sexta-feira, 31 de maio de 2024

A música bate no ambiente

  

A música bate no ambiente como pedra pontiaguda furando a carne do inconsciente que teima em guardar a saudade de algo que não sei se terei mais.


É uma batida seca em contrapartida com a voz do vocalista aguda extravasando a fúria numa letra incompreensível – não sei inglês – cheia de conotação simbólica de raiva e ódio.


Soa a voz do vocalista em gritos histéricos querendo sobrepujar os instrumentos, principalmente a guitarra solo e a bateria, tornando quase num amalgama só inteligível.


Entrego-me a esse som despudorado, deixo-me levar ao profundo domínio de me sentir num poço raso de angustias e dúvidas e saudades.


E nesse deixar-me levar procuro no horizonte, onde o sol brilha com mais intensidade, um pouco do seu semblante que há muito tempo não o vejo.


Estico meu corpo no deserto vazio de sua alma a flanar por caminhos diferentes ao meu.


E num gesto suave, toco tua pele fresca e sedutora, acariciando a minha cansada de não ter mais a tua.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

a musica invade o salão

 a musica invade o salão

de almas vazias

 

nas mesas

ouvem-se vozes

de silêncio

 

cristalizam-se os copos

de acidez ferina

no espocar dos vivas

em champanhes borbulhantes

 

na estrutura metálica

a ferrugem se instala

corroendo a saliva

dos mortos vivos

 

na esquina sombria

chora o pedinte sua fome

de embriagado perdido

entre etílicas luzes das estrelas

 

cada um sabe

o sapato que lhe

aperta o pé

quarta-feira, 29 de maio de 2024

A noite sorri o brilho despreocupado

 A noite sorri o brilho despreocupado nos olhos de quem procura preencher o vazio das vozes.

 

Risca os passos o caminho tracejado pela situação encobrindo sexos murchos entre as pernas alcoólica do medo de ficar a sos.

 

Soam lábios ardentes estampando no concreto a ebulição da vida acorrentada pelo moralismo fechado nos prédios decadentes.

 

Luminosos bolorentos e arcaicos transluzem o consumismo massificante, onde se vende tudo, da mãe ate a lama aos traficantes donos do poder.

 

Das veias que cruzam a cidade, jorra o sangue carbônico talhado pelo canivete cego da adversidade.

 

Drogas mortais são fabricadas pra que se possam fugir da realidade viciada na prostituição governamental.

 

Nada se aproveita.

Nada se cria.

Tudo é demagogia.

Socialismo ou comunismo.

Da direita ou da esquerda?

terça-feira, 28 de maio de 2024

A realidade queima mais que o sol

O desprendimento conduz meus passos na burocrática vida longe de você.


Passos que outrora pisaram despreocupados a areia da paixão sem perceber o que me alimentava, hoje, pisam a areia fina sentindo entre os dedos sujos pelo infortúnio, o amor esvaindo nas ondas levando-nos cada um para a sua praia.

Ao longe vejo um brilho ofuscante, aproximo, noto uma concha branca enterrada na areia banhada pelo sol da tarde.


Instintivamente levo a concha ao ouvido, ouço palavras arrebentando-se nas pedras banhadas pela espuma da angustia.


Presto atenção, como pequenas pedras esmerilhadas no vai e vem das ondas, escuto uma voz sussurrando: me ame, me ame, repetidas vezes.


Acelerado o coração reage fortemente, a esperança cresce, a vida torna-se imensa, descomunal e pequena.


Tomo uma decisão, jogo a concha de volta ao mar.


Recolho meus passos, a realidade queima mais que o sol nessa tarde de outono.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

A vida continua ávida

 "A vida continua ávida na solidão do tempo, que sobrevive em longo prazo ao martírio da fome e do amor solitário".

domingo, 26 de maio de 2024

A saudade, como o dedilhar de um piano

  

A saudade, como o dedilhar de um piano, soa como acordes melódicos numa fantasia romântica divinizando o que foi o que era e, que dificilmente voltará, mas o saudoso estará sempre dedilhando o piano, ouvindo do passado os acordes que o faz sofrer.


Para ele pouco importa Amy Lee demitir guitarrista e baterista, o que importa é ouvir o som do Evanescence numa seqüência quase que infinita de lembranças guardadas nas moléculas de cada indivíduo.


Carregará por toda a vida os momentos que o fizera ser mais integro aos sentidos do corpo onde há de ficar para sempre os atos de sua vida.


Atos desgarrados de premeditação e de preconceitos e nenhuma vitória.

Fecham-se assim as cortinas do espetáculo.

sábado, 25 de maio de 2024

A simpática e bonita Judite.

 

Ela era bonita, como era! Era não porque tenha morrido, mas é que não a via mais de anos. E naquela época, logo que entrou na firma, em que viu o grande letreiro branco na parede do enorme prédio, determinou que aquele seria seu último emprego, caso fosse admitido, só sairia dali aposentado. E até o momento estava cumprindo o prometido. Como estava dizendo, naquela época, fazia pouco tempo de casado, talvez uns oito meses mais ou menos, sua esposa, quando estavam no aconchego dos lençóis, lhe perguntou:
- Onde você trabalha tem alguma mulher bonita?

Sem pestanejar respondeu:

- A Judite.

- É bonita?

- Sim, uma morena de cabelos lisos, atraente, simpática, corpo fenomenal, os homens babam por ela.

- E você, não baba?

- Não.

- Você se pudesse casaria com ela?

- Não.

- Por quê?

- Por que ela é muita areia para o meu caminhão.

- Mas se houvesse sei lá o que, uma maneira, você se casaria com ela?

- Não, já lhe disse que não.

- Por que?

- Por que meu coração escolheu você e não ela.

Na verdade, pensou ele, nossos caminhos eram diferentes e ele não tinha um padrão de vida que ela estava acostumada a ter.

Naqueles dias em que a firma ficou no prédio da Rua Sílvia, poucas vezes a via. Pois trabalhando no décimo primeiro andar, saindo só para o almoço e no término do expediente, raramente a via. No primeiro ano de amigo secreto até pensou que ela tivesse tirado ele, mas não fora. Aliás, avoado como era e facilmente em esquecer os acontecimentos, não se lembrava nem de quem ele havia tirado.

Depois que a firma veio para o Conjunto Nacional é que passou a vê-la mais constantemente. Sendo ela secretária do Moreno, gerente da auditoria, trabalhando numa sala de vidro, quando precisava mandar os documentos para o arquivo morto, a intimidade entre eles foi crescendo. E quando ele começou a escrever os bons dias, Judite vinha sempre comentar com ele, principalmente quando se referia aos acontecimentos de caserna que relatava.
Além do que, na implantação do sistema Metrofile, ela o chamava para que lhe explicasse os macetes e acabava fazendo o serviço dela. Por mais que explicasse, Judite não entendia ou, fazia que não entendia, nunca soube ao certo. Nas primeiras vezes pensou:

- Mas que cabeça dura, não entende um processo fácil de fazer.

Porém, mais tarde compreendeu, Judite fazia mesmo de propósito por algum motivo o qual não soube qual era. Talvez para ter alguém com quem conversar durante o expediente ou, para tirá-lo do serviço, pois vivia sempre dizendo:
- Ih! Não esquenta, fique um pouco mais aqui, assim você muda de ar, de ambiente.
E isso passou a ser quase constantemente, apesar de não ter muitos documentos, a auditoria estava como todas as outras repartições no processo de eliminação de papéis e armários. A partir desses momentos, conhecendo-a mais intimamente, ele passou a admirá-la, a gostar mais dela.

Um dia veio à bomba que surpreendeu a todos. Judite tinha sido demitida. Foi uma consternação entre os seus amigos íntimos. Ele ficou triste, sem saber o que dizer tímido como era o que conseguiu foi escrever um poema para ela.
Um poema que ele guarda com carinho.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

A vida corre normalmente para todos

  

Normalmente a vida

Trespassa um a um

Os limites do corpo

Nada mais

Onde cada um

Cria seu próprio espaço

Armazena seu cansaço

No tempo que não existe mais

A vida torna-se mais intensa

A cada momento

Em que a vida corre

Normalmente para todos

quinta-feira, 23 de maio de 2024

a vida é uma tira de jornal

 

impressa no claro e escuro

monótono do dia

onde o humor corrosivo

queima a pele da cidade

revelando em cada esquina

a falsa e podre verdade

do aborto que assassina

quarta-feira, 22 de maio de 2024

A vida é vermelha. (A fraternidade é vermelha).

 

Se a vontade é branca, a amizade é azul, a vida é vermelha. Isto porque todas as cores conduzem os passos sobre trilhos urbanos onde, um pequeno escorregão, pode ocasionar a perda de um membro. Portanto, equilibro-me no sentir insano, todas as vibrações que me levam a lugares estranhos. Durante a caminhada, encontrarei o que eu quero. Talvez esteja perto, o que acho difícil, pois a vida é complicada, preciso me entregar as caricias das noites sem luar, para conseguir apaziguar o intelecto. Sei que a vida não é tão somente isso, é muito mais, é uma mancha vermelha que espezinha as paixões e as ilusões. É tatuagem queimando os pulsos fracos jogando-me de um lado para o outro numa compulsão estereotipada em sentir a vida e o próprio desejo em ter a vida como ela é. A vida é vermelha, outra cor não poderia ser. Condicionada a toda e qualquer evidencia, ateando fogo nos gravetos secos deixados ao longo da estrada, onde os estóicos transeuntes torcem o nariz ao se enveredar por outros caminhos, sem saber do porque e o porquê e, muito menos, de onde vieram e para onde está indo.

Pequenos liames prendem nossas vidas conjugando os sentires ousados e precipitados na enxurrada do mesmo desejo. Recorro à escrita por não saber expressar a voz numa fala delinqüente e sedutora. Há uma proeza que inconsciente, escondo os timbres da voz numa carapaça envernizada no acanhamento em me expor. A vida é vermelha e nela me embrenho de alma e coração com a finalidade em senti-la a cada minuto mais intensa estilhaçando minhas fibras. Ao fim de cada dia ou, de cada aventura mal sucedida, cato os estilhaços um a um, e com a paciência e amor aos que me desejam, colo-os com a cola da amizade e da compreensão de estar fazendo o correto.

E assim, os dias são mais vulneráveis a quebrar regras livrando-me de preconceitos e dogmas idiotas.

terça-feira, 21 de maio de 2024

A vinda do papa que não é pop, mas podre de rico

 

Com a vinda do papa que não é pop, mas que é podre de rico, houve uma confluência de turistas, tanto de outros países adjacentes como turistas de outros estados e, com isso quem sofre são os pobres coitados que precisam tomar o metrô para as suas obrigações trabalhistas de sobrevivências.

Hoje o metrô estava terrível, para lá de terrível, insuportável. Na estação da Penha até que tomei fácil, mas ao chegar à Sé, vice Nossa Senhora dos Paridos, aquilo estava abarrotado de gente, as escadas rolantes foram desligadas, só consegui pegar o quinto trem e, assim mesmo, não peguei, fui é empurrado e, por mal dos pecados, ao chegar na estação Vergueiro uma das portas do meio não abriam, ficou emperrada, para descer no Paraíso foi aquele, empurra daqui, empurra dali, segura a porta gritavam, até que todos saíram.
A plataforma da estação Paraíso estava vazia, mas depois de dois trens que vieram da Sé, aquilo ficou apinhada. Quando chegou o trem foi à mesma coisa, um empurra lá, um empurra aqui. E, por desgraça ou quer que seja ao chegar à Consolação à maldita porta do meio não abria. Ah! Aí foi àquelas exclamações, gritos de segura a porta, novamente empurra lá, empurra dali, vozes desesperadas com medo de não saírem e se atrasarem mais.

Eu que saí de casa como de costume, às seis horas e quinze minutos, cheguei no serviço as oito horas e dez minutos.

Tudo por causa do papa que não é pop, mas que é papa velho e podre de rico.
Será?

A vida

 

Tua

Nossa

Vagarosa Passa

Nas pedras Da cidade

Revelando Segredos

Para serem lidos

Com os olhos

Dos corações

Dos nossos netos

domingo, 19 de maio de 2024

A vontade é branca. (A Igualdade é Branca)

 

Não há nada para ser escrito. O vazio impinge aos dedos palavras que batem e rebatem voltando cada uma ao seu canto esquecidas. Os podres dedos, mecanicamente pressionam as teclas pretas por força do hábito. Uma a uma surgem nessa tela branca como branca é a vontade. Quem sabe pulando a janela do décimo andar seja a solução.

Os veículos, na velocidade caótica da metrópole, convidam ao salto vertiginoso e direto se esborrachando no asfalto soterrado de angústias divinas. Reza beatas escrotas o perdão dos filhos infiéis alcoólicos pelo beijo no asfalto. Sangra lábios virginais empapando de vermelho o branco do meio dia refletido no sol a agonia da humanidade.

E o menino faminto, escorre saliva do doce em seu peito sem camisa. A mãe disse para não voltar de mãos vazias, pois vazia é a branca vontade de viver, e eles, vivem como podem no branco dos cartazes poluindo a visão. O menino obediente se esforça nos faróis onde os opulentos diagnosticam um ladrão a mais a lhes roubar.

De repente ouve-se um silvo queimando a pele morena do menino. Ele tomba e um filete de sangue mancha o preto do asfalto.

E no jornal, em letras garrafa, os transeuntes lêem:


“Mais um menino morto por uma bala perdida.”


E perdidos corremos o risco de sem querer, ao virar a esquina, ou passar por uma praça, ou mesmo dentro de casa, encontrarmos com uma bala perdida.
No que diz o egoísta:


- Não sendo eu, tudo bem.

sábado, 18 de maio de 2024

a voz metálica

  soa nos passos combalido

pela saudade

 

o esquecido vem à tona

em palavras ao concretizar

a inexistência do teu amor

 

o vento dispersa

as folhas caídas

de uma mangueira

assim como dispersa

as palavras do poema

que tem o teu nome

sexta-feira, 17 de maio de 2024

A voz

  

A voz da cantora duela com o piano criando uma atmosfera de prazer melódico que palavra nenhuma consegue transmitir. Logo em seguida, a voz masculina dando um timbre sonoro em contrapartida, anuncia a presença da orquestra que será conduzida e que conduzirá as duas vozes até o clímax. Num trêmulo de violinos, antecipado pelo piano, tudo se encaixa verbalmente num prazer inexplicável, pois o inexplicável é para ser sentido, ouvido, degustado no aconchego interior da alma concretizando a lágrima que teima escorrer pelo canto do olho. Ao final, a alma se fecha, se recolhe, guarda os instantes para sempre no interior das fibras num abstrato sentir de comoção febril.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Acho que vou me render ao fretado.


Não por comodidade, não. E, sim por causa da perna. Só de subir as escadas até o portão, a dor era como se eu tivesse andado uns três quarteirões. Depois, na condução, nem sempre há lugar vago, as vezes preciso ficar em pé por um longo tempo, e quando um banco fica vago e consigo sentar a perna continua doendo.

Hoje mesmo, foi um dia desses. Quando passei a chave no portão à perna já estava doendo. Peguei o micro ônibus e fiquei por um bom tempo em pé. Na subida para a Penha, no terminal, vagou um banco e pude sentar. Mesmo assim, a perna continuou doendo.

Na plataforma da estação do metrô Penha, precisei sentar novamente. Esperei uns dois metrôs. Sentindo-me melhor peguei um meio lotado, mesmo assim, a perna doía.

Na estação Sé, pude sentar naqueles confortáveis bancos cinza. No Paraíso também sentei no deslumbrante banco cinza.

Descendo na Consolação, a perna não doía, mas assim que atravessei a rua Augusta, começou a doer.

E entre a Augusta até a Frei Caneca, precisei sentar na beirada dos canteiros, umas duas vezes.

Cheguei no prédio vendo estrelas em plena manhã de sol. Subi o elevador e desci no meu andar, sentando a minha mesa, pude esticar a perna até que a dor passasse lentamente.

Portanto, acho que vou fazer um teste pegando o fretado de manhã.

Deixarei a movimentação do metrô, o qual me deu muita inspiração para escrever os meus bons dias, para a chatice de nada acontecer no fretado.

Pensei também em parar de trabalhar, aposentado, mas e aí? Como farei? Vou ter que enfrentar as filas enormes dos SUS da vida?

Se pudesse ter o convênio vitalício, claro não pensaria duas vezes, mas como não tenho, vou continuar trabalhando.

Vamos ver.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Ainda não me rendi ao fretado.

 

Sexta, de manhã os arruaceiros pregoavam a greve do metrô para hoje, segunda.
Distribuíam como sempre, o jornal do metrô onde decretavam a greve. E como sempre, passo por eles sem dar pelota para o que dizem ou que fazem. Às vezes dá vontade gritar:

- Vá trabalhar seu arruaceiro que você ganha mais.

Mas não o faço, não o faço por que não sou louco de arrumar confusão e, sabe-se lá o que poderá me acontecer. Como parte do povão, mas não agindo como o povão, sou medroso, prefiro ficar na minha, o que num certo ponto é errado, e em outro ponto é correto. Uma andorinha só não faz verão, não é assim o velho e proveitoso ditado que ouvimos desde criança?

A meu ver o povão não devia dar pelota para os arruaceiros, mas o povão parece que tem não sei o que, medo de perder o emprego, medo de tudo talvez, e ouvem o que os arruaceiros dizem, pegam o jornal do metrô que mais tarde você verá jogado no chão da plataforma ou atulhando as pequenas e eficientes latas de lixo.

Sendo eu um avoado, levantei-me hoje e nem lembrava dessa particularidade. Levantei-me numa boa, me troquei, escovei os dentes, coloquei comida pro gato, deu um tchau para a filha e sai.

Ao chegar no ponto, que é três passos perto de casa, percebi que não havia era ônibus. O ponto não estava cheio, mas também não estava no seu dia normal.
Enquanto esperava o micro ônibus, que nessa altura já tinha passado dois terrivelmente transbordando de passageiros, ouvi a conversa entre duas mulheres:
- Greve do metrô eu estava esperando, mas de ônibus eu não sabia.

- Também não sabia, respondeu a outra.

E no meu pensamento:

- É eu também não sabia.

O terceiro que passou consegui pegar. Lotado, apinhado de passageiro, ainda bem que era daqueles que descem por traz e não pela frente. No terminal Penha desceu a metade.

O metrô, o terrível metrô estava normal, nada de extraordinário, apenas a aglomeração costumeira para entrar e sair dos trens e, uma garota de cabelo roxo, meio cinza, com roupas pretas, carregando vários livros no braço.

E assim transcorreu mais uma greve do metrô.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Ao mesmo tempo em que ouvia Stratovarios,

  seus dedos digitavam palavras cheias de algo que não compreendia. Os olhos na lentidão dos objetos que o observavam, seguia o curso dando lugar às letras. Uma vez ou outra, os olhos se desviavam e percorriam a estante onde o computador estava encravado e, como a pedir uma pequena inspiração, suas pupilas liam os títulos dos dvds colocados um ao lado do outro numa arrumação convenientemente horizontal. Esse passeio dos olhos demoravam poucos segundos, pois era preciso prestar atenção na tela do monitor e acompanhar as palavras surgidas por causa dos movimentos das mãos juntamente com os dedos, verificando se estava correspondendo com o que deveria escrever.

Na verdade não sabia o que escrever e, no pouco já escrito, numa releitura ágil não gostou muito. Verificou palavras repetidas, frases com pouca sedimentação dando uma consistência frágil ao pensamento. Não pensou em refazer, ele não era muito de reescrever, achava que o que escrevia estava bom, que não devia mexer mais. Houve um tempo em que reescrevia várias vezes um trecho, ou uma mesma frase, apenas para sentir a beleza surgir entre um pensamento ou uma idéia. No mais das vezes, seguia o fluxo sem uma ordem, sem um esboço definido. Talvez, precisasse criar um esboço, uma linha do que deveria ou queria escrever, e a partir desse esboço trabalhar a ideia infinita vezes fossem necessárias. Não sabia se era um bom exercício ou, se daria um bom resultado.

O que sabia era que nesse momento, precisava parar um pouco.

 

Não tinha muita certeza se devia ter parado, achou que fosse necessário parar, portanto parou. Foi até cozinha tomar um bom copo de água, pegou de cima da mesa enfeitada para o Natal, umas castanhas e, voltou para frente do micro teclar os pensamentos que afloravam da mente insegura do que escrevia. Tinha até o final do cds do Stratovarios para dar uma consistência agradável ao que estava escrevendo. Uma das coisas que o importunava era achar o que escrever o que colocar no papel branco da telinha do monitor. Às vezes nas primeiras palavras já vinha o material completo e, quando percebia o texto já estava pronto, com um conteúdo forte, bom, agradável de ler. E quando isso sucedia, não recebia nenhum elogio quando postado nas listas de discussão as quais ele pertencia. Ficava, evidente aborrecido, no entanto lhe disseram uma vez: “O que importa é que você tenha escrito e, que você tenha realmente gostado. Se o leram ou não, se gostaram ou não, isso pouco importa. O que você tem que fazer é escrever todos os dias, mesmo que seja uma simples e banal frase”. Desde o dia em que ouviu isso não deixou mais de escrever todos os dias. Seja feriado, domingo, sábado o dia que fosse ele empunhava os dedos meios adormecidos pelo tempo, pois o tempo corre e a gente não tem como acompanhar, quando sentimos, nossos dedos já não é tão ágil como outrora. Mesmo assim, com pouca agilidade, não deixava um dia de escrever. Até chegaram a fazer piada, persistente, não deu a mínima para o que diziam. Queria escrever, se pudesse escrever de uma maneira como sentia a música do Stratovarios, colocar no papel o sentimento da música transpondo os poros suados, captar em cada gota de suor, a melodia, os versos em inglês, a bateria, o violão, a guitarra, tudo num conjunto só e roubar toda essa capacidade de se fazer música e, das mais belas por sinal, e transpor para as palavras, fazer os acordes, a voz do cantor, o clima, colocar em cada ponto de cada letra, o texto não transbordaria palavras poética e, sim, transbordaria poéticas palavras cheias de músicas que, o leitor ao ler, sentiria juntamente a música das palavras sem precisar lê-las. Isto é, ouvia a música das palavras como as palavras da música. Acho que seria mais interessante, ficaria mais leve a leitura, o leitor não se cansaria tanto, teria mais prazer em ouvir música e ler um bom texto num conjunto só.

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Aquele sábado...

 

A mente é um caso incrível! Surpreendente. Apronta cada uma que é difícil de compreender. Digo o que sempre venho dizendo: deveria existir um botão, um sistema que pressionado desligasse a mente. Deixasse em branco, fizesse com que não conseguíssemos pensar. Impossível, não é? Creio que exercitando a mente talvez houvesse essa probabilidade. Acredito que a mente é uma fonte inesgotável de poder que a maioria ainda não percebeu. Só alguns com o quociente mais elevado sabem e usam o poder mental adequadamente. Muitos poucos. Os que sabem, infelizmente a usam para o mal.

Portanto naquele sábado, o sábado que me ocorreu o fato inusitado, que só eu percebi, e que comigo morreria, se não fosse abrir a boca, melhor dizendo, não fosse pressionar essas teclas mencionando o dito fato que há tempos formiga meus dedos para serem relatados, ninguém dele saberia. Mas vamos ao fato que é o que mais interessa.

Como todos os sábados aquele não era diferente. As oitos horas o rádio relógio me despertou com o irritante bip bip. Levantei-me e fui tomar um banho para tirar a inhaca da ressaca. Depois sentei em frente ao micro, havia e-mails para responder e escrever. Por uma razão qualquer que não sei o porquê, achei que estava atrasado, talvez meu olho sonolento viu dez horas e não oito horas ou, por um motivo inconsciente, ansiedade, não sei, julguei que chegaria atrasado ao almoço que marcara com o Savasini. Como não sei chegar atrasado, creio que tenha sido essa a causa da ansiedade. O doutor Dirceu, médico acupunturista que, alia a medicina tradicional com a alternativa, me disse uma vez:

- Chegue pelo menos uma vez atrasado aos encontros. Não se preocupe de chegar atrasado.

Até que ele tem razão. Por que devo chegar cedo? Pensei:

- Não vou mais me preocupar com isso, disse a meia voz para mim mesmo.
Ah! Qual o que. Há uma mola ou ordem, não sei dentro de mim que me impede tal ousadia, sou sempre o primeiro a chegar. Mesmo sabendo que o Savasini não é muito pontual, o que não quer dizer que seja ele desrespeitoso com os seus encontros e muito menos com os amigos vejo mais como uma característica involuntária o qual, ele não consegue ser pontual e, se um dia ele deixar de ser impontual, não será mais o Savasini que conhecemos. Mesmo assim não consigo chegar depois dele. Chego sempre antes.
E como todo sábado, desci no metrô Brigadeiro e fui para o Genova crente que encontraria o Savasini já almoçando. Ledo engano. Ele não tinha chegado ainda. Olhei no relógio, faltavam cinqüenta minutos para o início dos Rascunhos Poéticos. Pedi uma cerveja e uma porção, não sei se foi de calabresa ou de filé de frango. Comi meio que apressado, quase em cinco minutos devorei a porção e bebi a cerveja. O Tio, o garçom que está acostumado a me servir, surpreendeu-se com a minha rapidez:

- Poxa! Sobrinho, ele me chama de sobrinho, já vai! Que pressa é essa?
- Estou atrasado, disse a ele.

Entrei na Casa das Rosas quase correndo. Passei pela recepção, perguntei pelo Savasini, peguei a lista de chamadas e subi para a sala que me foi indicada. Pensei que fosse encontrar a sala cheia, com o pessoal dos Rascunhos e, qual não foi a minha surpresa ao encontrar o pessoal do curso anterior. Quando me viram, se desculparam por ainda estarem na sala. Pensei:
- Será que todo mundo, até o Savasini, combinaram de chegar atrasado?
Quando o pessoal do curso anterior saíram, arrumei a sala, coloquei as cadeiras em círculo, abri mais as janelas, apaguei o quadro branco, não é mais quadro negro, e sentei-me à espera. Esperei. Cruzei as pernas. Descruzei. Fui até a janela. Voltei. Sentei novamente. E nada do pessoal chegar.

- O que será que houve, pensei ao mesmo tempo em que olhei o relógio.
Meus olhos se estatelaram nos ponteiros do relógio. Um giro de cento e oitenta graus sacudiu minha cabeça. Sem conter soltei um:

- Puta que pariu meio alto.

Tornei a olhar o relógio. Certifiquei-me do erro. Eu estava adiantado mais de uma hora. Os Rascunhos começa sempre as quatorze horas e eram ainda meio dia e vinte minutos. Nossa! Estava demais adiantado. Como fui me enganar dessa maneira! E agora? Perguntei. Bom agora é descer e voltar para o Genova. Foi o que fiz. Desci as escadas torcendo para não encontrar nenhum conhecido senão, além de pagar o mico, teria que dar explicações. Passei correndo pela recepção, deixei a lista de chamadas.

- Por favor, guarde a lista que já venho.

A recepcionista não entendeu nada, ainda bem que ela estava atendendo uma moça que pedia informação.

- De volta sobrinho, perguntou o garçom quando entrei novamente no Genova.

Pedi outra cerveja. Caramba! Não me conformava com o engano. Ah! Cacete, ninguém precisa saber o que aconteceu, pensei. É, mas os dedos não resistiram e tiveram que mencionar o fato, o qual, agora fui obrigado a narrar.

Isso foi o que me aconteceu naquele sábado.

domingo, 12 de maio de 2024

As luzes das estrelas brilham

 A saudade nas cadeiras vazias

As luzes do café realçam

A solidão dos passos

Em busca de companhia

Mudas vozes completam

O cenário ao fundo

 

Não há paz

Apenas angústia

E exaltação muda

De um sofrimento

sábado, 11 de maio de 2024

as mãos se tocam

 

os braços se estendem

os olhos brilham

as bocas balbuciam

 

palavras indecifráveis

cria-se a amizade

perdida na individualidade

consumista do capitalismo

sexta-feira, 10 de maio de 2024

As palavras são para serem ditas e, não guardadas no coração.


Assim carrego palavras, às vezes desconexas, ferindo a consciência de ter-me atado somente a elas para alcançar literariamente o sucesso. Não, nunca procuro o êxito das palavras e, muito menos, o êxito que elas pudessem me oferecer. As palavras não proferidas com o coração, é como bolha de sabão explodem esparramando dissabor e mágoas. Em cada palavra há o seu significado verdadeiro, desprezo o significante. Dessa maneira, penso ter, tão somente, a palavra verdadeira. Portanto quando eu digo: amo-te, estou falando com a palavra pura e verdadeira e, não com o seu significante, apesar de que é difícil dissociar o significado do significante. Mas se você realmente me ama, saberá diferenciar o que lhe é dito com o coração e, não o que lhe é dito com a razão.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

As palavras se espalham

  entre as pernas de Madalena em linhas que se cruzam.

Cada palavra concretiza a vida de Madalena fazendo de sua existência o cotidiano da cidade.

O show tem o brilho no sorriso que se faz necessário.

Madalena sorri para as estrelas que salpica sua alma de brilho iridescente.

Seu caminhar repercute os passos do salto do sapato de Madalena reunindo num só ato a argamassa, pedras e cimento solidificando seu coração.

Dentro do seu peito o amor pulveriza o sentir em fibras cristalinas ao satisfazer os clientes sexualmente.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

as palavras


das bocas

dos edifícios

escorrem suor

lagrimejantes

 

meus heróis

morreram

em sacrifícios

levando-me

precipitado

ao perder

a inocência

 

adquirindo

dos adultos

a bobice

terça-feira, 7 de maio de 2024

às vezes rasgo

 

às vezes rasgo a palavra ao infinito

 outras vezes é o infinito da palavra

  que escorre sonoramente na calçada

   denunciando meu caminhar tedioso,

    quando o vento carrega os pedaços

     

     mesmo assim não tenho que desistir

   continuarei até que não haja o infinito

  e estarei só no espaço único da minha

vida flanando na felicidade de só ser

segunda-feira, 6 de maio de 2024

às vezes

 

encho-me de coragem

e como o albatroz

lanço-me ao espaço

num vôo rasante

só para roubar

dos seus lábios

um beijo ardente

domingo, 5 de maio de 2024

Bebê ou Repulsa

 

Sonolenta, com o corpo sem energia, não sabia o do porquê, rompeu em um choro lascivo e condoído.

 Chorou por longo tempo.

 Os nervos chocavam-se ferindo os ossos numa lancinante dor fazendo-a contrair-se para dentro de si.

 Sozinha contendo a nudez estampada na colcha de angustia foi que percebeu aquele pequeno montículo de carne ao seu lado.

 O que era aquilo? – perguntou-se aterrada.

 Procurou coordenar-se mentalmente.

 Não, aquilo não era seu e nem era para estar ao seu lado.

 Então, porque estava ali enrolado, com os olhos fechados sugando os seus seios?

 O que era essa massa chorosa e mole onde mal se percebia braços, mãos e dedos?

 Um terror tomou conta de si.

 Esticou os braços para expulsar, empurrar para fora da cama, aquele monstro, mas as mãos se recusaram a tocar em algo que não sabia o que era.

 Um frio mortal penetrou sua espinha, correu pelo corpo em forma de suor pálido.

 Amedrontada não se mexia.

 Um esgar maligno marcou seu rosto num grito ao mesmo tempo em que o monstrinho começou a chorar.

 Gritou, gritou várias vezes.

 Na aparecia ninguém.

 Decidiu-se levantar.

 Num ímpeto, jogou as cobertas, girou o corpo, colocou os pés no chão, e se pôs em pé.

 No entanto, o quarto girou violentamente jogando seu corpo que desabou no assoalho frio da morte.

sábado, 4 de maio de 2024

Boa tarde

 

Desliza os dias nos atos impingidos por minha atitude nem sempre correta
Mas quero que sejam corretas?
Em parte sim, em parte não
Quero o que não tenho ao mesmo tempo quero o que nunca tive
Sou um galho arrastado à mercê da correnteza violenta das paixões
Não busco apoio em nada
Quero sentir toda a emoção que eu possa agasalhar em meu peito faminto
Quero me alimentar violentamente no perigo desconhecido de ser tão somente
Um ser em busca do limite que a vida me diz impor
Sei que não romperei nunca esse limite
Mas não custa tentar todos os dias ao abrir os olhos
Ao romper das manhãs ensolaradas

A vida é acorde de violino corroendo sentimentos
Guardados no escaninho dos olhos ferindo-me na doçura do teu olhar

Traço no arco dos meus passos
O gesto dos teus braços
Que me abraça no sossego
Do compasso que traça
O círculo dos nossos destinos

Bolero de Ravel

          

                     
Bolero de Ravel toca as ondas que se quebram na praia em pedaços de luzes que me trazem de volta o teu olhar.

Em cada sonoridade do bolero é uma contrapartida com a sonoridade das ondas beijando a face da praia emudecida acarinhada pela natureza.

Sei, eu sei você não está mais onde nossos olhos buscam sua presença, mas meu ser sabe que você sempre estará onde eu estiver.

Pois somos dois seres num só, somos de Ravel a música e da natureza as ondas do mar que beija minha face cheia de saudade.

Fisicamente você não estará onde o meu olhar irá pousar, mas estarei abstratamente onde você estiver me acompanhando pelos caminhos que meus passos irão traçar.

Minha luz se completa com a sua luz direcionada a um só objetivo: trazer a quem nos ama a felicidade eterna.

Não desligue o som, deixe Ravel exprimir nossa saudade no Bolero infindável.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Bom dia caminhamos

  

Caminhamos entre papéis sujos de labaredas queimando seres que desanimados tentam colocar ordem no processo de suas vidas. Pisamos calcarias pedras sem que tomemos conhecimento da ação às vezes prolongado demais. Olhamos nos olhos um dos outros e não vemos o brilho do sol aquecendo almas frias enrijecidas pela desconfiança política e sexual que transita em cada ser.  Se estendermos a mão não é para salvar o próximo e, sim, para salvarmos a nos próprio que já não acreditamos na mão estendida para que nos salve. Cada beijo que suavemente depositamos nas faces empoeiradas é o mesmo beijo que Judas entregou Cristo no calvário, pois ainda trazemos a alma suja de preconceitos e imoralidades. Não aprendemos nada e nunca aprenderemos nada se não lavarmos o espírito na água pura e límpida do amor pelo amor acima de qualquer coisa.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Bom dia, corro perigo

  

Corro perigo de amar insuficientemente. Um perigo que não é levado muito em consideração, porque o amor é por si só, palavra forte, carregada de intensidade espiritual que muitos não têm a sutileza de senti-la essencialmente. Fácil dizer: amo-te. Sentir a potencialidade desse “eu te amo” não é para qualquer pessoa. Porém, o que quer dizer: “eu te amo?” Quer dizer que “eu” tenho minha atenção voltada para uma determinada pessoa, preferencialmente aquela que traz que carrega em si toda a característica que me agrada, que tem certa alquimia que bate com a minha. Mas ao dizer: “eu te amo” não me dá o direito de ter o poder de influenciar, o poder de mandar, o poder de ser dono da pessoa que amo. Esse “eu te amo” apenas me dá o direito de aceitar os erros e defeitos e, sutilmente, como se beija o aroma da rosa, emparelhar ou enquadrar, os meus erros e defeitos para que não haja conflitos. Dizem que amar é confiar, que quem ama tem ciúmes. Para se amar realmente, é preciso confiar em si mesmo, numa confiança que seu ato não leve a ter uma pequena sombra de ser mal intencionado. Para se amar realmente, é preciso não ter ciúmes dos seus próprios atos para que eles não provoquem ciúmes.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...