domingo, 30 de abril de 2023

Pequenas histórias 90

 

No silêncio as vozes estalam no chão

meus passos preenchem esquinas

de delírio vários.

As feras saem em busca da presa

solidificando vazios solitários.

Ao sabor do vento como folhas

pernas sacodem cheiros aprisionando

feras grilhões de veneno.

Dois sendo um deslizam

na senda do destino

tecendo vidas entre lobos famintos.

 

O poeta pousa um ponto

E o silêncio se faz

no texto a espera do final.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Pequenas histórias 91

  

Na manhã de sol escondido

Caminho meio perdido

Com sentimentos isolados

Sinto-me machucado

 

Machucado mas aquecido

Percorro ruas esquecido

Silencioso e cansado

Passo noites amargurado

 

Assim tento te esquecer

Deixei de lamentar a dor

Com outro amor vou viver

 

Do teu maldito e fútil amor

Vou rapidamente esquecer

Do qual não terei nenhum pudor

 

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Pequenas histórias 92

 

 

O dia amanhece cheio de sentimentos petrificados

Na ansiedade dos passos os quais se registram

Palavras na tentativa de quebrarem pedras de sal

Em cada esquina solitária de vidas apressadas

 

Emana dos gestos um pedaço de carne sanguínea

Onde a angústia se estatela em quadriláteros de fome

Registrando um suicida num futuro de morte

 

O sabre enferrujado é abandonado

E a vassoura não varre mais o terreiro lá de casa

Que continua sujo por causa da preguiça

 

E a saudade se dissipa com um trago venenoso

Na quentura de um afago retraído no desamor

Das palavras sem sentido

 

Assim caminham os aventureiros na ânsia de glória

Quebrando pedras de suores insignificantes

 

E todos os dias morrem milhares de peixe envenenado

no petróleo ganancioso

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Pequenas histórias 93

  

O sol reflete no vidro do ônibus os caminhos na lentidão da vida enroscada em problemas. Outro dia me perguntou:

- Caminha para onde, menino?

Estava para responder:

- Caminho para a morte.

Mas a pessoa no mesmo instante em que fez a pergunta, respondeu:

- Caminha para o amanhã, não é?

Disse como se tivesse ganhado na loteria.

De lado a lado, seus lábios se abriram mostrando os dentes brancos bem tratados.

Não discordei, até elogiei.

 

O sono vence a leitura

Com os olhos marejados, fecho o livro.

Tiro os óculos.

Com os dedos enxugo os olhos.

Tudo isso tem um segredo.

Qual?

Não sei.

Sei que procuro não cochilar.

Olho pela janela do ônibus o metrô levando destinos que se cruzam numa

transparecência sonora de angustia metálica ricocheteando no cinza vida dos edifícios moribundos.

terça-feira, 25 de abril de 2023

Pequenas histórias 94

 Sagitta

 Onde você estava?

 Onde você estava quando o clarão explodiu iluminando nossos olhos fechados? Onde estava? Não te encontrei em lugar nenhum. Nossos olhos não são mais os mesmos, eles abriram-se mesmo estando fechados. Abriram-se para a volátil luz espargindo fios de ouro em cada horizonte enchendo de enigmas a paz reclusa em cada ser. Caminhei ao lado e pude compor meu destino sem aflição que é determinada nessas ocasiões. Caminhei me perguntando a cada passo que cuidadosamente imprimia minhas marcas na areia fria da estrada, onde você estava? Você como eu, deveria preparar o caminho para desvendar os enigmas da pedra, os enigmas do ar, da água, do fogo e dos signos. No entanto você nem se preparou, pouco se incomodou, deu as costas sumindo na solidão do povo, talvez conformado com o desígnio de ser apenas um sobrevivente da angustia e da ansiedade. Ou teve medo de enfrentar o desconhecido. No entanto, é no desconhecido que há crescimento, principalmente o crescimento de si próprio, passando a entender o mundo que o rodeia. Tudo leva crer que a luz não iluminou suficientemente teus olhos fechados. Não deixou nem uma mínima chama de luz se infiltrar por entre as pálpebras. Medo? Será? Não sei, medo todos tem, se não enfrentarmos nossos medos, morremos desiludidos de nós mesmos. Morremos na ignorância de não termos nascidos nos corações das pessoas. Principalmente de quem amamos. Morri duas vezes para renascer outras duas vezes. Cultuei a Fênix até que me tornasse parte das suas fibras e de suas asas ligeiras como flecha.

 

Com a mão espalmada de dedos de certeza, contornei as linhas da flecha cravada no peito, até que a comoção tênue de luz desfibrasse a distância entre a certeza e a dúvida que roçava as pontas dos dedos. Fui tomado pela comoção, senti a profundidade da existência alojada em meu corpo. E surgiu a intenção do grito, no entanto o grito morreu no escondido da garganta. Sedento, alimentei-me de cogumelos e plantas rastejantes. Saciado e alimentado, reiniciei a caminhada pela estrada vazia e poeirenta. O suor dos meus passos marcava a areia no destino ignorado. Sentindo-me pequeno na grandeza humana, descortinei a paixão enroscada nas formas à margem da estrada. Para não me cansar, caminhei devagar, o mais lento possível, porém, o cansaço tolhia os movimentos. Não era cansaço físico, nem cansaço mental, era cansaço da enrijecida carne pelo temor de me sentir cansado. Precisava de repouso. Ao longe divisei um casebre, e para lê me dirigi. Assim pude repousar a carne ouvindo os espaços do pulsar no silêncio das fibras que me envolviam.

 

Quantas horas dormi? Não sei. Apenas Sagita me iluminava, e acompanhando sua sombra, resoluto, reiniciei minha caminhada novamente.

segunda-feira, 24 de abril de 2023

Pequenas histórias 95

  

Ele olha com prazer a vida. O sol lambe de leve o vidro, atravessa a janela e deposita sua luz no encosto da poltrona a sua frente.

 

Fecha “As Horas”, excelente livro de Michael Cunnigham, baseado no livro de Virginia woolf, Mrs. Dalloway, e que foi filmado tendo Mery Streep no papel principal.

 

Num relance seus olhos espiam o casal na calçada a espera de alguma coisa, talvez do semáforo abrir, troca um rápido delicado e gostoso beijo.

 

Sentem uma pontada, pequena, mas forte de inveja.

 

Como se concretiza num segundo e num segundo se desfaz, a pequena ponta de inveja se dilui tomado por outros pensamentos.

 

Isto porque, seus olhos castanhos claros, sonolentos, às sete horas e quarenta, nesta manhã ensolarada, não para, não sossega iguais aos outros, no sono leve ao balanço do ônibus, e, sim, ficam navegando de um lado ao outro no mar de pessoas, de carros, de ruas apinhadas de agitações.

 

Sente-se confiante, sente-se parte misteriosa de um processo grandioso ao mesmo tempo pequeno, assim como sua escrita.

 

Às vezes ao ler um texto seu muito tempo depois, não acredita que foi ele quem escreveu que foi sua mão segurando a caneta ou que seus longos dedos de certezas, tenham digitado aquelas palavras.

 

Não acredita.

Leva segundo, minutos ou até horas para se convencer.

 

E ao ser tomado pela convicção, seu peito suspira aliviado, rele mais uma ou duas vezes e sorri satisfeito.

 

Mesmo assim não se acha poeta e muito menos escritor.

 

Até pode ser, até pode ser que o digam, mas a grandiosidade que se desenvolve aos seus olhos mostra que ele não é escritor e muito menos poeta.

domingo, 23 de abril de 2023

Pequenas histórias 96

 

Pedaços de vida presa nos papéis de lembretes. Pedaços que contam uma pequena história. Que além de contar, refaz lembranças esquecidas nos atos deixados para trás. Cada pedaço tem em si sua consistência de ser apenas um papel onde, anotado, está à urgência do fato, a urgência que se promulga para outro dia, ou talvez, nem seja realizada. Pedaços de papéis constatando a falta de memória. Constatando letras nem sempre legíveis que nem mesmo o autor as entenda. No entanto, elas estão impressas nos papéis de lembretes pendurado a sua volta trazendo-o a realidade. Pouco tempo há para sonhos, pouco tempo há para o lazer afoito dos fins de semanas. Tempo que não justifica a arrogância demonstrada em gestos corriqueiros e nem em gestos de completa futilidade. Tudo é uma coisa só, e todos têm o mesmo destino queiram ou não: à volta ao pó. Do pó viemos e ao pó regressaremos.
 
Porém, os pequenos lembretes não querem e nem sabem disso. Estão ali pendurados por um gesto mecânico desproporcional ao ato realizado. A mão que o pendurou será a mesma que o jogará no lixo. E nisso, podemos dizer que há uma realização completa do ato? Que nesse gesto de jogar o lembrete de papel amarelo está contida toda uma existência? Existência de quem? Do papel amarelo ou de quem o jogou ao lixo? O lembrete amarelo com letras inteligíveis cumpriu o seu destino: lembrar algo que o autor das letras incompreensíveis não queria esquecer. Completado esse fato, o destino dele, do lembrete é o lixo e, para lá é que ele é jogado.

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Pequenas histórias 97

 

Ele está entrincheirado entre o desespero do atraso e a angustia de querer chegar logo. Percebe que não tem escapatória nenhuma. Por mais que ele tente não há saída. Todo o dia cai nessa cilada. Como fazer para se livrar disso? Como fazer para que o relógio do tempo gire de modo confortável para ele e para todos?

Apesar de que o todo ali não está nem aí para o relógio do tempo, se preocupam em dormirem um pouco mais na esperança de chegarem são e salvos ao destino.

Ele não consegue a frieza necessária de desligamento como se nada se importasse, como se tudo esteja nos eixos. Não consegue.
No entanto vive dentro de ações que por fora, talvez dê uma impressão de que tudo esteja dentro da capacidade burguesa, talvez dê essa impressão para quem o vê todos os dias, ou para quem convive com ele.

Parece que aquela determinação em ter um papel importante, seja onde for e com quem for, está se diluindo nas margens e rugas do rosto impassível e desonesto. Não que seja uma desonestidade calculada, planejada, nada disso, é uma desonestidade ingênua, inocente, despreparada de qualquer conteúdo que possa lhe dar uma forma concreta.

Oito horas e um minuto. Droga!

Pronto a cilada foi armada e ele mais uma vez não consegue fugir.
Na comodidade de sempre, de pacato sobrevivente, deixou-se cair. Nunca consegue escapar, sabe disso.

Ao nascer berrando, como toda e qualquer recém nascido, logo foi apaziguado pelo braço materno onde a parteira docemente o colocou. Essa foi à primeira cilada.
Na infância as ciladas foram muitas que nem consegue enumerá-las corretamente.
Na juventude as ciladas foram mais elaboradas impedindo de fazer o que bem entendesse, sendo bloqueado em seus instintos e sonhos que poderia ser realizados.
Adulto, casado, entrando na idade do esquecimento aonde sua importância vai se degenerando, descobriu que a vida foi uma grande e potente cilada, que não tivera nem uma oportunidade alguma de escapar.

Não lhe deram oportunidade. Sempre foi um prisioneiro e, como prisioneiro encerrará a vida.

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Pequenas histórias 098

 

Pisca o cursor a espera do meu comando. A espera de palavras que, num passe de mágica, fará surgir nessa telinha branca podre de consistência eletrônica.
Pisca o cursor e extrai da minha mente as mais terríveis palavras, as mais tétricas palavras, aquelas que estão no fundo do inconsciente amortecida pelo tempo de espera.

Cursor, pequeno sinal gráfico eletronicamente, piscando interruptamente sem ter um destino a não ser o da espera.

Terrível espera tão terrível que persistentemente num aparecer e desaparecer magnetiza os olhos fazendo as ideias voarem desordenadamente.

Meu Deus, quantas palavras terminando em “mente”, até parece proposital. Mas claro que não, é incompetência literária de quem tem medo de se expor.
Medo de se expor...! Tenho esse medo? Sabe que nunca parei para pensar. Todos têm medo de alguma coisa, no entanto, querendo ou não estamos nos expondo pelo simples fato de viver.

Não somos um simples cursor que fica piscando sem parar, não, não somos, mas agimos mecanicamente sem precisar de alguém pressionando teclas para nos fazer agir.

Temos um intenso pulsar a ponto de explodir as veias do corpo.
É não somos como o cursor, mas somos pessoas que ignorando o mecanismo, mecanicamente nos movemos no dia a dia embrutecido de raiva, ódio e vingança.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Pequenas histórias 99

 

Estava novamente preso. Cairá outra vez na cilada. Boiava feito pedaço de madeira encharcado de água suja, sendo jogado de um lado para o outro. A aspereza das laterais do poço feria sua pele sensível. Silencio de água lamacenta ladeava-o por todos os lados.

Sou uma linha, pensou mecanicamente num sorriso lento e maroto.

O brilho de luz cortante caia sobre ele da abertura minúscula do poço ligando-o com o mundo, com o exterior. Não ouvia nada, apenas o silêncio da natureza parada, apenas o silêncio da água sustentando o pesado corpo. Se tivesse colocado pedras nos bolsos, talvez tivesse afundado mais rapidamente. Mas não queria suicidar-se, não era Virginia Woolf. Fraco sim, mas em nenhum momento da vida pensou em suicidar-se. Por causa dessa fraqueza é que caia todos os dias na armadilha, o que não quer dizer que desejasse se matar. Isso ocorre por ser fraco acomodado aceitando tudo sem pestanejar e sem reclamar.
Fechou os olhos. Cansado pensou em dormir. Sentia o corpo letárgico caindo numa bruma sólida. Nisso seu ombro bateu na lateral do banco e ouviu o ônibus frear. Estava atrasado. Levantou-se rapidamente e desceu ouvindo o pé bater firme no calçamento novo da Avenida Paulista.

Eram oito horas e quarenta minutos.

Como sempre atrasado.

terça-feira, 18 de abril de 2023

Pequenas histórias 100


Sentado a espera do inicio da hidro – outra cilada – ele ouve vozes femininas numa gritante irritação. Sons difusos se confundem com os outros sons. Amalgamas de direções revelando características da individualidade. Rostos jovens, faces despreocupadas, feições serenas esfacelam angústias em movimentos dando forma a forma. A estética da beleza impera aumentando o egocentrismo da conquista pela conquista. Poucos se jogam na esperança de prolongar a vida que há tempos foi se degenerando. Desfilam-se modas e conceitos ao comando dos padrões financeiros. O ser humano se conjuga nas risadas estridentes conciliando amor e amizades numa mesma proporção. Tentam se equilibrar na prancha do orgulho para não caírem no abismo da solidão.


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Pequenas histórias 101


Ele sentia a imparcialidade dos assentos na quietude da ausência do corpo. Manchas escuras posicionadas umas ao lado das outras, agem num padrão rígido de ordem animalesca. A quietude só é quebrada nos solavancos e freada do veículo cumprindo sua missão. Missão imposta por indivíduos que necessitam se locomoverem no conforto e aconchego da poltrona. Dormitando, lendo ou escrevendo, quebras-se a monotonia do trajeto. Perigosos roçar de moléculas provoca reação e ação em cenas que se perdem na memória do tempo.

domingo, 16 de abril de 2023

Pequenas histórias 102

 

Ele fechou o livro ao mesmo tempo abriu a janela do ônibus e recebeu o ar da manhã ensolarada que, em contrapartida, dissipou o cheiro de combustível que o incomodava.

Fechou o livro. Sabia que precisava caminhar, esquecer tudo para lembrar o nada cheio de nódoas corrompendo o mundo.

Durante quantos dias passou no convívio das três mulheres? Uma em cada época, separada e, no entanto ligadas por um único livro: Mrs. Dollway.  Todas com um sofrimento, se doando cheia de compaixão de si própria, tendo a alma carregada de aflições e angustia. O sofrer move caminhadas, disse para si.
Nisso começou cair uma chuva fina anunciando queda de temperatura. Sentiu no rosto, nos cabelos uma aflição de suor frio que colava seu sentimento. Aliás, não preciso me preocupar mais com o horário, não preciso descer do ônibus apressado e quase correndo atravessar a rua, passar o cartão na catraca desejando que o elevador esteja no térreo evitando chegar muito atrasado, não ouvirei mais o chefe pedindo para maneirar no horário, não ouvirei mais, isto é, por enquanto pois não sei o que me acontecerá daqui a um minuto, se soubesse pouparia muita coisa. Dessa cilada estou livre, poderei cair em outra, mas dessa estou livre.

Uma onda de angustia deixava-o com sentimento de ser uma pessoa pequena, e, essa pequeneza colocava-o nu, fazendo se entregar sem perceber. Não era pequeno, o ônibus com suas poltronas é que o fazia pequeno, assim como, o movimento das pessoas, da chuva, do rapaz que no banco ao lado se espreguiça abrindo os olhos, o horário, tudo lhe vinha à noção opressora de pequeno, de um grão de areia a rolar de um lado para o outro. O mundo lhe era grande demais para conter toda a emoção que o envolvia. Não se desesperava e, muito menos entrava em depressão, não, até se entregava como forma de recuperar alguma coisa. Às vezes caia numa espécie de torpor que traduzia como sendo tristeza, mas era algo passageiro.

Ao se preparar para levantar-se, uma folha de papel caiu de dentro do livro. Era o poema da sua amiga, excelente poeta: Asta Vonzodas. Queria lhe fazer uma surpresa. Queria compor um conto talvez, baseado nesse poema: Caminhar, apenas. Aliás, era o que vinha ultimamente fazendo, caminhar, apenas e nada mais. Leu o poema com atenção. Depois devolveu o poema as folhas do livro. E enquanto caminhava mentalmente as palavras do poema batia nas paredes da mente abafando os pensamentos que o afligia.


Caminhar, apenas


Caminhar apenas,

esquecer de tudo.

Limpar as nódoas

deste corpo imundo.


Da alma?

O sofrer

é bem mais fundo.

Cai do céu a chuva fina,

cola-me ao rosto os cabelos.

Me dispo e nua, me entrego

aos céus em desespero.

 

Lavo rosto, braços

e com mãos de aço

tiro do corpo

o gosto do teu cheiro.


A alma chove

pelo céu dos olhos,

inundando o côncavo

dos seios.


E permanece, pura,

invólucro invisível

dos desejos.


Asta Vonzodas

sábado, 15 de abril de 2023

Pequenas histórias 103

 

Tudo voltava à calma, ao normal de sempre. Todos envolvidos nas preocupações, cada um dos passageiros instalados em suas devidas poltronas, entregavam-se ao sono com as cortinas fechadas dando ao ônibus um aroma sombrio, soturno. Lá fora, a exuberante vida reage contra o que vai dentro do ônibus. As freadas, os guinchos do freio, o andar lento por causa do transito, levava-o a se irritar, a ficar impaciente, não conseguia escrever, a caneta escorregava num garrancho feio, que em certos momentos era preciso interromper, ficar a espera com a caneta suspensa. Era maçante, na verdade. Maçante mesmo, terrivelmente maçante, odiosamente maçante deveria ser o motorista. Quer dizer, para o motorista. Não posso dizer que uma pessoa é isto ou aquilo, cem conhecê-la. E eu não conheço o motorista, nem vou conhecê-lo como se deve se conhecer duas pessoas que começam a se ver todos os dias. Talvez, não passe de um bom dia ou até amanhã, tão somente. Improvável será um dia chegar ao ponto de convidá-lo para uma visita a minha casa ou eu visitá-lo na casa dele. O máximo que poderá ocorrer é um convite para uma cerveja, e olhe lá. Quer dizer, será difícil travar uma amizade maior, mais profunda que não fosse além do bom dia ou até amanhã. Será tremendamente impossível, mas, ninguém sabe o dia de amanhã, não é mesmo?

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Pequenas histórias 104

 

Ele saiu para a luz alegre do sol brilhando a calçada nova da avenida. Saiu da luz artificial do metrô para a luz diurna da tarde que deslizava sorrateiramente num ir e vir de carros e pessoas. Sorriu quando distraído quase trombou com um rapaz que em sentido contrário ficou, como ele, dançando um na frente do outro até que um decidiu pela direita, evitando assim maiores acontecimentos. Sorriu, só podia sorrir não gargalhar, pois aquilo não era motivo de risada, não era uma piada, apesar de que, quem visse daria uma boa gargalhada. Mas não era para ele, e também, não era para a outra pessoa motivo para risadas, e, sim, para um riso de leve, um riso para dentro, um riso, ou melhor, um sorriso imperceptível. Assim, quase invisível seus lábios se contraíram num sorriso que só ele percebeu e guardou para si aquele instante.
Andava decidido, com passos como se estivesse passeando, apesar de que tinha um compromisso, tinha uma hora marcada, não poderia atrasar. Queria antes almoçar, tomar um aperitivo, e se houvesse tempo ler um pouco, esmiuçar a vida detalhada de uma manhã de uma senhora do século passado, tão bem escrito, talvez o melhor livro que já lera, relera e trelera. Ver como a Sra. Dalloway se sairia com suas preocupações nos preparativos da festa que daria a noite. Festa! Ele nunca conseguiria preparar uma festa, se envolver com as necessidades que acarretaria em organizar uma festa. Deveria ser um saco, aliás, é um saco comprar isso, comprar aquilo, salgadinhos, bebidas, cerveja, refrigerante, calcular as pessoas que veria quem não veria, quem ele convidaria ou não convidaria, deveria ser um porre. Perder-se-ia dentro de tantos detalhes, assim como se perdia nos recitais, principalmente no começo, nos primeiros recitais, ficava meio que abobalhado sem saber onde ficar, como se mexer, onde enfiar a mão, se preocupar se a voz sairia no tom certo, agia atento para não tropeçar diante de pessoas que nunca tinha visto. Talvez se saísse bem como anfitrião, assim como estava se saindo razoavelmente bem nos recitais. A verdade é que nunca tentou organizar uma festa, um dia quem sabe, organizaria uma. Mas no momento não tinha intenção. 

quinta-feira, 13 de abril de 2023

Pequenas histórias 105


Caminhava despercebido dos movimentos enfurnado no tinha e no que precisava fazer. Dobrou a esquina, olhou para um lado depois para outro e atravessou a rua. No exato momento em que pisou a calçada de pedras uniformes, ouviu uma freada seguida, o que lhe parecia ser carros se chocando. Sem virar a cabeça para ver o que acontecera, teve a nítida noção do acidente. Parou, parou não porque estivesse interessado em ver, mas por inconsciente movimento não controlável. Olhou para a direção do acontecimento e reparou que, por um momento exíguo a vida ficou em suspenso, parada indagando o que houve. Curiosos dirigiram-se ao local mais para ver o circo pegar fogo do que para socorrer caso houvesse alguma vitima. Ele parou, ficou por uns tempos indagando o que poderia ser. Mas não se mexeu alimentando sua curiosidade. Além do que para que saborear-se com a desgraça alheia. Aconteceu, aconteceu o que se pode fazer para reverter o acontecido. Pensando assim, voltou a caminhar envolvido em seus movimentos.
Sem poder explicar, e se pedissem não saberia como explicar, viu nisso tudo, mesmo que tivesse vitima ou não, a vida em movimento, a vida se manifestando, a vida bela que ele sempre louvou que ele sempre impingiu em seus poemas e prosas. Sim, ali estava à vida, o pulsar que muitos não sentiam que olhavam pelo lado negativo do acontecimento. Não viam naquele acidente uma fração de beleza. Tudo bem, acidente seja ele qual for, é desagradável, é... Não conseguiu lembrar-se de uma palavra que justificasse o que sentia. Pois ele mesmo, às vezes, se sentia impotente diante de fatos que ocorriam descontroladamente. Era como se tirassem um pedaço de sua carne, de seu ser instigante e observador. Sentia-se pequeno diante dos fatos. O que não deixava de glorificar a vida, de glorificar o ser humano, mesmo que ele seja desprezível, egoísta e individualista.  

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Pequenas histórias 106

  

O garçom trouxera a cerveja. Quanta vez repetiu mentalmente: O garçom trouxera a cerveja. Várias vezes: O garçom trouxera a cerveja. E um vento fino, sem ser sufocante varria excitando a carne enregelada.

Sentia-se na obrigação, neste momento, tomar a cerveja que o garçom gentilmente trouxera. Não foi intenção de sua parte. Quando o garçom se aproximou perguntando:

- Pois não, o que senhor deseja.

Sem pensar respondeu:

- Uma cerveja, por favor.

Pronto, caiu na cilada do garçom, mas não tinha culpa, pois fora um gesto mecânico, sem muita convicção:

- Uma cerveja, por favor.

Poderia ter dito outra coisa, por exemplo:

- O que vocês têm?

Ou:

- Por favor, deixe ver o cardápio.

Não disse nada disso, simplesmente dissera:

- Uma cerveja, por favor.

Agora tinha a obrigação de tomar a cerveja. Ele por outro lado, pode, num gesto extremo, levantar, sair e pronto. No entanto não era tão simples assim. Primeiro, teria que pagar por uma coisa que não usufrui no caso a cerveja; segundo, precisava tomar a cerveja, não iria pagar sem tomar a cerveja. Que merda!

O garçom trouxera a cerveja, isso estava bem claro em sua mente, cerveja que estava diante dele à espera de ser saboreada. Tomaria a cerveja, claro que tomaria, não era louco em deixar a garrafa cheia, pagar e ir embora. O que ele queria e, não poderia é se deixar aventurar pela noite que começava a esquentar. Antes, porém, tinha que tomar a cerveja que o garçom trouxera. A brisa fria da noite corria junto ao seu pensamento, como um fio de sorvete a escorrer pelo canto da boca.

Observava, enquanto saboreava a cerveja que o garçom trouxera o movimento, meio fraco por causa da hora, não era nem dezoito horas, deslizavam em passos pequenos na calçada meio irregular. O que nada justificaria a cilada que o garçom, sem ele saber, preparara para aprisioná-lo. Preso não sabia o que fazer.

O garçom trouxera a cerveja que o prendia no canto do bar, isolado de todos, não podia usufruir a noite que começava a fervilhar de emoção.

terça-feira, 11 de abril de 2023

Pequenas histórias 107

 

Eclodiam pequenos atos cuja pulsação carregava certo dinamismo aos gestos sonolentos da manhã cinzenta ameaçando chuva. Isso lhe dava uma transparência que o forçava a entender os movimentos da manhã, não os seus movimentos, mas os movimentos que compunham a manhã; os movimentos dos carros, das pessoas, dos vendedores, dos jornaleiros, até os movimentos às vezes chocantes dos pedintes e dos camelôs que, como sempre, atulham a calçada sujando e atrapalhando o fluxo dos que tem algo para fazer. Vozes, gritos, conversas, freadas, filas, vendedores de guarda-chuva - precisava comprar um, o antigo quebrara - risadas, vozes que passavam por ele apressadas, sinfonia de ações vibrando em vários acordes compondo uma única melodia: a vida.
No fluxo das ideias estagnou-se no meio da avenida enquanto os carros passavam por ele. Jubilou-se num contentamento em que precisou abafar o grito: eu também faço parte dessa vida, quis gritar, clamar pela avenida toda, pelos bares, bancos, edifícios, praças, museus, em cada esquina, mas se conteve se reprimiu, ninguém o entenderia, achariam que ele estava louco, diriam: mais um louco a atrapalhar nossa vida. Vivia dizendo que não liga para o que pensam ou digam dele, e então porque não faz o que deseja? Sim, poderia fazer, e se ele fizer estaria quebrando as regras da sociedade, mas a vida para ser vivida intensa e completa não é um quebrar de regras? E esses que estão amargando o topo da fama, sendo disputados pela mídia, uns merecidamente outros nem tanto, e, numa faixa menor, alguns quebrando pateticamente as regras do seu insignificante mundinho, o que fizeram? Quebraram regras, seja ela qual for e como foi. Quebraram, e porque ele também não pode quebrar pelo menos que fosse uma regra. Gritar o seu amor por tudo isso que o rodeia nessa manhã cinzenta ameaçando chuva?
Nisso viu dois rapazes, quase em frente ao Bradesco ao lado da banca de jornal, tocando violino. Estariam eles quebrando regras? Sim, acha que sim, só por estarem ali, cada um com seu violino, pouco se importando se acham que eles tocam bem ou mal, já é um fato. Ninguém prestava atenção nos dois. Só ele. Ficou por uns momentos observando-os com uma pontada de inveja. Teria coragem de imprimir seus poemas em pequenos papéis e distribuir aos transeuntes por onde passasse? Não, não teria e sabia que nunca iria fazer isso, pois essa ideia já rolava na sua cabeça há muito tempo. Num imperceptível mover de ombros, agradeceu aqueles dois por esse momento de reflexão e, mentalmente desejou que alcançassem o que desejavam. Continuou sua caminhada se embrenhando na mata de seres humanos invisíveis com suas vidas corriqueiras de citadinos contentes com o a vida.

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Pequenas histórias 108


Quando sentou para almoçar, reparou nas pessoas falando alegremente na mesa ao lado. Estava também, aquele senhor encostado à parede tomando calmamente a sua cerveja.
- Boa tarde, vai o de sempre? – perguntou o garçom.
- O de sempre faz favor. – não seria mais pego em cilada nenhuma pelo garçom, nem daqui e nem de outro lugar, seja restaurante, boteco ou lanchonete.

O dia estava gostoso, apesar do vento que soprava. Um vento que levantava a saia da alemã. Já tinha visto aquele pessoal em outros dias. Vinham sempre em bandos, isto é, aos poucos até formarem quase dez pessoas em volta da mesa. Falavam, gesticulavam, procuravam por meios de palavras arrastadas fazer-se compreender. Quando o garçom os entendia, satisfeito sorriam, agradeciam. Dava a impressão que para eles não havia tempo ruim. Enfrentavam tudo numa boa. Minha mãe dizia que o povo alemão é um povo alegre e, como descendente de alemão, mesmo com os percalços da vida, ela era alegre, sempre rindo, contando piada...
O que fazia uma pessoa sair do seu país para viver em outro completamente diferente, em costumes, gosto, cultura e, o mais difícil, língua, perguntei a mim mesmo. Alemão tem uma língua arrastada, parecem que raspam a língua no céu da boca e nos dentes. Uma língua que sofria de paradas bruscas, paradas feitas de sustos. Pareciam seres de outro planeta. Metaforicamente eram, por que não!

Hoje, sábado até que estavam em grupo menor de pessoas. Três mulheres e dois homens. Uma das mulheres, a que estava de frente para mim, cabelos pretos, os óculos no alto da cabeça, fumava, era a que mais falava. Tinha uma feição bonita, nariz delicado, o lábio pequeno, um queixo redondo, inspirava confiança. Presenciei a peripécia que fizeram para pedir o almoço. Foi uma pantomima, eles falando, gesticulando e o garçom dizendo isto ou aquilo, também gesticulando, até que se entenderam. E agora estavam no aguardo da comida enquanto saboreavam seus aperitivos e cervejas.
A espera do meu fígado acebolado com arroz tomava a caipirinha caprichada, bem feita. Aliás, ali era o único lugar da redondeza que tem uma caipirinha gostosa. Nisso, sem menos esperar, chega uma criança, um menino, moreno, de seus oito ou nove anos. O garçom rápido pede para o menino se retirar, mas os alemães não deixam. O garçom se retira, já que querem encrenca que fique com encrenca, acho que foi isso que ele pensou. O pequeno pedia algo, a alemã falava com ele, até que ela indicou o rapaz que estava a sua frente. O rapaz levantou-se, chamou o menino, pegou-o pela mão e entraram na loja Americana. Não demoraram nem cinco minutos, e eis o menino todo alegre, com um ovo de páscoa na mão. Sorridente agradeceu e foi embora.

Tudo volta aos eixos, pensei, agradecendo o garçom por trazer meu fígado acebolado. Nisso, aparece novamente o menino e um bando de crianças atrás deles, todos morenos, entre meninas e meninos, dos três até mais ou menos, dez ou doze anos. Rodearam a mesa dos alemães. Os germânicos arregalaram os olhos, mas não perderam a calma. O menino foi chegando e falando para os seus companheiros: - Foi ele que me deu o ovo, indicando o alemão que fora com ele a loja. A menina, a que parecia ter doze anos, pedia: - Por favor, compre um para ela, apontando a menor de todas. As crianças se esparramaram envolvendo das alemãs. Estas falavam, isto é, tentavam se fazer compreender em português arrastado, até que, não sei se as crianças entenderam ou não, sei que foram embora. Os alemães continuaram a conversa como se nada lhe tivessem acontecido.

Terminei meu almoço, findei com o último gole da caipirinha, paguei a conta, levantei-me e fui embora, pensando: - E se fosse ao contrário? Se fossem brasileiros que estivessem na Alemanha e surgissem meninos pedindo, como presenciei nesse momento. O que aconteceria? Não quis responder, ou melhor, nem pensou numa resposta. Entrou na Casa das Rosas sem se preocupar com o fato, pensou: não valia a pena ficar matutando com coisas impossíveis...

domingo, 9 de abril de 2023

Pequenas histórias 109

 

Refaço os instantes nas palavras impressas em edifícios cinzentos a margearem a grande avenida.
Cada palavra tem seu significado que corresponde a um ato único e puro.
Cada letra traz minha individualidade como marca de que por aqui passei.
Cada palavra se concretiza nos atos que inconsciente registrei no dia-a-dia dessa metrópole faminta e algoz.
Cada frase expõe minha intelectualidade frágil e podre de egoísta em querer sem saber ofertar.
Cada sentença fragiliza meus nervos intimidando a recolher-me na timidez corrosiva.

Refaço com palavras todo meu tormento como prova da minha existência em cada olho do leitor.
Palavras invadindo íris desconhecida, se infiltrando no âmago do ser compartilhando meus tormentos.
Numa amalgama cuja penetrabilidade se quebra, escritor e leitor se juntam na mesma sequencia de atos e fatos levando-os ao clímax da vida.
Caminho no fio da invisibilidade em busca de algo que nunca sei e que nunca saberei se um dia alcançarei.
Caminho pela estrada sem a companhia de Cabiria desejando você que ao meu lado não caminha.
Dolorosamente as luzes do cinema se acendem e, amargurado, volto à realidade da vida.

sábado, 8 de abril de 2023

Pequenas histórias 110

 

As cordas acariciadas
Por dedos agíeis
Tange fios de sentimentos

As cordas agredidas
Por dedos e palhetas gastas
Tange ódio e rancor

As cordas violentadas
Por dedos machucados
Tange mágoas esquecidas

As cordas deturpadas
Por dedos extenuados
Tange protestos políticos

As cordas românticas
Por dedos sentimentais
Tange esquecimentos
De uma sociedade
Ocultada por máscaras
Necessária a hipócrita humanidade

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Pequenas histórias 111


A temperatura marcava seus números em quinze a vinte e dois graus, o que dizia, temperatura baixa com fortes pancadas de chuva, no entanto o sol chapava seu clarão no vidro da janela do décimo segundo andar, refletindo seus raios no monitor o qual, causava dificuldade em ler o que escrevia. Não era esse pequeno contratempo que o impediria em escrever, talvez o que lhe impedisse fosse remanejar sua inspiração para dentro do tempo, da meia hora que voltou a ter antes do expediente.

Estava demais envolvido pela angustia de chegar atrasado que não percebeu o andar apressado que imprimiu aos pés. Quando reparou já estava passando o cartão para liberar a catraca. Já era tarde para um café. Seguiu em frente, tomou o elevador pouco se importando com o adiantado da hora.

- Bom dia. Ta chegando cedo, perguntou a bela Camila.

- Bom dia, Flor. Sim estou.

- Vem de fretado?

- Venho.

- Chegava atrasado...

- É que agora estou pegando um fretado que passa mais cedo.

- Muito cedo?

- Uma meia hora mais cedo.

- Legal! Assim pode pagar as horas atrasadas, não é?

- Isso mesmo.

Passaram o cartão registrando a hora em que entraram.
Agora estava ele imprimindo esses seus últimos atos dessa manhã que era para ser friorenta e, no entanto, resplandece clara com um sol que promete o dia inteiro. Rememorando seus últimos passos como marca que deixava no monitor guardado como arquivo de texto no Word. Impressões instantâneas, recentes de um movimento igual, mas diferente no seu interior. Na superficialidade todos os movimentos se parecem iguais, ao descer do fretado até chegar ao edifício, ligar o micro, acessar o Word podem parecer os mesmos de todos os dias. Mas num estudo profundo dos movimentos, pode-se notar as diferenças em cada fibra do movimento deslocando as moléculas, tanto do corpo como as moléculas do ar. Portanto aquele ditado: um dia após o outro, ou um dia igual ao  outro, sua memória nunca foi as das melhores, mas achava que fosse algo assim, todos os dias são iguais, é falso, mentira, nunca uma coisa pode ser igual a essa coisa, não há igualdade semelhante, e sim, igualdade dessemelhante, mesmo em gêmeos não há semelhança.

Sorriu. Satisfeito, clicou em Arquivo, Salvar como... E fechou o Word.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Pequenas histórias 112

Silvio e Silvia 1

 


Decidida espetou a suculenta carne sangrando vermelho por ser mal passada. Detestava principalmente picanha, carne bem passada. E aquela estava no ponto desejado. Espetou a picanha – costumava dizer: a pica da Ana – cortou um naco e delicadamente, como consiste a uma mulher fazer, levou a boca, mastigando lentamente para saborear todo o gosto das fibras sanguíneas da carne.
Em seguida, saboreou a caipirinha como gostava que fosse feita, deliciou-se lambendo cada gota. Ao mesmo tempo perguntou-se, quer dizer, não foi bem uma perguntada, foi mais uma afirmação, ainda encontrará o homem que me fará feliz, um que me queira realmente.
Encheu o copo de cerveja, tomou um longo gole. Estava se tornando alcoólatra, lhe disseram uma vez. Não estava não. Gostava de sentir todo o prazer etílico que lhe era proporcionada, e além do mais, se estava ou não se tornando alcoólatra ninguém tinha nada com isso. Bebia sim, a bebida fazia sentir o mundo com mais intensidade, com mais realidade, com mais sonoridade.
Mas precisava urgentemente encontrar um homem que a queira. Não tem o Silvio que lhe quer bem, perguntou ao tomar o segundo copo de cerveja. Sim, tem o Silvio, sim tem ele. Acontece que não estou apaixonada por ele. É uma boa pessoa, alegre, bonito, apesar de sua magreza. Tinha ele sim, até se sentia satisfeita com ele. Ao pedir a conta e mais uma cerveja foi que o viu, lembrou dentro da noite onde procurava de uma maneira, não certa para muitas moças como ela deviam achar, eliminar o vazio da carne. Sim, gostava de vez em quando sair, andar a esmo pela cidade, disse ao Silvio. Estranhou que uma moça bonita como ela tinha como simples prazer andar no vazio da noite como ele tinha prazer de conhecer gente nova.

Sorriu, ela tinha um sorriso atraente, lhe dissera. Então, aquela noite não podia esquecer quando Silvio entrou, sem mais e sem menos, sentou ao lado dela perguntando o seu nome. Silvia, respondeu e ofereceu a ele um copo de cerveja. Assim que pronunciou seu nome, ele foi atacado por uma gargalha que foi difícil controlar. Ela quis saber por que ria desbragadamente. Com muito custo, reprimindo o ar que teimava em sair pela garganta, respondeu, prazer, meu nome é Silvio. O que? Não acredito, somos xarás, foi à vez de ela rir descontroladamente.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Pequenas histórias 113

 Silvio e Silvia 2

 

Desse pequeno incidente, se é que poderia ser chamado de incidente, era mais uma coincidência, na opinião de Silvio, portanto, desse pequeno momento de humor, aos poucos se solidificou um fio, não muito forte de amizade entre eles. Durante o processo de conhecimento, para depois chegar ao relacionamento, Silvia achava que naquela massa de poucos músculos encontraria o que sempre procurou. Não tinha coragem em dizer a sua preferência para o amigo. Silvio não passava e nem pretendia passar uma imagem que não autentica que não fosse simplesmente a dele. Desde o inicio foi sincero com Silvia. Agradecida viu em Silvio um caráter forte, decidido no que queria, e a sua sinceridade é que aconchegou mais a intimidade deles. Silvia nunca pensou na sexualidade das pessoas e, muito menos na sua sexualidade, ouvia muitos comentários disso ou daquilo, nunca tivera intimidade com um homossexual, tanto masculino como feminino, os via sempre à distância, assim cara a cara, falar, tocar, chegar ao ponto de se encontrar, de amar, e o mais estranho, criar uma sólida amizade que ultrapassou o limite da amizade, nunca imaginou que pudesse um dia viver uma aventura dessas. E ali estavam bebericando um à palavra do outro entre copos e copos de cerveja.

Alegres, conversavam sem se preocuparem com o tom de voz. Afinal, eram jovens e, a juventude beijava a face da beleza resplandecendo o brilho de cada um sem preconceito. Sofrendo de solidão levando-o ao caos sentimental, sem entender o que se passava, Silvio encontrou nela um porto, um apoio, não pensava que um dia poderia se expor ao ombro amigo. Não vá se apaixonar, dissera ela. Silvio repetiu. Não vá se apaixonar, disseram os dois, um para o outro. Era uma tarde de domingo, não tinham nada para fazer. Estirados no sofá, a televisão ligada sem que prestassem a atenção, Silvio se comprazia em sentir o calor do corpo feminino tocando sua pele rígida de prazer. Poucas vezes sentira a fragrância feminina como estava sentindo, os bicos rosados comprimindo seu peito cabeludo, a mão carinhosa subindo e descendo, indo e vindo por entre o pijama, às vezes tocando a virilha numa inocência que não levava a excitação sexual, mas a sensação de ter tudo o que a vida poderia lhe dar. E desse tudo tendo às vezes a noção de não ter nada, jamais abriria mão, por nada, disse fixando o olhar no rosto moreno de Silvia, que sorriu ao sentir-se protegida.

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Pequenas histórias 114

 Silvio e Silvia 3


Protegida! O que significa estar protegida? Se sentir segura? Ter confiança em sim mesma? Talvez, respondeu não muito convicta. Vivia um mundo alheio aquele em que Silvio vivia, a palavra protegida surgia em sua mente, fraca, desprovida da masculinidade a qual sua imaginação, talvez errônea, entendia. A masculinidade não estava no modo de viver, não estava na opção sexual, e, sim, nas atitudes, nos atos sem a pecha machista, mas na atitude forte e decidida. Olhando Silvio ao seu lado, entregue ao sono, podia dizer que entendia um pouco esse negócio de ser másculo ou afeminado. Não, ele não era nem um pouco afeminado, no intimo pensou, até desejou que Silvio fosse, porém, depois de conhecê-lo na intimidade dos lençóis, percebeu que era apenas uma questão de fantasia sexual. Sentia-se grata por ser ele másculo e não afeminado, quanto a sua preferência sexual, não queria saber, contando que nunca se esquecesse dela, como se dizia, essa questão não lhe pertencia, era outro departamento.
Vivia no quotidiano das preocupações. Corria no dia-a-dia das aflições sem desgastar sua intelectualidade. Preservava também, como podia o físico. Antes da sua amizade com Silvio, perambulava pela noite a procura do que não sábia a que procurar. No inconsciente a mente vibrava excitada pela aventura. Era arrastada como um objeto insignificante levado pela correnteza. Deixava-se levar. Deixava-se na esperança de encontrar um apoio, um ombro que a confortasse. Muitas vezes, pensando ter um ombro encontrava a faca do desprezo, da insanidade sexual, da insatisfação saciada na rapidez dos encontros. Saia desfragmentada a tal ponto que para se recompor, levava dias. Tinha noção dos perigos, não era inconsequente, mas na letargia do corpo vibrando emoção, quase todas as noites rolava pelas ruas vislumbrando o positivo. E todas as noites voltava para casa arrasada, desconsolada, prometendo que aquela seria a última noite. Prometia uma coisa que sabia não seria jamais cumprida. Mas prometia para sentir-se resoluta nas ações. O que não resolvia questão nenhuma.

domingo, 2 de abril de 2023

Pequenas histórias 115

 Silvio e Silvia 4


Na verdade Silvia não sabia mais como agir. Havia momento sentia uma paixão violenta, até destrutiva, a ponto de tolher os movimentos do companheiro. Disseram uma vez: nada de se apaixonarem. E ela não queria se apaixonar. Acordava e o primeiro pensamento, se é que poderia dizer dessa maneira, não existia primeiro, era um pensamento continuo onde a imagem de Silvio torturava seu segmento de vida, deixando-a distraída, correndo perigo. Outro dia analisando uma frase dita por Silvio, tentando reagrupar os sons para compor a tonalidade da voz na esperança de descobrir o escondido, pois de um momento para o outro, começou a desconfiar, pegou a frase e contornando sua forma, seu pigmento que lhe dava visibilidade, não percebeu o carro que, graças a Deus, dissera depois, estava numa velocidade pequena, encostou em sua perna, quando estava atravessando a rua. A batida não fora violenta. O carro apenas encostou em sua perna, graças ao motorista que a percebendo freio a tempo. O pneu lançando seu grito marcou o asfalto, chamou a atenção dos passantes. Horrorizada, caiu num choro compulsivo se controlando depois que o médico lhe aplicou um calmante. Levada ao hospital dormiu dois dias seguidos e, ao acordar decidiu: já estava na hora de acabar com tudo isso, disse virando a esquerda. Silvio não era mais salvação, passava ser perigo.

Não tenho outra pessoa, se um dia tiver outra pessoa eu te aviso, lhe dissera Silvio quando ele ficou dias e dias sem telefonar, sem vê-la. Ele não precisaria avisá-la, sei que ele tem outra pessoa, se assim não fosse eu não correria o risco, e não correr risco nenhum novamente, profetizou.

sábado, 1 de abril de 2023

Pequenas histórias 116

Silvio e Silvia 5


Não queria correr mais nenhum risco. Silvio saberia o que era isso? Dissera um dia: a vida é um eterno jogo em que nos colocamos numa série de experiência que às vezes afundamos de tal maneira que só podemos seguir em frente. Silvio desde que se conhecia como gente, compreendeu que a vida sempre foi uma eterna luta pela sobrevivência. Sempre se vendendo, se entregando maliciosamente nos braços das noites insanas. Justificava-se: preciso viver, não posso mendigar minha sobrevivência no dia-a-dia consumista, onde o que só se oferece são migalhas sem um pingo de caridade. Detesto gente caridosa, reclamava. Assim desde a adolescência soube o que queria. Desde a adolescência soube o que o corpo poderia lhe dar. E com essa maldita sabedoria, diria tempos depois, é que conseguiu viver até hoje. Quando conheceu Silvia, passava por momento delicado, não de sobrevivência, isso já estava superado. Havia pouco tempo que rompera um relacionamento consolidado por anos de convivência pacifica, até que surgiu um terceiro elemento que desequilibrou a balança até então estável. Sentiu-se traído, violentado em seus sentimentos de fidelidade, teve o peito dilacerado pelo rancor, caindo num sentimento de culpa que por muito tempo jogou-o a deriva perambulando a esmo nos lugares mais sórdidos. Com muito custo conseguiu sair da situação perigosa onde o que predominava era um gosto suicida, de derrota. Não mais pensava tanto na morte, tinha-a colocado para escanteio, voltou os olhos para a beleza do sentimento que rolava no dia-a-dia onde as ações impingiam a monotonia da vida. Descobriu os detalhes pequenos nas coisas grandes, uma mancha que poucos observavam numa forma desigual num edifício, uma ponta de cigarro brilhando entre os escombros de sujeira jogados a esmo numa calçada limpa, o riso descontrolado de um transeunte que nunca ele viu demonstrando ser possível viver com ou sem a dor da perda, o brincar alheio de uma criança entre o caos da avenida, até mesmo, o louco gesto de um mendigo que todos os dias lhe pedia esmola, assim, no pouco a pouco dos detalhes menores da grande vida foi consolidando a renúncia de viver. Prometeu que nunca mais amaria que não mais entregaria o coração para quem quer que fosse. Entregou-se de corpo e alma no aperfeiçoamento da profissão dedicando-se em tempo integral. Ficou quatro meses aproveitando uma bolsa de estudos no exterior, mais precisamente na França, onde conheceu novos amigos, e onde teve a chance em morar na capital, no entanto seu coração, mesmo machucado, estava no Brasil, estava no seu cantinho da grande cidade de São Paulo, não podia deixar os amigos, os parentes, os lugares tão conhecidos de suas andanças, assim sendo voltou. Ao descer no aeroporto, ao abraçar o amigo que fora buscar ele, sentiu-se outro homem, outra pessoa, mais forte, mais corajosa. E repetiu a promessa que fizera: não iria nunca mais amar.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...