes a entrar na Cidade que Abel tanto deseja, Cidade que se revela como sendo o Paraíso e que só será alcançado com a morte.

"Avalovara" é uma profunda meditação de como a arte pode ser um meio de impedir a chegada da morte em nossas vidas. A verdadeira opressão do mundo não é apenas no seu aspecto político; é também a morte de cada espírito que se afoga na tensão entre o efêmero e o eterno. Talvez a arte seja o único meio que pode salvar o ser humano desta tensão - mas ela também pode levá-lo a uma ordem petrificada, se não aceitar a desordem inerente à nossa condição. Aqui entra uma das histórias do livro, a de Julius Heckethorn e seu relógio que reflete a ordem do cosmo. Relojoeiro alemão, vivendo às vésperas do Nazismo, Julius é um amante de Mozart e Scriabin que pretende que sua obra máxima seja a reprodução exata da tensão que há no mundo, como nas nossas almas. Seu relógio é engenhoso: cada hora emite o som de um trecho de uma sonata de Scriabin, mas não de forma linear. A distribuição é aleatória e os sons nunca reproduzem o trecho da sonata na sua totalidade porque Heckethorn fez questão de esconder o décimo-terceiro fragmento - que surgirá no dia em as conjunções astrológicas indicarem o aparecimento de um eclipse solar. A obra de Heckethorn será a única prova da genialidade de seu criador: ele será assassinado na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas por causa de sua ascendência inglesa, seus papéis serão queimados e seu relógio será vendido ao embaixador brasileiro na Suíça que, anos depois, venderá para um empresário de São Paulo, que transferirá ao seu filho - justamente Olavo Hayano, que deixará o relógio no seu quarto, o mesmo quarto onde Abel e a Inominável estão juntos e que, surpreendentemente, escutam a sonata de Scriabin por inteiro no exato momento que a Cidade aparece a ambos e que Olavo Hayano aparece com um revólver, pronto para matá-los.

A estrutura de "Avalovara" abarca todo este mundo de tensões, mas nada se compara à tensão da linguagem que Osman Lins provocou para seguir os movimentos do espírito de cada um dos personagens. E é aqui que chegamos ao xis da questão. Em "Avalovara" a linguagem não é um mero instrumento de descrição; ela é o Verbo que transforma a realidade. Contudo, ela não transforma para criar um mundo de fantasia; Osman Lins capta com exatidão o poder transfigurador da palavra. "Avalovara" não é um romance sobre a realidade tal como é; é um romance sobre uma realidade em permanente declínio e que precisa, antes de tudo, de um novo Começo. Entramos aqui numa área perigosa, que é o da especulação gnóstica. Quando o artista cria todo um espelho de cosmogonia para ser uma substituição de um cosmo que, a seu ver, está em permanente desordem ou que abandonou a verdadeira ordem, e se utiliza do dom do Verbo para modificá-la não somente em seu aspecto exterior, mas principalmente em seu aspecto interior, imaginando como poderia ser a existência se pudéssemos recomeçar - então não estamos mais no terreno da mera literatura e sim de algo que está em jogo há muito tempo: a integridade do ser.
 


(Apostila 37 de Lit. brasileira Contemporânea)



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**Ignácio de Loyola Brandão um escritor urbano

Ana Lúcia Vasconcelos


Conheci o Loyola nas redações da Editora Abril em São Paulo - ele trabalhou na Claudia, Realidade, Setenta e depois nos revíamos em outras editoras - foi editor da revista Planeta, e na Editora Três das sofisticadas Vogue, Homem Vogue e Lui. Mas a gente se encontrava muito no Shopping da Avenida Paulista chamado Center Três que fica defronte do Conjunto Nacional onde está a famosa Livraria Cultura, e na própria livraria, que é um dos points prediletos de jornalistas, escritores, intelectuais em geral, e diversas vezes, nos metrôs. Ele pelo que me consta, não dirigia - sempre preferiu andar a pé, de ônibus, táxi ou metrô para curtir a cidade. Fiz esta entrevista em 1987 quando ele escrevia livros e colaborava com crônicas para um jornal que só circula na cidade de São Paulo e que é ótimo: Shopping News.


ALV


Paulista de Araraquara, onde já atuava como critico de cinema desde os 16 anos, Loyola foi para São Paulo, cidade por quem era apaixonado-pelo menos era (até a data desta entrevista ) em 1957 onde começou trabalhando no jornal Ultima Hora como repórter. Seu primeiro livro foi Depois do Sol-contos, lançado em 1965, o segundo foi Bebel que a Cidade Comeu, que saiu em 1968. Em 1974, foi lançado na Itália o romance Zero, sua obra mais conhecida. O livro saiu no Brasil em 1975, mas foi proibido em 1976 pelo Ministério da Justiça do governo Geisel. Em 1977 publica Dentes ao Sol (romance), Cadeiras Proibidas (contos) e o infanto juvenil Cães Danados. Em julho de 1976 Zero recebe o prêmio de Melhor Ficção, concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal. Em novembro o livro é censurado pelo Ministério da Justiça e sua venda é proibida.

Em 1978 viaja a Cuba e escreve o livro-reportagem Cuba de Fidel - viagem à ilha proibida, após participar, em 1978, do júri do Prêmio Casa de Las Américas. Em 1979 Zero é liberado no Brasil e neste mesmo ano Loyola deixa o jornalismo para se dedicar exclusivamente à literatura. Em 1980 ele viaja por várias cidades dos Estados Unidos fazendo conferencias em universidades de Nova York, Flórida, Georgetown, Albuquerque, Tucson, San Diego a convite da Fundação Fullbright, dos EUA.

Na seqüência continua viajando e escrevendo: em 1981 sai Não verás país algum, uma visão surreal da realidade brasileira e considerado por um critico do New York Times como uma das quatro distopias mais importantes da literatura mundial juntamente com Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell, e Nós do russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin. É Gol sai em 1982 e em março deste ano, viaja, a convite da Fundação Alemã de Intercâmbio Cultural para Berlim, onde fica por dezesseis meses. Lá, publica Oh-ja-ja-já, uma seleta de seu diário berlinense, ainda inédito em português.

Em 1983 Voltando ao Brasil, publica Cabeças de segunda-feira (contos). Em 1984, lança O verde violentou o muro, onde narra sua experiência alemã. O senador italiano Amintore Fanfani lhe entrega o Prêmio IILA, do Instituto Ítalo-Latino-Americano, pelo romance Não verás país nenhum, publicado na Itália no ano anterior. Assume a vice-presidência da União Brasileira de Escritores, onde permanecerá até 1986.

Em 1986, volta a Berlim, como convidado especial, para participar dos festejos dos 750 anos da cidade. Participa de Encontro sobre Literatura Brasileira promovido pela Universidade de Colônia, na Alemanha, ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Haroldo de Campos. Escreve em 1987 O ganhador (romance) e O homem do furo na boca (contos) que obtém o Premio Pedro Nava da Academia Brasileira de Letras e de Melhor Romance da APCA. Participa das Jornadas Literárias na cidade de Passo Fundo (RS), em 1985. Desde então, lá comparece a cada dois anos para participar do evento. Lança o romance O beijo não vem da boca.
Em 1987 Não verás país nenhum é encenado no Teatro José de Alencar, em Fortaleza, sob a direção de Júlio Maciel. Em 1988 publica A Rua de Nomes no ar - Manifesto Verde que havia sido publicado em 1985, como brinde da editora Circulo do Livro e lança o livro infanto juvenil O homem que espalhou o deserto. Em 1990 voltou ao jornalismo assumindo a direção da revista Vogue e passa a escrever crônicas para o jornal Folha da Tarde. Zero, um espetáculo de dança realizado pelo Balé da Cidade, inspirado em seu romance homônimo, é apresentado no Teatro Municipal de São Paulo no ano de 1992. Vai à Zurique, na Suíça, onde participa de leituras de sua obra.

Em 1993, começa a escrever crônicas no Caderno Cidades de O Estado de São Paulo que, a partir de 2000, seria transferida para o Caderno 2, onde está até hoje.

No ano de 1995 realiza três lançamentos: O anjo do adeus (romance), Strip-tease de Gilda (crônicas) e O menino que não teve medo do medo (infanto-juvenil). Em 15 de abril inaugura, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, a série O escritor por ele mesmo. Em 1996, viu a morte de perto, segundo conta, quando foi surpreendido por um aneurisma cerebral e teve que passar por uma cirurgia que durou onze longas horas. Mas como tudo é tema para jornalistas e escritores o evento virou um livro: A Veia Bailarina publicada em 1997.

Em 2000, recebeu o prêmio Jabuti por O homem que odiava a Segunda-feira. Atualmente publica crônicas no Caderno 2 de O Estado de São Paulo e faz parte do Conselho Editorial da Revista Vogue sendo que sua obra soma vinte e três livros: sete romances, seis livros de contos, dois relatos autobiográficos, dois infanto juvenis, dois livros de viagem e três de crônicas, três biografias.Algumas dessas obras estão traduzidas para o alemão, húngaro, coreano, espanhol, inglês, italiano além de terem sido adaptadas para o cinema e teatro.

Nesta entrevista ele fala da sua trajetória entre o jornalismo e a literatura, seu processo criativo, como constrói seus livros a partir sempre de uma imagem que trai sua antiga paixão: o cinema.

ALV- Você veio de Araraquara para São Paulo com vinte anos? Porque São Paulo?

Ignácio de Loyola Brandão - Porque São Paulo era o grande sonho da gente. São Paulo era onde estavam os jornais, as editoras, era onde estava principalmente o cinema.

ALV -De que você gostava...

Loyola - Adoro cinema. Na verdade meu primeiro sonho era ser diretor de cinema e também fazer roteiros.

ALV-Em Araraquara já tinha feito alguma coisa?

Loyola - Lá o grupo do qual eu participava tinha feito teatro, tinha um teatro de Arena muito bom.

ALV - Você era ator ou diretor?

Loyola - Não nunca fui ator, eu trabalhava na assistência de direção, na assessoria de imprensa, na produção, na mecânica por trás.

ALV - Nos bastidores...

Loyola-Nos bastidores... E este grupo de teatro se uniu a uma turma de Foto Cine Clube que tinha duas câmaras de 16 mm e fizemos um filme quer era uma mistura de ficção e documentário: A Aurora de Uma cidade sobre a fundação de Araraquara.

ALV- Mas já escrevia na época?

Loyola-Eu escrevia para jornal. Vim para São Paulo e comecei a trabalhar na Ultima Hora onde fiquei de 1957 a 1965. Depois fui para a Editora Abril onde fiz Claudia, Realidade, Setenta. Depois fui para a Editora Três onde fiz Vogue e Homem Vogue.

ALV - Você fez a adaptação brasileira da Planète não é?
Loyola - É eu fiz a Planeta.


ALV- Quando deixou o jornalismo e partiu para a literatura?
Loyola - Na Editora Três fazendo Lui. Acontece que os franceses não gostaram da edição que a gente fez. Enquanto seguíamos a fórmula francesa a revista foi um fracasso. Ela começou a melhorar quando fizemos uma fórmula nossa, brasileira, mas antes eles romperam o contrato alegando não ser esse o espirito da Lui. E a Editora Três não sabia o que fazer comigo e me demitiu. Foi uma coisa muito engraçada-a primeira e única demissão da minha vida.

ALV- Qual foi a sensação?

Loyola - Muita insegurança, mas ai eu pensei-é agora a chance de eu tentar a carreira de escritor e ver o que dá, ou ser funcionário de editora até o fim da vida.

ALV - A esta altura você já tinha publicado vários livros?
Loyola - Meu primeiro livro foi Dentes ao Sol, contos em 1965. Deste livro saíram dois filmes o Anuska, Manequim e Mulher de Francisco Ramalho baseado num conto do livro e o outro foi um episódio que está dentro do filme Memórias do medo baseado no conto que se chama Um Retrato de um Jovem Brigador. O segundo livro foi Bebel que a Cidade Comeu. Enquanto eu fazia o livro o Maurice Capovilla leu o original e fez um primeiro roteiro. Quando o livro saiu, eu e o Mário Chamie trabalhamos neste roteiro e o filme saiu quase junto com a primeira edição que foi dentro de uma antologia organizada pela Bloch Editora e atualmente (em 1987) está na 15º. Edição e depois É Gol que é um livro objeto, um grande conto ilustrado. Ai veio Cabeças de Segunda Feira em 1983, O Verde que Violentou o Muro em 1984 que está na 13º. edição e O Beijo não Vem da Boca em 1985. E em agosto de 1987 O Perdedor.

ALV - Mas você já sonhava ficar só na literatura?
Loyola - Sim eu já sonhava com isso, acontece que não tinha esquema, não vendia o suficiente. Mas ai de repente em 1979 o Cuba estava vendendo muito bem. Então eu me agarrei nisso. Fora isso eu fazia free lances e descobri que podia ganhar por palestra que eu e o Antonio Torres e João Antonio fazíamos desde 1975. A gente descobriu uma coisa interessante nas cidades onde íamos falar, os livros aumentavam as vendas ou passavam a vender. A gente fazia isso profissionalmente, íamos a editoras conferir mesmo. Vimos então que este era um caminho para formar um publico e começamos a receber cartas de professores, um recomendava o outro e a coisa ia crescendo.

ALV- Um rastilho...

Loyola- Um rastilho mesmo, a ponto de a gente ter que recusar porque àquela altura tínhamos emprego e só podíamos fazer palestras aos sábados e domingos. Quando me libertei do emprego passei a fazer palestras quase que diariamente dependendo dos convites e ai não importava se era quarta ou segunda-feira.

ALV- Ficou livre...

Loyola- A primeira conquista que eu fiz foi a completa indiferença sobre o dia da semana. As pessoas diziam: ah terça é feriado, vamos fazer ponte. Faço ponte o ano inteiro. Esta foi a grande conquista. As pessoas perguntavam se eu estava ganhando dinheiro. Estava para sobreviver, mas a liberdade, a disponibilidade de andar nas ruas, ir ao cinema, ou ficar em casa escrevendo, isso era maravilhoso.

ALV - Além do Shopping News você escreve crônicas para outros jornais?
Loyola - Fico só no Shopping News, mas eventualmente faço coisas para determinadas fascículos, certos house organs.

ALV - O Shopping News e o City News e o Jornal da Semana, enfim este um conglomerado, enfim vende 500 mil exemplares que significa que você é lido por milhões de pessoas em São Paulo.Como é isso?Você sente a repercussão?

Loyola - Sim é um publico muito engraçado: o porteiro le, o zelador, a empregada, o advogado, o engenheiro, o dono da casa, domingo o jornal à mão. É um publico super eclético.

ALV - Bom, a gente sempre se encontra na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, em plena Avenida Paulista. Primeiro você vive na Cultura? E depois, deve gostar muito da Paulista, não?

Loyola - Vivo la, a Cultura é meu quartel general, as pessoas deixam bilhetes, recados. Eu gosto da Paulista, eu vejo a Paulista daqui (mostra a paisagem la fora.De onde estamos sentados fazendo a entrevista, defronte da janela do seu apartamento, vê-se lá embaixo a avenida Paulista). Eu moro a uma quadra da Paulista. Eu fico vendo a fonte do Banespa em dias de calor, fico vendo a água jorrando.

ALV - Voce gosta de São Paulo? Por que afinal você é um típico escritor da cidade, urbano, fala sobre o homem massacrado, massificado, um numero perdido na multidão. Apesar de tudo diria que a cidade tem seus encantos?

Loyola - Eu gosto de São Paulo. Estou um pouco espantado com o mal que fizeram à cidade. A cidade não em culpa. Ela agora está respondendo na mesma medida, ou seja, está agredindo o homem. Cortaram as árvores, cortaram tudo e agora ela está respondendo.

ALV - Pois é, virou a famosa selva de pedra. Olha a paisagem que você tem daqui - só prédios.

Loyola - Por sorte se a gente for ver la do terraço, do outro lado, a paisagem já é diferente, porque eu vejo o Parque Trianon. Mas veja é muito pouco verde para a quantidade de prédios que há na região. Mas de qualquer forma eu tenho uma grande paixão por esta cidade. Você vê, eu vim para cá São Paulo era um mito. Quando adolescente em Araraquara e era fascinado por cinema: aqui estava a Vera Cruz, que foram os anos 51,52, 53,54 anos importantes para minha cabeça. Então eu queria fazer cinema na Vera Cruz. E as outras razões: porque a gente tinha que vir estudar porque no interior não havia faculdades

ALV- E você fez o que?Quero dizer escola?

Loyola- Não fiz nada, fui direto para o jornalismo. Eu já fazia critica de cinema, reportagem. Quando cheguei aqui, dez dias depois estava trabalhando na Ultima Hora. Pensei que seria por pouco tempo, mas de repente vi que o jornal era uma maravilha. E através do jornal comecei a descobrir a cidade porque eu tinha que andar muito, a Ultima Hora na época era um jornal incrível.Eu ia para tudo que é bairro, ninguém queria ir fazer determinada matéria, eu queria e andando eu conhecia a cidade.E fui me apaixonando, peguei esta paixão que te leva a gostar da cidade independente dos defeitos dela. E na reportagem eu fiz muito isso, andando de ônibus, a pé, porque é assim que você conhece uma cidade. Aí foi nascendo um relacionamento com a cidade e eu me interessei muito pelas pessoas que vinham como eu e não tinham estrutura e que acabavam destruídas.

ALV- Vencidos pela cidade...

Loyola- Vencidos pela cidade... Bebel que a cidade comeu. No fundo este livro representa todos. A cidade é personagem. Eu sou super urbano, super paulista.

ALV- Voltando ao nosso encontro na Cultura, andando ali pelo Conjunto Nacional você foi assediado por três senhores que falavam de uma crônica sua. Isso é comum, quer dizer você ser reconhecido na rua?

Loyola- As pessoas me reconheciam na rua através de um desenho que saia no Shopping News onde só tinha uns traços. Isso acontece muito. E as velhinhas param... Umas bonequinhas. Mas isso é uma coisa que acontece agora com o Shopping porque já escrevi em outros jornais-Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Caderno Dois do Estadão e isso não acontecia.

ALV- Por que era outro publico?

Loyola- Outro publico e por preconceito. E também porque acho que sou um cronista muito engraçado-lógico que isso vai desaparecer-mas eu falo do cotidiano, falo da prateleira do super mercado... Eu não sou cronista do tipo do Sabino, não conto estórias, lógico às vezes eu conto estórias.

ALV- Você usa na sua literatura uma linguagem cinematográfica: foca num ponto, depois abre e faz um zoom, depois um travelling. Fala das minúcias e do geral.

Loyola- Você definiu bem. As colunas do shopping inclusive foram a base para o Verde que violentou o Muro.

ALV- Então me conta um pouco sobre o teu processo. Cada louco com sua mania, qual é a tua? A Clarice Lispector escrevia em pequenos papéis e depois juntava tudo, a Lygia Fagundes Telles anda quilômetros pensando e toma notas no caderninho. E você?
Loyola- Eu escrevo nos caderninhos, cadernões. Eu leio um jornal, recorto colo, falo desenhos, esboços, rabiscos. Anoto o tempo inteiro coisas que eu ouço, que me impressionam, olhando a janela, isso tudo vai para o caderninho, até que uma imagem qualquer- e isso é uma constante-me impressiona mais. Depois veja, eu passei anos indo ao cinema desde a infância, então tudo é imagem para mim.

ALV-A linguagem está incorporada em você, a linguagem do cinema?
Loyola- Esta incorporada a imagem... Então de repente é o olhar de uma pessoa que eu conheço no qual começo a pensar em cima, tento construir um personagem com aquele olhar e ai a viagem começa. O Zero nasceu de um olhar. Bebel nasceu de um suicídio - uma mulher que se atirou de um prédio, eu não vi, mas ficava imaginando.

ALV- Ela caindo...

Loyola- Ela caindo, batida de sol. Dentes ao Sol é um livro que nasceu de uma pessoa que se escondia atrás de uma arvore e eu ficava olhando aquele movimento de cabeça e comecei a trabalhar em cima. Isso se passava em Araraquara, porque Dentes ao Sol se passa em Araraquara e é meu favorito.

ALV- Você já falou isso. Por quê?

Loyola- Não sei por quê. Talvez porque é a estória-base real- de um amigo meu que era o mais talentoso da turma e que se acabou se entregou, não teve coragem, não tentou fazer as coisas, não tentou fazer o sonho. Esta coisa das pessoas não tentarem realizar o sonho me impressiona muito. Não Verás País Nenhum nasceu de uma imagem de um ipê que enchia o chão de flor e este ipê foi morto justamente por que, entre aspas, sujava o chão. Uma mulher assassinou, jogou veneno, etc. Ai eu fiquei pensando na falta de consciência das pessoas em relação à natureza, à beleza e ai comecei a pensar que não eram só as pessoas, mas a sociedade, o governo.E começou a aparecer na minha cabeça a hipótese: e se não apenas aquela mas se todas as arvores daquela rua forem mortas, se as arvores daquela cidade,ou daquele pais.Então é sempre uma imagem e ai começo a ter o livro. A partir desta imagem eu trabalho vou a todas as anotações em laudas e vou consultando e retirando coisas que podem ser encaixadas. E evidente que na medida em que vou tendo a idéia, que eu chamo de situação e vou desenvolvendo esta situação, de que maneira ela vai entrar no livro, desde o elevador, frases soltas, a rua, tudo...

ALV- Ai você já está no clima, tomado pela idéia do livro...
Loyola- Ai já estou dentro do trem e o trem sai a toda a velocidade. Nem sempre a idéia inicial que a imagem me leva é a idéia final. Muitas vezes você desvia a termina noutro ponto. Isso é muito relativo.

ALV- E como surgiu a idéia de ir para a Alemanha?Você escolheu ou foi escolhido?

Loyola- Fui escolhido. O Zero foi publicado na Alemanha com grande sucesso de critica, não foi sucesso de vendas. A minha agente literária- ela é apaixonada por literatura latina americana, ela dirige as coleções latinas americanas na Zurkamp que é a principal editora alemã, ela fala português, me mandou uma carta dizendo se que queria passar seis meses em Berlim - nunca tinha passado pela minha cabeça ir para a Alemanha, mas também se me convidam de Cotia a Hong Kong eu estou sempre pronto (risos). Eu vou depois eu vejo.

ALV- Aliás, você escreveu seguindo até o conselho que o Cohn Bendit deu ao jornalista amigo dele do New York times que ia escrever sobre a Alemanha: que ele fizesse uma colagem, escrevendo só o que percebesse o que sabia de verdade. Você mesmo cita isso no livro. Você fez uma colagem?

Loyola - Não sei se é uma colagem. É um painel de onde tirei as coisas que achei mais importantes. Teve muita gente que criticou o Verde dizendo: ah não é um estudo das duas Alemanhas, está faltando o livro político. Mas não fui fazer isso, não sou cientista político. O que me interessa é o homem dentro do sistema e isso está lá. Agora hoje a Alemanha é um pais que eu gosto, que eu via com muito preconceito e que hoje não tenho. Muitos dos meus melhores amigos são alemães e quando eles são amigos são para valer.

ALV- Você fala uma coisa interessante no Verde que é justamente a identificação que de repente encontrou em Berlim e Araraquara- a luminosidade, alguma coisa que te remetia a um passado, ao teu pátio interno. Fale sobre isso.

Loyola- Não me peça para explicar isso. De repente uma luz que só tem em Araraquara e em Berlim tinha isso e eu perguntava por que em Berlim?Sabe mesmo um dos episódios que acionaram a feitura do Verde - são vários, mas foi especialmente a sandália vermelha que está lá relatado que é o seguinte. Uma tarde eu fui ao cinema em Berlim, à cinemateca-fim de tarde, tudo muito tranqüilo, muito quieto. Berlim é muito provinciana quando quer ser e estou olhando os cartazes e vem uma alemãzinha morena com uma sandália de tirar vermelhas. Ai pronto, eu fui lá longe e bateu numa época que eu tinha 16 anos, em 1952 e eu estava vendo uns cartazes, num fim de tarde em Araraquara e eu gostava de uma menina e ela chegou usando uma sandália de tiras vermelhas. E este episódio acionou toda a feitura do livro. Ai escrevi para esta moça que hoje é minha amiga e em cima de quem escrevi a personagem Ana que considero um dos bons personagens meus, que é uma mulher de 40 anos que resolve jogar tudo para cima e sair em busca do amor dela.Enfim eu tenho uma relação muito estranha com Berlim.

ALV- Você acredita no acaso?

Loyola- Não acho que haja qualquer coisa gratuita. Às vezes há acasos provocados. Mas acho que tudo neste planeta está meio amarrado. Pensando em minha carreira, mesmo em palestras quando me perguntam se eu sempre quis ser escritor - acho que não, cai por acaso. Eu fazia jornal, me divertia muito e esqueci aquela estória de ser diretor de cinema e no final foi o jornalismo que me deu a base para a escritura - toda aquela vivencia com a cidade, com o país, com as pessoas, fui tendo um conhecimento da realidade que não teria se fosse um bancário. Então às vezes penso porque me transformei num escritor.

ALV-Esse estilo rápido, sintético, com intertitulos dividindo os textos, as vezes curtos, as vezes mais longos, sem critério de espaço causa um efeito fulminante.A sensação é como se fosse uma bomba explodindo dentro de você e se espalhando em mil estilhaços. O teu texto é real e surreal ao mesmo tempo. Você diria que isso vem um pouco do jornalismo?

Loyola - Isso só ocorre no Verde e no Zero. E vem um pouco do meu aprendizado gráfico, do jornalismo, mas o Zero é uma reconstituição do caos que era o Brasil na década do horror e eu via mesmo o Brasil explodir. Agora o Verde, a minha intenção foi outra: é como se você pegasse um trem numa estação qualquer e passasse a atravessar o país e descesse onde bem entendesse. Já o Zero é mesmo estilhaços porque era o quadro que a gente tinha. Agora lógico que esta coisa sintética vem do jornalismo, porque a gente chegava da rua e o editor dizia: dez linhas. Você argumentava: dez? Mas eu tenho uma matéria incrível! E ele: é dez se quiser que saia... e ai você escrevia dez, aquele esforço de síntese.Claro que eu trabalhei isso literariamente.Agora é muito interessante que o Zero é um livro lido até hoje.Muita gente diz: é porque foi proibido esta coisa toda.Acho que não, porque dos livros proibidos o Zero é o único livro que ainda tem presença em livrarias e já se passaram oito anos.E é muito lido por jovens de 15, 16 anos.

ALV- Jovens que não viveram aquela época...

Loyola - E que não estão acostumados com aquele tipo de literatura. E os garotos me dizem: puxa este livro é incrível. Eu digo: mas o livro é difícil e tal. Um dia, um garoto em Porto Alegre me disse: não é difícil. O livro parece um videoclipe. Eu achei a melhor definição para o Zero.

ALV- Você introduziu o vídeo clipe na literatura brasileira?
Loyola-(rindo) Introduzi o vídeo clipe... Porque o vídeo clipe tem uma musica no fundo e uma série de imagens. Aqui no livro é uma idéia como pano de fundo e uma série de imagens.

ALV- Fale um pouco sobre o teu romance O Ganhador (à época o ultimo dele). Qual seria a novidade dele em relação aos outros. Você continua falando da vida urbana, da falta de perspectivas do homem, agora não mais nas grandes cidades, mas numa pequena cidade.

Loyola- Acho que ele tem alguma novidade na linguagem, é um pouco um livro de suspense, pretende mostrar um Brasil paralelo. Meus personagens estão sempre à margem, só que exatamente agora neste numa pequena cidade do interior. Então você vê aquele pequeno mundo, aquela mitologia interiorana, as loucuras, o misticismo, a maioria das personagens é inusitada, todos meio loucos. Tem uma mulher que vira chefe de igreja depois que vê cair cubos de gelo cheios de peixe dentro.

ALV-Voce mistura o real e o surreal. Interessante os críticos não apontarem isso, quer dizer, este parentesco com George Orwell de 1984, a escritura de Cortazar e outro latino- americanos conhecidos lá fora.

Loyola-Mas o Brasil é tudo isso. Agora os críticos não relacionarem isso já é preconceito que existe. Eles citaram todos os autores nesta linha e nunca citaram Não Verás País Nenhum. Já um crítico do New York Times quando fez uma resenha do livro disse que havia quatro livros fundamentais sobre o que ele chamava de distopia (que é o oposto da utopia). O primeiro seria: Nós do russo Yevgeny Ivanovich Zamyatin, depois vinha Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley, 1984 do Orwell e o meu Não Verás País Nenhum. Então a critica estrangeira fala e a nacional não. Acho que é preconceito mesmo, porque você acha que vão julgar um autor nacional com a mesma estatura desta gente?


ALV- Os seus personagens, me parece, não vislumbram uma luz no fim do túnel. Você vislumbra?

Loyola- Não acho que não. (lembrar que estávamos em 1987). Eu mesmo não vejo. Eu vivo uma desesperança ainda mais com essas pessoas que estão agora no governo.

ALV- qual é a sensação que você tem lendo jornal hoje?Política nacional?
Loyola- Apocalipse. É aquilo que o Paulo Francis falou: o Brasil passou da pré-história para a história sem ter atingido a civilização. E não vai atingir porque- ai você diz- mas não é culpa é do povo, é culpa do governo .É culpa do povo sim, e é culpa do governo.Nós somos culpados pelo fracasso das coisas que acontecem aqui.

ALV- Você viveria fora do Brasil de novo?

Loyola- Se continuar essa coisa que está viveria até para sempre porque eu não agüento mais. Você fala: é acabou a ditadura, começou a democracia, mas não é nada disso. São as mesmas pessoas, mentira em cima de mentira, os homens não tem mais responsabilidade. Não sei se estou ficando moralista, mas estou começando a exigir meus direitos mínimos. Não tenho mais paciência para atravessar a rua e o cara vir em cima de mim e estou atravessando na faixa. Chegamos a um ponto em que não existe mais lei, nem ordem, mais nada. Quer dizer as pessoas entraram nessa paranóia.

ALV- Qual seria a sociedade ideal para você?

Loyola- Bom para começar sem essas pessoas que estão no poder. Mas enfim, aquela sociedade onde eu tivesse certa paz, certa tranqüilidade, onde as pessoas pudessem comer e beber tivessem trabalho.


Obras do autor

Contos

Depois do sol, Brasiliense, 1965

Pega ele, Silêncio, Símbolo, 1976

Cadeiras proibidas, Símbolo, 1976

Cabeças de segunda-feira, Codecri, 1983

O homem do furo na mão, Ática, 1987

O homem que odiava segunda-feira, Global, 1999

 

Romances

Bebel que a cidade comeu, Brasiliense, 1968

Zero, Brasília/Rio, 1975

Dentes ao sol, Brasília/Rio, 1976

Não verás país nenhum, Codecri, 1981

O beijo não vem da boca, Global, 1985

O ganhador, Global, 1987

O anjo do adeus, Global, 1995


Infanto-juvenis

Cães danados, Belo Horizonte Comunicações, 1977. Reescrito e publicado com o título "O menino que não teve medo do medo", Global, 1995.

O homem que espalhou o deserto, Ground, 1989


Viagens

Cuba de Fidel: viagem à ilha proibida, Livraria Cultura, 1978
O verde violentou o muro, Global, 1984


Relatos autobiográficos

Oh-ja-ja-ja (Diário de Berlim, inédito em português). Tradução de Henry Thoreau. LCB, 1982

Veia bailarina, Global, 1997


Cartilha

Manifesto verde, Círculo do Livro, 1985 e Ground, 1989


Crônicas

A rua de nomes no ar, Círculo do Livro, 1988

Strip-tease de Gilda, Fundação Memorial da América Latina, 1995
Sonhando com o demônio, Mercado Aberto, 1998


Teatro

A última viagem de Borges (2005)

Biografias

Fleming, descobridor da penicilina, Ed. Três, 1973

Edison, o inventor da lâmpada, Ed. Três 1973•Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, Ed. Três 1974


Antologia

Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão, organização de Deonísio da Silva, Global, 1994


Traduções

Para o alemão

Null (Zero), Suhrkamp, 1979

Kein land wie dieses (Não verás país nenhum), Suhrkamp, 1984


Para o coreano

Zero, Seto, 1990


Para o espanhol

Cero (Zero), Galba, 1976

El hombre que espandió el desierto (O homem que espalhou o deserto), Global - México, 2000


Para o húngaro

(Zero), JAK, 1990


Para o inglês

Zero, Avon Books, 1983

And still the earth (Não verás país nenhum), Avon Books, 1984


Para o italiano

Zero, Feltrinelli, 1974

Non vedrai paese alcuno (Não verás país nenhum), Mondadori, 1983
Vietat le sedie (Cadeiras proibidas), Marietti, 1983


Adaptações

Para o teatro

Não verás país nenhum. Direção de Júlio Maciel, Fortaleza, Teatro José de Alencar, 1987, baseado no romance homônimo


Para o cinema

Bebel, a garota-propaganda. Direção de Maurice Capovilla, 1986 -baseado no romance Bebel que a cidade comeu

Anuska, manequim e mulher. Direção de Francisco Ramalho, 1969 -baseado no conto Ascensão ao mundo de Annuska

 

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...