quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Pequenas histórias 15

  Preciso de palavras

 
Preciso de palavras para complementar o vazio que ao sabor do vento alça vôo através da janela aberta indo cair no asfalto quente da avenida.
Puta merda! Estou sempre precisando, por que será? Porque não pode ser diferente, alguém precisar e eu ter o que esse alguém precisa? É uma merda esse precisar sem ter quem preencha os passos soturnos dilacerando pedras no calçamento irregular das noturnas avenidas da vida. Escolho os passos ligeiramente indecisos sem convicção onde pisarei, mesmo assim confio nas pedras. Raramente piso em falso ou torço o pé e, quando isso acontece não dou pelotas continuo, mesmo mancando, o meu caminho.
As luzes não ofuscam mais meus passos por causa da tua ausência que não me procura, aliás, nunca me procurou. Quantas vezes me procurou? Posso até contar nos dedos. Poucas vezes, não é? Eu que mais te procurei, não foi? Então, então...
- Quero mais que se foda - ouço sua voz - pouco me importa o que sente ou deixa de sentir.
Tem razão, quem irá se importar, não é. Se você, que pensava ser o que mais se preocuparia, está pouco lixando, posso aniquilar a depressão de ser só nessa noite de solitários.
Caçarei as palavras nos abismos da garganta, uma por noite até, que finde minha alegria de ser tão somente só.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Pequenas histórias 16

 É primavera amor

 
... é primavera amor, vamos sair nesse vento frio, molharmos nossos sentimentos na garoa que nessa manhã cai lentamente sobre a cidade, vamos não tenha medo, pois é primavera, então, o que acha, depois tomamos aquele sorvete gostoso na Avenida Paulista, sentado num dos bancos do Parque Trianon e apreciaremos as figurinhas que transitam em suas caças famintos de sexo vendido entre os galhos da vida sem pudor e sem preconceito, vamos, espero você se aprontar, sem pressa, temos nossas vidas que se estende longa a nossa frente, não precisa ter medo, ah! tem medo de ser paquerada, olha, um conselho, aceite a paquera, isso mesmo aceita, se te olharem olhe também, se te piscarem pisca também, se vierem falar com você, converse, ouça o que eles têm para lhe dizer, mas não aceite convite nenhum, pois eles vão roubar o teu desejo saciando os desejos deles, entende, sei que você não é disso, se lhe dou esses conselhos é para que conheça uma parte da vida que muitos não conhecem, sabia que conhecimento é riqueza, portanto acho que todos deveriam conhecer numa boa, sem preconceito, sem asco, sem nojo, afinal somos todos adultos, vacinados, responsável por seus próprios atos, não é mesmo...
... oi, tudo bem, você vem sempre aqui, é a primeira vez, sabe que você é tremendamente bonita, uma gracinha, é sim, garotas do seu tipo me deixa louca, me deixa molhadinha, quer ver, ponha a mão, que isso, não precisa se envergonhar, é a coisa mais natural do mundo, olha, veja ali, aquelas duas se beijando, ah não seja ingênua, são duas garotas, ih credo, você não é nenhuma baranga, então, veja, coloca a mão, deixa de ser burguesa, isso, hum que mão quente, gostosa, o que é, porque todo esse espanto, ah não conhecia, o menina o que esta fazendo aqui, claro, sou travesti, e dos bons, viu, o que, seu namorado que te trouxe aqui, eu vi que estava acompanhado, é seu namorado, nossa que aliança bonita, sabe vou contar um segredo, sim, tenho segredo sim, ou pensa que você é que tem segredo, conheço o seu namorado, conheço sim, ah ele veio com essa lorota para cima de você, foi a mesma coisa comigo, prometeu um mundo e só o que me deu foi o documento dele dentro de mim várias vezes, filha da puta, te deu uma aliança e para mim nada, um dia ele me paga, se ele é gay, claro, agora me diz porque vocês estão aqui, olha, tudo bem, não se zanga, gostei de você, se topar um dia, quem sabe, vou indo, olha ele vem vindo, tchau, espero vê-la novamente, um beijo gracinha...
... filha da puta, ah esta estranhando eu falar palavrão, digo de novo, filha da puta, veado, gay, isso mesmo, você é um gay, como eu sei, ela me contou, sim aquela ou aquele, não sei, travesti, me paquerou, me cantou, fiquei sim excitada, mas não sou disso, ela ou ele, que merda, disse o que você fez com ... ela... ele, e a enganou, você transou com ela, seu merda, não quero mais saber de você, suma da minha vida, nojento, puto, vou vomitar, argh! deixar de ser preconceituosa, sou mesma, e porque, porque existe pessoas como você que não sabe o que quer, se entrega ao primeiro desejo que a cabeça... olha suma, me enganou, não quero mais vê-lo, e pensar que sonhei em casar com você, já imaginou, depois de casada, descobrir que meu marido transa com um travesti, o que ele quer com isso, nem quero pensar, suma da minha vida filha da puta...
... no dia seguinte, quem passasse na banca leria a seguinte noticia nas primeiras páginas do jornal: “mais um travesti assassinado brutalmente nas imediações do Parque Trianon, a polícia se horrorizou com tamanha brutalidade, seviciada o travesti foi violentada, em seguida teve seus órgãos genitais arrancado com os dentes, pois com a averiguação pós autópsia, foi constado que o assassino não usou instrumento nenhum para tamanha atrocidade, a polícia investiga, até o momento não há nenhum suspeito...
... assim, mais um assassinato arquivado sem solução...

Pequenas histórias 17

Escorrego em palavras

 
Escorrego em palavras pontiagudas.
Em palavras retaliadas de angustia.
Em palavras de sofrida penúria
Em palavras de raiva profunda
 
Escorrego em palavras que dos teus seios túrgidos pela emoção, cujo frio
enrijece os bicos, surgem como espetos furando minha pele de macho esfomeado.
Escorrego em palavras úmidas que em teu ventre faço pouso e, em teu umbigo
numa lambida, me acomodo no lento caminhar do tempo por nós esquecido.
E permaneço longo segundos sentindo o respirar, que num sobe e desce,
entrecortado pelo resfolegar do desejo, tento captar o segredo da vida.
E entre as tuas pernas, escorrego em palavras que me prendem na armadilha
ao oferecer o sabor adocicado em minha língua nas tuas virilhas.
Escorrego em palavras mudas ao me embrenhar na mata espessa onde com a
espada em riste, espanto o monstro da solidão.
 
Escorrego em palavras não ditas
Escorrego em palavras não proferidas
Escorrego em palavras sofridas
Escorrego em palavras malditas
 
Assim é mais um capítulo da minha vida
 

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Pequenas histórias 18

 Uns tempos atrás

 
Uns tempos atrás, um cara lançou um livro que, por sinal, fez um sucesso até que considerável, foi até no Jô, coisa que com isso pudesse ser considerado um bom escritor, não claro que não. O livro é recheado de pequenos textos falando sobre as palhaçadas que o autor enfrentou na vida, grande coisa, digo eu. Pois, todos nós passamos por palhaçadas das mais estranhas a mais escalafobética possível. Só que a maioria não tem cara de pau para falar sobre si mesmo, mais ainda escrever um livro, quanto mais sobre suas idiotices. Foi o que esse escritor fez, escreveu sobre suas idiotices e, por incrível que parece, fez um sucesso relativo. O livro, o primeiro volume, até que foi bem vendido, já o segundo volume não vendeu tanto, mas teve uma considerável venda para um país que não lê e, pelo que fui informado, ele já tem o terceiro volume publicado. Vá ter idiotices para escrever assim lá não sei aonde.
Para ser sincero, li uns dois capítulos do primeiro volume e não me senti atraído para ler o livro todo. Achei meio chocho as histórias, não vi graça nenhuma, pareciam forjadas, escritas para serem engraçadas, numa linguagem despojada, sem características de literatura, não que isso fosse o essencial, mas para quem procura uma leitura razoável é essencial. Não precisa ser uma sumidade, mas pelo menos ter um atrativo para que o leitor continuasse a leitura. Isso ele conseguiu entre os que gostam de leituras rápidas, sem precisar queimar os neurônios. O autor de Ria Da Minha Vida Antes Que Eu Ria Da Sua podia, pelo menos, ser mais apurado com sua escrita.
Há escritores sérios que escrevem sobre si mesmo com mais elegância, vamos dizer, do que ele. É só ler as crônicas de Mário Prata, Rubem Braga, Fernando Veríssimo e outros. Talvez seja esse o propósito dele, escrever apenas e quanto mais leitores angariar melhor, numa leitura fácil e rápida enriquecendo seu bolso, se é que isso é possível.
Agora porque estou falando disso tudo? É que percebi que falando sobre si mesmo, sobre suas mazelas se consegue certo sucesso, se consegue sair do anonimato, mesmo que seja por dois ou três meses. Muitos escritores conseguiram alcançar o pico do sucesso falando sobre ele mesmo. Então devo escrever sobre mim? Não sei, quem sabe? E depois que li sobre o autor de Snoop, o criador do Charles Brow, o menino mais azarado das histórias em quadrinhos, passo acreditar que seja verdadeiro. O criador de Snoop e sua turma era um cara mais sem graça, sempre se dando mal na vida, mau desenhista, mas persistente, cria o Charles Brow que é sua cara e suas desventuras e faz o maior sucesso. Portanto, deverei escrever sobre mim mesmo contando minhas desventuras?
Bom, em parte venho fazendo isso, em pequenos textos falo sobre mim. Tirando a Dama do Metrô, que teve certo sucesso entre meus leitores; tirando A Cadeira de Espaldar Alto, que poucos gostaram; e numa experiência de falar sobre mim mesmo sarcasticamente, até procurando criar humor, O Diário Do Imbecil não teve muita aceitação; venho escrevendo sobre minhas idiotices. Talvez tenha que ser mais explicito, mais cara de pau, provocar mais despojamento no que escrevo. Não sei. Estou pensando nisso. Vamos ver no futuro. Uma única coisa eu sei: não vou parar de escrever. Até que esses dedos não sejam imobilizados e minha mente esteja sempre em efervescência, vou escrever.

domingo, 26 de novembro de 2023

Pequenas histórias 19

 Caminhava com dificuldade

 
Caminhava com dificuldade. O vento fustigava violentamente seu corpo protegido, mas mesmo assim, apesar dos grossos óculos, sentia pequenos grãos afiados de areia cortando a pele por baixo da roupa feita especialmente com material sintético. Com o corpo meio arcado para frente, procurando impulsionar as pernas, levava inconscientemente à mão aos óculos na esperança de enxergar melhor. O que dificultava mais ainda.
- Cacete. Onde foram me jogar esses desgraçados, pensou em voz alta. Fazia dois dias que estava nesse horrível planeta. E pensava quanto faltava para sair dele. Viera disfarçado para uma missão, o que sabia ser um aforismo de linguagem. Viera mesmo para cumprir uma penalidade, uma penalidade que tinha a nítida certeza, assim como tinha a  certeza do vento fustigando-o, ser ele um inocente.
De antemão, não podia se rebelar gritar sua inocência, ninguém o ouviria. O que tinha apenas a fazer era cumprir as regras, as leis do planeta, e ficar de olho em todos os detalhes e, quando chegasse o momento, provar a inocência.
Sorriu, apesar do desconforto da roupa. Sorriu sim, e porque não deveria sorrir ainda não se achava vencido. Podia ter perdido uma rodada, a luta ainda não perdera. Precisava aguçar os ouvidos, os olhos numa sensibilidade acima do sentir contemporâneo da pele. Desde os primeiros instantes em que pisou nesse chão árido, sem água, de vento constante, prometeu a si mesmo que pouco tempo ficaria ali. Assim sendo, no momento que seus pés tocaram a aridez pedregosa, ergueu sua atenção ao alto encoberto pela nuvem de areia, fez uma prece a Sagitta, passou levemente as pontas dos dedos na letra S pendurada em seu pescoço, e, abstratamente tomou a forma da flecha pousando seus olhos nas constelações vizinhas. Assim, adormeceu na canção do universo.

sábado, 25 de novembro de 2023

Pequenas histórias 20

Levantei-me

 
Levantei-me da cama sem poder... Diz uma bela composição de Nelson Cavaquinho, mas não me levantei da cama e, sim, levantei-me da poltrona do fretado no maior aperto da história desses que no momento escreve essas traçadas tortas linhas. Levantei-me foi da poltrona várias vezes. Não conseguia ficar sentado, fiquei em pé, procurei me concentrar na leitura de Nemesis, da Agatha Cristhie, tentei cochilar, por fim, tomei a iniciativa e fui falar com o André, o coordenado do fretado.
- André, por favor.
- Sim, - respondeu ele sonolento – o que foi?
- O banheiro ta funcionando?
- Não está fechado.
- Ah! Está bem, obrigado.
Voltei para o meu lugar. Estava ficando verde, roxo, lilás, branco, já me via todo urinado, a calça jeans com aquela manchona escura delatando minha urinada. O ônibus passa pela Senador de Queiroz. Puta merda, ainda tinha chão pela frente. Ele passaria pela República, pegaria a Ipiranga, depois a Consolação, e, como estava o transito já me via todo urinado.
- Por favor, pode parar na República?
- Mas você não desce no Conjunto Nacional? – perguntou o motorista.
- Sim, desço, mas é que hoje é excepcional.
- Está bem, já paro. Aconteceu alguma coisa?
- Não é que preciso fazer ultra-som da próstata e eu tive que beber água, seis copos, e bebi apenas quatro, e agora estou arrebentado para urinar.
- Vixe. Está certo, desce aí.
- Obrigado.
Desci e em passos rápidos, quase correndo, desci as escadas do metrô imaginando se o banheiro estaria ou não aberto. Felizmente estava aberto. Urinei um pouco para aliviar a pressão. Desci as escadas e fui para a plataforma tomar o metrô para a Consolação. Por sorte encontrei um banco cinza. Um pulinho depois estava descendo no metrô Consolação. Desci a Rua Augusta mais rápido que uma flecha. Empurrei a porta de vidro, peguei a senha: 144.
- Por favor?
- Sim.
- Pode me atender agora?
- Não posso, tem que esperar sua senha.
- É que tenho hora marcada para ultra som e tive que tomar seis copos de água, o que consegui foi tomar quatro, e, assim mesmo, to com a bexiga estourando, precisei até parar no meio do caminho para urinar um pouco...
- Está com a bexiga vazia.
- Não, não estou, estou é quase urinando nas calças.
- Sinto muito, tem que esperar chamar sua senha.
- Olha você não está entendendo. Se eu ficar mais um segundo aqui esperando vou urinar nas calças e depois será você que vai ter que limpar, entende?
- Está bem. Não posso fazer isso, não diga para ninguém.
- Pode ficar sossegado.
Depois de alguns segundos.
- Pronto, pode ir para lá e esperar te chamarem.
- Obrigado. Quando você casar o marido será seu.
- Já sou casada.
- Então que seja feliz, mas cuidado com o vizinho sarado, viu?
- Ahah, pode deixar.
- Seu lugar já está reservado no céu.
- Vai demorar muito tempo ainda.
- Faço votos que sim.
Dirigi-me ao local indicado por ela. Desesperado, andando de um lado para o outro, eu que nunca fui de rezar, rezava para que me chamassem logo. O que não foi feito assim de imediato. Meio segundos depois, minha senha gritava no luminoso. Dirigi-me ao local indicado.
- Seu Osvaldo.
- Sim.
- Entre, desabotoei a braguilha e deite na maca.
- Por favor, posso urinar primeiro?
- Não pode, tem que estar com a bexiga cheia.
- Te garanto que ela está tremendamente cheia, só vou me aliviar um pouco senão urinarei na maca, isso porque não tomei os seis copos de água que disseram para beber, bebi apenas quatro.
- Tudo bem.
Assim fiz. Alivie-me um pouco. Deitei na maca a espera do doutor.
- Bom dia, seu Osvaldo.
- Bom dia, Doutor.
- E aí, está com a bexiga cheia?
- Até demais, Doutor.
- Isso é bom.
Examinou-me, mexeu no micro, imprimiu, passou o gel no aparelho e o aparelho que mais parecia um pequeno escâner de mão, passou na minha barriga, não é na barriga, foi logo abaixo do umbigo. Assim que terminou.
- Pronto, seu Osvaldo. Está livre, pode ir.
- Alguma alteração, Doutor?
- Sim, mas não fique preocupado, nada grave. A alteração que teve é por causa da idade. Aqui está o protocolo.
- Obrigado Doutor.
- Passe bem.
- Obrigado.
Sai do laboratório. Sentia-me não eu, isto é, sentia como se eu fosse eu, mas alguma coisa me dizia que havia algo diferente. Não sei se me entendem. Era eu que saí do laboratório e, ao mesmo tempo, sendo eu não me sentia eu, me sentia eu, mas com algo novo, não, novo não... É difícil explicar, dar uma idéia. Bom, nada poderei fazer a não ser esperar

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Pequenas histórias 21

 Sagitta 1

 
Ouvia. Ouvia sim, a música diluída na distância até ao ponto que seu ouvido conseguia alcançar. Era uma música conhecida, apesar de seu ritmo violento, rápido, precisava apurar os ouvidos para distinguir as palavras. E o que elas lhe diziam? Momentaneamente nada. E como poderia dizer alguma coisa se ele nem sabia o do porque estava naquela situação. O que estava fazendo naquele morro que ora lhe parecia um amplo espaço aberto, em outros momentos, dava a sensação de estar numa gruta onde a luz difusa mal iluminava o caminho. Tentava caminhar, tateava apalpando a parede úmida e gosmenta e fria. Sua respiração subia, tinha a nítida noção que estava passando por aquilo para salvar a sua vida. Se livrar da escravidão. Mas qual escravidão? Da vida? Da materialização da vida e seus vícios? Quando se sentia no morro onde seus olhos cerrados pela violenta luz, o medo lhe dominava, paralisavam os movimentos até que uma sensação estranha lançava-o a um combate entre a paz e a dor. Nesses momentos conseguia tocar na paz com as pontas dos dedos acreditando em vencer o que lhe afligia sem saber exatamente o que. E era nesses instantes que surgia o sinal no amplo céu iluminado pelo sol forte. Uma sombra cobria seu corpo suado e violentado pela luta, dando-lhe uma pequena força para continuar. A princípio pensou ser um sinal, depois distinguiu um pássaro, quando mais perto chegou dele, foi que reconheceu uma águia que adquiria forma de flecha ou seta se materializando em seu interior. Captava essa materialização como chama queimando-o ao mesmo tempo em que a mente se abria guiando-o paralelamente as correntezas do rio da vida. E o poder da sua carne tornava-se rígida, um pouco cansada, mas não frágil, pois sabia que, como ele, seus inimigos se encontravam paralisados ignorando o rumo que deveriam tomar. Ele tinha um rumo, talvez até soubesse qual era, mas envolvido por uma névoa que não o deixava ver claramente, e nem podia, pois se soubesse não haveria significado nenhum em percorrer. A todo o momento se perguntava: “Conseguirei completar todo o meu caminho?”

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Pequenas histórias 22

Sagitta 2

 
“Conseguirei completar meu caminho?” Era a pergunta mais freqüente em que procurava acreditar e, Ingênuo, acreditava. Acreditava porque todo o dia abria os olhos e contemplava o azul escuro sem estrelas do teto do quarto. Não via nisso um milagre. Não acreditava em milagre. E porque deveria? Só porque estava no planeta Terra e o planeta Terra entre constelações e nebulosas? Só porque os mistérios existem e precisam ser revelados? Ou quem sabe, decifrados? Tudo isso e muito mais, disse reconhecendo o trabalho árduo que tinha à frente. Tinha uma arma. O grito. O grito mudo saindo da garganta ganhando a vastidão do vazio seco como deserto. Usava o grito, nem sempre positivamente. Isto é, seu grito apesar de amplo e vasto, se convertia de positivo a negativo. Quer dizer, era interpretado dessa maneira. Mesmo assim, não deixava de gritar toda vez que achava que deveria. Reconhecia. O grito saia às vezes, fraco, seco, sem eco, outras vezes, sonoro não alcançava o objetivo. Por isso, do seu canto fitava o vazio das pessoas estudando cada gesto, cada movimento, cada frase, para depois codificar em seu intimo o significado. Nem sempre justificável. Por isso, agia incrédulo diante da face egocêntrica povoando seu caminho. Desviava dessas faces como desviava da futilidade onde, no livre arbítrio, cada um achava seu canto mórfico e ali se aquietava. Não poderia se aquietar tinha uma missão a cumprir. Seguir a flecha lançada no espaço da existência em que ele pisava com cuidado. A flecha seguia seu curso predestinado, e seguindo-a corria perigo, durante o caminho se desvirtuar e cair no anonimato de um sentir fútil, levando-o a despencar no abismo de sentir ele mesmo queimando no fogo das palavras. Ah! Sorriu intimamente, conseguirei, sim, disse para si mesmo.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Pequenas histórias 23

Essa manhã

 
Essa manhã de quarta, trinta e um de outubro de dois mil e sete, sol gostoso, indicando que será um dia plenamente agradável para todos, assim parece e assim deve ser.
A Paulista está de calçada nova, reta, lisa, bonita, pelo menos a parte que está pronta a qual ontem à noite pude constatar. O único senão é a cor, cinza, será que algum artista maluco fará uns desenhos surrealistas nela? Vivemos num ambiente cinzento frio, sem atrativos, com pontos de cores aqui e ali, agora com a calçada cinza... Tudo bem, melhor assim do que como estava. Acho que deveria ser assim as calçadas na cidade toda, plainas, limpas sem camelôs e mendigos dormindo nos cantos das esquinas e prédios de humanos vazios de sentidos. Só espero que não seja invadida pelos vagabundos gananciosos lutando pela sobrevivência de um modo errado. Vejamos.
A reforma da calçada da Paulista ainda não chegou ao local onde, por oito horas por dia, sou prisioneiro da sobrevivência amarrado a uma coleira indicando onde estou. Se não tivesse aceitado o convite da cardiologista para visitá-la, não teria conhecido a parte da calçada concluída. Tinha hora marcada para as dezoito e vinte. Uma cardiologista simpática, senhora já, talvez até avó, digo pela aparência, creio que chegando aos cinqüenta, me examinou minuciosamente, perguntou quase sobre tudo.
- Vou marcar outro exame, cintolografia, se nesse exame acusar disritmia será preciso fazer cateterismo.
- O que?
- É cateterismo.
- Ah, não quero fazer não, doutora.
- O senhor não tem querer, se precisar terá que fazer.
- A senhora está me deixando com medo.
- Já está sofrendo por antecipação.
- Já, doutora. Fazer o que, é do ser humano.
- Mas não se preocupe só se acusar alguma coisa.
- Está bem, e vou lhe dizer: não vai acusar nada, meu santo é forte.
- E tem outra coisa, seu Osvaldo.
- Outra coisa?
- O senhor vai ter que parar com “os seus drinques” na hora do almoço.
- Ah, doutora, a senhora vai tirar a inspiração para escrever as minhas pequenas histórias para o pessoal. Como vou fazer?
- Escritor que é escritor não precisa desse tipo de inspiração, concorda?
- Concordo doutora, mas acontece que não sou escritor, tento ser, o pessoal que me conhece e tem o sacrifício em ler os meus textos, juram que sou escritor.
- Bom, só posso lhe dizer o seguinte: é para o seu próprio bem.
- Está certo, doutora.
Assim sendo, saí do consultório mais de dezenove horas. Como tinha marcado de me encontrar com a minha filha, fui andando até a estação do metrô Paraíso, assim pude avaliar a calçada nova.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Pequenas histórias 24

 Pequenas histórias 24 - Sagitta 3

 
Sim conseguirei, disse a si mim mesmo, não me preocupo com o significado da palavra, sei que conseguirei, e, no entanto, surge, enovelando tudo com a fragrância do desprezo, a indolência dos mortos vivos, como sentimento de tristeza ao estampar a negatividade. Não sabia trabalhar os sentimentos, desconhecia o processo, não lhe ensinaram a burilar o negativismo, não lhe ensinaram nada, muito menos viver e, viver era difícil!
Lábios finos, devastador, sensual, nunca apresentou uma pequena fresta de alegria, seus lábios não se abriam para um largo e franco sorriso. Quando lhe perguntavam por que não sorria, sua resposta era:
“Cristo nunca sorriu, porque devo sorrir.”
As pessoas não lhe diziam nada, uma ou outra fazia menção, pois o gesto estacionava no ar das rugas. Ele percebia e se calava. A chuva caia torrencialmente. Se não fosse a chuva já teria deixado o Solar dourado. Não poderia esperar muito. Depois da flecha lançada não tinha como voltar atrás. Obrigado estava a seguir o curso do destino. A seguir o rastro da flecha. Tinha conhecimento de Sagitta. Sabia da sua existência, não conhecia sua importância no universo sonoro e no sistema cósmico. Podia prever o que lhe representava. Havia uma pequena, talvez noção do que representaria a ele, ser não místico, que vivia apenas para preencher o dia-a-dia da sua existência. Portanto, quando foi apresentado a Sagitta, previu um estremecimento interno de que em Sagitta estaria a luz que tanto vinha procurando. Tomou ao pé da letra tal apresentação, no entanto, dias depois, notou que precisaria percorrer um caminho sombrio, com pouca luz. Procurou conhecimentos maiores sobre o assunto, indagou aqui e ali, consultou os caminhos informáticos, os caminhos das constelações, do universo, das estrelas, da lua, do cosmo e, não encontrou nada, quer dizer, o que encontrou nada lhe dizia da grandeza de Sagitta. As informações não levavam a lugar nenhum. Assim sendo, se acomodou no canto da alma se aquecendo no conhecimento até então, adquirido.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Pequenas histórias 25

Sagitta 4

 
E ao se acomodar no canto da alma, não só se aqueceu com o conhecimento adquirido como tomou outra consistência não prevista por ele. E, viu-se pronto a enfrentar a raposa, mesmo não sendo lutador, sentiu a necessidade em enfrentar o perigo. A águia num voo rasante arrancou-lhe do pescoço a corrente com o pingente em forma de S. Desesperado, sem pensar, retesou o arco e lançou a flecha atingindo em pleno voo a águia. Nisso, surge do nada a raposa faminta. Não demonstrou medo, sabia, a raposa tinha fome de carne animal e, não, de carne humana. Sabia, ela estava ali para afrontá-lo num duelo, não um duelo de vida e morte, mas num duelo de rapidez, de agilidade.
Assim, ao notar a presença do animal, sem pensar, saiu correndo, impondo velocidade aos pés. Lado a lado estavam na trilha do destino. Algo lhe dizia ser vencedor antes mesmo de chegar ao local onde estava o corpo da águia. Confiante, conhecia seu potencial assim como o potencial da raposa. Mesmo que ela estivesse alguns segundos a sua frente, via que não havia necessidade de impor mais velocidade. Foi então que teve conhecimento de algo que já sabia e, que naquele momento, devido à preocupação em vencer a raposa, tornava-se obscurecido. A flecha por ele lançada, situava-se entre as constelações de Hércules e Delfin, seguida da águia e raposa Compreendeu, nada o venceria, só não podia fazer corpo mole, tinha que demonstrar competência para lutar, competência de ser vencedor e, assim ele fez, competiu com a raposa. Até o último instante, sempre com a raposa a sua frente. Na volta final, imprimiu aos pés a força da seta, recuperando com galhardia a corrente com pingente em forma de S.
Suspirando com alegria, gritou venturoso:
- Sagitta você não morrerá nunca. A prova está aqui na minha mão. Tua força emanará melodiosos acordes elevando-nos ao total conhecimento cósmico.
Ajoelhou no chão áspero e alçou o pensamento a constelação visível em seu peito. E adormeceu sossegado.

domingo, 19 de novembro de 2023

Pequenas histórias 26

 Sagitta 5

 
Sossegado adormeceu. E sonhou. Sonhou calmo, suave, terno, perigoso, angustiado. Flanava no meio da constelação, esbarrava nas estrelas, empurrava uma para lá, outra para cá. O silencio aterrador comandava os gestos. Tinha conseguido. Quando menos esperava conseguira. Era sempre assim. Conseguira. Sim, estava fazendo sua primeira viagem astral. Ou não estava? E o que era aquilo? Sonho? Muito real. De onde estava via seu corpo estendido na cama do quarto. Não só o seu corpo como tudo o que queria ver. Poderia ver sua vida, desde ao nascer até agora. Ver todos os instantes da sua vida, seus erros, seus pecados, tudo. Sim, poderia. Mas, não era isso o que queria. Ainda não estava à beira da morte. E para que relembrar o que já foi? Queria apenas flanar por entre as tênues nuvens dos amigos, amantes, parentes, e se pudesse, dizer-lhes:
- Olhe! Sei que não fui o que vocês imaginavam, sei muitas coisas erradas fiz, mas fiz com a intenção de conseguir a felicidade e, alcançando a felicidade conseguiria fazer vocês felizes. Se não consegui, me perdoem.
Era o que queria dizer. No entanto sua voz soava muda, não alcançava o destino, não propagava no espaço. Gritava:
- Amo todos vocês.
Ninguém ouvia seu grito. Não tinha como saber se ouviu ou não, portanto se angustiava. Nisso percebeu algo esquisito. Percebeu, não tinha como sentir, era apenas um tênue flamejar de vida. Ouviu no silêncio do ouvido um passar relâmpago incandescente. Olhou em volta e nada viu. Soou ao longe um tropel de passos em desabalada corrida. De repente estava rodeado de ciclopes que corriam apavorados. Por que corriam? Com medo do que? Não teve tempo em assimilar a resposta. Passou por ele uma enorme flecha em fogo que atingiu um ciclope perto dele. O coitado caiu inerte no chão.Nesse momento percebeu, era um ciclope, tinha que correr.

sábado, 18 de novembro de 2023

Pequenas histórias 27

 Sagitta 6

 
Viu a flecha flamejante lançada por Apolo em sua direção. Imprimiu velocidade aos pés. Dava a impressão de estarem amarrados a uma bola de chumbo. Tinha dificuldade em erguer os pés. Com dificuldade, numa lentidão horrorosa fazia o máximo para fugir. Se ao menos alcançasse a esquina... Nisso a flecha perfurou a carne. Uma queimação tomou conta de todo o corpo. Numa lentidão a carne foi estraçalhada atingindo os ossos. Parecia uma guitarra sendo solada num extremo infinito. Caiu. Melhor. Aos pedaços seu corpo despencou em direção a ele que estava dormindo. Preocupou-se com o baque e como conseguiria juntar os pedaços dilacerados pela flecha. Seus olhos úmidos de terror pressentiam o momento exato do encontro dele com ele mesmo. O momento... Acordou sobressaltado. Empapado de suor, sentou na cama. Procurou no escuro distinguir onde estava. Acendeu a luz. Respirou com folga. Sonhara. Fora um sonho tão real a ponto de sentir dores pelo corpo todo.
Compreendeu. Sua busca chegava ao término. Compreendia claramente. Sagitta estava nele assim como ele estava em Sagitta.Isto é, seu destino era não poder nunca se livrar de Sagitta. Estava preso assim como estava preso ao destino infinito das sensações.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Pequenas histórias 28

Há uma imensidão

 
Há uma imensidão branca a espera de palavras, no entanto, há também um vazio cheio de indignação e dúvida quanto à qualidade das palavras que são escritas nessa branca imensidão. Às vezes as palavras lambem de leve o conteúdo da expressividade sem que sejam compreendidas. A palavra nunca é
a fala e, muito menos, é a escrita, e muito menos ainda, transmitem sentimento, ou experiência, seja ela mística, existencial, física ou extra física seja lá o que venha ser isso. Nunca será aquilo que lemos, pois o que lemos haverá, conforme a pessoa, várias interpretações. Isto porque, a palavra é símbolo criado pelo homem para se comunicar.
Que saudades da Guerra do fogo, quando nossos antepassados grunhiam, não usavam a palavra. Hoje em dia a palavra jorra aos borbotões sem expressividade, sem consistência, apenas para orgulho de uns, para engrandecimento de outros e, para o empobrecimento da humanidade. Hoje não há uma palavra significativamente que diga o que ela realmente quer dizer.
Usa-se muito a palavra e nada se diz. A palavra para ser efetivamente palavra, é necessário que transcenda ela própria. Deixe de ser apenas palavra. Poucos escritores conseguem transcender-se a própria palavra. Clarice Lispector, Faulkner, Henry James, são alguns.
Numa certa época procurei saber como era o processo criativo de vários escritores, hoje isso não me preocupa. Descobri uma infinidade de processo, e cada um tem o seu, mas todos criam na solidão do ser, no silencio da alma em busca do máximo que possam alcançar.
Processo não tenho, talvez seja um pensar em cenas, em imagens, para depois, no desespero, dizer alguma coisa, procurando dessa maneira transmitir o que me passa na alma ou na mente. Quase sempre é em imagens que eu penso isso no caso de escrever um conto. Quanto à poesia, não tem imagens, tem palavras que criam na mente dos leitores a imagem.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Pequenas histórias 30

 Quando escrevi

 
Quando escrevi A vontade é branca não pensava no título. Ele surgiu com a associação de uma frase onde menciono a palavra “branca” com a trilogia do  cineasta polonês, cujo nome não lembro, quer dizer, lembrar eu lembro, mas é um nome complicado para escrever. Os títulos dos filmes: “A liberdade é branca”, “A fraternidade é azul” e “A igualdade é vermelha”, penso que sejam esse os títulos. As cores e os dizeres foram retirados da bandeira francesa.  Evidente que os meus textos não têm nenhuma relação com os filmes, a não ser, com os nomes das cores. Bom é isso aí...
... só isso? É só isso. Você não tinha mais coisas para dizer? Bom, eu tinha e, provavelmente tenho, acontece que desde o momento que a mente começou a imaginar as palavras, até o momento em que esses dedos cancerosos decidiram pressionar as teclas, o que estava na mente se evaporou assim como se evapora o suor do acomodado. Entende? Não entende! É eu sei, o difícil não é ler, o difícil é entender o que está sendo lido, não é? Bingo. Eu também sou assim, raramente entendo isso não quer dizer, que eu seja um mau leitor, nada disso, é que alguma coisa dentro dessa cachola não gosta de trabalho. Teimoso, não dou a mínima para ela, continuo lendo e escrevendo, portanto se os leitores não entenderem o que estou dizendo, ops quer dizer, escrevendo... bom... não entenderem o que digo, melhor escrevo... pô, cadê as palavras? Fugiram assim como os bandidos do Comandante Nascimento...
Realmente tinha uma linha para escrever. Acontece que essa linha rompeu-se assim que a tensão sobre ela aumentou. Então, fraca, rompeu, quebrou, partiu e suas pontas suspensas ficaram a mercê do vento do meio dia apesar do sol e do ar parado. Que merda de texto!

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Pequenas histórias 31

 Os dedos passeiam

 
Os dedos passeiam sobre o teclado preto. Acariciam letra por letra. Apenas acariciam como se estivessem acariciando a tua pele nua. Pele nua que recebe os fluxos magnéticos das pontas dos dedos percorrendo todos os ângulos dos prados e campinas suaves e refrescantes, como o riacho a saciar a sede dos meus desejos. Deixo os dedos ao seu bel prazer, não forço a mente, se ela quiser transmitir ordens aos dedos, tudo bem, não proibirei. Por outro lado, sei que tua pele necessita do frescor dos meus dedos, e, sei que ela se entregará sem pudor e preconceito, e, sei que ela corresponderá aos anseios, tantos meus como os seus. Sei também, que assim complementaremos um ciclo de prazeres mutuamente correspondido.
Sei que futuramente seremos os mesmos os que somos hoje: dois amantes que se integram e se interagem sem que haja necessidade de drogas e subterfúgios alimentando nossa libido. Sim, meu amor, somos hoje o que seremos no futuro: dois putos safados encarecidos de sexo e rock. E viva o amor desvairado queimando como a guitarra solando um lamento infinito de sentir suas cordas esfolando os dedos de satisfação e prazer.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Pequenas histórias 32

  Luzes piscam

 
Luzes piscam nas árvores enfeitadas. Reflexos iluminam as calçadas. Rostos distorcidos pelo brilho encarapinham nas vitrines revelando no olhar o desconforto da pobreza. Piso no asfalto de luz amarela do sol artificial e me sinto satisfeito por caminhar entre a beleza do consumismo natalino.
Ouço canções sem ouvir a fome estendida nas calçadas dormitórios. Não me imagino um dia estar na mesma situação que os habitantes da noite, tendo como cobertor as estrelas que não vejo mais. Brilha a natalina estrela no horizonte dos sorrisos embaçados pela sobrevivência, tendo a esperança de mais um dia, acordar aos sons dos transeuntes e cavalos mecânicos jogando poeira carbonizada. Sorrio. Estou satisfeito. Estou contente. Estou zen. Estou como estou por ser mecanicamente conduzido, sem perceber a lavagem cerebral que, burguesamente me trouxeram até o presente momento. E continuarei dentro dessa burguesia por comodismo, por covardia, por que quero viver por muitos anos, mesmo que seja tenebroso desgastante e perigoso.

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Pequenas histórias 33

 Um acesso

 
 
Um acesso de espirro tolhe os movimentos e pensamentos. Devaneio no corredor sem fim onde os passos passeiam por desconhecidas pedras. Cansado as pernas se agita uma após a outra mecanicamente. Perspectivas de que chegue ao final é meramente golpe matemático que, nem mesmo o mais renomado mestre conseguiria decifrar a distância. No entanto, os olhos conseguem visualizar a pequena luz como se fosse um farol. E, claudicante sigo em sua direção. E não vejo nada de novo. Entre eu e a luz que, cada vez mais se distancia, há um tenebroso escuro que se fosse outro, já teria desistido. Mas não, não desistirei facilmente. Poderei demorar sim claro, piso em terreno arenoso, tanto mais perigoso que areia movediça, preciso querendo ou não, ser cauteloso. Portanto, lentamente movo um pé e, ao sentir o chão firme, é que mudo o outro. Assim sucessivamente. Penso em sentar “a beira do caminho”, mas sei que não devo. Preciso seguir. Seguir o caminho traçado por mim em longínqua hera. Olho para dentro de mim e pergunto:
- Será que tracei essa merda de caminho, mesmo? Se foi sou idiota e besta...

domingo, 12 de novembro de 2023

Pequenas histórias 34

Vejo imagens

 
 
Vejo imagens no som rascante da guitarra ferindo meus olhos de saudades. Morrerei novamente a cada inicio empurrado pela sobrevivência faminta. No dia-a-dia cato migalhas caídas dos edifícios cinza brancos da avenida. Nada perdura, nem mesmo a saudade que se transforma em pedra calcinada empobrecendo o coração. Tudo se resume no ter e não ter mais. Busca-se nos ângulos noturnos da alma, nos parapeitos da memória, nas sonolentas conversas de botequins das vilas, no dedilhar do violão entoando um choro lamentoso, em fim, busca-se em tudo e nada se encontra, pois o que foi não será novamente. Mesmo assim, fica uma pontinha de algo que não se esquecerá jamais alimentando, queimando, desejando o antigamente como se fosse hoje. E no som da guitarra, ressurjo das cinzas mostrando a força que há em mim. Força que nunca se apagará.

sábado, 11 de novembro de 2023

Pequenas histórias 35

O silêncio dos corpos

 
 
O silêncio dos corpos fala alto nessa prisão pela sobrevivência. Apenas os sons dos móveis sem o contato humano, junto com o ar condicionado, esparramando o vento nessa manhã de sol frio, são audíveis. Do alto falante a música se infiltra em ouvidos moucos. Poucos ouvem, talvez ninguém, nem mesmo a própria fala, quanto mais à música.
E no silêncio os versos cantam a palavra em ritmo de sentimentos às vezes dispersos, outras esparsos, outras ainda sem significado e, raramente sem conteúdo.
Assim a poesia se infiltra em poros sujos de sangue cinza e poucos afeitos à arte, a não ser, a arte pela arte de sobreviver sem questionar os porquês.
Cada um vive como quer e como pode.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Pequenas histórias 36

A TV digital

 
 
A TV digital começa domingo. Que beleza! Agora sim poderei ver aquele beijo mais nítido, mais sensual, língua com língua, ah! Sim, claro, poderei ver também a fome mais consistente, mais potente e, também, poderei ver o presidente com seu sorriso de nove dedos confiante, os ladrões mais resistentes derrubando barreiras por detrás dos muros, ah! Que beleza, domingo verei uma TV mais bonita, mais clara, meus ídolos vão estar mais charmosos, assim a vida de catadora de lixo é bonita, assim como o mendigo sorrirá com mais brilho na telinha da Globo. Quero ver o sangue bem vermelho dos noticiários locais e mundiais. Nossa! Estou contente, vou gastar meu décimo terceiro para comprar o conversor, mas valerá a pena, não vou ficar a margem, a margem só o cinema nacional, eu não, vou estar por dentro com a TV digital. E o que comerei? Ah! Não tem problema, se Chaplin comeu o sapato porque não posso comer o meu? Afinal, tudo vale a pena nesta vida que descubro pequena. Ah! Adoro a vida.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Pequenas histórias 37

 Sorrisos espetam

 
 
Sorrisos espetam a manhã ensolarada de alegria e festa. Regozijos de abraços festejam um ano a mais de vida prisioneira na carcaça de carne e ossos. Mais uma vez no mês da hipocrisia, muda-se o calendário onde, com antecedência mórbida, os dias da preguiça já estão marcados em vermelho, e, a cidade se enfeita de fome e brilho consumista para a alegria dos bardos negociantes cada ano mais filantropicamente podre. Mês em que o sol é mais sol, o sorriso é mais sorriso, a alegria é mais alegria, e a fome continua sendo mais fome. Mês em que o entulho humano se sobressai sob as marquises das falsas bondades.
Tudo é festa, tudo é espocar de champanhe a beira mar glorificando Iemanjá que nos protegerá o ano todo. Salve, salve Iemanjá, salve o jabá de carne cinza pedra que petrifica os passos honestos desvalidos de coragem e força. Salve mais um ano de sorriso larapio brilhando na Globo digital.
Salve galãs medíocres de fantasias onde se sobressaia é a beleza física.
Salve belas formas femininas a encher os olhos dos carentes de fantasias sexuais. Salve, salve a tecnologia proporcionando as nossas vidas mais alegria e menos lazer.
Não temos nada para reclamar, somos brasileiros felizes sob o céu tropical que nos dá tudo e nada pede e nada reclama. Abençoemos o azul que nos protege, abençoemos o verde que nos engrandece, abençoemos o amarelo que nos dignifica e, abençoemos o branco da paz manchado de vergonha no brilho dos colarinhos brancos.Salve, salve.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Pequenas histórias 38

Correria. Almoço.

 
Correria. Almoço. Banco. Saque. É pouco uma hora de almoço. Mastiga-se às pressas em poucos segundos. Olho no relógio e outro no prato. Comida farta nem pensar. Comida de qualidade rara. Qualidade só em casa, isso quando se tem alguém para cozinhar. O sol parece que chegou para ficar. Música se esparrama pelas calçadas irregulares – que estão sendo arrumadas, só que ainda não chegaram aqui – procuram pés distraídos com a finalidade em dar uma topada. Ops! Desculpe, tropecei. E empurra a pessoa que vai a frente e, que te olha com aquele olhar parecendo que vai te comer. Comer! Nessa altura a comida que bateu no estômago, pesa boiando no guaraná ou coca ou cerveja pronta a entrar em ebulição fermentada. A mão é levada a boca reprimindo o arroto com gosto de dobradinha ou de carne assada no molho de champignon. Engole o gosto misturado na saliva e se apressa o passo, à hora é mais importante. De dois em dois, sobe-se os poucos degraus, passa-se na roleta do prédio, aperta o botão do elevador apinhado onde com um pouco de sutiliza, o imenso ou pequeno corpo se acomoda. Chega-se no andar, a porta abre e despeja a incongruente massa que se apressa a passar o cartão magnético evitando o atraso. Cansado o corpo se joga na cadeira. Os olhos olham – lógico: olho é para olhar, cretino – a telinha branca e uma ducha de depressão desabam sobre os ombros. Que merda! Ainda tenho mais cinco horas de prisão. Mas eis que o estômago reclama da comida ingerida as pressas. E corres-se ao banheiro e se fica lá mais uma meia hora de alivio matando um pouco as horas. É vida de prisioneiro da sobrevivência não tem que reclamar. Tem que aceitar o que lhe compete ser: prisioneiro.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Pequenas histórias 39

  Venham ver

 
- Venham ver.
- Nossa! Que bonito!
- O que é essas luzes brilhando mais que as estrelas.
- Não sei, só sei que é bonito.
- Realmente. Veja. Elas saem de traz das nuvens...
- Não só de traz das nuvens como do meio também.
- Pó, que pena não ter a máquina fotográfica aqui.
- Realmente, vale à pena fotografar.
- Olha!
- O que?
- Que coisa é isso?
- Nossa, parece uma nave!
- Não é nave e nem disco voador.
- Casa?
- É o que parece.
- Como eles conseguem representar uma casa no espaço?
- Coisas misteriosas.
- Apenas sei que é fabuloso.
- Olha. Os detalhes.
- Veja. Tem mais saindo das nuvens.
- Magnífico.
- Olha aquela, está abrindo a porta.
- É mesmo!
- Está saindo um homem.
- Homem!?
- É.
- Está vestindo armadura medieval.
- Será?
- O que?
- Um dos Cavaleiros do Apocalipse?
- Não creio.
- Se for estamos perdidos.
- Por quê?
- Por que ele dizimara a peste entre nós.
- Mas não é, veja.
- Está descendo naquela igreja.
- Arrancou a espada.
- Que horror!
- Além de destruir tudo, está matando as pessoas.
- Não te disse. É um deles.
- E onde estão os outros?
- Não sei e nem quero saber.
- Só sei que vou ao banheiro urinar.
- Tudo bem.
- Vocês vão ficar aí?
- Vamos.
- Então até mais...
No entanto ele não chegou a ir ao banheiro. O Cavaleiro medieval já estava ali destruindo tudo. Ele correu, pois se o Cavaleiro o visse iria matá-lo.
Deu meia volta. Correndo encontrou-se com as amigas que lhe perguntaram:
- O que foi?
- Ele está aqui.
- Quem?
- O Cavaleiro...
No mesmo instante em que disseram isso, arrancaram as espadas e foram defrontar o misterioso Cavaleiro.
- Vocês vão morrer.
Não esperou pela respostas delas. Saiu correndo. Sabia que o Cavaleiro iria procurá-lo. Correu mais que pode. Sentindo-se seguro, encostou-se numa árvore para urinar.
Abriu os olhos. Não enxergou nada. Estava tudo escuro. Apalpou o corpo e sentiu a coberta.
- Ahn! Que foi? Onde estou?
Por fim, despertou. Acendeu a luz. Estivera sonhando.
- Nossa, parecia tão real. Tanto é que estou me sentindo envergonhado por elas terem enfrentado o cavaleiro e eu ter fugido. Que merda!
Foi até a cozinha e bebeu um copo de água.
Voltou para a cama, mas não conseguiu dormir, o sol da primavera chuvosa e fria veio encontrá-lo de olhos abertos.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Pequenas histórias 40 – 41 – 42

 Um conto a lá Manuel Puigui.

 
- Olá!
- Ola, como está?
- Bem, e você?
- Melhor é difícil.
- Fico contente em saber disso.
- Depois de tantos anos resolveu telefonar? O que foi?
- Nada assim de importante...
- Sei os seus nadas importantes...
- Trabalhando muito?
- Um pouco, sabe como é esse ramo, não é?
- É. Sei. Quem diria que você se tornasse o que se tornou?
- Destino. Acredita em destino?
- Não sei. Não tenho pensando muito.
- É algo que já está criado antes de você nascer.
- Você nunca foi de filosofar?
- Não é filosofia, é uma visão de encarar as coisas.
- Sei.
- Você já viu o meu último filme?
- Sim, vi. Tinha que ver, não acha?
- Acho. Mas com sinceridade. O que achou?
- Do filme?
- Claro.
- Atraente.
- Só atraente?
- Sim. E o que mais você queria que eu dissesse?
- Ah! Sei lá, que gostou pelo menos.
- Sinceridade?
- Claro, gostaria.
- Bom, sabe que não sou muito fã desse tipo de filmes. São muitos apelativos, rústicos, grosseiros, de história tem pouca coisa.
- São feitos para serem vistos sem análise critica, apenas para vender,para o tilintar das caixas registradoras.
- Isso mesmo. Quem diria você dizendo isso.
- Reconheço o que faço.
- O que é um grande valor em você.
- Obrigado.
- O filme em si, não é desagradável, apesar das constantes cenas de sexo, mas convenhamos você precisava fazer aquela cena escrota?
- Cena escrota?
- Sim, onde você...
- Ah! Sei a qual você se refere. Acontece que se precisa entrar no mercado sempre com algo atraente ou inusitado.
- Tudo bem, mesmo nesse ramo é preciso certo nível de criatividade, mas...
- Olha, por outro lado, se você não pensou ainda, é bom pensar.
- No que?
- Na grana, no dinheiro, no verde...
- Sim.
- Portanto fiz aquela cena apenas pelo dinheiro que vou lhe dizer, compensou.
- Bom, não sei se eu estivesse no seu lugar me sujeitaria a isso.
- É você não está no meu lugar. E tem outra coisa.
- O que?
- Você que escreveu a cena.
- Epa! Espere aí!
- E não foi?
- Foi e não foi.
- Como assim?
- Eu escrevi o conto que de pornográfico não tem nada, o que tem é muito erotismo, até concordo, um pouco exagerado, mas não tão explicito assim.
- Mas você sabe que nesses filmes nada pode ser sugerido, tudo tem que ser explicito.
- Lembra do Raul?
- Raul?
- Sim, o Raul?
- Não lembro...
- Lembra sim, o Irmão da Valquíria, a Val.
- A Val, a craque dos amassos atrás da porta da quitanda do pai dela?
- Ela mesma. Seu irmão, o Raul foi assassinado no Rio?
- Sério?
- Sim.
- Skhinheads?
- Não se sabe ainda. Estava guardando dinheiro para a operação...
- Queira mudar de sexo.
- É o que diziam.
- Que coisa.
- Pois é.
- Ele gostava de você.
- De mim?
- Sim. Dizia que nós éramos os únicos na vida dele e da irmã. Você era o cara que qualquer um se apaixonaria, e eu o bonito apenas.
- Não sabia.
- Bom, deveria, pois você me apresentou a eles, lembra?
- Lembro. Você colocava a cabeça na janela do meu quarto e fazia a pergunta sugestiva: “E aí? Ela está sozinha hoje?”
- E o que você respondia?
- Vamos lá ver.
- É. Íamos. Se estivesse sozinha... Ah! Que saudades... Afinal o que foi feito dela?
- Soube que casou com um alemão e está morando na Alemanha.
- E deixou o irmão aqui.
- Coitado. Depois que ela casou e foi embora, o cara ficou perdido.
- Sabe que por causa deles é que estou como você diz: estou onde estou?
- Verdade?
- Sim. Verdade.
- Como?
- Bom, é uma história longa...
- Conta.
- Bem, lembra você que me apresentou ela para mim.
- Sei foi. Sabe, tinha uma grande simpatia por ela. E revelo uma coisa para você.
- Oba! Segredos...
- Não, não é segredo.
- E o que é então?
- Ela que me desvirginou.
- Jura!
- Juro. Talvez seja por isso que tenha por ela uma simpatia... Olha vou te dizer outra coisa: apaixonei-me por ela, estava perdido, se ela topasse seguiria ela onde ela fosse.
- E por que não foi.
- Não sei. Moralismo, escrúpulo e, vamos e venhamos, ela se entregava facilmente.
- Isso é verdade. Lembro que ao me apresentar a ela, senti no aperto de mão toda a quentura da pele me queimando.
- Exatamente. Foi isso que senti a primeira vez que a beijei. Ela me queimou de tal maneira que, alucinado, não via o momento em que pudesse beijá-la.
- Se aquela porta contasse...
- Vou lhe dizer outra coisa.
- O que?
- Não éramos só nós dois que aproveitamos aquele recanto da porta.
- Não?
- Não. Houve outros a gozar daqueles amassos e beijos.
- Desgraçada...
- Mas acho que ela fazia isso por causa do irmão.
- Que? Como assim?
- (silêncio)
- Você sabe que ele era totalmente fraco. Um dependente da irmã. Confiava cegamente nela. Apesar de não parecer, tinha uma fragilidade feminina muito marcante, forte até em que ele aprisionava dentro de si, só se soltando quando estava com quem podia confiar.
- Certo. Mas isso não justifica...
- Não sei. Como tinha a porção feminina mais a flor da pele, fraco, tímido, sofria muito, e ela sentia-se culpada.
- Culpada? Por quê?
- Eram gêmeos...
- Gêmeos? Bem que desconfiava, achava muito parecidos.
- Como nasceu primeira, se sentia culpada e, pensado aliviar a sensação de culpa, fazia de tudo para que o irmão tivesse um pouco de felicidade. E com isso, sem ter noção do que fazia se prejudicava e ao irmão também, mais o irmão.
- Credo.
- E assim, todos aqueles com quem transou, pensou eu, teve que transar com o irmão dela.
- É, sei...
- O que você sabe?
- Bom... Quando... Ao saber que eu estava inteiramente louco, queria passar uma noite com ela, concordou, mas, com uma condição.
- Qual?
- Que o irmão também dormisse junto, isto é, propôs uma transa a três. Aceitei claro, se eles eram incestuosos o problema era deles e não meu só que...
- Só o que?
- Ih! Como vou lhe dizer.
- Diga.
- Bom... O irmão...
- Era gay.
- Sim. A principio foi legal, estava afim dela, assim como você, mas depois.. Não sei... Comecei a me sentir desinteressado por ela...
- O que aconteceu? Ela não correspondência mais como você queria?
- Correspondência sim, só que...
- Diga logo, para de rodeios.
- Sem notar fui deixando ela de lado e...
- E passou a transar só com o irmão? É isso?
- É.
- Caralho, então...
- Sim, descobri que sou
- E ela? Não disse nada?
- Não, foi discreta, foi se afastando sem dizer nada. Ela sabia do irmão, por isso que propunha transar a três.
- Que absurdo, que... Ah! Sei lá...
- Cada cabeça uma sentença.
- Sim.
- Responda uma pergunta?
- Sim, pode fazer.
- Ela nunca propôs a você transar a três?
- Não. Nunca.
- Não?!
- Não.
- Por quê?
- Por que ela descobriu o que eu sentia por ela.
- Será?
- Foi.
- Como sabe?
- Não sei, apenas pressentia...
- Então, por causa disso você se tornou escritor.
- Para você vê, vendi a estória para a revista e fui premiado.
- Parabéns.
- Obrigado. E você se tornou astro...
- Pode falar não me avexo mais não, astro pornô.
- Tudo bem. O importante é estar bem consigo mesmo.
- Parabéns para você também, afinal está fazendo algo que gosta.
- E qual vai ser a próxima história?
- Você nem imagina.
- Não posso mesmo, se pudesse...
- Vou escrever uma história a la Manuel Puigui.
- O Beijo da Mulher Aranha?
- Sim. As características vão ser iguais.
- E como vai se chamar.
- Os Gêmeos.
- Uhm! Está me parecendo autobiográfico.
- Até pode ser, mas não será.
- Está bem. Fico contente também por você estar fazendo o que gosta. Não deixe de telefonar com mais freqüência.
- Não deixarei.
- Falou amigo, felicidades e se cuida.
- Para você também, felicidades e se cuida.

sábado, 4 de novembro de 2023

Pequenas histórias 43

  O cigarro.

 
Ele tomou café e deixou o copo sujo dentro da pia.
- Não sou sua empregada, sujou o copo vê se lava. – gritou esganiçada a mulher ao passar pela cozinha.
No dia seguinte, tomou um suco, e o copo sujo foi para dentro da pia.
- O idiota. Não ouve, não. Vê se lava esse copo que não vou lavar merda nenhuma sua, ouviu cretino?
No outro dia, foi uma cerveja e, consequentemente, o copo sujo acabou dentro da pia. Assim, seguidamente deixava dentro da pia um copo sujo. No fim de um mês a pia estava abarrotada de copos. Um em cima do outro. No quarto mês a pilha de copos chegava quase até a metade da parede. No quinto mês, alcançava o batente da janela.
Já não dava pelota para os gritos da mulher. Surdo aos xingamentos continuava deixando copos sujos dentro da pia. Riu do absurdo. Como pode uma coisa dessas acontecer? Quem é o errado? Eu? Não sei, respondeu intimamente.
- Se você não tomar uma atitude, exigirei que saia dessa casa. – esganiçava a voz de taquara rachada da mulher.
Tudo bem! Faça o que quiser, estou para o que der e vier. Pouco se importava consigo mesmo, quanto mais com o que pudesse lhe acontecer hoje, amanhã ou depois de amanhã. O que desejava é que tudo fosse para o fim do mundo. Precisava de sossego, de paz, calmaria.
Finalmente um dia, ao passar pela cozinha e, ao ver a pilha de copos monumental dentro da pia, tomou a decisão. Escreveu um bilhete e colocou no centro da mesa.
“Vou até a esquina comprar cerveja – como não fumo, não vou comprar cigarro – e já volto.”
Passou-se dez anos. E quem lhe perguntasse:
- E o seu marido?
Ela respondia:
- Foi até a esquina comprar cerveja e não voltou mais.
- O que? Cerveja? Não seria cigarro?
- Não, é cerveja mesmo, ele não fuma.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...