Uma comédia
nonsense.
01 – Primeiro e
único ato.
Cena 01
Andando de um
lado para outro, Alex esbravejava com sua voz estridente e indignada.
- Isso não tem
nexo, é absurdo. – gritava batendo com as costas da mão no texto. NÃO CONTINUE!
É o que eu digo para mim mesmo, e é o que eu tenho vontade de fazer. Não
continuar. Portanto acho melhor, pensarem onde estão pisando. Isso é um lixo.
Lixo. Onde já se viu um título como esse: Abacates com olho aberto, e
subtítulo: uma comédia nonsense. Quem vai acreditar nisso. É um absurdo.
- É no absurdo
que vivemos o tempo todo. - responde Angel numa atitude dramática.
- Não venha com
essa, não. – retruca Alex.
GWEN JÁ ESTAVA
MASTIGANDO UM BISCOITO, quando perguntou:
- Onde está
Satin. Ninguém sabe dele? Tudo isso SÃO IDIOTICES DO SATIN, SUPONHO QUE VOCÊ
NÃO VAI ACREDITAR EM ABACATES COM OLHO ABERTO. Ou será que alguém acredita
nisso?
- Vê se não
come todos os biscoitos. Não vou comprar outros. Todo ensaio tenho que repor. –
disse Salvador.
Gewn deu
ombros.
- Eu acredito
tanto em abacates assim como acredito no ser humano e na vida.
- Ora, Angel!
Você é uma romântica incurável.
Nisso entra o
Agenor:
- Pessoal, dez
minutos para o ensaio.
- ELE SE
FECHOU, ENVOLVIDO POR UMA TRAMA DE SENTIMENTOS E SENSAÇÕES, E ENTROU EM UM
CASULO LOCALIZADO EM ALGUM CANTO REMOTO DE SUA CONSCIÊNCIA.
- Que isso,
Rafael?
- É a minha
fala, a única em toda a peça e, depois o diretor diz que meu personagem é
importante. Não dá para acreditar.
- Todos os
personagens são importante, isso é verdade.
- Acredito! E
você, Miguel, qual a sua fala?
- O CERTO É QUE
EU NÃO QUERO MAIS FICAR AQUI.
- O que! Você
vai embora, Miguel?
- Não, Angel.
Essa é a minha fala na peça.
- Que susto,
pois o Alex está querendo desistir.
- Mas ele não
pode, é o diretor.
- E daí? Rompe
o contrato e pronto. Ele já fez isso muitas vezes.
Agenor aparece
dando ordem:
- Vamos
pessoal. Hora do ensaio, todos para o palco.
Cena 02
Alex entrou e
fechou a porta. Salvador ainda não tinha chegado. Deu de ombros, já estava
cansado de Salvador. Por outro lado, essa peça que Satin arrumou estava
deixando-o em frangalhos. Onde se viu uma peça só de frases sem sentido,
jogadas no ar, como se fossem balões estourando na plateia. É verdade. Estava
deprimido, rompera o contrato e os produtores exigiram a cabeça dele. Teve que
pagar uma quantia enorme e com isso foi obrigado a aceitar essa merda de peça. Bebia
a sexta dose quando ouviu alguém lhe dizer: NÃO FOSSE PELA CÓLERA, JAMAIS
TERÍAMOS APRENDIDO A NOS CONHECER, UM AO OUTRO. Era Salvador com o manuscrito
da peça embaixo do braço. Estava atrás de um diretor e, propôs a ele dirigir a
peça. Assim se conheceram e, agora estava com dois problemas. Continuar ou não
com a peça e romper com Salvador. Jogou o cigarro na privada, deu descarga,
tomou banho e foi dormir. Amanhã é outro dia, pensou ao colocar a cabeça no
travesseiro.
Cena 03
- O que você
está fazendo, minha filha?
- Estou olhando
essa pintura e tendo uma ideia.
- O sol pode
estragar ela.
- Eu sei, estou
pensando em ilumina-la com luz artificial, acho que ficaria bem na peça.
- Vai levar
isso também? Levou a mesinha, a cadeira de vime... O que mais vai levar? Não
esqueça que é um presente do seu pai para mim.
- Eu sei mãe.
Não esqueço não.
- Essa
companhia não tem dinheiro não?
- Não.
É não tem
dinheiro. Angel esperava fazer um bom trabalho, dar tudo de si, quem sabe surgisse
um olheiro. Entrou na companhia depois de muita procura. Acabara de se formar
e, para se sustentar trabalhou em diversos ramos e atividades fazendo bico aqui
e ali. Portanto esse era o seu primeiro trabalho como atriz, não podia
fracassar e, fazia de tudo, para que a peça, mesmo maluca como dizia o diretor,
fosse estreada. Tanto é que quando o produtor precisou de uma mesa, não pensou
duas vezes, levou a mesinha e a cadeira de vime. Agora tinha a ideia de levar o
quadro para ilustrar a frase que será proferida por ela: ANGEL DÁ AS COSTAS
PARA ELA, SEGURANDO A PINTURA PARA QUE A LUZ DO SOL A ATINJA DE DIFERENTES
ÂNGULOS.
Cena 04
Gwen abriu uma
cerveja e sentou em frente à televisão. Balançou a cabeça meio que enfastiado
sem saber o do por que. Quer dizer, sabia, mas tinha esperança que as coisas
mudassem para melhor, ficar xingando, dando bronca em tudo e em todos não era o
certo. Sentia raiva de Alex. Tem um material bom nas mãos e não sabia aproveitar.
Não acreditava muito nele não, aliás, não confiava nele. Não podia e achava que
não devia romper o contrato. Sua opinião era: aceitou agora tem que cumprir, só
se o projeto não for pra frente.
Cena 05
Salvador estava
nessa por ser amigo de Satin que lhe prometera um emprego. E pelo andar da
carroça tudo lhe dizia que estava trabalhando de graça. Não sabia dizer quem
era o responsável, a quem se dirigir se não recebesse. Tudo porque Satin tinha
o manuscrito de uma peça muito boa e precisava de um diretor. E como Salvador
vivia entre amigos teatrais e dizia conhecer muita gente, Satin pediu ajuda.
- FAREI COMO
PEDE... , disse Salvador.
Salvador entrou
no bar e de cara notou Alex cabisbaixo tomando o seu terceiro ou quarto copo
numa atitude relaxada. Sentou ao seu lado, pediu um uísque e, soltou a frase
que fez com que Alex prestasse atenção a ele. A partir daí, o gelo foi quebrado
e, passaram horas conversando. Ao sair, Salvador tinha ganhado um amigo, um
diretor, um emprego e um lugar para dormir, pelo menos, até a temporada da peça.
No dia seguinte apresentou Satin a Alex e, na semana seguinte, estava definitivamente
morando com Alex.
Cena 06
- Oras! EXCELENTE
TRABALHO, ALIÁS, FIZERA O EMPALHADOR, disse Agenor ao mostrar o gato preto ao
diretor.
- O que você
fez Agenor? Não me vá dizer que matou e mandou empalhar o gato preto.
- Oras! Não só
fiz como ele está aqui. Vocês não estavam precisando de um gato?
- Sim, mas não
precisava chega a esse...
- Oras! Ele
estava só atrapalhando.
- E se aparecer
alguém procurando- o.
- Oras! Não vai
aparecer ninguém.
- Não quero
problema, já chega os que tenho, portanto se vira caso venha alguém reclamá-lo
e, outra coisa, como pagou essa porcaria?
- Oras! Não
paguei.
- O que?
- Oras! É não
paguei. O cara me devia uma grana, agora estamos quites, não me deve mais nada.
Agenor era um
cara simplório, não pensava duas vezes quando tomava uma decisão. Tinha que ser
feito ou, precisava ser feito, porque não fazer. Todos maltratavam o gato, não
gostavam dele, e queriam um empalhado para uma das cenas, então, porque não
matar o felino e empalhar! E foi o que fez. Não tinha remorso, muito menos
arrependimento. Esse era o seu jeito.
Cena 07
Rafael PÔS AS
MÃOS EM CONCHA AO REDOR DA BOCA E UIVOU PARA ELES, AHUUUUUUUU, AHUUUUUUUU. Em
seguida virou para o barman:
- Por favor,
mais uma cerveja.
Rafael entrara
no projeto por falta de opção. Folheava o jornal por folhear quando uma pequena
nota chamou a sua atenção. “Companhia de Teatro Amadorística seleciona pessoal
para compor seu elenco para próxima temporada.” Apresentou-se, fez o teste, foi
selecionado como ator secundário. A peça era um amontoado de palavras que cada
ator tinha que, numa ordem meio que aleatória, dizer em cena. Eram frases
desconexas proferidas como se estivesse declamando sem a importância de
sentirem o que elas significassem. Rafael achou estranho, começando pelo
título: “Abacates com olho aberto: uma comédia nonsense”. Não tinha
experiência, amador se apresentara em produções pequenas, de pouca importância.
E ao pisar pela primeira vez no palco, escreveu no caderno de notas: FIZ ALI
UMA SECRETA PROMESSA. Sorriu ao lembrar-se desse fato. Nisso viu do outro lado
do balcão a loira sorrindo para ele. Instantes depois saiam da boate.
Cena 08
Miguel não
compreendia por que foi escolhido para o papel principal. Não tinha se saído
bem nos testes, por mais que se esforçasse o vazio entre as cenas não o
impressionou como lhe dissera o diretor. Tinha porte, beleza física, sabia
quando e onde colocar a voz nem suave e nem branda. Ouviu dizer que o diretor
se encantou com ele, o que não lhe dizia nada. HÁ PELOS MENOS TRÊS RESPOSTAS
POSSÍVEIS para tentar compreender isso. Primeiro: foi bem nos testes e,
confirmava o que se diziam dele: era bom ator; segundo: conseguira o papel por
sua beleza a ponto de impressionar o diretor, o que não acreditava e, terceiro:
porque ele estava no lugar certo e na hora certa, isto é, tinha que estar ali,
queira ou não. Era o seu destino e, com o destino não se brinca.
Cena 09
Satin não
lembrava o que estava lendo no momento em que teve a ideia da peça. Apenas que,
ao ler a frase: SIM, RESPONDEU MESTRE HORA-. E COM ISSO QUEREM ME IMPRESSIONAR,
escreveu a frase no caderno de notas e, num vapt vupt outras foram aparecendo
espontâneas. Em outras peças fizera isso, entre uma cena e outra, introduziu
frases soltas que nada tinha com a peça e, parece que poucos notaram um ou
outro crítico comentou o fato. Com Abacates Com Olho Aberto corria o risco de
não dar certo, o que seria a ruína total ou, por outro lado, seria estrondoso sucesso,
por isso, assinou com um pseudônimo e se lançou como produtor. E propagou a noticia
que comprara os direitos e, dessa vez, seria o produtor. E, por outro lado, achou
melhor propor a um diretor desconhecido e, com atores não famosos. Por isso,
pediu para Salvador contratar o diretor e todo o elenco. Preferia ficar o mais
longe até a estreia, o que faltava poucos dias.
Cena final
Um mês depois a
peça foi estreada.
Duas semanas
seguintes foi retirada de cartaz, apesar da critica elogiosa e do prêmio para a
melhor atriz, Abacates Com Olho Aberto estava dando prejuízo.
Alex, o
diretor, caiu no anonimato e ninguém mais falou dele.
Angel, atriz
principal, apesar do prêmio, teve um relativo sucesso na televisão e em um ou
dois filmes, sendo logo esquecida.
Gwe, ator
coadjuvante, voltou à sua cidade natal, casou, teve filhos morrendo assim seu
sonho de ator.
Salvador,
contra regra, não conseguiu outro emprego, teve mais alguns casos e, três meses
depois, morreu abandonado no hospital.
Agenor,
assistente de diretor, trabalhou mais uns dois meses e, numa discussão morreu
esfaqueado.
Rafael, ator
secundário, desistiu da profissão de ator, arrumou emprego num escritório, dali
a dois anos se formava em advogado.
Miguel, ator
principal, ainda trabalhou em mais duas peças, trabalhou, também, em televisão
fazendo sucesso, e se aposentou por invalidez, ao fazer uma cena perigosa,
perdeu a perna esquerda.
Satin, o
produtor, foi desmascarado, a mídia descobrira o seu pseudônimo e não teve
piedade, chamando-o de charlatão, plagiador e outros adjetivos, levando-o ao
suicídio.
E, por fim, o
teatro foi transformado em amplo estacionamento.