terça-feira, 31 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.788(2022)

            

         Não aprendi a esquecer. Preciso esquecer para achar o que busco. Como? O que eu busco? A paz? Você? O amor? Preciso esquecer de mim. Preciso esquecer o que fui e o que sou. Principalmente o que eu fiz e o que não fiz. E talvez, o mais significativo, esquecer o passado, o presente e o futuro. O passado porque fui, o presente porque sou e o futuro porque serei. Não me ensinaram a esquecer. Esquecer e não sentir é como não viver e, nesse viver sem sentir me alimento do teu silencio na esperança de eliminar o vazio. Dessa maneira poderei buscar a paz. Buscando você esquecendo o que fomos uma para o outro não acharei a paz. É preciso esquecer o dia, a hora, o momento em que nos conhecemos, os beijos, os amores em hotéis baratos, as palavras ditas e não proferidas em sussurros tímidos e envergonhados. A história, a nossa história permanecerá no mundo akásico para o todo o sempre. 

         É isso... ou, não é?

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Conselheira


 

Três poetas e um aprendiz.

Sexta feira mais um dia

Outro dia tão somente dia
Ou deverei dizer como os ineptos
“Quem bom, chegou sexta feira.”
E passar dois dias torturantes
Pensando na segunda feira
Não sei, nem quero saber
O que os ineptos pensam
Sei que hoje é sexta feira
Dia tão somente dia
Como outro dia qualquer

Sexta feira manhã de sol tranquilo
Azul no firmamento dos deuses
Peregrinando ofertas de esperanças
Ao choro faminto dos pecadores

Caminho de pedras sujas de gosma
Cujas calçadas limpas guardam
Frios pés sorrateiros
Cidade que chora ídolos envenenados
De histórias fecundas de arte pela arte

Aníbal Beça pegou as asas do vento
E se alçou ao panteão do folclore amazônico
Iosif Landau embarcou no trem azul acreditando
E amando os trilhos urbanos da vida
Rodrigo de Souza Leão se embrenhou nas insanas
Palavras vivendo cada uma delas intensamente

E você, poeta não sabe escrever?
É você poeta que procura palavras
Regurgitadas no assombro de possuí-las
No emaranhado da vida
Você poeta, ainda viverá por muitos
E muitos anos que assim seja
E sabe por que, poeta?
Por que você não tem na carne
A sensibilidade poética de viver
Loucamente a própria vida.
Amém.

domingo, 29 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.787(2022)

    

        

         Tenho-me esquecido de você. Procuro as palavras para não me lembrar de você. Traiçoeiras no querer esquecer lembro-me cada vez mais. Não sou o perfeito semeador de coisa nenhuma, no entanto, semeio a dúvida, a angústia, a ansiedade colhendo teu silencio em mim como sermão cheio de retorica. Leio livros para enriquecer-me de novas palavras para que me lembrem o que eu quero esquecer. Ouço música vinte e quatro horas para que me levem ao que eu quero e não tenho. Caminho longa estrada sem sair do lugar na esperança de me encontrar onde deveria estar e não estou. Na quietude entre quatro paredes sou reconfortado de sonhos cheios de esperança. Ainda não me entreguei a derrota.

         É isso... ou, não é?

sábado, 28 de maio de 2022

Pensamentos.


O sol brilha na memória
Refletido no espelho
Toda a paixão ilusória

Meu coração se fecha
Não ouve a chuva
Naufragam barco de ilusão

Filhos da fome
Enxertos de cidadãos
Que repousam na terra
Tudo que encobre

Dois olhos escondem-se nos escombros da face
Sorrisos evaporam-se nas circunstâncias da vida

Criança não escolhe viver
Vivem escondidas na alegria
Pobre de serem ricas na tristeza

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.786(2022)

                 

         O frio me queima ao ter a vida que desejo. Percorro milimétricamente a gananciosa sensação a procura do prazer e, no entanto, nada poderá me satisfazer, nem você. Os sonhos se dispersam na areia açoitada pelo vento da desilusão, mesmo assim, 

deito-me na praia a espera de você que sei não virá. Ouço o grito das ondas lambendo meu corpo nu sem que me sinta satisfeito. Aos poucos me acalmo e, confiante, me entrego a luta sem saber se a vencerei. E todos os dias, meu peito se inflama de gratidão por você, por mim e por todos que cruzaram e cruzarão meu caminho. Não estou só.

         É isso... ou, não é?

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Corrente.

                  

Os acontecimentos se sucedem sem que tenhamos dele previsão. Surgem repentinamente e, assim como surgem desaparecem na momentaneidade do tempo.

A noite estava tranquila. A temperatura nem quente e nem fria, no meio termo, deixava mais a vontade o pessoal que lotava o Clube Caiuby. O Sopa de Letrinhas, mais uma vez dava inicio com uma banda, precisamente, um trio, três rapazes competentes, com letras humorísticas, esquentava o pessoal dando o seu recado.

Sentado a mesa, no canto apertado, pois como sendo o último Sopa naquele endereço, a partir do mês seguinte estará em outro local, além do que, era aniversário de quatro anos do grupo Rascunhos Poéticos, o Caiuby estava lotado. À mesa estava uns dez componentes do Rascunhos, quando ouviu seu nome sendo pronunciado num tom baixo que depois ficou se perguntando como conseguira ouvir. Num movimento instintivo ergueu a cabeça num ângulo torcido para a esquerda e reparou no rapaz que o chamava. Não reconheceu, e achou meio que impertinente, pois o rapaz insistia que fosse até ele que, em pé, o esperava para cumprimentá-lo.
Sem saber se o rapaz notara ou não, fez um gesto, sem ser maldoso e muito menos impertinente, de que ele, o rapaz, estava exigindo demais. Mesmo assim, com dificuldade, passando entre as cadeiras quase juntas umas a outras, se deslocou até onde ele estava.
 Não o cumprimentou esfuziantemente, pois seu cérebro computava o subconsciente com o consciente, tentando lembrar quem era e onde o tinha visto.

O rapaz magro, talvez, no peso normal, médio de altura, com um bigode fino e uma barbicha que descia de um lado para o outro do cavanhaque, com um olhar firme de quem sabe o quer, decidido, percebeu que não sairia dali até que ele fosse cumprimentá-lo.
O que o deixou mais intrigado, não foi o fato de se locomover para cumprimentá-lo, mas pelo fato de não estar reconhecendo-o. Depois saber quem ele era e não ter lhe dado à atenção merecida, e, pela a insistência em que ele deu à Escrita, reforçando a ausência dele, uma das primeiras listas em que ele se inscreveu, e,  que não podia desprezar também, o fato de ter recebido, um pouco antes do termino do expediente, um daqueles e-mails tipo corrente.
Procurando-o no meio do pessoal, verificou que, assim como ele surgira, ele sumira, e, foi então que lhe veio à mente o e-mail. Era uma mensagem dessas que procura elevar o ego da pessoa, e no final, dizia para enviar as sete pessoas que no horário tal e tal algo de extraordinário lhe acontecerá. Como não dava pelota para essas drogas de correntes e, sem atinar o porquê, resolveu repassar para sete pessoas, talvez mais até. Claro que por momentos, relembrou de mil fatores que se encaixasse dentro do que propunha a corrente. Logo depois a esqueceu.

Só foi atinar com tudo isso, depois que o rapaz o cumprimentara e, depois, claro um bom tempo depois, reconheceu quem era o rapaz. O restante da noite, apesar de ter sido maravilhosa, se amaldiçoava, não pelo o ocorrido, mas para o fato de não ter dado a atenção devida ao rapaz.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.785(2022)

         

         Não tenho perdido a fé. Apenas me distancio daquilo que a fé me proporciona. Não me recrimino, muito menos argumento e, menos ainda, sinto vergonha do que sentia. Apenas abri o peito deixando a chama do silencioso amor inundar-me de saudade. Mesmo assim, uma vertigem desproporcional abalou meu físico, no momento, meio fraco, obrigando-me a te sentir e me sentir no mundo. Um alívio me inundou numa fragrância suave de compreensão elevando minha autoestima e confiança dando-me conforto. Passo as mãos pelos cabelos, calmo sem preocupação envolvendo-me na paz do corpo obrigando-me a dormir. E foi o que fiz.

         É isso... ou, não é?

terça-feira, 24 de maio de 2022

L F I


Olhou para o longo texto pela segunda vez, enquanto o sol iluminava o semblante das letras unindo-as numa só claridade. E pela segunda vez, desligando-se da continuidade do pensamento, tomou chocolate quente.

Nada. Nada lhe aconteceu ao sorver o longo e gostoso chocolate quente. O que lhe poderia acontecer? Nada, não é, a não ser as possibilidades de rotina, as possibilidades que ele tinha para reverter todo o processo desligando-se do dia-a-dia maçante.
Oito horas de ofuscante sol.

Oito horas de Liberdade presa a obrigações depressivas.

Oito horas de Fraternidade aparente acumulada nas paredes da carne individualista.

Oito horas de Igualdade sob o peso da coleira da necessidade.
Assim, pisando e sendo pisado navegamos no navio da instabilidade segurando em qualquer apoio no caso de naufrágio.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.784(2022)

                       

         Eu sei que se estou aqui é por um motivo, o qual não sei. A rotina me faz seguir minha vida as vezes monótona, chata, terrível como é o silencio, mas, no entanto, tenho a presunção de que é necessário tanto a rotina como o silencio que as vezes não quero, principalmente o silencio de você. Olho o vazio da parede branca a minha frente e pergunto-me:

         “O que é isso?”

         Claro não tenho resposta, mas sei que se eu jogar a pergunta no Universo, não só saberei o significado como terei a resposta, porém, para isso acontecer é preciso de fé, acreditar, o que me leva a uma outra pergunta:

         “Tenho fé?”

         É isso... ou, não é?

domingo, 22 de maio de 2022

Então foi isso.


Isso foi o que então no momento não pude entender.

Foi isso sem tirar e nem por, porque as coisas são porque devem ser ou porque fazemos para que elas sejam como queremos que seja?
Isso então vai contradizer o que eu disse ou, o que venho dizendo.
Então não sei como entender os mistérios, procuro entender, juro que procuro, mas as coisas nem sempre se acomodam no formato que eu pensei, entende?

Foi assim desde meu vagido para o mundo quando o sádico do medico aplicou vigorosas palmadas na minha bunda.

Isso fez com que eu chorasse, sem saber que aquele choro estava embutido dentro das dores sentidas no futuro.

Então aos tropeços venho no caminho incerto de ser eu próprio a percorrer caminhos tortuosos e inseguros.

Foi o que a gárgula de merda, imitando a Pitonisa dos pobres, a base de pagamento, profetizou meu destino de águas turvas e céu cinzento.
Isso é o que eu vejo todas as vezes que meus olhos percorrem o descampado de concreto e aço onde no inverno repousa minha carcaça.
Então o caminho se torna escuro, dentro da sombria solidão, onde o som dos pássaros se faz ouvir anunciando a morte da vida.

Então foi isso que eu escutei ao escalar o muro dos sentimentos perdidos.
Então foi isso, apenas isso: trapaça o que eu sou, trapaça de mim mesmo.
Foi isso então que eu compreendi.

sábado, 21 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.783(2022)

             O silencio...

          O silencio é necessário dizem alguns. Sim, concordo, necessário e ao mesmo tempo horrível, principalmente o teu silencio. O vazio do teu silencio me angustia, é um silencio de estar aqui ouvindo o teu silencio que me obriga a não estar aqui. Ele me ordena a não ter chance nenhuma. Ouso ocupar o espaço desse silencio sentindo-me cada vez mais longe. E esse ir devagar manhoso me cansa, me eleva ao sentimento do silencio. Pulsa no reflexo escuro onde o milésimo de segundo me capta na luz de me sentir prisioneiro do teu silencio. Preciso me libertar, vivenciar outros silêncios para me enamorar pela vida. Odeio o teu silencio...

         É isso... ou, não é?

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Sou o teu sorriso...


Sou o teu sorriso dolorido pousado na ausência da tua pele estendida ao sol da cidade.

Sou o teu sorriso calcinado de zinco e aço percorrendo escombros de alma saudosa.

Sou o teu sorriso virulento de sanguíneo pus que em forma de garoa molha sapatos ocos.

Sou o teu sorriso empobrecido que nos lábios busca a doce fragrância sexual da língua safada.
Sou o teu sorriso estampado na estrutura da carne alcoolizada de paixão não sentida.

Sou o teu sorriso das canções em karaokês pulsando a opacidade das letras melancólicas.

Sou o teu sorriso do violão acompanhando acordes dispersos que o ouvido capta.

Sou o teu sorriso de criança que a tudo embeleza e a tudo engrandece em mimosidades e presentes.
Sou o teu sorriso da bola que rola em gramado impulsionado por gritos e exclamações de filho da

puta.
Sou o teu sorriso da palavra que cala em alfinetadas de sons sangrando pruridos desejos não saciados.
Sou o teu sorriso do sorriso que teus lábios transferiam para os meus lábios tudo o que me pertencia.
Só não sou o teu sorriso da morte, essa minha eterna companheira, pois ainda tenho muito que viver.

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Diário da terça-feira 1.


Torrencialmente chove. Chove cântaros de água. Transborda os bueiros alagando ruas, levando de roldão as impurezas deixadas nas calçadas, nos meio fios da rua... Chove o que não choveu ontem e nem sábado e, o que é pior, ainda nem é verão, imagine quando for. Aí então, o mundo desabara nas águas impuras das lágrimas da mãe natureza.

Ao sair de casa o sol despontava ao longe avermelhando o céu num esplendor de beleza propicia. Ao pisar a grande e bela Avenida Paulista, o céu demonstrou sua fúria numa cor cinzenta, nublada, nada aprazível a quem estivesse sem guarda-chuva. Lá pelas, talvez nove horas, a manhã virou noite umas duas vezes, e na terceira, desabou um pé de água com raios e trovões numa catastrófica aparência de final de mundo. Apesar que não sei como é o final de mundo, talvez seja dessa maneira, se é que há final de mundo. Creio que tudo seja da forma que cada um deseja que seja.

E escuro o céu permaneceu desabando água sem piedade. Na hora do almoço, claro que houve alvoroço, exclamações, duvidas, mas todos saíram, quem iria perder o almoço. Creio que ninguém. Uns enfrentaram a chuva percorrendo distâncias mais ou menos longa, outros, no primeiro boteco entraram para não se molharem.
No momento, há uma pequena trégua. Não chove, ou melhor, dizendo, chove, mas, não intensamente, chove uma chuva pequena, uma chuva de molhar trouxa, não está nem claro e nem escuro, está num meio termo e, creio que até às cinco horas da tarde, o dia permanecerá assim.

Fiquemos no aguardo de que não chova ao termino do expediente.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Diário da quinta-feira.


Acordou às três horas da madrugada. Excitado falicamente, despejou todo o desejo na porcelana branca do vaso sanitário. Olhou-se no espelho pequeno onde todos os dias fazia a barba. Não se reconhecia mais. Notava nuanças pútridas que só podia designar como presença do Cão, do Sete Peles exigindo sua contribuição. Esgotado, sabia não estar mais contribuindo para o Dito Cujo viver suas artimanhas comandando-o desbragadamente. Ele se drogava tudo bem, mas não era o suficiente, pelos menos é o que lhe parecia. Afinal, o Destemido exigia cada vez mais sua participação, sugava dele o que ele às vezes não tinha. Esfolado, percorria a via cruzes da carne dilacerada de fome e frio.
Eram exatamente três horas. Lenda ou fábula que pouco lhe importava, o que também, pouco procurou tomar conhecimento, se entregava numa volúpia absurda expurgando o ódio em ser obrigado a obedecer.  Dane-se o mundo, não sou Raimundo, disse sem saber ao certo se acreditava ou não em toda essa baboseira.
Olhou-se novamente no espelho. Perguntou:

- O que faço da minha vida?

Naquele momento nada, apenas reviu-se andando rente a parede sujas dos prédios cinzentos, onde grupos de pessoas se entregavam sexualmente aos prazeres num aglomerado de turminhas escolares e trabalhadores, num divertimento que sonoro assanhava a excitação. Foi então que percebeu o que restou dele, foi apenas um pobre coitado deitado no solo podre da humanidade que o pisava sem constrangimento e piedade.

Pastorelli / Jean Marcelo Alzair

terça-feira, 17 de maio de 2022

Diário da sexta-feira.

Diário da sexta-feira.


Estava com a carta na mão. Revirava por que revirava na intenção de se livrar da angústia e abrir para saber o resultado. Os exames tinham sidos cansativos, humilhantes e desgastantes, julgava que não conseguiria passar por outros novamente. Do peito expulsou um longo suspiro. Bom, precisava saber, não podia guardar mais essa angustia dolorida. Abriu e leu:
“Diagnóstico: paranóico depressivo, com um alto grau de sexualidade perigosa, revelando perniciosamente uma maldade conectiva com seus atos que se confunde com bondade.”

Já esperava. Todos, bem quase todos diziam mais ou menos isso. Portanto, chegou-se a janela aberta, desabotoou a camisa, expôs o peito sem atrativos ao vento frio da manhã. Ficou em pé no parapeito da sacada e abriu os braços.

Nisso num gesto impensado, próprio de quem não sabe o que fazer, melhor dizendo, próprio de quem não sabe o que faz, arrancou uma rosa e ofereceu à morte, essa companheira desde os tempos de feto, ou talvez desde os tempos em que ainda nem embrião era.

A morte sorriu, agradeceu e deixou que ele vivesse por mais trinta anos e, quem sabe, depois dos trinta anos ela receberia outra rosa...!

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Diário da segunda-feira ou O artista sem sapato.


O sapato o incomodava. A meia a todo o momento amontoava no tornozelo. Entrava formando um caroço debaixo do pé. Num repente, retirou o sapato, a meia, amarrou os cadarços de um pé no outro e jogou no ombro. Pouco lixando com a situação.
Foi uma sensação agradável sentir o chão do metrô na pele do pé. Aquela frieza foi reconfortante. Não era uma grama molhada, não era uma estrada de terra, não era sua infância que retornava, não era nada disso. Sabia dos riscos que poderia expor com tal atitude, mas que estava gostoso estava. Os dedos livres do aperto revigoravam suas passadas.

- Estação Consolação, anunciou o alto falante.

Logo em seguida as portas se abriram e ele saiu pisando o frio das lajotas da plataforma. Libertos os dedos se expandiram preguiçosos recolhendo na pele a vontade de fazerem o que bem entendesse.
- Ei, senhor. Senhor!

Ouviu gritarem. Virando a cabeça perguntou admirado:

- É comigo?

- Sim, é com o senhor, disse o segurança se aproximando dele.

- Pois não!

- O senhor não pode andar dessa maneira.

- Que maneira?

- Descalço.

- Ah! Descalço. Que susto, pensei que estava torto, desengonçado, ou que estivesse infringindo a lei.

- Se está infringindo a lei não sei.

- Então está tudo bem?

- Não, não está tudo bem. O senhor está descalço, e pessoa descalça não pode transitar pelo metrô.

- Espera aí. Quem lhe disse isso?

- Bem, devo manter a ordem nas plataformas, qualquer irregularidade devo interceptar.

- E andar descalço no metrô é uma irregularidade.

- É e o senhor está conturbando a ordem.

Começava a se aglomerar curiosos em volta deles.

- Não posso evitar a curiosidade das pessoas

 - E muito menos atiçar a curiosidade delas. Isso para mim é conturbar a ordem social e política.

- Está bem, pode ficar sossegado, já estou saindo.

- Acho bom e não demore.

Reparou que as pessoas se distanciavam dele, como se fosse um propagador de algo negativo.

Precisava de dinheiro, por isso entrou no banco. Para sua surpresa foi barrado pelos guardas.

- Não pode entrar senhor.

- Por que não posso entrar.

- O senhor está infringindo a ordem.

- Como assim?

- O senhor está descalço.

- O que? Por isso não me deixam entrar no banco?

- Sim, isso mesmo.

- Bom, se eu estivesse sem camisa até compreenderia.

- Mas é como se estivesse.

- Escuta...

- Não tem escuta e nem escuta. Se o senhor insistir vou ser obrigado atuá-lo como arruaceiro perturbador da ordem social e bancaria.
- Eita, quer dizer que sou perigoso.

- Ainda não é, mas se insistir...

- Tá legal, as uvas estão verdes mesmo.

- O que o senhor disse?

- Nada não foi um chiste.

- Chiste! O que é isso? Tá gozando com a minha cara é?

- Não nada disso.

- Acho bom mesmo.

Guardando a raiva nas pastilhas da calçada do Conjunto Nacional, atravessou a Paulista e entrou no prédio. Nem bem tinha se aproximado das catracas, foi barrado pelo segurança.
- Um momento senhor.

- O que foi? Berrou já sabendo o que lhe aconteceria.

- O senhor não pode...

-... Entrar porque estou descalço. É isso?

- É isso mesmo, como adivinhou?

- Escuta, tomei a liberdade...

- Não tem escuta aqui e nem escuta ali.

- Esperei aí. Não estamos numa democracia?

- Estamos.

- Então, numa democracia posso fazer o que bem entender, ou não.
- Sim e não. Bem que eu ache que é mais não do que sim.

- Portanto, posso entrar então?

- Claro que não! Está querendo me enganar com esse papo furado, é?
- Não, nada disso.

- Ou calce o sapato ou meia volta volver.

- O que você pensa que é?

- Está me chamando de subversivo?

- E você?

- Sou apenas cumpridor da ordem.

- Mas...

- Escuta não tem mais e nem menos, não pode entrar e acabou você está perturbando a liberdade alheia.

- Olha aqui, preciso entrar, preciso trabalhar...

- Mas acontece que não vai bagunceiro.

- Eu bagunceiro? E esse mendigo descalço que ai está deitado na porta do prédio? Ele é bagunceiro? E aquele cara com o megafone incitando o povo a greve, é bagunceiro? E o político que te rouba descaradamente, é bagunceiro?

- Que político? Se for o Maluf ele rouba, mas faz.

Numa fúria descontrolada, enquanto praguejava, jogou a mochila no chão, tirou a camisa, a calça, à cueca ficou nu.

- Pronto, agora sou bagunceiro, sou subversivo, comunista, o que você quiser.

Preso, foi levado ao hospício, onde permaneceu o resto da vida, vivendo da maneira que quisesse. Seus quadros ganharam fama, seus textos foram publicados na Internet em vários blogs, sites. Estudiosos vieram estudar seu comportamento e suas ideias. E, assim, confinado ficou conhecido como o Artista sem sapato.

domingo, 15 de maio de 2022

Diário da quarta-feira.

Prostituta.


Rita olhava para Ricardo que, em pé no meio do quarto se vestia num ritual meio que complicado. Com as costas apoiada na guarda da cama, nua, mascando chiclete, a morena sorria um sorriso enigmático que ora parecia despudorado, e ora ausente de nenhum pudor. Ricardo não deixou de notar o sorriso da prostitua, por isso perguntou:
- Qual o motivo do teu sorriso?

- Nada não, estava aqui pensando apenas.

E prostituta pensa, disse mentalmente e, em voz alta.

- E posso saber no que? Espero que não esteja analisando meu desempenho.
- Não nada disso, aliás, você superou as minhas expectativas positivamente.
- Ainda bem.

- Você não é capaz de adivinhar no que estou pensando.

- Se eu fosse adivinho uma coisa lhe digo: era bem provável que não estivesse aqui.

- Será? Vocês homens mentem mais que mulher.

- Não vamos discutir isso. Diga-me no que está pensando.

- Em cotas.

- Cotas? Como assim?

- Já imaginou se nós prostitutas tivéssemos que atender no regime de cotas?

- E o que você entende de cotas.

- Tenho certa formação se você quer saber. Leio bastante Contigo, Capricho, Caras, vejo televisão, novela, Jornal Nacional, o Ratinho, Datena, Gugu, Raul Gil, Ana Maria Braga, e, portanto sei o que falo.
 - É mesmo! Explique-me então como é esse negócio de cotas.

- Ué, simples. Não tem cotas para tudo, quer dizer, para tudo não, cotas para negros. Na faculdade, no emprego, no restaurante, e não sei mais o que?

- Sim.

- Então, pensou. Sou negra, então vamos dizer que eu atenderia só negro, portanto devo ter uma cota para brancos, como você branguelo.
- Interessante.

- Não que eu seja preconceituosa, nada disso. Apesar de que sei que algumas das minhas companheiras atende só um determinado freguês. Se ela é negra e se for possível só aceitará negro, entende. E tem umas branquelas se pudesse atenderia só brancos.

- Sei. E você?

- O que tenho eu?

- Você atende só negro ou só branco?

- O que você acha? Apesar de que vou lhe dizer, tem negro pior que branco, nem imagina. Então, o que me diz disso tudo?
- O que dizer? Ora, acho que você está me aceitando para complementar tua cota.

- Poderia dizer que sim. Mas olhe, não sou assim não.

- Entendo. Pelo que sei vocês, desculpe, sem ofender, prostituas não são empresas e muito menos faculdade.

- Tudo bem, não somos empresas e nem faculdade, mas vamos dizer que houvesse algo semelhante.

- De onde você tirou essa ideia absurda?

- Ah! Minha irmã outro dia estava falando sobre isso lá em casa.
- E?

- Ela trabalha numa firma conceituada, famosa, é uma das primeiras no Brasil.

- Sim?

- Então, ela comentava que, há tempos atrás era difícil ver um negro, funcionário negro na firma e, que hoje, tem bastante. Só na seção dela tem uns seis.

- E o que levou você a pensar em cotas.

- Ela desconfia que eles, os manda chuva, estão cumprindo esse negocio de cotas, isto é, mesmo que o cara seja ou não habilitado para a função em que foi contratado, ele está lá só pra cumprir essa lei de cotas. Entende?

- Bom tudo é possível. Deve lembrar se é que você consiga lembrar-se de alguma coisa...

- O que você está pensando que eu seja? Uma débil mental é?

- Não, nada disso, esquece. É que eu acho esse negócio de cotas delicado para ser discutindo num quarto de hotel, não acha?

- Você que acha.

- Não sei se vai me entender. As cotas foram criadas para pagar as maldades feitas no passado pelos brancos. Que a meu ver, não deveria ser para isso. Se meus antepassados praticaram crimes não serei eu que vou pagar por eles, entende? Aquela época foi uma situação política social daquela época, hoje a situação é completamente diferente. E além do mais, isso só faz com que o preconceito aumente mais ainda, principalmente dos negros contra os brancos.  

- Talvez.

- Mais uma coisa. A meu ver, os negros ou qualquer outro segmento que seja não deve se impor se imponha sim, mas não explicitamente a ponto de incomodar, claro, devem incomodar, mas não dessa maneira, há outras maneiras. Entende?

- Mais ou menos.

- Aqui está o teu pagamento. Preciso ir. Até mais, beleza, nos veremos outro dia.

- Até mais.

Rita entrou no banheiro batendo a porta enquanto o letreiro lentamente surgiu até ficar legível: THE END ou FINI ou ainda FIM.

sábado, 14 de maio de 2022

Diário da sexta-feira.


Enfiou a mão no bolso interno do paletó. Onde estava o bilhete único. Colocara aqui, tinha certeza. Ah! Aqui está. Depois abriu a mochila, puxando o zíper da direita para a esquerda. Tirou a carteira de couro marrom, presa com um elástico. Puxou o bilhete único do bolso, tirou o elástico e abriu a carteira. Numa das divisões enfiou o bilhete ali. Em seguida, tornou a tirar do bolso interno do paletó outro bilhete. Esse era reserva, disse para si mesmo mentalmente. Também enfiou entre as divisões da carteira. Logo depois foi a vez do RG, a carteira de identidade. Cauteloso abriu novamente a carteira, o que fez com ela voltada contra o corpo, numa tentativa de esconder o seu interior de olhares alheios. Colocou o documento junto com as poucas notas. Andava sempre com valor pequeno, tinha medo de andar com muito dinheiro, é preciso ser cuidadoso. Feito todos esses movimentos premeditados, passou o elástico na carteira e guardou na mochila fechando o zíper da esquerda para a direita. Cruzou os braços em volta da mochila prendendo-a junto ao corpo.

Pensativo passou a mão nos poucos cabelos revelando uma calvície bem adiantada. Fora um cara supervaidoso com o cabelo. Suspirou como se engolisse o momento que já não podia ter nas mãos. Sorriu um sorriso de leve apaziguando assim como o pensamento. Na verdade, vinha pensando nas palavras do médico. Apesar de que o médico lhe dissera que teria ainda muitos anos pela frente. E dava para se acreditar em médico?! Mesmo assim, pensou. Ah! Mas também com sua idade o melhor, talvez, seria fazer a última viagem. O que o deixava mais preocupado, é que o médico pediu para falar com um parente próximo, filha, filho, esposa... Esposa! Por onde andará ela? Sua esposa. Há quanto tempo fora embora o deixando sozinho com os filhos.

João aos dezoito anos se envolvera com viciados e acabara assassinado na calçada da Avenida Brigadeiro com um tiro bem no meio da testa. A polícia dissera que o filho vendia drogas para os homossexuais e travestis na boca do lixo. O pobre coitado foi enterrado como indigente. Ele não tinha dinheiro para pagar o enterro do filho. Também, bem-feito quem mandou se envolver com gente perigosa. Foi o que disse no dia em que soube do sepultamento ao oficial de justiça que fora notificar a ocorrência.
Sua filha! Ah! Joana tinha, ou tem ainda, pois não sabe se ela está viva ou não, as feições da mãe, parecidíssima. Fazia tempo que não tem notícia dela. Ouvira outro dia no bar do Maneco, sem que o percebesse por perto, de que ela estava na boca do lixo vivendo com o cafetão que batia nela todos os dias. Se for verdade não procurou saber. Também não tinha importância, não era mais sua filha. Aos quinze anos se perdera bom ele assim queria pensar que fosse, mas sabia que desde que Joana entrou na adolescência já era uma perdida, o quarteirão todo já tinha andado em seus braços. Aos quinze, grávida de um homem casado, destruiu a vida dele a ponto de o desmiolado assassinar a esposa.

Na verdade, ele era um fraco, isso sim. Sempre fora um fraco. Não teve mão firme para manter Polá, e muito menos para dar uma vida melhor aos filhos. Sentia-se cansado. Não se desesperou quando soube que Polá, a esposa que ele pensava que o amava, fora embora. Não. Aceitou o fato como se fosse à coisa mais natural da vida. Portanto, não tinha como reclamar. E agora, o médico vem lhe dizer que tem ainda muitos anos pela frente. Grande mentiroso, isso é que eles são, todos mentirosos. Quero falar com a tua filha, dissera. Se eu tenho muitos anos ainda pela frente, por que falar com a minha filha? Lógico que ele dirá para ela que ele tem pouco tempo de vida, que seria melhor internar o pai e esquecê-lo.
Bom, isso ela já fez há muito tempo, disse a si mesmo, se aproximando da janela, esqueceu-se de mim ou será que fui eu que a esqueci que quis esquecê-la? Sem esperar uma resposta, voltou para o sofá, ligou a televisão esquecendo que o médico lhe dissera que ainda tem muitos anos pela frente.


ps – este texto partiu da observação, durante o trajeto do metrô da Sé até o Paraíso, de um senhor que fazia os movimentos que tento descrever no início. Eu desci no Paraíso e o senhor continuou a viagem.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.782(2022)

                             

         Todas as noites pego este caderno, empunho a caneta e pergunto: “O que escrevo?”

         Novamente abro o caderno com suas linhas brancas e eu empunhando a caneta, pergunto: “O que devo escrever?”

         E assim é todas as noites: “O que devo escrever?”, é a pergunta que faço, todas as noites.

         E como tal, hoje estou aqui novamente com a referida pergunta: “O que deverei escrever?”.

         Sei que tenho muita coisa para expressar em palavras. No entanto não faço por motivos inexpressivos de minha parte.

         Bom, terminei de ler “O Morro dos ventos uivantes”, bom livro que na primeira leitura me fascinou e que não ocorreu na segunda leitura, talvez por seu teor gótico romântico. Não sei. Começarei a ler “João Simões continua”, de Origines Lessa.

         Hoje tive o que escrever.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Silêncio dono de tudo.


Entrou no carro. Bateu a porta. Enfiou a chave na ignição e girou. O motor deu o arranque, engasgou e parou logo em seguida. Olhando para os lados tentou novamente. Girou a chave. O motor fez o barulho característico por uns segundos e parou outra vez. Não quis se irritar. Baixou a cabeça sobre o volante, rilhou os dentes e contou até dez. Assim que terminou a contagem, girou confiante a chave. O motor roncou forte, decidido e pegou fazendo o veiculo trepidar. Colocou em primeira, acelerou, as rodas giraram no asfalto. Olhando os espelhos retrovisores, acendeu o pisca do lado esquerdo, e dobrou a esquina.

De repente, brecou. Os pneus cantaram. Ouviu alguém xingar. Não deu importância. Engrenou a marcha-ré e embicou o carro. Voltou de onde saiu.  Desligou o carro, fechou a porta ao mesmo tempo em que o vidro elétrico fechava a janela. Decidido, procurou lembrar o do porque estava voltando. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Apalpou os bolsos da calça, do paletó, olhou a carteira, tudo estava ali, não esquecera nada. Não, não tinha esquecido nada.
Abriu a porta. Ao chegar ao centro da sala ouviu gemidos. Parou. Aguçou os ouvidos, Distinguiu de onde vinham. Como cão farejador, aprumou os ouvidos. Percebeu, vinha do fundo do corredor. Do seu quarto? Com o coração aos pulos, andando levemente, se aproximou da porta. Girou a maçaneta sem fazer barulho. Lentamente foi abrindo a porta. O seu campo de visão, antes estreito, foi se alargando até que deparou com a cena toda. Estupefato, não estava acreditando o que seus olhos viam. Horrorizados chispas de ódio e raiva brilhavam dentro da órbita. Por vários e longos minutos, sem conseguir se mexer e nem respirar, ficou apreciando a cena que feria seu coração. A manhã se fez no silêncio quebrado apenas pelos gemidos que vinham da cama. Parado, não sabia o que fazer se entrava de uma vez ou dava meia volta e saia ou, se...

Nisso ouviu-se uma voz forte gritando.

- Corta!  Cascatinha.

- Pronto senhor Barbosa.

- Que hora é?

- Precisamente seis horas da tarde, senhor.

- Já?

- Sim.

- Por hoje é só. Prepare o cenário para amanhã logo as seis.

- Sim, senhor Barbosa.

- Continuista?

- Pois não, senhor Barbosa.

- Marcou as cenas onde paramos?

- Está marcado.

- Então deixe tudo certo para amanhã.

- Pode deixar.

E dirigindo-se ao pessoal todo, falou o mais alto possível.
- Pessoal obrigado por hoje. A cena saiu nota dez, parabéns. Amanhã logo às seis horas aqui. Não quero ver atraso e muito menos falta. Estamos entendidos?

- Sim senhor, ouviu-se um dizer aqui, outro ali, e além.
As luzes foram apagadas. Os holofotes escureceram o ambiente. Portas foram fechadas abafando vozes. Aos poucos o silêncio tomou conta do set. Por fim, soou a voz do diretor se despedindo dos atores:

- Até amanhã.

- Até amanhã, responderam.

Depois não se ouviu mais nada. Apenas o silêncio passeava pelo ambiente dona de tudo.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Diário de um sentir – Caderno número 9.781(2022)

                       

            Bem, acho melhor dormir. A tarde, no meu vai e vem pela sala como animal preso em sua jaula, ouvindo música, me veio à mente um texto legal, depois registro no meu caderno disse mentalmente ao invés de na mesma hora anotar no caderno, deixei para depois e o depois, como dizia a minha sábia mãe: o gato come e, o gato não só comeu como não lembro o que tinha pensado, portanto só me resta cair na cama e rogar para que o sono venha rápido.

            É isso... ou, não é? 

terça-feira, 10 de maio de 2022

O datilógrafo.

                 



Ao levantar os olhos da biografia de John Steinback, escrita por Jay Parini, foi que viu aquele corpo senil como um tronco dobrado pelo vento. Não podia acreditar, talvez fosse mais correto dizer: não queria acreditar que alguém ainda precisasse fazer o que aquele homem estava fazendo. Claro, se não tivesse levantado a cabeça para pegar o lenço de papel com a finalidade de enxugar as lágrimas ocorridas pelo bocejar, não teria visto tal cena. Em si propriamente não era a cena que machucava os olhos, e muito menos o que o senhor estava fazendo, não era o movimento daquele momento, mas o que ele estava manuseando, vamos e venhamos, com grande dificuldade.

Ao empurrar a plaqueta apagando a luminosidade branca com letras pretas para dentro do arquivo e, puxando outra, onde estava escrito no canto superior direito: Arquivo Geral tentou lembrar se já tinha visto aquela cena alguma vez. Não, não tinha não, o que tinha eram lembranças vindas através das lembranças dos pais. Eles sim foram e fizeram parte dessa história da humanidade. Hoje apenas nos compêndios armazenados nas plaquetas áudio visuais é que encontrava cenas como essa.

Da sua mesa baia ouvia o tec tec irregular e vagaroso quebrando o silêncio branco. Por quanto tempo o pobre homem martelaria a antiga máquina não sabia dizer. Martelaria não é bem o termo certo. Dizia-se: batendo a máquina. Máquina de escrever, quem usava essas máquinas era chamada de datilógrafos. Seu pai se orgulhava de conseguir bater não sei quantos toques por minuto. Havia também, um filme bem antigo, no tempo das grandes telonas, uma cena de um grande comediante da época, Jerry Lewis que datilografa uma máquina imaginária.

Tudo isso invadiu sua mente ao sentir leve irritação, não só de ouvir o tec e tec como a posição do corpo dobrado. Por que não sentava? Talvez o que necessitava era coisa de pequena importância, talvez apenas uma letra para reforçar ou trocar ou, o que estava mais parecendo, um bilhete que houvesse precisão em escrever naquela máquina.
O sol da tarde reforçou o brilho metálico da máquina. Precisava tirar ela dali. Era peça de museu não sabia o porquê colocaram naquele canto ensolarado. Tocou com a ponta dos dedos na tela no tampo da mesa, puxou uns arquivos para lá e outro para cá, até achar a tela dos protocolos informativos. Preencheu todos os campos, e pressionou a palavra enviar no canto superior esquerdo. Num segundo a tela foi substituída por um rosto que lhe disse: seu protocolo foi enviado com segurança. Aguarde segundos que atenderemos o seu pedido. Pronto, estava feito. Não podia deixar a máquina ali. Cinco minutos depois dois homens com roupas cinza levavam a máquina para o museu da firma.

Voltou sua atenção ao que estava fazendo sentindo-se orgulhoso por preservar a história dos antepassados, afinal, essa era a sua obrigação.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Deito-me nos escombros

             


Pingo a dor no cálice da vida umedecida
Sou vendaval de angústia adormecida

O cálice vibra a cada pingo pingado
Empalidecendo meu rosto enrugado

Meu peito saboreia a noite crucial
No teu peito brota o desejo carnal

A vida é jogada com os dados da sorte
Nada mais é sórdido do que a morte

Percorro decisões nada acertadas
Passeio a carcaça pelas sujas calçadas

Nada me faz diferente do hoje e do amanhã
Apenas colho cada milímetro desta vida afã

Olho com cuidado e com a máxima atenção
Mas em cada esquina há sempre uma sedução

E na surreal/idade dos prazeres como amante
Entrego-me serviçal aos teus beijos alucinantes

Com a espada em punho entrego-me a realidade
Em ter a cada segundo teu sexo à minha vontade

Em cada gota de suor ejaculada pelo teu prazer
Recolho-me dentro de você aliviando o meu ser

Deito-me ao aguardar o fim do suposto conflito
Nos escombros da alma revelo a dor do grito 

domingo, 8 de maio de 2022

PS. Fui...

                     


A saudade bate na consistência dos prédios mudos
de vozes que gritam a imponência maligna.
Deslizam vidros e caixilhos obscurecidos de podres
sentimentos elevados ao extremo.
Corroem dedos na limpeza semanal de lavar e passar
dores persistentes.
Pés descalços oscilam entre bolhas e feridas abertas
a procura do que não sei.
Mãos espalmam torturas indivisíveis ao correr da
pele aveludada.

1

Entro no carro
Fecho os vidros
Ajeito o banco
Queima-me o calor da tua ausência
Os dedos se fecham em volta do cambio
Mudo a marcha decidido a não ter mais saudade
No concreto dos pneus no asfalto frio

Imprimo ao coração aflito a velocidade

E jogo-me no precipício de não mais amar

2

Veneno são as manhãs insolúveis
Martírio são os papéis a perfurar
Tortura é prisão profissional para sobreviver
Angustia são as noites deploráveis

3

Não há mais lugar para Poema Sujo
Não há mais espaço para Construção
Em Passárgada não há mais rei
A Roda Viva desencantou muitos destinos

4

A babaquice hoje é fundamental
O ensino deixou de ser o principal

Facu é só mero estatus
Diploma para enfeitar
A parede do quarto
Não tem nada não
Vamos aos comes e bebes
Demorô cocotinha
Saboreemos o bagulho
Numa linda trilha de pó
Dançar o funk a noite inteira
Mara é a vida
É nóis na fita
Suave é neve
Falô mina
Bele cara
ps fui...
inté

sábado, 7 de maio de 2022

Só por Deus.

                                                  Para Roberta


Falando sério. Acha que vou me desesperar só porque o metrô esta superlotado? Só por Deus. Você não me conhece. Acha que vou correr alucinado para não perder a hora? Olha sei que o mundo está uma merda e o Brasil já se estrepou a mais de quinhentos anos, e eu sou culpado? Só por Deus. A única culpa que posso ter é ter nascido nessa lama de ladrões aproveitadores dos pobres coitados cidadãos civilizados. Sim, claro, tenho bronca e sempre terei bronca das injustiças, das falcatruas, das ladroeiras, do desamor que a cada minuto avança cada vez mais, dos assassinatos sem que se punam os culpados, claro que tenho, mas o que há de se fazer se o povo é conivente com tudo isso. Cadê o carismático para conduzir o povo. Além do que, o povo é o próprio culpado disso tudo. Só por Deus.

Não sou culpado e, muito menos, egoísta, se tivesse o poder carismático de conduzir essa cambada de mongóis, te garanto que uma greve geral, em todos os sentidos, teria promovido. Bom, não tenho nove dedos, mas talvez chegasse à presidente o que, seria impossível, não sou analfabeto. Só por Deus.

Falando sério. Meu quinhão de vida já está se extinguindo. Pouco mais ainda tenho de caminhada. Seria bom se este pouco mais fosse cheio de luz, calma, paz e compreensão e, por que não, encontrasse um novo amor. Putz! Só por Deus.

Falando sério. Acha que vou me deprimir porque o sol está cada vez mais forte, se as geleiras estão rapidamente descongelando, se o desmatamento da Amazônia está incontrolável, se o povo não sabe votar, se as favelas aumentam por vadiagem, se os políticos pensam somente em si próprios, se... Ah! Há tanto “se” nessa imundície de vida. Só por Deus.

Falando sério mesmo. Sou latino americano, sem dinheiro no bolso, sem lenço e sem documento, sentado no trono do meu apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes só esperando a morte chegar... Só por Deus mesmo.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Chakras.


Procuro por tudo sem encontrar nada que possa interessar aos que desejam o tudo.

Jogo palavras avulsas e dispersas no pensamento aflitivo de ser palavra tão somente como eu sou eu.

Desordenadas se agrupam na morfologia dos sentimentos atribuindo cada uma, seus caracteres.

Dedos mecânicos pressionam teclas que por sua vez, num passe mágico surge o que a mente deseja.

E a mente, mente para si própria que não sabe o que deseja.
Soa aos ouvidos a palavra mente como mantra distorcido da indumentária indiana.

Tanjo as cordas da cítara e, num vislumbro audacioso, vejo-me no som que se propaga infinitamente.

Vejo nas águas puras do Ganges todo o exorcismo impuro dos banhistas trôpegos da vida.

Purifico-me nos olhos místicos da sabedoria dos mestres escondidos em cada reentrância da vida.

Purifico meus chakras na realidade sexual da mãe terra que em teus seios, tudo colhe.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Que diria Noel.


De pé não apresso
A pressa que aperta
O tempo que consome
O indivíduo esperto

Primavera de treze graus
Eleva a aptidão da fome
Enroscada na fatídica
Funesta e gloriosa morte

Entre isso e aquilo
Há o grito não aflito
- o que diria Noel –
Do herói desvalido

Corre o insano perdido
Em meio às frutas ácidas
Anabolizantes academias
Balança e roupas medidas

Diria o filosofo aprendiz:
Tudo faz parte da vida
E a pedra no caminho
Pergunta o experiente

É somente um poema
- obra prima realmente –
Desvio-me das pedras
Livro-me das dificuldades

Em pé não apresso
Viajo sem pressa
Da estação Tatuapé
Até a estação Sé

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Conforto e seguro.

  


Primeiro de outubro
Não há conforto nem seguro

Nas conversas ao sabor do café
A bola de um gramado a outro rola
Onde todos do time têm a sua fé
E a vida no dia a dia o povo enrola

Obsessão não é ter o corpo sadio
É ter o corpo esbelto todo sarado
Nas academias livrando-se do tédio
Todos serão felizes e bombados

Verduras proteínas correm nas veias
Sucos linhaça cereja e grãos naturais
Mas e aí, como é que fica a felicidade?

Fica no escanteio monótono da vida
Fica lá no monturo d´alma esquecida
Entre centeio castanha dor e saudade

Dois de outubro
Ainda terei conforto e seguro?

terça-feira, 3 de maio de 2022

Corrosão


Dois de outubro
O sol configura
Os passos inseguros
Nesta vida dura

Quebra-se a rotina
Onde o dia-a-dia
Leva a monotonia
Fumo mistura fina

Rasga o peito angustia
Bebo rápido cicuta fria
Queima tortura eleva

Ao infinito nirvana
Corrói-se na caterva
Meu corpo sacana

domingo, 1 de maio de 2022

Devaneio silencioso.


No brilho dos teus olhos, ele sangrou palavras não ditas, mas colhidas furou as bolhas de águas escorrendo pela face em forma de lágrimas. Nada foi dito, nenhum som saiu da garganta, nem um ruído sequer se fez ouvir. Um silêncio se impôs fremindo a carne para a carne dela, num ritmo lento de valsa que, aos poucos, os envolveu. A melodia picando a pele, trânsitos deixou-os sem que pudessem resistir, caindo um nos braços do outro. Entregue aos músculos resistentes, mas ao mesmo tempo, cheio de suavidade e confiança, o frágil corpo feminino foi arrastado pela sala no gracejo musical. Nesse devaneio emudecido, onde apenas os gestos e olhares tinham vez, tudo foi dito num rápido valsar. No momento em que a música soletrou os últimos acordes, já sabiam dos desejos levando-os ao extremo de não sentir mais ninguém à volta deles. Nada os impediria daquele instante em diante e, nada deixaria que os impedissem de fazer o que tinham de fazer. Dito isso no silêncio dos nervos prontos a explodir, controlavam-se na cadência efetiva de se entregarem um ao outro. Naquela noite as estrelas ganharam um brilho mais que intenso, e a lua, beijou levemente de doce prazer as peles nuas abraçadas no gozo da felicidade eterna.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...