quinta-feira, 31 de março de 2022

Erotismo surreal

 Sentado perto da janela, enquanto o garfo e faca destrinchavam o pedaço suculento de picanha, uma vez ou outra seus olhos caiam em cima da morena que a sua frente, encostada a parede também lutava com seu suculento pedaço de picanha. Ela parecia uma cópia, tudo o que ele fazia ela o imitava, nos gestos, no segurar os talhares, na bebida, parecia que adivinhava até quando ele erguia os olhos em direção a ela. Seus olhos se cruzavam deflagrando chispa intensa de brilho desejoso.

Nisso ela levantou-se e, com o prato e o copo de caipirinha, veio até a sua mesa. Numa atitude desprevenida, sentou no colo dele.

- Olá, gato.

Disse numa voz aveludada de arrepiar até defunto morto há duzentos anos.

- Oi, gata.

Respondeu acentuando a voz sua característica masculina.

Ofereceu um trago da caipirinha que ele não recusou. Em seguida, enfiou a mão por entre a camisa e começou alisar os pelos pretos manchados de pequenos fios brancos. Nesse momento o garçom trouxe o pedido deles.

- Por favor, aqui não é lugar para se gozar. Se quiserem gozar vão para o hotel em frente. O dono não quer manchar de nódoa o nome do restaurante.

- Pode ficar sossegado, amigo, não estamos aqui para transar, apenas para saborearmos esse delicioso pedaço de picanha mal passada.

Respondeu beijando os lábios finos e sedutores dela. Em seguida, esticou o corpo dela em cima da mesa e desnudou-a com gosto e prazer. Depois pegou duas fatias de tomate e coloco uma em cada bico dos seios eriçados. Com o dedo molhou a alface crespa no molho inglês saboreando cada gota na avidez dos lábios intumescidos.

Ela para provar a satisfação sentida e, para dar a ele o sentir satisfeito, pegou um pepino e dois tomates, equilibrando-os entre as pernas. Num avanço e recuou estava ele, quando voltou o garçom.

- Por favor, o que foi o que eu disse?

- Mas não estamos gozando, respondeu ele.

- Como não? Veja a cabeça do pepino!

E ao mesmo tempo passou o dedo na ponta do legume.

- Veja ta melando, e olhe essa salada crespa que está se tornando branca! Por favor, tem gente a espera da mesa. Aqui está a comanda de vocês e obrigado.

Ele pegou a comanda e dirigiram-se ao caixa. Pagou a conta e saíram. Ao pisar no calçamento, distraído guardando o dinheiro na carteira e a carteira no bolso, percebeu que a garota tinha sumido. Olhou para os lados, e perguntava-se.

- Caralho, onde foi essa menina?

Nisso sentiu que cutucavam seu ombro.

- Ei, pivete, acorde, aqui não é lugar de dormir, que coisa dormir no serviço, ta querendo ser mandado embora, é?

 Escondendo o acanhamento entre as pernas, correu ao banheiro para lavar o rosto de sono.

quarta-feira, 30 de março de 2022

O sétimo dia do resto da sua vida

Daniel ouviu o grito ao atravessar a avenida. Ao mesmo tempo viu a moto derrapando entre os carros, num sufoco em equilibrar-se nas duas rodas que, como disse o Jô Soares, foram feitas para cair.

Devido à velocidade o motoqueiro não conseguiu frear em tempo e a moto, jogando a traseira para frente, veio em sua direção numa horizontalidade incrível.  Paralisado bem no meio da faixa de pedestre, sentiu o choque ao derrubar quatro pessoas que caíram longe de onde estavam.

Moto e motoqueiro deslizaram até baterem no carro parado logo após a faixa.  Daniel pego de surpresa não soube o que fazer. Apenas sentiu o vento passar por ele carregado na moto.

Segundos depois, Daniel começou a se desmoronar. As pernas dobrarem-se, fazendo com que caísse no asfalto. Logo em seguida, tombou de lado com os braços esparramados em cruz.

Ninguém percebeu, mas dos seus lábios surgiu um pequeno sorriso brilhando no meio dia daquele sétimo dia.

Enfim, ele descansava no sétimo dia do resto da sua vida.

terça-feira, 29 de março de 2022

Raquel 2

 Ouvia as risadas como afronta. Não entendia como duas pessoas civilizadas poderiam rir daquela maneira. Tudo bem alegria é bom, é bom ser alegre, mas esbanjar risadas desproporcionais numa demonstração de virilidade é algo meramente ridículo e de uma baixeza nada masculina. De onde estava, enxergava os dois rapazes. Raquel encolhia o semblante ferido grotescamente pelas risadas. Em público tal procedimento só tinha apenas um caráter: fraqueza masculina querendo demonstrar virilidade. O que, para ela, surtia efeito contrário: os dois não passavam de crápulas obscenos jogando palavras no ar do restaurante, ferindo mentes de que nada tinham de ouvir o que diziam. Destrinchando lentamente o pedaço de calabresa, Raquel sentia-se pequena. Sim, era isso, isso mesmo, pequena, era tão somente uma pessoa pequena diante das risadas dos rapazes. E por quê? Remoeu pensamentos antigos, atuais e até uma parte do futuro e o que encontrou foi um nada dizendo que o nada estivera sempre ao seu lado. Nunca na sua vida pacata de burguesa feliz, se comparava com as risadas dos rapazes na mesa do restaurante. Nem mesmo o dia nublado, apesar do verão, ainda bem que não estava frio, apenas uma intensa garoa molhava a cidade, poderia transformar aquela sensação em algo banal. Claro que as risadas, os gestos, os modos e até os rapazes, eram ridículos. Mas quem não foi pelo menos um dia ridículo, não sabe o que é viver a alegria de ser.

Quanto a isso, Raquel tinha certeza. Viver. Eis a profissão de fé onde cada indivíduo trazia a certeza de ser. Uns trazia de longa distância sendo descoberto poucos minutos antes da morte. Nessas ocasiões, rogavam a Deus mecanicamente suas dores pueris. Outros, não descobriam nunca se achando invulneráveis praticando horrores com medo da solidão. Outros ainda, possuidores da soberba ignorância, batiam no peito proclamando seus erros e pecados. E alguns não estavam nem aí para o que pudesse com eles acontecer. Raquel pertencia a uma dessas categorias. Qual? Perguntou o inconsciente temendo vir à tona o escondido há tanto tempo. Um dia, querendo ou não, veria a superfície revelando suas dores ignóbeis de pura cidadã do mundo. Mas no momento, não queria ser descoberto.

Chamou o garçom, pagou a conta e saiu. Da porta olhou para traz e lá estavam os dois rapazes banhando-se de alegria pouco se importando se incomodavam ou não aos outros.

segunda-feira, 28 de março de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.778(2022)

                

            Calcei as luvas. Desci segurando no corrimão. As luvas de pano rústico deixavam a mão sentir a friagem escura e lisa do corrimão. Como sempre, pouco me importei. Que importância tinha as luvas, o corrimão frio liso e escuro, e muito menos se calcei as luvas ou não? Qual a importância disso tudo? Um ato? Uma cena? Uma fantasia? Fosse o que fosse seria tudo ou nada se a importância a mim nada significava. Olhei as mãos, agora nuas, as luvas vazias jogadas em qualquer canto, o corrimão frio liso e escuro, como pequenos inúteis objetos, se é que o corrimão possa ser considerado um objeto, cujos segmentos a mim nada diziam. Como a luz que a tudo iluminava no frio lampejo de ser luz a iluminar o abstrato de enaltecer o meu eu e tudo ao meu redor. Então, num sobressalto, a minha frente se solidificou as palavras: Estou absolutamente tranquilo, e ao ler a invisibilidade das palavras, certifiquei o que sempre sentia e duvidava, cheguei ao ponto máximo da vida, paz e tranquilidade e, assim desabei na poltrona abraçando essa tranquilidade e paz.

            É isso... ou, não é?

domingo, 27 de março de 2022

Amor verdadeiro

 O brilho nos copos

Rebolam jeans apertados

Faíscam olhos que se cruzam

Rápidos e certeiros

Tímidos se guardam

Nenhum quer ser o primeiro

 

Garçom desce mais uma

Quem sabe encontrei

O amor verdadeiro

 

E

 

Para rebater

A ressaca

Quem sabe

Beberei

Uma coca

Bem gelada

sábado, 26 de março de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.777(2022)

    

            Gritei. Gritei um grito ensurdecedor. Ninguém ouviu. Minha voz não foi suficiente para ser ouvida? Precisava gritar novamente? Como não ouviram? Fizeram pouco caso do meu desespero? Sabe que tudo pode ser. Não me preocupo. Nem deveria ao jogar para dentro do bolso a chave que, ao bater no fundo revelou seu peso e forma em contato com a coxa direita do meu corpo. Pensei novamente em gritar. Para que? Para não ser escutado de novo? Assim, comprimindo os lábios implorei pelo concreto fato da situação. Não foi planejado o resultado que logo em seguida se desenrolou. O meu grito não foi ouvido, no entanto eu ouvi seu eco sendo repetido infindáveis de vezes no abismo claustrofóbico do meu ser. Voltei para o carro. Percorri quilômetros de terra vermelha na poeira do descampado. Estacionei minha alma no reflexo do sol da manhã. Decidi nada fazer.

            É ou... não, é?

sexta-feira, 25 de março de 2022

As palavras


Não traduzem

O que eu quero

 

Não me contento

Com nacos saudosistas

Quero o todo sincretismo

Que há no teu corpo

 

É isso

O que eu

Que quero

quinta-feira, 24 de março de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.776(2022)

                               

            Cinco horas da madrugada, de cueca, suado devido a alta temperatura doida, abriu a geladeira, pegou uma cerveja estupidamente gelada que ao abri-la puxando a argola de alumínio, soltou aquele som característico fazendo com que viesse à tona a gloriosa espuma onde ele saciou a estupida sede. Em seguida foi para a sala e em frente ao computador, depois de ligar e sua tela branca e luminosa encandecer de luz o ambiente, começou a escrever essas ensandecidas palavras.

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 23 de março de 2022

asas do desejo

 o dia

o sábado chuvoso

a futilidade a matéria

impregna ossos fibrosos

nem tudo é salvo

nem tudo é música

é uma amalgama

de lixo nem sempre reciclavel

 

grita os escombros

descubro o assombro

caio vertiginosamente

não sou anjo

me esborracho magistralmente

 

meu velório

eu sozinho

enfrento o pulsar desconhecido

do dia

no sábado chuvoso

e desiludido

fecho o Word

terça-feira, 22 de março de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.775(2022)

                                  

            Estou me dando a certeza em ter a certeza de que posso ter a certeza de tê-la como imagino em tê-la. E essa certeza não é a costumeira certeza, é autêntica certeza, é a sincera certeza, é a confiante certeza, por isso o que faço o que sempre faço, é criar a rotina simplesmente em ter certeza de todos os dias ao abrir os olhos nas manhãs de sol, nas manhãs de chuva, nas manhãs frio, nas manhãs de alegria, ou, mesmo, nas manhãs sem alegria, pois sei que nunca deixarei de ter certeza de que posso sempre tê-la todos os dias agradecido em ter a certeza de que não tenho certeza.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 21 de março de 2022

Carta 1

 A temperatura caiu, não é a mesma dos dias anteriores, isto porque, ontem desabou por aqui um pequeno temporal e, você sabe como são esses pequenos temporais numa cidade como São Paulo, não sabe? Pois é em certos lugares a chuva devastou como sempre.

Mas não estou te escrevendo para falar de chuva, inundações e muito menos de São Paulo, apesar de que não me canso de falar dessa Metrópole que a cada dia cresce a cada suspiro de seus habitantes.

Como dizia acima, a temperatura baixou, não muito, ainda está um calor agradável, o que perturba é a garoa intermitente e, hoje ao pisar a calçada do Conjunto Nacional, percebi que fiz bem em vir de jaqueta. A garoa lentamente batia no meu rosto numa suavidade vaporosa, sem que eu a notasse.  

Não sei como poderá entender minhas palavras, espero que sejam as mais positivas, assim como não sei o que pensa todos os transeuntes que por aqui passam no dia a dia incessante. Ao descer do maçante ônibus fretado, no momento que meu pé direito pisou a calçada do Conjunto, como sempre meu sentimento foi dos mais positivos possíveis, algo que me leva a ter confiança nos gestos, no andar, a ter certeza de que o dia será se, não o melhor, mas bom, que não haverá outras preocupações além do corriqueiro.

Se me compreende não sei. Não escrevo para que me compreenda, entende? Escrevo para que me leia, isso é para mim o mais importante.  No entanto tudo o que escrevo é sincero e, se sinceridade é compreender, talvez me compreenda.

No sentir, debaixo da sola do sapato a firmeza do calçamento, num virar a cabeça quase que automático, reparei que os semáforos da avenida estavam descontrolados, piscavam sem cessar. Dei de ombros. Não atravessaria naquele instante a Paulista, meu destino foi atravessar a Rua Augusta, e pela calçada do Banco do Brasil, descer em sentido os Jardins. Despreocupado, não reparei um táxi que virou justo no momento em que eu estava no meio da rua. Estaquei de repente. O táxi passou e pisei a calçada como se nada houvesse acontecido.

Empurrei a porta do Delboni, retirei a senha e, me postei a espera de ser chamado. Nesses lugares é que observamos como as pessoas às vezes carregam uma carga de excentricidade. Eu mesmo ao ser anunciado no luminoso o número da minha senha, ao invés de ir para mesa indicada, fui para outra, sendo ridiculamente obrigado a dizer:

- Desculpe.

Como sempre detesto tirar sangue, apesar da afabilidade da enfermeira, virei o rosto para não ver a picada, só de sentir a agulha perfurando a pele, o calafrio do medo me domina. E como sempre, tudo correu bem. Ela tirou dois tubinhos de sangue e aplicou um bandeide para não sangrar.

 - Sabe que isso dói mais que a agulha? – disse para a enfermeira.

- Deve doer mesmo. Também, esse braço peludo! Quer levar um lenço umedecido?

- Não, obrigado, estou brincando. Passe bem tenha um bom serviço.

- Obrigada, para você também.

E, entre a caminhada da Rua Augusta, atravessar a Paulista, subir, ligar o computador, resolvi escrever para você. As pequenas histórias já tinham dado o seu recado. Deveria mudar novamente. É mudando que crescemos, é mudando que renovamos, não é mesmo?

Pois é, abraço.

domingo, 20 de março de 2022

Carta 2

 Bom dia, como vai? De ontem para hoje espero que tenha passado, pelo menos, confortavelmente. Dentro da nossa, ou seria conveniente dizer: dentro da minha possibilidade, passei bem.

Mais uma vez, descendo do fretado, senti o poder dos passos firmes batendo no calçamento da Paulista reafirmando minha presença nessa cena de todas as manhãs. Essa reafirmação só foi possível por causa dos meus atos decididos e seguros, onde havia uma pequena ousadia, claro, não era tão perceptível, apenas eu a sentia. Tanto é que pedi ao motorista para abrir a porta em frente ao Banco do Brasil e, assim não ser obrigado a voltar.

Enquanto digitava vários códigos na pequena tela do terminal, fui dominado por um pensamento, não horrível, mas perigoso. Não, nada de perigo físico, como ser roubado, por exemplo, o que não posso descartar, mas o perigo que assolou minha mente foi outro, creio que não deixa de ser perigoso, mas é delicado. Entende?

Vou explicar. Quer dizer, vou tentar...

Esse modo de escrever de certa maneira é meio perigoso. Estarei revelando coisas escondidas no escuro da alma, que não quer vir à tona. Estarei me revelando não só a mim, também a você. Revelar-me a você não há perigo, você me conhece assim como conheço você e revelando-me estarei mais confiante em mim mesmo. Compreende?

O perigo são os leitores, pois você vai me desculpar, além de escrever para você, faço desta um exercício literário e, é como você deve ler essas linhas. Terei que me exercitar muito para que os leitores não desconfiem que eu esteja falando deles e sobre eles, compreende?  

Não sei, acho que não devia ter escrito isso. Agora os leitores serão mais atenciosos na leitura, vão querer descobrir os trechos em que falo deles ou sobre eles e, por outro lado, tenho a impressão que não ficou nada literário essa explicação. No futuro poderei suprimi-la, não é?

Então é isso.

Mais uma coisa apenas, uma missiva não precisa ter dez ou vinte páginas, acho que para um bom leitor interessado, uma página pode se dizer tudo. O importante é ser conciso, onde com meia dúzia de palavras se diz tudo.

Bom, é isso, abraço e tenha uma excelente terça-feira.

sábado, 19 de março de 2022

Carta 3

Olá, tudo bem?

Realmente você tem razão. A carta anterior não merece existir. Não tem a profundidade de ser denominada literatura. É mais um rascunho de algo que poderia ter qualidade. Melhor descartá-la, não é mesmo? Há uma coisa que você não sabe. Quase nada descarto, sabia? Quer dizer, não jogo fora quase nada do que escrevo sim alguns foram parar no lixo, mas são raros. E no meu pensar, o escritor não deve eliminar nada, guardar tudo o que escreve só assim poderá ser entendido. Portanto, não jogarei fora a carta anterior.

Bem, na minha modesta opinião literária Tom Ripley é de todos os personagens que conheço o mais sensacional, o mais cativante herói sem caráter. Sei que você conhece. Além do que, ele surgiu em vários livros de Patricia e em dois filmes: O Sol Por Testemunha, dirigido por Alains Resnais, se não me engano, com Alan Delon, onde o diretor deu uma visão mais policial e, O Talentoso Ripley, esse mais recente, não lembro o nome do diretor, com o ator Mat Demon. A refilmagem chegou mais perto do que é o herói, um cara safado, oportunista, malandro sem perder o charme, falsário...

Ah! Já estou vendo sua cara perguntando. Porque Tom e não um personagem da literatura brasileira? Não lembro um personagem brasileiro que tenha me cativado. E olhe que já li bastante, mas assim que lembrar um, mudo o nome. Parece que não gostou. Dei-lhe um nome para ficar mais fácil, não ficar algo jogado assim sem eira e nem beira, no espaço do papel como algo descartável, entende?

Antes de terminar, isto porque, já estou avançando para a segunda folha, veja o que escrevi na linha da carta anterior.

Olha só o que aconteceu.

Recebi, entre ontem e hoje, mais de vinte e-mails pedindo a exclusão do meu grupo de leitores. Esse grupo é composto de cem e-mails ou um pouco mais, talvez. Tudo isso é medo do que? Como diz o velho deitado: quem tem medo, tem medo de algo, não é mesmo? Só tenho uma coisa para dizer a esses leitores precavidos: podem ficar sossegados, não mencionarei nomes e muito menos aspectos físicos, comportamentais e, nem sexuais. Tudo será sutilmente pelo aspecto literário. Não tem como perceberem de quem eu falo. Portanto, como disse uma grande filosofa: relaxe e goze.

  Desses vinte, dois se disseram casados; quatro não queriam ter suas vidas expostas como se fosse mercadorias, palavras deles; dois se diziam adeptos do liberalismo e poderiam ser mal vistos; dois proclamaram sua sexualidade discretamente; quatro se diziam temerosos e pediam segredo; e os outros quatro não se manifestaram.

Portanto fica aqui apenas o registro e esquecemos a carta anterior.

Abraço e até a próxima. 

sexta-feira, 18 de março de 2022

Carta 4

 Enfim quinta-feira, véspera de feriado. Temperatura baixa, garoa determinando um possível dia de Páscoa sem sol. Já imaginou o coitadinho do coelhinho, além de botar aqueles ovos grandes, ter que enfrentar um mau tempo desses! Fico com puta pena dele. E a molecada? Como será a molecada? Isto é, age como os idiotas das molecadas de antigamente? É! Eram idiotas sim, tudo bem, tinha encantamento, fantasias, alegria... E qual a criança que não tem alegria? Sim, até essas que vivem nos semáforos fazendo malabarismo com aqueles grotescos cabos de vassouras à custa de umas pequenas moedas, até eles têm suas alegrias. É uma alegria diferente de uma alegria de palacete e de bela e formosa mesa de alimento, mas são eles alegres. E, até arisco, são mais felizes que qualquer outra criança.

 Lembro-me de uma vez só de estar percorrendo o quintal, não sei se de minha casa ou de alguma tia, junto com os primos, a maioria da mesma idade, a procura de ovos que o coelhinho pacientemente botou em lugares estratégicos para que procurássemos. Não me lembro de outra vez isso ter acontecido. E muito menos lembro se levei choque ou não ao saber que, quem botava os ovos eram meus pais após comprá-los no armazém. É aquele tempo era armazém, não existiam supermercados, acho que não tinha super porra nenhuma, os únicos super que eu conhecia eram os meus super-heróis das histórias em quadrinhos.

Ah! Outra data memorável que guardo no escrutínio dos escondidos. Meu belo aniversário, não sei que ano foi, mas sei que nesse dia fui assistir GIGI com os primos. Caiu na semana da Páscoa, creio que uns dois dias antes, não recordo, oh merda de memória que não guarda quase nada. Fico intrigado com esses escritores que dizem lembrar coisas que lhes aconteceram em tenra idade. Sei que nesse dia meus presentes foram ovos de chocolates de todo tipo, tamanho e forma e, o que esperava ganhar, até hoje não ganhei. Aprendi, o que eu quero ganhar vou lá e compro, não fico esperando.

Bom mudando da noite para o dia, veja o que escrevi um pouco antes dessas linhas acima:

Então, enquanto o sol reflete seus raios nas janelas e, vozes ensurdecedoras vociferam como se fosse mercado de peixe, os ponteiros dos segundos avançam formando minutos e, consequentemente, os minutos formam as horas. Ligeiras como a mente que não para em objeto nenhum e, muito menos, numa ideia só, a mente, maligna força, cria pensamentos transtornando a realidade ou, criando a realidade desinformada num contexto único e exclusivo do seu criador. Não sei, quando se tem a nítida noção da irrealidade dominando a realidade, deparamos com paranoicos vivos numa redoma de vidro criado tão somente para alimentar suas próprias paranoias.

Organizo-me dentro do consumo capitalista enrijecendo os músculos famintos de saudáveis formas.    

Sabe que achei propicio chamá-lo de Tom? Veja bem, além do personagem literário, há o personagem do desenho animado, o gato Tom e, o fabuloso compositor Tom Jobim. Mais que acertado, não acha? O que? Tom Cavalcante? Não conheço.

Um abraço que essa já ultrapassou novamente o estipulado de uma página somente desculpe.

quinta-feira, 17 de março de 2022

Carta 5


Espero que esteja tudo bem. Tenha passado um feriado prolongado bom, sem maiores consequências a não ser, apenas descansar. Talvez tenha passado uma sexta boa, com sol, descanso, diversão ou, talvez passasse o dia todo nos preparos para o almoço de Páscoa, o reencontro com Cristo, é isso? Não sei, não sou um fervoroso católico e muito menos um católico praticante.

Sei que para mim o almoço de Páscoa era a maior alegria. Os familiares, ao todo, entre tios, tias, primos, eram mais ou menos umas 50 pessoas, se reuniam em volta de uma mesa, onde não faltava alimento, num almoço de farra, brincadeiras, trocas de ovos, e, se houvesse, pois sempre tem algum problema financeiro, familiar ou alguma discórdia entre um parente ou outro, nesse dia era esquecido. Ficava fora da mesa, não estragava o comensal pascal de todos os anos. Era uma mesa improvisada enorme, sempre na casa de alguém, ou na fazenda, brincadeiras, vinho, não lembro se havia cerveja, mas acho que nunca faltava chope, e, no meio do almoço, de repente, começava a voar um osso direto no prato do outro, ou no copo, às vezes era uma tampinha de refrigerante, pois naquela época era tampinha de metal com cortiça, na qual a molecada fazia um furo no meio da tampinha e bebia por ali. O mais bacana, pelo menos achava, era que todos ajudavam todos, as mulheres a fazer o almoço, depois lavar a bagunça... Bom essa era a minha visão de menino que, junto com os primos, nos entretíamos com brinquedos na rua, pelo quarteirão de esconde-esconde, de bola, queimada, policia ladrão, às vezes saia uma briga sem maiores consequências, até altas horas. As rádios, Ondas Médias, as tais OM, pois a FM começava a surgir, tocavam musicas orquestrais, na quinta e na sexta, era o maior respeito, nada de musica profana.

Hoje como tudo se transforma se, para melhor ou pior, vai lá saber, o modo como vemos a semana santa é diferente. Hoje os rádios têm suas programações normais, a televisão naquela época estava nem começando, e desde que a conheço creio que nunca houve uma vez que fosse interrompida ou desligada por causa da semana santa. O almoço continua, as famílias se encontram, se conversam, brincam, mas com um ou outro sentido, não há mais tampinha de metal com cortiça, não há mais osso voando de um prato para o outro, não há mais tanta crianças, as poucas são obrigadas a conviver entre adultos e acabam desenvolvendo, as neuroses irreversíveis, sendo obrigadas a viver sem espaço ou com algum descaso, provocado pela necessidade de trabalho, dos pais involuntariamente.

quarta-feira, 16 de março de 2022

Carta 6


O dia como sempre amanhece meio sombrio, depois o sol tímido aparece, esquenta um pouco, talvez lá pelo meio do dia caia uma garoa fina, conforme o dia uma garoa mais forte, e com isso a temperatura abaixe. Talvez o dia passe corriqueiramente, ou passe, demoradamente para os mais angustiosos. Tudo depende do que na alma de cada um vai, não é mesmo?

Vamos passando no fio dos segundos compondo a rotina dos dias. Vamos pisando nas pedras conscientes de que possamos, distraídos, falsear o pé causando dor. Dor que podemos curar com um simples curativo, mas por algo desconhecido, desejamos e até alimentamos essa dor que, ilusoriamente creditamos como aprendizado.

Sabe, há uma angustia enferrujada emperrando os movimentos apesar, dos avanços em todos os sentidos. Parece que a geração atual, já nasce consciente da frustração engajadas no DNA dos pais, que por sua vez, trouxeram dos pais deles. Não há mais a explosão de entusiasmo no futuro. Tudo leva a crer que o futuro, presente e passado é uma coisa só. Os mais eufóricos dizem que não se faz mais dias como antigamente, que não se faz mais isso ou aquilo, no entanto, a culpa é deles mesmos, pois não veem que o tempo é só facção humana de sofrimento fracionando os gostos de cada um.

Tínhamos espaços, era verdade, tínhamos mais calma nas cidades, nas ruas, as casas não precisavam de grades, mas éramos prisioneiros dos sentimentos sociais, dos costumes moralistas aferrolhando nossos movimentos. Hoje continuamos presos, mas livres de sociais sentimentos sem nos preocuparmos com moralismos apodrecidos. Não me perguntem qual era o melhor, ontem ou hoje. Posso dar uma resposta evasiva, sem muitas explicações dizendo, que o momento é o melhor, mesmo que ele já seja passado. Só posso dizer que antes, os acontecimentos eram somente nossos, hoje os acontecimentos são de todos, é do mundo. O que acontece aqui influencia o mundo, o que acontece no mundo influencia aqui.

Como disse, não procure me entender, procure me ler.

terça-feira, 15 de março de 2022

Carta 7

 Sabe, não sei se sabe, não sei se consegue perceber ou notar a ferrugem da angústia invadindo os porões da alma. Consegue? Sabe que isso me deixa com uma afronta inusitada facilitando a desafiar tudo o que pela frente encontro? Sabia? Não sabia! Conheço-te, quer dizer penso te conhecer. Uma coisa é preciso lhe dizer: não estou nem aí para isso ou para aquilo, dizendo no bom jargão: estou cagando, entende? No entanto há uma espécie de euforia triste que me deixa imóvel. Isto é, quero e acho que devo me mover, mas não quero, entende? Não, claro que não entende. Não entende por que nunca está ao meu lado, nunca compartilha dos meus anseios, dos meus ódios, das minhas depressões, das minhas angústias que me obrigam a escrever, dos prazeres que encontro só de pensar em suicídio, como vai querer me entender. Os fracos permanecem na sombra dos gênios até o momento que se suicidam. Só assim terão seus cincos minutos de fama.

Sabe, não sei se sabe, mas nunca procurei ou, plagiando os filósofos, sempre quis essa audácia suicida me alimentando. Será? Desconheço meu lado masoquista. Conheço meu lado comodista, meu lado covarde, meu lado desconhecido de mim mesmo. Sinceramente não há uma previsão para que esse desconhecimento seja eliminado e, nem deve ser eliminado, sei que seguirei todos os percalços da minha vida por longos, longos, longos anos. Longos anos! Reparou que esse termo longo se tornou curto? Tudo o que fazemos nos parece curto. Já não esquecemos o que fizemos no natal do ano passado. Antigamente, não conseguíamos lembrar nem do que fora feito um minuto atrás! Aliás, que esse minuto atrás já é passado, compreende?

Sabe, não sei se sabe, mas venho estudando o do porquê existe esse cansaço descomunal que abrange toda a razão. Sabe, esse cansaço transmite-se em todos os sentidos, trespassa o conhecimento de até acreditar em sua existência. Nos cartazes estampados nas faces iluminadas de sombras, nos passos juvenis acelerados no caos urbano da velhice, nos corpos dolentes de suas formas expondo beleza crua e nua de suas carnes diluídas, nos textos poéticos panfletários exorcista fingidor de sentimento, no sorriso alegre de um triste palhaço combalido pela fome de agradar e ser vencedor há esse cansaço de ter o que se imagina e não temos.

Sabe, não sei se sabe, paro por aqui para não prolongar demais essas fúteis questões, alimento de filósofos, que leigos, lutadores da sobrevivência, procuram não entender e, com isso elevarem um pouco mais sua cultura, e, de repente desponta uma pergunta crucial: MAS PARA QUE CULTURA?

segunda-feira, 14 de março de 2022

Carta 8

 É meu amigo, há tanta coisa errada! E como podemos fazer, pelo menos, tentarmos mudar um pouco, não o mundo, mas as coisas erradas que nos rodeia ou, conhecemos. Não sei se devemos mudar ninguém tem esse poder, nem de mudar a si próprio, acho que devemos e, passar isso adiante, é sempre fazer o certo, passar conscientização de se fazer o certo seja quando, onde e como for. Conscientizar o povo, a população ou o próprio indivíduo, para mim deve ser o primordial e, não fazer isso ou aquilo para melhorar lá e ali, entende? Criar escolas se não tem alunos conscientes em querer aprender, se não tem professores conscientes em ensinar; para que criar hospitais se não tem médicos conscientes em curar e não voltados apenas em enriquecer, se não tem funcionários em fazer um bom serviço... Se eu sei que é errado montar minha banquinha na calçada para vender quinquilharias, porque vou fazer isso? Claro que cada caso tem suas implicações sociais, morais, sobrevivência, política, financeira e etec tera e tal. Mas sabendo que é errado e que não devo montar minha banquinha na calçada, já é um grande avanço. No entanto é mais prazeroso ficar com um olho no “rapa” e outro na banquinha para não ser roubado, do que passar oito horas ou mais, fechado num escritório ou carregando peso, não é mesmo?

Conversando com Eleno Kieloswky, descendente de polonês, brasileiro, tendo parentes numa cidadezinha de nome impronunciável, diz que lá o povo tem consciência do que é certo ou errado, claro, como toda cidade tem seus pontos negativos. E citando uma expressão dele: “o que preciso é aprender a ser mais esperto.” Ressaltei a ele que esse “ser mais esperto” trazia em sim, um sentido de duplicidade, ou melhor, dizendo, dúbio, o qual ele definiu muito bem. Que há o esperto que vive para evitar acidente como o que ele foi envolvido, ser esperto para não cair em falcatrua, em evitar más consequências e, que há o esperto, malandro, sacana, que faz tudo para tirar proveito, até mesmo ferindo terceiros, o tal do “jeitinho brasileiro”, a Lei do Gerson. Ele tem consciência disso e procura viver dentro dessa conscientização, arrematou no final. Ponto para ele.
Foi quando, não sei por que, Dubai foi citada. Eleno não concorda com a exuberância luxuosa de Dubai. Não há de errado em querer se construir prédios e mais prédios, em criar um mar num lugar que a temperatura é abaixo do zero. O que ele é contra, como disse, o que falta ali é conscientização da fome que assola vários lugares do mundo. Que aquele luxo exacerbado poderia e daria para matar a fome de muitos países. Ele dá valor para a inteligência do homem em criar aqueles prédios imponentes, giratórios, mares artificiais, as casas avançando mar adentro e tudo o mais. Porque não usar essa inteligência e dinheiro para a cura de infecções que se alastram e dizimam milhares de pessoas. E disse sem remorso nenhum, se um dia acontecer um Tsunami e arrastar toda aquela luxúria não ficaria com pena nenhuma.

Quieto, sem argumento, pois de um assunto pequeno, quer dizer, local passamos para um assunto mundial, desvirtuando um pouco do assunto, já estando na hora do almoço, sem que, nos despedimos prometendo uma nova conversa ou uma continuação do assunto levantado.

Arrematando quero dizer: se as pessoas tivessem o poder de assumir a conscientização do que é errado e do que é certo, posso te garantir que tanto São Paulo como o Brasil, estaria bem melhor, pode acreditar.

domingo, 13 de março de 2022

Carta 9


Duas horas! Duas ou mais? Não lembro. Sei que a porra do elevador demorou bem uma ou duas horas. O dito cujo não parava, passava direto. O hall do prédio já estava formando duas filas. Reclamações pipocavam de um lado para outro, de uma ponta para outra da fila. O pessoal vindo do almoço, tendo uma hora apenas, se impacientava. Alguns gritavam impropérios chulos ferindo os ouvidos dos mais sensíveis, principalmente das mulheres, apesar de que algumas faziam coro aos descontentes. Outros, os apressados, subiam a escada os dez andares ou mais até. Outros ainda aproveitavam que o elevador descia, descia com ele, até o subsolo, para depois subir, o que ocasionava sua subida direto sem parar no térreo. Insuportável à situação, gritavam:

- Queremos elevador, queremos elevador.

Sem saber como, surgiram cartazes com letras garrafais pedindo a volta ao Conjunto Nacional. Os seguranças, apesar de corpulentos, feito armário de estádio de futebol, sentiam que perdiam terreno devido o aumento dos atrasados. Era impossível subir as escadas se encontravam atulhadas de pessoal que subiam contra os que desciam. Estrategicamente, os bombeiros, sem que soubessem quem os acionara, atentos observavam os movimentos. Alguns camelôs, vendo a aglomeração à porta do prédio, armaram suas barracas de bugigangas, de pipocas, de salgadinhos e cafés. Tinha até um japonês mais com cara de italiano do que outra coisa, oferecendo yaksoba feito na hora. A situação se complicou quando duas grávidas desmaiaram e uma delas, apesar de estar no sétimo mês, entrou em processo de parto. E como complicou a situação a partir disso. Foi uma gritaria quase geral. Uns corriam para salvar as duas, de um lado para o outro, outros se afastavam apavorados. Os seguranças ao invés de ajudarem, atrapalhavam cada vez mais. Não sabiam se telefonavam pedindo uma ambulância ou se acudiam a parturiente que entrou em trabalho. Um delicado, engravatado, colocou a mão na testa e, propositadamente afinada, gritou numa voz aveludada:

- Help! I am going to passa aut, e lentamente escorado a parede desabou revirando os olhos.

Nisso surgiu o pessoal da brigada de incêndio, com seus jalecos de cores esfuziantes, o que provocou certo frisson apavorado, em querer saber onde estava sendo o incêndio. Apalermados, pois fizerem curso para combater incêndio e não para apaziguar multidões, os brigadeiros, meios que desajeitados, foram controlando a situação para que todos pudessem subir sem empurra-empurra. Para isso precisaram dos bombeiros que esperavam apenas um chamado para entrarem em ação. Colocaram os elevadores no manual com a ordem de só subirem cheios e descerem vazios diretos para o térreo.

As grávidas finalmente foram colocadas na ambulância que rápida disparou para o hospital. Dispersados os camelôs aos gritos de “rapa”, tendo o japonês com cara de italiano, quebrado seu carrinho de yakisoba num buraco da calçada, rolando ele, carrinho, yakisoba pela ladeira abaixo. Dali uma hora ou um pouco mais, a situação estava controlada. Os elevadores voltaram a funcionar no automático e, para o bem de todos e prazer das firmas e sossego do prédio, todos voltaram as suas mesas trabalhando alegremente. O delicado engravatado, depois de horas, esquecido, voltou a si, entrou no elevador pressionando o número do andar com gestos de raiva, desiludido porque não tinha virado purpurina.

sábado, 12 de março de 2022

Carta 10

Quando pude ou tive a coragem em comprar meu primeiro Lp, lembro até qual foi: Atom Heart Mother, Pink Floyd, o afamado disco das vacas. Então, quando tive essa coragem, pois todo o meu salário desde que comecei a trabalhar entregava na mão da minha mãe, depois de fazer as contas, pagar o aluguel, luz, água, o armazém, onde os gastos eram anotados numa caderneta, é que ela me dava certa quantia para os meus prazeres. Mas quando pude comprar o meu primeiro Lp, sem que tivesse de esperar o cálculo das contas, me senti importante, ou que tinha subido na vida, sei lá, sei que descobri a felicidade de percorrer lojas e lojas em busca do disco favorito, do disco que eu queria. Subia e descia a Avenida São João, evitava as grandes lojas por causa do luxo e dos preços, procurava sempre as bibocas mais escondidas, ficava com as pontas dos dedos sujas, pretas pela poeira que grudava nos plásticos dos Lps. E quanto às capas! Às vezes passava horas e horas apreciando as capas, umas mais criativas que as outras, capas excelentes, com estupendos desenhos...

Hoje, engolidas como os cinemas, pelo aparecimento dos shoppings, não há mais aquele romantismo, não há mais aquelas lojas, as bibocas e muito menos as grandes, as famosas, as importantes lojas. Talvez até tenha um romantismo, mas é um romantismo de shopping, de ar-condicionado, de movimento concentrado, de lojas e lojas oferecendo consumismo rápido, descartável, de namoros que se trocam todos os dias, um romantismo que não percebemos.

A volúpia que eu tinha na procura do Lp favorito, passou de uma certa maneira nem tanto compulsiva, mesmo que eu tenha dito que não compraria nenhum DVD, para a procura de filmes clássicos, de filmes difíceis de serem vistos, de filmes da década de cinquenta, sessenta, até mais recente.

Assim foi que um dia ao vascular as gôndolas das Americanas, no shopping Tatuapé, é que deparei com um filme que nem sabia que existia. Ele estava lá, envolvido pelos títulos absurdos chamativos, como se estivesse a minha espera. Ao ler o título, perguntei: que filme é esse. Deve ser um documentário. Valerá a pena comprá-lo? Até então não tinha atinado com o nome do diretor. Sem saber o do porquê, fiquei com o DVD rodando na mão por um bom par de segundos. O título não dizia nada, só confirmava minha suspeita de ser documentário. Palhaços era o título. Palhaços, intrigado li duas até três vezes. Foi quando, num instante de descontração, até pensando em devolver, notei o nome do diretor. E como um nome importante faz mudar um pensamento. Um nome que você sabe que é coisa boa, que não é picaretagem, mesmo com um título daqueles. Assim meio desaparecido na capa do DVD estava o nome do diretor: Federico Fellini. Não pensei duas vezes. Comprei.  

sexta-feira, 11 de março de 2022

Carta 11

 Sabe me parece que não tenho nada a lhe dizer. A ansiedade do que não tenho o que escrever, aumenta com a necessidade de que preciso escrever. Não parece, não e? Mas sou ansioso. Não é nada exagerado, mas sou. Isso atrapalha. Cria-se uma espécie de censor critico impedindo-me de escrever.  Talvez deva adotar o método Limpar a Chaminé, do Doutro Breuer*. O que concordo com ele. Indo no ponto nevrálgico do problema, falando do que me aflige, curar-me-ei do que sinto. Doutor Breuer é um excelente médico, o único senão é quando começa a falar do seu paciente Nietzsche onde de paciente passa a ser doutor e o doutor vira paciente. É meio confuso, meio rebuscado. Já viu falar em filosofia que não seja confusa?

Bom, seu eu for adotar o procedimento de Limpar a Chaminé, quer dizer que tenho que atacar o ponto central do problema. E aqui, qual é o ponto central que me aflige. Não é o escrever, isto porque, tendo ou não o que escrever, já estou escrevendo. E então o que será ou o que é? Vejamos... Não é falta de ideia. Não. É só ficar na imobilidade das ações que elas surgem. E o que é então? Não sei, sinceramente ainda não sei.

Venho participando de listas de discussão mais de vinte anos. E durante todo esse tempo só conheci pessoas legais, usando uma expressão nada condizente. Pessoas que muitas vezes me disseram me indicaram o caminho a seguir, pessoas inteligentes... Aí está um ponto, vamos dizer pertinente. Pessoas inteligentes. Não tenho nada contra elas, até aprecio uma pessoa inteligente, admiro. A maioria tem um falar elegante, uma escrita que prende, mesmo que seja o assunto mais banal possível. Você só tem de aprender com uma pessoa inteligente. E já conheci várias.

O único senão é que essas pessoas, não a maioria, mas algumas, não conseguem se colocar a altura. Parece que eles têm a necessidade de estar um degrau acima, parece que se não mostrar sua inteligência, sua intelectualidade, não estará satisfeito. É difícil para eles se comportarem com humildade, se colocar no mesmo patamar com a pessoa com que fala.

Trabalhava comigo uma pessoa, poeta também, que era atencioso com todos, e todos o admiravam. Perguntei a ele o do porque desse carisma que ele tinha. Ele me respondeu: tratos todos no mesmo nível. Se converso com um faxineiro, me coloco na altura do faxineiro, não vou me postar de intelectual com ele, não é ele que tem que se igualar a mim, sou eu que tenho que me igualar a ele. Concordei e passei a admirá-lo mais ainda.

E a meu ver, acho que os inteligentes deveriam proceder da mesma maneira. Mas infelizmente, a maioria tem um rei na barriga e nem se abaixam para cagar.


*Personagem do romance Quando Nietzsche chorou, de Irvin D. Yalom

quinta-feira, 10 de março de 2022

Carta 12

Sabe meu amigo, que tempos atrás, antes do advento do DVD, tínhamos as fitas VHS, não é mesmo? E toda vez que assistíamos a um filme, tínhamos que rebobinar a fita, era uma obrigação das locadoras, certo? Então, ao invés de adotar o método do Doutor Breuer, Limpeza da chaminé, adotarei o método de Rebobinar a fita, expressão que foi usada por uns tempos e que hoje caiu no esquecimento. O que não deixa de ser um excelente exercício mental. Se todas as noites, deitado, rebobinasse a fita diária, estarei exercitando a mente. Porém, ao que me refiro é um caso diferente. Eu explico, quer dizer, tentarei explicar, como sabe sou péssimo em explicar as coisas. Mas vamos lá.

Sentia-me preso dentro do fretado. Ao constatar que realmente estava preso, não me veio na hora, demorou um pouco. Sentia-me indisposto, impaciente, só tinha espaço da minha poltrona, só poderia encolher e esticar as pernas para uma direção só, por baixo da poltrona da frente e, por que me sentia assim? Por que a poltrona ao lado, do lado corredor, por dois dias veem sendo ocupada por uma moça, morena, bonita, que só acorda para me dar passagem. Assim durante toda a viagem pouco lhe interessa como eu estou, ou do porque me impacientava. Portanto, comecei a usar o método de Limpeza de chaminé, e a formular perguntas a mim mesmo. Por que me impacientava? Por que me sentia preso? Resumindo: impacientava-me por estar dentro do fretado durante quase uma hora sem poder me esticar. Sentia-me preso por causa da bela morena que profundamente dormia, se sonhava ou não pouco me dava saber. Preso porque não podia esticar as pernas pela poltrona onde ela estava. Preso porque só podia ter pequenos movimentos para não esbarrar e acordar a bela morena. Ao chegar a essa conclusão, decidi que era necessário eliminá-la. E como eliminar um problema? Pensando em coisas, ocupando a mente em algo fora dali, desligar a mente do corpo, das pernas, bem longe dali. Foi então que comecei a pensar em chaminés.

É em chaminé! Pense meu amigo. Será que uma criança hoje sabe o que é chaminé? Vamos supor uma criança de sete ou mesmo dez ou doze anos. Conhecerá uma chaminé? Talvez, sim através de filmes, desenhos, ou mesmo alguma revista infantil. E aumente a sua imaginação e veja a criança perguntando a mãe:

- Mãe, o que é chaminé?

Se a mãe dele for daquelas que gostam de passar conhecimentos aos filhos, dirá o que é uma chaminé, explicará em todos os detalhes, até dará um exemplo mostrando a bela coreografia dos Limpadores de chaminé do estupendo filme Mary Poppins, não é? Mas se for àquelas mães que não estão nem aí com os filhos. O que ela responderá?

- Pergunte para a tua professora, afinal pago uma escola para que? Para que eduque meus filhos.

O que você acha como será a formação dessa criança? Deturpada não é? Mas isso é assunto para outra carta crônica, não acha?
Foi então que pela milionésima não sei quantas vezes pisei na calçada da Avenida Paulista, formulei outra pergunta:

- Como surgiu no meu pensamento essa história de chaminé?
Fiquei por um bom tempo matutando sem ter uma resposta. Passei no banco, na banca, atravessei a Paulista, peguei o elevador, sentei-me em frente ao micro, tomei café, e não tinha ainda atinado como surgiu o assunto sobre chaminé. Só ao começar escrever essa carta, depois da terceira ou quarta linha é que atinei o do por que: o método do Doutor Breuer, Limpeza de chaminé, por causa dele é que surgiu o assunto chaminé em minha mente. Bendito sejam os livros, amém.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Carta 13

1


Delaine bocejou abrindo a boca num bocejar a ponto dos olhos lacrimejarem.
- Eita, soneira.

- Pois é.

- Ainda são oito horas e já está com sono, menina?

- Quer um pouco?

- Eu não. Quando estou com sono ninguém quer, porque agora vou querer!
- Tá certo, disse ela pegando o copo de café.

- Pode deixar, mais tarde estarei na sua mesa oferecendo o meu sono.
- Chega o meu não quero mais.

- Falou, até mais, respondi acionando o botão Leite.

Segundos depois o display informava que meu leite já estava pronto. Ergui a tampa, e retirei o copo plástico com leite quente.

2

Ao abrir da porta do elevador, Delaine gritou:

- Vamos pessoal, corram...

Logo o elevador encheu. Dileine, na sua voz nervosa falando mais que Cantinflas, grande comediante mexicano, falou:

- Como seu cabelo está bonito?

- Escova.

- Onde você fez?

- Naquela bicha descendo a Augusta.

- Você teve coragem de ir lá?

- Não tinha tempo de procurar outro.

- A escova que ele fez deixou minha cara parecendo bruxa.
Um esgar de riso contido se fez ouvir sem que ninguém percebesse.

3

- Ei, moço, tudo bem?

- Tudo bem, moça.

- Já estou lendo o próximo e-mail que você vai mandar, disse Rosa.
- E como você sabe se nem eu sei ainda?

- Pelo modo como você está olhando.

- Olhando?

- É. A conversa das duas.

- Ah! Não estava nem prestando atenção se quer saber.

- Estava olhando como se estivesse.

- Não estava não.

- Mesmo assim acho que você vai escrever.

- Bom, posso escrever, mas não no momento, talvez no futuro.
- Falou. Bom almoço.

- Para você também, disse ao virar a direita e depois a esquerda na Frei Caneca.

Legal, já que pensam no que vou escrever é sinal de que estou sendo lido. Isso é bom, ou não é?

terça-feira, 8 de março de 2022

Carta 14

Como passou o fim de semana? Espero que bem.

Sempre espero alguma coisa, não é? E por quê? Insuficiência de viver? Por não saber adequadamente viver dentro da vida que tenho? Não sei. E não sei se devo saber. Mas uma coisa é certa, nunca devo viver a vida que não é minha, e nem viver a vida para outra pessoa. Devo viver a minha vida sem culpa, sem angústia, sem remorso, sem ódio e sem a pecha de ser culpado por não viver a liberdade da vida que possa existir em mim.

Devo viver a aplicação em que meus textos os olhos veem sem sentir o momento, o vazio instante. Desnudar o olho que me vê mais autentico, sem escárnio e sem pudor do presente mesmo que seja oscilante, mas que seja ele próprio e não ver por outros olhos.
E com o olho desnudo, percorrer tudo esclarecendo o nada que possa o medo trazer na evolução de sentir o medo. A essência vital da córnea vibrará nos contornos da vida entre a oscilação dos corpos fracos de queixumes ao ofertar pelos cantos o amor carnal. Sentir a força que há na face, vibrar o olho estarrecido diante do que vê. Ouço da boca masculina os gestos contornando gestos na caricia de sentir o próprio ato de criar o gesto.

Vem-me a dor, a dor de sentir que não tenho antes de conhecer a dor que me acompanha em todos os instantes. Ah! Dor! Dor! Esbraveja sua incompetência na dor que sempre tenho. Esbraveja tua carne retalhada em postas de sangue, em nacos de desejos se fartando da minha carne. Suga todas as partículas que há nas fibras e, sorria feliz por ter conquistado o direito de ser. Esbraveja tua alegria incontida num copo de cerveja enregelando a alma.
Depois, se desejar ser necessário, deite tua cabeça na morna ausência de luz da madrugada, e, durma o sono de ser apenas um ser único e consciente de existir para o todo sempre que lhe for possível viver.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Carta 15

 Acho que não está resultando em nada essas cartas. Há uma leve suspeita de que ainda não encontrei o ponto certo para continuar vivendo. Relembro que disse há muito tempo que tinha eliminado a palavra “porque” e, descobri que usei essa palavra nas últimas cartas que te mandei. Verifique que a encontrará. Se achar necessário, pois só assim é que haverá cura, mande-a de volta. Quem sabe ainda há salvação. Quem sabe possa refazer de outra forma com palavras desinformadas de sentimentos, de gente, crua, válida para todas as horas. Encaixar as palavras em novos sentimentos, em novas ideias, em novas esperanças, quem sabe chego ao ponto certo!?

É preciso que haja uma liberdade, mesmo secundária, uma liberdade de se movimentar entre os parâmetros do eu e do eu que em mim não existe. Escolher os passos do caminho construído ou por mim construído. Não devo depender do que não sei o que me acontece. Devo independente ser o acontecido para sentir-me um ser. Entende? Não me interessa apenas ser. Ser apenas ser porque meu destino assim promulgou que eu deva ser não me satisfaz. Sendo eu o ser que eu sou, terei mais forças em ser o que não quero continuar sendo. Entende? Só assim poderei ajudar quem de mim precisa de ajuda.

Só assim chegarei até você

Só assim terei à alegria de você.

Só assim morrerei feliz por você.

domingo, 6 de março de 2022

Carta 16


Fizeram uma vez uma enquete e o resultado foi que, noventa por cento do brasileiro não assimila o que lê. Acredito, e sou um desses noventa por cento. Sou e não me envergonho isto porque sempre vivi meio que isolado, isto é, sempre sozinho, tudo o que lia ficava para mim mesmo, não tinha com quem discutir. Muitos poderão entender como uma desculpa para essa minha falha, que seja uma desculpa, pouco me importo. Desde pequeno, que me lembre, estava sempre com uma revista, um jornal, livro, debaixo dos meus olhos castanhos escuros. Não posso afirmar com certeza, mas o primeiro livro que li foi um do Érico Veríssimo, livro infantil. Depois os meus belos olhos castanhos escuros exigiram leituras mais profundas, mais consistentes...

Preocupava-me mais com a história do que com o que o autor queria transmitir, com belas frases, com palavras bem colocadas, com a poesia do texto em sim. O que me preocupava era a história dos personagens, a trama, o drama vividos por eles, Heathcliff me acompanhou por muito tempo, ainda me acompanha, só que hoje com outros olhos, com outra visão, sem aquele terrível destino que o levou a loucura por sua adorada Cathy. Assim foi com Jean Valjean, com os personagens da sufocante casa de Nina, Valdo Menezes e André, como foi também com William de Baskerville e seu discípulo Adso von Melk, até que descobri a coitada da Macabéia, aí foi uma porrada, um desbunde que ainda não consigo digerir com facilidade.

Um conselho que lhe dou, se conselho é para ser dado, o que muitos acham que não. Nunca assista a um filme adaptado para depois ler o livro. Leia o livro primeiro e depois assista ao filme. Pois, ao ler um livro que foi adaptado ao cinema, você terá as imagens do diretor e não as suas. Ao ler o livro você tem a fascinante emoção de criar o seu personagem, a sua cena, como será a ação, entende? Esse é o prazer da leitura. Leia primeiro e depois assista o filme. O que lhe permitirá avaliar a autenticidade do trabalho do diretor. Dois casos, dois não, quatro que bateram com o livro foram: O Nome da Rosa, A Escolha de Sofia, A Crônica da Casa Assassinada e A Hora da Estrela, os quais recomendo ler o livro e assistir o filme.

Você critica Stephen King, mas vou justificar o porquê o leio.
Mas vamos deixar para a próxima carta, certo? Não vamos acabar logo de cara com os assuntos.

sábado, 5 de março de 2022

Carta 18

          

                   Para Virgílio 

          
A dor latejava no lado esquerdo. Conforme se mexia trespassava o cérebro indo se alojar no outro lado. Evitava assim, mexer a cabeça. Sentia suor frio. Passou no boteco. Pediu uma talagada, pouco se importando com a cara de buldogue do Nilton, e virou o copo de uma vez. A bebida desceu rasgando a garganta bateu no estômago e, voltou na mesma velocidade que descera. A boca se encheu de vários sabores obrigando-o arrotar azia. Sentiu-se melhor.
Durante o trajeto do ônibus, se entregou ao sono, só acordando ao ser tocado no ombro pela Thais, a coordenadora.
No momento em que pisou no calçamento, a luz da manhã meio que ensolarada, se infiltrou nos olhos desnorteando-o. Parado no mar de pessoas, sendo esbarrado de vez enquanto, se aprumou, esticou o corpo e, com o pé um na frente do outro, se equilibrou e começou a andar. Fitou a frente. Não conseguia distinguir o movimento, parecia tudo uma mancha única. Precisava de outra talagada. Entrou na primeira lanchonete e pediu mais uma. Pela segunda vez a bebida desceu rasgando as paredes da garganta. Ao bater no estômago, a boca foi inundada de saliva ácida obrigando-o, novamente a arrotar. Agora sim! Estava pronto para enfrentar a segunda-feira. Recuperado as forças, atravessou a avenida, e em dois segundos estava sentado à frente do computador.
Relanceando os olhos pelo ambiente, num sentido de cento e oitenta graus, percebeu o clima de piadas e chacotas com direito a bandeiras e fotos dependurados em várias baias. Franziu a testa. Não gostava desses fanáticos por futebol. Por infelicidade, o time que mais detestava tinha sido campeão. Numa frustrada tentativa, não conseguiu fechar os ouvidos ás babaquices dos amigos. O pior de tudo era o Delano. Sentado a sua frente, além de ser fanático, começou a cantarolar de lábios fechados o hino do time vencedor. O sangue começou ferver. Pulsava dentro da veia sem proporção nenhuma de que fosse se acalmar. Rapidamente desceu as escadas, queria evitar encontrar com fanáticos, disse a si mesmo. Novamente, agora faltando pouco para a hora do almoço, entrou no bar e mandou para baixo mais uma talagada. Pronto, readquiriu as forças. Estava pronto a enfrentar o vozerio absurdo do pessoal.
Entretido nos afazeres, percebeu que estava sozinho na sala. Decidiu descer. Mas ao passar pela baia do Valtirene foi que percebeu a toalha, com o emblema do time, pendurada. Sorriu maldosamente. Tirou o isqueiro do bolso, acendeu e encostou à ponta da toalha. A chama amarela lambeu o tecido felpudo avançando lentamente. Rapidamente, abriu a porta da escada e quase num pulo, estava outra vez no restaurante tomando outra talagada.
Dessa vez demorou mais para voltar. Afinal estava na hora do almoço e ele não precisava chegar na hora certa. Assim sendo, pediu outra e, dessa vez, saboreando cuidadosamente cada gole, ficou imaginando o que estaria acontecendo. Terminado a degustação, gostava dessa palavra poucas vezes empregada, pagou e saiu.

Ao entrar na sala depois de liberar a porta de vidro passando o crachá no lugar indicado, espantou com a normalidade reinante. Parecia que nada havia acontecido. Onde estava aquela merda de toalha? No lugar em que estava pendurada via-se uma pequena mancha preta. Sinal de que queimara. Curioso não podia perguntar para não levantar suspeita. Foi então que Valtirene saindo do banheiro trazia a mão à toalha. Reparou que ela estava toda molhada. Deduziu que Valtirene chegou a tempo de apagar o fogo. Como Valtirene nada disse, nem se revoltou, ficou quieto, ficou na sua.
Ninguém ficou sabendo de sua travessura. Só tempos depois, quando fora afastado por doença, é que contou o que fizera. Como sabiam do seu alcoolismo ninguém acreditou. Indagado, Valtirene, talvez medroso, não confirmou nada. Assim, mais um boato, mais uma história fora adicionado a tantas histórias que corria sobre ele.
Três meses depois, foi noticiado o seu falecimento.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Carta 19

      

Bom dia isso, bom dia aquilo, vozes que se esparramam na congruência maligna da vida insuportável. Merda! Merda e merda, é só o que posso dizer, não sei explanar condignamente a merda congruente disso e daquilo. Tudo é amalgama do sentir intenso que me faz perecer a todo o momento, a todo minuto e a todo segundo.
Respondendo ou não ao bom dia ou, ao boa tarde, arrasto a carcaça de merda pelas vias da vida sacrificando meus intentos. Piso nas células concretas da minha carne como alfinetes que me espetam diariamente. Aceito as agulhas na esperança em ter mais um sacrifício alimentado de esperanças fugidas nos braços prostitutos pelo prazer de pagar para ter prazer. E prazerosamente, me acolho nos cantos escuros das almas sombrias onde durmo meu sono de fracassado sonhos irrealizáveis. Durmo, durmo nos braços de quem não me tem e que nunca me terá por ser eu o que sou e, não ser o que todos queriam ou pensavam burguesamente que eu pudesse ser. Sorrio evangelicamente na putrescível existência de ser eu tão somente.

quinta-feira, 3 de março de 2022

Carta 20

      

a gente morre
                morre a gente
                             
por que?
 
a gente morre
             morre  por ser agente
                                  do desamor
                                  de vírus
                                  de crimes
                                  de estrupos
                                  de guerras                                          

morre a gente
            a gente morre
            e eternos vivemos
           
                       entre agentes
                                            do desamor
                      de vírus
                      de crimes
                      de estrupos
                      de guerras        
                      ........................

quarta-feira, 2 de março de 2022

Depois do almoço.

 Depois do almoço.


Tomado pela sonolência que o almoço provoca, tinjo-me de uma cor opaca, meio que cinzenta, talvez por causa do frio úmido riscando os espaços de formas e figuras indefesas lutando para sobreviver neste mar revolto da Avenida Paulista.

Palavras surgem à mente sem impor uma coerciva criatividade, sem conectar mentalmente no que escrevo, apenas cria-se uma demência para que elas, as palavras, sejam impressas na tela branca do monitor, como forma de expressão nada mais.

Surgindo em relâmpagos fugaz, uma ou outra palavra, escapa e se fixa aleatoriamente descarregando sua eletricidade aparentemente de conteúdo além da expectativa.

Os prevenidos sabem da escassez que há nessas palavras, mas os não prevenidos se embevecessem diante de uma grande pérola rara que deve ser eternamente admirada.

terça-feira, 1 de março de 2022

Destino


Na transeunte vida

Os passos da cruz

Carrega o individuo

O teu destino

 

Destino sem cruz

Seria viver

Não mais

Minha vida

Ao teu lado 

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...