terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 146


“É fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês! Eu já paguei a conta do meu telefone, eu já paguei por eu falar e já paguei por eu ouvir. Eu já paguei a luz, o gás, o apartamento
Kitnet de um quarto que eu comprei a prestação pela Caixa Federal, au, au, au, eu não sou cachorro não (não, não, não)!
Eu liquidei a prestação do paletó, do meu sapato, da camisa
que eu comprei pra domingar com o meu amor
lá no Cristo Redentor, ela gostou (oh!) e mergulhou (oh!)
E o fim de mês vem outra vez!.” –  È fim de mês, Raul Seixas.

É fim de mês e o ordenado antes de cair na conta já está todo predestinado às dividas para garantir a sobrevivência nossa de cada dia. A vida é suspensa pelas contas automáticas ordenando o que devo ou não devo fazer. Mesmo assim, uma extravagância ou outra é feita para a felicidade interna e egocêntrica, porque como diz o velho deitado: “Mais vale um gosto do que dinheiro no bolso.”  
Acho que pressenti quando o Johnny, o folgado deixou de respirar. De madrugada acordei, não lembro as horas, olhei para o gato todo confortável na caixa que lhe foi preparado e, percebi que estava imóvel, não notava sua respiração. Passei a mão pelo o corpo quando ele deu um miado profundo num misto de rosnado mais para bravo do que consciente do que se passava com ele. Está vivo ainda, pensei. Voltei a dormir. De manhã estava morto. Hoje depois de duas semanas, tenho certeza que aquele momento em que o acarinhei foi o seu último miado.

Impaciente, ando impaciente. Uma impaciência de não conseguir ficar muito tempo imóvel, num mesmo lugar. Por isso o fretado está sendo para mim um suplício. A perna começa a formigar reclamando da posição. Mudo-a de lugar. Segundos depois preciso mudar novamente. Cruzo-a por cima da esquerda forçando os músculos com a finalidade em estender a carne obrigando-a a sentir dor. O que não adianta nada. Volta a formigar. Olho para fora pelo vidro da janela do ônibus tentando prender a atenção ao movimento dos carros, o que não resolve. Abro o livro pela segunda vez e acompanho as aventuras corriqueiras de uma menina de dezenove anos parecendo ser mais velha. Olho o relógio. Impaciente, verifico que já são quase sete e meia e o ônibus nem bem entrou na Consolação. Olho para o cara sentado ao meu lado num sono ferrado pode cair o mundo no precipício do caos humano que ele não está nem aí. Passeio o meu olhar pelos outros bancos, aqueles que a vista consegue alcançar, todos dormem, menos eu. Se ao menos o sujeito fosse para outra poltrona!

Ainda bem que hoje é sexta-feira, melhor ainda, a última sexta-feira do mês quando a firma oferece aos aniversariantes do mês um suculento café que muitos nem almoçam, se empanturram de pães, bolos, salgadinhos e refrigerantes. Assim matam a parte da manhã nos comes e bebes permeado de conversas corriqueiras estreitando cada vez mais o calor da amizade ou, como diz alguém: amigo não, colegas de trabalho. Alinhais, essa semana foi um tal de matar a manhã que não está escrito em gibi nenhum. Mas como disse o poeta: “Tudo vale a pena se a alma não for pequena.” E eu digo: tudo é válido para o bom andamento profissional e, deixo aqui os meus parabéns aos aniversariantes.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 147


Guardo palavras que não devem ser ditas. Estão no canto mais escuro do profundo subconsciente na expectativa que um dia sejam lembradas.
Elas estão lá, eu sei, mas na diária vida de incongruências, às vezes penosas, elas não têm a mínima necessidade ou condição de ser exposta a luz dos olhos do leitor.
Elas reclamam, eu sei principalmente as mais antigas, reclamam, mas o que posso eu, escritor de segunda categoria, fazer por elas?
Nada. Nada posso fazer. Às vezes, as mais exigentes, as inquietas como são as alas femininas, é impossível contê-las, e num rompante de liberdade, invade a privacidade dos dedos pressionando as teclas para que possam ser vistas pelos os olhos do incauto leitor.

Desconhecidas para ele, o leitor se assusta com seus caracteres gráficos, com a flexão nova, com a raiz nunca lida. Não, não há leitor ignorante, o que há é leitor preguiçoso que diante de uma palavra nova não procura saber o significado, a procedência, assim se perde no emaranhado, quase sempre intelectual do escritor. Este, num esnobismo de gênio, esquece que não é o leitor que tem que vir a ele, e, sim, ele que tem que ir onde o leitor está. Assim, muitos morrem esquecidos em prateleiras empoeiradas, quando de longe em longe, é lembrado por um punhado de fãs só pelo simples fato de se acharem gênios da palavra.

Assim, ofereço esse pequeno texto, expressando com palavras simples, os meus parabéns à Érica. Que a felicidades e a paz esteja sempre iluminando seu coração para que possa trilhar o caminho da alegria eterna. Parabéns, menina.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 148

 

Neste dia três de junho, terça-feira, o céu tinge-se de um amarelo avermelhado prenunciando sol. No quadrilátero da janela do ônibus, a manhã se descortina na limpidez das nuvens deslizando ao sabor do vento. Vento carregado de friagem levando para dentro dos ossos o enrijecimento dos nervos numa sofrível tentativa de proteção para não sentir frio.

O ônibus vira para a esquerda e entra na Radial Leste. Cai na correnteza metálica dos aflitos cansados que se imaginam voltando para a casa no fim do dia. Em linha reta, o motorista conduz o ônibus com a responsabilidade de não se atrasar. Os passageiros se entregam ao sono confiante na sua mão que, hábil, desvia das corredeiras indo para águas não turbulentas. Mostrando profissionalismo, confiantes, os passageiros se entregam ao sono profundo. Alguns ressonam expressando em sons inaudíveis dominados pelo profundo sono. De outros nada se ouve. Fora os que se cobrem com cobertores, máscaras para sono ou travesseiro para a cabeça repousar no confortável.

Mãos esgarçam o espaço esticando os nervos adormecidos pela posição mantida por algum tempo. Momentaneamente o pensamento desliza em vários pontos procurando apoio no dissipar a longa viagem. Por uma hora mais ou menos, o corpo entregue ao balanço do veículo, dispersa os sentimentos no sono dolente ou na leitura rasante de algum livro.

Pela janela suja com manchas oleosas, talvez alguma cabeça pesada de sono tenha encostado seus cabelos cansados, vejo o populacho tentando alcançar o destino de cada um. Plena sete horas da manhã, há avalanche de passos que se dirigem aos desconhecidos, alguns com o caminho já traçado, percorrem os limites de sua aflição no corre-corre.

Volto os olhos para as letras do livro. O tédio da leitura me proíbe de avançar duas ou três, forçando, quatro páginas, assim sendo, fecho definitivamente o maçante romance.

Ajeito-me numa posição que acho confortável, solto os ossos enrijecidos de frio, deixo livre os músculos que se apoiam na carne entregue a dolência, procuro num relaxar sentir o peso, o cansaço de todo o corpo, entregando-me ao pulsar das veias jorrando o sangue ao coração. Fecho os olhos, imagino-me num barco frágil descendo a corredeira de sangue, chego até sentir nos lábios o gosto amargo agridoce dos glóbulos na língua empurrando garganta abaixo.

Nisso, ao virar uma veia, deparo com um obstáculo. O barco bate na saliência gordurosa, racha-se ao meio, sou jogado para o alto, logo em seguida despenco vertiginosamente na corredeira vermelha.
Sinto-me perdido, começo afogar, engolindo sangue, a garganta repele a matéria viscosa e, de supetão acordo. Chego ao meu destino. Desço do ônibus e caminho devagar no tempo que ainda me resta.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 149

 

Há certas músicas que encrava na mente que é difícil tirá-la, parecem que não quer mais sair. Às vezes ela fica dias e dias martelando seus acordes e, quando se percebe, você esta cantarolando a meia a voz em qualquer lugar. É o que me acontece nesse momento. Há uma música de um desenho animado, outra paixão minha, além, é claro, estar incluindo na Sétima Arte, que sempre que posso coloco a trilha para ouvir. Vamos ver se vocês reconhecem sobre quem falo nessa primeira estrofe:


“Eu confesso que já fui muito malvada

Era pouco me chamarem só de bruxa

Mas depois, arrependida

Fiquei mais comedida

E até mais generosa e gorducha,

Pode crer!”


Essa cena é o ponto alto do filme, onde pela primeira vez aparece à vilã e, sem rodeios apresente sua ficha dizendo o que quer.
Vamos a mais um trecho:


“Felizmente eu conheço uma magia

Um talento que eu sempre possuí

E hoje é meu oficio

Eu o uso em beneficio

Do infeliz que vem aqui

Patético!”

Ouso dizer até que essa vilã é a melhor de todas as vilãs e vilões que a Disney criou. Depois de certo ostracismo, com filmes que pouco agradaram, a Disney volta ao sucesso com esse estupendo desenho de 1989, adaptando um dos contos infantis mais conhecido. Mais um trecho da música:


“Corações infelizes

Precisam de mim

Uma quer ser mais magrinha

Outro quer a namorada

E eu resolvo?

Claro que sim”

Estou me referindo à Bruxa do Mar, a Úrsula, do desenho A Pequena Sereia, da Disney. O fascinante da cena é que a Úrsula é representada por um polvo gigante, fêmea, e age com uma desenvoltura estupenda, como se pesasse um quilo. Você vendo-a, parece que sente o peso enorme da grande figura, e, no entanto seus gestos e movimentos são mais leve que uma pluma. Isso fica mais característicos quando ela fala sobre a linguagem do corpo e rebolando como uma menina de proporções mínimas, continua cantando:

“O homem abomina tagarelas

Garota caladinha, ele adora

Se a mulher ficar falando

O dia inteiro sufocando

O homem se zanga”


De todos os vilões da Disney, a Úrsula perde ou, está no mesmo patamar da Bruxa Malvada da Bela Adormecida, outro desenho em que, tanto as cores, os ângulos, a profundidade, a caracterização estupenda da bruxa, é também o ponto alto, nota dez.

E o que vou dizer aqui não é nenhuma novidade, já foi tido por muitos psicólogos, psiquiatras e estudiosos do assunto. Na luta contra o bem e o mal, é necessário que se tenha um bom vilão, senão a história não tem graça nenhuma. Então em qualquer história, a minha, a tua, a dele, a dela, é preciso que se tenha um vilão para que a vida seja interessante, claro que nossos vilões são bem diferentes dos filmes, principalmente dos desenhos animados. Essa teoria, se é que posso chamar de teoria, não está bem formulada, é preciso que seja bem estudada, não se pode desenvolvê-la em apenas meia hora, em poucas linhas, não acham?
Boa quarta-feira para todos, seja bem vinda Cacilda, e vamos que vamos, não podemos perder o trem das adversidades.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 150


Transpira o meio dia na pausa do almoço. Corre-se no tempo que não espera retardatários esquecidos do papel que representam. Transpiram-se as preocupações, onde os passos nas calçadas íngremes revelam-se numa sociedade burocrática que, implantada conscientemente em cada indivíduo, torná-lo-á em zumbi controlado.
Deslizo nas palavras contornando as asperezas afiadas mais que navalha de barbeiro. Revelo nas reentrâncias a agudeza de senti-las na totalidade de ser somente o que são: palavras.
Dentro da vida os gestos se materializam na proporção dos sentimentos emitidos ou revelados no grupo a que se pertence. Marginalizado grita a voz ausente do amor escondido nos cantos da cidade. Vou ao encontro do nada a procura de você e vejo o corpo da indiferença na sarjeta mendigando caricias a peso de ouro.
Esfolo a carne nas pedras da alma endurecida pela ganância de se querer cada vez mais. Ridículo o que eu disse? Até pode ser, mas o caso é que se precisa de muita coisa e nada se recebe.
Precisa-se de alimento para fomentar o medo de viver. Precisa-se da vida para que tenhamos nossa companheira à morte nos seguindo a espera do seu momento. Precisa-se do amor fundindo carnes para saciar a alma de culpa e pecado. Precisa-se da criança para que o futuro não seja interrompido na brutalidade da vida. Precisa-se do indivíduo contra o indivíduo reclamando seu lugar na sociedade de luxo e podridão. Precisa-se do homem com sua arrogância de macho para perpetuar a espécie. Precisa-se da mulher para agasalhar a semente que a fará complementar-se com a terra.

Na incompetência do sentimento está a destruição da humanidade.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 151


Os dedos silenciosos pousam no espaço o qual, acostumado, divergem os pensamentos em vários sentidos sem se preocupar com que está sendo digitando.

Pousam esquecidos de que são apenas instrumentos no final da mão, cujos impulsos acionam nervos e músculos pressionando as teclas ao comando recebido.

Pousam na fuga das palavras mal selecionadas com seus arquétipos originais e, na confluência de existir onde possa fixar seus caracteres, se alojam no hemisfério ao sentir o prosaico das letras idênticas.

Repousam no percurso único e conhecido por todos como aviso de que existem no espaço sinalizando ideias.

Carregam os pontos gráficos impregnado de todos os sentires de cada cidadão existente na cosmografia do universo.

O filósofo chora a perda de seus escritos na areia da incompreensão e presencia o mundo em guerra.

Ninguém dá importância a ele e muito menos ao seu choro convulsivo.
Cada um tem a sua guerra que nunca termina.

Para isso, cada um determina seus gestos na concretização da rotina obrigatória de sentir-se integrante ao grupo a que pertence.
E, dessa maneira, cria-se a chama da existência cravejando sua marca nos objetos, nos móveis, nos edifícios, nas ruas, vielas e parques e praças publicas.

No futuro abstrato em conjunção ao nirvana da alma, ficará o DNA comprovando nossas vidas de loucos assassinos ecológicos.
Nesse dia morrerei dez vezes abraçando com felicidade a morte.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 152

 

A música estilhaça o meio-dia em cristais de fragmentos no chão da agonia dedilhando o sangue em notas musicais.

Na voz da cantora o medo da solidão avança no teu corpo cheio de mistérios e magia conduzindo-me num puro enleio.

Envolve-me a fruição dos pelos nas fibras do teu desejo em conjunção aos meus de macho faminto carregado de emoção.

Devoro-te a cada renascer da Fênix e conjugo o verbo satisfação em ter-me dentro de ti amando-te com devoção.

Devoro-te segundo a segundo em intenso viver na proporção em que somos alimentados pelo fluídico prazer.

Do teu ventre colho o aroma da maçã adocicada de ternura cálida a apaziguar minha língua ávida.

Sorvo o leite num orgasmo delirante na boca do perigo que num grito lacerante rompe as grades da prisão.

Aquieto-me no pulsar das tuas veias e recebo o fluxo da paz nas filigranas do sol a iluminar praças e ruas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 153

 

Então é isso. E nisso ficou. Lembrou que não sabia mais escrever. Lembrou que seus dedos apenas passeavam pelas letras pretas do pequeno teclado como se passeasse por outra superfície qualquer. Lembrou com amargura. E guardou essa lembrança como segredo só dele, não poderia passar para mais ninguém. Quem conhecimento tivesse dessa lembrança não mais ousaria ler o que ele viesse desse dia em diante escrever. Parou no meio da frase. Pois não eram frases que surgiam em sua mente, e sim, palavras desconjuntadas sem significados, palavras que ele não poderia de maneira nenhuma errar ao digitá-las. As palavras pulavam de um lugar para o outro, não pousavam apenas numa sequencia de entendimento, pulavam aleatoriamente levando-o a exercícios forçado aumentando o esforço em segura-las, em aprisioná-las nas pontas dos dedos sem uma sequencia determinada pela razão. Então é isso, disse sua mente para ele mesmo. Se é isso então não tenho nada para escrever. E assim, desconsolado, imprimiu lentamente um ponto, um final ponto obrigando-o a parar. E assim parou, não escreveu mais. Fechou o programa. Desligou o micro. E nada mais fez daquele dia em diante. Fim.

domingo, 19 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 154

  

Bom dia.

Bom dia.

Tudo bem?

Sim, tudo.

Escuta será que poderia responder uma pergunta?

Claro. Diga.

O que é o amor?

O amor? Caramba cara! Olha o amor é uma fruta estragada que mesmo assim nós comemos.

Exato. Estou comendo essa fruta.

Chato, hein!

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 155

 

Empenhado em escrever... O escrever é pulsão encravada nos fios da pele... Devo e preciso escrever, disse a si mesmo. O que propriamente, é que são elas, como se diz no jargão plebeu. É! O que escrever nesta modorra manhã nada ensolarada, onde a temperatura meio baixa fustiga os ossos dos prédios e queima as estruturas da alma. Levado pelo pensamento ordena as palavras uma atrás da outra sem esboço, sem técnica criativa que seja verossímil. Enquanto as mãos executam mecânicos gestos, a mente pinça palavras que os dedos pressionam no teclado preto o seu poder. Sim, ele escreve, pois o escrever está paralelo ao viver intenso nos minutos que respira e, em certos momentos, se interpenetra um no outro o deixando confuso sem saber se vive para escrever ou se escreve para viver.

Prisioneiro das adversidades que não esperava fosse acontecer se aquiesce sobre a pressão dos movimentos alheios como se ferro ardendo em brasa o queimasse. Escreve na superfície lisa das pedras as quais é obrigado a se desviar. Escreve na amplidão da avenida vazia de solidariedade que corrói o asfalto quente da miséria humana. Não serão os perigos, os buracos, as pedras falsas que o fará desistir, de cair em depressão assassina, não será. Com muito custo entendeu que o sentir pena de si mesmo, destruía seu potencial criativo, seu valor humano como pessoa.
Assim elaborou planos, teorias, sofismas e outros ismos, deixando no limbo os porquês que o atormentava. Correu meandros deixando-se levar na esperança de fortalecer a carne dilacerada pelo desespero. Por sua teimosia sofreu e fez outros sofrerem por pura falta de paciência. Não se arrepende, como sempre diz: “não me arrependo de nada, me arrependo daquilo que não fiz”, e se houver reencarnação, quer voltar e fazer tudo o que não fez nesta vida. Entende que lhe faltou na estrutura o cálcio mais rigoroso do amor e, o pilar fortificando a paciência.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 156

 

Até entendia o que lhe faltava, mas precisava de estimulo, de motivos contundentes para que o entender fosse o que deveria ser. Espancava o cérebro com palavras desastrosas a indicar o caminho correto. No entanto, na sua visão de poeta amador, seguia caminho diferente, onde a timidez se tornava mais patente, mais crucial tolhendo os movimentos. Sofria, e como sofria ao sentir as ações reprimidas inconscientemente. Lutava contra isso, porém era luta sofrível, não avançava, permanecia sempre no mesmo lugar. O corpo seguia os limites da existência física deslumbrando olhos femininos sexualmente. Reprimia a curiosidade no escuro do aposento satisfazendo as fibras excitadas.

Não desprezava as probabilidades, olhava uma por uma na delicadeza da rotina sem perder os detalhes, confiscando os meandros das linhas escuras ou claras dos edifícios, ruas, esquinas, praças da vida humana. Aberto as experiências em todos os sentidos, trafegava na linha do improvável confiando no resultado. O que nem sempre satisfazia o pensamento físico e nem o corpo intelectual. Caia em pequenas depressões sentimentais. Às vezes ficava semanas na deriva da calmaria deixando-se levar pela brisa do negativismo. Escorado no processo criativo de sobrevivente, colocava um pé a frente do outro cauteloso, sem temer onde pisava. Decidido prosseguia subindo o andaime firme da sabedoria.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 157

 O corpo dolorido dava a impressão de que tivesse sido amassado por um rolo compressor. Os olhos impacientes não permaneciam abertos. A todo instante a escuridão da sonolência apagava a claridade. Faz anos que o corpo não tem o descanso merecido. Era como se tivesse carregado sacos de areia por horas infindáveis. Na verdade, no meio da madrugada, despertou com essa sensação. Levantou tateando os contornos da sombra, tropeçando nos móveis, e, lentamente abriu a porta do quintal com a certeza de encontrar as pedras amontoadas no muro como prova da realidade. Mas o que encontrou para sua surpresa, foi à luz prateada da lua cristalizando as gotículas de orvalho, como pequenas lágrimas, sobre todas as rosas vermelhas da roseira. Suspirou agradecido, fora somente um sonho. Voltou para a cama e dormiu   profundamente.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 158

 

Encolhido no cobertor sujo de suores fétidos dormia sossegado em pleno meio dia ensolarado com uma temperatura baixa fazendo-o se enrolar mais ainda no pano sujo. Depois de muito andar encontrara aquele cantinho que o protegia do vento. Nisso sentiu um pé cutucando-o incessantemente. Precisava dormir enganar a fome que comia suas entranhas. Quantos dias estava sem comer? Não tinha noção, não sabia. O frio penetrava entre as fibras do cobertor nauseabundo ferindo a carne magra. Virou o corpo tentando fugir do pé cutucando-o. Não adiantou, o maldito continuava. Merda!  Não há sossego nesta terra de cimento e lágrimas! Enfiou a cabeça debaixo do cobertor expondo o nariz ao fedorento cheiro de urina. Caralho será que não entendem que precisava somente dormir! Por que não me esquecem neste canto da vida emparedado na fria realidade da carne nua.
- Ei! Cara vai ficar muito tempo deitado nesse frio?

Não distinguiu o som que parecia vinha de longe de lugares estranhos.
- Ahn! Que foi? – perguntou arrastando a voz pelo sono do álcool.
Apertando o olho com uma das mãos, viu a sua frente o segurança, sujeito grande, corpulento, terno preto, óculos escuros, voz forte mandona.
- O vagabundo, vai levantar daí. Chispa, aqui não é lugar para mendigo, não!

Enquanto falava cutucava violentamente o pobre do homem que, levantando devagar, pois não tinha pressa, pegou os seus preciosos trapos. Olhou feio para o segurança que apenas cumpria ordem. Sabia disso, como sabia que o segurança estava vexado por estar fazendo o que, talvez, não quisesse fazer. Sentia olhos que observavam e retrucavam o seu procedimento. Realmente não queria. Ao receber a ordem, quis recusar, mas pensou: se eu for demitido? Como arrumar outro emprego e, até posso acabar como esse aí, e isso não queria, tinha mulher e filhos para sustentar. Portanto teve que executar a ordem e, também, ali não era lugar para vagabundo nenhum dormir. Paciente, esperou o mendigo pegar suas coisas, sob os olhares dos transeuntes curiosos. Assim que o pobre coitado recolheu seus poucos pertences, calmamente trôpego se pôs a caminhar. O segurança concluiu que fora melhor assim. Já estava se dirigindo ao prédio quanto o mendigo gritou:
- Oh, meu, escuta, desejo que você seja feliz, - e lançou um sorriso de luz ao segurança.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 159

 

Uma das coisas que notava de diferente da capital com o interior, era talvez o vento, era o que pensava sobre a mãe. A dança do vento, como dizia.  Ela não via perigo no raio, na chuva, no vento, no frio ou no calor. Fazia com que, as crianças, aceitassem a voz da natureza como um fato único e belo, como algo que se vê pela única vez, como sendo inesquecível, para ser lembrando sempre.
- Ah! Mas todo o ano chove, dizíamos.

- Todo ano faz frio.

- Venta quase todos os dias.

Minha mãe respondia calmamente:

- Sim, todos os anos faz frio, todo ano chove, todos os dias venta, mas se repararem não são sempre iguais. Escutem com os olhos os volteios das coisas. Sinta na pele o arrepio do frio ou do calor. Quando vocês tiverem essa capacidade verão a diferença, notarão que nem tudo é igual. Observe a dança das folhas, a dança ao vento que elas fazem. Vejam que uma vai para um lado, a outra a segue, uma terceira cai tudo isso. Notem a coreografia do vento levantando os grãos da areia da estrada, ou o arrepio das árvores se inclinando sob o seu comando.

Nascida, criada em fazenda, partilhando do contato da natureza até a fase adulta quando precisou se mudar para a cidade após o casamento e, logo depois, sendo levada para a capital, nunca demonstrou desgosto ou que estivesse sofrendo com a mudança.
Anos depois, quando estava com seus vinte e poucos anos, esperando que um temporal passasse para sair, olhando o vento carregando papéis, seixos de restos humanos no asfalto, levantando uma poeira cinza, lembrou da dança ao vento. Virando-se para a mãe que ao lado dele também observava a tempestade, perguntou:
- Então, mãe, depois de todos esses anos a senhora ainda acredita

na dança ao vento das folhas?

A mãe com seus olhos verdes, pequena ao lado dele, respondeu melancolicamente firme:

- Nunca devemos desacreditar daquilo que amamos.

- Mas a senhora ainda percebe ou nota diferença na dança ao vento, como dizia para nós quando criança.

- O que você acha meu filho?

- Não sei, mãe. Penso que sim.

- Se você pensa assim, assim é. – respondeu.

Dessa maneira, nunca ficou sabendo se a mãe ainda trazia dentro de si aquela poesia de antigamente que encantava a ele e aos primos. Mas será que foi a mãe que mudou ou ele que não percebeu a mudança que se processara nele, transformando-o no que era hoje.

E, parado na calçada esperando o semáforo abrir, com as mãos nos bolsos por causa do frio, reparou no vento ao levantar um pouco de poeira onde a calçada estava sendo reformada. Ficou observando os volteios da terra suja, e certificou-se que fora ele que se transformara, mas ainda trazia dentro de si um pouco do calor poético que mãe transmitiu a ele.

Uma onda nostálgica invadiu seu coração e, sorridente atravessou a rua satisfeito com ele e, por que não, com a vida também.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 160


Teu olhar de cálida luz envolve-o de escuridão onde o medo dos passos imprimiu marcas na areia da solidão.

O medo é sempre ao acordar nas manhãs de sol ou, nas manhãs de ensolarada bruma de friorenta chuva ao molhar os ossos feridos pela lança da mágoa.

Teu olhar de cálida luz revelou a ele os insignificantes vãos cheios de probabilidades pequenas e importantes.

Vãos que aos poucos se tornaram maiores que as probabilidades em preenchê-los no conjunto dos gestos rotineiros.

Teu olhar de cálida luz, aquece-o mas não aquece o faminto que mais uma vez se encolhe junto à parede fugindo do frio com um mero cobertor.

Ao passar por ele, olhou-o penalizado, não por ver o coitado ao relento, mas pelo fato em sim, perguntando-se como pode uma pessoa chegar a uma situação assim?

E se apropriando um pouco do teu olhar de cálida luz, mentalmente transmitiu para a alma daquele corpo enrolado junto à parede fugindo do frio, um pouco de luz que o aquecia.

Ele seguiu seus passos de todos os dias pensando, será que o segurança mais uma vez vai enxotar o coitado daí novamente?
Só saberá ao sair para o almoço.

Bem-aventurados os felizes em suas casas cheios de cobertores, porque deles é o reino do inferno.

Bem-aventurados os infelizes sem suas casas vazias de cobertores, porque deles é o reino dos céus.

Amém.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 161

 

Atravessou a avenida. Ao pisar no asfalto foi dominado pela grandeza da arquitetura dos veículos parados pela força da cor. Olhou a direita. Ausência de vidas, vazio de alma na busca de alguma coisa. Todos buscam alguma coisa. Até ele, mesmo não sabendo o que seja esse algo, não perdia a esperança. Chegando à outra margem do rio escuro de petróleo, não olhou para trás quando as piranhas avançaram atropelando os retardatários. Não podia perder tempo com fugacidade. Assim estacionou a pressa ao lado do edifício. Chamou o elevador e subiu para a prisão de todos os dias.
Sentado em frente ao computador idealizou o teorema das coisas sem se preocupar com distorções. Querendo ou não, as distorções surgiriam por mais simples ou mais complicados que fossem os cálculos. Não podia se entreter com baboseiras. Enfrentava os problemas de cabeça erguida sem denotar cansaço. Anotava toda e qualquer alteração para no futuro não repetir os mesmos erros. Anotava, já tinha dez cadernos de anotações.

No yesterday da vida pouco se preocupava. Sua atenção estava mais voltada para o today de todos os santos momentos. Light my fire pede ela sem entender as consequências do ato. Sorri com graça na perfeição dos lábios vermelhos sensuais. E, ficou deitado no espaço do corpo ouvindo a canção da alma elevando-o no espaço pétreo da cidade cinzenta a qual ele amava.
Up, up dizia, e ela retrucava, não agora é minha vez de up, vamos mudar. Não gosto de monotonia. Assim que terminaram, sem piedade ela se despediu rasgando um longo e poderoso good bye.
His heart sangrou red manchando o white de sua pele envenenada pela beer gelada no pub da Consolação.

sábado, 11 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 162

 

Atravessou a rua. Nos passos a cadencia da vida presa no asfalto livre dos automóveis era mais intensa. À direita, o rio preso se perdia ao longo do olhar. À esquerda, a água barrada pelo vermelho do farol proporcionava liberdade. À frente, estava o vai e vem dos aventureiros na pressa de alcançarem as margens da vida. De um jeito ou de outro, todos alcançam sua margem, pensou ao pisar a calçada.
Depois da reforma, a calçada parecia dar maior liberdade, como se ele fosse grande, mas não de proporção física, e sim, de atitude, de confiança, de... Notou que o mendigo não estava deitado rente a parede. O segurança não precisa ter mais o trabalho..., conseguira enxotar o coitado, pensou ao pisar no primeiro degrau. Estava frio, garoando, mesmo assim não quis entrar pela garagem como muitos faziam. Não sabia por que não via vantagem nenhuma, depois, não era carga que devesse entrar pela área de serviço. Tudo bem, não era funcionário importante, mas também não se considerava os últimos dos últimos. Bom, cada um faz o que bem entende. Passou pela catraca, chamou o elevador e, instantes depois, ligava o micro.
Ouviu um zumbido bem fino e logo em seguida o som característico do sistema. Estranhou, não conseguia ver o micro, a beirada da mesa dava a impressão de estar longe. Olhou em volta. Tudo escuro! Apagaram as luzes? Gozado sentia o tecido da cadeira envolvendo-o todo. Ergueu a cabeça. Lá de cima vinha um filete de luz. Dirigiu-se para a direção da luz. Segurava no quadriculado do tecido e com muito esforço subia. Ao chegar ao topo da cadeira, viu com horror o que tinha acontecido. Ele diminuirá de tamanho, estava menor que a ponta da caneta esferográfica.

Como? Encolherá? Por quê? Ah! Descobriu por que. Olhou para cima e viu dois olhos castanhos em cima dele.

- Escuta aqui, o escritor medíocre. Essa história de encolhe, estica, diminui, aumenta já está totalmente ultrapassado. Ta pensando que aqui é Hollywood, é?

- Não é.

- Ainda bem que reconhece. Então por que me encolheu?

- Bom, é que achei...

- Não tem argumento para se explicar, não é mesmo?

- Não é isso...

- O que é então?

- Porra meu...

- Olha o palavrão, tem muitos leitores que não gosta.

- Ta certo, meu. Mas já reparou que na literatura brasileira não tem nada igual a isso?

- Não sei e não posso responder. Sou uma criação sua...

- Nem na literatura como no cinema.

- Ah! Você não quer igualar o cinema brasileiro com o internacional. Até que o nosso cinema cresceu bastante.

- Como você sabe se é apenas um personagem.

- Ta certo, sou um personagem, mas só que você se esquece que sou uma criação sua, então tenho alguma coisa de você. Vamos dizer sou seu inconsciente.

- Meu inconsciente é!!!

- Olha, escuta o escritor de poucos leitores...

- Pelos menos tenho alguém que me lê.

- Por insistência sua. Mas isso não vem ao acaso. Quero saber como vai me tirar dessa situação. Aliás, me criou assim como a história, acho que você tem que dar um fim, tanto a história como a mim. Estou certo?

- Está certo.

- Então coloque sua cachola pra funcionar que não quero ficar aqui nessa cadeira que aliás, tem o cheiro da tua bunda, nem mais um segundo.
Dizendo isso, ele se virou. Foi então que viu o fone de ouvido. Pensou:
- Vou me dependurar por ele e chego até a mesa.

E assim ele fez, em pouco tempo, estava em cima da mesa. E agora? Começava a sentir fome. Precisava comer alguma coisa. Onde arranjaria comida? Lembrou! Com a Camila. Dito e feito. Subiu pelas pastas, atravessou o espaço aberto que dividia as baias. Por sorte, naquele momento, a Camila saboreava biscoitos cujos farelos caiam na mesa. Correu para lá e já começava a se alimentar, quando a mão dela se aproximou jogando-o longe com as migalhas. Seu corpo girou no ar, bateu na ponta da caneta, rolou mais um pouco, e ficou imóvel.

Lentamente distinguia um clarão de luz. Lentamente seus olhos foram abrindo. Lentamente reconheceu os rostos que o observavam. Lentamente seus lábios se separaram. Lentamente pronunciou:
- O que foi? Onde estou?

- Você está no hospital.

- O que aconteceu?

- Você caiu e bateu a cabeça.

- Como?

- É você caiu e bateu a cabeça.

- E como aconteceu?

- Ora! Quantas vezes te falei para você não deixar caixa nenhuma atrapalhando a passagem?

- Várias vezes.

- Então, pois é, você tropeçou numa caixa e bateu a cabeça na mesa e desmaiou. Por sorte não foi com gravidade.

- É!?

- É.

Nisso dois olhos castanhos pousaram nele.

- Ah! Você ainda está ai? Tire-me daqui. Afinal sou seu personagem. Quero sair daqui.

No entanto não pode ouvir a resposta. Apenas ouviu uma pequena risada de satisfação.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 163


Mais uma vez abriu o Word. Mais uma vez o espetáculo estava começando. Seus olhos pretos castanhos claros se fixaram no cursor. Por um bom tempo ficou extático no piscar insistente. Depois olhou em volta por cima das divisórias das baias. Tudo pronto para o inicio da função. Só que nesse teatro não tem sinal sonoro avisando os atores e público do inicio. Não tem. E muito menos público. Nesse teatro do absurdo, no qual, os atores são prisioneiros de si mesmos, o espetáculo começa logo na entrada, onde cada um, ao passar o crachá anunciando sua presença, já incorpora o personagem entrando no clima da peça. Não há figurino especial, assim que entram sob as luzes dos refletores, cada ator se transmuda, veste seu figurino próprio durante oito horas de encenação. E também não tem marcação dizendo o que cada um deverá fazer, não tem, isto é, cada ator tem seu lugar, sua mesa de trabalho, fazendo sua obrigação durante oito horas, com interrupção ao meio dia para o almoço até à uma hora, reiniciando o espetáculo até às dezessete horas.

Conforme o enfoque que cada ator impingir ao personagem, pode-se dizer que há quase de tudo, desde comédia até drama sensacionalista. Há um leque de variedades, uns ficam somente sentados, outros falam mais que vitrola descontrolada, alguns andam o tempo todo, há os ranzinzas, os maus humorados contando os dias, há os humoristas com suas piadas ridículas, há os contadores de causos, os paqueradores famintos de carne viva, enfim, tudo o que se possa imaginar. Poucos são os que não desempenham bem o papel, quando isso acontece, o que é raro, são dispensados. Não há um premio especifico para quem representa melhor, mas há um premio para quem consegue permanecer mais tempo no seu papel, para esses, são distribuídos uma placa comemorativa e certa quantia em dinheiro. Mas, essas premiações não é todo o ano que ocorre.

Há também os ambiciosos, os que não se contentam com o seu papel. Estes fazem de tudo para alcançar o objetivo focado. Pouco se importando com isto ou com aquilo, querem e pronto, é claro, não perdem nenhuma oportunidade. Há também os apáticos, os que nada desejam apenas ficar na humilde função em foi colocado, furando papeis por mais de vinte anos, sem ambicionar nada, apenas cumprindo a obrigação o melhor que pode.

É um espetáculo deprimente, cansativo, absurdo, sem atrativo, a não ser, para os atores que amam o que fazem.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 164

 

Se você não quer sentir dor, não pense na dor. Mas só de pensar em não ter dor é uma dor maior do que sentir dor. Até acredito um pouco nisso, pois se você está feliz, de bem com a vida, não sentirá dor. Como diz Nuno Cobra: a vida é alegria, é prazer, e vida quer dizer saúde, portanto saúde é alegria, é ter prazer em fazer as coisas seja ela qual for, é a satisfação em ver o dia brilhando ou nublado ou não, é encontrar nas coisas ao teu redor a potencialidade em viver, em estar presente nos acontecimentos que te envolve. Não ter saúde, é estar sempre reclamando, não ter prazer em fazer as coisas, tudo será sempre uma dificuldade, um empecilho, haverá sempre uma pedra no caminho, e uma pessoa não saudável não é boa companheira, traz uma carga negativa muito forte.

Saúde é encontrar em tudo e em todos e em qualquer situação a beleza, o mistério do que há escondido nos entremeios de um sorriso, como no choro de tristeza, ou no choro de morte. Em tudo há o mistério e, esse mistério que poucos conseguem decifrar, é que faz a vida maravilhosa, instigante, atraente. As contradições, desde que não seja negativamente, é saudável, é mola a impulsionar os passos no caminho correto.

Aquele que tem saúde tem a alegria em viver. Tem sempre o sorriso nos lábios preparado para enfrentar qualquer situação. Tem no semblante a luz da vida iluminando os passos aos necessitados. Tem a paz no coração distribuindo amor e solidariedade.
É isso, e assim será àqueles que querem a paz, e como diz um amigo: A PAZ É POSSÍVEL.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 165


Fechou o livro lentamente pensativo. Na capa a estampa do quadro famoso do pintor Vermeer, A Moça do Brinco de Pérola. Olhou os prédios cinza escuros ou pichados ou abandonados a espera de demolição ou de serem novamente ocupados, com suas preocupações misteriosas escondidas por janelas fechadas. Como seria viver numa época como aquela? Como seria viver em 1767, como descrita no livro? Será que o quadro fora mesmo pintado daquele jeito? Não sabia, apenas podia confiar nos detalhes que a escritora pesquisou. Mas uma coisa ele aconselha. Não assista primeiro ao filme para depois ler o livro. Não é a maneira certa a fazer. Pois ao ler o livro o que vai prevalecer é a visão do diretor, você não conseguirá criar a sua própria visão. Fora assim com As Horas e agora, apesar de não ser tanto, com a Moça do Brinco de Pérola. É que Tracy Chevalier soube com mestria conduzir a história fazendo com o que o livro se supere ao filme ou, melhor dizendo, o filme não conseguiu se superar ao livro. O que aconteceu diferente com As Horas. O filme é bem melhor que o livro. Portanto, um conselho, ler primeiro o livro e depois assistir o filme.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 166


Com suas ideias revolucionárias, ele movimenta moléculas no espaço que ocupa. Não, não é isso o que queria escrever, não dessa maneira crua, sem poesia. Queria escrever sem pudor. Queria escrever despojado do que estivesse sentindo, escrever sem que o sorriso invadisse o plano da linha horizontal. Deveria ser um escrever longo, comprido como a câmara focaliza o horizonte num amplo ângulo só. E na solidão do espaço dissesse tudo o que tinha para dizer.

Um escrever na linha melódica do tempo carregando-o longe dos problemas. Um escrever sem símbolos, sem metáforas, sem silogismos, sem preposições. Ter no peito a singeleza das palavras como às palavras são. Simplesmente palavras. Palavras intensas no fogo da paixão consumindo palavras silenciosas. Nesse quieto silencio encontrar-se consigo mesmo, sem interferência nenhuma. Seguir, aliás, era o que fazia não desistir, seguir; seguir a música vinte e quatro horas. A música, alimento para sustentar a carne nos ossos que, volta e meia, despregava molemente abalando os nervos.
E como o sangue, os nervos pulsam freneticamente revelando-o a vida que ele tem e não deveria nunca – não gosta dessa palavra – deixar que ela o domine. Tem que conviver com a vida, seja intensa, prosaica, moderada, medíocre, fútil, e outros itens que não conseguia verbalizar. Tem que conviver com a vida para não cair no limite do suicídio e engolir palavras indesejadas.

Sendo organizado, às vezes se perdia no emaranhado das palavras. Não se desesperava. Aprendeu que o desespero traz problemas nunca soluções.

O que podia fazer era ler. Pegou o primeiro livro, o que estava em cima da pilha e, foi então que notou: estava com a leitura atrasada. Pois a pilha aumentava assustadoramente.

Pegou o grosso. O livro de capa verde, edição de 1949, Os Parasitas, de Daphine Du Maurier.  Não se lembrava de ter lido algo dela. O que lhe vinha à memória era um trecho, só não sabia qual o romance ou fora um conto. A personagem principal ao passar por um mendigo deposita em suas mãos uma nota de valor grande e, por causa desse gesto, o mendigo é assassinado por outro mendigo que lhe rouba a nota. Essa cena ficou marcado em sua mente. Não sabia de que romance era. Além do que, dois romances dela foram adaptados para as telas pelo mestre do suspense: Hitchcock, um, considerado obra-prima: Os Pássaros, e o outro, Rebeca - Mulher Inesquecível.
Portanto, como sempre acontecia se embrenhava na história a ponto de se integrar ao personagem, seja ele feminino ou masculino, sentindo nos nervos a solidez da carne psicologicamente como se fosse ele. Perdia-se no meandro arquitetamente planejado pela escritora. Desenvolvia as cenas minuciosamente como se fosse suas cenas, como se fosse ele que dirigia, que criava as minúcias do romance dando o encanto que prendia o leitor.

Essa sensação de poder, de sentir-se quase um Deus, terminava quando virava a última página do livro.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 167


Niall na página 32, do capítulo III, disse:

- Tive aquela esquisita sensação, que costumava sentir quando criança e que não voltava desde muitos anos... A sensação de que tudo isso aconteceu antes.

- Acontece muitas vezes comigo – disse Maria. – Vem de repente, como um fantasma roçando a gente e indo embora outra vez, deixando um mal-estar. (Os parasitas, Daphine Du Maurier).
Ao ler essas linhas, teve a nítida percepção que isso também já se passara com ele, e que agora, há muito, muito tempo, não tinha mais essa sensação. Quando andava pelos meandros soturnos do espiritismo, costumava ouvir que essa sensação era prova de que existiam vidas anteriores. Era prova tênue da reencarnação. Prova nada consistente dizia para si mesmo. Será...? Por que não tinha mais essa sensação esquisita? Nunca mais afirmou: parece que já estive aqui ou, acho que já passei por uma situação igual a essa.
O que fez quebrar essa cadeia de que já teve vidas passadas? A desilusão de que não existe Deus? De que a religião é apenas um sustento para os fracos de espírito com medo terrível de seus desejos e ações? Conseguiu se livrar dos seus desejos pressionados pelo pecado? Quanto a isso tinha absoluta certeza que sim. Quer dizer. Descobriu que não existe pecado. Tinha uma noção romântica ultrapassada da vida. Relembrando os fatos, colocando ordem as lembranças, tanto as boas como as más, espantou-se com a transformação. Assim como perderá a inocência infantil com a primeira ereção, e depois, a juventude aos vinte quatros anos com a descoberta do sexo e, a maturidade, quando casou aos quarenta anos, trazia a consciência burguesa encravado nele. Era esse acontecer atrasado, em sua opinião, que o prejudicava. Mas por quê? Destino?

Olhou mais uma vez para ele mesmo. Não distinguiu nada do que estava se sentindo. O sentir não batia com o físico. Fechou a porta que poderia proporcionar um novo caminho. Fechou a porta inconscientemente, não percebeu a incongruência dos fatos fazendo-o se sentir deprimido por não alcançar o desejado. Mas, para que, se ele mesmo não sabia o que queria alcançar?  

No conformismo clorofórmico dos sentidos, abriu a terceira garrafa de vinho, ligou o som, colocou um cd do Floyd, The dark side of the moon, deitou no sofá que não era azul, mas confortável e deixou que a música invadisse suas entranhas profundamente rasgando sua carne nua. 

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 168

 

Não tendo o que fazer com os dedos impacientes a alisar as letras brancas no teclado preto, pôs-se a pensar no que deveria eles escrever na sucessão dos seus movimentos. Isto é, não se preocupou quais letras fosse os dedos pressionarem, contando que saíssem na tela amorfa do monitor numa sequencia lógica, assim como a lógica de viver não tem sequencia, pousou o sentimento no desvão das possibilidades que lhe pudessem concatenar o alinhavo dos seus dizeres.

Colocou-se no aconchego da cadeira cujo espaldar chegava até o meio das costas, reclinou-se na massa quente do meio dia, esticou os braços acima da cabeça, e, num lânguido movimento proporcionou ao pensamento divagar a esmo por sobre os papéis em cima da mesa, passando em seguida para os lápis e canetas numa disputa de ordem em que foi obrigado dar atenção ao telefone, ao grampeador, ao perfurador, e ao restante de utensílios que sua necessidade, no dia a dia, veria utilizar.

Num volteio de cento e cinquenta graus, deslanchou o olhar pelo ambiente meio vazio de sobrevivência humana, adquirindo consciência dos fatos obrigatórios correspondentes a cada um.
Não deu importância, tanto aos fatos como a sobrevivência humana, que nesse momento, aos poucos adentrava na sala interrompendo estritamente o silêncio amigo de escritores, pintores, poetas e filósofos.

Assim sendo, deu por encerrada suas divagações, escrevendo o último parágrafo, clicando em Arquivo, Salvar e, em seguida encerrou o Word, e fechou o micro fazendo o branco do monitor ser invadido pelo preto.

Sorriu se satisfeito não sabia, mas sorriu e se congratulou pelo fato de mais uma vez ter escrito palavras que completasse seu exercício diário.
Sorriu, novamente. Levantou-se e como chegou, saiu para a aventura que lhe esperava na calçada da vida.

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 169


Carvalho!
Sexta-feira
Não consigo
Escrever
Tudo parece
Distante no vazio
De ser tão somente


Cadê minha capacidade
Cadê minha criatividade
Cadê minha inspiração
Cadê isso e aquilo
Cadê tua inventividade

Escorreu pelo ralo
Pútrido da incapacidade
Sujando o esgoto
Mal cheiroso
Dos canos
Onde as ideias morrem
Esgotadas pela tentativa
De ser poeta

Rise and fall
Berra o Helloween
Estridente
Nesta tarde
Que promete
Será quente

Falece nestas linhas
O enigma do poeta

Sexta-feira será
A missa
De sétimo dia
Compareçam
Mesmo que não
Gostem de poesia
Mas pelo prazer
De encontrar os amigos
Beber um gelada cerveja
E falar mal do poeta defunto

Amém

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 170

 

A pradaria de cimento se estende ao longínquo destino de pedras e cascalhos em surdinas de buzinas e fanfarra de vozes esgueirando-se nos escombros da fatalidade humana.

Escapa pelos dedos longos da necessidade sem conseguir escrever normalmente o nada vazio das escuras almas a procura de luz nos desvios pálidos estancando o sangue em cada farol.
Os olhos situam-se nas marquises dos sons desprevenidos de qualidade onde só se preocupam com a satisfação dos prazeres pouco importando com a qualidade e muito menos com as consequências.
Desvalidos de sentidos jovens drogam-se na incumbência em adquirir o conhecimento da fuga sem perceberem que a fuga está dentro deles chafurdando no abismo sem volta.

Pais sem qualificação de pais pouco se importam ou pouco se preocupam com isto ou aquilo vivendo na emergência do presente levando-os a se esconderem do perigo que roda os seus.

Fecham-se as portas da percepção e tresloucados a humanidade grita no silêncio da carne a música que avassala a dor de cada um ao pôr do sol de cada dia.

Choram poetas drogados de sensibilidade os quais pouco tem a dizer a não ser lamentar a época de desvarios nas letras difícil de serem pronunciadas e muito menos escritas.

No fundo do quintal de cada casa corre um suave e brilhante riacho de futilidades alimentando de prazeres os poucos iniciados na arte de viver.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Pequenas histórias 171

 

- O que acha desse tecido? – perguntou mostrando a peça para ele.

- Para que? – respondeu intrigado.

- Ora! Não sei quem sabe uma blusa para mim.

- Se for para você é bonita, está mais para mulher do que para homem.
- Vamos ver outros, então.

E continuaram a andar pela loja de mãos dadas pouco se importando com o vai e vem das pessoas.

A loja especializada em peças de panos de todos os tipos mantinha uma movimentação de fregueses até que razoável. Como os tempos vinham mudando, a loja procurava se adequar as modificações para não perder a clientela. Percebia-se que lentamente, em proporções estritamente pequenas, móveis vinha sendo expostos nos cantos das vitrines tendo ao lado cartazes que prometiam vantagens que um carnê possibilitaria adquirir o objeto dos seus sonhos.

- Reparou que a loja está mudando? – disse ele um tempo depois.

- É preciso se adaptar aos tempos novos, não acha?

- Acho, mas só que com isso, ela deixa de ser aquela loja só de tecidos e passa a ser uma loja qualquer que vende quase de tudo.
- Se tornando como o Mappin, vendendo a prazo, onde os pobres coitados compram com a promessa da facilidade que o carnê “apresenta.”
Duas semanas depois, ela lhe entrega um pacote todo enfeitado.
- Um presente para você. – disse toda alegre.

Pelo formato da caixa só podia ser uma camisa, pensou.

- Obrigado, por que isso agora?

- Ah! Por que achei que deveria lhe dar um presente, ora...
Abriu o pacote lentamente, desconfiado, já imaginando o que saltaria aos seus olhos. E dito e feito. Deparou com uma camisa toda de bolinha verde com umas flores em rosa, era o pano que haviam escolhido duas semanas atrás e que ela pediu a sua opinião dizendo que seria para uma blusa para ela. Ficou tetricamente abismado com aquela aberração. Ele não iria vestir de maneira nenhuma a camisa. Vendo o namorado quieto, perguntou:

- Gostou?

- Se gostei?! Oh! Claro que gostei para dar ao primeiro mendigo que aparecer.

- Mas como não gostou se foi você mesmo quem escolheu o pano.
- Escolhi pensando que fosse para você, fui enganado e essas coisas não se faz.

- Sua mãe gostou. Ela que fez a camisa.

- O que? Minha mãe!

- É, sua mãe.

- Ela não percebeu que esse pano é horrível, feminino demais para um homem? Ela pensa que eu sou o que? Veado é isso?

- Não é isso...

- É o que então, me diga.

- Bem, ah você tinha gostado do pano?

- Sim, gostei para os outros e não para mim.

- Você é ingrato...

- Ah! Sou ingrato, ta certo. Tudo bem fique com a camisa e tchau.
- Espere! Você não está falando a verdade, está?

- E por que não estaria?

- É uma camisa apenas.

- Certo, uma camisa embrulhada na enganação patética de rebaixar o gosto dos outros, isto é, do seu namorado.

- Se é assim levando aos extremos uma simples discordância, passe bem.

- Simples discordância que no futuro poderemos maldizer nossas decisões de hoje.

Não esperou respostas. Deu as costas, bateu o portão, jogou a caixa no próximo lixo que encontrou e nunca mais ouviu falar dela, e, nem ela nunca mais ouviu falar dele.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...