domingo, 31 de julho de 2022

Palavras dispersas nas tardes de sábado.


O carro passou rente
Ao corpo estendido
No chão preto
De asfalto

A chuva levou
O sangue para
O bueiro

O Tietê
Não comporta
Fragmentos de vida

E navegar
Nos sonhos
Da poesia
Tornou-se
Impossível

sábado, 30 de julho de 2022

Três filmes. Três mediocridades.



“... E O Vento Levou – uma história onde a personagem passa o tempo todo atrás do homem que ela pensa que ama e depois descobre que ama outro. Vou te contar! Oh! história besta.


“Casablanca” – filme sem história, romance entre os personagens não convence, não empolga, não tem clímax. O herói quando abre a boca parece um bêbado em ultimo estágio da bebedeira.

 
“Cantando na chuva” – história sem história, só por ser o primeiro, creio que seja a tratar do assunto de transição do cinema mudo para o sonoro. As canções não empolgam, nem mesmo a canção título que, com o perdão da palavra, já encheu o saco.


Três filmes considerados clássicos. Não empolga. Não passam mais do que medíocre diversão na sessão da tarde.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Fragmentos.


Nos lábios da folha arrastada pelo vento, todas as manhãs, ele beirava o pequeno limite da razão confiante da sua intelectualidade. Da janela fechada, reparava que as folhas resistiam contra a força do vento. Algumas, como sabendo do seu teor de sobrevivência, eram arrastadas para baixo de algum objeto que a protegesse. As fracas se deixavam levar sem resistência, como se delas fossem o destino de serem o que são: fracas. As submissas, arrastadas compulsivamente, se integravam ao ambiente em que foram depositadas, submetendo-se aos vermes e detritos lentamente se desintegrando ao solo tornando-se, assim, fertilizante.

Leu uma, duas, três, quatro vezes o que escrevera.

Reconheceu. Finalmente ele era poeta.

Rasgou o monitor em mil pedaços e jogou na cesta de lixo os fragmentos da sua vida.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

O sonho


O pensamento rasgava o silencio. O corpo na quietude da carne e os ossos se debruçavam na inquietude das sombras colaborando para enriquecer as formas difusas. Os olhos fixos no teto de madeira saboreavam a mancha escura de abstrata ilusão fazendo o peito arfar num ritmo controlável. Pelos cantos dos olhos, sem movê-los, distinguiu claramente o vai e vem das pessoas ao querer solucionar algo que estava fora do seu alcance. Ouviu um soluçar de lágrimas contidas. Em seguida um assuar de nariz entrecortado por soluços pequenos. Não conseguia distinguir se era homem ou mulher, criança não era, tinha certeza. Não tendo outra coisa a fazer, a não ser ficar deitado, num controlar a respiração, numa rigidez absurda, apurou o ouvido em direção ao choro. Mesmo assim, foi impossível notar a procedência. Momento lhe parecia homem outras vezes, parecia mulher. Optou por mulher, pois homem é mais difícil cair no choro, já a mulher por qualquer coisa abrem a boca, disse sorrindo sem mexer os lábios. Gozado, sentiu-se sorrindo sem, no entanto sentir a boca se mexer.
Sonho. Será que estava sonhando? Como se sonhava sem estar propriamente dormindo! O que não conseguia e, por várias vezes tentara sem êxito, se mexer, isto é, os músculos, os nervos, a pele, a unha reagiam ao comando sem que ele movesse sequer um milímetro que fosse do corpo. Rígido, foi que percebeu, estava rígido. Como ficará desse jeito? Por que tinha a sensação de algo que já fora, de algo predestinado a seguir adiante, de algo sem noção do que seja e nem para onde irá? Um gosto de fuligem, madeira queimada, misturada a cinza quente o envolvia por todos os lados. O pior é que a quentura da pele tornava-se insuportável. A noção que lhe vinha à mente era de que queimava sem dor, sem queimadura. Vivia o calor abrasador, mas esse calor abrasador não o importunava, não o queimava, as chamas lambiam seu corpo intensamente, por todos os lados, por todos os cantos e não sentia o calor. Fechou os olhos, encarapitou-se no pensamento e rasgou o silencio.
Ao abrir os olhos, veio ao seu nariz um odor de cinza. Arrepiou-se, estava totalmente coberto por cinzas escuras e brancas, com manchas marrons. Flutuava, disso tinha certeza, flutuava os pés não alcançavam o solo, a terra, a areia. Ouvia o marulhar das ondas sem que elas chegassem aos seus pés. O corpo se desintegrara, pois a noção de corpo surgiu em pequenos pedaços de carne esturricada, pequena envolta pelas cinzas. Deixou de formular perguntavas que não lhe respondiam nada. Um pequeno calor ainda lhe aquecia. Sem saber se horrorizado ou não, constatou, sua percepção não captava mais o todo, e, muito menos as partes, tudo era um amontoado de cinza quente. Relaxou não se preocupava com mais nada.

Foi então, que a água salgada o arrastou para as profundezas das ondas, sepultando o que ele um dia fora. Ao longe uma gaivota lançou seu trinado de fome. O sol se escondeu entre as nuvens e, na praia, uma figura ajoelhada, talvez, rezava uma oração à mãe natureza sem perceber a onda beijando seus joelhos.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Palavra


Deslizou nas linhas das palavras.
Nos pigmentos borrados de tinta, adquiriu a essência da carne.
Nas letras cuidadosamente digitadas, conseguiu viver mais um pouco.
Nas curvas de cada letra deparou com novas descobertas.
A palavra surgiu na visão dos sentimentos tímidos.
Nos pontos, criou os instantes para reflexão.
E nas vírgulas, visualizou a oportunidade para continuar.
Aperfeiçoou-se sem cair no minimalismo perfeccionista.
Foi então que percebeu ter caído na prostituição da palavra.
Tornou-se amante da palavra e, por ela, era conduzido.

terça-feira, 26 de julho de 2022

Religiosidade

        

Da verdade quero a mentira que cala
Da mentira que cala quero a sinceridade
Da sinceridade que escuta a verdade
Quero a fidelidade sem preconceito

O grito revela as vozes nos escombros
Mortas de angústia e fome esclerosada
O rugido doloroso impera na solidão
Todo dia suicida-se o faminto por desamor

Não comungo a fé religiosa no Diabo
E não creio na demoníaca fé em Deus
Vivo tão somente a crença de ser eu

Sedento e faminto pela milionésima vez
Escalei o monte Sinai e decepcionado
Aos pés de Moisés inclemente morri

Desfrutando a beleza da maldita saudade

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Meus amigos

Contarei um segredo.


Não sei escrever
Nem aqui
Nem ali
Nem na Casa das Rosas
Nem no El Malak

Sei escrever só na beira do copo do desespero
Sei escrever só na calma do cálice de vinho
Sei escrever só na angústia de ser-me vivo
Andarilho, maltrapilho e sem destino

Não escrevo por que gosto
Escrevo porque necessito
Escrevo porque há um grito
Levando-me ao infinito

Não sei escrever
Como fulano
Nem como sicrano
Não estou nem aí pra rima
Muito menos para as sílabas

Escrevo sem inspiração
Escrevo de supetão
No amontoado das palavras
Aparando arestas
Distorcendo figuras
Recriando composturas

Caros amigos poetas
Vamos cantar nossas alegrias
Em cada gota de sensibilidade
Em cada copo de cerveja gelada
E brindemos ontem hoje e amanhã
A nossa querida amiga a poesia

domingo, 24 de julho de 2022

Hildebrand

Hilde olhou o fósforo queimar até chegar ao seu dedo. Acendeu o cigarro jogando fora o fósforo queimado. Deu uma longa tragada e, em seguida, soltou à fumaça em espiral que dançou no ar em formas que se desfizeram no espaço acima de sua cabeça. Nas grossas juntas dos dedos, pequeninas agulhas espetaram obrigando-a fechar e abrir a mão várias vezes. Um esgar sorrateiro se fez surgir no canto esquerdo da boca.

- Escuta o que estou lhe dizendo: nossos filhos vão crescer e casar e ainda estaremos morando aqui.

Com que ódio notou nessas palavras! Com que raiva o ouviu dizer numa voz empostada como se fosse o dono absoluto...  Dela? Não, de todos, até da casa. Dono! Quem era ele para se julgar dono de alguma coisa? Era um idiota, sempre fora. Vivia dizendo isso para ele, até que um dia se confessou pateticamente.

- Sim, você está certa sou um idiota, e por quê? Por que tenho que aturá-la a vida inteira.

- Atura porque quer, respondeu ela.

Hilde acendeu outro cigarro. Verdade que se diga. Nesse ponto estava ele certo. Os filhos cresceram, noivaram, casaram e eles não saíram dessa casa, pensou lançando o olhar pelas paredes vazias. Percorreu com a ponta dos dedos as bordas dos CDs. Os queridos e idolatrados CDs que ele gostava, e que a azucrinava de tanto ouvi-los. Com raiva morna deu um tapa no topo da pilha jogando dois CDs. Ao comando da mão, as duas caixas voaram o espaço e bateram na parede. As caixas se abriram e os dois CDs caíram no chão. Num ímpeto desnorteado, começou a lançar um por um contra a parede. Logo o chão ficou coberto de caixas e CDs espalhados. Furiosa, passou a pisotear quebrando as caixas e os CDs, até que se dando por satisfeita, jogou-se na poltrona. Por instantes fechou os olhos embalando-se nas linhas vingativas da vida. Deixou-se entretida a espera da pulsação voltar.

É Hildebrand podia realmente constatar essa verdade. Que raiva tinha desse nome! Hildebrand, disse numa voz sarcástica. Onde foram arrumar esse nome? Sozinha, todos se foram, os filhos se mandaram cada um cuidando da própria vida, a irmã, a mãe falecera, o marido se mandara com outra, assim diziam, logo que o último filho se casou. Nem as amigas que tanto admirava não estavam nem aí com ela. Não a procuravam. Por outro lado, deixou de visitá-las. Para que? Não tinha mais o mesmo mistério, o mesmo sabor. Acendeu outro cigarro. Nisso ouviu o som de sirene. Policia? Ambulância? Pouco se importava com o que quer que fosse. O que queria era ficar no seu canto, na sua cadeira.

Nisso ouviu um estrondo, parecia que arrombavam a porta. Fechou os olhos, queria, precisava dormir se entregar ao modorrento sono. Seus olhos não a obedeciam, parecia que a obrigavam a ver, a notar na sua frente um homem de avental...

- Está morta, disse inclinado sobre o corpo dela.

- Vamos levá-la, disse o outro homem com avental.

Embasbacada, sem conseguir pronunciar uma palavra, viu os dois homens colocar seu corpo na maca e saírem pela porta da sua pequena e querida casa. E sem saber onde e nem porque de onde estava, via aos poucos sua casa sendo comida pelo tempo até, que um dia chegaram às maquinas e derrubaram. Soube que em seu lugar ergueriam um edifício comercial. Essa foi à última notícia que tivera sobre a casa.

sábado, 23 de julho de 2022

Ópera.


Vou de mim mesmo. Vou seguindo nas sombras cinzentas dos edifícios amanhecidos de tortura humana. Componho palavras desajustadas a espera que algo possa acontecer a esses sofríveis emaranhados desejos. Furtos sentimentos paranoicos esquizofrênicos, melodramáticos, e outros cambaus a quatro. Piso asfalto rugoso cheirando a pele suave da cidade que amanhece regurgitando baforadas de gasolina e veneno alcoólico da madrugada.  Levo-me a encontrar o eu que não sou. Vomito a excrescência do parto natimorto ejaculado displicentemente.    
Gritam profetas da sabedoria universal sem entender a sabedoria individual. Somos perdidos nos escombros de nos mesmo. Choram profetas da verdade as mentiras estampadas nos rostos dos tecidos mal tecidos.  Nas fibras das peles emudecidas de medo enregelando vidas. Profetizam anátemas suicidas contra o sistema ejaculado entre pernas sedentas. Profetas de merda escorrem feridas pustulentas de palavras vazias, de palavras com a neurose vencida. Profetas que te quero longe de mim.

Escalo a escala emocional revelando-me nos acordes dos meus passos indecisos. Pontuo cada gesto na conformidade musical da sonora avenida. Rasgo-me nos timbres graves silenciosos cujas bocas anseiam beijos esquecidos. No alegre ma non troppo vou criando o libreto da ópera da minha vida.

Garanto será a pior ópera de todos os tempos.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Ah! Amanhã é outro dia.


Ele considerou. Tinha que considerar. Se não considerasse o que lhe aconteceria? Aí está uma pergunta que diria, vamos assim dizer: sem resposta. Como prever o que lhe acontecerá? Ninguém tem uma resposta certa para essa pergunta. O máximo que se poderia fazer era uma consideração dos fatos positivos ou negativos. Bom, isso todos tem. Não há uma pessoa totalmente positiva assim como não há uma pessoa totalmente negativa. E ele? Como se considerava? Positiva ou negativa? Vejamos, disse olhando no espelho sua cara amarrotada de sono e ressaca. Naquele momento só teria a dizer que era negativo. Sim negativo porque enchera a cara na noite anterior e, por uma infelicidade imprevista, deixou os amigos enroscados na conta da boate, e, por não ter tido condições de levar o amigo que necessitava de apoio, até a casa dele. Isto é, foi duplamente negativo. Mas me diga uma coisa: algo feito sem premeditação poderia contar como negativo? Claro, não estava previsto toda aquela bagunça envolvendo-o a ponto de se embriagar. A questão era que prometera ao amigo não deixá-lo na mão. E o que fizera? Deixou-o no meio da alcateia pronta a lhe dar o bote. Argh! O gosto de ferrugem não saia da boca. Tomou um bom gole de água gelada. Arrotou azia tropeçada no sabor ácido do que comera. Uma ânsia subiu pela garganta provocando outro arroto. Procurou alguma coisa para beber. Revirou os armários da cozinha, do banheiro e não achou nada. Abriu a geladeira e pegou uma lata de água tônica que virou goela abaixo de um gole só. Pronto.  Começou a se sentir melhor. Jogou-se no sofá afundando o rosto no travesseiro e caiu no sono rapidamente.
A agulha espetava seu cérebro. Queria gritar, mas a voz não saia. Enfiou a cabeça debaixo do travesseiro, continuava a ouvir o barulho da agulha penetrando em seu cérebro. Ouviu a agulha? Agulha faz algum som? Não. Então de onde era esse som estridente? Como muito custo chegou à conclusão que era a campainha que, pelo jeito, estava tocando há muito tempo. Levantou tropeçando nas roupas. Reparou que estava nu. Envolveu o lençol no corpo e foi abrir a porta. Ficou engraçado. O lençol cobrindo-o da cintura para baixo e o restante puxando o que encontrava pelo caminho, como se fosse uma cauda de vestido. Teve um momento que se enroscou, deu um safanão pouco se importando com o barulho de algo caindo. Merda! Quem vem me acordar a essa hora da madrugada. Olhou para o relógio era duas horas da tarde. Credo! Dormi todo esse tempo? Encostou um dos olhos no olho mágico. O que? Ele estava a sua porta? Por quê? Deveria abrir? Claro. E ao mesmo tempo em que formulava essas perguntas, abriu a porta.

- Desculpe se te acordei, disse ele.

- Imagina, já estava levantando.

- Mentiroso.

- Tá certo, acordei agora com a campainha tocando, e daí?

- E daí que vim buscar minhas coisas.

- Por quê?

- Ainda tem a coragem de perguntar o do por quê? Ora bolas...

- Tudo bem, eu errei, não pode me perdoar?

- E para que? Para repetir novamente e novamente e novamente?

Não obrigado, não preciso da sua ajuda.

- Espere vamos conversar.

- Não temos mais nada a conversar.

- Você está sendo injusto.

- Injusto ou não, tchau, passe bem.

Saiu batendo a porta. Ele deixou o lençol cair aos seus pés.
- Droga! Saiu tudo errado.

Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de uísque, encheu uma boa dose no copo, sentou no sofá se entregando a mordomia de se embebedar a tarde toda.

- Ah! Amanhã é outro dia, disse meio sonolento.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

As duas faces da mesma moeda


Caro amigo, concordo
O mundo é um caos
Pisamos em espinhos
Colhemos rosas
Futebol é uma droga
Teu colega é um chato
Imbecil, puxa saco
O sonho vai para o ralo
O vizinho matou teu gato
Morre um aqui outro ali
Um parente, filha ou filho
Pai ou mãe, avô ou avó
Do outro lado do mundo
Terremoto, tempestade
Fome, terrorismo
Guerra, assassinato
Epidemia, câncer
Aids, gripe e vacina

Concordo, é um caos a vida
A individualidade é gritante
A cada esquina um assaltante
Em cada esquina uma prostituta
Morrendo a cada luta
Em cada semáforo
Um olho de fome vendendo
Para uma vida melhor
Limão de esperança
Leve vantagem diz o safado
Entulhando a calçada
De bugigangas roubadas
“No escurinho do cinema”
Famintos do sexo
Entregam-se a volúpia da carne
Sem preconceito sem complexo
Sem conflito
Morre o mito
Enriquece a mídia
Entre pequenos relatos
No canto da página
Noticia-se a morte
Do verdadeiro mito

A alma é um caos, realmente
Sentimentos puxam a gente
A seguir em frente
Às vezes contente
Às vezes confiante
Outras vezes somos jogados
De um lado para outro
Numa sequencia
Sem precedentes
Quase assassina
Seguimos íngremes trilhas
Construímos nosso caminho
Abrimos portas
Fechamos outras
Fortalecemos assim
O nosso destino
Confiamos cegamente
Na palavra amiga
No abraço reconfortante
No sorriso acolhedor
Temos dois braços
Tuas pernas um sexo
Temos ouvido
Nariz boca e tato
Vemos sentimos
Saboreamos ouvimos
Choramos e rimos
Transamos e comemos
Exaustivas vezes

A moeda tem duas faces
Temos o livre arbítrio
Para escolhermos
O que preferimos
Portanto meu amigo
Veja os prós e os contra
Antes de entrar
Consigo próprio
Em conflito

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Poema boiola


Para o dia ser feliz
Sorri deslumbrante
Deixe de ser aprendiz
Seja mais confiante

Seja forte vibrante
Nos gestos na voz
Expresse esfuziante
O dia a dia atroz

Não se esquente
Com o que se diz
Seja o que for
Dê sempre valor

Aos teus atos
As tuas ações
Ao teu caminho
Mesmo sem destino

Refestele-se na rede
Beba a tua cerveja
Abrace tua amante
E mande tudo

Pra puta que pariu
Pois o que interessa
É viver bem
E sem pressa

terça-feira, 19 de julho de 2022

Palavras perdidas num sábado a tarde.


No percorrer do dia a dia
Transcorre minha dura sina
Preso estou a tua vida

_______________________________________

A morte ronda as ruas escuras
Nos passos furtivos do ladrão
Ninguém escapa da prisão
Nosso destino é a sepultura

__________________________________________

Tenho na mão
A vida inteira
Carrego nos sinais
O amor peregrino
Vou levando a vida
A beira do abismo
Protegendo meu destino

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Suicídio

Suicídio


Cada movimento
Concretizo o vento
Cada passada
Registro o nada
Se tudo concretizo
Perco o juízo
A vida passo
De braço dado
Com a morte
Se tiver a sorte
Dou uma escapada
Ela que não me pegue
Nas horas alegres
Ela que me visite
Nas horas tristes
Quando solitário
Estiver sem vestuário

Não há sacrifício
Sem o artifício
Viver fugindo
Da tua companhia
Linda companheira
Desde que nasci
Está ao meu lado

Vem me abrace
Me leve ao sossego
Sem ter o apego
Desta terrena vida
Onde desvencilharei
Toda experiência vivida

domingo, 17 de julho de 2022

Espetáculo


               1

No silêncio dos passos
Não descarto o perigo
Leva-me o desatino
Reduzindo o que sinto

A palavra transporto
Na mochila eternidade
O sentimento disperso
Pelos cantos da cidade

Não choro as perdas
Recolho os danos
Costuro-os no pano
Da pele como fardo

Da tristeza espalho
A semente daninha
Na rua praça esquina
Sem mudar minha sina

Não dou à mínima
Para mágoa raiva
Ódio dúvida e dor
Resvalo sem pudor

              2

Quebra-se o encanto
A mídia maravilhada
A câmera deflagrada
Revela o fútil espanto
Os fãs a chorar o morto
Em show de realeza
Como se fosse santo

Ao espetáculo circense
Tudo é permitido chorar
Rir cantar até o nonsense
Da pantomima televisada

                   3

A vida vou levando
Dia após dia interrupto
Manhã após manhã
Minuto após minuto
Jubilo-me agraciado
Por viver neste afã
E não ser idolatrado

                  4

Vivo a mundana vida
Costurando feridas
Pagando as dividas
Em datas previstas

E proibido ou não
Prazeres vou curtindo
Saciando-me de vícios
Trilhando caminhos
Até alcançar o ideal
Infinito sem regras
E sem prioridades

sábado, 16 de julho de 2022

Se contenha.


Não há palavra sem sentido
Não há sentido sem compromisso
De sentir o que o sentido possa
Em relação a dois seres sentir

O sentido deflagra ações sutis
Ações abrangentes que levam
Os passos avançar ou retroceder
A chorar ou somente receber

Não há palavra sem ação
E nem ação sem sentimento
O que há é um querer sentir
O que além se possa advir

Minha palavra não é a mesma
Minha palavra se transforma
Adéqua-se ao momento instante
Da carne que vibra pulsante

Carne tremula vibra pulsante
Ao carinho da mão amante
Carne que reclama presença
Todo momento constante

Regozija-se com os infortúnios
Sem que desesperado venha
Perder a tua doce inocência
Regozija-se e se contenha

No conforto da paciência

sexta-feira, 15 de julho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.797(2022)

                      

         Merda. Hoje ao colocar água no filtro percebi que quebrei a vela. Pois é! Como quebrei? Quando quebrei? Não sei. Não lembro. Soltei um berro de puta que pariu. Quando foi a última vez que lavei o filtro? Será que foi nesse momento que quebrei a vela? Se fosse teria notado, não é? E não percebi. Como não percebi? Quebrei e coloquei a vela quebrada? Que dia foi? Ontem. Hoje. Semana passada. Não sei. Não lembro. 0lho no espelho. Não me reconheço. Quem sou eu? O cara que me olha não me responde. Forço a me lembrar quem sou eu. Forço a me lembrar dos últimos eventos. Forço a me lembrar das últimas ações. Carallho! Não lembro. Estou sentado no sofá. Como vim até aqui? Alguém me trouxe? Me jogou no sofá? Não sei. Não quero pensar. Algo me diz que pensar é sinônimo de vida. Ouço vozes. Não distingo o que dizem. Meu peito sobe e desce uma duas três quatros vezes. Os olhos pesam. Fixo o olhar num ponto infinito. Meu viver. Essa ponta do tecido da blusa tenho que virar dessa maneira. A mão de alguém interrompe o que faço. Droga! Levanto-me. Preciso comprar outra vela para o filtro. Não me deixam. Levam-me de volta e me jogam no sofá. Não quero ficar aqui. Quem é você? Qual o seu nome? Não chore...

         É isso ... ou, não é?

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Uma linda história de amor.

Despreocupado, calça para baixo da cintura mostrando a cueca Calvin Klein, camisa meio aberta onde sobressaltava a pele musculosa de academia, ao cruzar pela moça, ele a ouviu dizer:

- A braguilha está aberta.

Ela passou e disse:

- A braguilha está aberta.

Pouco se importando com o que poderia suceder com o rapaz e, tão pouco olhou para traz para constatar se ele tinha ouvido ou não. Passou sorrindo ao pensar no embaraço do rapaz que, todo portentoso, achando-se o máximo, estava com a braguilha aberta quase mostrando o que não deveria mostrar em público.
De repente, a cena a sua frente muda completamente.
Vê andando pela calçada, uma menina alegre na infância onde não tinha espaço para o futuro. Andava rente a parede talvez imaginando algo que a entretinha naquele momento. Nisso em sentido contrário surgiu dois rapazes falando alto. Ao chegar perto dela um deles disse:

- Olhe aqui menina o que você acha, e, ao mesmo tempo abriu a braguilha e mostrou para ela.

Nos seus doze anos não sabia o que era aquilo. Um troço mole, com alguns pelos saindo da calça, deixou-a assustada.

- Venha aqui, pega nele, veja como é gostoso, não tenha medo, disse o rapaz.

Ela curiosa, com um pouco de medo, esticou a mão e tocou sentindo um estremecimento que a fez retroceder.

- Que isso, vai, não tenha medo, pegue.

Novamente esticou a mão, sentiu novamente o estremecimento, mas deixou a mão, percebeu certa quentura, seus dedos pequenos mal conseguiam envolver toda aquela coisa que aos poucos foi crescendo até ficar enorme.

- Põem a boca, pediu o rapaz.

Com medo saiu correndo sem olhar para traz.

Chegou a casa ofegante. Correu a procura da mãe. Encontrou-a no quintal lavando a roupa.

- Oi, o que foi? Parece assustada. Aconteceu alguma coisa?

Então, ela contou para a mãe. A mãe arregalou os olhos e gritando que a filha estava possuída pelo demônio, pegou a cinta, e aplicou várias chibatadas na pequena que nem sabia e nem entendia do porque apanhava. Não se contentando, trancou-a no quarto dizendo que a filha era uma perdida. E com olhar seco, sem chorar, na imensidão do quarto ficou até que a noite o pai chegou. Sem dizer uma palavra, abriu a porta, puxou a filha para fora, pegou o chinelo e lhe aplicou várias chineladas. A pobre da menina chorava sem soluçar, chorava não porque lhe doíam as chineladas, mas chorava porque não estava entendendo ser castigada desse jeito.
No dia seguinte, sem conversarem, os pais a levaram para a escola das freiras. Com passos miúdos, espantou-se com as paredes enormes e sombrias, tanto da escola, corredores e quarto. Nem bem pisou nos ladrilhos pretos da entrada, foi segurada pelas mãos fortes da madre superiora até o seu quarto.

Raras vezes recebia a visita dos pais, isso quando não conseguiam se safar da obrigação. Calados eles chegavam e mudos saiam, sem ao menos lhe dar um abraço. Dez anos depois, deixava a escola ainda sem entender o do porque a colocaram no colégio das freiras.
Tudo isso passou em sua mente ao cruzar com o rapaz com a braguilha aberta. Olhou para traz. Lá estava ele olhando para ela. Ela voltou, chegou perto do rapaz deu-lhe um beijo na boca e introduziu a mão na braguilha ainda aberta.

Dois meses depois estavam casados e viveram felizes para sempre.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.796(2022)

                 

         Andréia lentamente passa o dedo na mancha que há no meu corpo. Não é propriamente mancha e muito menos verruga, não é mancha poque é saliente e não é verruga porque é esparramado, meio escuro puxado para o marrom. Com a unha raspando delicadamente Andréia tira pequenos pedaços de sebo, é sebo, foi o que médico disse: sebo, os pedaços não são bem pedaços, mas sim, farelos de sebo parecendo queijo ralado.

         - Dói?

         - Não.

         Assim ficamos por um bom tempo deitados. Andréia com a cabeça em meu peito, sua mão acarinhando a mancha do lado direito da minha bunda, no esquerdo há outra idêntica. Aos poucos, depois de um bom tempo começo a ficar excitado, não falo nada. Andréia ao perceber se joga por cima de mim, carinhosamente rude se movimenta num vai e vem delicioso por longo e bom tempo.

         É isso... ou, não é?

terça-feira, 12 de julho de 2022

Palavras esparsas numa tarde de sábado.


Vozes soam na calçada
Vibram pedras silenciosas
O dia-a-dia é monótono


Nos trilhos das vidas correm
Mortes anunciadas
Agonizam prazeres nas esquinas


Vozes veladas anunciam
Sinistros passos entorpecidos
Lápides guardam vida


O som trinca almas
Em acordes dissonantes
A harmonia constrói vidas

segunda-feira, 11 de julho de 2022

O ser nada é sem ser o que deseja ser.

A temperatura rapidamente caiu. A garoa umedece a alma dos objetos, a alma ingrata das pessoas em suas passadas desconexas. Como disse ao cruzar com ela no elevador, em resposta ao que ela lhe dissera ao entrar:

- Credo! Que frio!

- É o frio mostrando a cara finalmente, não é?

Ela não disse nem sim e nem não, chegando ao andar de destino, saiu para a direita, dizendo um bom dia rápido, enquanto ele saiu para a esquerda, respondendo ao bom dia rápido dela. Encostou o crachá no relógio que emitiu o som característico de sua presença, deu uma rápida olhada no ambiente vazio, mas cheio de papeis para uma fogueira para esquentar os ossos da cidade. Sorriu ao imaginar um tremendo incêndio devorando as imundícies dos olhos e bocas que olham tudo, dizem tudo e nada fazem. Olhos e bocas que com seus movimentos extrapolam ações concretizando imbecilidades que registrados, será difícil apagar.

O difícil não é ser, o difícil é fazer para ser.

E para fazer é tão simples! É só sorrir sem vontade

É só olhar com os olhos do coração mesmo que seja de pedra

É falar quando a fala sempre morre no fundo da garganta

É estar bem com tudo e com todos sem querer saber

Mesmo que o tudo seja um insignificante nada

Mesmo que todos não estejam nem aí se existe isso ou aquilo

E dias seguidos expressar o bom dia em bom tom

É cumprimentar com o sorriso mecânico numa alegria mecânica

É torcer por qualquer time e discutir o campeonato da futilidade

É gostar de números enriquecendo o bolso alheio

É se saciar variando o prato de sabores mendigado pelas sarjetas da fome

É nadar contra a correnteza dos absurdos que assolam o país da mentira que se diz sério

Enfim, é tudo e muito mais, é tudo e é mais embaixo o furo do prazer e do gozo ilusório

Enfim... Escreveu ponto um ponto final.

Salvou. Fechou o Word. Desligou o micro. Levantou da cadeira.
E sem que percebessem, pulou a janela. Ninguém gritou ninguém se alarmou. Continuaram a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ele apenas se esqueceu de que estavam no andar térreo, apenas esfolou o joelho nada mais. Desiludido, voltou para o seu lugar na cadeia de sobrevivência, ligou o micro, acessou o Word, abriu o Excel, puxou a planilha e continuou com a conciliação interrompida.

domingo, 10 de julho de 2022

Um porto chamado solidão.

“O que foi que eu fiz para que você me trate assim...”

Ouvia a voz rouca da cantora tentando imitar a Vanderlea. É, o que foi que eu fiz, perguntou olhando-se no espelho do banheiro da boate. Os nervos tremiam descontroladamente. Não queria olhar-se no espelho, no entanto sem se perceber seus olhos fixavam-se nele. Lavou o rosto seguidamente. Jogou água gelada umas quatro vezes nos olhos. Não resolveu, continuava com o cérebro embaralhado. O que foi que eu fui fazer? Perguntava sem obter resposta. Estava imprestável, percebia, mas precisava continuar, precisava voltar à mesa, precisava participar do jogo para não ser desmascarado.  
Pondo firmeza nas pernas, sentindo os pés no chão sujo de copos e garrafas e papéis e camisinhas e outras porcarias, saiu do banheiro recebendo no rosto a balbúrdia do salão. Foi desconcertante sentir a luz que arrebentava em spots, foi ensurdecedor o som que lhe entrava ouvido adentro o descontrolando indeciso em que direção tomar. Esbarrando, tropeçando, trombando aqui e ali, conseguiu chegar até a mesa. Sentou sem olhar para ninguém. Reinava um silencio de vozes perturbadas por olhares que talvez, fixavam nele.
Talvez, esperavam que ele dissesse algo. Mas o que diria para aqueles cretinos, isto é, tinha que dizer alguma coisa? Achava que não. Nada fizera de errado.

- Então meus amigos, vamos ficar aqui ou não?

Perguntou esforçando a voz para que não percebessem o quanto estava embriagado. Merda, o que adianta sair para a balada e não se embebedar? Tinha que se divertir, não é mesmo? Sim preciso sim, me embriagar, e daí? Não fazia mal a ninguém, somente a ele. Ou será que esses merdas estão chateados comigo? Só porque me embriaguei? Antes me embriagar do que ficar com cara amarrada por qualquer coisa. Veja como estão com cara de bundas amassadas. Olhos baixos, com medo de olhar um para outro. Ele não tinha medo, olhava todos com audácia, mostrando não ter medo, com poses de dono da história, bebendo mais de quatro horas a mesma bebida, to é de saco cheio desse pessoal, vou puxar o carro.

- Depois dessa acalorada discussão que só eu ouvi, já que suas bocas permanecem fechadas, vou para o meu porto solidão. Passem bem.

E dizendo isso, levantou-se de supetão, quase derrubou a cadeira, e se dirigiu para a saída. Eles que se danassem, não ficarei aguentando cara feia de ninguém. Recebeu no rosto o ar da madrugada deixando-o leve, mais sóbrio. Precisava tomar mais um trago, estava com a boca seca. Entrou no primeiro estabelecimento que viu aberto.

- Por favor, uma cerveja.

- Já estamos fechando, disse o garçom.

- Só uma não vou demorar.

- Está bem, só estou esperando aquele casal sair para fechar, portanto não enrola e beba logo, está bem?

- Obrigado.

É obrigado, mas deixe dizer uma coisa. Não volto mais para aquele lugar. Que lugar? Ora, para a balada aí do lado. Aquele pessoal pensa o que? São os bons é? Não são só porque você chega com todo o agrado, passa a mão de leve na bunda, acarinha os seios, dança colado, e já querem ser dona da gente, é? Não são fiquem sabendo. O pior é que todos eles ficam contra a gente. Que vão à puta que pariu, não quero saber mais deles, viu. Pode dizer isso, eu prometo não quero mais saber de nenhum deles.  

- Está bem, amigo. Toma, coloquei sua cerveja neste copo descartável. Preciso fechar. Amanhã trabalho de novo.

E de leve foi levando ele para a porta.

Olhe eu também trabalho viu? Mas vou embora sim. Não quero mais saber de Estela nenhuma. Você conhece a Estela? Conhece? Ah! A minha Estela é bem melhor do que a Estela do filme pode crer. Estela eu te amo.

Na calçada virou o resto da cerveja de um gole só jogando o copo vazio no meio fio. Estela sabe que você é mais bonita que a Estela do filme, viu, fique sabendo disso. E gritando o nome da amada, trôpego, ele se enfurnou na madrugada sendo engolido pela escuridão. Ouvia-se ao longe ainda o seu grito de amor pela Estela. Tempo depois, não se ouvia mais nada. De repente, em off soou uma voz:

- Corta!

Desligou a televisão. Por segundos, parado no meio da sala, em frente ao aparelho, deixou que a emoção dominasse-o totalmente. Bárbaro! Foi o que conseguiu dizer: Bárbaro! Muito bom. Será escolhido não tinha dúvida. O teste fora perfeito. Tão perfeito que ele próprio chegou a se emocionar. Putz! Sua capacidade interpretativa é imensa. Será que não escolheriam ele!? Claro que sim. Será escolhido, mesmo que para isso precisasse mexer os pauzinhos por baixo dos panos. Quem sabe até conceder certos favores.
Pensando assim, colocou no copo uma boa dose de uísque e entrou no banheiro para tomar um bom banho e depois cair na cama com a certeza de que será escolhido. Tinha quer ser... Não é?

sábado, 9 de julho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.795(2022)

                                     

         ... perdido de um lado para o outro da sala em pequenas passadas andava feito animal enjaulado sem noção de que estava andando de uma lado para o outro talvez projetando a busca levando-o ao consciente processo mecânico induzindo-o a agir como animal passivo a escorrer tédio de um lado ao outro onde o silencio mórbido da vida era lhe jogado na mesma proporção em que as pernas o condiziam a esmo de um lado para o outro sabendo-se que teria um dia ou uma hora ou talvez um minuto ou mesmo nesse instante encarar a situação pavorosa da realidade saindo dessa imobilidade cruel de se dirigir a parede dar um giro de cento e oitenta graus e voltar a outra parede retaliando-se no mecanismo para sair numa boa sem ter que se explicar o do porque isso ou daquilo onde a individualidade permeia o esquema sempre que necessita fazer algo a inatividade cresce assustadoramente...

         É isso... ou, não é?

sexta-feira, 8 de julho de 2022

O critico.


Estava há três dias sem escrever. Nada vinha a mente. Nem uma linha, nem uma palavra. Não deveria, mas não conseguia deixar de pensar no que dissera o critico. Tá certo, não era um escritor, nunca se denominou escritor, seus livros têm vendido razoavelmente, não era um José J. Veiga, no entanto já foi comparado a ele e, no lançamento do terceiro romance, um critico o comparou com Clarice, chamando-o de Clarice de calça. Ficou na dúvida, não sabia se o cara estava elogiando ou não, mas sentiu-se grato, pois Clarice é para ele o ponto supremo da literatura. O importante, o que lhe disseram uma vez, é gostarem do que escreve e, quanto a isso, parece que é um fato positivo. Então para que se preocupar com uma critica de alguém que nem o conhece?  E ele por sua vez, nem tinha prazer em conhecer tal figura. Critico é um cara frustrado, pensa que sabe escrever, mas não passa de escritor resenhista para preencher os espaços nos jornais. Não há bons críticos, hoje em dia é só lixo. O que o deixou com raiva, não foi a critica em sim, mas o tom como foi escrito, “escritor que não o conheço nem mais magro e nem mais gordo, não tem nada de arte, é pura pornografia barata...” e etc...

Há certos críticos, por serem críticos, se acham na obrigação de terem uma cultural imensa, de saberem mais que o escritor. Até aí tudo bem. O que há de deplorável neles, é fazerem uma critica colocando o escritor lá embaixo, como se ele, o escritor, fosse à ralé, estivesse abaixo dele, e, ele, o critico acima do escritor. O que estraga um pouco é a prepotência, o certo orgulho de poder dizer isso ou aquilo, ao ponto de pejorativamente, relegar o escritor ao limbo, ao esquecimento. Não há uma critica neutra, que separe o indivíduo do critico, ele, indivíduo e critico coloca tudo no mesmo saco e dá-lhe pancada. Lendo uma critica, percebe-se que o critico se alça acima do escritor, como se dissesse: eu sou melhor que você. O que ele não sabe é que todos são iguais, não há um melhor do que outro.

Nisso viu na calçada um objeto brilhante chamando-o atenção. Pensou: se eu esticasse a mão, assim, ou com o dedo apontasse para esse objeto e ele viesse a minha mão sem que eu precisasse me abaixar, será que eu seria melhor que todos só por ter esse dom? E ao mesmo tempo em que formulava a pergunta, esticou o dedo para objeto e, esse, “subiu” até a sua mão. Olhou para os lados, ninguém percebeu o que ele fizera. Rapidamente enfiou o objeto no bolso. Não iria revelar para ninguém o poder que adquirira. E, também, sentiu que com isso não mudaria seu modo de pensar, nem de agir e nem de tratar os outros diferentes do que já vinha tratando. Não é por ter um dom, que se sentiria superior.
Ao atravessar a Avenida Paulista, teve a nítida certeza que nada mudaria nele, tivesse dom ou nenhum dom.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.794(2022)

                       

         ... falou o que queria e pensou que fosse ouvido no entanto pela a expressão nos olhos das pessoas que de uma maneira olhavam para ele percebeu que não fora compreendido por isso no silencio das palavras xingou a todos de merda para cima sem remorso e piedade o que não repercutiu efeito algum nas expressões de não terem compreendidos nos rostos fétidos em caras macilentas de ódio como rachadura em casas mal conservadas onde mesmo assim há moradores como há falsa felicidade nos descarnados rostos que te olham de uma maneira negativa repreendendo por algo sem perceber que aquilo não é o certo o que não te faz diferença nenhuma pois a vida continua e continuará não para o todo sempre até que o invisível coloque o pé a frente do seu fazendo-o cair para nunca mais levantar... não é não... então vamos viver porra...

         É isto... ou, não é?

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Intencional.


Estava três dias e partia para o quarto sem escrever. Não podia deixar um simples comentário banal o diminuísse tanto assim a ponto de impedir que seus longos dedos de pianista, como lhe dissera uma tia, percorressem levemente as teclas brancas do teclado preto, não podia claro que não podia, mas para o seu desespero percebia toda a indecisão vibrando nas fibras da pele dos dedos.

Não conseguia ver mais as frases que rolavam a sua frente em imagens e sons. Tinha primeiramente, se impregnar da poeira em que as palavras são formadas para, depois, ouvir seu interior concreto e transformá-la em maleável com a finalidade, ao chegar aos olhos do leitor, com um grau de compreensão, se inteirar com gosto pela leitura.

Por isso se degradava todas as manhãs, ao pisar o rústico calçamento da Avenida Paulista, deixando-se inundar por todas as vibrações possíveis num cataclismo visual e olfativo. Captava todos os graus de luzes, todos os decibéis de sons e, todos os tamanhos de visualidade possíveis para, mais tarde transformá-los em palavras compreensíveis.

Não pensava fazer literatura, apesar de que gostasse, sabia de sua fragilidade em abraçar um projeto maior do que essas linhas diárias. Sua capacidade literária, se é que tinha alguma, não ultrapassava uma folha.

Assim sendo, achou que devia parar por aqui, não queria que isso parecesse desculpa ou algo semelhante, não errou e não cometeu crime e, se mesmo que tivesse cometido crime ou tivesse errado não se arrependia.

Pois apesar de ser considerada uma pessoa que tudo o que fazia, ser embutido de segundas intenções, não fez nada intencionalmente, apenas permitiu a mente aberta deslizar em palavras.
Até a próxima...

terça-feira, 5 de julho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.793(2022)

                     

         ... a insônia me leva madrugada a dentro e fico três horas e sete minutos boiando na imbecilidade do corpo ansioso não desejando impondo sem esperança quase nenhuma de prosseguir na sucessão de fatos introspectivo nostálgico de um dia expressar claramente o que sinto sem preconceito e esse sentir impulsivo enclausurado na própria censura internalizada onde nada é seguro portanto olho o nada como se o nada não fosse o tudo houvesse existido e puxo o botão de foda-se para que a cortina caia revelando o segredo que há por trás no que no entanto creio que ninguém entende o significado da cena e muito menos do porque se estarei observando algo que para eles parece grotesco de uma sensibilidade rudimentar e perdida de noção ao memo tempo as horas avançam para as cinco horas da manhã obrigando-me a dormir...

         É isso... ou, não é?

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Suicídio doce.


 Hemingway quando percebeu que estava perdendo a inspiração, meteu uma bala na boca estourando os miolos.

Será que devo fazer o mesmo? Meter na boca uma bala?
Não sou aficionado a doce, mas uma bala de café é gostosa, uma de hortelã ou uma de coco, delicia.

Afinal, todos têm direito de meter uma bala na boca, se vai adocicar ou estourar os miolos, é outra história, não é mesmo?

domingo, 3 de julho de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.792(2022)

                              

         ... estou outra vez no meio da noite flertando com a madruga que aos poucos se aproxima e não sei o que devo escrever apesar de começar com essas palavras sujas de significados a fim de ativar as ideias mirabolantes e nojentas que assolam a mente atrasando o que poderia escrever e nesse escrever ou não escrever mesmo que seja como quero mesmo assim escrevo automaticamente para dar uma ideia de que penso ao mesmo tempo em vou escrevendo compreende não compreende né ou não entende se é que há diferença entre essas duas palavras: entender e compreender pois compreender é mais profundo é a capacidade de assimilar algo considerado um processo cognitivo para que se possa interpretar uma determinada coisa e entender é perceber pela inteligência o que se diz captando a intenção mas porcamente falando as duas significam as mesmas coisas... não é?

         É isso... ou, não é?

sábado, 2 de julho de 2022

O seu dia.


Levou a mão aos olhos.
O sol deturpava o que via.
Permaneceu quieto com medo do que não via.

O sol declinou-se por traz do prédio cinzento.
A tarde se fazia mais intensa do que costume.
Consultou o relógio.
Passava mais de meia-noite.
Precisou correr para não perder o último metrô.
Ao passar pela catraca soou o sinal.
As portas fecharam-se rápidas.
Conseguiu num pulo só
E caiu no chão do trem.
Levando-o para mais uma aventura.

Assim mais uma vez transcorreu o seu dia.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O seu dia.

Levou a mão aos olhos.

O sol deturpava o que via.
Permaneceu quieto com medo do que não via.

O sol declinou-se por traz do prédio cinzento.
A tarde se fazia mais intensa do que costume.
Consultou o relógio.
Passava mais de meia-noite.
Precisou correr para não perder o último metrô.
Ao passar pela catraca soou o sinal.
As portas fecharam-se rápidas.
Conseguiu num pulo só
E caiu no chão do trem.
Levando-o para mais uma aventura.

Assim mais uma vez transcorreu o seu dia.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...