sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.766(2021)

                              

            ... mais uma noite eu e meu pequeno caderno de capa dura azul aqui estamos nessa madrugada de insônia, e, me pergunto a mim mesmo e a ele, o caderno, o que devo escrever, o que devo dizer se não sei o que dizer quando o tudo que tenho a dizer torna-se complicado dizer, é uma merda de uma porrada insensivelmente intelectual e literariamente falando, isto porque, não sei o motivo, mas quando chega lá pelas vinte e duas horas começo a ficar irritado comigo mesmo, uma das pernas torna-se incomoda e para aliviar esse incomodo fico movendo-a de um lado para o outro, ou estico bem os músculos aponto da pele doer, ou então levanto-me e passo a andar de um canto a outro da sala, ou ainda, volto a sentar-me procurando me concentrar no estava fazendo, desenhando, escrevendo, as vezes imagino obscenidades me acariciando estupidamente imbecil alimentando meus instintos pornográficos, e as vezes tomo café com leite gelado acompanhado de torradas, mas nada faz efeito, até que desisto e vou deitar o que piora as coisas, pois fico rolando de um lado para o outro sem conseguir pegar no sono, por fim levanto-me, ligo o notebook e vou ver algo desinteressante... como hoje, agora, assistindo  mais um capítulo de uma porcaria, quatro ou cinco capítulos seguido e percebo que o incomodo sumiu – mas a insônia continua – o sono ainda não deu as caras e não sei se continuarei a escrever essas babaquices ou se desenharei... por fim, estou aqui as quatro horas e vinte e um minutos do dia vinte e três de dezembro de dois mil e vinte e um digitando essa porra...

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 332

 Dilatam-se


Dilatam-se as possibilidades e, ele tem dificuldade em ver. Sabia da sua natureza, do seu ser franzino, de pouca fala, sem discussões, e além do mais, a propensão ao estado paranoico depressivo. Não sabia dessas peculiaridades, só foi descobri-las ao participar de uma sessão de terapia em grupo. Mesmo assim, relutante custou a aceitar. Se alguém pensa que se abalou, estão enganados. Nada o abalou. Dizia não existir coisa alguma que o abalasse. E não tinha mesmo.
Vivia no sossego do apartamento economicamente desprovido de luxo, apenas o necessário. O que preciso é do necessário, o luxo supérfluo é para os vazios de alma, costumava dizer. Vivia no silencio da música seu único alimento. Estando no apartamento vinte quatro horas, as vinte quatro horas, ouvia música, não podia deixar de ouvi-las. Depois de muitas pesquisas, com certo sacrifício, conseguiu deixar o quarto em escritório, onde estava o aparelho de som, o home theater e o computador, num aconchegante lugar de lazer. E ali, passava seu maior tempo, lendo, ouvindo e escrevendo. Uma vez ou outra saia para uma longa caminhada no voo suave do pensamento, renovando os pulmões e os olhos. Caminhava despreocupado, onde esvaziava a mente até o ponto alfa do vazio sem sentido. Sabia onde e quando encontraria o seu destino. Criava-se o destino ou ele já estaria escrito no incansável? Ou talvez, passara por ele e não o reconhecerá? Se isso tivesse acontecido não estaria aqui nesse momento escrevendo. Ainda não se sentia pronto.

Sentado com as costas voltadas para o abismo da Nove de Julho, enquanto fumava e nos intervalos das tragadas, tomava um gole e outro de cerveja em plena manhã de um dia qualquer, assistia na tela grande do vão do Masp, mais um filme que, para alguns é chato, que para outros sofrível e, para os insensíveis uma droga, mas, que para ele era um profundo estudo de observação onde recolhia material para os contos, rascunhos, crônicas e outras baboseiras, coisas que alguns gostavam e que outros liam por consideração.
Construía na mecânica da vida o alicerce para outras vidas.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.765(2021)

                          

            ... abro o pequeno caderno de cada dura azul... passo a mão pelos cabelos... o silencio da madrugada irrompe grosseiramente quase maldoso ferindo-me ao caçar palavras no poço do subconsciente, palavras que nada dizem serem nada, preciso encontra a voz das palavras, a voz do que quero dizer e dizer o além do sofrível... manhã de sol, oito horas e dezesseis minutos do dia vinte e um de dezembro... faltam quatro dias para o Natal... o que mais poderei dizer, paro de escrever, pego o celular, vejo algumas postagens e nem sempre as que quero receber, merda, fecho o pequeno caderno de capa dura azul... e novamente me encontro na horizontal dos sentimentos enrolados pelo amor... meia noite e trinta e cinco minutos... o zumbido da madrugada busca o que eu quero e recebo o que não quero e nesse ter o que quero fico na expectativa de mudança que não se realiza e sei que o culpado sou eu, tenho de realizar a mudança, preciso... meia noite e quarenta e dois minutos do dia vinte e dois de dois mil e vinte e um de dezembro, faltando três dias para o Natal... merda...

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 333

 Só no quarto

 
- Só no quarto andar, ela disse ao passar pelo corredor.

Como todos, precisava de um gostoso café, bem quer dizer, café de máquina nunca é gostoso, mas na falta de outro, passava a ser gostoso. A maioria trazia seu pequeno lanche que, folgadamente abriam sobre a mesa, bolacha com manteiga, manteiga com pão francês, pão francês com pão francês ou, traziam pão de queijo que compravam de vendedoras que empesteavam a Avenida Paulista, com suas tralhas mambembes expondo ao ar poluído de fumaça e poeira expelidas dos escapamentos desregulados dos veículos.
- Do outro lado também não tem, só no quarto andar, diziam para os angustiados necessitando do preto mais gostoso.

A situação já estava tornando-se meio alarmante. No quarto andar começava a formar fila se estendendo entre as mesas dificultando o trabalho do pessoal. Parecia um bando de selvagens em pé de guerra com seus tacapes de olhares fulminantes. Alguns, prevendo o colapso derradeiro, procuravam passar na frente, discutia a prioridade como se fosse o dono, o presidente, e gritava:
- Primeiro os mais idosos.

- Quer dizer os velhos?

- Velha é a puta que pariu.

- Olha a boca.

- Calma gente há para todos, não há?

- Não, acho que está terminando, só tem água quente.

- Aí pessoal, acabou o café, o chá, o leite, o chocolate, tem só água quente. É bom água quente, quem vai querer.

 Uma voz mais forte, potente impondo, gritou:

- Calma gente, já foi feito o chamado, daqui a pouco o técnico estará aqui arrumando essa merda.

- Olha a boca, porra!

Assim o pessoal se acalmou e cada um foi para a sua mesa. No entanto não começaram a trabalhar, sentaram-se em suas cadeiras e cruzaram os braços. Outros simplesmente debruçaram a cabeça sobre a mesa e dormiram. Não dava para iniciar o trabalho sem o café, diziam os mais aflitos. Assim ficaram por longo tempo. Nem a chegada do chefe foi notada e, muito menos, nem a chegada do gerente com seu potencial de barítono gritando o seu:

  - Bom dia.

Acostumado com o bom dia geral, quase que programado, estranhou o silencio que fizeram, como se ele não estivesse ali. Depois que depositou a pesada pasta em cima da mesa, e ter ligado o micro, saiu da sala para saber o que estava acontecendo. Não foi muito trabalho saber o porquê, viu o luminoso escrito na testa de cada funcionário: café - queremos café. Os audaciosos, principalmente os aposentados, portavam cartazes com dizeres: ou temos café ou não trabalhamos. Apavorado, o gerente não sabia o que fazer. Alçado ao posto recentemente, olhava para os seus subordinados mais assustados que ele. Voltou para a sua sala e fechou a porta. Através do vidro viu o perigo eminente. Se o pessoal resolvesse invadir a sala não tinha nada como se defender. Estava à mercê dos zumbis sem café. Pegou o telefone e discou o número do seu chefe. Expôs todo o perigo que corria e pediu orientação. Ouviu o berro do chefe em seu ouvido:

- Temos mais o que fazer ao invés de preocuparmos com essa porra de café. Quem quiser que desça e vá tomar café no Espetão.
Ordem recebida, ordem comprida.

Meia hora depois o prédio estava vazio.

domingo, 26 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.764(2021)

                     

            ... com o caderno pequeno de capa dura azul estou com ele novamente aberto na procura de palavras para escrevê-las no branco entre as linhas, devo constatar que o caderno está quase no fim, acho que ainda tem umas cinquentas folhas, portanto vamos escrevendo esses caracteres moldados pela minha mão, e, assim sem muito pensar, a mão rabisca numa letra miúda quase redonda, nem feia e nem bonita, palavras vazias sendo apenas palavras, palavras, palavras em desacordo com o que pretendo escrever... durante o dia, no fazer isto ou aquilo, ouvindo música ou desenhando, me veio à mente duas ideias que poderia aproveitar em conto, mas como surgiram desapareceram, escafederam-se na poeira da mente torta sem ter uma porta para abrir, assim sendo, paro por aqui...

            É isso... ou, não é?

sábado, 25 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 334

Uma fina e insistente



Uma fina e insistente chuva vinha caindo quase o dia todo. Dava sensação de frio enroscado nos nervos da cidade. Sentia-se molemente terrível sem proporção de sair da situação de observador diante de cenas que impregnava a mente. Estava sentado na calçada, embaixo do toldo, tomando sua caipirinha de toda a semana na espera do acontecer o que deveria ou que achava que deveria acontecer. Seus olhos pulavam a procura de algo para se fixar sem achar o que lhe agradasse. Acompanhando a mente ou, a mente acompanhava os olhos, divagava na inconstante insatisfação de não ter no que se interessar. A sua frente à agenda aberta tendo ao lado a caneta numa espera compulsiva, denunciava a falta de inspiração que o atacava no momento. Na primeira linha da folha estava escrito:

“Os olhos caíram em sua mão de tanto lavar o rosto para espantar o sono.”
Acariciou as palavras devagar pronunciando uma a uma para, talvez, a inspiração escondida nas curvas gráficas, surgisse. A chuva continuava despejando umidade agora com maior persistência. A água corria pelo meio fio da calçada formando uma pequena enxurrada. No meio do quarteirão uma poça gigante de água se formava. Quem sabe o Anjo da Chuva apareceria, pensou com os olhos na poça de água.

O Anjo da Chuva é um mendigo que ninguém sabia nada dele, apenas que aparecia nos lugares mais inusitados e, quase sempre quando chovia e onde houvesse uma poça de água. Corria o boato que ele transmitia quem olhasse para ele, uma paz inigualável. Não tinha nada de anormal, ao primeiro olhar se parecia com um mendigo qualquer, mas olhando com mais atenção, notaria diferença gritante entre um mendigo qualquer e ele. Não tinha uma idade definida, isto é, uma hora diziam ter menos de vinte anos e, outra hora, mais de trinta anos. Sua postura, seu olhar, gestos, apesar dos farrapos, dos dentes mal tratados, cabelos empastado de sujeira, os mais fervorosos diziam ser ele um emissário do Senhor. Faz treze anos desde a sua primeira aparição que o culto ao Anjo da Chuva surgiu pela redondeza. Se ele entrasse num bar ou restaurante, o dono poderia dar-se por satisfeito, pois aquele dia o movimento seria grande dando um bom resultado na caixa registradora. Por isso, quando ele entrava, o dono se sentia na obrigação de alimentá-lo da melhor maneira possível. Quieto como entrou, quieto saia alimentado e agradecido sem dizer uma palavra. O mais estranho e, todos confirmavam que por isso é que transmitia a aura de anjo, ele não ingeria bebida de espécie alguma, apenas saciava sua sede com a água das enxurradas e, só tomava banho nas poças escuras e lamacentas.

- É verdade, sim - ouviu o garçom dizer ao colocar na mesa mais uma caipirinha.

- Difícil de acreditar.

- Pode crer que é, mas eu já o vi umas duas vezes e, olhe que estou trabalhando aqui uns dez anos.

- Se você diz, acredito.

- Pergunte ao dono, ele está aqui há treze anos e, durante todos esses anos, já presenciou umas seis vezes e, umas tantas vezes O Anjo da Chuva se alimentou aqui.

- Está certo.

A esquina da Rua Luiz Coelho com a Rua Augusta não era uma das mais agitadas, mas naquele momento o transito estagnado, a chuva que não parava alagando a rua, fazia com que o movimento de carros e pessoas tornasse intenso.  

“Olhe para a esquerda.”

O que? Olhar para a esquerda? Não tinha ninguém ao seu lado. Quem teria proferido tal coisa?

“Olhe para a esquerda.”

Ouviu novamente, só que com uma diferença. Ele não ouviu, sentiu as palavras dentro da mente, como se alguém dissesse mentalmente. E num movimento quase mecânico, olhou para a esquerda. E viu. Lá estava ele, O Anjo da Chuva no meio da poça de água. Com a mão em concha levava a água suja e lamacenta até a boca e bebia como se fosse a mais pura e cristalina de todas as águas.

Quando ao ouvir as palavras: “Olhe para a esquerda.”, pensou ver algo além do inusitado de todos os dias, mas o que viu foi simplesmente um mendigo se esbaldando na chuva. Nada mais. No entanto havia algo que não sabia explicar, que impunha a ele fixar os olhos na cena meio tétrica e surrealista. A embriaguês sonolenta talvez agisse de maneira a ver fantasia para logo em seguida sentir a realidade batendo no peito, como um tijolo de concreto levando-o a se entregar totalmente ao que via.

Não viu naquele Zé Ninguém um anjo na realidade. O que viu foi simplesmente um mendigo falando consigo mesmo, uma pessoa perdida na vida, naquela esquina movimentada.

Balançou a cabeça de um lado para o outro numa demonstração de incredulidade. Sorriu. Nesse momento, numa atitude nada programada, quase que violentamente, olhou para a esquerda e não viu mais o mendigo. Quando percebeu, o mendigo passava a sua frente demonstrando um largo sorriso que, a ele, pareceu de felicidade. Involuntariamente retribuiu o sorriso.

Chamou o garçom, pediu mais uma caipirinha e a conta.
Enquanto esperava, olhou o que estava escrito na agenda. Na primeira linha as palavras que escrevera:

“Os olhos caíram em sua mão de tanto lavar o rosto para espantar o sono.”, e logo abaixo:

“Se os seus olhos caírem é por que não acredita no que eles veem.” – O Anjo da Chuva.

Pastorelli / Jean Alzair

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.763(2021)

                         

            ... toda vez que abro esse caderno pequeno, diga-se de passagem, de capa dura azul para escrever algo com a caneta esferográfica verde, não sei o que propriamente deverei escrever, as vezes olho as pequenas linhas em branco procurando nelas as palavras que a ponta roliça da caneta toca nos espaços em branco entre as linhas, uma torrente de palavras saem da sua ponta, evidentemente ao comando dos dedos e os dedos obedecem ao comando da mente no desespero de impingir as palavras nestas folhas do pequeno caderno de cada dura azul, num desconforto irregular onde paro por minutos como se cansado estivesse ou como se a mente pescasse no poço escuro do subconsciente, dessa maneira creio que inventei um exercício, pelo menos sua forma, se é ou não exercício não sei, ou se é produtivo só o tempo dirá como se o tempo possuísse voz para dizer alguma coisa não seria tão terrifico e nem pernicioso como é sua passagem deixando em nós suas marcas...

            É isso... ou, não é?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 335

Ei. Psiu. Aqui



- Ei. Psiu. Aqui ó.

- O que?

- Aqui, olhe para baixo na borda do prato.

- O que? Você de novo?

- Por que de novo?

- Oras, por que. Não estava outro dia dançando na borda do prato como uma exibida?

- Ah! Você está falando da minha irmã.

- Irmã?

- É! Minha irmã...

- Ora veja só! Não sabia que arroz tem irmã.

- Tem sim.

- Estou delirando novamente.

- Não está. Tem arroz caseiro, arroz a grega, a arroz a mineira, arroz carreteiro, risoto, arroz de queijo, arroz caipira...

- Está bem.

- Então deve ter falado com a minha irmã, arroz branco. Ela é exibida, não tem atrativos nenhum, por isso fica dançando na borda do prato.

- A é? E você o que é?

- Sou arroz a grega que você mais gosta.

- Uhm sabe até o meu gosto.

- Claro sempre pede filé de frango com arroz a grega.

- Estou ficando doido, não pode ser.

- Olha quero lhe dizer uma coisa.

- Arroz falando comigo, dá para imaginar?

- E por que não? Não tem aquele escritor alemão, como o nome dele, ah! Gunther Grass que falava com barata ou descascava cebola? Não sei.

- O autor do O Tambor.

- Isso mesmo.

- Oh livro chato.

- Então se ele falava com a barata ou descascava cebola, não sei, então por que você não pode falar com um arroz, e olha lá, arroz a grega.
- Deveria falar em grego, né, ahahahahaha!

- Engraçadinho, detesto piada americana.

- Ah! Até que foi uma boa piada.

- Bom quero dizer uma coisa para você.

- Ah É?

- É sim.

- E o que é?

- Você está apaixonado.

- Endoidei de vez. Um arroz insignificante falando que estou apaixonado.
- Está sim.

- E como sabe que estou apaixonado?

- Como sei não importa, o que importa é que eu sei e sei por quem você está apaixonado.

- Vamos encurtar o suspense e diga por quem então.

- Não posso.

- E por que não pode?

- Por que acabou o tempo do escritor.

- Acabou o tempo dele?

- É. Amanhã volto a falar com você.

- Está bem, amanhã neste mesmo bat local e bat horário.
- Certo. Só que você precisa pedir arroz a grega, não esqueça.

- Não esquecerei.

(Realmente acho que estou ficando louco preciso consultar um psiquiatra – disse a meia voz, saindo do restaurante.)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.762(2021)

                      

            Estendido estava e estendido ainda ficaria no chão da sala, em cima do tapete cinza e branco como se fosse deixado no esquecimento de si mesmo, a principio sentiu-se incomodado, pois era uma atitude esquisita quando propuseram e achou absurdo e quando descrevera como seria achou ridículo se imaginando na posição descrita, mas agora ali, estendido no tapete cinza e branco, com os braços abertos, pernas esticadas, até caiu numa pequena sonolência e se entregou a ela e por ela se deixou levar numa sonoridade pacifica dentro de uma cremosidade latente levando-o a percorrer distancias inimagináveis, se soltou nos fios do tapete se impregnando das fibras macias, não ouvia mais nada, aos poucos o coração cessou e saindo da posição, viu a si mesmo esticado no chão trazendo no semblante a frieza e a palidez de corpo sem vida, não se desesperou, sorriu, lançou um adeus em forma de beijo e despareceu nos signos do dia ensolarado, livre, estava livre...

            É isso... ou, não é?

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 336

 Há frases


Há frases que não se recuperam
Palavras que esgarçam febrilmente a pele
Não há cumplicidade no jogo

Não acredite na verdade
Acredite na lâmina banhando o sangue da alma

Frases são balões de magoas
Explodem destinos

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.761(2021)

                          

            Com cuidado de alquimista, preparou os objetos, os utensílios, copos, canecas, palitos de sorvete, telas, luvas sujas, tintas de diversas cores e outras tralhas que pudesse usar. Colocou todos em cima da mesa no meio do ateliê. Estava mexendo na mistura do amarelo com vermelho e branco quando o insidioso inseto começou a voejar a sua volta. A princípio não deu importância, mas o maldito inseto não o deixava sossegado, procurou afugentá-lo, primeiramente com as mãos enluvadas e sujas de tintas, com isso os respingos de amarelo e vermelho misturado com branco se impregnaram a sua volta, na parede, na mesa, nos seus cabelos, sobre a tela que estava trabalhando. Com desagrado pavor viu que teria que repintar, a tela estava mutilada pelos terríveis respingos de tinta. Falou um filha da puta bem sonoro e reconheceu o desperdício, os gastos, aquela mistura não poderiam mais ser usada, teria que jogar fora. Maldito inseto. Porque existem, berrou sem ter uma resposta. Tinha de matá-lo isso sim, disse a si mesmo. Tinha como regra eliminar tudo o que lhe atrapalhava. Pegou o inseticida e borrifou pelo ateliê inteiro. Sem perceber os respingos caíram na tela e não viu o inseto pousando nela. Confiante de que tinha eliminado o maldito, voltou sua atenção para o que fazia. No entanto ao pegar a tela para ver se a aproveitava, quando a ergueu na altura dos seus olhos, horrorizado viu dois longos ferrões se aproximando do seu rosto e, num lance rápido sem dar tempo de se desviar, sentiu a ferroada em suas bochechas. Largou a tela que caiu no chão. E sentiu que estava encolhendo até que ficou do tamanho do inseto. Petrificado viu que preso se tornara um acessório, um componente da tela, não sairia mais dali. E hoje em alguma parede de alguma sala de alguma casa estava preso a tela enfeitando o ambiente.

            É isso...ou, não é?

 

domingo, 19 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 338

 Oito horas

 
Oito horas. Oito horas da manhã de um dia qualquer. Um dia qualquer que nada vem representar se nada ocorrer. Mas sempre ocorrerá uma coisa ou outra, seja ela positiva, seja ela negativa. O que temos a fazer é filtrar as coisas, filtrar de maneira que a força negativa seja transformada em algo razoavelmente positivo, que faça com que aquela parte dentro da gente seja satisfeita e, assim possamos mudar os passos que nos levará a completar o dia a partir dessa manhã qualquer.

Oito horas. Oito horas que já não são mais oito horas e, sim oito horas e cinco minutos, o que torna ao mesmo tempo presente passado nossos movimentos instantaneamente concretizando-nos na cena da vida. Oito horas e cinco minutos e já perceberam que não sei o que escrever e, no entanto forço a mente a pressionar os dedos nessas teclas – quantas vezes usei essas palavras? É preciso mudá-las – na tentativa em dizer alguma coisa interessante. Vocês meus leitores assíduos, o que espero que sejam, acompanham o deslumbre em que me entrego a escrita, quase que desbragadamente.
Oito horas. Oito horas que já não são mais oito horas e, sim oito horas e treze minutos que vai se arrastando num cinza de chuva e frio, segundos a segundos, sem que possamos interferir nos acontecimentos previstos no calendário profissional, esquecendo-nos do calendário do prazer e lazer. Aonde vamos  afundando num marasmo cotidiano de números tridimensionais, ou melhor dizendo, abstratos de ganhos e perdas, talvez mais perdas do que ganho. Aonde os acontecimentos depositados no recôndito da carne são ignorados para os imediatos acontecimentos deflagrando espanto raiva ou ódio aos nossos olhos cansados.

Oito horas. Oito horas que já não são mais oito horas e, sim oito horas e vinte e três minutos que talvez precise interromper essa escrita e voltar minha atenção ao que não quero prestar atenção. Mas tudo bem, como se diz num jargão de otimismo: dias melhores virão. Vamos então esperar esses dias melhores que nunca chega, mas que traz esperança aos que não estão cansados de esperar. Eu já estou cansado de esperar, talvez seja necessário colocar ponto final nisso tudo. Não acham? Então vamos lá: ponto final.

sábado, 18 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.760(2021)

                         

            quatro horas e onze minutos da madrugada do dia dezessete de dezembro e eu querendo fazer algo que não sei o que, e esses pernilongos me picando, o que devo fazer, pergunto ao meu eu, e ele responde educadamente, se coça ou mata, mas como disse a Monja Cohen, coitadinhos, eles são filhos de Deus, ok que sejam, mas que coitadinhos o que, são um saco suas picadas, não sei para que servem, servem só para aporrinhar mesmo com seus malditos ferrões, agora a pouco, antes de começar esse dialogo com você, meu eu querido, vi uma publicação no Instagram que mostrava um ambiente, talvez um quarto, com um colchão e uma televisão no chão sem mais nada, simples, nada mais, e um texto mais ou menos assim: “começo para uma vida para sua libertação e felicidade”, como não me lembrava, procurei a postagem e não achei, gostei e concordo, me identifiquei, mas no entanto o que adianta fisicamente essa transformação se espiritualmente você ainda está no seu quarto antigo, ao seu super confortável quarto supérfluo com penduricalhos inúteis e descartáveis, que adianta, preso a questões sentimentais... não é, bem a madrugada foi proveitosa, vamos ver como será o dia com essa chuva que não para mais, não é...

            é isso... ou, não é.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 339

Mudam-se os astros


Mudam-se os astros. Mudam-se os atos. Diferentes são as cenas, mesmo que a primeira vista pareça idêntica, mas olhando na profundeza de cada uma, veremos as diferenças. Tudo muda menos o cenário. É sempre o mesmo. Podem-se trocar os objetos, os móveis, colocar um aqui, outro ali, jogar alguns fora, um de canto outro de revés, colocar proteção, armários ou o que quer que seja ele será sempre o mesmo. Um cenário grotesco, frio, sem beleza, carregado de negativismo e, nada solucionará colocar um vasinho de flor, fotografias de familiares, bibelôs, e outros adornos para se criar uma atmosfera falsa nada conveniente com o local.

Mudam-se tudo. Mudei eu? Não sei, creio que tenha mudado, pois aquele que não se adapta as mudanças pode-se considerar morto. Adapto-me sem preconceito ou moralismo nostálgico. Vou ao infinito do meu eu para encontrar o eu verdadeiro que sempre fui e que, por ignorância, não me vejo. Passo de uma manhã a outra me rejubilando com o cosmo do meu corpo. Grito de felicidade. Pulo. Canto. Incinero-me no brilho do teu sorriso que silenciosamente me queima. Não sei. Mas acho que me apaixonei sem saber que estava apaixonado.

  Na distância dos corpos o destino nunca será realizado.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 340

 Sentia a suave


Sentia a suave aspereza do carpete na sola dos pés. Descalçara os sapatos porque não tinha outra coisa a fazer. Olhando a tela do monitor nada lhe vinha à mente. Uma avalanche de palavras tolhia-lhe a inspiração, isto porque, não se decidia o que escrever. Cacete, mais uma vez escreverei sobre a falta de inspiração? É! Acho que sim. Fazer o que! Disse para si mesmo. Foi então que lembrou, estava apaixonado. É, estava apaixonado. Amava. E era amado? Achava que sim. Esperava que sim. Tinha certeza... Não, não tinha porra de certeza nenhuma. A única certeza era que se apaixonará perdidamente. E deveria escrever sobre essa paixão? E por que não? Todo apaixonado gosta de escrever ridículos textos. Isso quando não escrevem cartas ridículas. Não com ele. Não tinha que escrever cartas. Cartas ficaram no passado, ficaram numa época romântica, numa época difícil de comunicação, rezando sempre para que a carta chegasse ao destinatário. Época que se angustiava dias após dias pela resposta. Isso quando a resposta chegava. Era uma época românica?

Mas porque uma época romântica? E hoje, não há romantismo? Se há é um romantismo diferente, mais frio, mais eletrônico, mais esdrúxulo, mais aventureiro, sem se preocupar com o ser humano, mas com o prazer descartável, do substituível a cada segundo, pouco se lixando com a pessoa, com o individuo. Quanto mais descartável, melhor. Quanto mais substituível melhor. Quanto mais sexo melhor. Antes os românticos morriam de tuberculose hoje, morre-se de AIDS sem ser romântico. Há um prazer destrutivo quase ou totalmente proposital. Há um prazer de instantes, não há mais o prazer único, de anos, de décadas, de mãos dadas além da vida.
E a suave aspereza do carpete ardia debaixo da sola dos seus pés.

Pastorelli

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 341

 Eu sei


Eu sei, mas não custa tentar, não é? Disse para ela. Todos os anos era a mesma coisa. Procurava numa tentativa fraca se livrar dos infindáveis parabéns. Não se sentia confortável ao ser abraçado, tocado, aperto de mão, ouvir felicitação etc. e mais. Acanhado se encolhia como o caramujo dentro da frágil casca. Tempos atrás, havia o famigerado café da manhã, onde entre comes e bebes e bolos, na última sexta-feira de cada mês, após a cantoria de parabéns aos aniversariantes, perdendo umas três ou quatros horas em beber e comer. Com o advento da crise, ocasionado por um palhaço que teve a ousadia de fraudar o resultado da eleição, deixando o abacaxi para ser descascado por um descendente afro-americano, com raiz muçulmana e, como tudo o que acontece lá que, até um peido seu cheiro se espalha pelos quatro cantos do mundo, aqui não foi diferente, a crise se fez sentir e, assim, o café da manhã, a alegria dos que vivem para comer, foi extinto.
Sabe que não poderá fugir dessa sina. Terá que enfrentá-la como enfrentou todos esses trinta anos. Aceitando os parabéns e felicitações numa boa como um dia qualquer, como um dia simples, sem os exageros característicos do momento. Pouco se lhe apraz  se o cumprimentam ou não. Não ficará chateado ou deprimido se não se lembrarem do seu aniversário. O que importa é viver o que transigente pulsa em seu interior levando-o a luta, levando-o a regozijar com a manhã de sol, com a alegria do sorrir inocente de uma criança, com o nascer de uma vida...

O cumprimentar ou não é insignificante diante da proeza dos que vivem no malabarismo da sobrevivência. O que importa é o prazer de viver a intensidade da vida no seu corriqueiro dia-a-dia.

Todos os dias ele agradece ao abrir os olhos ao ser cumprimentado pela luz da vida, esse é a maior e a melhor das felicitações a qual com humildade agradece.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 342

Eu sei


Eu sei, mas não custa tentar, não é? Disse para ela.
Creio que ninguém entendeu essa frase no texto anterior. Quem disse para ela? E quem é ela? Ficou meio solta a sentença. Mas explico, isto é, vou tentar explicar. Quem disse, acho desnecessário explicar. Mas ela, quem é ela? Mistério dos mistérios.
Como frisei em texto anterior, todas as ultima sexta-feira do mês, a firma oferecia um café para os aniversariantes do mês, onde além de se comer e beber, era oferecida uma cantoria de parabéns, seguidas de ip-ip- hurra aos contemplados.

Porém, o americano deu um peido a quilômetros, ou seria, milhas e milhas de distância espalhando seu fedorento cheiro aos quatro ventos. Logicamente, essa fragrância atingiu as águas brasileiras empestando de norte a sul, do oeste a noroeste, obrigando várias firmas reduzir os gastos supérfluos.  Portanto, encurtando um pouso esse blá bla e cri cri o café das manhãs foi cortado.

Então, numa atitude carinhosa, quando se aproxima o aniversário de alguém, a chefe passa de mesa em mesa recolhendo o din din para o presente de fulano ou sicrano. E toda vez ao passar por ele, dizia: “Tudo bem, participo, mas no meu aniversário não vou querer nada, combinado?” ao que a chefe respondia: “Ok, combinado.” Sabia que ela respondeu por responder, não cumpriria o combinado. Portanto, respeitosamente, mandou um e-mail quase nesses termos:

“Vocês não são amigos mesmo, não é? Amigo que é amigo faz o que o amigo pede.”

Ao fim do expediente, ao sair do prédio, por uma coincidência, cruzou com a chefa que, ao emparelhar com ele, disse:
- Que negócio é esse de ninguém é amigo?

- Ah, o e-mail.

- Sim, como...

- Mas é verdade, amigo que é amigo faz o que o amigo pede, ou não.
- Concordo com você...

- Então, se vocês são meus amigos, devem fazer o que peço correto?
- É, mas nesse caso, você não será atendido, falou?

- Eu sei, mas não custa tentar, não é? Disse virando à esquerda.
Assim se necessário era ou não, aqui está a explicado a frase inicial do texto anterior.

domingo, 12 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.759(2021)

                      

            O que você costuma fazer como exercício literário? Escreveu logo após largar o livro ao término da leitura de um capítulo do romance Babbit, de Sinclair Lewis. O que eu costumo fazer, bem, as vezes escrevo palavras esparsas, jogadas neste pequeno caderno de capa dura azul, espalho as palavras sem pensar muito nelas, principalmente seu significado, no que elas podem dizer ou não, procuro colocá-las numa sincronia desleixada aleatoriamente de beleza onde o leitor, se houver, possa se encantar e engradecer admirado com a beleza poética. Isto quer dizer que você não se preocupa, além dessa questão, em criar personagens que possam transitarem numa história comovente seja drama, comédia ou suspense, é isso? Sim, isso mesmo, é uma falha que reconheço e devo eliminá-la. Pelo que vejo, você nos seus textos não tem, não vou dizer condição, e não sei que palavra usar, mas sem ser pejorativo, vamos dizer tarimba para deslanchar numa estrutura de início, meio e fim, numa criação estudada, tanto psicologicamente como ficcional de personagens real ou não, de personagens, mesmo que ficcional possa ter pequenos toques de suas características ou mesmo de outras pessoas conhecidas, é isso? Sim, é verdade, não sei separar a casca da realidade e deixar apenas a casca literária, mesmo que possa ficar algo irreal, não consigo, creio que por falta de prática, exercício, estudo ou sei lá, e... bom, melhor continuar esse texto outro dia, tenho que me movimentar no hoje para que o amanhã seja mais formidável quanto o hoje será...

            É isso... ou, não é?

sábado, 11 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 343

Doze e quarenta



Doze e quarenta
Doze e quarenta e um
Doze e quarenta e dois
Doze e quarenta e três
Doze e quarenta e quatro
Doze e quarenta e cinco
Doze e quarenta e seis
Doze e quarenta e sete
Doze e quarenta e oito
Doze e quarenta e nove
Doze e quarenta...

Ainda continuou sem você
Ainda continuou na saudade
Ainda continuou por aqui
Ainda continuou esperando
Você me telefonar
Ainda continuou...

Por muito tempo aqui
Até que o aqui
Seja um corpo
Pendurado
Numa corda

E
 Nada mais... 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.758(2021)

                  

             O silencio o consumia zunindo o próprio silencio em sim mesmo como em tudo o que o envolvia, escreveu lentamente nas linhas do caderno de capa dura azul. Onde está a verborragia de ontem? Cansou? Não, creio que não apenas descobriu que estará sempre à procura de algo que não sabe o que é, ou talvez até saiba, mas não quer admitir com receio de machucar ou, pior ainda, de se revelar. Por que se machucar? Por não acreditar no que escreve? Por não acreditar no que sente? Ou por não acreditar que não deve escrever? Por não acreditar na sua capacidade? Não sabe, claro que não sabe, isto porque o que a caneta imprimirá nestas linhas desse pequeno caderno de capa dura azul, será a própria história em palavras que deverá transformar as imagens bem conhecidas por você e que você indeciso teima em aceitá-las..........................................................................................................................

            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 344

 Elaborei toda estrutura



Elaborei toda estrutura do teu corpo dentro de uma esfera atraente e bela. Elaborei e não me perguntei onde eu caberia nessa estrutura. Não perguntei. No momento em que a completei pasmo, chocado me deparei: onde eu me coloco nisso tudo? Onde me posicionarei nessa estrutura? Dentro ou fora dela? Não sabia, e nem poderia, pois o calculo principal não efetuei, apenas fui construindo através da consciência editando os pormenores do que poderia ser nossas vidas.

Não foi cansativo.  Até que divertido. Talvez divertido por não ter-me integrado aos cálculos. Gozado, como posso fazer algo que me angustia e que ao construí-la penso me livrar tolamente de tudo e, ao acabar, vejo-me preso mais ainda.

Cheguei à conclusão aterradora: não sei escrever...

31.03.2009
pastorelli

 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.757(2021)

                 

             Mais uma noite a procura de palavras. Vai achá-las? Claro. Já está achando as malditas palavras, apenas não são as que você procura, aquelas que você quer, pois essas são difíceis de serem pronunciadas quanto mais escritas. Elas estão na sua mente a espera. No acostamento sombrio do seu subconsciente, sim, elas estão totalmente a espera. É só você pinçar uma por uma como se pinça algo inalcançável de se pegar. E, no entanto, você fica brincando com as meras palavras que nada lhe dizem, não é, palavras banais, fúteis, sem significação para quem for lê, se é que alguém vá ler essa porcaria de amontoados de caracteres evasivos impressos neste caderno de capa dura azul por sua mão nervosa com pitadas de raiva. Raiva sim, porque não é isso que você quer, você quer escrever outra coisa e não essas merdas que está escrevendo e, que por sinal, você descontroladamente as escreve sem pensar, não é, pois sim, continue dessa maneira que poderá encontrar a solução para o que você deseja, mas lhe digo uma coisa, vá dormir que por hoje chega de babaquice, ou tome um bom trago de uísque antes de cair na cama que está a espera desse corpo enfadonho de tédio. E foi o que ele fez, apagou a luz da sala, na cozinha encheu o copo de uísque, acendeu um cigarro e se sentou na cadeira de balança olhando pensativo para a rua silenciosa corroendo-o de angústia vitimista.

            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 345

Para a Regina


            Para a Regina, a formiguinha atômica.


O dia tinha chegado. Nunca lhe passou pela cabeça a proximidade ou mesmo que chegasse esse dia. Afinal estivera tantos anos na ativa correndo de um lado para o outro, questionando dúvidas as mais elementares, rompendo estruturas as quais não tinha noção de existirem, solucionando problemas os mais corriqueiros, atendendo pedidos os mais diversos fossem eles de sua competência ou não, estava sempre pronta em ajudar, a cooperar, como se dizia: não havia tempo quente.

Quem via a pequena figura entre as mesas, atendendo telefonemas, conversando com um, rindo com outro, sem aparentar acabrunhamento, insatisfação, cansaço não poderia imaginar que chegasse o dia de sua despedida. Não havia tempo ruim, com chuva, com sol, frio ou calor, a vivacidade era a mesma. Pequena, com menos de um metro e cinquenta, parecia ter mais de dois metros de carinho e atenção que despertava aos outros.
E todos no prédio inteiro tinham conhecimento e, o mais essencial, amizade com ela. No aniversário era a pessoa que mais ganhava presentes. Podia-se dizer que chovia presentes. O mais engraçado é que ninguém transmitia sensação de inveja ou ciúmes. Não existia tal sentimento em relação a ela e aos que dela se aproximavam. Na psicologia social e na psicologia trabalhista não tinha uma explicação para o fato. Todos, sem pronunciar abertamente, diziam que não havia e nem haverá outra pessoa como ela.

Portanto foi mais que justificativo à pequena comemoração feita a ela nesse dia. Um dia que ficará marcado em sua vida, na nossa vida e, por que não na vida da firma.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.756(2021)

                

             O que poderia escrever a zero hora e quinze minutos da madrugada? Deixou que os dedos longos e grossos empunhando a esferográfica preta imprimisse palavras sorrateiras nada inteligentes sobre si mesmo, principalmente seus sentimentos. E onde estavam esses sentimentos? Escondidos no subsolo do inconsciente emoldurado por uma moldura branca da timidez. As palavras surgiam velozmente por sobre as linhas brancas do pequeno caderno de capa dura azul. Não era diário. Não era confidência e muito menos segredos. São apenas caracteres simbólicos em forma de palavras que não saem do mesmo lugar, ficam repetindo sempre as mesmas coisas, dando voltas em algo de difícil de compreender, até ele mesmo não compreendia. No entanto continuava escrevendo, procurava forma de se expressar sem complicações e não conseguia. O que precisaria para mudar? Ler? Olhou para a pilha de livros amontoados no chão da sala... já leu todos... tinha a pretensão de reler todos, era o que estava fazendo... reler as palavras já escritas para aprender a escrever as palavras que lhe faltam... bom, decidiu, melhor dormir... Melhor dormir, repetiu, apagou a luz da sala, da cozinha e se jogou na cama desejando que o sono o levasse logo. Merda!

            É isso... ou, não é?

sábado, 4 de dezembro de 2021

Pequenas histórias 346

 Querendo ou não

                       
Querendo ou não estava fadado há passar o dia como queriam que ele passasse e, não como ele queria passar. Portanto, fazer o que, deveria se render aos caprichos e aos gostos dos amigos.
O que o levava a perguntar: o que há de diferente ou de especial no dia do seu nascimento? Só porque está marcado na folhinha da vida o dia e o mês em que você veio ao mundo? Só porque por uma casualidade sexual, ou que seja uma casualidade, extremamente amorosa romântica ou pior ainda, por uma casualidade programada, premeditada, friamente contada nos dedos do calendário, que você veio ao mundo para a felicidade dos pais, avós, tios e em geral, esse dia tem que ser importante? Não acreditava nisso.

O importante, dizia, é abrir os olhos todos os dias e contemplar o quarto escuro, onde sua mão desesperada procura o maldito rádio relógio e interromper o seu horroroso bip bip;

Importante é sonolento chegar ao banheiro para aquela mijada gostosa que te acordou de madrugada;

Importante é tomar um café rápido, fechar a porta, subir correndo as escadas, e ficar vinte, vinte e cinco, trinta minutos a espera do ônibus;
Importante é deliciar-se com a plataforma do metrô apinhada de calor humano;

Importante é poder ver outros olhos, paquerar, sorrir levemente, apreciar curvas sinuosas te convidando a mudar os teus passos e se aventurar no escuro das probabilidades do prazer;

Importante é pisar a calçada do Conjunto Nacional, se deslumbrar com a extensa e bonita Paulista todos os dias;

Importante é o fenômeno da gravidez aonde os órgãos vão se acomodando, se espremendo para dar lugar ao um novo ser;
Importante é sentar em volta de uma mesa, numa cervejada regado a poesia cheia de conversas filosóficas e banais;

Importante é amar sempre, mesmo que não seja amado, amar a vida, a natureza, os seres humanos, o dia a dia, a luz, a música, a leitura, o cinema;

Importante é acabar com o preconceito, a deslealdade, a ladroeira, a individualidade, o egoísmo, a guerra, a morte, a fome;

Há tanta coisa mais importante, o sorriso, a amabilidade, o carinho, o amor, o brilho nos olhos da fome estendida pelos cantos da indiferença.
Mas, o mais importante de tudo é ter conhecido você. Você que num determinado ponto cruzou o meu e eu cruzei o seu. Que me permitiu conhecer você, suas ideias, seu pensamento, sua vida, assim como permiti que me conhecesse intimamente. Que posso contar com você para o que der e vier, pois você é mais importante que eu, sem você o mundo será de uma gravidade nula, flanarei por entre escombros como zumbi sem destino e sem beira, por isso, você é mais importante que tudo meu AMIGO.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Quando o silêncio

 

Quando o silêncio

Da tarde invade

O silêncio da alma

Ouço as vozes

Do passado

Concretizando-me

No presente

Onde viverei

A felicidade

Eternamente

Junto a você.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Se eu fosse verdadeiro

Se eu fosse verdadeiro

Amamentar-me-ia nos seios

Das prostitutas sinceras

 

Como não sou verdadeiro

Amamento-me nos seios

Das mães insinceras


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.755(2021)

                          

             Olhou as linhas em branco do pequeno caderno de capa dura azul. Com a esferográfica preta, sem critério literário escreveu palavras esparsas numa aleatória falta de intensidade que achou que deveria apagá-las. Era cedo, talvez seria sete horas ou sete e qualquer coisa, não seria motivo para desespero por não ter critério no que escrevia. O que eu deveria fazer era tomar café, disse melancólico, ou ainda desenhar um pouco. Nisso o alarme do celular virou lembrando-o do medicamento. Continuava na mesma posição a mais de trinta minutos indeciso. O som estridente avançou quebrando a sonoridade do silencio da manhã que prometia devaneios nada prestativos. Encheu o copo com água e sem se aperceber tomou o comprimido não prestando no que fazia, sem olhar os movimentos, pensando colocar o copo em cima da pia, soltou no ar indo se espatifar no chão da cozinha. Da boca de lábios nada sensuais, soltou uma exclamação de raiva quase gritado. Caralho, presta tenção no faz, e ao mesmo tempo sentiu uma vontade de chutar tudo mandando a merda, no entanto engolindo a raiva, pegou a vassoura e a pá, varreu cuidadosamente cada milímetro o chão, pois não queria que alguém viesse pisar em algum caco se machucando, apesar que raramente recebia visitas, então sou eu que posso pisar em algum caco e me machucar, pensou, intensificando a limpeza.

            É isso... ou, não?

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...