A
mente é um caso incrível! Surpreendente. Apronta cada uma que é difícil de
compreender. Digo o que sempre venho dizendo: deveria existir um botão, um
sistema que pressionado desligasse a mente. Deixasse em branco, fizesse com que
não conseguíssemos pensar. Impossível, não é? Creio que exercitando a mente
talvez houvesse essa probabilidade. Acredito que a mente é uma fonte
inesgotável de poder que a maioria ainda não percebeu. Só alguns com o
quociente mais elevado sabem e usam o poder mental adequadamente. Muitos
poucos. Os que sabem, infelizmente a usam para o mal.
Portanto naquele sábado, o sábado
que me ocorreu o fato inusitado, que só eu percebi, e que comigo morreria, se
não fosse abrir a boca, melhor dizendo, não fosse pressionar essas teclas
mencionando o dito fato que há tempos formiga meus dedos para serem relatados,
ninguém dele saberia. Mas vamos ao fato que é o que mais interessa.
Como todos os sábados aquele não
era diferente. As oitos horas o rádio relógio me despertou com o irritante bip
bip. Levantei-me e fui tomar um banho para tirar a inhaca da ressaca. Depois
sentei em frente ao micro, havia e-mails para responder e escrever. Por uma
razão qualquer que não sei o porquê, achei que estava atrasado, talvez meu olho
sonolento viu dez horas e não oito horas ou, por um motivo inconsciente,
ansiedade, não sei, julguei que chegaria atrasado ao almoço que marcara com o
Savasini. Como não sei chegar atrasado, creio que tenha sido essa a causa da
ansiedade. O doutor Dirceu, médico acupunturista que, alia a medicina
tradicional com a alternativa, me disse uma vez:
- Chegue pelo menos uma vez
atrasado aos encontros. Não se preocupe de chegar atrasado.
Até que ele tem razão. Por que
devo chegar cedo? Pensei:
- Não vou mais me preocupar com
isso, disse a meia voz para mim mesmo.
Ah!
Qual o que. Há uma mola ou ordem, não sei dentro de mim que me impede tal
ousadia, sou sempre o primeiro a chegar. Mesmo sabendo que o Savasini não é
muito pontual, o que não quer dizer que seja ele desrespeitoso com os seus
encontros e muito menos com os amigos vejo mais como uma característica
involuntária o qual, ele não consegue ser pontual e, se um dia ele deixar de
ser impontual, não será mais o Savasini que conhecemos. Mesmo assim não consigo
chegar depois dele. Chego sempre antes.
E
como todo sábado, desci no metrô Brigadeiro e fui para o Genova crente que
encontraria o Savasini já almoçando. Ledo engano. Ele não tinha chegado ainda.
Olhei no relógio, faltavam cinqüenta minutos para o início dos Rascunhos
Poéticos. Pedi uma cerveja e uma porção, não sei se foi de calabresa ou de filé
de frango. Comi meio que apressado, quase em cinco minutos devorei a porção e
bebi a cerveja. O Tio, o garçom que está acostumado a me servir, surpreendeu-se
com a minha rapidez:
- Poxa! Sobrinho, ele me chama de
sobrinho, já vai! Que pressa é essa?
-
Estou atrasado, disse a ele.
Entrei na Casa das Rosas quase
correndo. Passei pela recepção, perguntei pelo Savasini, peguei a lista de
chamadas e subi para a sala que me foi indicada. Pensei que fosse encontrar a
sala cheia, com o pessoal dos Rascunhos e, qual não foi a minha surpresa ao
encontrar o pessoal do curso anterior. Quando me viram, se desculparam por
ainda estarem na sala. Pensei:
-
Será que todo mundo, até o Savasini, combinaram de chegar atrasado?
Quando
o pessoal do curso anterior saíram, arrumei a sala, coloquei as cadeiras em
círculo, abri mais as janelas, apaguei o quadro branco, não é mais quadro
negro, e sentei-me à espera. Esperei. Cruzei as pernas. Descruzei. Fui até a
janela. Voltei. Sentei novamente. E nada do pessoal chegar.
- O que será que houve, pensei ao
mesmo tempo em que olhei o relógio.
Meus
olhos se estatelaram nos ponteiros do relógio. Um giro de cento e oitenta graus
sacudiu minha cabeça. Sem conter soltei um:
- Puta que pariu meio alto.
Tornei a olhar o relógio.
Certifiquei-me do erro. Eu estava adiantado mais de uma hora. Os Rascunhos
começa sempre as quatorze horas e eram ainda meio dia e vinte minutos. Nossa!
Estava demais adiantado. Como fui me enganar dessa maneira! E agora? Perguntei.
Bom agora é descer e voltar para o Genova. Foi o que fiz. Desci as escadas
torcendo para não encontrar nenhum conhecido senão, além de pagar o mico, teria
que dar explicações. Passei correndo pela recepção, deixei a lista de chamadas.
- Por favor, guarde a lista que já
venho.
A recepcionista não entendeu nada,
ainda bem que ela estava atendendo uma moça que pedia informação.
- De volta sobrinho, perguntou o
garçom quando entrei novamente no Genova.
Pedi outra cerveja. Caramba! Não
me conformava com o engano. Ah! Cacete, ninguém precisa saber o que aconteceu,
pensei. É, mas os dedos não resistiram e tiveram que mencionar o fato, o qual,
agora fui obrigado a narrar.
Isso foi o que me aconteceu
naquele sábado.