quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Não tenho segredos

 

Muito menos dúvidas

Tenho sonhos

Que me envolveram

Em sonhos não paridos

Em desamores enriquecidos

De saudades

 

Meu canto divide-se

Em surdas palavras

E a vida se arrasta no perigo

Que há em cada esquina

Em cada avenida

Onde o sinal fechado conduz

Ao mundo sem beijos

E sem abraços

 

A paixão é a vida desordenada

Onde cada ilusão

É uma perigosa aventura

 

A ferida aos poucos se abre

E meu coração se fecha

Vejo o vento agitando

Lembranças destruídas

 

A dor é o tempo

De maligna cicatriz

Macerando o rosto cansado

 

Não tenho ídolos

Morreram afogados

Em overdose esquecendo

Que o passado é um só

E não volta mais

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

nasci no vão inútil

 

de um dia qualquer

em meio de indecifráveis imagens

sem conhecer as árvores

sem conhecer as rãs

habitantes do mundo

sem conhecer as pedras

que no futuro tropeçaria

 

assim foi

sem semelhanças

nunca tive habilidades

sou apenas o que eu sou

um ser e nada mais

 

a sabedoria se tenho

consegui no pudico aroma

dos vegetais ao revelar

a mim mesmo o estigma

da sexualidade impressa

em cada célula da cidade.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

NEBULOSAS DE NETUNO

 Por Carlos Eduardo Savasini Ferreira

       Osvaldo Pastorelli

 

        A luz fria estampa na parede de tijolos cenas abstratas de um cotidiano barato. Passantes na rua, transeuntes e clientes. Caras e bocas na mesa buscam na luz morna da poesia a rima da vida em cada passo do verso. Falas, prosas poéticas e discursos, diálogos na mesa. Conversas. Rolam idéias, assuntos diversos para distrair as estrelas que sonham com as nebulosas de Netuno.

domingo, 28 de janeiro de 2024

No brilho natalino

 

Os olhos do menino

Sorri faminto

 

Seus olhos grudam

Nas vitrines enfeitadas

De brinquedos

E guloseimas

 

Sorri contente

Sabe que ganhará

O que pediu

Ao Papai Noel

 

Só não sabe

Coitado

Seu pai fez

Um crediário

De vida

E morte

sábado, 27 de janeiro de 2024

no gráfico da vida

 os riscos ora sobem

ora descem

no transcorrer

dos passos

às vezes eufóricos

às vezes mal sucedidos

 

uns choram

outros riem

alguns não sabem

o que fazer da vida

 

vivo no equilíbrio

alimentando-me

da saudade

que sinto por você

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

no jogo da vida

 as peças se movimentam

conforme as situações

que cada participante

acha necessário movimentar

 

no jogo da vida

anseia-se a vitória

desprezo à glória

vivo minha satisfatória

 

morro a cada dia

fazendo a minha história

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

no silêncio da vida

 a máquina de escrever

quebrava a monotonia

imprimindo no papel

sonoras palavras esquecidas

nas bibliotecas municipais

 

hoje no silêncio da vida

a máquina de escrever

deixou de imprimir

no papel a vida

para ser apenas

mais uma peça

de museu

e nada mais

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Numa tarde verdejante (com final diferente)


O boi cobriu a égua naquela tarde verdejante onde o vento ameno dobrava as folhas de capim docemente.

A égua não relinchou apavorada com a audácia do boi, não, e não deveria se apavorar, pois o cavalo poderia acabar com a festa.

Mesmo assim, com o silêncio contido nas entranhas da égua, o cavalo percebeu, melhor dizendo, viu o boi em cima de sua égua preferida e tomou uma decisão levando em conta que não lhe ficaria bem um par de chifres, afinal ele é um eqüino consciente de sua raça.

Portanto tomou uma decisão: enfrentaria o boi num duelo de chifres e coices até que o derrotado caísse morto no capim onde o vento dobrava suavemente as folhas.
Assim foi, tanto o cavalo como o boi se preparam para o sangrento duelo, tendo a vitima, a égua, como única assistente pouco se importando quem saísse vencedor.
Pois o que lhe importava era o que trazia dentro de si: o fruto do ato ilícito que deveria por todos os meios proteger e criar.

Sem se preocupar, encaminhou-se para o pasto com a intenção de se alimentar, pouco se lixando com a decepção dos lutadores que, se olharam desaprovando a atitude da égua.

E naquela tarde verdejante onde o vento ameno dobrava as folhas do capim docemente, o boi e o cavalo, ficou cada um a uma distância para um duelo de vida e morte.

O boi fungando escavava o solo com a pata dianteira esquerda.

O cavalo relinchando, sacudindo a crina, levantava as patas dianteiras e batendo no chão num barulho raivoso.

Nisso, os dois animais começaram a correr indo de encontro ao outro.

Quando já estavam quase para se encontrarem, num movimento rápido, o cavalo se jogou ao chão com as quatro patas esticadas acertando as pernas do boi.

Desprevenido, sem saber qual seria o movimento do cavalo, o boi não teve tempo de reação, sentiu os cascos baterem em suas pernas.

O boi foi de focinho enterrando os chifres no chão, seu corpo ficou na horizontal com as patas balançando.

Em seguida ouviu-se um estalo doloroso e o corpo do boi dobrou para a direita morto.

O cavalo garboso, levantou-se sacudindo o corpo, relinchou vitoriosamente, se aproximou da égua adultera e, a cobriu mostrando que quem mandava nela era ele.

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Nunca soube de você

 

Você nunca soube de mim

 

Não sei da dor

Nunca existiu

Não sei do amor

Nunca tive

 

Não te vejo mais

Como antigamente

 

Você desapareceu

Na espuma do esquecimento

Encontrei minha paz

 

Por isso digo:

Eu nunca fui de você

Você nunca foi de mim

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

O ano vem e vai


Nada muda

Tudo o mais continua

 

O sol abrasador

Os transeuntes estressados

A agonia tresloucada

A saudade levando-nos ao passado

O grito faminto dos pobres coitados

A fome corrupta dos políticos

O desamor na pele esturricada

 

O ano vem e vai

Nada muda

Tudo o mais continua

Sé eu permaneço

No mesmo lugar

Perdi-me quando

Você deixou

De me amar

domingo, 21 de janeiro de 2024

Na curva do rio (versão explicita)

Na tarde amena o vento leve trazia com ele o anoitecer. Com suaves movimentos amenizava os raios de sol que procurava furar a densa mata por entre folhas e galhos que ladeavam as margens do rio. Onde eles estavam, devido a curva do leito, a água era rasa formando uma pequena praia que o pessoal denominava de prainha. A mata desse lado direito não era muito densa como do outro lado, a margem esquerda. Deitados na areia os dois amigos saboreavam a quietude do momento levemente quebrada pelo deslizar da água. Nisso, Rildo levantou-se, despiu a bermuda e entrou na água incentivando o amigo a segui-lo. Odilon não se fez de rogado, despiu também a bermuda seguindo o amigo. 

Enquanto Odilon fazia exercício de rotina como ele dizia, Rildo, na parte onde a água batia nos joelhos, se espreguiçou deitando-se com a barriga para cima saboreando as pequenas ondas em sua pele branca de cidadão burguês. Gostava de olhar as folhas formando, juntamente com os galhos, as mais diversas formas abstratas que deixava-o cada vez mais encantado com a natureza. Pensou em compartilhar com o amigo, perguntar-lhe o que achava de tudo aquilo, no entanto desistiu, Odilon não possuía a sensibilidade poética para entender a poesia do momento. O amigo era mais pé no chão, não se interessava por nada a não ser o instante numa praticidade que as vezes irritava Rildo.

Nisso sentiu a cabeça de Odilon em seu peito. Sem fazer rodeios começou a beijar e chupar o mamilo direito, o que deixou Rildo excitado, saboreando os lábios do amigo em sua pele morena. Odilon por sua vez caprichou na massagem labial. E enquanto bebia o prazer do amigo, sua mão descia por seu peito, passando pelo umbigo até alcançar o pênis que já estava duro pronto para receber a massagem carinhosa de Odilon. Este, ao se cansar do mamilo, foi beijando, chupando, lambendo o peito, a barriga, parou um pouco no umbigo causando além do prazer um pouco de cocegas, até que abocanhou o pau rígido de Rildo engolindo-o todo. Gostava de ouvir os gemidos do amigo em resposta as suas caricias, por isso caprichou com a língua úmida subindo e descendo o belo mastro. Rildo com o corpo meio erguido, com os cotovelos apoiados na areia, via a bela cabelereira do amigo no vai e vem extasiante. Sorriu ao lembrar da primeira vez. Foi uns três ou quatro anos atrás, estavam com quinze ou dezesseis anos mais ou menos. Tinham ido passar as férias na fazenda dos avós de Odilon. Dormiam no mesmo quarto, quando numa noite fria Odilon perguntou se podiam dormir na mesma cama. Rildo concordou e assim o amigo pulou para a cama dele. E ali, juntinhos, aos poucos o tesão foi crescendo e quando se viram estavam se masturbando. Surpreso, apesar de Rildo a tempos desejar uma intimidade maior com o amigo, pediu que Odilon o chupasse, o que foi logo atendido. Quando Odilon pediu que fosse sua vez, Rildo hesitou, temeroso sem sabe porque, atendeu ao pedido do amigo. Assim, passaram a noite até que o sono os vencessem. De manhã ao acordarem repararam que a porta do quarto estava aberta. Desceram cautelosos esperando alguma bronca, sermão ou algo parecido. Mas como tudo transcorreu numa boa, sentiram-se aliviado. Ao estarem sozinhos tiveram uma conversa.

- Escuta, Rildo.

- O que é?

- Não sou gay.

- Também não sou, respondeu Odilon.

- Quero casar e ter filhos.

- Eu também.

E nessa de não ser gay, de querer casar, ter filhos, todas as vezes que estavam juntos transavam loucamente, como ali na curva do rio. Isso acontecia mais de cinco anos. Quando Rildo se virou ao pedido do amigo seu coração gelou.

- Odilon.

- O que?

- Olhe, disse Rildo apontando para a margem do rio.

Odilon na hora se levantou se afastando o mais longe possível até a água bater em seu peito. Extático, congelado ouvindo a palpitação aumentar, Rildo sentiu o gelo do medo invadir o seu ser. Na margem olhando para eles estava um homem e pelo que perceberam ele fazia tempo que estava ali em pé observando-os. Odilon se distanciara até a outra margem, pois na hora do perigo poderia fugir nadando. Já Rildo encontrava-se mais perto do perigo, pois além de não saber nadar estava petrificado. O homem em si não apresentava qualquer tipo de ameaça, o que deixava-os medrosos era o que ele tinha a mão. Numa das mãos estava um rifle e na outra parecia cabeças humanas que ele segurava pelos cabelos. Rildo tinha os olhos fixos no rosto do sujeito numa provocação audaciosa. O estranho lentamente depositou no chão da prainha o rifle e as cabeças e lentamente começou a se despir até ficar completamente nu. Não tinha a aparência de que fosse da cidade, parecia pessoa do campo para ter uma compleição física descomunal como ele tinha. E como lentamente se despiu, lentamente se dirigiu para dentro da água. Ajoelhado, fixo o olhar no membro rígido que se aproximava dele, deixou-se permitir sentir o cheiro de suor, desejo e vontade em abocanhar o sexo do cara. Assim que os lábios tocaram na pele do membro, Rildo ouviu gemidos de satisfação e, com isso o medo que o petrificava desaparecera. Seus movimentos se desobstruíram da paralisia que o tomara por uns instantes e, sem um pingo de vergonha, safado passando a movimentos lentos, subindo até a cabeça vermelha e descendo até o saco grande e peludo. Assim ficaram até que Rildo saboreou o liquido quente que o estranho jorrou em sua boca. Depois, num gesto ríspido o homem deu a entender para que ele ficasse de quatro. Prontamente Rildo atendeu ao pedido. Se preparou pois sabia que ali, naquele momento não existiria caricias românticas e, sim, brutalidade e foi o que aconteceu. Num movimento só o membro do cara foi enterrado em seu anus sem dó e piedade. Rildo soltou um grito profundo e ao mesmo tempo encheu-se de prazer, pois seu ser desejava uma transa dessa maneira. Sem deixar a peteca cair, o estranho entrava e saia de dentro de Rildo pouco se importando com o que ele estivesse sentindo. Ficaram nessa posição por um bom tempo. Da margem esquerda Odilon se masturbava com os olhos estarrecidos não acreditando no que via. De repente, o estranho deu um urro de satisfação empurrando Rildo que caiu de cara na água e ali ficou por momentos curtindo a porra que saia de dentro dele. Sua respiração ofegante oprimia seu corpo contra o chão do leito do rio. Aos poucos foi se acalmando. Se levantou. Ao se virar não viu mais o homem. Estava tudo no normal, quieto. Odilon continuava deitado na areia, estava ainda de bermuda, nem parecia que entrara na água, completamente seco. Rildo não entendia o que acontecera. Se aproximou de Odilon que olhando para cima lhe perguntou:

- O que foi? Está me molhando.

Rildo tentou lhe dizer o que acontecera, não conseguiu, tremia, sentiu os dentes baterem um no outro.

- Está com frio?

- Sim, estou.

- Então vamos embora.

- Vamos que está anoitecendo.

Depois de pegarem as coisas, antes de saírem da prainha, Rildo olhou para traz. Imaginou ter visto dois olhos entre as árvores. Girou o corpo e saiu apressado no encalço do amigo.

sábado, 20 de janeiro de 2024

O cais que nos separa

 O veleiro trafega nas ondas da tua mão cimentada no ensolarado asfalto refletindo na angustia a pobreza da alma encalacrada nos edifícios de silêncio febril.

O vento sopra os passos cristalinos numa proporção onde o sentimento se deixa levar no dia a dia imutável.
Rumo ao porto do teu coração e, solitário, depositarei as armas me entregando às prostitutas cristalizadas no asfalto do prazer pelo vil dinheiro.
Trago sem me embebedar totalmente pela marola envolvida em segredos que não devem ser revelados.
Náufrago de versos me aprofundo no tempo determinado prometendo não mais te procurar.
Rimas solfejam as velas ufanadas pelo vento salino sem saber que a vida nem sempre vai e nem sempre vem onde está o cais.
A solidão salgada pela onda que entra em minha pele me arremessa contra o cais determinando o grau da saudade.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

O coração bate

 

Arrasta o sentimento

No vazio como relógio

Desordenado sem ponteiro

 

Não sei

Nem quero saber

O imprevisível

Encanta o previsível

 

A solidão marca

Tua ausência reforçando

Os cantos da vida

 

Acendo as luzes

Espanto as sombras

 

A solidão é pontual

É minha eterna companheira

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

o dia nasce


nos olhos escuros

da noite

 

o sol ofusca

o brilho das estrelas

 

ao eliminar

a ressaca

 

na primeira

xícara de café

e no primeiro

cigarro onde

escondido

está o escarro

da humanidade

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

o mocinho alucinado

o mocinho alucinado

pela policia é perseguido

sobe e desce morro

desce e sobe escadas

nos intervalos da correria

beija a namorada

 

o vilão tenta roubar

a sua amada

mas atrapalhado

cai em desgraça

 

cena vista

ontem hoje e sempre

poética engraçada

maravilhosa

que gravada eternamente

ficam em nossa alma

de pobre cidadão

do mundo

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

O pássaro e a moça

 O pássaro cruzou a cidade e pousou no colo da moça que no parque lanchava.

 Quieta ela deixou que o pássaro desfrutasse das migalhas de pão caídas no seu colo.

 Assim foi por muitos e muitos dias.

 Mas um dia, de sol estupendo a moça surgiu no parque acompanhada por um rapaz.

 Sentaram no mesmo bando em que a moça sentava todos os dias para lanchar.

 E felizes, sorrindo saborearam o delicioso lanche que a moça trouxera.

 A partir daquele dia a moça e ninguém mais viram o pássaro cruzando o céu da cidade.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

O piano martela

 O piano martela palavras musicais que, junto com violoncelo sonoriza o sentimento que passeia no espaço tempo da umedecida calçada da Paulista, cujos estilhaços, em pequenas vibrações, foram deixadas por você em minha carne como nacos de saudades transformados em poesia.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Na curva do rio


Na tarde amena o vento leve trazia com ele o anoitecer. Com suaves movimentos amenizava os raios de sol que procurava furar a densa mata por entre folhas e galhos que ladeavam as margens do rio. Onde eles estavam, devido a curva do leito, a água era rasa formando uma pequena praia que o pessoal denominava de prainha. A mata desse lado direito não era muito densa como do outro lado, a margem esquerda. Deitados na areia os dois amigos saboreavam a quietude do momento levemente quebrada pelo deslizar da água. Nisso, Rildo levantou-se, despiu a bermuda e entrou na água incentivando o amigo a segui-lo. Odilon não se fez de rogado, despiu também a bermuda seguindo o amigo. 

Enquanto Odilon fazia exercício de rotina como ele dizia, Rildo, na parte onde a água batia nos joelhos, se espreguiçou deitando-se com a barriga para cima saboreando as pequenas ondas em sua pele branca de cidadão burguês. Gostava de olhar as folhas formando, juntamente com os galhos, as mais diversas formas abstratas que deixava-o cada vez mais encantado com a natureza. Pensou em compartilhar com o amigo, perguntar-lhe o que achava de tudo aquilo, no entanto desistiu, Odilon não possuía a sensibilidade poética para entender a poesia do momento. O amigo era mais pé no chão, não se interessava por nada a não ser o instante numa praticidade que as vezes irritava Rildo.

Nisso sentiu a cabeça de Odilon em seu peito. Uma coisa que ele, Rildo tinha de diferente do amigo era a timidez não sabia demonstrar os sentimentos. Odilon não se preocupava com nada, se tinha que fazer alguma coisa fazia sem timidez ou com timidez. Assim, ficaram os dois por um bom tempo.

Uma sonolência invadia os olhos de Rildo embaçando as figuras abstratas e, ao mesmo tempo parecia ver um homem na margem. Tentou falar com Odilon e não conseguiu pronunciar nenhuma palavra. Ergueu o corpo empurrando a cabeça do amigo. Desprevenido, Odilon se voltou na tentativa de revidar, mas ao ver o amigo estático, com os olhos vidrados na margem, recuou para a parte mais funda do rio. No semblante de Rildo, estava estampado o medo ao ver o homem olhando para eles. O que lhe dava medo não era a figura em si, homem forte, grande, ombros largos, fisionomia fechada, barbudo, olhos profundos, cabelos desgrenhados, mas o que ele trazia a mão, uma espingarda na esquerda e na direita várias cabeças que para Rildo deviam ser humanas. Sem conseguir tirar os olhos, viu o sujeito depositar no chão da prainha o rifle e as cabeças e lentamente começou a se despir até ficar completamente nu. Não tinha a aparência de que fosse da cidade, parecia pessoa do campo para ter uma compleição física descomunal como ele tinha. E como lentamente se despiu, lentamente se dirigiu para dentro da água. Rildo petrificado, não conseguia se mexer, sentiu-se perdido, era apenas um adolescente, magro e frágil. O desconhecido ao chegar bem perto dele, se ajoelhou, olhou bem fundo nos seus olhos e com as grossas mãos pegou o seu rosto, puxou para sim e beijou-o longamente. Rildo tremia e sem perceber retribui o beijo do desconhecido. De repente num safanão foi empurrado para traz. Perdeu o folego, puxou com força o ar que o sufocava a ponto de tossir violentamente. Quando a sufocação passou, jogando um pouco de água no rosto, notou que o desconhecido tinha desaparecido. Tudo voltou ao que era. Odilon continuava deitado na areia estava ainda de bermuda, nem parecia que entrara na água, completamente seco. Rildo não entendia o que acontecera.

- O que foi?

Perguntou Odilon olhando para ele.

- Está me molhando.

Rildo tentou lhe dizer o que acontecera, não conseguiu, tremia, sentiu os dentes baterem um no outro.

- Está com frio?

- Sim, estou.

- Então vamos embora.

- Vamos que está anoitecendo.

Depois de pegarem as coisas, antes de saírem da prainha, Rildo olhou para traz. Imaginou ter visto dois olhos entre as árvores. Girou o corpo e saiu apressado no encalço do amigo.

sábado, 13 de janeiro de 2024

O prato.

 

Ele achou desaforo. Por isso, a principio não ligou para o fato, no terceiro dia começou a se sentir desmoralizado. E por pirraça foi deixando o prato dentro da pia. Não iria lavar, já que ela não lavou, ele é que tinha que lavar? Só porque comera uma deliciosa macarronada que a filha fizera? Que nada! E assim, o prato sujo ficou quase duas semanas dentro da pia a espera que um dos dois o lavasse. No começo da terceira semana, numa atitude desprovida de um senso lógico, pegou o prato e fez em mil pedaços no muro do quintal. Depois sentou no sofá e, na calma do momento, assistiu “Uma rua chamada pecado.”

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

O que escrever

 nesse fim de tarde?

Folheio Marcelino Freire

Leio uma palavra ou outra

Pulando uma sentença aqui

Pulando outra ali

 

Os carros passam na velocidade das angústias

A voz soa no microfone alardeando quimeras

O vendo nas folhas das árvores na Benedito Calixto

Invade o cemitério vazio de saudade que não sentimos

.

Que droga!

 

Se ao menos acontecesse um acidente

Se ao menos alguém fosse atropelado

Se ao menos desgovernado o ônibus

Batesse na biblioteca e balançasse

As estruturas do Alceu

Quem sabe consegueria  

Escrever alguma coisa

E não essa porcaria.

 

E! Quem sabe!

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

O raio de luz

incide no vidro da janela em prisma único e sólido

Ilumina o que sou no devaneio poético de ser tão somente

Um ser apenas e nada mais

 

A luz espanta as sombras solidificando a forma

Materializa o drama que se desenrola

No pano de prato

 

Tudo é um drama que termina em cada ato

 

Não quero aplausos

Quero um sorriso

E um abraço

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O sax

 

Acompanhado

Do piano

Conduz

Minha língua

A sentir teu corpo

Embalado

Por uísque

E guaraná

 

Lá fora

A vida continua

 

Aqui dentro

Nossa vida

É embalada

Por sexo droga jaz

E muita putaria

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

o secador

 

seca folhas úmidas

pelo tempo

cuja existência

de cada ser

é a busca

da felicidade

de sempre ter

a existência

seca de viver

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

o sol brilha nos prédios

 

a solidão das faces esquecidas

a televisão regurgita fúteis imagens

cuja realidade falsa trespassa

a real verdade

de cada morto-vivo

 

a noite alcoolicamente assassina

a esperança nas manhãs frias

de primavera

domingo, 7 de janeiro de 2024

O sol escorre

  pelas paredes da memória, revelando a concretude do vazio ao lembrar da primavera que já não existe mais.

 

Buzinam carros saudações espantando das árvores secas os pássaros em cantoria, enquanto na praça, as crianças silenciam matando a alegria.

 

Sirenes despedaçam a fome de viver, onde o medo é sustentado pelo conta gotas do soro injetado na veia.

 

Transcorre a vida pacificamente nos campos e prados de asfalto onde o carvalho petrificado serve de sombra aos desvalidos.

sábado, 6 de janeiro de 2024

O sol trespassa

 

O sol trespassa o vidro da janela e alcança o pano ao sentir a umidade que aos poucos vai deixando de existir.
O pano úmido recebe pacificamente os raios do sol como se fosse à derradeira vontade natural das coisas.
O pano sabe que em suas fibras sintéticas ou de lã, que foi deixado ali jogado recebendo os raios de sol, por puro desleixo ou por ser ele apenas um trapo servirá apenas para coisas insignificantes.
Seu momento de apogeu, de glória em que todos o admiravam acabou, tornou-se uma pequena mancha impressa no passado de quem o usou.
Não reclama se resolvesse todos os panos ainda estariam perambulando a encher o mundo de vários padrões, alguns ultrapassados, outros ignorados, por isso não reclama, reconhece sua vez já era.
Assim sente nas fibras uma por uma se enfraquecendo, se deteriorando, perdendo a solidez que havia em suas cores pulsantes.
As cores tornaram-se opacas, perderam o viço dos olhares encantados com a pureza elegante quimicamente projetado para embelezar quem dele usasse.
Sentindo que vai ser removido de lugar, as fibras se encolhem assustadas esperam o que irá lhes acontecer.
O pano consciente não se apavora, passa tranqüilidade para as fibras que se acalmam e se recolhem no aconchego de suas forças.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

O som da guitarra

 enche o ambiente

O sapateado da espanhola esbanja sensualidade

Cigarros esfumaçam odores alcoólicos sexuais

Vozes vibram suores afugentando a realidade

Olhares se cruzam

Um grito risca o ar

No brilho do punhal

Tomba um corpo de morte

Meus olhos se fecham

Não ouço mais a guitarra

A espanhola não dança mais

Ajoelhada chora

A morte do amante fatal

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

o som do piano

 

 leva-me ao pico

da montanha onde no lento

alçar da mão do pianista

interrompendo a música

regresso à realidade

da avenida Paulista

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O som do sax se espalha

 


Seu acorde lamentoso

Canta a vida escondida

Em cada alma revelando

A vida partida e enegrecida

 

O piano acompanha o lamento

Reparte a glória entre as ruas

Onde transeuntes se perdem

E se encontram no inusitado

De serem humanos inúteis

E nada mais

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

o som transcende


a própria cidade

em seus cantos

pontos e recantos

 

sonoriza os passos

que há em cada pedra

da praça

da rua

da avenida

em cada folha

em cada árvore

em cada tronco

que há em cada

esquina esburacada

 

busca no ser

o infinito

que se deposita

na luminosidade

da alma

revelando a tristeza

na alegre saudade

do que não será mais

impregnado de olhar

que há em cada janela

que se abre

recebendo a vida

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

O tigre saltou

  no abstrato tempo e com seu rugido rasgou a espaço cristalino.

 

Belo e temível felino, pelo homem foi aprisionado tornando-se figurativa estampa em zoológicos e camisetas masculina e feminina.

 

O tigre no abstrato tempo ficou na memória da mãe natureza a lembrar a ferocidade do homem.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...