Ao corpo estendido
No chão preto
De asfalto
A chuva levou
O sangue para
O bueiro
O Tietê
Não comporta
Fragmentos de vida
E navegar
Nos sonhos
Da poesia
Tornou-se
Impossível
“... E O Vento Levou – uma história
onde a personagem passa o tempo todo atrás do homem que ela pensa que ama e
depois descobre que ama outro. Vou te contar! Oh! história besta.
“Casablanca” – filme sem história,
romance entre os personagens não convence, não empolga, não tem clímax. O herói
quando abre a boca parece um bêbado em ultimo estágio da bebedeira.
“Cantando na chuva” – história sem
história, só por ser o primeiro, creio que seja a tratar do assunto de
transição do cinema mudo para o sonoro. As canções não empolgam, nem mesmo a
canção título que, com o perdão da palavra, já encheu o saco.
Três filmes considerados clássicos. Não empolga. Não passam mais do que
medíocre diversão na sessão da tarde.
Nos lábios da folha arrastada pelo vento,
todas as manhãs, ele beirava o pequeno limite da razão confiante da sua
intelectualidade. Da janela fechada, reparava que as folhas resistiam contra a
força do vento. Algumas, como sabendo do seu teor de sobrevivência, eram
arrastadas para baixo de algum objeto que a protegesse. As fracas se deixavam
levar sem resistência, como se delas fossem o destino de serem o que são:
fracas. As submissas, arrastadas compulsivamente, se integravam ao ambiente em
que foram depositadas, submetendo-se aos vermes e detritos lentamente se
desintegrando ao solo tornando-se, assim, fertilizante.
Leu uma, duas, três, quatro vezes o que
escrevera.
Reconheceu. Finalmente ele era poeta.
Rasgou o monitor em mil pedaços e jogou na cesta de lixo os fragmentos da sua vida.
O pensamento rasgava o silencio. O corpo na quietude da carne e os ossos se
debruçavam na inquietude das sombras colaborando para enriquecer as formas
difusas. Os olhos fixos no teto de madeira saboreavam a mancha escura de
abstrata ilusão fazendo o peito arfar num ritmo controlável. Pelos cantos dos
olhos, sem movê-los, distinguiu claramente o vai e vem das pessoas ao querer
solucionar algo que estava fora do seu alcance. Ouviu um soluçar de lágrimas
contidas. Em seguida um assuar de nariz entrecortado por soluços pequenos. Não
conseguia distinguir se era homem ou mulher, criança não era, tinha certeza.
Não tendo outra coisa a fazer, a não ser ficar deitado, num controlar a
respiração, numa rigidez absurda, apurou o ouvido em direção ao choro. Mesmo
assim, foi impossível notar a procedência. Momento lhe parecia homem outras
vezes, parecia mulher. Optou por mulher, pois homem é mais difícil cair no
choro, já a mulher por qualquer coisa abrem a boca, disse sorrindo sem mexer os
lábios. Gozado, sentiu-se sorrindo sem, no entanto sentir a boca se mexer.
Sonho. Será que estava sonhando? Como se sonhava sem estar propriamente
dormindo! O que não conseguia e, por várias vezes tentara sem êxito, se mexer,
isto é, os músculos, os nervos, a pele, a unha reagiam ao comando sem que ele
movesse sequer um milímetro que fosse do corpo. Rígido, foi que percebeu,
estava rígido. Como ficará desse jeito? Por que tinha a sensação de algo que já
fora, de algo predestinado a seguir adiante, de algo sem noção do que seja e
nem para onde irá? Um gosto de fuligem, madeira queimada, misturada a cinza
quente o envolvia por todos os lados. O pior é que a quentura da pele
tornava-se insuportável. A noção que lhe vinha à mente era de que queimava sem
dor, sem queimadura. Vivia o calor abrasador, mas esse calor abrasador não o
importunava, não o queimava, as chamas lambiam seu corpo intensamente, por
todos os lados, por todos os cantos e não sentia o calor. Fechou os olhos,
encarapitou-se no pensamento e rasgou o silencio.
Ao abrir os olhos, veio ao seu nariz um odor de cinza. Arrepiou-se, estava
totalmente coberto por cinzas escuras e brancas, com manchas marrons. Flutuava,
disso tinha certeza, flutuava os pés não alcançavam o solo, a terra, a areia.
Ouvia o marulhar das ondas sem que elas chegassem aos seus pés. O corpo se
desintegrara, pois a noção de corpo surgiu em pequenos pedaços de carne
esturricada, pequena envolta pelas cinzas. Deixou de formular perguntavas que
não lhe respondiam nada. Um pequeno calor ainda lhe aquecia. Sem saber se
horrorizado ou não, constatou, sua percepção não captava mais o todo, e, muito
menos as partes, tudo era um amontoado de cinza quente. Relaxou não se
preocupava com mais nada.
Foi então, que a água salgada o arrastou para as profundezas das ondas, sepultando o que ele um dia fora. Ao longe uma gaivota lançou seu trinado de fome. O sol se escondeu entre as nuvens e, na praia, uma figura ajoelhada, talvez, rezava uma oração à mãe natureza sem perceber a onda beijando seus joelhos.
Deslizou nas linhas das palavras.
Nos pigmentos borrados de tinta, adquiriu a essência da carne.
Nas letras cuidadosamente digitadas, conseguiu viver mais um pouco.
Nas curvas de cada letra deparou com novas descobertas.
A palavra surgiu na visão dos sentimentos tímidos.
Nos pontos, criou os instantes para reflexão.
E nas vírgulas, visualizou a oportunidade para continuar.
Aperfeiçoou-se sem cair no minimalismo perfeccionista.
Foi então que percebeu ter caído na prostituição da palavra.
Tornou-se amante da palavra e, por ela, era conduzido.
Da verdade quero a mentira que cala
Da mentira que cala quero a sinceridade
Da sinceridade que escuta a verdade
Quero a fidelidade sem preconceito
O grito revela as vozes nos escombros
Mortas de angústia e fome esclerosada
O rugido doloroso impera na solidão
Todo dia suicida-se o faminto por desamor
Não comungo a fé religiosa no Diabo
E não creio na demoníaca fé em Deus
Vivo tão somente a crença de ser eu
Sedento e faminto pela milionésima vez
Escalei o monte Sinai e decepcionado
Aos pés de Moisés inclemente morri
Desfrutando a beleza da maldita saudade
Contarei um segredo.
Não sei escrever
Nem aqui
Nem ali
Nem na Casa das Rosas
Nem no El Malak
Sei escrever só na beira do copo do desespero
Sei escrever só na calma do cálice de vinho
Sei escrever só na angústia de ser-me vivo
Andarilho, maltrapilho e sem destino
Não escrevo por que gosto
Escrevo porque necessito
Escrevo porque há um grito
Levando-me ao infinito
Não sei escrever
Como fulano
Nem como sicrano
Não estou nem aí pra rima
Muito menos para as sílabas
Escrevo sem inspiração
Escrevo de supetão
No amontoado das palavras
Aparando arestas
Distorcendo figuras
Recriando composturas
Caros amigos poetas
Vamos cantar nossas alegrias
Em cada gota de sensibilidade
Em cada copo de cerveja gelada
E brindemos ontem hoje e amanhã
A nossa querida amiga a poesia
Hilde olhou o fósforo queimar até chegar ao seu dedo. Acendeu o cigarro jogando fora o fósforo queimado. Deu uma longa tragada e, em seguida, soltou à fumaça em espiral que dançou no ar em formas que se desfizeram no espaço acima de sua cabeça. Nas grossas juntas dos dedos, pequeninas agulhas espetaram obrigando-a fechar e abrir a mão várias vezes. Um esgar sorrateiro se fez surgir no canto esquerdo da boca.
- Escuta o que estou lhe dizendo: nossos filhos
vão crescer e casar e ainda estaremos morando aqui.
Com que ódio notou nessas palavras! Com que
raiva o ouviu dizer numa voz empostada como se fosse o dono absoluto... Dela?
Não, de todos, até da casa. Dono! Quem era ele para se julgar dono de alguma
coisa? Era um idiota, sempre fora. Vivia dizendo isso para ele, até que um dia
se confessou pateticamente.
- Sim, você está certa sou um idiota, e por
quê? Por que tenho que aturá-la a vida inteira.
- Atura porque quer, respondeu ela.
Hilde acendeu outro cigarro. Verdade que se
diga. Nesse ponto estava ele certo. Os filhos cresceram, noivaram, casaram e
eles não saíram dessa casa, pensou lançando o olhar pelas paredes vazias.
Percorreu com a ponta dos dedos as bordas dos CDs. Os queridos e idolatrados
CDs que ele gostava, e que a azucrinava de tanto ouvi-los. Com raiva morna deu
um tapa no topo da pilha jogando dois CDs. Ao comando da mão, as duas caixas
voaram o espaço e bateram na parede. As caixas se abriram e os dois CDs caíram
no chão. Num ímpeto desnorteado, começou a lançar um por um contra a parede.
Logo o chão ficou coberto de caixas e CDs espalhados. Furiosa, passou a
pisotear quebrando as caixas e os CDs, até que se dando por satisfeita,
jogou-se na poltrona. Por instantes fechou os olhos embalando-se nas linhas
vingativas da vida. Deixou-se entretida a espera da pulsação voltar.
É Hildebrand podia realmente constatar essa
verdade. Que raiva tinha desse nome! Hildebrand, disse numa voz sarcástica.
Onde foram arrumar esse nome? Sozinha, todos se foram, os filhos se mandaram
cada um cuidando da própria vida, a irmã, a mãe falecera, o marido se mandara
com outra, assim diziam, logo que o último filho se casou. Nem as amigas que
tanto admirava não estavam nem aí com ela. Não a procuravam. Por outro lado,
deixou de visitá-las. Para que? Não tinha mais o mesmo mistério, o mesmo sabor.
Acendeu outro cigarro. Nisso ouviu o som de sirene. Policia? Ambulância? Pouco
se importava com o que quer que fosse. O que queria era ficar no seu canto, na
sua cadeira.
Nisso ouviu um estrondo, parecia que arrombavam
a porta. Fechou os olhos, queria, precisava dormir se entregar ao modorrento
sono. Seus olhos não a obedeciam, parecia que a obrigavam a ver, a notar na sua
frente um homem de avental...
- Está morta, disse inclinado sobre o corpo
dela.
- Vamos levá-la, disse o outro homem com
avental.
Embasbacada, sem conseguir pronunciar uma palavra, viu os dois homens colocar seu corpo na maca e saírem pela porta da sua pequena e querida casa. E sem saber onde e nem porque de onde estava, via aos poucos sua casa sendo comida pelo tempo até, que um dia chegaram às maquinas e derrubaram. Soube que em seu lugar ergueriam um edifício comercial. Essa foi à última notícia que tivera sobre a casa.
Vou de mim mesmo. Vou seguindo nas sombras cinzentas dos edifícios amanhecidos
de tortura humana. Componho palavras desajustadas a espera que algo possa
acontecer a esses sofríveis emaranhados desejos. Furtos sentimentos paranoicos
esquizofrênicos, melodramáticos, e outros cambaus a quatro. Piso asfalto rugoso
cheirando a pele suave da cidade que amanhece regurgitando baforadas de
gasolina e veneno alcoólico da madrugada. Levo-me a encontrar o eu que
não sou. Vomito a excrescência do parto natimorto ejaculado displicentemente.
Gritam profetas da sabedoria universal sem entender a sabedoria individual.
Somos perdidos nos escombros de nos mesmo. Choram profetas da verdade as
mentiras estampadas nos rostos dos tecidos mal tecidos. Nas fibras das
peles emudecidas de medo enregelando vidas. Profetizam anátemas suicidas contra
o sistema ejaculado entre pernas sedentas. Profetas de merda escorrem feridas
pustulentas de palavras vazias, de palavras com a neurose vencida. Profetas que
te quero longe de mim.
Escalo a escala emocional revelando-me nos
acordes dos meus passos indecisos. Pontuo cada gesto na conformidade musical da
sonora avenida. Rasgo-me nos timbres graves silenciosos cujas bocas anseiam
beijos esquecidos. No alegre ma non troppo vou criando o libreto da ópera da
minha vida.
Garanto será a pior ópera de todos os tempos.
Ele considerou. Tinha que considerar. Se não considerasse o que lhe
aconteceria? Aí está uma pergunta que diria, vamos assim dizer: sem resposta.
Como prever o que lhe acontecerá? Ninguém tem uma resposta certa para essa
pergunta. O máximo que se poderia fazer era uma consideração dos fatos
positivos ou negativos. Bom, isso todos tem. Não há uma pessoa totalmente
positiva assim como não há uma pessoa totalmente negativa. E ele? Como se
considerava? Positiva ou negativa? Vejamos, disse olhando no espelho sua cara
amarrotada de sono e ressaca. Naquele momento só teria a dizer que era
negativo. Sim negativo porque enchera a cara na noite anterior e, por uma
infelicidade imprevista, deixou os amigos enroscados na conta da boate, e, por
não ter tido condições de levar o amigo que necessitava de apoio, até a casa
dele. Isto é, foi duplamente negativo. Mas me diga uma coisa: algo feito sem
premeditação poderia contar como negativo? Claro, não estava previsto toda
aquela bagunça envolvendo-o a ponto de se embriagar. A questão era que
prometera ao amigo não deixá-lo na mão. E o que fizera? Deixou-o no meio da
alcateia pronta a lhe dar o bote. Argh! O gosto de ferrugem não saia da boca.
Tomou um bom gole de água gelada. Arrotou azia tropeçada no sabor ácido do que
comera. Uma ânsia subiu pela garganta provocando outro arroto. Procurou alguma
coisa para beber. Revirou os armários da cozinha, do banheiro e não achou nada.
Abriu a geladeira e pegou uma lata de água tônica que virou goela abaixo de um
gole só. Pronto. Começou a se sentir melhor. Jogou-se no sofá afundando o
rosto no travesseiro e caiu no sono rapidamente.
A agulha espetava seu cérebro. Queria gritar, mas a voz não saia. Enfiou a
cabeça debaixo do travesseiro, continuava a ouvir o barulho da agulha
penetrando em seu cérebro. Ouviu a agulha? Agulha faz algum som? Não. Então de
onde era esse som estridente? Como muito custo chegou à conclusão que era a
campainha que, pelo jeito, estava tocando há muito tempo. Levantou tropeçando
nas roupas. Reparou que estava nu. Envolveu o lençol no corpo e foi abrir a
porta. Ficou engraçado. O lençol cobrindo-o da cintura para baixo e o restante
puxando o que encontrava pelo caminho, como se fosse uma cauda de vestido. Teve
um momento que se enroscou, deu um safanão pouco se importando com o barulho de
algo caindo. Merda! Quem vem me acordar a essa hora da madrugada. Olhou para o
relógio era duas horas da tarde. Credo! Dormi todo esse tempo? Encostou um dos
olhos no olho mágico. O que? Ele estava a sua porta? Por quê? Deveria abrir?
Claro. E ao mesmo tempo em que formulava essas perguntas, abriu a porta.
- Desculpe se te acordei, disse ele.
- Imagina, já estava levantando.
- Mentiroso.
- Tá certo, acordei agora com a campainha
tocando, e daí?
- E daí que vim buscar minhas coisas.
- Por quê?
- Ainda tem a coragem de perguntar o do por
quê? Ora bolas...
- Tudo bem, eu errei, não pode me perdoar?
- E para que? Para repetir novamente e
novamente e novamente?
Não obrigado, não preciso da sua ajuda.
- Espere vamos conversar.
- Não temos mais nada a conversar.
- Você está sendo injusto.
- Injusto ou não, tchau, passe bem.
Saiu batendo a porta. Ele deixou o lençol cair
aos seus pés.
- Droga! Saiu tudo errado.
Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de uísque,
encheu uma boa dose no copo, sentou no sofá se entregando a mordomia de se
embebedar a tarde toda.
- Ah! Amanhã é outro dia, disse meio sonolento.
Caro amigo, concordo
O mundo é um caos
Pisamos em espinhos
Colhemos rosas
Futebol é uma droga
Teu colega é um chato
Imbecil, puxa saco
O sonho vai para o ralo
O vizinho matou teu gato
Morre um aqui outro ali
Um parente, filha ou filho
Pai ou mãe, avô ou avó
Do outro lado do mundo
Terremoto, tempestade
Fome, terrorismo
Guerra, assassinato
Epidemia, câncer
Aids, gripe e vacina
Concordo, é um caos a vida
A individualidade é gritante
A cada esquina um assaltante
Em cada esquina uma prostituta
Morrendo a cada luta
Em cada semáforo
Um olho de fome vendendo
Para uma vida melhor
Limão de esperança
Leve vantagem diz o safado
Entulhando a calçada
De bugigangas roubadas
“No escurinho do cinema”
Famintos do sexo
Entregam-se a volúpia da carne
Sem preconceito sem complexo
Sem conflito
Morre o mito
Enriquece a mídia
Entre pequenos relatos
No canto da página
Noticia-se a morte
Do verdadeiro mito
A alma é um caos, realmente
Sentimentos puxam a gente
A seguir em frente
Às vezes contente
Às vezes confiante
Outras vezes somos jogados
De um lado para outro
Numa sequencia
Sem precedentes
Quase assassina
Seguimos íngremes trilhas
Construímos nosso caminho
Abrimos portas
Fechamos outras
Fortalecemos assim
O nosso destino
Confiamos cegamente
Na palavra amiga
No abraço reconfortante
No sorriso acolhedor
Temos dois braços
Tuas pernas um sexo
Temos ouvido
Nariz boca e tato
Vemos sentimos
Saboreamos ouvimos
Choramos e rimos
Transamos e comemos
Exaustivas vezes
A moeda tem duas faces
Temos o livre arbítrio
Para escolhermos
O que preferimos
Portanto meu amigo
Veja os prós e os contra
Antes de entrar
Consigo próprio
Em conflito
No percorrer do dia a dia
Transcorre minha dura sina
Preso estou a tua vida
_______________________________________
A morte ronda as ruas escuras
Nos passos furtivos do ladrão
Ninguém escapa da prisão
Nosso destino é a sepultura
__________________________________________
Suicídio
Merda.
Hoje ao colocar água no filtro percebi que quebrei a vela. Pois é! Como
quebrei? Quando quebrei? Não sei. Não lembro. Soltei um berro de puta que
pariu. Quando foi a última vez que lavei o filtro? Será que foi nesse momento
que quebrei a vela? Se fosse teria notado, não é? E não percebi. Como não
percebi? Quebrei e coloquei a vela quebrada? Que dia foi? Ontem. Hoje. Semana
passada. Não sei. Não lembro. 0lho no espelho. Não me reconheço. Quem sou eu? O
cara que me olha não me responde. Forço a me lembrar quem sou eu. Forço a me
lembrar dos últimos eventos. Forço a me lembrar das últimas ações. Carallho!
Não lembro. Estou sentado no sofá. Como vim até aqui? Alguém me trouxe? Me
jogou no sofá? Não sei. Não quero pensar. Algo me diz que pensar é sinônimo de
vida. Ouço vozes. Não distingo o que dizem. Meu peito sobe e desce uma duas
três quatros vezes. Os olhos pesam. Fixo o olhar num ponto infinito. Meu viver.
Essa ponta do tecido da blusa tenho que virar dessa maneira. A mão de alguém
interrompe o que faço. Droga! Levanto-me. Preciso comprar outra vela para o
filtro. Não me deixam. Levam-me de volta e me jogam no sofá. Não quero ficar
aqui. Quem é você? Qual o seu nome? Não chore...
É isso ... ou, não é?
Despreocupado, calça para baixo da cintura mostrando a cueca Calvin Klein, camisa meio aberta onde sobressaltava a pele musculosa de academia, ao cruzar pela moça, ele a ouviu dizer:
- A braguilha está aberta.
Ela passou e disse:
- A braguilha está aberta.
Pouco se importando com o que poderia suceder
com o rapaz e, tão pouco olhou para traz para constatar se ele tinha ouvido ou
não. Passou sorrindo ao pensar no embaraço do rapaz que, todo portentoso,
achando-se o máximo, estava com a braguilha aberta quase mostrando o que não
deveria mostrar em público.
De repente, a cena a sua frente muda completamente.
Vê andando pela calçada, uma menina alegre na infância onde não tinha espaço
para o futuro. Andava rente a parede talvez imaginando algo que a entretinha
naquele momento. Nisso em sentido contrário surgiu dois rapazes falando alto.
Ao chegar perto dela um deles disse:
- Olhe aqui menina o que você acha, e, ao mesmo
tempo abriu a braguilha e mostrou para ela.
Nos seus doze anos não sabia o que era aquilo.
Um troço mole, com alguns pelos saindo da calça, deixou-a assustada.
- Venha aqui, pega nele, veja como é gostoso,
não tenha medo, disse o rapaz.
Ela curiosa, com um pouco de medo, esticou a
mão e tocou sentindo um estremecimento que a fez retroceder.
- Que isso, vai, não tenha medo, pegue.
Novamente esticou a mão, sentiu novamente o
estremecimento, mas deixou a mão, percebeu certa quentura, seus dedos pequenos
mal conseguiam envolver toda aquela coisa que aos poucos foi crescendo até
ficar enorme.
- Põem a boca, pediu o rapaz.
Com medo saiu correndo sem olhar para traz.
Chegou a casa ofegante. Correu a procura da
mãe. Encontrou-a no quintal lavando a roupa.
- Oi, o que foi? Parece assustada. Aconteceu
alguma coisa?
Então, ela contou para a mãe. A mãe arregalou os
olhos e gritando que a filha estava possuída pelo demônio, pegou a cinta, e
aplicou várias chibatadas na pequena que nem sabia e nem entendia do porque
apanhava. Não se contentando, trancou-a no quarto dizendo que a filha era uma
perdida. E com olhar seco, sem chorar, na imensidão do quarto ficou até que a
noite o pai chegou. Sem dizer uma palavra, abriu a porta, puxou a filha para
fora, pegou o chinelo e lhe aplicou várias chineladas. A pobre da menina
chorava sem soluçar, chorava não porque lhe doíam as chineladas, mas chorava
porque não estava entendendo ser castigada desse jeito.
No dia seguinte, sem conversarem, os pais a levaram para a escola das freiras.
Com passos miúdos, espantou-se com as paredes enormes e sombrias, tanto da
escola, corredores e quarto. Nem bem pisou nos ladrilhos pretos da entrada, foi
segurada pelas mãos fortes da madre superiora até o seu quarto.
Raras vezes recebia a visita dos pais, isso
quando não conseguiam se safar da obrigação. Calados eles chegavam e mudos
saiam, sem ao menos lhe dar um abraço. Dez anos depois, deixava a escola ainda
sem entender o do porque a colocaram no colégio das freiras.
Tudo isso passou em sua mente ao cruzar com o rapaz com a braguilha aberta.
Olhou para traz. Lá estava ele olhando para ela. Ela voltou, chegou perto do
rapaz deu-lhe um beijo na boca e introduziu a mão na braguilha ainda aberta.
Dois meses depois estavam casados e viveram
felizes para sempre.
Andréia
lentamente passa o dedo na mancha que há no meu corpo. Não é propriamente
mancha e muito menos verruga, não é mancha poque é saliente e não é verruga
porque é esparramado, meio escuro puxado para o marrom. Com a unha raspando
delicadamente Andréia tira pequenos pedaços de sebo, é sebo, foi o que médico
disse: sebo, os pedaços não são bem pedaços, mas sim, farelos de sebo parecendo
queijo ralado.
-
Dói?
-
Não.
Assim
ficamos por um bom tempo deitados. Andréia com a cabeça em meu peito, sua mão
acarinhando a mancha do lado direito da minha bunda, no esquerdo há outra
idêntica. Aos poucos, depois de um bom tempo começo a ficar excitado, não falo
nada. Andréia ao perceber se joga por cima de mim, carinhosamente rude se
movimenta num vai e vem delicioso por longo e bom tempo.
É
isso... ou, não é?
Vozes soam na calçada
Vibram pedras silenciosas
O dia-a-dia é monótono
Nos trilhos das vidas correm
Mortes anunciadas
Agonizam prazeres nas esquinas
Vozes veladas anunciam
Sinistros passos entorpecidos
Lápides guardam vida
O som trinca almas
Em acordes dissonantes
A harmonia constrói vidas
A temperatura rapidamente caiu. A garoa umedece a alma dos objetos, a alma ingrata das pessoas em suas passadas desconexas. Como disse ao cruzar com ela no elevador, em resposta ao que ela lhe dissera ao entrar:
- Credo! Que frio!
- É o frio mostrando
a cara finalmente, não é?
Ela não disse nem
sim e nem não, chegando ao andar de destino, saiu para a direita, dizendo um
bom dia rápido, enquanto ele saiu para a esquerda, respondendo ao bom dia
rápido dela. Encostou o crachá no relógio que emitiu o som característico de
sua presença, deu uma rápida olhada no ambiente vazio, mas cheio de papeis para
uma fogueira para esquentar os ossos da cidade. Sorriu ao imaginar um tremendo
incêndio devorando as imundícies dos olhos e bocas que olham tudo, dizem tudo e
nada fazem. Olhos e bocas que com seus movimentos extrapolam ações
concretizando imbecilidades que registrados, será difícil apagar.
O difícil não é ser,
o difícil é fazer para ser.
E para fazer é tão
simples! É só sorrir sem vontade
É só olhar com os
olhos do coração mesmo que seja de pedra
É falar quando a
fala sempre morre no fundo da garganta
É estar bem com tudo
e com todos sem querer saber
Mesmo que o tudo
seja um insignificante nada
Mesmo que todos não
estejam nem aí se existe isso ou aquilo
E dias seguidos
expressar o bom dia em bom tom
É cumprimentar com o
sorriso mecânico numa alegria mecânica
É torcer por
qualquer time e discutir o campeonato da futilidade
É gostar de números
enriquecendo o bolso alheio
É se saciar variando
o prato de sabores mendigado pelas sarjetas da fome
É nadar contra a
correnteza dos absurdos que assolam o país da mentira que se diz sério
Enfim, é tudo e
muito mais, é tudo e é mais embaixo o furo do prazer e do gozo ilusório
Enfim... Escreveu
ponto um ponto final.
Salvou. Fechou o
Word. Desligou o micro. Levantou da cadeira.
E sem que percebessem, pulou a janela. Ninguém gritou ninguém se alarmou.
Continuaram a trabalhar como se nada tivesse acontecido. Ele apenas se esqueceu
de que estavam no andar térreo, apenas esfolou o joelho nada mais. Desiludido,
voltou para o seu lugar na cadeia de sobrevivência, ligou o micro, acessou o
Word, abriu o Excel, puxou a planilha e continuou com a conciliação
interrompida.
“O que foi que eu fiz para que você me trate assim...”
Ouvia a voz rouca da cantora tentando imitar a Vanderlea. É, o que foi que eu
fiz, perguntou olhando-se no espelho do banheiro da boate. Os nervos tremiam
descontroladamente. Não queria olhar-se no espelho, no entanto sem se perceber
seus olhos fixavam-se nele. Lavou o rosto seguidamente. Jogou água gelada umas
quatro vezes nos olhos. Não resolveu, continuava com o cérebro embaralhado. O
que foi que eu fui fazer? Perguntava sem obter resposta. Estava imprestável,
percebia, mas precisava continuar, precisava voltar à mesa, precisava
participar do jogo para não ser desmascarado.
Pondo firmeza nas pernas, sentindo os pés no chão sujo de copos e garrafas e
papéis e camisinhas e outras porcarias, saiu do banheiro recebendo no rosto a
balbúrdia do salão. Foi desconcertante sentir a luz que arrebentava em spots,
foi ensurdecedor o som que lhe entrava ouvido adentro o descontrolando indeciso
em que direção tomar. Esbarrando, tropeçando, trombando aqui e ali, conseguiu
chegar até a mesa. Sentou sem olhar para ninguém. Reinava um silencio de vozes
perturbadas por olhares que talvez, fixavam nele.
Talvez, esperavam que ele dissesse algo. Mas o que diria para aqueles cretinos,
isto é, tinha que dizer alguma coisa? Achava que não. Nada fizera de errado.
- Então meus amigos, vamos ficar aqui ou não?
Perguntou esforçando a voz para que não
percebessem o quanto estava embriagado. Merda, o que adianta sair para a balada
e não se embebedar? Tinha que se divertir, não é mesmo? Sim preciso sim, me
embriagar, e daí? Não fazia mal a ninguém, somente a ele. Ou será que esses
merdas estão chateados comigo? Só porque me embriaguei? Antes me embriagar do
que ficar com cara amarrada por qualquer coisa. Veja como estão com cara de
bundas amassadas. Olhos baixos, com medo de olhar um para outro. Ele não tinha
medo, olhava todos com audácia, mostrando não ter medo, com poses de dono da
história, bebendo mais de quatro horas a mesma bebida, to é de saco cheio desse
pessoal, vou puxar o carro.
- Depois dessa acalorada discussão que só eu
ouvi, já que suas bocas permanecem fechadas, vou para o meu porto solidão.
Passem bem.
E dizendo isso, levantou-se de supetão, quase
derrubou a cadeira, e se dirigiu para a saída. Eles que se danassem, não
ficarei aguentando cara feia de ninguém. Recebeu no rosto o ar da madrugada
deixando-o leve, mais sóbrio. Precisava tomar mais um trago, estava com a boca
seca. Entrou no primeiro estabelecimento que viu aberto.
- Por favor, uma cerveja.
- Já estamos fechando, disse o garçom.
- Só uma não vou demorar.
- Está bem, só estou esperando aquele casal
sair para fechar, portanto não enrola e beba logo, está bem?
- Obrigado.
É obrigado, mas deixe dizer uma coisa. Não
volto mais para aquele lugar. Que lugar? Ora, para a balada aí do lado. Aquele
pessoal pensa o que? São os bons é? Não são só porque você chega com todo o
agrado, passa a mão de leve na bunda, acarinha os seios, dança colado, e já
querem ser dona da gente, é? Não são fiquem sabendo. O pior é que todos eles
ficam contra a gente. Que vão à puta que pariu, não quero saber mais deles,
viu. Pode dizer isso, eu prometo não quero mais saber de nenhum deles.
- Está bem, amigo. Toma, coloquei sua cerveja
neste copo descartável. Preciso fechar. Amanhã trabalho de novo.
E de leve foi levando ele para a porta.
Olhe eu também trabalho viu? Mas vou embora
sim. Não quero mais saber de Estela nenhuma. Você conhece a Estela? Conhece?
Ah! A minha Estela é bem melhor do que a Estela do filme pode crer. Estela eu
te amo.
Na calçada virou o resto da cerveja de um gole
só jogando o copo vazio no meio fio. Estela sabe que você é mais bonita que a
Estela do filme, viu, fique sabendo disso. E gritando o nome da amada, trôpego,
ele se enfurnou na madrugada sendo engolido pela escuridão. Ouvia-se ao longe
ainda o seu grito de amor pela Estela. Tempo depois, não se ouvia mais nada. De
repente, em off soou uma voz:
- Corta!
Desligou a televisão. Por segundos, parado no
meio da sala, em frente ao aparelho, deixou que a emoção dominasse-o
totalmente. Bárbaro! Foi o que conseguiu dizer: Bárbaro! Muito bom. Será
escolhido não tinha dúvida. O teste fora perfeito. Tão perfeito que ele próprio
chegou a se emocionar. Putz! Sua capacidade interpretativa é imensa. Será que
não escolheriam ele!? Claro que sim. Será escolhido, mesmo que para isso
precisasse mexer os pauzinhos por baixo dos panos. Quem sabe até conceder
certos favores.
Pensando assim, colocou no copo uma boa dose de uísque e entrou no banheiro
para tomar um bom banho e depois cair na cama com a certeza de que será
escolhido. Tinha quer ser... Não é?
...
perdido de um lado para o outro da sala em pequenas passadas andava feito
animal enjaulado sem noção de que estava andando de uma lado para o outro
talvez projetando a busca levando-o ao consciente processo mecânico induzindo-o
a agir como animal passivo a escorrer tédio de um lado ao outro onde o silencio
mórbido da vida era lhe jogado na mesma proporção em que as pernas o condiziam
a esmo de um lado para o outro sabendo-se que teria um dia ou uma hora ou
talvez um minuto ou mesmo nesse instante encarar a situação pavorosa da
realidade saindo dessa imobilidade cruel de se dirigir a parede dar um giro de
cento e oitenta graus e voltar a outra parede retaliando-se no mecanismo para
sair numa boa sem ter que se explicar o do porque isso ou daquilo onde a individualidade
permeia o esquema sempre que necessita fazer algo a inatividade cresce
assustadoramente...
É
isso... ou, não é?
Estava há três dias sem escrever. Nada vinha a mente. Nem uma linha, nem uma
palavra. Não deveria, mas não conseguia deixar de pensar no que dissera o
critico. Tá certo, não era um escritor, nunca se denominou escritor, seus
livros têm vendido razoavelmente, não era um José J. Veiga, no entanto já foi
comparado a ele e, no lançamento do terceiro romance, um critico o comparou com
Clarice, chamando-o de Clarice de calça. Ficou na dúvida, não sabia se o cara
estava elogiando ou não, mas sentiu-se grato, pois Clarice é para ele o ponto
supremo da literatura. O importante, o que lhe disseram uma vez, é gostarem do
que escreve e, quanto a isso, parece que é um fato positivo. Então para que se
preocupar com uma critica de alguém que nem o conhece? E ele por sua vez,
nem tinha prazer em conhecer tal figura. Critico é um cara frustrado, pensa que
sabe escrever, mas não passa de escritor resenhista para preencher os espaços
nos jornais. Não há bons críticos, hoje em dia é só lixo. O que o deixou com
raiva, não foi a critica em sim, mas o tom como foi escrito, “escritor que não
o conheço nem mais magro e nem mais gordo, não tem nada de arte, é pura
pornografia barata...” e etc...
Há certos críticos, por serem críticos, se
acham na obrigação de terem uma cultural imensa, de saberem mais que o
escritor. Até aí tudo bem. O que há de deplorável neles, é fazerem uma critica
colocando o escritor lá embaixo, como se ele, o escritor, fosse à ralé,
estivesse abaixo dele, e, ele, o critico acima do escritor. O que estraga um
pouco é a prepotência, o certo orgulho de poder dizer isso ou aquilo, ao ponto
de pejorativamente, relegar o escritor ao limbo, ao esquecimento. Não há uma
critica neutra, que separe o indivíduo do critico, ele, indivíduo e critico
coloca tudo no mesmo saco e dá-lhe pancada. Lendo uma critica, percebe-se que o
critico se alça acima do escritor, como se dissesse: eu sou melhor que você. O
que ele não sabe é que todos são iguais, não há um melhor do que outro.
Nisso viu na calçada um objeto brilhante
chamando-o atenção. Pensou: se eu esticasse a mão, assim, ou com o dedo
apontasse para esse objeto e ele viesse a minha mão sem que eu precisasse me
abaixar, será que eu seria melhor que todos só por ter esse dom? E ao mesmo
tempo em que formulava a pergunta, esticou o dedo para objeto e, esse, “subiu”
até a sua mão. Olhou para os lados, ninguém percebeu o que ele fizera.
Rapidamente enfiou o objeto no bolso. Não iria revelar para ninguém o poder que
adquirira. E, também, sentiu que com isso não mudaria seu modo de pensar, nem de
agir e nem de tratar os outros diferentes do que já vinha tratando. Não é por
ter um dom, que se sentiria superior.
Ao atravessar a Avenida Paulista, teve a nítida certeza que nada mudaria nele,
tivesse dom ou nenhum dom.
...
falou o que queria e pensou que fosse ouvido no entanto pela a expressão nos
olhos das pessoas que de uma maneira olhavam para ele percebeu que não fora
compreendido por isso no silencio das palavras xingou a todos de merda para
cima sem remorso e piedade o que não repercutiu efeito algum nas expressões de
não terem compreendidos nos rostos fétidos em caras macilentas de ódio como
rachadura em casas mal conservadas onde mesmo assim há moradores como há falsa
felicidade nos descarnados rostos que te olham de uma maneira negativa
repreendendo por algo sem perceber que aquilo não é o certo o que não te faz
diferença nenhuma pois a vida continua e continuará não para o todo sempre até
que o invisível coloque o pé a frente do seu fazendo-o cair para nunca mais
levantar... não é não... então vamos viver porra...
É
isto... ou, não é?
Estava três dias e partia para o quarto sem escrever. Não podia deixar um
simples comentário banal o diminuísse tanto assim a ponto de impedir que seus
longos dedos de pianista, como lhe dissera uma tia, percorressem levemente as
teclas brancas do teclado preto, não podia claro que não podia, mas para o seu
desespero percebia toda a indecisão vibrando nas fibras da pele dos dedos.
Não conseguia ver mais as frases que rolavam a
sua frente em imagens e sons. Tinha primeiramente, se impregnar da poeira em
que as palavras são formadas para, depois, ouvir seu interior concreto e
transformá-la em maleável com a finalidade, ao chegar aos olhos do leitor, com
um grau de compreensão, se inteirar com gosto pela leitura.
Por isso se degradava todas as manhãs, ao pisar
o rústico calçamento da Avenida Paulista, deixando-se inundar por todas as
vibrações possíveis num cataclismo visual e olfativo. Captava todos os graus de
luzes, todos os decibéis de sons e, todos os tamanhos de visualidade possíveis
para, mais tarde transformá-los em palavras compreensíveis.
Não pensava fazer literatura, apesar de que
gostasse, sabia de sua fragilidade em abraçar um projeto maior do que essas
linhas diárias. Sua capacidade literária, se é que tinha alguma, não
ultrapassava uma folha.
Assim sendo, achou que devia parar por aqui,
não queria que isso parecesse desculpa ou algo semelhante, não errou e não
cometeu crime e, se mesmo que tivesse cometido crime ou tivesse errado não se
arrependia.
Pois apesar de ser considerada uma pessoa que
tudo o que fazia, ser embutido de segundas intenções, não fez nada
intencionalmente, apenas permitiu a mente aberta deslizar em palavras.
Até a próxima...
...
a insônia me leva madrugada a dentro e fico três horas e sete minutos boiando
na imbecilidade do corpo ansioso não desejando impondo sem esperança quase
nenhuma de prosseguir na sucessão de fatos introspectivo nostálgico de um dia
expressar claramente o que sinto sem preconceito e esse sentir impulsivo
enclausurado na própria censura internalizada onde nada é seguro portanto olho
o nada como se o nada não fosse o tudo houvesse existido e puxo o botão de
foda-se para que a cortina caia revelando o segredo que há por trás no que no
entanto creio que ninguém entende o significado da cena e muito menos do porque
se estarei observando algo que para eles parece grotesco de uma sensibilidade
rudimentar e perdida de noção ao memo tempo as horas avançam para as cinco
horas da manhã obrigando-me a dormir...
É isso... ou, não é?
Hemingway quando percebeu que estava perdendo a inspiração, meteu uma
bala na boca estourando os miolos.
Será que devo fazer o mesmo? Meter na boca uma
bala?
Não sou aficionado a doce, mas uma bala de café é gostosa, uma de hortelã ou
uma de coco, delicia.
Afinal, todos têm direito de meter uma bala na boca, se vai adocicar ou estourar os miolos, é outra história, não é mesmo?
...
estou outra vez no meio da noite flertando com a madruga que aos poucos se
aproxima e não sei o que devo escrever apesar de começar com essas palavras
sujas de significados a fim de ativar as ideias mirabolantes e nojentas que
assolam a mente atrasando o que poderia escrever e nesse escrever ou não
escrever mesmo que seja como quero mesmo assim escrevo automaticamente para dar
uma ideia de que penso ao mesmo tempo em vou escrevendo compreende não
compreende né ou não entende se é que há diferença entre essas duas palavras:
entender e compreender pois compreender é mais profundo é a capacidade de
assimilar algo considerado um processo cognitivo para que se possa interpretar
uma determinada coisa e entender é perceber pela inteligência o que se diz
captando a intenção mas porcamente falando as duas significam as mesmas
coisas... não é?
É
isso... ou, não é?
Levou a mão aos olhos.
O sol deturpava o que via.Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...