quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 205

 

Dez horas e cinquenta e seis minutos do dia dezenove de agosto de dois mil e oito. E o sol esquenta a cabeça das formigas reclamantes da temperatura. Invalida a música soa transformando ouvidos moucos e descartáveis. A água da piscina bate na borda e volta ao movimento dos corpos obesos e falidos. Comem-se infectados corpos guardando a saúde nas academias os músculos das Barbeis refletidos no espelho da vaidade. Pés equilibram-se nas calçadas a caça as bruxas no amor podre e obscuro dos motéis. Preocupações rolam no gramado milionário da fama rápida cheia de futilidades. Bandeira esconde debaixo do braço a desconsideração do governo ladrão e corrupto.

Onze horas e cinquenta e dois minutos do dia dezenove de agosto de dois mil e oito. O sol continua inclemente na mostra de corpos arrojados que se expõem na vitrine da vaidade. Abraço a ilharga da cidade e me exponho ao sexo malandro e safado. Gozamos o dia e choramos a alegria esperando novas aventuras. Gozamos a morte num pequeno e ínfimo instante ejaculando suores de satisfação. Tudo é sequencia de ações corriqueiras aparentemente, mas que no fundo de cada um deixa a marca na profunda carne. O sangue desfibra as veias manchando de pálido olor os olhos verdes e mortiços daquele que se diz amado.

Doze horas e quarenta e nove minutos do dia dezenove de agosto de dois mil e oito. Inclemente o sol despoja-se em alargadas sombras míseras pelas calçadas e asfalto. Corroem-se famintos da fome na solidão dos corpos molambos de saudades. Corroem-se sentimentos prisioneiros com medo da liberdade. Corroí-se a liberdade em ter os sentimentos expressos sem preconceitos despojados daquilo que cada um almeja. Nem todos têm a mesma importância na vida de todos. Cada um acha-se importante dentro de sua capacidade evolutiva financeiramente e socialmente falando.
Treze horas do dia dezenove de agosto de dois mil e oito. Alarga o sol sua inclemência. Coloco o ponto final, fecho a mente, deslizo os dedos e me ponho a fazer o que não quero para a sobrevivência dessa carcaça molambenta.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 206 a 212

Andréia.

                             Estava cansada dos mesmos gestos. Sempre os mesmos não mudavam. Desde que se conhecia como adulta, como gente, vinha fazendo sempre os gestos de sempre, repetitivos. E não tinha como comprovar se eram verdadeiros ou apenas gestos de outra pessoa. Aterrorizava-se com esses pensamentos. Se fossem verdadeiros não tinha o porquê ficar apavorada, o que a surpreendia terrivelmente é que não podia comprovar se eram verdadeiros ou não. Em sua opinião achava que não eram verdadeiros, que representava num grande teatro. Mas nesse caso, quem lhe dera esse imenso script que não tem fim? Quem era o diretor dessa parafernália bufa? Talvez estivesse até dentro de uma imensa televisão, como Truman* vivendo sem saber uma vida fictícia. Ou quem sabe fosse Hilde** ou Sofia?** Vivendo uma grande história presa num livro levando-a a se sentir palhaça das palavras? Impossível!

Nisso deparou com seu vulto refletido ao passar em frente da vitrine. Parou alucinada, o coração batia mais acelerado. Era ela? Ela refletida na vitrine? Não podia ser! O que via era uma figura completamente diferente do que sentia. Tudo parecia ser idêntica, mas lá, em algum lugar dentro de si dizia que não. Como pode ser uma coisa dessas? De mais a mais, a imagem refletida parecia ser do sexo masculino. Que coisa arrepiante, disse virando-se a esquerda e tomando seu caminho costumeiro. Tudo nela era costumeiro, nada era diferente.

Andréia seguiu na sombra da dúvida se esparramando pela calçada. Parou no farol. Precisava atravessar a rua. Lembrou que tinha que sacar dinheiro. Ela que precisava de dinheiro ou seria outra pessoa? E quem seria essa pessoa que não era ela? Que coisa absurda pensar nisso, sacudiu a cabeça como dissesse estar pouco ligando para tudo isso. Como poderia uma pessoa viver dentro dos seus princípios morais, religiosos tendo uma confusão dessas na mente? Estaria enlouquecendo? Não, claro que não. Senti-se mais lúcida do que nunca, apenas é que na vida surgem perguntas que, a primeira vista, não podemos responder. E essa confusão de ser ela ou não, ou ser uma personagem fictícia, - lembrou da imagem refletida na vitrine - ou ser masculino a aterrorizava. Segundo os filósofos, o ser tem dentro de si o masculino e o feminino. Será que nela está aflorando o seu lado masculino? Credo! Que coisa horrível de se pensar.

Atravessou a rua assim que o sinal abriu. Quando criança tinha a mania de brincar de mocinho e bandido com a molecada da rua e, invariavelmente, era designada para ser o xerife na brincadeira. Não dava importância ao fato de fazer um papel masculino, sabia que era só uma brincadeira. Na brincadeira é que está o reflexo do que somos não é o que diz o ditado popular? Quer dizer, já na infância demonstrava tendência masculina. Nunca se sentira masculinizada e não se sentia masculinizada ao pisar a calçada do outro lado da rua. O masculino a atraia sexualmente, alimentava até essa atração não deixando morrer. Então porque esse tormento? O que isso queria lhe dizer? Que realmente possuía dois lados? Um lado feminino que se escandalizava ao descobrir seu lado masculino e, um lado masculino que parecia querer se sobrepujar ao feminino? Não, não deixaria isso acontecer. Não era um monstro, não era doente. Tinha aversão por pessoas que era uma coisa e queriam ser outra. Fugia de homens afeminados e de mulheres masculinizadas. Via como desvio de personalidades, não aceitação do corpo chegando a ponto de transformá-lo no que não eram. Tornavam-se bichos, um ser bizarro que não tinham espaço dentro da sociedade, fugia deles, se pudesse não os veria em lugar nenhum. Preconceito? Até fosse, mas era um preconceito nada pejorativo, era mais uma não aceitação dos fatos.

Entrou na padaria. O caso é que isso tudo ia além do que ela imaginava. Muito além. Não era só uma simples transformação de sexo físico, não era. O que lhe dava a impressão que ela, Andréa não existia, que ela poderia ser outra pessoa que não fosse ela mesma. Que a Andréa era apenas uma imagem formada pela mente, que o pão que no momento estava comprando, não era pão no sentido concreto do objeto. Não deixava de ser pão, mas era um pão inexistente, apenas imaginário. Credo! Baboseira, como pode pensar nessas coisas absurdas e surrealistas! Constatou que devia parar com as leituras. Estava sendo influenciada. Por outro lado achava que não deveria, elas estavam abrindo a mente, mostrando um mundo diferente, obrigando-a pensar. E era do que precisava para sentir-se viva.

Saindo da padaria recebeu o sol no rosto revelando uma cena aterrorizante. Ao ouvir a freada do carro, seguida de um baque surdo, viu sua atenção despertada para o inusitado. A pessoa que a sua frente tomou a iniciativa em atravessar a rua, assim dificultando-a, retardou que fosse atropelada. O que mais a surpreendeu é que a mulher tinha comprado as mesmas coisas que ela. O que só descobriu ao ver a mercadoria esparramada no meio da rua. Em seguida, numa intuição feminina, olhou para o corpo da mulher estendida debaixo das rodas do carro. Soltou um grito. Era ela que estava ali, deitada, olhando para ela. Rapidamente deu as costas e seguiu seu caminho.

Ao fechar a porta do apartamento, suspirou aliviada. Sofria de alucinação, não podia ser. Na cozinha bebeu um gole de água. Acalmou-se. Voltou para sala. Pegou as sacolas e erguendo a cabeça deparou com sua imagem refletida no espelho. Ali estava ela, Andréa e não aquela que fora atropelada. Jogou as sacolas com as mercadorias em cima da mesa da cozinha e dirigiu-se ao quarto. Abriu a porta do guarda-roupa. Queria ver-se inteira no grande espelho interno. Não, não era eu debaixo daquele carro, disse aliviada. Essa que está aqui no espelho reflete o que eu sou. A Andréa, morena de estatura baixa, cabelos lisos pretos, que se parece com a atriz Irène Jacob***, não posso ser outra, se convenceu finalmente.

Passou o resto do dia com a sensação de que não vivia onde estava. Que seu mundo estava ao contrário, que havia outra vivendo o que ela vivia. Foi com muito custo que a noite conseguiu pegar no sono.

                            

 

                              Lentamente surgia no horizonte, uma pequena luz. Os olhos doíam. Precisou firmar os olhos até que se acostumasse com a luz. Ouvia vozes, não muito nítidas, pareciam sussurradas:

                              -Ele está acordando.

                              -Calma, minha senhora.

                              - Como posso ficar calma...

                              - Eu sei. Ele não corre mais perigo.

                              O que? Não corre mais perigo? O que me aconteceu, perguntou sem conseguir mover os lábios.

                              - Calma, meu bem. Você sofreu um terrível acidente e agora está bem.

                              Acidente? Como? O que faço aqui? Estou num hospital? Como se lesse a sua mente, a mulher se debruçou por cima dela e disse:
                              - Calma, meu filho. Você foi atropelado, mas nada de grave. Está no hospital há um mês em coma.

                              Coma! Hospital! Filho! O que essa louca está dizendo? Ela não compreendia nada o que se passava. Queria sair dali. O corpo inteiro doía. Seu braço estava preso pelo tubo do soro, não podia se mexer. Ergueu o corpo, precisava ficar sentada.

                              -Enfermeira, me ajude aqui, gritou o médico.

                              Aplicaram uma injeção que a fez dormir novamente.

 


                              -Escute, vamos conversar calmamente.

                              -Calmamente! Como se não sei o que vocês fizeram comigo.
                              -Não fizemos nada, apenas o curamos das feridas e machucados.
                              - Merda! O que realmente aconteceu e, por favor, pede para essa louca parar de chamar de filho. Não sou filho de ninguém, aliás nem mãe tenho.
                              -Tudo bem. Enfermeira leve-a daqui

                              -Mas Doutor, é meu filho.

                              -Eu sei, depois falo com a senhora.

                              Saíram ela e a enfermeira.

                              - E outra coisa, se acalme, pare de falar palavrão que não resolve nada, senão vou ser obrigado a interná-lo.

                              -Está bem, doutor.

                              -Isso assim está melhor.

                              -Explique o que aconteceu realmente, doutor.

                              - Não há o que explicar. Você chegou aqui todo ferido por causa do atropelamento e, entrou em coma por mais de um mês.

                              -Mais de um mês?

                              -Sim, mais de um mês...

                              -Mas não é isso que quero saber.

                              -O que você quer saber, me diga.

                              -Doutor, não sou homem, sou mulher, como estou transformada desse jeito?

                              - Não sei do que está falando. Foram feito vários exames em você e foi constado tudo normal, não há nada em você de anormal.
                              - Anormalidade não está nos olhos de quem vê, mas nos olhos de quem sente.

                              -O que foi que disse?

                              -Nada não, estava pensando alto.

                              - Você entrou em estado de choque e não pudemos reverter o teu estado.

                              -Grande médico que você é...

                              -Escuta uma coisa, fizemos de tudo para salvá-lo, conseguimos e agora não venha com ironia pra cima de mim não, está certo?
                              -Desculpe, doutor, é que não estou entendo nada.
                              - O que não está entendo.

                              - É que um dia sou mulher, vou dormir, e quando acordo sou homem, que raios são isso, doutor?

                              - Não sei do que está falando. Você entrou aqui como homem e como homem vai sair. Se há algo misterioso nisso tudo, recomendo procurar um psiquiatra.

                              - Psiquiatra é para louco.

                              - E se você não se acalmar e procurar entender o que lhe acontece é isso que vão taxar você: louco. E sabe para onde será levado.
                              - Manicômio.

                              - Isso mesmo, trate de se acalmar e pense naquela pobre senhora que está lá fora te esperando. Ela passou todas as noites ao seu lado segurando sua mão.

                              - Mas aí que está doutor. Não sei quem é ela, nunca a vi nem mais magra e muito menos mais gorda. Não tenho mãe, não tenho ninguém, vivo sozinha.

                              - Pelo menos agora você tem alguém que vai cuidar de você.
                              - Mas, doutor... Ela vai me tratar como filho dela, e não sou homem, sou mulher e, por falar nisso, onde está meus seios, minha vagina...
                              - É, acho bom você procurar um psiquiatra.



                              Procurar um psiquiatra, disse o doutor. O sol passando pelo vidro da janela do quarto do hospital lambia seus pés enfiados num chinelo masculino. Vestia um pijama de seda com bolinhas pretas. Não se sentia bem dentro do pijama, preferia mais uma camisola. Que droga! O que lhe tinha acontecido? Não se lembrava de nada.

                              Em pé olhava para o descampado que vinha logo depois do jardim. O dia estava ensolarado, convidativo para um passeio. No entanto não quis sair do quarto. Já estava a muito tempo apático sem vontade de se mexer. O médico, as enfermeiras, sua mãe aconselhavam que saísse que procurasse algo para se entreter, sair da depressão que se encontrava desde que acordara do pequeno coma que tivera.

                              É! Como sair dessa apatia quando se descobre que não é mais a mesma pessoa? Como não se sentir deprimida quando se sabe que não é mais a Andréa que sempre fora e, que agora era outra Andréa. Não, ela nunca deixará de ser feminina. Via sua imagem refletida no vidro da janela e não conseguia entender, compreender, imaginar como e o que lhe acontecera.

                              Foi ao banheiro. Deixou o roupão cair lentamente aos seus pés em frente ao espelho. Olhou para o seu rosto. Era o mesmo, nada mudara, mas... Crispou a mão e passou a unha arranhando aquele peito que não era mais o seu. Cadê os meus seios, duros e firmes, prontos a ser saboreado por lábios gulosos, onde está ele? O que via agora era um peito masculino... Devagar abaixou os olhos, cadê aquela barriga com penugem suave e bonita, que deixava os homens embriagados, cadê? Onde estava a vagina com lábios carnudos escondendo a fenda do prazer, onde estava? Agora no sei lugar via um pênis horrível, que ela sentia vontade em arrancá-lo a unha. E as coxas roliças? O que via era umas coxas peludas, fortes, de homem. Ficou de perfil. O mesmo acontecera com as nádegas, se afinaram... Como não ficar deprimida se ela não era mais a bela Andréa? Agora era ele, o belo Andréa.  Sentindo se estourar por dentro, se jogou na cama soluçando desesperadamente. Nisso bateram na porta.

                              - Entre, gritou.

                              Era a enfermeira com um embrulho que depositou em cima da cama dizendo:

                              - Aqui estão suas roupas, seus documentos, terá alta hoje.

                              - Está bem, obrigado.

                              Assim que a enfermeira saiu fechando a porta, Andréa abriu o pacote. Camisa, calça jeans, tênis, a carteira com os documentos... Abriu a carteira... Olhou a identidade: Andréa Figueirada Melam, sexo: masculino. Não pode ser, pensou jogando a carteira em cima da cama. O que lhe tinha acontecido?!!!!!

                              Andréa sentou ao lado da mulher que se dizia mãe dela. Não sabia o que dizer. Ficou por instantes em silêncio olhando para aquela mulher que ela não sabia quem era.

                              - Escuta meu filho...

                              - Por favor, não me chame de filho, não sou seu filho.

                              - Está bem, disse a mulher engatando a marcha e pondo o carro em movimento.

                              - Olha, se eu topei sair do hospital foi porque estou confusa, não sei o que aconteceu, não tenho para onde ir, estou sozinha e, até que eu consiga lembrar o que me aconteceu, aceito sua ajuda, mas, por favor, não me chame de filho.

                              - Entendo que esteja confuso, mas não acha que me é difícil não chamá-lo de filho?

                              - Não sei e nem quero saber.

                              - Obrigada pela sinceridade.

                              - Desculpe, é que está sendo duro para mim.

                              - E para mim não está?

                              - Não foi você que foi dormir como mulher e acorda no outro dia como homem.

                              - Não sei do que está falando.

                              - É pouco lhe importa o sofrimento dos outros.

                              - Realmente, não me importo com o sofrimento dos outros, só me importo com o sofrimento do meu filho.

                              - Mas não sou seu filho já lhe disse, gritou Andréa.

                              Numa freada brusca levantando fumaça e cheiro de pneu queimado, ela desesperada parou o carro no meio da rodovia.

                              - Até agora você falou isso e aquilo. Espere, agora é minha vez me deixe falar. Será que não acha que não estou sofrendo? Também não entendo o que está acontecendo e muito menos o que está acontecendo com você. Apenas sei que meu filho saiu não sei para fazer o que e, dali a pouco alguém vem me avisar que ele foi atropelado. Fico com ele mais de um mês no hospital entre a vida e a morte, e quando ele volta do coma, berra as quatro estações que não é meu filho, que é outra pessoa, que é uma mulher, vá à merda. To cansada. Se quiser ficar deixe-o tratá-lo como filho, se não quiser saia do carro.

                              Andréa, confusa não esperava a enxurrada de palavras da mulher que se dizia sua mãe. Espantada ao ver que ela chorava em silêncio, segurando a dor que brotava do peito. Sentiu vontade de abraçar aquela figura miúda, cabelos grisalhos, esticou a mão e, indecisa não completou o gesto.
                              - Olha... Mãe... Quer dizer... Senhora?

                              - Ivone.

                              - Dona Ivone, me abrace, acho que estamos precisando do apoio uma da outra.

                              E abraçadas ficaram por um tempo sem se preocuparem com mais nada.

 

 

                              Ao entrar no quarto, teve a impressão de já ter estado ali e ao mesmo tempo de algo desconhecido, de algo que ela já tivesse passado, mas não como Andréa homem, e sim, como Andréa mulher. A vida é cheia de duplicidades que não conhecemos, tinha lido em algum lugar.
                              - Andréa, o seu quarto ficou como estava ao ser hospitalizado, disse Ivone.

                                Andréa, assim que sua suposta mãe fechou a porta, pensou em cair na cama e dormir por quanto tempo fosse necessário. No entanto, a sensação que sentia despertou sua mente deixando-a excitada. Num relancear de cento e oitenta graus, constatou: realmente que o quarto era de homem. Não havia nada ali que demonstrasse a mão feminina. O quarto em si não estava desarrumado. Havia sim, algumas peças jogadas aqui e ali, na maioria o quarto estava impecável. Viam-se nas paredes pôster de várias procedências, livros na estante, no chão, CDs empilhados em cima do aparelho de som. Leu algumas lombadas de alguns livros, nada de interessante, o que chamou sua atenção foi o livro que estava aberto em cima do criado mudo: O Mundo de Sofia. Não podia ficar num lugar que não era seu lugar. Todas as coisas desde a mais ínfima até a maior têm seu lugar na vida, disse ao sentar-se na cama.

                                Já não havia nela mais nenhum sentimento de revolta, de repugnância ao que lhe acontecera, nem do corpo que não era o seu. Parecia que tinha desabado por cima dela um balde de água fria, deixando-a leve, pouco se importando com tudo. Levantou-se, foi até a janela. O sol continuava sendo pisados por pés despreocupados da sua intensidade. Reparou que uns iam e outros vinham.

                              De repente, algo chamou sua atenção. Viu saindo da padaria uma moça, quase da sua idade, carregando um embrulho pardo, talvez tivesse comprado pão. Pão... Lembrava de algo. Nesse momento seu pensamento foi desviado por uma freada e um grito. O veículo parou quase em cima da moça que, assustada deixou cair o embrulho esparramando todo o conteúdo no asfalto. Sim, foi isso o que aconteceu! Saiu correndo.
                              - Andréa, o que foi? Aonde você vai?

                              Não deu atenção. Abriu a porta da rua e reviu toda cena. Tinha ido comprar pão e, ao sair da padaria, uma pessoa passou por ela, quase a derrubando, Reparou que antes de ser atropelada, virou o rosto e olhou bem para ela. Horrorizada constatou: Eu não sou o que sou, eu sou projeção do que sou. Compreendeu. O que estava vendo era uma cena falsa, isto é, tudo era falso, até ela, nada era o que parecia ser. Nada, disse para si mesmo. Cabisbaixa, entrou em casa. Ao subir as escadas deparou com Ivone.
                              - O que vai fazer?

                              - Não tem nada para ser feito. O que feito está não há como desfazer ou, o que é pior, refazer.

                              Entrou no quarto. Abriu o livro que estava no criado mudo, escolheu uma página ao acaso e leu: nem tudo o que vemos, é o que os olhos vêem, nem tudo é concreto. Nunca acredite no que vê, lê ou ouve, pois sua mente poderá lhe enganar.

                              Fechou o livro. Fechou a vida, a sua história.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 213

 

Ele colocou o papel nos olhos para limpar a umidade surgida pelo ato de bocejar. Colocou e deixou por segundos o papel que, com a umidade, aderiu aos olhos e ali ficou sem ser preciso segurar. Foi momento de... Como poderia dizer... Momento de reflexão relaxante em que se desligou de tudo, não ouviu nem um som, nenhuma voz, nenhum ruído. Parecia flutuar acima da mente, não só da mente dele, como da mente de todos e ao mesmo tempo, continuava sentado à frente da mesa-baia como se nada houvesse acontecido. Ficou dessa maneira desligado do mundo.

E qual não foi seu espanto ao tirar o papel dos olhos! Todos também estavam com o papel nos olhos. Riu abstratamente do surrealismo da cena. A princípio começou com um riso apenas, passando para sorriso e, sem se perceber, gargalhava. Ninguém lhe dava atenção. O engraçado é que ele movia a cabeça para um lado e todos o acompanhavam.

- Estarei sonhando? – perguntou-se receoso de que não fosse sonho e, sim, a pura realidade dentro da cena fictícia.

Se for realidade, é uma realidade que ele não via, não dava atenção nenhuma, ele que sempre foi minucioso com a visão. Nisso um vento irrompeu pelo ambiente revolvendo os papéis que voaram juntamente com os que cobriam os olhos de todos. Ninguém se mexeu, continuavam imóveis e, foi então, que notou. Eram cegos. Uns tinham os olhos vidrados, olhando um ponto inexistente, outros o globo era apenas um película branca que brilhava, e outros, os mais terríveis, tinham um buraco escuro no lugar dos olhos. Todos olhavam para ele.

- O que estará acontecendo? – se afligiu sem saber o que fazer.
Será que estava vendo o que não queria ver? Ou formulando de outra maneira. Será ele que não queria ver ou seriam eles que não queriam ver? Ou demonstravam o que eram?  Simples zumbis sem definição do que desejavam, do que queriam, apenas viviam por viverem. Não adianta formular perguntas. Não há respostas para a vida absurda. Só aceitando-a que teremos a paciência de um dia entendê-la e, assim mesmo, nem cheguemos a um entendimento correto. Os percalços elevam o espírito ao caminho da iluminação.
Estava sem saída. Não sabia como agir, como pensar, como fazer. Olhou para aqueles rostos sem expressividade e nada viu além do nada que neles afloravam. Sentiu-se aprisionado. Procurou um modo de sair dessa prisão involuntária. Desviou o pensamento para outra direção. Desviou os olhos para aquilo que não queria ver. Aceitou a condição de prisioneiro como prova de que estava vivo, como prova de que tudo aquilo não passava de uma simples imaginação frustrada da mente para amedrontá-lo.  

E ao compreender a condição da vida, a normalidade voltou ao sentido natural das coisas e, confortável respirou eliminando o surrealismo do pensamento.

domingo, 25 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 214

 

Sentia-se em outro mundo. Estava em outro lugar. Parecia viver outra vida. Estar no centro da história, imprimia uma sensação de falsidade. Não pisava na larga calçada nova da Avenida, tinha noção de que pisava em papel, em letras que iam se formando, letras que se transformavam em coisas, objetos, sentimentos, ideias e movimentos.

Letras que o autor escrevia compondo a mísera história de um medíocre cidadão a perambular a esmo na grande Avenida falsa de humanidade. Medíocre cidadão que, dispondo de tempo, passou pelas bancas de jornal e revista na intenção de encher os minutos que lhe faltava antes de se tornar mais uma vez prisioneiro, no qual por oito horas diárias, ostentaria a coleira de identificação.
Angustiava-se por ver-se fora do contexto. Tinha consciência de que seu lugar não era onde estava. Não se incomodava se davam ou não atenção a ele e, muito menos, com os cumprimentos do dia-a-dia.  
Não era ele que andava na manhã de sol de verão em pleno inverno. Não era ele, era outro que descera do ônibus e se encaminhava para o escritório.

A sensação que lhe dava, que ele era papel, flutuava ao invés de andar, não tinha contato com o cimento frio da calçada cinzenta, precisava dobrar o corpo um pouco para frente, para que as letras não saíssem dele e se perdessem entre outras que por ali voavam.
O que dificultava um pouco, pois as pessoas não tinham sensibilidade em ver o cuidado que ele fazia para não perder nenhuma letra. Às vezes uma ou outra desgrudava e, se não fosse ligeiro, teria já perdido muitas.

A individualidade do povo chegava a ser constrangedor. Até egoisticamente preocupante. No entanto ele não queria saber, o que lhe importava era chegar logo ao escritório com todas as letras. Faltavam poucos passos para entrar no prédio.

Ao virar a quina do prédio bancário foi tomado de supetão por uma forte rajada de vento. Desprevenido, foi forçado a abrir a guarda, seus braços se alargaram um para a direita e o outro para esquerda, fazendo que com isso, deixassem as letras a descoberto.
Não houve tempo de fechar os braços novamente, e nem pode, o vento levava seu frágil corpo como uma folha de papel é jogada quando dela não se precisa mais.

Ele voou, e sendo arrastado, viu as letras se esparramando por entre os transeuntes. Alguns, homens ou mulheres, principalmente mulheres conseguiam pegar uma ou outra letra, mesmo que já tivessem. Guardavam para uma ocasião precisarem, no caso de perderem, para substituição.

Num pequeno momento, ele teve consciência em agarrar a letra M de uma mulher que passava despreocupada. Percebendo o intento, a mulher segurou firme a letra, deu um safanão livrando-se dele.
Levado pelo vento foi parar nos galhos de uma árvore furando-o todo. Logo em seguida desvencilhando dos galhos, ficou preso nos fios de eletricidade. Por infelicidade, por causa dos fios descascados, pegou fogo sendo logo queimado.

Suas cinzas foram cair bem em cima de um táxi branco. No mesmo instante que o dono do táxi limpava as cinzas, surgiu do nada um bando de moleques perguntando se não tinha caído por ali uma pipa. O motorista, enquanto limpava as cinzas caídas no carro, sorriu levemente e disse, lembrando sua infância:

- Não, por aqui não caiu nenhuma pipa.

Passou mais uma vez o pano no teto e satisfeito sorriu ao ver que não havia mais nenhuma mancha de papel queimado.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 215



Olhou firme e direto e, direto e firme, disse com voz de taquara rachada:
- Um uisquinho vai bem, não acha?

Tinha a mania dos uisquinhos. Por qualquer motivo era um uisquinho aqui, um uisquinho ali, e enquanto não secava a garrafa não saia de perto dela.

A única coisa de positivo nisso tudo, é que ele não desabava, não se embriagava, ficava alegre, mas não chegava a ficar com a língua enrolada e muito menos trançava as pernas. Quem o visse depois de entornar uma garrafa goela abaixo não acreditava. Fazia o quatro com as pernas na maior facilidade.

Baixinho, feio, careca, bigode azulado sem cor definida, os olhos inquietos, sempre navegando de um lado para o outro, se destacava com relativo sucesso entre as mulheres. Proclamava-se incorrigível conquistador. Coisa que os amigos colocavam em dúvida, apesar de que viram sair do hotel de braço dado com a loira gostosa do quinto andar.

- Aquela não vale não conta, ela dá para qualquer um, pior que chuchu. – diziam os fisicamente despeitados.

Ouvia os comentários e não dava pelota. Chegava até sentir prazer. Sabia que um dia era da caça e outro do caçador. E ele sempre era o caçador.

Uma noite, depois de levar a caça, sã e salva para a casa, despreocupado pisava no calçamento em direção a estação do metro. Faltavam ainda três quarteirões quando, sem saber de onde, ouviu uma voz:

- Tem fogo?

Olhou para os lados e não viu ninguém. Olhou para trás, ninguém. Continuou andando.

- Tem fogo?

Parou assustado. Quem seria? Não via ninguém. Efeito alcoólico? Tudo bem, mas que o deixasse em paz.

- Vá à merda quem seja. – disse ele.

- Tem fogo? – perguntou novamente a voz sinistra.

Desprezou, não quis saber quem era ou se era alguém mesmo que estava querendo assustá-lo. Não deu resposta, e ao virar a esquina, seu coração deu um pulo dentro do peito. O que viu petrificaram suas pernas na calçada úmida da madruga.

A sua frente estava uma enorme garrafa de uísque que se inclinava para ele.

- Tem fogo? – perguntou a garrafa com um cigarro enorme na boca.
Na boca?! Garrafa tem boca?

No dia seguinte o encontraram morto, abraçado com uma garrafa de uísque onde podia se ver no rótulo um cigarro acesso.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 216


Por duas horas seguidas o branco invade seus olhos castanhos claros. A mente fervilhando de letras e palavras confusas e desconexas, não consegue imprimir sua flexibilidade no papel branco eletrônico. A audição invadida por sonoros palavrões como merda jogada no ventilador é expelida em várias direções. O sol por entre as tiras amarelas das cortinas expulsa a temperatura dos corpos sonolentos obrigados a viverem doloridas sobrevivências.
Descobre a falta de veemência nas palavras. Procura o dicionário como apoio, mas só encontra palavras conhecidas ou, talvez uma ou outra desconhecida e, para isso é preciso ser audacioso, ter fibra para enfrentar a gramática entre as linhas da vida. Assim mesmo se arisca sem pejo lançando suas ideias. Aos tropeções segue o caminho colhendo aqui e ali pequenas migalhas de agradecimento que se incorpora ao currículo artístico criativo.
Pensou várias vezes jogar os amarelecidos papéis de cima do Viaduto do Chá inundando o Vale do Anhangabaú de palavras tortas, frustradas e sem sentido. Ocasiões houve em que pensou se jogar numa queda livre e despreocupada de qualquer sentido que não fosse além da vida. Mas isso para ele era uma forma nada adequada em acabar com o que vinha construindo. De mais a mais, era contra os seus princípios. Poderia, e foi o que fez acabar literariamente falando, com tudo o que preocupasse o seu fazer.
E revelou-se um covarde todas as vezes que ficou em pé na amurada do Viaduto. Não conseguiu nem ficar três minutos olhando o lá embaixo por onde passavam veículos despreocupados com o que acontecia em cima. Seu estômago se entortava para o lado puxando-o a descer. Sentia a ardência subir pela garganta lançando ao chão ladrilhado da calçada do viaduto, a massa gosmenta do seu interior. Envergonhado, procurava sair o mais rápido possível, se esgueirando por entre os olhos assustados dos transeuntes que não entendiam o que estava acontecendo. Desistiu dessa prática de sadismo.
Depois de algumas tentativas, desistiu do intento, passou a considerar o chão que pisava valioso demais para deixá-lo.
E, foi assim, que descobriu que era realmente um tremendo covarde.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 217


Todos os dias ao descer do fretado ou, como dizem alguns, do buzão, sente a manhã diferente de todas as outras manhãs. É algo sem explicação, parece que a força da manhã, assim como, a força da calçada, das pessoas nas suas preocupações, dos carros, dos fretados, das faixas de pedestre, dos edifícios, em fim, de tudo o que seus olhos presenciam, o revigorem proporcionando uma maneira de olhar, de ver, de sentir a vida diferente de todas as manhãs que já presenciou.

Não se importa de passar oito horas prisioneiro com a coleira pendurada ao pescoço, não importa cortar folhas de papel de sede ou, perfurar documentos atrás de documento pateticamente idiota. O que não pode deixar é que arrefeça sentir a força das manhãs infiltrando na pele.  

Descobre que não pode viver sem tudo isso. Melhor dizendo, ele é tudo isso, é cada miligrama de ações preenchendo as manhãs; ele é o fretado que o deixa na calçada nova da Paulista; ele é a calçada sendo todas as manhãs pisadas por diversos pés; ele é cada um desses pés indecisos, decididos, frustrados, preocupados; ele é cada pessoa que transitam sua indolência matutina em busca do que não sabem o que buscam; ele é cada carro transitando corpos suados, marotos, belos, gordos ou magros; ele é cada pedra que sustentam os edifícios prisão; ele é cada banca estacionada nas esquinas vendendo cultura barata; ele é cada bar ou boteco oferecendo prazeres inusitados a quem se propõem etilicamente a pagar; ele é cada olhar prostituto nos desvão da discrição a caça sexual; ele é cada braço, mão, boca e sexo se oferecendo a outro sexo os prazeres da carne paga ou gratuitamente entre as árvores do Trianon.

E todos os dias ao descer do fretado, está preparado para mais uma cena no celuloide da sua vida.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 218


Na calçada, sentado com as costas apoiado no muro da casa, estendia o pequeno boné sujo, na esperança de que alguém ali jogasse uns trocados. No entanto, todos que por ele passava pouco lhe davam atenção. Ele que vinha registrando em fotos os mais desvalidos da sorte, sentiu-se acabrunhado, sem jeito em empunhar seu celular e registrar aquela cena que mais tarde seria postado no seu blog com o título: São Paulo que ninguém vê.

Perguntava-se como pode uma pessoa chegar a esse ponto de sua vida? Tudo bem, deficiente, maneta, a outra perna estropiado, sem dentes, mal conseguia articular uma palavra audível, mas como podia chegar a esse ponto, era o que ele por muito tempo vinha se perguntando. Será que não há ninguém, da família, algum parente que pudesse auxiliar o pobre coitado? E como ele conseguiu chegar ali? Quem o trouxe?

Hoje em dia é difícil acreditar nas pessoas. Extremamente difícil, pois elas trazem em seu intimo de que podem tirar vantagem de tudo. Não é, Gersom! O que elas não sabem é que nada é gratuitamente válido. Será que elas não sabem que com isso, claro poderá sensibilizar algumas pessoas, mas não estarão sensibilizando os que podem ajudá-la!

Vejo mais um comodismo da pessoa. Sim comodismo. Sabendo que mesmo que fique ali o dia todo tomando chuva ou sol, haverá sempre alguém de coração mole que lhe dará alguns trocados. Não estou dizendo que não devem jogar no boné do coitado algumas moedas. Apenas estou dizendo que com isso estará fazendo com que ele fique mais ainda acomodado nessa situação de vitima, de coitado. Há tantos inválidos, deficientes que vão à luta...
Sinceramente, ele não se comove mais com essas situações. Tudo bem é preciso que se faça alguma coisa, que algo seja feito para que acabe com a mendicância, mas não será ele que vai solucionar o problema.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 219

Criança diz cada coisa!

 

Vendo-o pequeno, estrutura óssea forte, pesando acima da altura, sem ser obeso, corria de um lado para o outro, na alegria infantil de cinco anos afligindo o avô que seguia o neto com medo de que caísse.
- João, não corra você está de meia vai cair.

No entanto o neto nem ouvia.

- Mas vô, preciso pegar o Saci, não posso deixar ele por aí, né.

Com a garrafa de Guaraná vazia, como louco, quase batendo a cabeça na quina da mesa, lá foi ele para o quintal. Atrás dele, o avô.
- João, espera...

- Vô, não posso esperar.

- Tá bem, João, o vô vai tomar a cerveja.

E entrou na cozinha. Dali a pouco, todo contente, com a garrafa tampada, exultante, falou para o avô.

- Veja. Peguei o Saci.

Erguendo a garrafa vazia para o vô ver.

- Onde, João. Não estou vendo nada, a garrafa está vazia.

- O senhor não entende mesmo de Saci, né vô.

O avô olhou assim como dizendo: o que esse menino está aprontando.
- É claro que o senhor não vê, ele está invisível.

- Invisível João!

- É, vô, invisível.

- E quando que a gente pode ver ele, João.

- Só quando a gente estiver na modorra, vô, aí a gente vê o Saci.

- Modorra João?

- É, vô. Não sabe o que é modorra?

- Não, João, o que é?

- É quando a gente está sonolento, vô.

- Tá certo, João. Deixe o vô tomar a cerveja sossegado, vai brincar.
O neto saiu correndo mostrar para o pessoal o Saci invisível enquanto o vô, coçando os poucos cabelos, voltou sua atenção para a cerveja que tomava.


Modorra: - prostração mórbida ou sonolência em que caem certos doentes. Moleza, preguiça, soneira, sonolência.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 220


Nas cores vibrando ao som de uma guitarra que ao longe demonstra paixão silenciosa; há nas entrelinhas cinzentas e escuras dos prédios humanos, um perigoso e eficiente inimigo a corroer os liames das estruturas; há na cidade de pedra e pouco verde humanitário, o câncer progredindo sob os túmulos dos mortos vivos, sob o asfalto úmido de lágrimas cujos famintos se vendem nas esquinas luzentes de vida metálica, sob as estruturas de ferro e cimento dos viadutos onde morrem almas cancerosas pela vilania de olhares vazios e angustiantes escondidos nos falsos sorrisos de alegria; há sempre uma morte sendo anunciada ferindo um coração melancólico a embebedar-se musicalmente de vida, assim como, há apenas ilusão nos passos dos dançarinos a deslizar amabilidades para plateias cristalizadas pela beleza estética do show;
há sempre uma criança que chora o adulto desmistificado no futuro de preocupações e pouca regalia; nas cores vibrando ao som de uma guitarra que ao longe explode em paixão silenciosa sempre há uma esperança que retarda meus passos.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 221

 

Meus dedos se imobilizam na cloaca da vagina seca a caça de aventuras em cada esquina fálica do medo.

Cada um se conduz por si próprio e todos contradizem o que querem nos fios longos encaracolados pelo umedecido prazer.
Cada fibra de unha arranha levemente o útero aconchegante de desejos mórbidos como se fosse a primeira vez.

Não existe a primeira vez quando se deseja o nirvana do prazer existente entre e fora da carne insaciável, tudo é apenas um amalgama de sentimento único e possível de se sentir desejado e amado.
Grita o espasmo cancerígeno do orgasmo mecânico na boca desfigurada pelo sentir despudorado pelo liquido da vida.

Fecha-se a cortina, acabou o show explicito das carnes saciadas diante do pagamento da plateia orgíaca delirante de sexo solitário.
Nem tudo é aquilo que imaginemos que seja cada um tem a sua própria sentença de vida ou de morte.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 222

 

Poderia fazer você feliz, mas ao sentir o mundo diferente do teu olhar criou-se algo dentro de mim que corrói o tempo que há em nós. Passeio pela multidão ouvindo olhos, vendo fala e parado nem todos me vê e nem me ouvem. Percorro anseios sinistros para que teu corpo não saia do meu. No entanto as pedras rolam na interminável angustia esfolando peles indignas de sentirem a nudez da beleza. Foi então, que cai na escuridão dos homens. E vi a luz opaca das peles luminescentes das mulheres feridas de morte. E comi o sexo de fel das frutas apodrecidas espalhadas nos campos de concentração. Não fui à guerra, ela que veio até mim. Crucificou-me no asfalto sem pétalas de rosa e sem perfume de vida e, no livro dos mortos ficarei prisioneiro por décadas. Nas palavras não há vitórias que justificam os atos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 223

 

Meu pulso ainda pulsa ao ouvir tua voz que diz: poderei te fazer feliz? Oh voz enganosa, não conhece o seu dono? Não sabe que turrão não dá o braço a torcer? Pisou em falso, esquece, nada fará para que haja uma sangria de possibilidade. Pisou, perdeu a chance de conseguir o que desejava. Prefere viver na mudez do sentimento a se comprometer com algo que já sabe não dará certo. Egoísta? Até pode ser, mas se não há uma ponta de egoísmo, como poderemos lutar com o que não conhecemos? Orgulhoso? Até pode ser, mas se não houver um pouco de orgulho, não haverá força para lançar um pé à frente do outro. E, é preciso andar, parado não é preciso. O sangue na plaqueta revela a intimidade fragilizando tua vida. Sabemos do perigo, sabemos tanto quanto você, apenas não sabemos superar o medo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 224



A lâmina cega de aço corta os pelos fálicos do desejo. Colhe na palma da mão o liquido da vida. Bebe-se a angustia como se bebe a alegria de viver prisioneiro dos prazeres. Tudo não representa o nada absoluto sem concretização dos sonhos. Tudo pode ser o nada do tudo que se deseja e nada tem. Por isso, a lâmina cega de aço corta os pelos fálicos, como se cortasse a grama do jardim abandonado. Por isso o liquido da vida deve ser esparramado na seara das palavras para alimentar a cavidade do corpo. Tudo é uma questão de criatividade artística, tudo é uma questão de criatividade real, tudo é uma questão de criatividade sem preconceito.
As palavras ditas não justificam a realidade de cada um. O que justifica a realidade de cada um é vivê-la intensamente nas proporções do alcance intelectual. Tudo se justifica absurdamente. E tudo não passa de momentâneo prazer medroso que o homem possuiu em seu intimo. É preciso primeiro se libertar desse medo hipócrita, para depois enxergar a realidade, mesmo que seja uma realidade massificante, mesmo que seja uma realidade passiva do que se pretende sentir. Nada se obtêm na facilidade corriqueira de se ter o que se deseja. Tudo é meramente opróbrio carregando no dia-a-dia a culpa de não ser feliz. Quem é feliz que atire a primeira rosa e beije o cadafalso do inimigo regozijando-se com o próximo sem culpa e sem medo. A flecha de fogo foi lançada no espaço etéreo do corpo marcando na ferida, o desejo nosso de cada um.

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 225


Todos os dias de manhã encontrava dificuldade ao tomar o fretado. O espaço entre os bancos era restrito, mal dava para passar, além do que, o pobre do rapaz precisava se levantar para que ele pudesse sentar. A culpa era das duas passageiras da frente, folgadas, deitavam o encosto dos seus bancos bem baixo ocasionando todo o desconforto para os passageiros de trás, isto é, ele e o rapaz. Para o rapaz, sentado no lado do corredor não tinha nenhuma dificuldade, e, também fazia a viagem toda dormindo. Já ele não, precisava passar pelo banco do rapaz e sentar no lado da janela, mas tudo bem, isso não era tão drástico assim.
Como já tinha deixado à companhia do detetive belga, Hercole Poirot, e, a partir de hoje teria a companhia da menina que ainda não conhecia, sabia apenas o título ou, melhor, o apelido dela: A Menina que Roubava Livros tinha de se virar como podia no exíguo espaço das poltronas. Os livros de Agatha Cristhie não são volumosos no tamanho, são pequenos, a encadernação boa, letras, pequenas, por isso se acomodavam perfeitamente no espaço entre ele e o encosto da outra poltrona. Já A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak, sendo maior tornava desconfortável sua leitura. Não que seja um livrão, em relação ao O Caso dos Cincos Porquinhos, mas é bem maior. Havia a impossibilidade de colocar no colo, coisa que também não o fazia por suas letras grandes. Assim sendo foi obrigado a encostar A Menina no encosto da poltrona da frente o que poderia, ocasionalmente, bater na cabeça da passageira. No entanto não se importava se desse esse desconforto à estranha mulher da frente que, também, fazia a viagem toda dormindo. Assim, ele começou a ter a companhia da A Menina que Roubava Livros.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 226


No fundo da lágrima descobriu um cristal brilhando a luz dos olhos. Ao ser tocado, os cristais se esfarelaram compungindo sua alma. Foi então que percebeu que estava sentindo a própria lágrima escorrendo pelo rosto amado.

Fechou os olhos. Procurou a solidão escura dos apaixonados. Deitou o corpo no fundo da lágrima partida em cristais e, abraçou o mundo do teu corpo como se fosse único e último momento de alegria a invadir a alma grata e feliz.

Num instante delicado de nostalgia, conseguiu apanhar um pedaço do cristal luzidio de azul, medroso de não ter mais o que sempre teve. Guardou o cristal dentro do peito sangrando lágrimas manchando o poente vermelho.

Abraçou o nada, teve o tudo num relâmpago de saudade bipartida na grandeza da alma dirigida ao nada dos nossos corpos ungidos num só.

Fez-se o paraíso levando-os à Terra do Nunca.

domingo, 11 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 227

 

          Sexta, o sol expande alegria nos cantos escuros da alma solidificando os passos nossos de cada dia. Alegria que expulsa sombras nublando sentimentos desnorteados a procura de equilíbrio. O bisturi lanceta a carne, revela o podre do seu cerne, une emoções que se apoiam um ao outro. Um grito de alerta foi direcionado a todos e todos num movimento único receberam e aceitaram como ajuda o grito de alerta.

         Não é hora para individualismo barato, para egoísmo fútil e muito menos, ciúmes desbragado que nada constrói. Joguemos os nossos dissabores no lixo, lancemos nossas vaidades no espaço e, unidos, não modificarmos o mundo, pois ele é grande demais para os nossos braços, mas vivermos o mundo que nos rodeia com mais ênfase e, com isso, ganhamos mais força para enfrentarmos as dores de cada um como nossas e, que possamos ter muitas outras sextas alegres como a de hoje onde o sol expande sua alegria expulsando as sombras de nossas almas.

sábado, 10 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 228


A menina que roubava livro permanece quieta na poltrona ao lado. Interrompeu a leitura por não estar se emocionando com a história da menina vivendo com pais de criação e, que para aprender a ler, roubava livros. Preferia olhar a paisagem rolando além da janela do ônibus. Observar os carros que passam com seus ocupantes preocupados ou não com a vida, o que cada um deles pudesse estar imaginando, pensando, as histórias que não podia ler e, que talvez, quem sabe, viesse um dia escrever, era mais interessante do que a menina ladrona. Os ônibus transportando corpos cansados do sono mal aproveitados. O que passaria pela mente de cada pessoa? Como seria a historias deles?  Os prédios cada um com sua trajetória de vida, margeando a radial com seus mistérios arquitetônicos, com a aparência de abandonados compondo a instantânea vida! O que estaria acontecendo em cada janela fechada, meio aberta ou totalmente aberta? O que aconteceria naquele instante?

Quantos solitários estariam naquele momento abrindo os olhos sonolentos, sacudindo a poeira noturna, se preparando para enfrentar mais alguns quilômetros de estrada? Quantos angustiados não estariam agora massageando o sexo diante da latrina despejando suas imundícies?  Quantos? Quantos não estariam interrompendo o ensurdecedor rádio relógio? Quantos não passaram a noite insone pensando em suicídio ou se embebendo para espantar o fantasma da solidão? Quantos não estariam se jogando no vácuo querendo abraçar o mundo dos sonhos? Quantos nasciam chorando no berço desgraçado da fome? Quantos outros nasciam no ouro desprezível pouco se preocupando se amanhã terá fome ou não? Muitos. Vários. Centenas. Assim como morriam centenas, vários e muitos sem ter um caixão para serem enterrados. Afora os indigentes lançados na terra sem parentes!
Tudo isso ele olha pela janela do fretado que corre vencendo a correnteza do transito cumprindo o seu destino. Levando passageiros para cumprirem o destino de cada um. Ele olha pela janela a sujeira dos mendigos dormindo embaixo dos viadutos, sob as marquises das estações, ou mesmo, na calçada sem ter outra coisa para cobrir-se a não serem os encardidos trapos. Ele empunha o celular e dispara a câmera registrando uma São Paulo que ninguém vê.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Pequenas histórias 230


A menina que roubava livro foi indicação médica. É o médico lhe indicou. Isto é, ele que foi intrometido, se espicaçou no livro que o doutor estava lendo. A curiosidade foi maior, não resistiu e perguntou:
- Desculpe doutor, mas que livro o senhor está lendo?

O livro estava ali, a mostra, parecia que o chamava, instigava-o e, fraco, não pode resistir e perguntou meio acanhado, pois não sendo expansivo, falou numa voz meio que baixa na esperança, talvez, que o médico não o ouvisse.

- Desculpe doutor, mas que livro o senhor está lendo?

- Criança 744.

- É bom?

- Razoável já li livro melhor que esse. A Menina que roubava livros é bem melhor, recomendo.

- Li alguma coisa sobre esse livro, mas não me interessei por ele.
- Pode ler que é bom.

- Já que o senhor diz que é bom, vou procurar ler.

Chegando a casa disse à filha:

- Procure o romance A Menina que Roubava Livros.

- Já ouvi falar que é um bom livro. – respondeu a filha.

E o assunto ficou nisso. Ninguém mais tocou no assunto.
No domingo, dia dos pais, eis que a filha lhe chega dizendo:
- Feliz dia dos pais. – lhe entregando um presente.

Como sempre, ele foi dizendo os clichês de todos os anos:
- Mas que isso, filha, não precisava, você sendo feliz é o melhor presente que pode me dar.

Ao mesmo tempo em que dizia foi pegando o embrulho retangular. Um livro saltou na mente ao se fixar na ideia. Feito e dito rasgou o papel e deparou-se com A Menina que Roubava Livros. Agradeceu prometendo que seria o próximo livro que iria ler.

Cumprido o prometido, já vinha se arrastando na leitura. Estava na página cento e pouco e ainda não se sentia empolgado pela história da menina ladrona de livros.

Perguntava-se:
- Por quê?

Sentia ao ler cada palavra, que algo faltava, que algo estava meio que fora, não prendia a atenção. Os personagens tinham consistência, chegava até abstratamente criá-los fisicamente, no entanto suas ações, suas atitudes pareciam desleixadas, pareciam frouxas. Será o método do escritor em não apresentar mais profundamente o psicológico de cada personagem? Será porque colocou a figura da morte para contar a história? Não sabia, não era um entendido em literatura, não era um estudioso. Por várias vezes sentiu-se impelido em abandonar o livro.

No entanto, pelo pouco conhecimento que tinha, poderia apostar que se fosse enfocado de outra maneira, o livro seria mais interessante, prenderia mais a atenção do leitor.

Bom, como era um presente, se achava na educação de pelo menos ler o livro todo.

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...