sábado, 30 de novembro de 2024

Dureza poética

 Dureza poética


Endureço a poesia até que a pedra fique vazia!
                                            Ana Mª costa

 

E perco da verdade a dura essência

Que do meu corpo cria na manhã fria

 

Acirrada luta contra a melancolia

Que de sobre aviso vejo na distancia

 

Como minha vida tão insignificante seria

Ao ter ao redor a pedra futilmente vazia

 

Portanto pego o tema na minha mão esguia

Moldo as arestas retirando toda a maresia

 

E assim suavizo mansamente teu belo tema

Criando depois de muita busca um poema

 

Fazendo com que a vida tenha mais harmonia

E nosso ser seja iluminado pela alegria

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

É foda

  

...carro pegando fogo, fumaceira, trânsito ruim; “moço, tem uma abelha nas tuas costas”, disse a moça ao ultrapassar por mim, “onde?”, perguntei, “tire para mim”, “da licença”, e ela com medo de me tocar ou de ser ferroada pela abelha, espantou a dita cuja; esse lado da avenida não é nada legal, uma calçada suja, disforme, cheia de buracos, carrinhos de bolos, pães, café, banca de frutas, o Center Três todas as manhãs com tapume de madeira, entre os vasos na calçada da Frei Caneca há sempre uma mendiga sentada escrevendo, outro dia ela estava escrevendo num vidro e no outro  num caco de garrafa, será que ela é feliz? não sei, comecei duas histórias que não consigo continuar, o bebedouro com água gelada, a máquina de café todas as manhãs quebradas, não sei, mas acho que do outro lado da avenida estávamos melhor ou... eu estava melhor; não sei, tantos motivos para escrever uma crônica ou sei lá o que e não tenho pique, não tenho motivação... ah! sei lá... nem sempre é tudo como queremos e sempre temos que nos sujeitar por causa dessa maldita sobrevivência... o negócio é chutar o balde cheio de merda, mandar pra puta que pariu as preocupações e continuar... continuar... continuar... e nunca cair... é foda!

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

É isso

  

O branco da mente invade, se confunde, se interpenetra com o branco da telinha do monitor – antigamente era o papel -, meus dedos descansam sobre as teclas do computador – antigamente era a caneta ou a máquina de escrever -, à espera de alguma ordem vinda do cérebro meio que cansado e profanar com palavras nem sempre condizentes com o que se pensa ou se deseja pensar e muito menos com o que se deseja escrever. Nem tudo é como a gente desejaria que fosse.

Sou influenciado por um filme em que o personagem atacava com avidez o teclado numa enxurrada de palavras em que ele depois reescreveria criando assim uma pequena obra literária. Esse personagem é interpretado pelo ator, por sinal, o excelente Sean Connery, em que ele dá uma aula de como se deve escrever ao aprendiz a escritor que invade o seu apartamento.

Ataco o teclado, não com avidez como o personagem do Sean Connery, mas com certa reserva onde o pensamento se coloca em primeiro plano preocupado, não com o que vou escrever, e sim, com o que o leitor vai achar ridicularizando ou não essa tentativa ridícula de pensar que sou escritor.

Cada texto que crio que transporto da mente ao papel, isto é, à telinha do monitor, é sempre uma tentativa, às vezes experimental, às vezes inconsciente, outra bloqueada por uma temeridade critica outras frustradas indo rapidamente para o lixo eletrônico.

Não ouso vôos literários, não adianta me pavonear de escritor, não tenho estilo que se sustente por si próprio. Meu estilo, se é que tenho um estilo, é despreocupado, não é engajada a nenhuma linha literária, a nenhuma corrente de fácil acessibilidade. Não consigo um escrever leve, fácil, expressivo, algumas vezes sem que perceba saí um texto espontâneo sem precisão de reescrevê-lo inconseqüentemente a ponto de sentir o forjar da escrita espremida, angustiada.

Bom... é isso...

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

é nóis na fita

  

grita um povo a uma só voz hoje nessa terça-feira de sol

é vamos saudar a bola da fome que corre nos gramados da corrupção

é vamos bradar a glória da nossa bandeira da má administração

é vamos golear o nosso bolso sempre enganado pela esperança de um dia ser melhor que o outro

 

vamos driblar os pedintes nos faróis vendendo sua sobrevivência ignorada

vamos chutar a criança sorridente nos seus direitos de felicidade roubada

vamos colocar para escanteio ladrões em suas selas confortáveis de proteção máxima

vamos impedir nossos passos cada vez mais preso pela ignorância cultural

 

é nois na fita mais uma vez

vamos defender nossa bandeira com pés de ouro e pouco suor

é nois na fita mais uma vez

vamos numa canção levantar esse gigante adormecido deitado em seu berço esplendido de ouro e mata sempre devastado

vamos não fique parado

junte-se ao povão

pra frente meu Brasil adorado

você é forte sobreviverá

a toda essa emoção

terça-feira, 26 de novembro de 2024

É primavera

 Eu te amo

É primavera

O céu está escuro

Chove chuva

Meu amor

Traga o guarda chuva

Para se proteger

Meu amor

Se proteja aqui comigo

É... Primavera! Chove uma chuva fina, faz frio não intenso, mas tudo bem é primavera.

Reparei numa coisa, nessa eleição. Limpeza. Uma total limpeza. Não vi um único outdoor pela cidade, e muitos menos viadutos, postes, paredes, faixas impregnando de poluição por tudo que é canto da cidade.

E também, não vi aquele mundaréu de pessoas entregando “santinhos” na boca de urna e, com isso, provocando a maior sujeira.

Em compensação, surgiu o “homem tabuleta”  ou o “acompanhante de tabuleta”. Aquelas pessoas que, por um dinheiro, ficam pela cidade, nos cantos estratégicos, guardando a tabuleta dos candidatos.

Bom, melhor isso do que a sujeira das eleições anteriores.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

E vou dormir

  

O Word aberto. O branco da telinha desponta ferindo o branco de outros lugares, prédios, paredes, papéis e o branco fugaz que num repasse translúcido fere a mente obrigando-a a pensar no que os dedos deverão teclar letras correspondentes e assim fazer com que surgem palavras transmitindo o meu pensar de escritor sem ter o que escrever.

Que merda! De novo esse dilema! De novo escrever sobre isso?!

Não há variações nessa escrita de molambo sempre em perigo caminhando a beira do precipício da alma sem ter o que falar apenas imprimindo palavras a esmo e, o que é pior, querer que tenham conexão entre si para que possa ser chamado de escritor.

Imbecil! Não passa de um rufião sonolento sem perspectivas de se alçar em voos panorâmicos da intelectualidade primata onde o que se realça é a paranoia afogada nos próprios desígnios conturbando o que pretende dizer.

Trouxa! Aposente os dedos masturbadores de vermes pousados no teclado a cata de letras para que possa existir.

Fecho o Word. Desligo o micro. E vou dormir...

domingo, 24 de novembro de 2024

É... o querer fazer

 alguma coisa, no caso nesse momento, escrever e, não saber o que escrever, me prende a ponto dos meus dedos teclarem ininterruptamente palavras no branco da tela do monitor por querer apenas escrever.

 

As manhãs sempre proporcionaram facilidade, mas ultimamente, não sei se devido à mudança ou a outros fatores que, para muitos, pode ser corriqueiro ou mesmo fútil, tem-me impossibilitado a escrever.

 

A música antiga que expele frases sonoras pelo som ambiental não ajuda, pois o que achava que deveria ser feito ou, o que inculcaram que deveria ser feito de uma maneira mais explicita, não foi feito.

 

No entanto, acredito e afirmo que não se pode e, muito menos, não se deve acreditar em palavras sem conhecer a sua fonte, isto é, a boca que as profere.

 

Sei que tudo o que ocorre é de uma normalidade meio alarmante e que atuamos nesse espetáculo facínora e atraente por sermos atores sem estudo suficiente, mas como muitos, procuro ir além do habitual e esbarro em muros que me impede de avançar o que acho do meu dever.

 

Pergunto o porque isso me acontece, revolvo o passado, olho o futuro que me aguarda, nada encontro, a não ser o mistério que me “rende e mergulho no que devo conhecer sem me preocupar em entender esse viver que ultrapassa qualquer entendimento” e assim vivo até que esse querer fazer alguma coisa seja por algo preenchido.

sábado, 23 de novembro de 2024

Ecoando

 Ecoando seus passos no ladrilho da galeria, elegantemente ela passa, enquanto perdido bebo sua gentil graça no canto alcoólico da minha alma.

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

ele se distancia na calçada ensolarada

 

em quanto ela parada

espera abrir o sinal verde

 

ela sorri prosaica sem pensar em nada

e se distancia na calçada ensolarada

ao ver ele entrar no cinema

que sem qualquer preocupação

com a estética amorosa

e, muito menos,

com a felicidades deles

acompanhado de um saco de pipoca

e de um copo de guaraná

displicentemente assiste:

 

Batman, o retorno

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

epitáfio

  

amei como achei que deveria

e se não fui amado

é porque não soube entender

o amor como devia

 

arrisquei cada passo

sem perceber que o sol nascia

para iluminar meu caminho

no dia a dia

 

fiz sempre o que eu quis

no entanto não foi o suficiente

para entender

o que é ser feliz

 

aceitei todas as pessoas

mas não aceitei a pessoa

que implantou em mim

a dor

 

minha alegria

se despedaçou

na dura rocha

que meu coração

se transformou

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Esboço para a saudade no bojo do vento de uma tarde quente.

  

Num gesto enfadonho, como se estivesse cansado do mundo, guardou na bolsa o livro. Desejava estar em outro lugar e não sentado no banquinho da lanchonete bebendo a vida que passava a cada gole da cerveja gelada. O que queria mesmo era estar em outro lugar, talvez na França com o amigo, mas não aceitara o convite por motivos que nem não sabia o porque.

Tirou o caderno e escreveu: esboço para uma merda qualquer.

Silenciosamente riu.

O vento soprava na tarde abafada, balançava de leve as folhas dos cabelos das mulheres que passavam em busca de alguma coisa além de suas vidas. Despreocupadas, sem terem um sentido especifico, viviam por ocupar seus espaços por que assim acreditavam que deveria ser.

Pediu outra cerveja. A garganta seca continuava sedenta, mas esforçou a beber em pequenos goles.

E ele? Perguntou. É, e ele, vivia apenas por ocupar um espaço? Acreditava que não. Se continuasse recusando convites, não só estaria vivendo apenas por ocupar espaço, como caminharia para uma solitária vida. Da próxima vez aceitaria o convite do amigo. Só que essa próxima vez estava longe de acontecer. O amigo ganhara uma bolsa para estudar na França e, só voltaria daqui a quatro meses.

Então uma freada de pneus no asfalto obrigou-o a virar a cabeça, e foi que entendeu o porque de não ter aceitado o convite do amigo.

Seu irmão naquela época vivia constantemente adoentado. Os médicos não achavam a causa. Até que um dia sendo hospitalizado veio a falecer.

Ao ver o  corpo franzino em que se tornara o irmão, esparramado como um fardo obscuro em cima da cama, engolido pelos lençóis, viu passar em sua mente todos instantes em que vivera com ele. Todos os instantes, desde as brigas corriqueiras até os momentos em que um apoiava o outro. Em que disputavam a mesma garota apenas para terem a sagacidade de ser um melhor que o outro. O que não era, e eles sabiam disso, não precisavam de disputa nenhuma.

O falecimento do irmão foi um baque terrível, tanto para ele como para sua mãe. Totalmente arrasada se apoiou na melhor amiga, e se não fosse ela, ele não saberia dizer onde sua mãe hoje estaria. Considerou a vida um absurdo trágico, o que levou a entender um pouco a morte. Não a aceitava, mas entedia o porque de sua existência, apesar de achar em si um fato dolorosamente bonito, o que ninguém o entenderia se expressasse realmente o seu sentimento.

Três meses após o falecimento do irmão, foi que o amigo o convidará:

“Vem, vamos para França. Vamos conhecer o que as francesas têm, tomar champanhe gelado no Champs Elysées, escalar a Torre Eiffel, correr como loucos pelos  corredores do Louvre, vamos!”

Com a desculpa de que precisava cuidar da mãe recusou. Não queria deixá-la sozinha foi à desculpa. Não queria reconhecer o que no fundo do seu ser tinha  certeza. Ao saber da recusa, a mãe lhe dissera:

“Meu filho, esse seu amigo é um verdadeiro amigo. Porque não foi com ele? Precisa sair daqui um pouco. Eu estou bem, tenho amigos que cuidam de mim e, depois são apenas quatro meses mesmo. A Marianinha vai estar sempre comigo, vamos todos os dias sair, eu te prometo”.

Viu nos olhos castanhos da sua mãe o que deveria fazer, mais certo, o que ela gostaria que ele fizesse. E sabia que ela o entenderia perfeitamente.

Então como um sopro de vida compreendeu: não estava ocupando espaço por ocupar, vivia por que valia a pena viver.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Escrevo na obscuridade

 Escrevo na obscuridade da alma como faca cortando o peito em dois.

 

Remexo no fundo do poço o sangue das palavras por puro prazer em sentir a pulsação sonora.

 

Rasgo a pele do sentimento numa entrega exorcizante sempre buscando o limite do existir e não existir.

 

Cultuo o tesão da forma, misturando sonhos com fracassos num delírio homicida sem culpa e sem preconceito.

 

E do lirismo idiota, filtro o processo criativo numa gestação traiçoeira até que o texto fique puro e a perfeição me consuma.

domingo, 17 de novembro de 2024

escrevo na pele

  

escrevo na pele ardente da vida

como oferenda aos momentos

de palavras que rolam na suave

brisa azul do mar

 

escrevo sem entender

o que me acontece

sem que a mim fosse declarado

 

se o declarado

fosse entendido

estaria estampado

num único

e simples verso

da minha vida

sábado, 16 de novembro de 2024

Estudo número 01

 

Tenso se jogou por cima do desespero descontrolado num devaneio de desconexas palavras a ponto de assustar-se consigo mesmo.

 

Falava incompreensivelmente, a língua solta, mole batia nos dentes, sem conseguir colocar numa ordem as palavras do pensamento pela surpresa do susto.

 

Meio que invadido de vergonha ao ser exposto o seu escondido, retesou a câimbra do desgosto e, resoluto, pediu um copo de água gelada.

 

Perverteu-se ao sentir o baque do gelado liquido invadindo suas entranhas e, espantando, o mal estar escorrendo lentamente dele.

 

Notou a cor voltando ao constatar que a temperatura do corpo aumentava.

 

Conseguiu falar normal de sempre e rogou que lhe tirassem a parafernália do joelho.

 

Olhando dentro dos olhos pretos, grunhiu uma desculpa roufenha sem se melindrar com o que pensassem dele.

 

Pegou as muletas, devagar as encaixou debaixo do braço e, sem pressa de querer ir, saiu enfrentando o sol da manhã lembrando a vida regurgitando a necessidade de viver.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Estudo número 02.

  

Foi na pressa da noite, onde a angústia endossava o ar do peito, provindo da sensação de perda por algo estranho, mas, de consistência visível, pois mesmo querendo ou não, era mais forte que sua pujança em rebater, forte como tiro acertando o frio arco da existência, e, como sempre implacável, duradouro feito dor de se se fazer despudorado, quase confiante, quando a perna alcançou o degrau da escada rolante abalroada, portanto sendo abalroado, o segundo degrau precisamente, nesse momento, foi que sem saber o que fazer ouviu o estalo imperceptível de osso rasgando a dureza um com o outro e o joelho tomou a proporção assustadora de uma bola de carne e, junto com a dor, o deslocamento ao andar destruindo o equilíbrio do corpo daquele dia em diante.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Estudo número 03

 

O sol bate nas esquinas do corpo aquecendo as manhãs futuras e enterrando as manhãs passadas no esquecimento solitário. A sombra aos poucos vai sendo delimitada em suas formas, uma magra, outra comprida ou curta, massa disforme em constante transmudação, regendo a continuidade da vida. Quando o sol se esconde à sombra avança criada por luzes artificiais numa tentativa em expulsá-las, complementam ou aumentam a massa sombria dos andarilhos solitários em sua busca ao nada sem terem noção da existência de algo além deles mesmos.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Estudo número 04

 

A porta entreaberta cria-se uma gama de possibilidades criativas que pode ser definida por vários ângulos inusitados. Essa gama de possibilidades faz com que a mente entre num processo além da capacidade imaginativa. Sei que ela possui um extenso raio de probabilidades que somente ela acredita. Se é que acredita. O que não adianta nada. É preciso que acreditem nela, é preciso que ela se faça acreditar e com isso ganhar algum valor. Transmitir a capacidade para fora dessas linhas ocas e tortas. É preciso que acreditem no que ela acredita. Só assim essa gama enorme de possibilidades criativa venha a se tornar maior do que uma porta entreaberta. Pela porta entreaberta o sol ilumina a sandália que descansa dos pés cansados.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Estudo número 05

 

todas as vezes que se olhava no espelho achava que tudo estava nele

que tudo estava dentro de sua personalidade arcaica

o que não sabia e nem deveria saber era desse arcaísmo tresloucado

se soubesse, acredito, colocaria tudo a perder

principalmente o que de maior valor havia nele

todas as manhãs sentia-se tomado por uma emoção descontrolada

como se fosse a primeira vez dando-lhe prazer inusitado

em continuar sempre na luta

continuar sempre amando a vida

isso lhe satisfazia?

era a pergunta que martelava na mente

achava que sim outras vezes que não

no entanto constatava certo equilíbrio

um equilíbrio morno evidente

mas que o atiçava a agir oferecendo

o que era preciso para viver excitando-o ao constante perigo

o perigo que instigava sua capacidade intelectual

em saber-se em constante perigo

principalmente viver o perigo

toda vez que respirava

que falava

que pensava

que transava

em fim

tudo que lhe dizia respeito

e quanto a isso

seguia a risca

item por item

domingo, 10 de novembro de 2024

Evanescente.

  

Estou aqui em frente ao micro, a mente vazia, quero escrever algo enquanto a música do Evanescence destila sua melodia por todos os poros da manhã que ensolarada esquenta as fimbrias da vida.

 

As moléculas vibrando energia pulsam nas veias a cadencia que leva cada um a dar um passo a frente, mesmo que em alguns momentos depressivos, um passo é dado para trás, dois são dados para frente e, assim, caminhamos nesta humanidade fria e individualista.

 

Penso em várias coisas ao mesmo tempo e o tempo não pensa em mim porque dele faço parte como parte somos um do outro nesta distância que nos separa.

 

Não quero pensar em quem distante está de mim para a saudade não aumentar o desanimo que se insinua entre os dedos famintos de caricias da sua pele.

 

O ar beija a face da vida e a natureza emocionada chora por conter a beleza divina.

sábado, 9 de novembro de 2024

façam a festa

  

façam a festa

não esperem por mim

 

poeta chinfrim

mal sei o que escrevo

quanto mais o que há

além da fresta

da porta miséria

 

mal sei o que há

além do muro

onde a pobreza

dá murro

para sobreviver

 

façam a festa

sem mim

 

míseros sobreviventes

enquanto mal escrevo

esse poema sujo

num grito surdo

a fome de viver

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Fala Carlão

  

Uma das coisas mais chatas é o telefone. Cada vez que toca é um susto. É uma pergunta que explode no ar da consciência interrompendo o fio do pensamento ou do que você está fazendo. É uma droga! E se for depois das dez ou onze horas da noite, então o susto é maior. O primeiro pensamento que vêm à mente é de que algo aconteceu. Pensamos sempre o pior. Algum falecimento, um atropelamento, alguém foi hospitalizado, é uma merda!

Hoje ao encostar o crachá para liberar a porta de vidro, nem bem cheguei a minha mesa, o telefone tocou. Seu tilintar varreu o silêncio de espaço ferindo os ouvidos dos móveis silenciosos. Não me importei, nem procurei saber de que mesa era. Deu uns quatro toques ficando mudo por uns poucos segundos. Enquanto fui tomar água que, como sempre, estupidamente gelada, o telefone voltou a berrar estridente anunciando que algo tinha acontecido.

Apurei o ouvido. Acabei descobrindo, era o telefone do Carlão. Acho que os telefones ao invés da horrenda campainha deveriam ter uma voz que berrasse o nome de quem pertencesse o ramal. Não acha?

Então pensei: o Carlão está grávido deve ter ido ao hospital levar a esposa ou aconteceu alguma outra coisa com ele. Portanto, assim que o telefone tocou novamente atendi:

- Sim!

- Osvaldo?

- Sim!

- Por favor, aqui é o Carlão...

- Fala Carlão, tudo bem?

- Sim, tudo bem, avisa o Reinaldo que vou chegar um pouco mais tarde. Meu carro quebrou, vou procurar um mecânico.

- Está bem, Carlão, pode deixar que aviso.

- Obrigado.

- De nada.

Desligamos.

Voltei aos meus afazeres pensando: “Bom, acho que encontrei o que dizer no meu bom dia de amanhã.”

Dei um clique em salvar, Fechei o Word e me enfurnei nas micros fichas intercalando entre uma e outra, o papel de seda para que as ditas não grudem. Eita! Serviço de prisioneiro... Bem o que eu sou? Prisioneiro da minha sobrevivência.

Que droga... Não, droga não... Então o que? Não sei... Sei que é isso... Tudo acontece porque tem que acontecer... Talvez... Sei lá.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Gente boa

  

O sol bate em sons que se espalha em vários bons dias enchendo o ambiente que até o momento silencioso estava até que agradável.

A claridade natural não ultrapassa os limites do vidro devido à opaca persiana desfigurando a paisagem estrutural do prédio em construção.

Assim caminha essa pequena humanidade prisioneira de suas esquisitices obrigadas aos seus afazeres profissionais onde o corpo faz uma coisa e a mente voa a quilômetros de distância em imaginação que só um conto de fadas ou um filme pode proporcionar.

Há gente boa assim como há os paranóicos deficientes de si próprios escorregando em suas próprias falsas alegrias irritantes.

Talvez esteja sendo muito radical ou colocando no rol os conscientes humanamente verdadeiros que sabem a estrada que caminham.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

gira mundo

  

se realmente bebo

nos teus braços

o alcoólico prazer

de sentir de fato

o mundo girando

somente no nosso

tempo e espaço

terça-feira, 5 de novembro de 2024

Hoje é sexta feira

  

O sol na cortina ilumina o amarelo refletindo uma luz fria que, transfere a cada um, a lembrança de sua própria necessidade de suportar o insuportável pela sobrevivência.

E nesse canil, como cão amestrado, desempenho meu papel tentando galgar um degrau a mais na vida, tanto espiritual como intelectual e financeiramente e, talvez, familiarmente.

Alguns, livres de qualquer opressão, agem com naturalidade, enquanto outros, sem a ferrenha capacidade de luta expressiva, pois sua luta é apenas uma luta para não ser soterrado no acumulo das mesmices, apenas passam o dia por passarem.

Há os que trazem em suas fibras a espontaneidade franca e exagerada em dizer o que pensam sem se preocuparem com a conseqüência, tornando-se assim o palhaço da turma.

Não se podem esquecer os quietos, os acomodados que no seu canto, acomodam a carcaça se esfacelando na mediocridade pouco se lixando com o que aconteça ao redor.

O sol na cortina continuara iluminando mas seus reflexos serão variáveis até o final do dia, enquanto que os ocupantes permaneceram imutáveis em seus afazeres tendo apenas um pensamento: ainda bem que hoje é sexta feira.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Hollywood não é mais a mesma

  

Nem bem tinha levantado ouviu o miado do gato na porta da cozinha. Não se preocupou. O danado estava é querendo entrar. Tomou café, se vestiu, depois é que foi dar comida, trocar a água e o leite, enquanto o gato se enroscava nas suas pernas. Mesmo assim continuava miando. Queria era entrar na casa e se esparramar bem gostoso no sofá. Não deixou, obrigou que ficasse no quintal. Pegou a mochila a tiracolo e saiu. Na rua o vento batia frio em seu corpo. Um vento úmido gelado. Pensou: deveria ter pegado uma blusa, mas não tinha uma para essas eventualidades. Ficou encostado ao poste desejando que a condução chegasse logo. Não precisou esperar muito, logo chegou o ônibus. Subiu e procurou ficar no fundão onde seria mais provável que alguém levantasse. O que não aconteceu. Foi em pé até o final da linha. Apesar do horário de pico até que foi fácil tomar o metrô. Não deu para abrir o livro e ler como quase sempre fazia. Não ligou, teria muito tempo para ler. No Brás, no meio do empurra-empurra, entrou um cara falando alto, dizendo gracinhas que só a turminha dele achava graça. Fez a baldeação na Sé sem maiores preocupações. Apenas houve uma pequena aglomeração no Paraíso, mas sem maiores conseqüências. Ao sair da estação Consolação, deparou com a beleza do sol meio pálido tentando esquentar os prédios humanos. Tinha saído pelo lado direito da estação, pois precisava passar na farmácia. E ao atravessar a Rua Augusta, olhando para o lado dos jardins, a cena fotográfica que sua mente num flash registrou, deixou-o alegre pela beleza e decepcionado por não estar com a câmara digital. A parte de cima da rua, onde os prédios, por estar mais perto pareciam agigantado, estavam na sombra, enquanto os que estavam ao longe, dando a impressão de pequenos estavam iluminados pelo sol que batia de cima para baixo e meio de lado, prolongando as sombras até o infinito da cidade. Olhou para o lado do centro. Não era a mesma coisa, a mesma cena, apresentava certa característica, só que mais escura. É pena, falou mentalmente enquanto atravessava a Augusta. Na calçada do Conjunto Nacional, viu o cartaz de cinema estampado no Center Três. Trazia em primeiro plano o ator Harrison Ford. Lembrou do último que assistira e se convenceu que Hollywood não sabia mais fazer filme dramático como antigamente. Hoje o que mandava eram as aventuras, tiroteio, mortes e computação gráfica. É uma pena, falou mais uma vez pensativo.

domingo, 3 de novembro de 2024

IGNOMINIA.

  

O metrô chegava à estação quando ela levantou assim de repente, trombando com o rapaz a sua frente. Estava atrasada. Assim que a porta abriu, saiu de supetão, arrastando o jovem que precisou segurar a bolsa que lhe caia do ombro. Ela ainda ouviu o que ele disse: “Apressada. Corre senão vai perder o último metrô.” Ela não deu pelota.

O rapaz na calma costumeira encostou-se ao pilar, dobrou a perna direita, se apoiando na esquerda, e esticou todo o corpo até que ficasse reto sentindo o ombro encostar-se ao pilar. Despreocupado abriu novamente o livro e começou a ler enquanto esperava o metrô. Olhou para a direita. Lá estava a mulher apressada à beira da plataforma. Tomara que escorregue e caia na linha, pensou maldosamente.

Após uns Instantes o trem chegou. Foi o último a entrar. Encostou-se na porta assim que ela fechou. Abriu o livro e continuou a leitura.

Na estação Consolação calmamente desceu. Passou pela roleta e virou a esquerda. No momento em que subia a escada, dois jovens desciam conversando alegremente. Uma jovem e um rapaz, os dois com piercing nas orelhas. O rapaz vinha falando alto, meio bronqueado com alguma coisa.

“Tudo, mas tudo isso aí – e fez um gesto abrangendo toda a avenida -, tudo isso é uma ignomínia. Isso mesmo, uma ignomínia, como ninguém sabe o que é isso, estou cagando pra elas.”

 

IGNOMINIA: (do lat. Ignobilitate) s.f. – grande desonra; opróbrio, infâmia.

 

O rapaz saindo da estação recebeu no rosto a temperatura da avenida, sorriu ao ouvir o desabafo do revoltado jovem.

Por que será que achou que tudo isso aqui – e lançou um olhar numa rotação de 180 graus pela avenida – é uma ignomínia? O que terá acontecido com ele?

Não saberia dizer e, deu certa razão ao que ele dissera, há em tudo certa ignomínia sim, mas não por culpa dele ou por culpa sua. Culpa de quem?

Da autoridade que não via e, se via talvez tirasse proveito, dessa bagunça, dessa sujeira que enchia a calçada de lixo e camelôs arreganhando os dentes de fome aos pedestres?

Ou se essa ignomínia era pela atitude das pessoas ridiculamente num viver, melhor dizendo, aceitando situações que estão além de si mesma e se sujeitam apenas sobreviver pensando ou sendo enganados que são felizes? 

Ou seria o modo como ele, e talvez até aquele rapaz, via a vida?

Pode ser o que não poderia deixar é que essa ignomínia tomasse conta de si, levando-o a desprezar tudo e, o que é pior, a vida.

Dobrando a Frei Caneca já não pensava nisso, isto é, pensava em escrever algo sobre isso. O que? Uma crônica, um conto ou um simples e corriqueiro bom dia?

Só foi ter noção do que escreveria quando ligou o micro e seus dedos céleres correram por sobre as teclas prestas.

E no meio da telinha branca escreveu em itálico a palavra: IGNOMINIA.

sábado, 2 de novembro de 2024

Intransigência.

  

Ao abrir a geladeira para pegar uma cerveja, ouviu a voz esganiçada da mulher em seu ouvido:

- Na minha geladeira não quero nenhuma cerveja.

Isso fora há muitos anos, e ainda ouvia a voz dela toda vez em que abria a maldita geladeira. Na época, além de ficar puto pensou que entendia o procedimento dela. Estava guardando duas garrafas quando mentalmente ouviu a voz de galinha garnisé:

- Na minha geladeira não quero nenhuma cerveja.

- Tudo bem, chega, falou uma vez e pronto, não enche mais o saco -, jogando as duas garrafas contra o muro do quintal espatifando em mil pedaços e manchando o branco do muro com os respingos da cerveja.

Saiu de casa batendo o portão e foi beber no bar da esquina.

- Não quer que eu beba em casa vou beber na rua -, pensou raivoso.

Voltou para casa meio embriagado. Caiu na cama e dormiu como uma pedra, num sono profundo. Não deu nem pelota para os resmungos da mulher.

E se hoje não a acompanhava mais nas compras do mês, era por culpa dela.

Empurrava o carrinho quase cheio quando passavam pelas bebidas. Ele pegou uma caixa de refrigerante e uma de cerveja. Na mesma hora a mulher pegou a caixa de cerveja colocando de volta na gôndola repetindo a lengalenga:

- Na minha geladeira não quero nenhuma cerveja.

O pessoal que estava em volta olhou assustado para os dois, mais precisamente para ele, talvez para saber que atitude tomaria. Por instantes, gelado de raiva, sentindo o suor escorrer pelo rosto quente de ódio, não soube o que fazer, mas ao ver o sorriso irônico do senhor a sua frente que, sem pensar, deu um empurrão no carrinho fazendo com que batesse na perna da mulher. Saiu do supermercado prometendo a si mesmo que nunca mais entraria naquele estabelecimento.

Naquele dia, um sábado, só voltou para casa altas horas da manhã de domingo, quando o sol batia de leve no telhado da casa.

E agora, ao pegar uma cerveja que por algum motivo, Páscoa, Natal ou aniversário de não sei quem, ela comprava cerveja e ele relutava em beber, mas acabava sempre cedendo, principalmente quando a data de validade estava vencendo.

Pegou a lata de cerveja, ergueu como se estivesse brindando, dizendo:

- Vá à merda o seu não querer nenhuma cerveja na minha geladeira.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Jhony Folgado

  – o gato que apareceu lá em casa e não quer mais sair.

 

Acordei hoje com o miado do Folgado, como o chamo. Isto é, não dormi muito bem, às quatro da madrugada, sobressaltado não sei com o que, levantei, tomei um gole de água e voltei para a cama. As cinco e quinze, novamente, não sei com que barulho, fui despertado. E às seis horas justamente no momento que o rádio relógio começou com o seu bip bip insuportável, o gato adivinhando, acho, começou com o seu miado. Levantei, coloquei comida e água e abri a porta. Como um furacão entrou e foi direto para o prato, comeu toda a ração que eu tinha colocado e por quase uns cinco minutos ficou bebendo água.

Parece que agora perdeu aquele ar de medo. Está mais solto, parece que pegou o gosto pelas brincadeiras, corre de um lado para o outro; antes não, só queria ficar deitado e, se fosse no colo da gente melhor.

A veterinária disse que ele tem um ano e meio de idade, aplicou uma vacina, tirou a coleira antipulga que só estava machucando o seu pescoço deixando seu pelo marcado.

O Folgado já está precisando levar umas palmadas e uns puxões de orelha, pois, outro dia fui encontrar ele subindo no encosto do sofá e tentando entrar entre a parede e a estante, um lugar apertado, cheio de fios de telefone, televisão, do aparelho de som, do micro, se entrasse ali ficaria embolado nos fios desligando tudo ou causando maiores estragos.

Da outra vez foi pego em cima da mesa lambendo uma banana meio estragada que ficara na fruteira, além de ser pego bebendo água do vaso sanitário.

Uma noite, assim que sentei ao micro, ele veio e deitou no sofá. Dali a pouco começou a se lamber. Como o bicho se retorceu inteiro, se lambeu das patas a cabeça e de vez enquanto dava umas mordidas nele mesmo. Terminado a lambição, se aninhou perto da almofada e dormiu um bom tempo. 

Às vezes fico pensando, como seria se os seres humanos, essa caterva egoísta e individualista e gananciosa, fosse como os bichos, vivessem por instintos. Como seria? Bom, não adianta ficar pensando que nunca terei a resposta.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...