O sapato o incomodava. A meia a todo o momento amontoava no tornozelo. Entrava
formando um caroço debaixo do pé. Num repente, retirou o sapato, a meia,
amarrou os cadarços de um pé no outro e jogou no ombro. Pouco lixando com a
situação.
Foi uma sensação agradável sentir o chão do metrô na pele do pé. Aquela frieza
foi reconfortante. Não era uma grama molhada, não era uma estrada de terra, não
era sua infância que retornava, não era nada disso. Sabia dos riscos que
poderia expor com tal atitude, mas que estava gostoso estava. Os dedos livres
do aperto revigoravam suas passadas.
- Estação Consolação, anunciou o alto falante.
Logo em seguida as portas se abriram e ele saiu
pisando o frio das lajotas da plataforma. Libertos os dedos se expandiram
preguiçosos recolhendo na pele a vontade de fazerem o que bem entendesse.
- Ei, senhor. Senhor!
Ouviu gritarem. Virando a cabeça perguntou
admirado:
- É comigo?
- Sim, é com o senhor, disse o segurança se
aproximando dele.
- Pois não!
- O senhor não pode andar dessa maneira.
- Que maneira?
- Descalço.
- Ah! Descalço. Que susto, pensei que estava
torto, desengonçado, ou que estivesse infringindo a lei.
- Se está infringindo a lei não sei.
- Então está tudo bem?
- Não, não está tudo bem. O senhor está descalço,
e pessoa descalça não pode transitar pelo metrô.
- Espera aí. Quem lhe disse isso?
- Bem, devo manter a ordem nas plataformas,
qualquer irregularidade devo interceptar.
- E andar descalço no metrô é uma
irregularidade.
- É e o senhor está conturbando a ordem.
Começava a se aglomerar curiosos em volta
deles.
- Não posso evitar a curiosidade das pessoas
- E muito menos atiçar a curiosidade
delas. Isso para mim é conturbar a ordem social e política.
- Está bem, pode ficar sossegado, já estou
saindo.
- Acho bom e não demore.
Reparou que as pessoas se distanciavam dele,
como se fosse um propagador de algo negativo.
Precisava de dinheiro, por isso entrou no
banco. Para sua surpresa foi barrado pelos guardas.
- Não pode entrar senhor.
- Por que não posso entrar.
- O senhor está infringindo a ordem.
- Como assim?
- O senhor está descalço.
- O que? Por isso não me deixam entrar no
banco?
- Sim, isso mesmo.
- Bom, se eu estivesse sem camisa até
compreenderia.
- Mas é como se estivesse.
- Escuta...
- Não tem escuta e nem escuta. Se o senhor
insistir vou ser obrigado atuá-lo como arruaceiro perturbador da ordem social e
bancaria.
- Eita, quer dizer que sou perigoso.
- Ainda não é, mas se insistir...
- Tá legal, as uvas estão verdes mesmo.
- O que o senhor disse?
- Nada não foi um chiste.
- Chiste! O que é isso? Tá gozando com a minha
cara é?
- Não nada disso.
- Acho bom mesmo.
Guardando a raiva nas pastilhas da calçada do
Conjunto Nacional, atravessou a Paulista e entrou no prédio. Nem bem tinha se
aproximado das catracas, foi barrado pelo segurança.
- Um momento senhor.
- O que foi? Berrou já sabendo o que lhe
aconteceria.
- O senhor não pode...
-... Entrar porque estou descalço. É isso?
- É isso mesmo, como adivinhou?
- Escuta, tomei a liberdade...
- Não tem escuta aqui e nem escuta ali.
- Esperei aí. Não estamos numa democracia?
- Estamos.
- Então, numa democracia posso fazer o que bem
entender, ou não.
- Sim e não. Bem que eu ache que é mais não do que sim.
- Portanto, posso entrar então?
- Claro que não! Está querendo me enganar com
esse papo furado, é?
- Não, nada disso.
- Ou calce o sapato ou meia volta volver.
- O que você pensa que é?
- Está me chamando de subversivo?
- E você?
- Sou apenas cumpridor da ordem.
- Mas...
- Escuta não tem mais e nem menos, não pode
entrar e acabou você está perturbando a liberdade alheia.
- Olha aqui, preciso entrar, preciso
trabalhar...
- Mas acontece que não vai bagunceiro.
- Eu bagunceiro? E esse mendigo descalço que ai
está deitado na porta do prédio? Ele é bagunceiro? E aquele cara com o megafone
incitando o povo a greve, é bagunceiro? E o político que te rouba
descaradamente, é bagunceiro?
- Que político? Se for o Maluf ele rouba, mas
faz.
Numa fúria descontrolada, enquanto praguejava,
jogou a mochila no chão, tirou a camisa, a calça, à cueca ficou nu.
- Pronto, agora sou bagunceiro, sou subversivo,
comunista, o que você quiser.
Preso, foi levado ao hospício, onde permaneceu o
resto da vida, vivendo da maneira que quisesse. Seus quadros ganharam fama,
seus textos foram publicados na Internet em vários blogs, sites. Estudiosos
vieram estudar seu comportamento e suas ideias. E, assim, confinado ficou
conhecido como o Artista sem sapato.