sexta-feira, 31 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.467(2020)

        

            Bom dia. Mais um dia de oportunidades entre essas paredes de silencio puro. O que dizer hoje? O sol está pleno em cumprir o que lhe é designado: aquecer essa bola ou esse globo chamado de Terra.

Terra! Terra!

Por mais distante

O errante navegante

Quem jamais te esqueceria?...” (Caetano Veloso)

Terra tu me alimentas

És maltratadas

Não te agradeço

Assim padeço

e... etecetera ... etecetera... etecetera...

É isso... ou, não é?


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Contos surrealistas 121


Brincadeira de criança


Anacleto, Dora e Margarida brincavam no fundo do quintal de médico.
Anacleto examinava Dora e Margarida era a assistente. De repente, Dora grita e só de calcinha entra em casa chorando.
Enfurecida a mãe bate nos três deixando-os de castigo.

terça-feira, 28 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.466(2020)

             
            Bom dia. O frio continua. O sol creio não aparecera. Manhã silenciosa apenas a porta do banheiro batendo de vez em quando.
            E essa aventura entre essas paredes já está me cansando. Não dá para diversificar as brincadeiras. Com esse frio! Se estivéssemos no verão a coisa seria outra, não esse descontinuo de faltar palavras. Necessidade em dizer o que não foi ainda expressado. Essa preocupação em notificar as migalhas da vida. Os invisíveis instantes dando-lhes oportunidades de serem visíveis, pelo menos aos olhos dos leitores, claro, se estes existirem. Existir eles existem, diz meu eu otimista. Não vou entrar em diz que me diz comigo mesmo. Vou acreditar no meu eu e seguir fazendo o que devo fazer: viver, viver plenamente cada segundo do que tenho para desfrutar.
            É isso... ou, não é?

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Contos surrealistas 123


Jovens

Rubens pegou as folhas, os palitos que sobrara, as pequenas circunferências coladas uma a uma e presas aos palitos, às cerejas como lhe dissera Margôt, o que para ele não se parecia com nada. Como tinha aceitado participar da festa, ficou encarregado da parte de cortar e colar, agora estava levando tudo para Neide, a coordenadora da festa. Abriu a porta devagar, não tinha ninguém no corredor, saiu rapidamente. Precisava ter cuidado não dar na vista, agir normalmente, evitar os atendentes, principalmente os enfermeiros.
Ao entrar no quarto, encontrou com Margôt e Neide caprichando nos últimos arranjos.
- Aqui está às cerejas, Neide.
- Coloque-as nessas caixinhas de madeira, Rubens.
Neide apreensiva olhava a todo o momento as horas. Não tinha certeza se Zeca, Rosália e Augusto veriam. Achou muito chocho o sim deles, mas o que podemos saber o que se passa na mente de cada um, não é, disse fechando a cortina da janela:
- Lembre-se, tudo a meia luz, cortinhas fechadas, som baixo, e nada de parabéns eufórico, ok?
Nisso a porta se abre e, furtivamente entram Zeca, Rosália e Augusto.
- Ainda bem que chegaram. Pensávamos que tinham desistido, disse Margôt.

Arlete, profissional de enfermagem há dez anos, achava o serviço moleza, além do que, tinha afeição em cuidar dos necessitados. Seu primeiro emprego foi cuidar de crianças doentes por dois anos, depois de pessoas com câncer, só após quase seis anos é que foi prestar atendimento a idosos. Portanto estava a quatros anos, seis horas por dia, prestando atendimento aos idosos na Casa de Repouso de Nossa Senhora dos Necessitados.
E naquela manhã, Arlete satisfeita consigo mesma, começava mais um dia inspecionando o asilo, desde a entrada, passando pelos quartos até o quintal ao fundo da casa. Com seus passos firmes, corpo ereto, olhos brilhantes, ao virar a cabeça para dentro do quarto de Neide, Arlete parou estarrecida. Deu meia volta e pressionou o alarme.

Rosália não podia acreditar. Dobrou o jornal, em seguida leu a carta que recebera da Casa de Repouso de Nossa Senhora dos Necessitados:

Prezada Senhorita Rosália

Pedimos que venha buscar o seu avô, o Senhor Augusto, que por práticas indecorosas, ele e mais cinco idosos, estão sendo expulsos dessa instituição.

Atenciosamente
Antonio Ricardo Luz
Diretor

Rosália sorriu. Voltou a ler a reportagem no jornal:
Seis idosos, entre 70 a 95 anos, foram expulsos da Casa de Repouso de Nossa Senhora dos Necessitados por participarem de orgia.
- Imbecis, não sabem a diferença entre nudismo e orgia, disse com raiva.
Resignada, engrenou a marcha, quinze minutos depois estava em frente ao asilo.

domingo, 26 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.465(2020)


             
            Bom dia. Que merda, como está frio! Detesto o frio. Como ontem fui dormir mais das cinco horas, hoje levantei era umas onze horas. E ontem aconteceu uma coisa que não é mais para acontecer, gravei um texto sobre o outro. Coisa de gente distraída. Esses erros não é mais para acontecer. Mas aconteceu e, vamos tentar lembrar o que tinha escrito. Que me lembre falava de animalismo. Não sabia que havia atitude animalista, pessoas animalistas, e quem me falou disso foi o Kadu Lago. O termo animalista já conhecia, mas pensei que fosse empregado apenas para as artes, música, literatura, poesia entre outras coisas, mas atitude animalista desconhecia.
            A primeira vez que ouvi o termo foi num programa da rádio Cultura FM que apresentou a peça Akenato de Philip Grass. Foi uma avassaladora descoberta, a ópera meio que esquisita, me conquistou e a partir dessa descoberta passei a apreciar o minimalismo.
            É isso...ou, não é?

sábado, 25 de julho de 2020

Contos surrealistas 124


                             Academia Billard

Os cincos dedos da mão direita se fecharam no corrimão frio. Parado com o pé esquerdo no primeiro degrau, por instantes pensou em voltar. No entanto ouvia a orquestra tocando as costumeiras músicas. Com isso se passaram segundos que o cérebro não computou, pois não pensava nos segundos e muito menos nos minutos. Casais conversando animadamente passavam sem dar a mínima para ele.
Júlio pouco se importava com a música, indeciso não sabia se subia ou se dava meia volta, afinal viera confirmar o que lhe disseram: Julieta estava traindo-o. E se queria mesmo saber era só subir a escada da Academia Billard de Danças. E se fosse verdade? Como procederia? Brigar? Bater no desgraçado? Arrancar a força Julieta do salão? Que angustiante decidir o que não se sabe se é verdade ou não? 
Os cincos dedos da mão direita fechada no corrimão frio enregelava a pele. O pé esquerdo no primeiro degrau sofreu uma inclinação recebendo todo o peso do corpo. Isto porque a situação se complicava e a indecisão começava a irritar. Os olhos embaçados se fixaram no vazio a sua frente. Casais subiam e desciam a escada, abraçados, conversando. Como gostaria de ser um desses casais! A vida não poderia ter aprontado com ele dessa maneira. E como ficaria? O que dirá aos amigos, sua mãe que nunca foi com a cara de Julieta, os parentes... Em fim, o mundo desabava sobre os ombros. O que estariam fazendo lá cima? Dançando, oras, de corpo colado, um sentindo o cheiro do outro. Se é que estavam ali. Talvez, tenham ido ao motel...
Júlio tomado pelo ciúme corroia-se de ódio, não por ser traído, se é que estava sendo traído, mas sim, por ser indeciso, sem saber o que fazer. Se fosse outro qualquer teria subido a escada e matado os dois no meio do salão. Covarde, tinha horror à violência e, principalmente, as consequências. Fazia de tudo para ficar longe de complicações e, Julieta aprontava para cima dele. Como a odiava naquele momento. O que aconteceu? Não foi perspicaz o suficiente em notar mudança no relacionamento?
Os cincos dedos da mão direita permaneciam numa atitude desleixada no corrimão frio. O pé esquerdo não estava mais no primeiro degrau da escada. Não suportava mais o peso todo do corpo que, agora, era distribuído para os dois pés. Por fim, concluiu que, se houve algum erro, esse erro partiu dele, não teve o poder suficiente em prender Julieta. Portanto o que tinha a fazer era ir embora. Esquecer tudo e continuar com a vida de sempre.
E no momento em que os cincos dedos da mão direita deixaram o corrimão frio e, o pé esquerdo já não permanecia mais no primeiro degrau da escada, Júlio teve a revelação da verdade. Ele não pertencia à vida de Julieta, e, ao entender isso se tornou livre, o passado e o presente não lhe interessava mais, apenas o futuro lhe daria prazer.

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.464(2020)


             
            Bom dia. Choveu, caiu a temperatura, que merda, detesto o frio. O dia está quieto, monótono, parece que não há mais ninguém no mundo, somente eu preso nessas paredes, só não me sinto sozinho porque, ouço ao longe música e vozes.
            Bem o que direi mais. Vamos o meu eu, você que queria escrever no metrô me ajude agora. Ele olha para ele mesmo, sacode os ombros e parece me dizer. Está difícil. Mais ainda com esse frio a vontade é ficar debaixo do edredom o dia inteiro. É, mas não pode, digo para mim. Vamos nos mexermos, colocar esses cambitos em movimento. Invente alguma coisa, vamos desenhar, vamos dançar... se a tarde esquentar preciso regar as plantas.
            É isso ou, não é?

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Contos surrealistas 125


                          O substituto

Antonio desesperado gritava:
- Estou sendo perseguido por uma enorme garrafa, ela vai me matar.
Ninguém dava pelota, todos sabiam que ele era o bêbado da cidade.
No dia seguinte, o encontraram morto ao lado de uma garrafa vazia. Todos já esperavam por isso, mas quando alguém disse que a garrafa estava sorrindo, olharam um para o outro e, concluíram, temos um substituto para o bebum da cidade.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.463(2020)


         
            Bom dia. Ontem foi o dia de postar fodinha, opa desculpe, fotinha ao lado do namorado ou namorada. Dia de mostrar que amo e sou amado. E se precisa de um dia para mostrar ao mundo o quanto amo e o quanto sou amado? Que necessidade essa de que todos saibam do meu amor? Acho de uma futilidade tal atitude.
            E há uma querência, talvez devido ao confinamento de que não tendo o que se fazer, de se convidar determinada pessoa a postar por dez dias um filme por dia que mudaram sua vida, filme, música, foto, livro sem explicação nenhuma, apenas postar. E fui convidado a isso, como já estava imaginando que eu fosse, tinha feito minha lista de filmes, pensei se me convidarem aqui estão os filmes. 1 – A guerra dos botões; 2 – A dança dos bonecos; 3 – Conta comigo; 4 – O pagador de promessas; 5 – Cidade de Deus; 6 – Minha adorável lavanderia; 7 – Os meninos da Rua Paulo; 8 – Matar ou correr; 9 – O menino e o vento; e 10 – As horas.
            É isso ou, não é?

terça-feira, 21 de julho de 2020

Contos surrealistas 126


                          ELA

ELA saiu do terreiro desnorteada. O Pai de Santo confirmara que o mundo ia acabar em vinte e quatro horas. A mídia estava certa. Então, ELA dançou, bebeu, deitou com homens e mulheres, cheirou, fez de tudo o que podia em vinte e quatro horas. Apenas não viu o caminhão ao atravessar a rua. O mundo, realmente, acabou em vinte e quatro horas.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.462(2020)


      
            Bom dia. Sexta feira. quietude. levantei-me as sete horas. As vizinhas não estavam, pelo menos não vi o carro. Quando me sentei em frente ao micro ouvi o barulho do veículo, elas chegaram disse aos meus dedos que escreveram o que lhes ditei. Antes eram os meninos meus vizinhos e, não tinham grilo nenhum de logo de manhã ligar o som. Desde que moro aqui, são aproximadamente três anos, a casa ao lado já recebeu uns quatro moradores. Vamos ver quanto tempo as meninas permanecerão.
            Silêncio propicio das manhãs. Silêncio de aos poucos a vida encher num vai e vem de bater portão e sair e entrar de carro. Silêncio expulsado pelo afã de se fazer o que se deve demonstrando assim que as pessoas estão na vida preenchendo de afazeres suas vidas. E assim a humanidade fugindo do perigo vive no desespero da crise.
            É isso ou, não é?


domingo, 19 de julho de 2020

Contos surrealistas 127


Uma comédia nonsense.

01 – Primeiro e único ato.

Cena 01

Andando de um lado para outro, Alex esbravejava com sua voz estridente e indignada.
- Isso não tem nexo, é absurdo. – gritava batendo com as costas da mão no texto. NÃO CONTINUE! É o que eu digo para mim mesmo, e é o que eu tenho vontade de fazer. Não continuar. Portanto acho melhor, pensarem onde estão pisando. Isso é um lixo. Lixo. Onde já se viu um título como esse: Abacates com olho aberto, e subtítulo: uma comédia nonsense. Quem vai acreditar nisso. É um absurdo.
- É no absurdo que vivemos o tempo todo. - responde Angel numa atitude dramática.
- Não venha com essa, não. – retruca Alex.
GWEN JÁ ESTAVA MASTIGANDO UM BISCOITO, quando perguntou:
- Onde está Satin. Ninguém sabe dele? Tudo isso SÃO IDIOTICES DO SATIN, SUPONHO QUE VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR EM ABACATES COM OLHO ABERTO. Ou será que alguém acredita nisso?
- Vê se não come todos os biscoitos. Não vou comprar outros. Todo ensaio tenho que repor. – disse Salvador.
Gewn deu ombros.
- Eu acredito tanto em abacates assim como acredito no ser humano e na vida.
- Ora, Angel! Você é uma romântica incurável.
Nisso entra o Agenor:
- Pessoal, dez minutos para o ensaio.
- ELE SE FECHOU, ENVOLVIDO POR UMA TRAMA DE SENTIMENTOS E SENSAÇÕES, E ENTROU EM UM CASULO LOCALIZADO EM ALGUM CANTO REMOTO DE SUA CONSCIÊNCIA.
- Que isso, Rafael?
- É a minha fala, a única em toda a peça e, depois o diretor diz que meu personagem é importante. Não dá para acreditar.
- Todos os personagens são importante, isso é verdade.
- Acredito! E você, Miguel, qual a sua fala?
- O CERTO É QUE EU NÃO QUERO MAIS FICAR AQUI.
- O que! Você vai embora, Miguel?
- Não, Angel. Essa é a minha fala na peça.
- Que susto, pois o Alex está querendo desistir.
- Mas ele não pode, é o diretor.
- E daí? Rompe o contrato e pronto. Ele já fez isso muitas vezes.
Agenor aparece dando ordem:
- Vamos pessoal. Hora do ensaio, todos para o palco.

Cena 02

Alex entrou e fechou a porta. Salvador ainda não tinha chegado. Deu de ombros, já estava cansado de Salvador. Por outro lado, essa peça que Satin arrumou estava deixando-o em frangalhos. Onde se viu uma peça só de frases sem sentido, jogadas no ar, como se fossem balões estourando na plateia. É verdade. Estava deprimido, rompera o contrato e os produtores exigiram a cabeça dele. Teve que pagar uma quantia enorme e com isso foi obrigado a aceitar essa merda de peça. Bebia a sexta dose quando ouviu alguém lhe dizer: NÃO FOSSE PELA CÓLERA, JAMAIS TERÍAMOS APRENDIDO A NOS CONHECER, UM AO OUTRO. Era Salvador com o manuscrito da peça embaixo do braço. Estava atrás de um diretor e, propôs a ele dirigir a peça. Assim se conheceram e, agora estava com dois problemas. Continuar ou não com a peça e romper com Salvador. Jogou o cigarro na privada, deu descarga, tomou banho e foi dormir. Amanhã é outro dia, pensou ao colocar a cabeça no travesseiro.

Cena 03

- O que você está fazendo, minha filha?
- Estou olhando essa pintura e tendo uma ideia.
- O sol pode estragar ela.
- Eu sei, estou pensando em ilumina-la com luz artificial, acho que ficaria bem na peça.
- Vai levar isso também? Levou a mesinha, a cadeira de vime... O que mais vai levar? Não esqueça que é um presente do seu pai para mim.
- Eu sei mãe. Não esqueço não.
- Essa companhia não tem dinheiro não?
- Não.
É não tem dinheiro. Angel esperava fazer um bom trabalho, dar tudo de si, quem sabe surgisse um olheiro. Entrou na companhia depois de muita procura. Acabara de se formar e, para se sustentar trabalhou em diversos ramos e atividades fazendo bico aqui e ali. Portanto esse era o seu primeiro trabalho como atriz, não podia fracassar e, fazia de tudo, para que a peça, mesmo maluca como dizia o diretor, fosse estreada. Tanto é que quando o produtor precisou de uma mesa, não pensou duas vezes, levou a mesinha e a cadeira de vime. Agora tinha a ideia de levar o quadro para ilustrar a frase que será proferida por ela: ANGEL DÁ AS COSTAS PARA ELA, SEGURANDO A PINTURA PARA QUE A LUZ DO SOL A ATINJA DE DIFERENTES ÂNGULOS.


Cena 04

Gwen abriu uma cerveja e sentou em frente à televisão. Balançou a cabeça meio que enfastiado sem saber o do por que. Quer dizer, sabia, mas tinha esperança que as coisas mudassem para melhor, ficar xingando, dando bronca em tudo e em todos não era o certo. Sentia raiva de Alex. Tem um material bom nas mãos e não sabia aproveitar. Não acreditava muito nele não, aliás, não confiava nele. Não podia e achava que não devia romper o contrato. Sua opinião era: aceitou agora tem que cumprir, só se o projeto não for pra frente.

Cena 05

Salvador estava nessa por ser amigo de Satin que lhe prometera um emprego. E pelo andar da carroça tudo lhe dizia que estava trabalhando de graça. Não sabia dizer quem era o responsável, a quem se dirigir se não recebesse. Tudo porque Satin tinha o manuscrito de uma peça muito boa e precisava de um diretor. E como Salvador vivia entre amigos teatrais e dizia conhecer muita gente, Satin pediu ajuda.
- FAREI COMO PEDE... , disse Salvador.
Salvador entrou no bar e de cara notou Alex cabisbaixo tomando o seu terceiro ou quarto copo numa atitude relaxada. Sentou ao seu lado, pediu um uísque e, soltou a frase que fez com que Alex prestasse atenção a ele. A partir daí, o gelo foi quebrado e, passaram horas conversando. Ao sair, Salvador tinha ganhado um amigo, um diretor, um emprego e um lugar para dormir, pelo menos, até a temporada da peça. No dia seguinte apresentou Satin a Alex e, na semana seguinte, estava definitivamente morando com Alex.

Cena 06

- Oras! EXCELENTE TRABALHO, ALIÁS, FIZERA O EMPALHADOR, disse Agenor ao mostrar o gato preto ao diretor.
- O que você fez Agenor? Não me vá dizer que matou e mandou empalhar o gato preto.
- Oras! Não só fiz como ele está aqui. Vocês não estavam precisando de um gato?
- Sim, mas não precisava chega a esse...
- Oras! Ele estava só atrapalhando.
- E se aparecer alguém procurando- o.
- Oras! Não vai aparecer ninguém.
- Não quero problema, já chega os que tenho, portanto se vira caso venha alguém reclamá-lo e, outra coisa, como pagou essa porcaria?
- Oras! Não paguei.
- O que?
- Oras! É não paguei. O cara me devia uma grana, agora estamos quites, não me deve mais nada.
Agenor era um cara simplório, não pensava duas vezes quando tomava uma decisão. Tinha que ser feito ou, precisava ser feito, porque não fazer. Todos maltratavam o gato, não gostavam dele, e queriam um empalhado para uma das cenas, então, porque não matar o felino e empalhar! E foi o que fez. Não tinha remorso, muito menos arrependimento. Esse era o seu jeito.

Cena 07

Rafael PÔS AS MÃOS EM CONCHA AO REDOR DA BOCA E UIVOU PARA ELES, AHUUUUUUUU, AHUUUUUUUU. Em seguida virou para o barman:
- Por favor, mais uma cerveja.
Rafael entrara no projeto por falta de opção. Folheava o jornal por folhear quando uma pequena nota chamou a sua atenção. “Companhia de Teatro Amadorística seleciona pessoal para compor seu elenco para próxima temporada.” Apresentou-se, fez o teste, foi selecionado como ator secundário. A peça era um amontoado de palavras que cada ator tinha que, numa ordem meio que aleatória, dizer em cena. Eram frases desconexas proferidas como se estivesse declamando sem a importância de sentirem o que elas significassem. Rafael achou estranho, começando pelo título: “Abacates com olho aberto: uma comédia nonsense”. Não tinha experiência, amador se apresentara em produções pequenas, de pouca importância. E ao pisar pela primeira vez no palco, escreveu no caderno de notas: FIZ ALI UMA SECRETA PROMESSA. Sorriu ao lembrar-se desse fato. Nisso viu do outro lado do balcão a loira sorrindo para ele. Instantes depois saiam da boate.
Cena 08

Miguel não compreendia por que foi escolhido para o papel principal. Não tinha se saído bem nos testes, por mais que se esforçasse o vazio entre as cenas não o impressionou como lhe dissera o diretor. Tinha porte, beleza física, sabia quando e onde colocar a voz nem suave e nem branda. Ouviu dizer que o diretor se encantou com ele, o que não lhe dizia nada. HÁ PELOS MENOS TRÊS RESPOSTAS POSSÍVEIS para tentar compreender isso. Primeiro: foi bem nos testes e, confirmava o que se diziam dele: era bom ator; segundo: conseguira o papel por sua beleza a ponto de impressionar o diretor, o que não acreditava e, terceiro: porque ele estava no lugar certo e na hora certa, isto é, tinha que estar ali, queira ou não. Era o seu destino e, com o destino não se brinca.

Cena 09

Satin não lembrava o que estava lendo no momento em que teve a ideia da peça. Apenas que, ao ler a frase: SIM, RESPONDEU MESTRE HORA-. E COM ISSO QUEREM ME IMPRESSIONAR, escreveu a frase no caderno de notas e, num vapt vupt outras foram aparecendo espontâneas. Em outras peças fizera isso, entre uma cena e outra, introduziu frases soltas que nada tinha com a peça e, parece que poucos notaram um ou outro crítico comentou o fato. Com Abacates Com Olho Aberto corria o risco de não dar certo, o que seria a ruína total ou, por outro lado, seria estrondoso sucesso, por isso, assinou com um pseudônimo e se lançou como produtor. E propagou a noticia que comprara os direitos e, dessa vez, seria o produtor. E, por outro lado, achou melhor propor a um diretor desconhecido e, com atores não famosos. Por isso, pediu para Salvador contratar o diretor e todo o elenco. Preferia ficar o mais longe até a estreia, o que faltava poucos dias.

Cena final

Um mês depois a peça foi estreada.
Duas semanas seguintes foi retirada de cartaz, apesar da critica elogiosa e do prêmio para a melhor atriz, Abacates Com Olho Aberto estava dando prejuízo.
Alex, o diretor, caiu no anonimato e ninguém mais falou dele.
Angel, atriz principal, apesar do prêmio, teve um relativo sucesso na televisão e em um ou dois filmes, sendo logo esquecida.
Gwe, ator coadjuvante, voltou à sua cidade natal, casou, teve filhos morrendo assim seu sonho de ator.
Salvador, contra regra, não conseguiu outro emprego, teve mais alguns casos e, três meses depois, morreu abandonado no hospital.
Agenor, assistente de diretor, trabalhou mais uns dois meses e, numa discussão morreu esfaqueado.
Rafael, ator secundário, desistiu da profissão de ator, arrumou emprego num escritório, dali a dois anos se formava em advogado.
Miguel, ator principal, ainda trabalhou em mais duas peças, trabalhou, também, em televisão fazendo sucesso, e se aposentou por invalidez, ao fazer uma cena perigosa, perdeu a perna esquerda.
Satin, o produtor, foi desmascarado, a mídia descobrira o seu pseudônimo e não teve piedade, chamando-o de charlatão, plagiador e outros adjetivos, levando-o ao suicídio.
E, por fim, o teatro foi transformado em amplo estacionamento.

sábado, 18 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.461(2020)

 

            Bom dia. Outro dia de socialmente confinado em que me volto para dentro de mim e o que eu vejo? Hi meu não quero lhe dizer, vejo... bem... vejo sangue, nervos, veias pulsando, estomago no seu dilata e encolhe, o coração batendo ritmado tum tum... ah ah ah, como dizia a sogra: sua besta. Ok, ok, está bem, pô não se pode brincar um pouco.

            Era mais ou menos umas seis horas tinha uns caras berrando no portão. Como ninguém atendeu foram embora.

            O que mais posso tirar dessa cachola, vejamos... ah criei mentalmente um conto, está todo na mente, mas não sei se será verossímil – palavra bonita: verossímil, inverossímil – falando literalmente. É sobre cinco idosas que estão num asilo e um dia... não vou dizer a sinopses para não entregar o conto.


sexta-feira, 17 de julho de 2020

Contos surrealistas 128


Decepção.


- Espelho, espelho meu. Quem no mundo é a mais bela do que eu.
Silêncio!
- Espelho, espelho meu. Quem no mundo é a mais bela do que eu.
Silêncio!
Com raiva esmurrou o espelho quebrando-o. Do seu pulso pingou uma gota de sangue e ela ouviu uma risada macabra se espatifar no chão do castelo.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.460(2020)


         
            Bom dia. Quarta amena, friorenta, pois acordei mais cedo, consegui levantar-me as seis e pouco, portanto a manhã cinzenta não promete sol, vamos ver. Mas, o que é o sonho? É uma projeção daquilo que queremos ser? É uma projeção do que aconteceu com você? Não sei, nunca procurei em saber o que me significa. As vezes sonho que perdi meus documentos, e me parece tão real que, sonolento, fico puto porque terei que tirar todos os documentos de novo, mas ao mesmo tempo suspiro aliviado por ter sido um sonho, aí viro para o lado e durmo de novo.
            Essa noite sonhei um sonho vivido, bem real, não quero perguntar se aconteceu ou não, pois vai que é real, então já viu. Sonhei que o Moro tinha se suicidado. Se jogado na linha do trem. Me vi em estações vazias, em filas enormes, ruas desertas, carros de polícia...
            Sou poeta, não sou militante político. 
            É isso... ou, não é?

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Contos surrealistas 129


Ilha Comprida

Angustiava-se sem pretender alcançar a mágoa. Esta reinava nos galhos, folhas e árvores que balançava toda indignação do momento.
Não sabia como agir. Era a primeira vez. Desconhecia os atos da casa, os estalos dos móveis, a rigidez da mesa, do armário, dos espaços vazios...
Interrompeu o silêncio para que o pensamento reinasse livre de interferência. Sonhou na tristeza dos lençóis a ausência de alguém.
Sorriu alegre, voltou ao que era.
Sorriu contente por estar naquele momento apreciando a imobilidade do tempo.
Rezou para que o instante ficasse dentro dele, dentro da carne enfraquecida pela dor de viver a liberdade da cura numa perfeita harmonia de lembranças futuras.

terça-feira, 14 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.459(2020)


         
            Bom dia. Mais um dia em que agradeço por oportunidades que o dia poderá me beneficiar. O dia não está silencioso, as meninas gritando nas suas brincadeiras, cachorros latindo, serra ao longe cortando o ar, chamadas desconhecidas que ao dizer alô desligam, enfim, os movimentos que fazem do dia o dia. Preciso me impor e acordar mais cedo, esse acordar tarde, depois das oito horas não é o recomendável, me perco nos pequenos afazeres que o confinamento me obriga a fazer para não pirar, para não ficar conversando com as paredes ou comigo mesmo. Aliás, o meu eu esses dias está quieto. O que será?
            Bom, vamos ouvir música, sem ela eu não vivo, a música é o meu alimento.
            Bem... é isso ou... não é?

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Contos surrealistas 130


Glosa

Segredo é para quatro paredes e, o teu mal não foi comentar o passado e, sim, viver o futuro relatando a todos o presente.

domingo, 12 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.458(2020)


        
            Bom dia. Silencio de sons longínquos que me chegam sem que eu os queira ouvir. Vem na frequência emotiva do dia em que deposito em seu conteúdo o valor necessário. O valor de mais um dia que será comprido na benevolência grata de existir.
            Empunho as palavras para a defesa dos sentimentos herméticos de apenas serem palavras. Silencio insuportável de não se conseguir superar o poético que rondam todas os objetos e todas as situações. Tenho de despojar a timidez e soltar desenfreadamente a simplicidade da escrita para me tornar maior, mais humilde, mais humano. Tenho tanta coisa e ao mesmo tempo o nada entre as coisas que o olhar capta e não consegue traduzir.
            É isso... ou, não é?

sábado, 11 de julho de 2020

Contos surrealistas 131


Adélio kafkiano

Adélio não sabia como foi parar no buraco e, muito menos, quanto tempo estava ali. Apenas lembrava que depois de um dia estafante, ao fim do expediente foi com os amigos tomar umas geladas, era uma sexta-feira quente de verão, propícia para molhar a garganta e jogar conversa fora. Quanto tempo ficou no bar e quantas cervejas havia tomado, não sabia dizer. O que recorda com certeza é que ao chegar em casa, tomou banho e caiu na cama feito pedra. Até havia marcado uma partida de futebol no dia seguinte, sábado, com os amigos.
Adélio ao acordar estranhou a escuridão, mal dava para divisar os contornos do que lhe parecia ser o seu quarto, mas ao se virar para levantar, bateu com a cabeça na parede. Foi então que reconheceu, estava deitado no chão de terra batida, e, para se certificar virou para o outro lado, a mesma coisa, bateu a cabeça, no que era a outra parede. Tateando descobriu que estava num buraco circular. Olhou para cima e viu uma minúscula claridade, deduziu ser a saída. Pensativo coçou a cabeça, como sairia dali? Deixou-se escorregar desanimado apoiando o queixo nos joelhos encolhidos.
Adélio não tinha esperança e muito menos alguma ideia de como sair dali, quando sentiu algo grotesco, como se fossem várias minúsculas pernas picando a pele do braço. Quando olhou com a intenção de espantar o que fosse, deparou com dois olhos piscando para ele. Assustado recuou o mais que pode. Nisso ouviu na mente as palavras:
- Não se assuste, sou uma barata, se quiser sair daqui vai precisar da minha ajuda.
Adélio horrorizado, não tendo como recuar, encostado à parede, começou a tremer, sem conseguir atinar o que se passava. Novamente ouviu as palavras:
- Não fique horrorizado, não sou a barata kafkiana, apenas quero ajudá-lo a sair daqui, esse buraco é meu, você está invadindo meu espaço entende.
 Adélio não entendia, e, também não estava a fim de entender, só pensava em sair dali, quando ouviu as palavras da barata:
- Siga-me sem perguntas.
Adélio aparvalhado não soube o que fazer. Seguir uma barata no escuro! Como? O buraco era circular ir para onde? Então, ouviu as palavras da barata.
- Vocês humanos de pouca fé, precisam ver além do que seus podres olhos veem.
Adélio, meio indeciso acompanhou o brilho dos olhos da barata que pareciam dois faróis de carro, e viu surgir uma abertura na parede do buraco. Achando um absurdo, acompanhou o gigantesco inseto por longos e compridos corredores sujos e infestados de minúsculos dejetos. Enquanto andavam, Adélio escutava um creck creck irritante vindo da barata. De repente, como se fosse do nada, surgiu uma claridade cegando-o.
- Aí está a saída, disse a barata.
Adélio sem pestanejar, passando por cima do inseto saiu num quintal que reconheceu ser o da sua casa. Entrou em casa, tomou um bom banho e caiu na cama feito pedra.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.457(2020)


        
            Bom dia. Boa noite. Boa madrugada. Não sei, são três horas e seis minutos. O silêncio da madrugada é intenso, pesa nas estruturas do sentimento. Preciso e não tenho vontade em dormir. O dia foi meio péssimo por ter acordado tarde. Meus movimentos mecânicos se estruturavam nas ações invisíveis do movimento do ar. Que merda! Mais uma vez procurando palavras. ..............................................................................................................................
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            Bom dia agora é, são nove horas e quarenta e quatro minutos. Manhã silenciosa. Nenhum movimento. Sons esparsos e longínquos denunciando a vida que não se esmorece. Sequencias mortas de se precipitar em fazer o que se deve e, talvez, o que não se deve. Qual é a de maior urgência? O que não se deve? Pode ser, o não dever tem a mesma atração do proibido. Se quer contar um segredo, mas que não seja o revelador, é só dizer: vou te contar uma coisa, portanto não diga para ninguém. Pronto, atiçou a língua de quem ouviu e o teu falso segredo corre de boca em boca até chegar ao alvo. Ou, não é?
            É isso... ou, não é.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Contos surrealistas 132


Domingo: alegria e descanso.

Paulo observava a lagartixa subindo a parede. Diante do fato, decepcionado, meio surpreso, até sentiu-se lesado ao ver o pequeno sáurio, da subordem dos lacertílios, deixar o pequeno inseto fugir. Com o graveto deu uma cutucada fazendo a lagartixa cair ao chão. Pensou em esmagar o pequeno sáurio com uma pedra ou pisar nela, mas desistiu e, com o graveto cortou a cauda que ficou pulando, enquanto que a lagartixa correu para baixo do monturo não dando tempo de Paulo caçá-la. Com raiva, jogou o graveto longe.
Nisso ouviu a mãe gritar, parada a porta da cozinha.
- Lagartixa, vá lavar as mãos e venha almoçar.
Rilhou os dentes engolindo o palavrão que ameaçava explodir em direção à progenitora, mulher determinada e que não aceitava ofensa que fosse e, muito menos dos filhos. Por isso, Paulo passou por ela de cabeça baixa entrando em casa amaldiçoando quem colocou o apelido nele.
Ao sair do banheiro jurou que seria a última vez que seria chamado pelo apelido quando ouviu:
- Lagartixa, pega a garrafa de Coca-Cola e vá até o Armazém do seu Zé comprar pinga. E anda logo moleque, gritou o pai dando-lhe um cascudo ao passar por ele.
Na volta, ao sentar-se à mesa e entregar a garrafa cheia de pinga ao pai, tinha em mente todo o plano de vingança. Contrariando a mãe que o atazanava em comer logo, Paulo demorou o mais que pode a mesa na esperança de que o pai fosse deitar como fazia todos os domingos.
Assim que viu o velho dormindo, entrou no quarto, aproximou-se pé ante pé, no maior silêncio possível e acendeu o fósforo.

Agora, todos os dias, visita no hospital, o pai internado na ala dos pacientes queimados por fogo onde, com compaixão ouve os queixumes da mãe:
- Também com essa mania de dormir fumando é o que dá, queimou colchão e seu pai, por isso meu filho não fume nunca...

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.456(2020)


      
            Bom dia. Devo começar com um bom dia? Já são treze horas e oito minutos de um dia ainda frio, barulhento, cachorros latindo, vozes, palmas, gritos, mas que agora parece que se normalizou. Mais um dia, mais uma sexta, dia perdido, pois acordei mais de dez horas, tomei café e não sei a que horas almoçarei. E daí, o importante é que agradeço por estar aqui em frente ao pc escrevendo, pondo minhas ideias loucas nesta telinha hipnótica.
            Palavras são palavras carregadas de emoção, de sentimentos que nada traduz, que nada diz ou possa dizer de quem as escreve. Mas são palavras que devem ser ditas, não podem ser guardadas senão um dia que menos se espere elas explodem dizem o que não se devia dizer. Isso é perigoso, pior que uma bomba atômica, pois sua devastação não será física, mas sim, emocional e a destruição da alma, da confiança, do amor, principalmente do amor, será eternamente destruída, não se terá mais a confiabilidade que se tinha. Palavras são meras palavras idiotas, estúpidas se não forem ditas.
            É isso... ou, não é?

terça-feira, 7 de julho de 2020

Contos surrealistas 133


Sem saída

Quando ela foi embora ele estava chorando no canto do quarto como bicho acuado. E continuou chorando por muito tempo. As lágrimas caiam, molhando a roupa sem que se importasse, batiam no assoalho em pequenos ruídos de estalactites e respigavam nos móveis e objetos. Como ácido furavam a carne da madeira em profundos sulcos que ele podia caminhar desviando-se das pontiagudas arestas.
Sim, chorou, não procurava e nem tentava sair dessa situação descontrolada. Parecia que não havia oportunidade alguma de mudança, e, mesmo que houvesse nada continuaria como antigamente. Andava pelos sulcos da madeira revelando-se fraco e impotente. Não sabia ou, talvez, se fazia de desentendido, entregue a um desespero fatídico sem ter uma solução. Pensava em suicídio, e quem poderia lhe dizer que na morte não teria mais dor?
Ao pisar os sulcos úmidos e toscos, lembrava-se do passado gravado na carne da memória ofuscando a olhar o presente. Estava só constatou ao ouvir a porta se fechando, sozinho na imensidão do quarto assombrado pela quietude dos moveis, abraçou os joelhos dobrados e procurou sentir a respiração na parede do peito como martelo cadenciado batendo em algo rígido. Fechou os olhos e dormiu, assim pensou, pois envolto pela penumbra da tarde que o abraçava, sentiu-se se elevar acima dele flanando no ar úmido do aposento.
O som da tarde avançando a noite encontrou-o enrodilhado nas sombras do delírio. A respiração meio ofegante revelava controle sobre os nervos. Decidido e resoluto, em pé, enxugou o pranto na manga da camisa, e encaminhou-se para a porta. No entanto, ao virar a cabeça para olhar por cima do ombro, ainda se viu sentado no canto do quarto na posição fetal. Não deu importância, imitando os gestos dela, bateu a porta e desceu as escadas no intuito de esquecer tudo aquilo.
Ao chegar à calçada os raios de neons refletidos nas lajotas feriu os olhos. Por momento, indeciso esperou que a mente se acostumasse com a claridade noturna da cidade. Sorriu livre dos sentimentos deixados no canto escuro do quarto. Era outra pessoa, renovada, pronta para novas decepções. Respirou a noite e com passos firmes se jogou a frente do primeiro veículo que passava. O estranho é que não se ouviu nenhum baque de corpo sendo jogado para o alto e, muito menos, alguma freada brusca. Nada tinha acontecido, apenas via-se um corpo acuado e esquecido, abraçado aos joelhos dobrados, num canto do quarto onde o encontraram no dia seguinte.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.455(2020)


         
            Quinta-feira. manhã silenciosa. Poucos sons. Sinal de chuva. Frio. E assim vai. Percebem que não sei o que escrever. Os dedos paralisados acima do teclado preto olham para mim a espera de palavras que eu ordene para eles escreverem. Como não recebem essa ordem, passam a escrever aleatoriamente sem dar a mínima para o que escrevem. Oras bolas! E assim vão os dedos teclando letras a esmo num disparate absurdo. Como faço para que me obedeçam? Não tem como, e, por outro lado acho que não quero que parem, isto porque dessa cachola preguiçosa não sai coelho. O meu, coelho saem é de cartola e não da cachola. Olha aqui não enchem tá, o coelho é meu e eu o faço sair de onde eu quero, estamos entendidos! Está bem, depois que o chamarem de louco não venha reclamar com a gente. Pois, é, palavras por palavras seguidas uma das outras sem sequência lógica beirando o absurdo dos absurdos. E lá vamos nós, melhor dizendo, lá vou eu intelectual de segunda num experimentalismo frouxo compor mais um dia na minha vida de confinamento. Bem... chega... pare...
            É isso ou não é.


domingo, 5 de julho de 2020

Contos surrealistas 134


Mais uma noite

Um risco nos lábios, acuado no canto da sala, surgiu no silencio da vida revelando a angústia na flor da pele. Foi um risco apenas, e não uma esperança, apesar de que Jose Valdo nunca foi de perder a esperança. Sua teoria mágica, como dizia infalível, conduzia os passos aos extremos dos atos. Na voragem do tecido cobrindo a pele macerada, estava o calor dos sentimentos. Não via motivo para agir, no entanto, aos trancos e barrancos seus pés o levavam por caminhos sombrios.
Jose Valdo tirou o cd do aparelho e colocou outro no momento em que gritaram:
- Pó, cara muda isso. Saia dessa fossa vá curtir a vida, ou coloque música mais alegre.
Nessa vaga e indefinida tristeza, Jose Valdo se enfurnou na voz de sentimento de dor moral cuja caracterização o levava a inibição das suas funções motoras e psicomotoras. Não tinha mais condição, o enfraquecimento mental e físico o dominava levando-o as complicações de psicose maníaca depressiva. O abatimento o achatava ao chão num esmorecimento sem cura.
Tinha de mexer os ossos, como dizia a mãe, mexer os ossos para não enferrujarem. Na lentidão dos olhos fixos no nada, entrou no banheiro. Olhou-se no espelho o rosto de outra pessoa olhava para ele. O rosto no espelho sorriu de encontro ao risco nos lábios. Não tinha motivo e nem sabia por que fez a barba. Tomou banho, se arrumou como se fosse a uma festa. Parou indeciso com a porta entreaberta. Recebeu os sons da noite como baforada de narquilé, tossiu, esfregou os olhos e voltou para dentro.
- O que foi? Esqueceu alguma coisa? Ou não vai mais sair? – perguntou a mãe ao cruzar com ele.
Não respondeu, subiu a escada, entrou no quarto e se jogou na cama. Por que tenho que sair? Movimentar-me? Pensou com as mãos atrás da cabeça. Para onde eu vou? Andar a esmo pela cidade não me comove como antigamente. Ver rostos que não me alegram mais e voltar vazio para casa?
De repente, dona Marta ouviu a porta bater. Jose Valdo decidira sair, pensou observando os rumores da novela. Sem destino, sem rumo, mas quando percebeu estava sentado no banquinho do bar bebendo uma cerveja. Não era noite especial nem nada, muito menos feriado, no entanto o bar estava cheio, mal dava para se mexer. Jose Valdo despreocupado tomava a cerveja, o pensamento distante, longe dos casais aos abraços e beijos. Era uma afronta ao ver os pares na maior satisfação pouco se importando onde estavam. Observava meio que excitado ou mesmo tempo, enojado na solidão de si mesmo.
Jose Valdo pisando a frustração de só ser, mais uma noite voltava acuado para o canto da sala.

sábado, 4 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.454(2020)


                      
                        Bom dia a quem posso estar lendo estas palavras. Mais um dia de confinamento, mais um dia entre paredes velhas conhecidas que já sei todas as reentrâncias e saliências da sua rugosidade. Mais uma manhã de oportunidades no avanço da vida em descobertas já feitas e não feitas. Dia murcho, apagado, silencioso, estranho na concepção em senti-lo como tal. Escrevo rapidamente como as palavras à mente me vem em desabalada na ânsia de serem impressas nessa tela branca. Palavras que não trazem todo o teor que elas possam expressar, não traduzem todo o sentimento em seus símbolos, falta-lhes algo, conteúdo do que dizem serem. Não há nelas sentimento verdadeiros, o sentimento daquele que, com ajuda dos dedos, fixa-as aqui e que leitores ao lerem nem imaginam o que elas possam dizer seriamente. Pois, a experiência nunca vai ser igual. A que eu passo será diferente da que você passa, mesmo que faça tudo idêntico. Assim é a vida, assim é a humanidade queira ou não se queira.
                        É isso... ou não

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Contos surrealistas 135


Eu hein!

Fiz macarrão pela segunda vez. Na primeira vez coloquei na água, sal, cebola, não lembro se usei alho, óleo e deixei ferver, depois é que coloquei o macarrão, aquele comprido, talharim. Até que ficou comestível, não estava ruim.
Na segunda vez, coloquei tudo, cebola, sal, óleo e o macarrão talharim mais o borboleta na água e deixei ferver tudo de uma vez só. Depois no prato por cima do macarrão despejei uma lata de atum picado e uma lata de ervilha e cenoura.
Também ficou comestível, não estava ruim, até mais saboroso, pois a quantidade de sal foi maior que da primeira vez. Bem, matei a fome. O cozinhar não é o problema, é o depois, limpar a sujeira, lavar o prato, o garfo, a escumadeira, a panela, o escorredor, aliás, não usei o tradicional escorredor, mas uma peça do secador de alface.
Acho que vou fazer um curso de culinária especializado em macarrão no Sesi, ou é Senai... Será que existe ainda esse curso? Pensou! Tornar-me um expert na culinária.
Eu hein!

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Diário de um sentir – Caderno número 7.453(2020)


                 
                        Acordou cedo. Deu bom dia ao silencio do quarto. Sentou-se na cama com as solas dos pés apoiadas no chão e agradeceu por mais um dia de descobertas e oportunidades. Se trocou rapidamente e rapidamente colocou a blusa. Foi ao banheiro, deu uma mijada, lavou o rosto, escovou os dentes e na cozinha tomou café com leite e pão de forma. Assim iniciou mais um dia de prisioneiro, mais um dia em que terá de olhar para essas paredes conhecidas, para o chão de ladrilhos frios, para a cortina da sala, e para a eternidade dos objetos, pois eles ainda estarão aqui por muito tempo quando ele for.
                        Mais um dia para ter a oportunidade de se olhar para dentro e agradecer a companhia de si mesmo em expandir a consciência e a mente. Em ter o eu a dialogar com ele, em lhe expor os prós e contras dos sentimentos. Olhou para a esquerda da situação e achou que o melhor mesmo seria ter uso da liberdade em entrar e sair ou no caso, em sair e entrar. Tanto faz lhe diz o eu dele. Tanto faz como tanto fez, era um ditado que a mãe de vez em quando repetia. Olhou para direita e disse a si mesmo, vamos nos mexer que soldado parado não ganha soldo, outro ditado da mãe. E assim se pôs a movimentar a carcaça e as ideias que aqui estão impressas para serem lidas, assim se espera.
                        É isso... ou, não é?

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Contos surrealistas 136


Eu hein!

Dia quatro abandonei Kerouac na Estação do Metrô Penha. Não tive dó, deixei lá. Gostaria de ver a cara de quem o encontrou o que teria pensado. Deixei-o entre os bancos da plataforma, nem olhei para trás, assim que o trem encostou entrei rápido. Não tive escolha. Não é a primeira vez que faço isso.
Outro dia deixei Clarice, só que no banco do ônibus. Fui o último a sair e deixei-a numa boa. Outro também que deixei no banco do ônibus foi Palahniuk. É preferível assim a deixar que os cupins o devorem. Houve dois ataques, um me levou Echer, Frazetta, Picasso, Magrite, Érico, Pessoa, Viginia, Lobato e outros que não lembro.
No segundo ataque foram Hugo, Ligya, Bandeira, Drumonnd, Oswaldo, Mário, Quintana, Eça e outros. Então decidi abandoná-los em lugares públicos assim alguém poderá usufruir de uma boa leitura é o que espero.
Para mim livro não tem que ficar em estantes mofando na poeira das traças e nem na fome dos cupins. Tem que ser passado adiante, rodar o mundo, ir de mão em mão para que seja lido e apreciado.
Não é não?
Eu hein!

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...